Somos assassinos

Publicado 3 de março de 2017 por Claudinei Vieira
Categorias: Crônica, Preconceito

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Somos uma nação de assassinos. É necessário, mais do que nunca, assumirmos nossas características básicas, deixar nos esconder em palavras bonitas ou sentimentos nobres, parar de hipocrisia (aliás, perceber-se o quanto se é hipócrita), se quisermos realmente modificar alguma coisa desse mundo que nos rodeia, ou esse mundo que somos cada um de nós.

Somos uma nação de assassinos. Idolatramos o ódio, somos uma nação fundada pelo ódio, pela prepotência, pelo extermínio de populações, pela cultura da exploração, do roubo, da miséria moral, somos cria e resultado de uma sociedade calcada na escravidão e só isso já diz tudo. Admiramos os que conseguiram ‘vencer na vida’ e, quase sempre, são os agressivos, os que se impõem, os que se colocam melhor do que os demais e, mesmo quando caem (são presos ou , no mínimo, intimidados) ressurgem, re/batizados.

Somos uma nação de assassinos. Racistas. Machistas. Misóginos. Homofóbicos. Arrogantes. Prepotentes (ou com toda a propensão, todo o desejo, de pisar). Somos uma nação onde um segurança do Habib’s mata um garoto negro com um soco e não há uma comoção social. Onde um criminoso psicopata assassino condenado é solto e imediatamente colocado como uma espécie de ‘herói’ nacional. Ídolo. Condenado por matar, trucidar, e enterrar a mulher. Ídolo! Onde a máfia definitivamente se instalou no poder, de onde, na verdade, nunca tinha saído; a diferença é que agora perdeu a vergonha, as estribeiras e qualquer pose de moralidade ou desculpinha básica. Não é mais necessário se esconder.

Somos uma nação de assassinos. Onde uma barragem se quebra, mata pessoas, mata rios, mata trabalhos, mata cidades, e tudo bem. Onde os negros, os jovens, os pobres são mortos diariamente, diariamente!, repetidamente, em chacinas diárias repetidamente, e tudo bem. Onde as mulheres são rebaixadas, reprimidas, caladas, estupradas, violentadas, agredidas, diariamente, minutamente, repetidamente, e tudo bem.

Somos uma nação de assassinos. O grande choque não é perceber que os Brunos surgem (e, camaradas, estamos entupidos de Brunos nessa nossa nação, agindo, estuprando e matando, em todas as classes sociais, em todos os níveis, inclusive em todas as ideologias políticas). A questão é que eles não são a exceção. São a regra. São a norma. São o comum. São o cotidiano. E estamos repletos de cotidiano. Não nos importamos mais. Não vale mais a pena. Como se algum dia tivesse valido.

Somos assassinos. Racistas. Machistas. Podemos não levantar uma mão e nos dizermos limpos. Podemos não abrir a boca e nos dizermos limpos. Podemos não olhar, fingir que não vemos, e nos dizermos limpos. Mas é justamente nisso que os assassinos de pleno fato se apoiam. Pois ao não falarmos, ao não agirmos, ao não observarmos, simplesmente nos colocamos no mesmo patamar. Estamos todos no mesmo nível. E, convenhamos, há tantas formas de matar. Tantos modos de humilhar. Tantas maneiras de destruir.

Somos uma nação de assassinos. Mas podemos mudar. Ainda acredito nisso. Mas a operação é profunda, mais dolorida, mais impactante, do que nossa pretensa sobriedade pode recear. Pois não é uma simples doença, com alguns comprimidos a curar. Não são somente alguns doentes excepcionais, incomuns, a se tratar. A faca tem que cortar, fundo e extensamente. Mas qualquer dia, a qualquer momento, a operação será obrigatória e inevitável. Se ainda quisermos nos chamar de ‘seres humanos’

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Patuá: 6 anos!

Publicado 16 de fevereiro de 2017 por Claudinei Vieira
Categorias: Evento, Literatura, Poesia

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6 anos de existência da editora Patuá!

Eu poderia falar da importância histórica que essa data comporta. Afinal, como o próprio editor – guerrilheiro Eduardo Lacerda diz, já são quase 500 títulos publicados, centenas de autores, alguns já consagrados, outros tantos descobertos e lançados pela editora, e estão se consagrando. É um painel vasto e poderoso do que está rolando em nossa moderna literatura brasileira. E só por conta disso já dá para se ter uma certa dimensão do que um editor (na exatíssima concepção da palavra) com um sonho tremendo no coração e amor pelas letras pode alcançar. Não sou dos que dizem que a a figura do editor (naquela exatíssima concepção da palavra de outrora) tenha desaparecido, basta se ver a quantidade de pequenas editoras e grupos editoriais aguerridos e combativos que estão surgindo há tanto. Mas , com certeza, são poucos. Eduardo Lacerda, igualmente com certeza, é um destes. E dos grandes. Daqueles que estão marcando definitivamente a nossa identidade. Nacional, literária, emocionalmente.

Pode-se falar em identidade e não se pode deixar de citar esse artista, tão magnífico, tão estupendo, tão impressionante: Leonardo Leonardo MAthias. Coloque-se as capas dos livros da Patuá e haverá esse sentimento de unidade, de concepção (você sabe simplesmente sabe que é um trabalho de Leonardo, simplesmente) e não dá para não se deixar tragar por essa beleza, por esse carinho, por essa arte.

Poderia falar em termos pessoais, também. Não faço a menor ideia de quais caminhos eu poderia ter tomado ou por onde teria enveredado. Não há como saber. Só sei que, no meio do caminho de se me firmar e me assumir como poeta (e não somente como um prosador que tentava escrever poesia), topei com Eduardo e Patuá, e lancei o ‘Yũrei, Caberê’! Definitivamente, impossível saber como seriam os meus passos. Sei lá, podia ter desistido e abandonado a letra. Podia ter encontrado outras alternativas (ou não, patinado por mais tantos anos, vá saber) No entanto, há esse fato incontestável, inamovível. Sou poeta, me assumo como poeta, e sei agora o quanto me dedicarei à Poesia pelo resto da minha vida, por conta do lançamento de ‘Yũrei, Caberê’. Por causa da Patuá. Por causa de Eduardo Lacerda.


Mas , não vou falar nada disso. Vou dizer da festa. São seis anos. E todos e cada um dos que já participaram de uma festa da Patuá (eu estive em duas) sabe perfeitamente (e pode confirmar com toda vontade) que o mais rola é a emoção. O Leo lançará seu novo livro. O Edu sempre realiza um saldão com muitos livros a preços muito baratos (assim, dá para se dar uma boa renovada sua biblioteca patuana, com muito tranquilidade). Haverá cerveja gelada. Mas tudo isso são os entornos. É o cenário. E todos sabem dos perrengues de saúde que o Eduardo passou (e dos quais não está plenamente recuperado, preste-se atenção) (e dos quais sempre que terá de prestar atenção e cuidado, todos sabemos). Então , isso acrescenta-se ao verdadeiro pivô dessa festa. Emoção. Amor. Poesia, em sua justíssima concepção da palavra, exatíssima. Ou podemos usar como pleno sinônimo: Patuá.

Dia 18, sábado. No Patuscada. Rua Luis Murat, 40. A partir das 16:00 e a se acabar, sei lá se acaba.

Festa de aniversário de 06 anos da Patuá. Poesia.

https://www.facebook.com/events/172265546575823/

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PINTURAS DE GUERRA

Publicado 14 de fevereiro de 2017 por Claudinei Vieira
Categorias: Desconcertos, Quadrinhos, Resenha

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Angel de la Calle. É um nome de uma pessoa, por mais improvável que pareça. Na verdade, é o nome de um dos autores de quadrinhos, novelas gráficas, mais importantes da atualidade. Escreveu uma impressionante biografia , em novela gráfica, um verdadeiro clássico, s

obre Tina Modotti, uma figura fascinante, uma grande fotógrafa, militante comunista, modelo, cineasta, da metade do século 20. Angel, igualmente militante, igualmente impactante, escreveu (entre vários trabalhos) os Diários, uma série de livros gráficos autobiográficos que tem como eixo o igualmente impressionante Festival de Gijon, festival de literatura policial, quadrinhos, cultura pop e alternativa de qualidade, do qual é diretor e principal organizador há vários anos. Eu escrevi sobre essas obras há alguns anos e tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente quando ele participou do lançamento, em uma Bienal do Livro em São Paulo, de ‘Modotti – uma mulher do século XX’ – publicado aqui no Brasil pela editora Conrad.

Angel de la Calle está com um novo petardo: PINTURAS DE GUERRA. E só pelo tema já dá para ter uma ideia do impacto: as ‘Guerras’, no caso, são as ditaduras latino-americanas, e através da mistura de personagens reais e fictícias, de técnicas de desenho aparentemente simples, não deixa de passar todo o impacto de sua verve, e a história tão complicada, tão dolorida. A obra repensa, rememora, discute e narra sobre as vítimas, os desaparecidos, os torturados, os mortos, os exilados, destas ditaduras. E que, inclusive, mais apropriado do que nunca, essa obra mais apropriada do que nunca, já de tanta nova onda de reacionarismo e volta de regimes de exceção saudosas das velhas formas de dominação ditadoriais parecem estar plenamente em vigor.

Tendo lançado em final do ano passado esta sua mais nova e contundente obra, Angel estará participando justamente hoje em um evento em Cuba, na Feira Internacional do Livro em Havana. PINTURAS DE GUERRA. Sem dúvida, o meu mais novo desejo de consumo.

tem um poco mais de informação aqui: http://www.sinembargo.mx/22-10-2016/3105978

e um ótima entrevista ao vivo no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=gf6Qlzuohn8

A escola em livros

Publicado 3 de fevereiro de 2017 por Claudinei Vieira
Categorias: Crônica, Literatura, Resenha

Uma grande amiga, desanimada com a situação que estamos passando atualmente, e sem saber como lidar com a tarefa de dar aulas no recomeço do semestre ou de como retomar contato com seus alunos, fez um pedido de indicações de livros que pudesse trabalhar com seus alunos que tivessem a escola como temática. Mais do que pensar em simples material de leitura, no entanto, que fosse como uma forma de retomar o pé, imaginei. Como ela diz, fomentar ações que ajudem a reanimar.
heheh- o problema comigo é que sou um pessimista há muito, quase um profissional. E tentei responder algo nesse sentido. Mas aí fui escrevendo e o comentário acabou ficando enorme. Virou um post, que se segue:
– De certa forma, eu tenho umas sugestões, mas, receio que estou impregnado também por esse pessimismo generalizado que fica difícil pegar entusiasmo e esperança. Bueno, na verdade, ‘estou’ pessimista há tempos, mas, como não sou professor, não carrego essa tremenda responsabilidade de tentar monstrar esperanças (sorry…).
Por outro lado, quando penso no tema ‘escola’ na literatura em geral, creio que ela é retratada como algo definitivamente maléfico, ditatorial, retrógrada, ou no mínimo, inadequada. Alguém citou aí ‘As Aventuras de Tom Sawyer’ que é simplemente uma delícia e um dos melhores livros que li na vida, muito engraçado e gostoso de ler. Mas a escola é vista como um limitador da imaginação, das aventuras, da vida livre. Quando Huck Finn, o amigo de Tom, um garoto criado na rua, um espírito rebelde, é finalmente ‘acolhido’ em uma família estável e adotado, ele precisa ser ‘formalizado’: usar roupas decentes, parar de falar palavrões, … e ir pra escola. Em um outro clássico, ‘David Copperfield’, de Charles Dickens, fala-se da escola como verdadeiros pequenos matadouros infantis da Inglaterra mais brutal da Revolução Industrial com descrições de arrepiar: definitivamente, nada muito otimista, eu diria.
Nesse espírito, portanto, eu lembro de um livro espetacular “O Aprendizado de Pequena Árvore”, de Forrest Carter; trata do tempo que um garoto8501039691 é criado pelo seu avô indígena que é um fabricante de uísque falsificado no interior dos Estados Unidos, bem no meio da época da Lei Seca. O garoto vai aprendendo lições de vida e sentimento com seu avó, até o momento em que é obrigado pelo governo a frequentar a escola ‘normal’ e aí , portanto, vêm o contraste, como bem pode imaginar. Surya, garanto, é um livro lindo, lindo, dos melhores da minha vida de leitor. Muitos anos depois de tè-lo lido pela primeira vez, fiquei sabendo que o autor, que eu sempre imaginava que fosse o garoto do livro, na verdade, é um grande filho-da-puta, com inúmeros problemas bem sérios! Tanto mais chocante que tenha escrito um livro tão belo.
Mas, eu estava nessa levada mais pessimista e aí fui lembrando de dois exemplos, afinal, bacanas. ‘O Gênio do Crime’, de João Carlos Marinho Silva, um clássico infanto-juvenil brasileiro; é uma turma de colegas de uma escola paulistana que se tornam detetives amadores ao enfrentar um supergênio que está falsificando as figurinhas de um álbum de figuras de jogadores de futebol. A ambientação, os personagens, o enredo, tudo é uma delícia. Vem sendo reeditado há décadas e nada perdeu seu vigor, é absurdamente bom.
E tem ‘Os meninos da Rua Paulo’, de Ferenc Molnar, outro clássico infanto-juvenil que _88cb455f39ca9340f75fbfdcdba1511cde2bf246também funciona até hoje. São garotos de um mesmo bairro, colegas de escola, que lutam para defender um espaço de convivência livre do lugar onde moram, e onde montam seu clube, seu ponto de reuniões, seu ponto de encontro e diversão. Brigam com a turma de garotos de outro bairro que pretende tomar esse espaço para si e, como são mais fortes fisicamente, precisam ser enfrentados mais com astúcia e esperteza e força de caráter do que com força bruta. Diferente o-genio-do-crime-jc-marinho-silva-d_nq_np_14556-mlb4119415748_042013-fde ‘O Gênio do crime’, no entanto, que é levado no tom de tremenda aventura divertida e agitada (mas que tem no cerne a camaradagem e a formação de uma turma de amigos de uma mesma localidade e ponto escolar), ‘Os meninos da Rua Paulo’ é um drama, é um romance de formação, que, ao lado de cenas empolgantes e emocionantes, também fica triste e carregado. É sério: é um dos poucos livros na vida que me fazem chorar, literalmente.
Nestes dois livros, a escola não é o predominante, mas está lá, presente, importante para a formação destes amigos, e onde se passam algumas cenas hilariantes.
Acho que é do que consigo lembrar, no momento.

Yürei, Caberê

Publicado 15 de setembro de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Poemagem, Poesia

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Yürei, Caberê

de Claudinei Vieira

ed. Patuá

 

em Outubro

capa yurei

 

 

 

crônica de um suposto governo de um certo estado paulistano brasileiro

Publicado 28 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Conto

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– Sr. Governador, os professores estão em gre…

– Não.

– Não?

– Não.

– Desculpe, Sr. Governador, mas não estou entendendo. “Não” o quê?

– Não está tendo falta de água em São Paulo.

– Ok… e os professores?

– Professores? Não são aqueles que dão aula, coisa assim?

 

——

 

– Prepara o papel e a caneta.

– Pronto, Sr. Governador.

– Ótimo. Escreve aí: NÃO ESTÁ TENDO GREVE.

– Nao … Es… Tá … Tendo… Greve. Assim está bem?

– Muito bem. Agora escreve mais cinco mil cartazes desses e distribua nas escolas.

– Cinco mil, senhor? Eu, eu não vou conseguir fazer isso sozinho.

– Isso é o que dá ficar tomando água o dia inteiro, fica preguiçoso! Tá bom, tá bom. Manda uns professores aí em cada escola e os diretores também, e colem nas paredes.

– Tem escola que não vai ter professor pra isso, Sr. Governador.

– Então, coloca os alunos, ora essa. Não estão fazendo nada mesmo.

– Mas, teoricamente, eles estão em aula, né?

– Exatamente! Você entendeu tudo.

– Pra dizer a verdade, não entendi, não, Sr. Governador. Os professores não estão em gre…?

– Não.

– Não?

– Não vai ter rodízio de água em São Paulo.

– ãhn…

(suspiro) – Vamos começar de novo: NÃO ESTÁ TENDO GREVE. E escreve com o til, dessa vez.

 

———–

 

– Sr. Governador, trinta mil professores na Avenida Paulista, hoje.

–     ….

– Sr. Governador…?

–     …

– Trinta mil…  na paulista…

–    …

– ‘Tão perguntado pelo senhor.

–    …

– Eu vou tomar um copo d’água.

 

————

 

– Senhor! 60 mil professores na Paulista! E estão prometendo cem mil na semana que vem. Votaram a continuidade da greve e tudo.

– 60 MIL? Como você ficou sabendo disso? Quem foi que teve o descaramento de dizer isso? Passou na televisão? Naquele nosso telejornal? Ou a Folha resolveu fazer jornalismo justamente agora?!

– É claro que não, senhor! Tá tudo na interneti, imagens, vídeos. Se o senhor calcular a quantidade de pessoas pelo tamanho da avenida…

– Não importa. Fala para os calculistas da PM dizerem que havia 20 mil, no máximo.

– Eles já disseram que havia dez mil.

– Melhor ainda. Que mais?

– O senhor vai dar alguma declaração à nossa imprensa?

– Meu filho, eu não faço declarações. Não fui eleito governador para ficar dando declarações! Mas, enfim, se eu for obrigado (suspira) digo algo simples, anota aí:

– Pode falar, senhor.

– “Greve? Que greve? POR QUE NÃO ME AVISARAM ANTES QUE ESTÁ TENDO GREVE DE PROFESSORES?!”

 

claudinei vieira

 

uma borboleta morta

Publicado 27 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Crônica

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Eu topei com uma borboleta morta hoje. E fiquei chocado com isso. E fiquei chocado, até mesmo irritado comigo por ter ficado chocado e por não entender por que, diabos, isso me impressionou.

Entendo que, no meio de tantos assuntos prementes, urgentes, e fundamentais, clamando por um texto, por uma opinião, por uma posição, falar de borboletas mortas é praticamente um anticlimax, um nonsense, uma falta de consideração. Que seja. Foi o que vi e foi o que senti.

Até que, afinal, entendi (eu acho) o choque. Não foi pela cena do pequeno corpo, pois nada de bizarro ( na prática, era somente um pequeno pedaço de tela colorida, meio mofado, no chão). Nem pelo término de uma indeterminada Vida em geral, idealizada, formal, ou de Beleza (também generalizante).

Eu simplesmente não sabia, nem nunca sequer pensei isso na minha vida, que as borboletas também morriam…

 

o preço de Claudia Silva Ferreira

Publicado 25 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Poesia

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qual o preço da carne negra?

um pedaço de pão? seis reais?

qual o preço da carne negra baleada,

arrastada pela viatura,

enquanto os policiais riam?

qual o preço do sangue da carne negra

estendido por centenas de metros

pintando de vermelho as ruas, a pedras

e o riso dos policiais?

um pedaço de pão? seis reais?

 

Porém, antes de mais, não era carne.

Porém, antes de mais, não era uma ‘mulher’.

Porém, antes de mais, não ‘mais uma’

Era Claudia Silva Ferreira

cujo crime capital foi comprar pão e ser negra

Era Claudia Silva Ferreira

que ousou pretender ter direito à vida

Era CLAUDIA SILVA FERREIRA

seu nome de ser humano

de pele negra

 

então

 

qual o preço da vida de Claudia Silva Ferreira?

um pedaço de pão? seis reais?

qual o custo da bala perdida?

qual o custo de uma bala indiferente?

qual o custo do riso de policiais

que até hoje riem

até hoje riem!

de sua engraçadíssima piada particular?

qual o custo dos pedaços de carne

e sangue no asfalto de Claudia Silva Ferreira?

um pedaço de pão?
seis reais?

 

o preço de Claudia Silva Ferreira

claudinei vieira

Um ano da morte de Claudia, ainda invisível pela mídia.

 

http://pt.globalvoicesonline.org/2014/03/24/claudia-ferreira-da-silva-morta-em-acao-policial-tornada-invisivel-pela-midia/

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moça na janela

Publicado 14 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Poesia

 

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moça na janela

linda moça na janela

a sorrir para mim?

não, não é essa a minha felicidade

não é para mim o regalo

ela sorri para o mundo

e o mundo, esse sim felizardo,

tímido, encabulado,

avermelhado de gosto,

a sorrir gostoso de volta

 

para Adri Aleixo

o momento de si

Publicado 14 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Poesia

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o infinitésimo instante

da ponta

no bico

em

si

retomado

retornado

transformado pleno

(não mais instante)

em

si

 

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Aos cultores do Ódio: a morte de um garoto de 14 anos adotado por um casal gay é um assassinato. E a culpa é sua.

Publicado 10 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Crônica

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Aos cultores do Ódio: a morte de um garoto de 14 anos adotado por um casal gay é um assassinato. E a culpa é sua.

Claudinei Vieira

Aos cultores do ódio (sob a fachada pretensiosa do amor ‘universal’);

Aos cultores do preconceito e do ódio (sob a desculpa pretensamente brilhante de um livro ou outro supostamente divino, interpretado sempre conforme as conveniências do tal cultor);

Aos cultores da violência e da morte, da humilhação, da prepotência, e do ódio (enquanto fingem pregar a paz e a tolerância) (enquanto tal tolerância for permitida para seu próprio culto);

Aos cultores de uma Moral (enquanto enchem seus próprios bolsos de ouro dos incautos inocentes, enquanto tomam banho em banheiras de ouro forradas do sangue do tais inocentes, enquanto corrompem, adulam, e compram quantas moralidades quiserem);

PARABÉNS!

Vocês mataram mais um.

Devem estar se dando tapinhas nas costas uns dos outros, comemorando. Ou, pensando agora, não devem nem estar sabendo do assassinato que cometeram. Ou, caso saibam, nem se importem.

Não foram suas mãos que sufocaram a vida de Peterson Ricardo de Oliveira. Não foram seus pés que chutaram as costelas de Peterson Ricardo de Oliveira. Não foram suas bocas que tornaram a vida de Peterson Ricardo de Oliveira mais difícil pelo fato de ter como pais um casal gay. Não foram seus ataques físicos que feriram Peterson Ricardo de Oliveira, o deixaram em coma, e afinal morreu.

Mas vocês são tão assassinos quanto.

Vocês são tão psicopatas quanto.

Vocês são tão indiferentes à verdadeira vida ou ao Amor autêntico quanto os criminosos que infernizaram o cotidiano de Peterson Ricardo de Oliveira.

Não lhes importa que um garoto de 14 anos teve a sorte (que quantos mais não possuem) de seres humanos se importarem tanto com ele, de terem tanto amor dentro de si, a ponto de adotá-lo, de formar uma família, de tentar lhe garantir um futuro. Não lhes importa que esse futuro tenha sido destroçado, morto, assassinado.

O que lhes importa é que os pais de Peterson Ricardo de Oliveira são um casa gay e , aos seus olhos, eles não são humanos. Ou, pior, vivem em pecado. Pior, não fazem parte do seu culto.

As exatas condições da violência que matou este garoto ainda precisam ser esclarecidas. Mas Peterson é somente um dos assassinatos cometidos pelo seu Ódio. Sua baba está em cada um dos ataques que homossexuais vêm sofrendo neste país, em cada tentativa frustrada de casais gays adotarem crianças que, de outro modo, não teriam absolutamente nenhuma família ou amor ou futuro (mas, isso não é responsabilidade sua, não é?, crianças sem amor, futuro ou família não lhes importa, não pagam dízimos). Sua baba escorre de prazer quando atacam terreiros de umbanda ou tentam impedir seus cultos. Sua baba banha seus queixos de prazer quando realizam cultos (os seus cultos!) em locais políticos públicos que, pretensamente, deveriam ser laicos.

Portanto, mais uma vez, Parabéns! O seu ódio (em nome do amor, de deus, da pátria, seja lá qual a desculpa) matou mais um ser humano. Desta vez, um garoto de 14 anos que havia encontrado o amor que vocês lhe negaram.

 

claudinei vieira

 

três puros anjos

Publicado 10 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Crônica

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ah, os três indubitáveis anjos modernos: impolutos, incorruptíveis, ‘insujáveis’, ‘inlistáveis’, inimputáveis, inigualáveis, infurnáveis, puros, somente puros, que nenhuma divina mácula hsbciana atinge, para todo o sempre: Príncipe-Arcanjo Fernando Henrique Cardoso, Geraldo ‘Arcanjo Chuchu’ Alckmin, Aécio Neves, ah, neves…

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‘O GLOBO’ vomita suas entranhas no Dia Internacional da Mulher

Publicado 8 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Crônica

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Singela homenagem de O GLOBO, justamente e exatamente, no Dia Internacional da Mulher.

Dilma de joelhos aos pés de um terrorista que remete ao Estado Islâmico e seus atos de degolamentos públicos.

Perceba-se que é mais do que deixar de joelhos. O que a charge sugere é que Dilma está prestes a ser degolada. Não está forçando um ato de submissão, está sugerindo um assassinato (seja metafórico, político, ou até mesmo pessoal).

Para o Dia Internacional da Mulher, isso não é um tanto nojento, isso não é um tanto escroto, isso não foi além de uma simples charge ‘engraçadinha’ e se tornou um torpe, vil, ataque filhodaputa à toda e qualquer mulher?

Acima da minha ojeriza e repulsa pela pessoa de Dilma Rousseff e de sua política que já deixou de ser de esquerda há muito tempo (se é que algum dia realmente chegou a ser) está o meu profundo repúdio, a minha profunda náusea de repúdio, a esse vômito desumano, a essa merda desenhada, pretensamente humorada, machista e sugestiva de assassinato.

Talvez, por um outro lado, devamos agradecer ao GLOBO.

Pois ontem mesmo, postei sobre uma jovem na Arábia Saudita que, após ser estuprada por sete homens, ela foi condenada a receber 200 chibatadas e ficar presa por seis meses porque no momento do ataque ela mesma estava cometendo o imenso crime (abjeto pelos padrões sauditas) de estar dentro de um carro sozinha com um homem, um colega de estudos, que não era seu parente!

Alguns comentários ao post, horrorizados com a atitude do estado contra a jovem e às mulheres em geral, destacaram a falta de democracia e o machismo escroto, diferentes do Ocidente, onde a situação é um tanto mais aliviada, pelas mulheres terem conquistado algumas vitórias.

O que fiquei pensando é o quanto a ‘democracia’ ocidental consegue esconder suas perfídias. Sem dúvida, não há como comparar a situação de uma jovem adolescente na Arábia Saudita com uma jovem européia da mesma idade ou até mesmo no Brasil. Mas me pergunto se na tal democracia as formas de controle, de opressão, de violência, só mudam de sentido, de configuração. Afinal, a violência (a violência concreta, física, direta, além da ideológica ou da opressão midiática) só vem aumentando. As penalidades para as mulheres que tentam controlar seu próprio corpo (nas tentativas de realizar um aborto, de andar com roupas confortáveis, tal como os homens andam, de recusar a beijar ou acompanhar homens estranhos em ocasiões festivas) as penalidades vão desde às penais (ser presa por realizar um aborto) às sociais (conviver com maridos ou companheiros violentos que as reprimem e atacam cotidianamente) às ideológicas (ser tachada de ‘piranha’ ou de incitar ao estupro por ‘usar roupa indecente’).

Talvez a grande diferença é que as chibatadas árabes são sim realizadas aqui no tal Ocidente democrático. Só tomam outra forma, outros meios.

E talvez por isso devamos agradecer ao GLOBO. Por escancarar suas entranhas, por deixar claro o que pensa, por não usar sutilezas obtusas. Pela sua estupidez aberta, pela sua misoginia criminosa. Por desejar que as mulheres sejam tratadas, sejam presidentas, executivas, donas de casa ou jovens adolescentes, como realmente eles desejariam: de joelhos, implorando por suas vidas, prestes a serem degoladas.

 

filho do amor no meio do ódio

Publicado 7 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Poesia

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<<< ele não pode viver

ele é prova de amor

no meio do ódio >>>

<<< como se atreve a respirar?

como se atreve a ser amado

no meio da onda de ódio? >>>

<<< como se atreve a andar,

a se pensar como ser humano,

como se atreve a rir

se o riso é prova de amor? >>>

(mas, pensando agora,

os que odiaram também devem ter rido,

riso de bestas-hienas,

riso feio, arreganhado,

riso de ódio)

 

filho do amor,

viva!

para que o amor tenha esperança

para que o ódio não vença esta

para que o ódio não tenha razão

(como nunca teve)

para que o ódio não seja moral

(como nunca foi)

para que ódio não seja norma

(como tantos desejam)

para que ódio não seja norma

(como tantos babam)

para que ódio não seja norma

(como tantos gozam)

para que ódio não seja norma

(como tantos gritam)

para que ódio não seja norma

(como tantos seguem)

para que o ódio não seja lei

(como já é e como tantos seguem)

para que possamos sonhar

(como o ódio , por sua natureza, não pode,

não consegue e não quer)

filho do amor,

viva!

por favor…

 

claudinei vieira

“Filho de casal gay é espancado dentro de escola paulista e entra em coma”

“Um adolescente de 14 anos foi brutalmente espancado dentro de uma escola pública na Vila Jamil, em Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo, na manhã da última quinta-feira (5). Segundo informações do delegado que investiga o caso, o adolescente sofria preconceito e foi agredido por ser filho adotivo de um casal gay.”

http://www.superpride.com.br/…/filho-de-casal-gay-e-espanca…

 

As camisetas pedófilas de Luciano Huck fazem parte da naturalização da violência contra a mulher e as crianças

Publicado 4 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Crônica

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Pessoas, não há algum nível, alguma linha absoluta, algum limite que está sendo ultrapassado? Menosprezado, amesquinhado?

De um lado, um ignominável Alexandre Frota declara em um programa de televisão (do igualmente desprezível Rafinha Bastos) que estuprou uma mâe-de-santo enquanto fazia uma matéria para a Rede Globo, assumindo de uma só tacada os crimes do estupro, de racismo e de preconceito religioso. E é aplaudido e ovacionado pela platéia. E continua sendo aplaudido e ovacionado.

Do outro lado, um assim-chamado apresentador de televisão, sempre cegado pela absoluta necessidade de ideias idiotas, racistas e preconceituosas, para ganhar dinheiro, sempre com uma fachada bonitinha, divertidinha e boçal, conseguiu extrapolar,  e inventou uma camiseta para ser usado por crianças que, na prática e objetivamente, é um convite para pedofilia (mas, olha, tá em letras coloridas!) (além, de camisetas femininas nojentamente misóginas, que depreciam, rebaixam as mulheres que porventura usem tais camisetas divertidinhas, e algumas incentivam o assédio sexual).

Quem irá nos salvar? O Exército Evangélico da$ Força$ Infernai$ do seu Macedo?, doidos para baixar borracha (eita) nos pecadores (isto é, homossexuais, mulheres que fizeram ou pretendem fazer um aborto, mulheres que pensam que podem pensar, pobres que não sejam evangélicos, isto é, pobres de qualquer outra religião e por aí vai…).

Entre a naturalização da violência contra a mulher e as crianças, e o aumento vertiginoso da intolerância política, social, religiosa (que tal o cara que subiu no apartamento de duas senhoras para arrancar as bandeiras vermelhas que elas haviam hasteado?), do acúmulo de tensões ideológicas ao massacre cotidiano, recorrente, da população negra, PESSOAS, a linha está sendo ultrapassada, pode não haver volta.

Falta saber se já não ultrapassamos.

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de alma

Publicado 4 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Poesia

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comeram carvão

respiraram poeira negra

vomitaram infância em paredes

de cavernas estranhas e

convexas e

distantes e

estreitas e

profundas e

profundas e

profundas e

onde não havia luz

onde não havia alma

 

bateram latão

rosquearam parafusos

carregaram caixas

beberam óleo de máquinas

trituraram infância

no meio de engrenagens

altas e potentes

altas e imponentes

altas

onde só havia luz

não havia alma

 

ficaram à beira da estrada

à venda a preços módicos

à venda a preço de custo (ou nem isso)

à disposição para prazeres alheios

carne magra para prazeres alheios

líquido para suores alheios

das luzes, não se importaram

da infância, não souberam

da alma…

do pouco que (ainda) tentara se manter,

só sobrara areia de estrada sufocada

já fora morta e enterrada

nunca a conheceram

não havia alma

 

de alma

claudinei vieira

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trabalho infantil em fábrica de algodão da Carolina do Norte, Estados Unidos, no começo do século 20, fotografia de Lewis W. Hine

esse tal sentimento

Publicado 4 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Poesia

 

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assim esse tal sentimento penetra

assim como a luz rasga a noite

assim como o sol navalha a noite

assim esse tal sentimento goza

e arranca nosso fôlego

e estremece a terra

e estarrece os sentidos

e derruba estruturas

e sacode nossos corpos

até a luz amainar

até nos rendermos

até nos prostrarmos

à exaustão fogosa

até engolirmos nossos pecados,

ponto a ponto, gota a gota

do suor sem fôlego

até que o sol não mais responda

até que a noite amortalhe novamente

esse tal sentimento

assim

esse tal sentimento

claudinei vieira

 

chicote branco

Publicado 4 de março de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Poesia

Tags:

 

 

sabe o chicote branco que estalava,

cortava e retalhava carnes?

sabe o pé branco que pisava,

chutava e moía carnes?

sabe a palavra branca que humilhava,

feria, e lacrimejava carnes?

pois a carne tinha nome e é NEGRO

a carne tinha vida e é NEGRA

tinha voz e é NEGRA

a carne era mais do que nervos,

era mais do que pés e mãos,

costas riscadas e virilhas arruinadas,

e seios e vaginas esburacadas,

nádegas despeladas ou olhos vazados,

era mais do que carne, e é

era mais do que dor, e é

era mais do que banzo, e é

era mais do que correntes, e é

eram mais do que morte, e é

era mais do que tudo, e é

sabe o chicote, branco?

quem diz que parou de cortar, BRANCO?

a carne navalhada, cortada, perfurada,

abafada, humilhada, morta, pisada,

escondida, destruída, desalojada,

perseguida, desprezada,

continua NEGRA

 

chicote branco

claudinei vieira

 

O azeite vem da azeitona

Publicado 13 de fevereiro de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Crônica

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Lembrei de quando comi azeitona pela primeira vez na vida. não faço a menor ideia de quantos anos tinha, posso dizer que eram poucos (e, portanto, posso dizer, faz bastante tempo!). adorei o gosto, me regalei, e até hoje é das coisas que mais gosto.

Quem me apresentou às azeitonas (meu pai ou meu tio, talvez), percebeu meu regozijo e aproveitou para acrescentar na conversa de que era daquilo que era feito o azeite.

Olhei para a azeitona, olhei para a informação. O adulto percebeu minha pequena confusão e insistiu que era verdade, era daquilo que realmente era feito o bendito azeite, mas sentiu que eu continuava não acreditando nele. Desistiu e continuamos comendo azeitonas.

Não sei se foi daqui que já trazia em mim uma pontinha da minha posterior (e cada vez maior) desconfiança nos adultos e em sua pretensa sabedoria (e, extrapolando, na pretensa sabedoria de qualquer tipo de autoridade). O que sei é que naquela tarde, fiz questão de não me render ao fato que me foi colocado e que não afetou meu conhecimento ou prazer sensorial tão intenso.

E também havia um certo detalhe (que senti plenamente no momento, mas que só pude racionalizar, obviamente, tempos depois ) : o de não querer dar o braço a torcer, de não admitir de que não sabia de coisa tão óbvia, tão natural, do azeite vir da azeitona, oras. Portanto, mantive minha cara desconfiada, me calei e continuei comento e apreciando as azeitonas do meu prato.

Mesmo porque, naquela época, naquele instante, eu nem sabia o que era azeite.

 

rastros do poema

Publicado 13 de fevereiro de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Poesia

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o poema corrói por dentro

luta para se libertar da cela do peito

e quando sai

quando se explode

quando se realiza

e se apresenta como medida universal de translucidez

ou mero canal de comunicação entre a rua e a alma

deixa rastros

(no mínimo, o corredor estreito do túnel da saída)

 

deixa rastros

uma trilha ensanguentada

de restos carcomidos pelo caminho

 

deixa rastros

de pedaços aleatórios de humanidade

e ideias frustradas, de emoções caladas,

de sentidos espalhados, de ilusões abafadas

 

deixa rastros

talvez até mesmo, inadvertidamente, o melhor do poema

que não teve capacidade, força, ou coragem

de romper o peito

 

deixa rastros

cicatrizes

 

nenhum poema, quando poema, sai incólume

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‘Dessalinização da água do mar’, mais um projeto a nos chamar de Otários, Imbecis.

Publicado 12 de fevereiro de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Crônica

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Acredito que, por mais bizarra e estúpida que a situação possa chegar, é sempre , sempre, possível piorar. Dessalinização da água do mar para salvar uma cidade regada por dois grandes rios. Uma cidade que foi construída, que nasceu, ao longo, e por causa de, dois grandes rios. Rios entupidos de poluição e que servem de desculpa para desvios escancaradamente vergonhosos de dinheiro para sua presumida despoluição há mais de duas décadas. Tudo o que São Paulo precisa é justamente mais uma obra faraônica que, todos sabemos, nunca será construída, todos sabemos servirá para mais um enorme escoadouro de dinheiro público que sumirá em leitos desconhecidos, todos sabemos.

Enquanto os rios continuarão poluídos, enquanto os paulistas continuarão sofrendo de seca ao lado dos seus rios, enquanto os paulistas continuarão pagando a conta cada vez mais cara mesmo que não tenha água, enquanto os tubarões da água continuarão lucrando e lucrando e rindo das nossas caras, e certamente enquanto se dão tapinhas nas costas e se regozijando por conseguir ideias para arrancar cada vez mais dinheiro dos trouxas, devem estar nos chamando (todos os dias, todos os dias) de Imbecis, Ignorantes, Otários, Otários.

Com toda a razão.

http://sao-paulo.estadao.com.br/…/geral,dessalinizacao-de-a…

 

Quando o Governador Chuchu decretar Estado de Calamidade Pública Seca em São Paulo…

Publicado 7 de fevereiro de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Desconcertos

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Quando o DesGoverno do Estado de São Paulo, o nosso querido Governador ‘Chuchu Seco Mais Seco de Todos os Tempos’ Geraldo Alckmin ao final e ao cabo, finalmente for obrigado a decretar Estado de Calamidade Pública por conta da Gestão Criminosa e Irresponsável dos recursos hídricos do Estado,

 

Quando a população mais carente e mais desprotegida começar a morrer, ou por doença de água contaminada ou pura e simples falta de água;

 

Quando o comércio e a indústria começarem a paralisar por conta de medidas que não foram tomadas (e que podiam ter sido tomadas, e as quais todos os responsáveis estavam plenamente conscientizados);

 

Quando afinal o caos estiver instalado, tenham certeza de algumas coisas simples:

 

– o Governador Chuchu jamais admitirá o Estado de Calamidade, que seria uma mancha em suas pretensões à Presidência ou outros caminhos ainda mais chuchuzentos que quiser trilhar. Portanto, no máximo, dirá que adotou Medidas de Contenção das Vidas dos Paulistanos. E mandará a querida Polícia Assassina Militar Paulista bater e arrebentar quem ousar fazer reclamações ou manifestações;

 

– Tenham certeza de que , quando o Estado de Calamidade (ou qualquer que seja o eufemismo ridículo e hipócrita que adotem), nem será o próprio Chuchu a divulgá-lo: será por seu secretário ou porta-voz ou mesmo pela imprensa babona subserviente paulistana. Ele mesmo terá tido uma ausência ou férias estratégicas. Tudo para não manchar sua ascensão e suas pretensões a se candidatar a algum cargo presidencial brasileiro que estiver sobrando;

 

– Tenham certeza que os acionistas nunca terão seus direitos aos lucros contestados, mesmo que isso signifique a plena instauração do Estado de Calamidade Pública. Mesmo porque eles já sabem que seus lucros estão vindo do sangue dos pobres;

 

– Tenham certeza de que, quem não estiver morrendo, estará pagando pela conta da crise total, os lucros dos acionistas não serão compartilhados para amenizar a situação, nem as grandes indústrias terão seus privilégios ‘aquíferos’ tocados. E quem não se conformar e tentar resistir, sempre haverá a Polícia Assassina Militar Paulista a postos.

 

– Independente de quantos estiverem morrendo por conta da Crise Criminosa da água, os 30% de água que estão sendo até agora desperdiçados (jogados fora!) por causa dos vazamentos dos canos podres continuarão sendo 30% jogados continuamente, diariamente, fora. Provavelmente, aumentarão.

 

– Geraldo Chuchuzinho Alckmin continuará intocável. A culpa é do PT, sempre foi do PT, sempre será. E o PT continuará com sua cara de sonso bobo alegre deixando-se levar a culpa de toda a incompetência e corrupção (as suas e as dos outros). Se é que não vai chegar a acordos espúrios (tão constantes, tão nojentos, tão inúteis) para garantir uma coisa chamada… como era mesmo… ‘governabilidade’, é isso, PT?

 

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vida plana

Publicado 6 de fevereiro de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Poesia

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e, assim, sem se perceber,

sem se deixar flagrar,

a vida permanece plana…

a porta bate, sem se deixar ranger,

os chinelos desvairam por debaixo

de camas duras,

o lençol emudece,

a janela não se abre,

você não se abre,

eu não me abro,

e permanecemos assim, como a vida,

sempre à espera de que o despertador

afinal nos desperte

 

claudinei vieira

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tela de Thomas Saliot

 

“Negra, cubra seus cabelos!”

Publicado 5 de fevereiro de 2015 por Claudinei Vieira
Categorias: Crônica

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No Alabama, Estados Unidos, houve a época em que as escravas foram obrigadas (por lei, além de sacramentado pela conduta diária da repressão) a cobrir seus cabelos, no que foi conhecido como ‘Tignon Law’. A razão é que seus cabelos eram bonitos demais, excitantes demais, provocantes demais, desdenhavam, rebaixavam, humilhavam, da tal dita beleza das mulheres brancas donas de escravas.

Além de, no mínimo, ser uma forma simples, eficiente, direta e pública de identidade cultural.

As escravas cobriram os cabelos. E o fizeram com tanta criatividade e esforço, dedicação e vontade, que transformaram a proibição em arte. E o que não era para chamar atenção, seus turbantes coloridos, montados e recriados, continuaram a chamar atenção, a provocar, e marcar sua identidade.

 

http://blackgirllonghair.com/2014/07/shocking-history-why-women-of-color-in-the-1800s-were-banned-from-wearing-their-hair-in-public/