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Somos assassinos

3 de março de 2017
Somos uma nação de assassinos. É necessário, mais do que nunca, assumirmos nossas características básicas, deixar nos esconder em palavras bonitas ou sentimentos nobres, parar de hipocrisia (aliás, perceber-se o quanto se é hipócrita), se quisermos realmente modificar alguma coisa desse mundo que nos rodeia, ou esse mundo que somos cada um de nós.

Somos uma nação de assassinos. Idolatramos o ódio, somos uma nação fundada pelo ódio, pela prepotência, pelo extermínio de populações, pela cultura da exploração, do roubo, da miséria moral, somos cria e resultado de uma sociedade calcada na escravidão e só isso já diz tudo. Admiramos os que conseguiram ‘vencer na vida’ e, quase sempre, são os agressivos, os que se impõem, os que se colocam melhor do que os demais e, mesmo quando caem (são presos ou , no mínimo, intimidados) ressurgem, re/batizados.

Somos uma nação de assassinos. Racistas. Machistas. Misóginos. Homofóbicos. Arrogantes. Prepotentes (ou com toda a propensão, todo o desejo, de pisar). Somos uma nação onde um segurança do Habib’s mata um garoto negro com um soco e não há uma comoção social. Onde um criminoso psicopata assassino condenado é solto e imediatamente colocado como uma espécie de ‘herói’ nacional. Ídolo. Condenado por matar, trucidar, e enterrar a mulher. Ídolo! Onde a máfia definitivamente se instalou no poder, de onde, na verdade, nunca tinha saído; a diferença é que agora perdeu a vergonha, as estribeiras e qualquer pose de moralidade ou desculpinha básica. Não é mais necessário se esconder.

Somos uma nação de assassinos. Onde uma barragem se quebra, mata pessoas, mata rios, mata trabalhos, mata cidades, e tudo bem. Onde os negros, os jovens, os pobres são mortos diariamente, diariamente!, repetidamente, em chacinas diárias repetidamente, e tudo bem. Onde as mulheres são rebaixadas, reprimidas, caladas, estupradas, violentadas, agredidas, diariamente, minutamente, repetidamente, e tudo bem.

Somos uma nação de assassinos. O grande choque não é perceber que os Brunos surgem (e, camaradas, estamos entupidos de Brunos nessa nossa nação, agindo, estuprando e matando, em todas as classes sociais, em todos os níveis, inclusive em todas as ideologias políticas). A questão é que eles não são a exceção. São a regra. São a norma. São o comum. São o cotidiano. E estamos repletos de cotidiano. Não nos importamos mais. Não vale mais a pena. Como se algum dia tivesse valido.

Somos assassinos. Racistas. Machistas. Podemos não levantar uma mão e nos dizermos limpos. Podemos não abrir a boca e nos dizermos limpos. Podemos não olhar, fingir que não vemos, e nos dizermos limpos. Mas é justamente nisso que os assassinos de pleno fato se apoiam. Pois ao não falarmos, ao não agirmos, ao não observarmos, simplesmente nos colocamos no mesmo patamar. Estamos todos no mesmo nível. E, convenhamos, há tantas formas de matar. Tantos modos de humilhar. Tantas maneiras de destruir.

Somos uma nação de assassinos. Mas podemos mudar. Ainda acredito nisso. Mas a operação é profunda, mais dolorida, mais impactante, do que nossa pretensa sobriedade pode recear. Pois não é uma simples doença, com alguns comprimidos a curar. Não são somente alguns doentes excepcionais, incomuns, a se tratar. A faca tem que cortar, fundo e extensamente. Mas qualquer dia, a qualquer momento, a operação será obrigatória e inevitável. Se ainda quisermos nos chamar de ‘seres humanos’

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a medida da chuva mormaça

20 de janeiro de 2015

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o abafo pesado da chuva mormaça
traz sua medida

a vida sacodida da folha
quebrada da árvore manca molhada
até soltar-se ao ar
vale uma medida inteira

o salto do carro esporte vermelho laminado
dispensado do tempo acurado
ao voar do chão e até soltar-se ao ar
antes de bater ao poste,
vale sua medida completa

o impacto da folha
ao, afinal, cair no solo úmido
e soltar-se das amarras
da impetuosidade inconstante do vento,
é toda sua medida;
abala sistemas,
descompassa o mundo,
afeta sua comodidade.
mesmo que não o saiba.

o impacto do carro,
ao inevitavelmente bater
no poste úmido teimoso
e soltar-se da tirania da vontade,
contêm sua medida concreta;
destroça o câmbio, os nervos, o corpo,
divide o universo, fratura despedaçada,
a ossatura das engrenagens
de frágil aço distorcida exposta
do carro e do animal

na exata medida curta,
intensa, imensa, explosiva,
de suas vidas,
do vôo da folha,
do vôo do carro

a folha plana, nada, escorre para bueiros
a folha entope bueiros
o carro estanca, nada escorre, despedaça bueiros
a morte entope bueiros


claudinei vieira

saberá da morte

5 de agosto de 2014

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saberá o dia em que morra?

saberá o instante-zunido em que fumaça por fumaça

pesará por sobre almas

para sujar sua incontinência?

desejará o dia em que morra?

em que sangue por sangue, detrito por detrito,

aluviarão os corpos inconsistentes,

as consciências deformadas,

os párias acostumados?

suportará o dia das perguntas?

sufocará o enredo das desditas?

se enforcará com o tecido das mentiras?

desprezará a marca de ser humano,

a inconformidade de que, apesar de tudo, é ser humano,

a necessidade de, com tudo, menosprezará ser humano?

jogará com o revide?,

com a chuva ácida, com a luz demonha?

chorará, sim, chorará, pelo menos uma vez,

uma solitária vez?

acompanhará seu dever cumprido e dormirá

em seu travesseiro de pedra e metal?

 

claudinei vieira

 

rastros

20 de junho de 2014

que do teu ser terno
deixarás rastros;
porém, que do teu amor soturno,
levarei a memória.

claudinei vieira

 

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