Somos assassinos

Somos uma nação de assassinos. É necessário, mais do que nunca, assumirmos nossas características básicas, deixar nos esconder em palavras bonitas ou sentimentos nobres, parar de hipocrisia (aliás, perceber-se o quanto se é hipócrita), se quisermos realmente modificar alguma coisa desse mundo que nos rodeia, ou esse mundo que somos cada um de nós.

Somos uma nação de assassinos. Idolatramos o ódio, somos uma nação fundada pelo ódio, pela prepotência, pelo extermínio de populações, pela cultura da exploração, do roubo, da miséria moral, somos cria e resultado de uma sociedade calcada na escravidão e só isso já diz tudo. Admiramos os que conseguiram ‘vencer na vida’ e, quase sempre, são os agressivos, os que se impõem, os que se colocam melhor do que os demais e, mesmo quando caem (são presos ou , no mínimo, intimidados) ressurgem, re/batizados.

Somos uma nação de assassinos. Racistas. Machistas. Misóginos. Homofóbicos. Arrogantes. Prepotentes (ou com toda a propensão, todo o desejo, de pisar). Somos uma nação onde um segurança do Habib’s mata um garoto negro com um soco e não há uma comoção social. Onde um criminoso psicopata assassino condenado é solto e imediatamente colocado como uma espécie de ‘herói’ nacional. Ídolo. Condenado por matar, trucidar, e enterrar a mulher. Ídolo! Onde a máfia definitivamente se instalou no poder, de onde, na verdade, nunca tinha saído; a diferença é que agora perdeu a vergonha, as estribeiras e qualquer pose de moralidade ou desculpinha básica. Não é mais necessário se esconder.

Somos uma nação de assassinos. Onde uma barragem se quebra, mata pessoas, mata rios, mata trabalhos, mata cidades, e tudo bem. Onde os negros, os jovens, os pobres são mortos diariamente, diariamente!, repetidamente, em chacinas diárias repetidamente, e tudo bem. Onde as mulheres são rebaixadas, reprimidas, caladas, estupradas, violentadas, agredidas, diariamente, minutamente, repetidamente, e tudo bem.

Somos uma nação de assassinos. O grande choque não é perceber que os Brunos surgem (e, camaradas, estamos entupidos de Brunos nessa nossa nação, agindo, estuprando e matando, em todas as classes sociais, em todos os níveis, inclusive em todas as ideologias políticas). A questão é que eles não são a exceção. São a regra. São a norma. São o comum. São o cotidiano. E estamos repletos de cotidiano. Não nos importamos mais. Não vale mais a pena. Como se algum dia tivesse valido.

Somos assassinos. Racistas. Machistas. Podemos não levantar uma mão e nos dizermos limpos. Podemos não abrir a boca e nos dizermos limpos. Podemos não olhar, fingir que não vemos, e nos dizermos limpos. Mas é justamente nisso que os assassinos de pleno fato se apoiam. Pois ao não falarmos, ao não agirmos, ao não observarmos, simplesmente nos colocamos no mesmo patamar. Estamos todos no mesmo nível. E, convenhamos, há tantas formas de matar. Tantos modos de humilhar. Tantas maneiras de destruir.

Somos uma nação de assassinos. Mas podemos mudar. Ainda acredito nisso. Mas a operação é profunda, mais dolorida, mais impactante, do que nossa pretensa sobriedade pode recear. Pois não é uma simples doença, com alguns comprimidos a curar. Não são somente alguns doentes excepcionais, incomuns, a se tratar. A faca tem que cortar, fundo e extensamente. Mas qualquer dia, a qualquer momento, a operação será obrigatória e inevitável. Se ainda quisermos nos chamar de ‘seres humanos’

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