O que mudou na televisão de ‘Assombros Urbanos’, de Dionisio Jacob?

 

Assombros Urbanos, um programa de televisão que não é assistido por ninguém pois passa às duas horas da manhã, tem um patrocinador misterioso que, curiosamente, não quer fazer propaganda de sua atividade, tem o apresentador mais cético e mal humorado que já existiu, o Lima, que, ao contrário de qualquer outro trabalhador de televisão torce para que o programa continue marcando zero de audiência pois tem total consciência da porcaria do trabalho que faz.

E mais que tudo: Assombros Urbanos é um talk show que traz as pessoas mais inverossímeis, malucas e bizarras para serem entrevistadas como Gorete, balconista de uma loja de calcinhas e sutiã, seduzida por um extraterrestre charmoso, e que desmaia depois de tentar se suicidar com uma pistola de raios laser de plástico; ou Clarice, uma ex-fada que perdeu seus poderes e cuja frustração a levou a se tornar uma glutona e a engordar; ou Hugo que tenta fazer com que sua planta carnívora de estimação adote uma dieta mais saudável e se torne vegetariana. Sua fixação por plantas exóticas começara desde criança quando começara a colecionar cactos:

“LIMA Cactos? Não é uma preferência um tanto … como direi? Árida? Para uma criança, eu quero dizer…
HUGO Os cactos são muito … dignos.
LIMA Não disse o contrário, apenas…
HUGO Os cactos são …. profundos!
LIMA Eu sei, o que eu quero dizer é …
HUGO Os cactos não mentem!!!
LIMA Não se fala mais em cacto.”

Ou então o Fagundes, um funcionário da saúde pública que veio a público denunciar a presença de sanduíches assassinos que atacam e devoram os seres humanos e cuja presença já é sabida de há muito pela policia federal mas nada havia sido divulgado sob a alegação de que criaria pânico na população. Aliás, quem quiser já ficar prevenido, preste atenção nas instruções do Fagundes:

Quando o garçom trouxer o sanduíche, não vá pegando ele logo de cara. Espere um pouco. Aguarde um instante. Olhe bem para ele. Dê uma geral no jeitão do sanduíche. O ideal mesmo é você tentar entabular uma conversa com ele. Diga alguma coisa… um boa-noite, algum comentário sobre o tempo, sobre o jogo da seleção, qualquer coisa! Se – veja bem – SE você obtiver alguma resposta por parte do sanduíche, MESMO que seja uma resposta vaga, saia de perto na mesma hora, procure evacuar a área, avise o gerente da lanchonete que ele saberá o que fazer“.

E, de repente, sem ninguém saber como ou porque, para completo desespero de Lima, Assombros Urbanos começa a se tornar um sucesso, todos passam noites insones só para assistir o programa e ele vira um astro, reconhecido nas ruas, obrigado a dar autógrafos e a comparecer nas reuniões do condomínio!

Dionisio Jacob promove um mergulho nas mazelas do cotidiano urbano. Sua metralhadora giratória de puro e sarcástico humor é um profundo e ácido comentário dos começos do mundo-cão na tv e da própria massificação da “cultura” televisiva.

O livro é ambientado nos “longínquos anos oitenta do século passado”, e Lima é o perfeito representante de uma geração que saiu de uma época conturbada sem ter a mínima ideia do que estava acontecendo no país e nem se lixando para isso e que continua perdido sem saber dos seus próprios valores morais, se é que alguma vez chegou a tê-los. Ele nem sabe se acredita ou não na sinceridade daqueles entrevistados: serão loucos autênticos ou pobres coitados desesperados por alguém que os ouça, que alguém lhes dê atenção algum tipo de atenção? Não importa.

É incrível como tal livro foi publicado no exato momento, quase como se tivesse sido sincronizado, em que a televisão brasileira apresentou sinais claros de histeria e pânico, pelo menos em um certo tipo de segmento dito “popular”. Se isto desembocará em mudanças efetivas e profundas na mentalidade e, sobretudo, na responsabilidade gerais é outra história, mas o baque foi grande. Nunca como antes ficou tão escancarada a fria manipulação dos sentidos dos incautos expectadores.

Para quem ainda se lembra, foi uma época em que o programa do Gugu montou uma entrevista com falsos membros do PCC fazendo ameaças de morte a políticos e jornalistas e foi descoberto que tudo não passara de uma farsa, um dos momentos mais baixos e melancólicos da televisão brasileiro; as “pegadinhas” simuladas, “testes de paternidade” encenadas, brigas entre casais arrumadas e ensaiadas, os produzidíssimos reality shows, não estão no livro de Jacob. Mais uma vez a ficção ficou para trás; a realidade consegue ser mais surrealista e bizarra do que qualquer ficção.

E é justamente neste ponto que Jacob ultrapassa o mero comentário engraçado sobre desgraças televisivas e afins. Seu livro não é um mero desenrolar de esquisitices. Sua pesada ironia, que já havia investido sobre a estúpida burocracia do funcionalismo público no seu primeiro romance, “A Utopia Burocrática de Máximo Modesto”, ajuda a desnudar o ser humano através das aparências.

Um humor amargo e reflexivo, finamente realizado. E incomodamente atual.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer

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