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‘Neonomicon’: o genial e o lixo de Alan Moore

18 de maio de 2013

 

‘Neonomicon’chega ao Brasil carregada de polêmicas, críticas, expectativas frustradas e considerações ácidas sobre uma suposta decadência criativa de Alan Moore. Mesmo os elogios e as críticas positivas são acompanhados por várias ressalvas e o entusiasmo nunca é muito profundo. O embaraço ficou um tantinho maior quando o próprio autor disse que escreveu ‘Neonomicon’pelo dinheiro, por conta de umas dívidas apertadas com o imposto de renda (e mesmo que ele enfatize que isso em nada influiu na seriedade de sua escrita e no seu compromisso de entregar um bom trabalho, em geral as pessoas só se lembram da primeira metade da frase).

A narrativa reta e direta pode fazer com que a história pareça simplificada em excesso (embora essa aparente simplicidade esconda subtextos e camadas de representações); a violência sexual explícita e escancarada pode parecer desnecessária e exagerada ou deslocada (o que ajudou a criar o clima de choque e o sentimento de repulsa de leitores norte-americanos); os elementos do universo do escritor H. P. Lovecraft podem ter sido desviados e apropriados de forma indevida ou, conforme o costume de Moore, livre e pessoalmente adaptados. Para variar, mesmo em suas obras menores, ele consegue causar sensação, e o repúdio ou admiração são tomados como paixões sem gradações.

Acontece que Alan Moore, mesmo quando erra, mesmo nos erros monumentais, ainda consegue ser o melhor escritor de quadrinhos da História.

Em 2003, a editora independente de quadrinhos Avatar Press, conhecida por sua produção alternativa de trabalhos que fogem do mainstream e por não impor nenhuma trava ou limites aos seus autores, adaptou um conto de Moore, “O Pátio”(“The Courtyard”) que fazia referência a personagens e ao clima das histórias de H.P. Lovecraft, ambientada nos dias atuais.

Cultos secretos, seres ancestrais e abomináveis, línguas desconhecidas, universos estranhos e psicodélicos, violência, medo, desconhecido, Cthulhu, Akla. Os temas lovecraftianos sempre estiveram presentes na obra de Moore e podem ser identificados ou citados em vários momentos, do ‘Monstro do Pântano’e Constantine a ‘Watchmen’e a ‘Liga Extraordinária’ e assim por diante. Em ‘O Pátio’ o agente federal Aldo Sax acredita que uns assassinos psicopatas e certos cultos satânicos antigos estão relacionados com o tráfico do que pensa ser uma nova e poderosa droga chamada Akla que está circulando em circuitos de bandas de punk rock. A adaptação escrita por Antony Johnston, tendo Moore como uma espécie de assessor literário, e ilustrada por Jacen Burrows, resulta em um quadrinho extremamente denso e pesado, uma curta história em duas partes que deixa o leitor sem fôlego pelos mistérios apresentados e a rapidez da solução. O suspense é construido com cuidado, pela apresentação de personagens estranhos ou diretamente desagradáveis (Aldo Sax é um agente muito inteligente, brilhante até, racista e arrogante) e pela estruturação de um ‘método’de investigação de crimes diversos, em especial aos mais hediondos que, à primeira vista, não parecem ter nenhuma ligação.

O método e a psicopatia sofrem uma brusca virada quando o caso se transforma, de meros assassinatos, para algo mais profundo e aterrorizador. As sutilezas do texto de Moore acompanhadas de perto pela imagem limpa e vibrante de Jacen Burrows funcionam com perfeição: a violência é tangencial, não gráfica, quase nada é mostrado com plenos detalhes, a não ser quando ocorre a explosão psicodélica. No entanto, o impacto é ainda maior por causa do tenebroso e sensacional final-porrada, onde se sabe tudo o que está acontecendo somente pela fala do personagem. De arrepiar, uma das melhores conclusões de narrativa que conheço.

Anos depois, a Avatar Press instiga o autor a retornar ao universo lovecraftiano com texto inédito, e Moore, como se disse, aceitou premido por problemas financeiros. Com o mesmo ilustrador Burrows, ‘Neonomicon’torna-se uma minissérie em quatro partes que se configura como uma continuação de ‘O Pátio’ embora sejam independentes e possam ser lidas muito bem em separado.

‘Neonomicon’retoma a história de ‘O Pátio’do ponto que havia terminado. O agente Aldo Sax agora está preso e internado no hospício, ele mesmo considerado um louco homicida psicopata que só se comunica com o mundo externo através de uma língua estranha que ninguém entende. Os agentes Gordon Lamper e Merril Brears assumem a investigação dos assassinatos anteriores, mas frustram-se com a impossibilidade de obter informações de Sax.

Merril, no entanto, tem uma pequena vantagem sobre os demais: ela conhece algo da obra de Lovecraft e percebe que há uma relação forte entre sua literatura, as mortes, a loucura de Sax e os cultos satânicos. Que não seriam satânicos, e sim lovecraftianos, isto é, reunindo fanáticos que acreditavam que seus contos de terror não eram fictícios, que os deuses e monstros primordiais e abomináveis são reais e estão para voltar. Tudo misturado com o clube de punk rock, alucinações, indústria de filmes pornográficos e rituais de orgias e sadomasoquismo. O que os leva a Salem, cidade natal de Lovecraft e palco da maioria absoluta dos seus escritos, e que pode ser o epicentro dos tais cultos.

Não há mais sutilezas aqui. Moore não está interessado, não tem tempo ou paciência para sutilezas e as manda para o espaço. O horror, as mortes, as vísceras, os monstros, estão expostos e escancarados. Tortura, orgias, bizarrice, sangue, estupro, com detalhes e cenas prolongadas. O ritmo e a velocidade da narrativa também estão mais rápidos, sem espaço para elucubrações psicológicas (como havia em ‘O Pátio’, o que pode levar a uma falsa percepção de que o enredo é raso e vazio, repleto de clichês. Os clichês estão presentes, claro, e em alguns pontos ele escorrega feio e emprega umas soluções bem pouco convincentes (como, por exemplo, Merril ser míope induz a algumas situações constrangedoras para o leitor, quando ela está sem as lentes de contato) (ou uma cena de masturbação que parece tirada de sitcom).

O roteiro tem problemas estruturais sérios. As diversas partes avançam aos pulos e o ritmo se quebra em momentos inadequados, em especial da terceira para a quarta parte, o que provoca um vácuo emocional (ainda mais considerando o peso da violência logo antes) transformando o final em um longo e incômodo anticlímax. Dessa forma, a construção dos personagens que havia sido primorosa até então (sentimos empatia e cortesia pelos personagens principais e sofremos por seus problemas, muito diferente do que fora com Aldo Sax: Merril acabou de passar por uma experiência traumática em uma missão anterior; Gordon está passando por um casamento morno e um tanto complicado), tudo torna ainda mais inconsistente (até incomprensível) a reação e o comportamento de Merril depois da cena mais chocante. Não que a tal reação fosse impossível (talvez ‘só’muitíssimo improvável), mas não há tempo (ou disposição) de Moore para torná-la crível.

Por outro lado,

se furos e problemas existem (como realmente concordo), não há como negar que trechos brilhantes também estão presentes e são excepcionais. Os diálogos tem naturalidade e fluência e são repletos de subtextos e camadas. Além do que, mesmo nesse enredo rápido, Moore desfila erudição e conhecimentos pop e de literatura de terror (em especial a de Lovecraft, claro), como de costume. Os personagens têm densidade e, como dito, são bem construídos, mesmo que não tão bem finalizados. O suspense é diluído e espalhado, há mais situações de estranheza e bizarrice do que de medo em si, até o momento quando o verdadeiro terror acontece e a violência irrompe.

Um grande momento (o melhor de ‘Neonomicon’e que por si vale toda a leitura da obra) é o da segunda descida ao corredor subterrâneo do culto em Salem. Aqui sim reconhecemos o Alan Moore escritor de alto quilate, com a escrita envolvente e poderosa, o suspense em alta tensão a ponto de fazer contrair os músculos do corpo. Na primeira descida, o enredo é linear e direto, acompanhamos a linha do percurso subterrâneo e as incertezas são óbvias: sabemos que, em algum ponto do caminho, as coisas ficarão feias e sairão do controle. Da segunda vez, o que poderia ser simples e repetitivo, torna-se tenso e inesperado, a cena é complexa e detalhada, fragmentada e dividida pela fala de Merril e nós mesmos nos espantamos com o espanto dos agentes federais, muito embora tal qual Merril, saibamos exatamente o que será encontrado, e mesmo assim somos afetados.

E é esta cena memorável, já na quarta parte, logo antes da conclusão geral chocha, sem força e anticlimática, que torna ‘Neocomicon’uma obra contraditória, irregular, cheia de falhas e ainda assim imprescindível da lavra de Alan Moore.

Um detalhe muito interessante da edição nacional da Panini, além da publicação integral sem cortes em um único volume, é o de terem colocado também ‘O Pátio’ que se tornou uma espécie de prólogo de luxo. Como disse, as duas obras são independentes e não impedem a compreensão se lidas em separado. Mas não deixa de ser um detalhe simpático.

texto publicado originalmente na revista eletrônica de literatura e artes, VERBO 21

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O que mudou na televisão de ‘Assombros Urbanos’, de Dionisio Jacob?

5 de novembro de 2012

 

Assombros Urbanos, um programa de televisão que não é assistido por ninguém pois passa às duas horas da manhã, tem um patrocinador misterioso que, curiosamente, não quer fazer propaganda de sua atividade, tem o apresentador mais cético e mal humorado que já existiu, o Lima, que, ao contrário de qualquer outro trabalhador de televisão torce para que o programa continue marcando zero de audiência pois tem total consciência da porcaria do trabalho que faz.

E mais que tudo: Assombros Urbanos é um talk show que traz as pessoas mais inverossímeis, malucas e bizarras para serem entrevistadas como Gorete, balconista de uma loja de calcinhas e sutiã, seduzida por um extraterrestre charmoso, e que desmaia depois de tentar se suicidar com uma pistola de raios laser de plástico; ou Clarice, uma ex-fada que perdeu seus poderes e cuja frustração a levou a se tornar uma glutona e a engordar; ou Hugo que tenta fazer com que sua planta carnívora de estimação adote uma dieta mais saudável e se torne vegetariana. Sua fixação por plantas exóticas começara desde criança quando começara a colecionar cactos:

“LIMA Cactos? Não é uma preferência um tanto … como direi? Árida? Para uma criança, eu quero dizer…
HUGO Os cactos são muito … dignos.
LIMA Não disse o contrário, apenas…
HUGO Os cactos são …. profundos!
LIMA Eu sei, o que eu quero dizer é …
HUGO Os cactos não mentem!!!
LIMA Não se fala mais em cacto.”

Ou então o Fagundes, um funcionário da saúde pública que veio a público denunciar a presença de sanduíches assassinos que atacam e devoram os seres humanos e cuja presença já é sabida de há muito pela policia federal mas nada havia sido divulgado sob a alegação de que criaria pânico na população. Aliás, quem quiser já ficar prevenido, preste atenção nas instruções do Fagundes:

Quando o garçom trouxer o sanduíche, não vá pegando ele logo de cara. Espere um pouco. Aguarde um instante. Olhe bem para ele. Dê uma geral no jeitão do sanduíche. O ideal mesmo é você tentar entabular uma conversa com ele. Diga alguma coisa… um boa-noite, algum comentário sobre o tempo, sobre o jogo da seleção, qualquer coisa! Se – veja bem – SE você obtiver alguma resposta por parte do sanduíche, MESMO que seja uma resposta vaga, saia de perto na mesma hora, procure evacuar a área, avise o gerente da lanchonete que ele saberá o que fazer“.

E, de repente, sem ninguém saber como ou porque, para completo desespero de Lima, Assombros Urbanos começa a se tornar um sucesso, todos passam noites insones só para assistir o programa e ele vira um astro, reconhecido nas ruas, obrigado a dar autógrafos e a comparecer nas reuniões do condomínio!

Dionisio Jacob promove um mergulho nas mazelas do cotidiano urbano. Sua metralhadora giratória de puro e sarcástico humor é um profundo e ácido comentário dos começos do mundo-cão na tv e da própria massificação da “cultura” televisiva.

O livro é ambientado nos “longínquos anos oitenta do século passado”, e Lima é o perfeito representante de uma geração que saiu de uma época conturbada sem ter a mínima ideia do que estava acontecendo no país e nem se lixando para isso e que continua perdido sem saber dos seus próprios valores morais, se é que alguma vez chegou a tê-los. Ele nem sabe se acredita ou não na sinceridade daqueles entrevistados: serão loucos autênticos ou pobres coitados desesperados por alguém que os ouça, que alguém lhes dê atenção algum tipo de atenção? Não importa.

É incrível como tal livro foi publicado no exato momento, quase como se tivesse sido sincronizado, em que a televisão brasileira apresentou sinais claros de histeria e pânico, pelo menos em um certo tipo de segmento dito “popular”. Se isto desembocará em mudanças efetivas e profundas na mentalidade e, sobretudo, na responsabilidade gerais é outra história, mas o baque foi grande. Nunca como antes ficou tão escancarada a fria manipulação dos sentidos dos incautos expectadores.

Para quem ainda se lembra, foi uma época em que o programa do Gugu montou uma entrevista com falsos membros do PCC fazendo ameaças de morte a políticos e jornalistas e foi descoberto que tudo não passara de uma farsa, um dos momentos mais baixos e melancólicos da televisão brasileiro; as “pegadinhas” simuladas, “testes de paternidade” encenadas, brigas entre casais arrumadas e ensaiadas, os produzidíssimos reality shows, não estão no livro de Jacob. Mais uma vez a ficção ficou para trás; a realidade consegue ser mais surrealista e bizarra do que qualquer ficção.

E é justamente neste ponto que Jacob ultrapassa o mero comentário engraçado sobre desgraças televisivas e afins. Seu livro não é um mero desenrolar de esquisitices. Sua pesada ironia, que já havia investido sobre a estúpida burocracia do funcionalismo público no seu primeiro romance, “A Utopia Burocrática de Máximo Modesto”, ajuda a desnudar o ser humano através das aparências.

Um humor amargo e reflexivo, finamente realizado. E incomodamente atual.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer

Fantasma da Ópera: belo personagem, boa história, péssimo livro

29 de outubro de 2012

 

É interessante observar o porquê do personagem Erik, o Fantasma da Ópera, marcar tanto a cultura pop da mentalidade ocidental. Se não chega a fazer parte do dream team dos personagens de terror como Frankenstein ou Drácula ou até do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, também não faz feio. Ao longo de tantas adaptações cinematográficas, teatrais, musicais, tem demonstrado enorme vitalidade. É um incontestável ícone moderno.

No mínimo, garantiu a vida de seu autor, egresso do jornalismo, no qual já fazia bastante sucesso. Gaston Leroux, com suas reportagens dramáticas e vívidas, fazia o estilo de ‘jornalismo agressivo’, cobria guerras, presenciava batalhas, entrevistava criminosos, e escrevia com bastante colorido e muito maior dramaticidade. Seus artigos eram avidamente esperados; era uma verdadeira celebridade em uma época quando a indústria de informação passava por importantes modificações e modernizações, as quais ele soube aproveitar bem.

Ao começar a escrever ficção, descobriu outro filão que se tornou tão importante (e lucrativo) que decidiu abandonar o jornalismo e se dedicar à literatura em tempo integral. Escrevia livros de terror, suspense, romances policiais, do estilo de Conan Doyle e de Edgar Allan Poe, de quem era um grande admirador, com seus detetives superinteligentes e cerebrais. Poe também era uma inspiração para o gênero do terror gótico, com seus climas tenebrosos, aparições e fantasmas, labirintos obscuros.

É até estranho dizer isso hoje, mas seu “Fantasma da Ópera” não fez tanto sucesso quando foi lançado. Só aos poucos foi sendo conhecido, a ponto de, na prática, eclipsar seus trabalhos anteriores. Hoje em dia, ele é mesmo conhecido (quando lembrado) por causa desta obra.

No entanto, não é um bom livro. Os conflitos são primários e rasos, quase caricatos. O romantismo mais meloso se esparrama por suas páginas, as descrições são fracas, a narração é feita com um tom que imita pesquisas realísticas (uma característica típica sua, pois transpôs seu estilo como repórter para os romances), mas nunca convencem o leitor de sua pretensa veracidade. João Máximo nos diz, em seu prefácio na edição da Ediouro, que consta de Gaston Leroux realmente acreditar em espíritos e fantasmas, e “que tinha a plena convicção de que seu próprio corpo era habitado por um ser espectral de cuja natureza não tinha a menor idéia”.

Além do que, ele se utiliza de alguns fatos reais: a famosa cena da queda do candelabro, que foi tão aproveitada e repetida pelo cinema, realmente aconteceu em 1896, e o prédio do Ópera de Paris chegou a servir como prisão durante a época da Comuna e da Guerra Franco-Prussiana.

A situação fica um tanto mais complicada se compararmos a obra com a de seus ‘irmãos’ mais próximos. ‘Frankenstein’, de Mary Shelley, por exemplo, é uma impressionante obra-prima de terror que contém igualmente uma profunda reflexão filosófica sobre as pretensões e a arrogância da humanidade. Bram Stoker construiu em seu ‘Drácula’ uma criatura que foi a súmula de todos os personagens de terror cultivados na época de sua publicação e dos temores primais que atacam nossa imaginação, além de conter um apelo sensual bem pronunciado, mesmo que nunca explicitado (no livro, bem entendido; o cinema bem fez questão de deixar isso bem claro). “O Médico e o monstroé um belíssimo texto de Robert Louis Stevenson, uma novela curta, quase um conto, que em sua aparente simplicidade provoca uma enorme impressão no leitor, além de discutir questões sobre o Bem e o Mal de uma forma nada convencional.

Leroux não atinge este nível de qualidade. É certo que o cinema ajudou, e muito, em sua projeção (‘O Fantasma da Ópera’ tem sido adaptado desde o cinema mudo; João Máximo fala em dezoito adaptações cinematográficas!), além de retumbantes carreiras de peças musicais da Broadway, adaptações radiofônicas, etc.

No entanto, apesar de tudo o que disse acima, também é verdade que o personagem possui um apelo que dificilmente pode ser explicado somente por conta de suas adaptações. O Fantasma atende sim a profundas fantasias e inclinações românticas; é um personagem romântico, por excelência. A ambientação da Ópera de Paris, o vulto tenebroso e mascarado que exprime sua paixão pela bela e jovem Christine e a ensina a ser uma estrela, a máscara que esconde sua feiura, física e moral, a ambiguidade de sua condição, entre ser um vilão ou uma vítima, um carrasco, um louco ou um grande apaixonado, os subterrâneos onde ele é rei e, ao mesmo tempo, um exilado…

Um grande, portentoso personagem, que se destacou e se fixou em nossa imaginação como bem poucos conseguem fazer, mesmo que a matéria de onde se originou tenha sido tão pobre.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer

Música Fúnebre, de Morag Joss: assassinatos ao sabor de Bach

13 de outubro de 2012

 

Este é um romance policial com trilha musical. Música clássica. “Canção sem palavras em ré menor”, de Mendelssohn; “Peças de fantasia, Opus 73”, de Schumann; “Elegia em dó menor”, de Fauré, entre várias outras.

E Bach. Em uma das cenas mais bonitas da obra, a violoncelista Sara Selkirk visita Edwin, um antigo músico e maestro que agora está inválido e com os dias contados por causa do câncer. Ela trouxe o instrumento e ele lhe pede que toque uma das suítes para violoncelo de Bach. Há muitos significados neste pedido: era uma das peças preferidas do marido de Sara, cuja morte fora há um ano antes e que a lançara em uma espécie de animação suspensa: cancelara todas as apresentações previstas, mergulhara em uma crise artística, nunca mais tocara e nem sabia se voltaria algum dia. Na verdade, não vivia; só deixava os dias passarem. E só por muita insistência de seu amigo James concordara em fazer uma pequena apresentação em uma cidadezinha no interior da Inglaterra. Mas, não Bach. Muito menos as suítes para violoncelo. A ocasião no entanto revela-se muito propícia e Edwin muito inteligente e sensível. A delicadeza do momento, a beleza da descrição, a ambientação… assistimos empolgados a um rejuvenescimento de Sara, embalados pela música. A impressão é tão vívida que parece que a estamos escutando.

Momento muito especial dentro de uma obra que retoma a tradição da literatura policial clássica inglesa, puxando para a linha moderna psicológica de uma P. D. James, por exemplo. E o faz extraordinariamente bem. “Música Fúnebre” é o primeiro romance de Morag Joss que também segue um outro tipo de tradição da literatura policial: o de trazer uma experiência de vida (pessoal, profissional, cultural) que, a princípio parecem bem distante da literatura, principalmente da policial. No caso de Joss, sua vida foi de trabalho em museus, galerias de arte e no ensino superior como administradora e palestrante!, como descrito na apresentação. Ela traz então todo esse universo, combina com uma trama de assassinato, detetives carismáticos, um mistério bem construído e, assim, temos um livro muito simpático!

Com “Música Fúnebre” penetramos na alta roda da pequena cidade de Bath. Somos apresentados a museus, galerias, spas, ouvimos concertos de música clássica. Mas, mesmo em um lugar tão agradável e prazeroso, as paixões, dores, sofrimentos e ambições dos seres humanos continuam sendo tão humanos como sempre. Sara Selkirk torna-se o pivô da trama ao descobrir o cadáver do novo administrador do museu, obrigando-a sair de sua apatia para não ser ela mesma a próxima vítima.

É interessante observar que há vários furos no enredo, muitos mesmo para dizer a verdade!, que qualquer leitor com um mínimo de inteligência vai perceber rapidamente. E, ao mesmo tempo, Sara é uma musicista que possui uns lances de dedução lógica tão geniais e tão complicados que fica difícil entender por que não a promovem logo para chefe da Scotland Yard. No entanto, a narrativa flui de modo tão gostoso e simples que fica fácil relevar estes “detalhes”.

A minha recomendação é esquecer estas pequenas incongruências, preparar uma fita com as músicas indicadas pela autora e se deixar levar. O prazer é garantido. Para músicos, leitores e assassinos.

texto corrigido e atualizado, publicado originalmente em iGLer

Orlando, O Quarto de Jacob: Virginia Woolf no máximo

9 de outubro de 2012

 

Virginia Woolf carregava um imenso universo interno que a atormentou durante toda sua vida. Uma parte ela pôde transformar em escritos, pensamentos e ficção, moldando, modificando a literatura inglesa e mundial. Outra parte, não conseguiu superar. Sofrendo de depressão profunda, com um histórico de tentativas de suicídio e internações em instituições psiquiátricas, afinal sucumbiu, carregando sua roupa de pedras para afundar no rio Ouse, na Inglaterra. No meio disso, revolucionou a narrativa moderna.

Sua inquietação, seu afã de descobertas e experiências literárias e artísticas tinha raízes próprias. Nascida em 1882, era dotada de grande inteligência, teve o privilégio de uma família culta que valorizava o incentivo artístico e cultural, seus pais eram literatos e editores, descendentes de escritores ingleses consagrados. Foi educada em casa pelo próprio pai. Ao lado disso, as tragédias a acompanharam desde cedo: seus pais morreram prematuramente (aliás, quase todos seus parentes mais próximos morreram muito cedo, assim como sua meia-irmã Stella Duckworth, que havia praticamente tomado o lugar como sua mãe, e seu irmão Toby) e, na adolescência, foi abusada sexualmente pelo meio-irmão Gerald Duckworth.

Junto com sua irmã Vanessa Bell, artista plástica casada com o critico de arte Clive Bell, criou um grupo de discussão literária e cultural que agitou o cenário inglês da época e que ficou conhecido como o grupo de Bloomsbury. Igualmente jovens e inquietos, buscavam novas formas de entender, criticar e produzir cultura. Foi neste grupo que Virginia conheceu o escritor e critico literário Leonard Woolf com quem se casou.

Ela e o marido fundaram uma editora, a Hogarth Press, originalmente para publicar os trabalhos dela e faze-la ocupar-se, distraindo-a de seus problemas mentais, mas que mais tarde tornou-se uma importante casa editorial que teve entre seus publicados autores do calibre de T.S. Eliot, Gorky, E.M. Forster, Katherine Mansfield, e foram os primeiros a publicar uma edição em vinte e quatro volumes das obras completas de Freud na Inglaterra.

O Quarto de Jacob‘ é o terceiro romance de Virginia Woolf e o primeiro no qual ela radicalmente quebra com as regras da narrativa tradicional. Seus trabalhos anteriores haviam deixado entrever suas tentativas tímidas neste sentido, mas aqui ela vai fundo. A bem dizer, não existe realmente um enredo, uma história. São quadros emocionais, são grandes lances que acompanham um fio de enredo que, provavelmente, é a história do garoto Jacob desde sua infância até sua morte, vagamente inspirado na figura do irmão de Virginia, Toby. É inacreditável constatarmos como este livro ainda transpira vigor, novidade, criatividade, beleza! Precisamos esquecer, deixar de lado a narrativa linear do simples começo-meio-e-fim, embarcar em suas digressões e mentalizações, os fluxos internos de pensamentos dos personagens, e sentir (como devem ter sentido os contemporâneos de Woolf e como sentem todos os que lêem seus livros pela primeira vez), um sopro de liberdade e potência narrativa nunca experimentada antes. É uma viagem empolgante e verdadeiramente esclarecedora. A apresentação feita por esta edição da Nova Fronteira é impecável: “Tudo é narrado de forma fragmentada, quase inapreensível, sem impor um enredo que oriente e esclareça de uma vez por todas o leitor. Cabe a este, ao contrário, a tarefa de montar estes fragmentos e, a partir deles, inventar o seu sentido, a sua moral, sobretudo a ácida e implacável visão critica de uma sociedade encurralada no cultivo de suas mais medíocres aparências.”

Virginia Woolf também foi uma grande ensaísta e critica literária, escreveu por volta de quinhentos ensaios, publicados em jornais, revistas, suplementos

Tilda Swinton na versão cinematográfica de ‘Orlando’, em mais uma dessas estranhas tentativas, fadadas ao fracasso, de transpor Virginia Woolf para as telas de cinema

literários, e cujo eixo principal era a participação das mulheres em uma literatura dirigida e dominada pela visão masculina do mundo. Embora nunca tenha sido uma ativista feminista militante, em seus ensaios deixava claro a necessidade das mulheres se tornarem independentes para poderem produzir cultura do seu próprio ponto-de-vista, de deixar de serem objetos-da-literatura para autoras-de-literatura e de sua vida.

ORLANDO não é uma peça neste quebra-cabeça cultural, mas certamente é um importante ponto para esta discussão. É sua obra mais famosa e de maior sucesso. Acompanha a ‘história’ da vida de Orlando, um gentil-homem cavalheiro inglês no final do século XVIII. Duzentos anos mais tarde, observamos as mudanças (sociais, técnicas, culturais) desta Inglaterra e em Orlando que, de forma gradual, natural, imperceptível, agora é uma mulher.

Orlando pulou, como se tivesse levado uma violenta pancada na cabeça. Na verdade, eram dez horas da manhã. Era o dia 11 de outubro. Era 1928. era o momento presente.

Ninguém se assombre de Orlando ter um sobressalto, levar a mão ao coração e empalidecer. Pois que revelação mais terrível que a de ser sentir que este é o momento presente? Se sobrevivemos ao choque, é apenas porque o passado nos ampara de um lado e o futuro do outro. Mas não temos tempo agora para reflexões; Orlando já estava terrivelmente atrasada. Correu pela escada abaixo, pulou para o automóvel, calcou o acelerador e partiu.”

Orlando é calcada/o na escritora Vita Sackville-West, com quem Virginia teve um caso e serve como uma verdadeira homenagem para a amante. A primeira edição inglesa, inclusive, trazia uma foto de Vita Sackville-West ilustrando o livro, vestida como o personagem.

Há, ainda, um importantíssimo ‘detalhe’ nesta publicação de ‘O Quarto de Jacob’ e ‘Orlando’: as traduções. A do primeiro é de Lya Luft e do segundo, de Cecília Meirelles! Simplesmente imperdível.

Mulheres da Máfia

2 de outubro de 2012

Não existem mulheres na Máfia.

Era o que se dizia. Era o, digamos assim, puro senso comum.

O impressionante é que, até há muito pouco tempo, isso continuava sendo o senso comum.

De mulheres, haveria somente as esposas de mafiosos que, obedientes, fecham os olhos aos ‘negócios’ dos seus maridos, persignam-se e se calam, quando indagadas de alguma coisa. As mães dos mafiosos que suspiram pelos destinos dos seus filhos. As filhas que, juntamente com as mães e esposas, são protegidas pelo respeito milenar e não são tocadas nem manchadas em sua honra, nem mesmo nas piores guerras entre as famílias, pois caso contrário, se daria direito pleno à vendetta. Que mais? Obviamente, uma outra espécie de mulheres, estas sim perigosas e traiçoeiras: as amantes dos mafiosos que, além de solapar as tradicionais bases familiares, ainda podem carregar armas e praticam pequenos serviços aos seus homens. Destas, pode-se esperar tudo!

Com muito custo, aos poucos foi se percebendo o quanto há de balela nestes mitos tão trabalhados e requentados e tantas vezes propagados pelos meios de comunicação, sendo que o menor não é certamente o cinema de Hollywood. Clare Longrigg começou a partir do final da década de 1980 a pesquisar a participação das mulheres na Máfia ao acompanhar o movimento de várias viúvas de políticos, juizes e policiais vitimas de mafiosos. O movimento formara em 1982 a organização Associação de Mulheres Antimáfia que, corajosamente, exigia maiores atitudes de repressão, ao mesmo tempo em que conclamavam a que as esposas de mafiosos depusessem contra seus maridos.

Muito embora, na maioria das vezes, estes depoimentos fossem encarados com total ceticismo.

Segundo Longrigg, um juiz de Palermo teria declarado, por exemplo, em um despacho judicial que “mulheres não podiam ser culpadas por lavagem de dinheiro porque não possuem autonomia e, de qualquer maneira, são burras demais para tomarem parte no difícil mundo dos negócios’”. Não era, de forma alguma, uma opinião única: “Alguns magistrados ainda mantém a opinião de que as mulheres que tocam os negócios de seus maridos não estão cometendo crime – que a esposa de um mafioso não tem escolha e, portanto, não pode ser responsabilizada moralmente.”

Rita Atria

Com o aumento dos depoentes, principalmente a partir de 1991, e a constatação da profundidade de suas informações, é que se começou a ter uma visão aprimorada do montante de seu conhecimento.

Não só conhecimento as mulheres partilhavam, nem tampouco participação. Se por um lado, a expansão das atividades mafiosas dentro da Itália solapava as rígidas normas hierárquicas machistas ao exigir cada vez maior quantidade de mão de obra, incluindo-se mulheres e crianças, por outro, a intensa repressão e as constantes brigas entre as famiglias, acarretavam a morte, prisão ou a fuga de diversos destes ‘pais-de-família’, abrindo espaços e buracos de poder que precisavam ser preenchidos. E o eram. Pelas respectivas mulheres.Se, anteriormente, elas ‘auxiliavam’ dando os seus nomes para os registros bancários dos maridos (na Itália, não eram sequer investigadas), ou transportavam quantidades de drogas ou armas (não eram revistadas, sequer eram destacadas policiais femininas para isso), agora estavam tomando decisões, movimentando contas, manejando dinheiro, planejando assassinatos, repartindo poder. E também estavam começando a responder por isso.

Desta forma, na Itália “o número de mulheres acusadas de portar e traficar drogas cresceu de 37 em 1994 para 422 em 1995, enquanto o número de acusadas por lavagem de dinheiro aumentou de 15 para 106 e numero de mulheres presas por agiotagem subiu de 199 para 421”. Esta súbita e repentina aparição da importância feminina mafiosa indicava, na realidade, que as autoridades estavam a abrir afinal os olhos.

Tudo isso é até que muito interessante, mas na verdade fiquei até o momento somente no plano da introdução. Clare Longrigg foi bem mais longe. Além de agrupar todos os dados disponíveis minuciosa e cuidadosamente, ela foi atrás e conversou com muitas destas mulheres, tanto das pró quanto anti-máfia. Foi em casamentos, batizados, julgamentos, prisões, compilou as histórias, arrumou os arquivos fotográficos. São histórias tremendas, de mulheres poderosas, ousadas. Impossível não pensar, por exemplo, só para ficar em um único, em Ninetta Bagarella.

Antonieta, ‘Ninetta’, Bagarella era muito inteligente, bonita, consciente do poder da mídia, e era noiva de um aspirante a ‘chefão’, Salvatore Riina, quando, em 1971, foi presa e acusada de estar servindo como ligação clandestina entre vários chefes locais, transmitindo recados ou instruções. O noivo estava escondido e ela a primeira mulher a ser indiciada por ligações com a Máfia (e ela mesmo era filha de um chefe respeitado). Sua defesa foi exemplar. O eixo foi a dedicação que ela tinha ao marido: “Eu amo esse homem. Sou mulher, não sou? Não tenho direito de amar um homem, não é essa a lei da natureza? Vocês perguntam como eu poderia ter escolhido um homem como ele, de quem as pessoas dizem coisas horríveis. É contra a lei amar um homem como Salvatore Riina? Eu amo esse homem porque ele é inocente.

Longrigg conta que “Ela convenceu com sua imagem de sinceridade: ele

Ninetta Bagarella in una foto degli anni 70

estava escondido e ela fazia o papel da noiva saudosa que duvidava do afeto de seu amor.

– Há dois anos que não vejo Riina, nem sei mais se ele me ama.

A imprensa de Palermo apaixonou-se.”

Casaram-se em uma cerimônia secreta e tiveram quatro filhos, que tiveram de ser criados em casa pela própria mãe, que havia sido professora. Também estes entraram para a organização, a seu devido tempo, e sistematicamente receberam a ajuda de Ninetta, quando por sua vez, eram presos. Desta vez, como a Mãe que pedia a compreensão dos homens e o favor de Deus. Em 1996, ela mandava uma carta para imprensa: “Decidi abrir meu coração, o coração de uma mãe que está inchado e transbordando de dor pela prisão de meu filho..] Aos olhos do mundo, meus filhos já nasceram culpados. Ninguém se lembra que quando eles nasceram eu (la mamma) era uma cidadã livre e meu marido era apenas culpado de deixar de deixar de se apresentar durante a condicional. Criamos nossos filhos fazendo enormes sacrifícios, superando tremendas dificuldades, dando-lhes todo amor e apoio possíveis.”

E por ai vai, com muitos ´figlio’ e ´mamma’ espalhados pelo texto, além de respeito á família, ás tradições, etc e tal, só esquecendo de alguns detalhes, como a condenação à prisão perpetua do marido, os atos criminosos dos filhos, etc.

Ninetta Bagarella representa um ‘estilo’ de mafiosa que sabe muito bem aonde e como aplicar pré-conceitos, ilusões e mitos que a Máfia divulgou e difundiu. Outros ‘estilos’ mais diretos e objetivos, como Roseta Cutolo que escapou de mais de nove acusações de assassinato e cumpriu cinco anos de pena por ligação com a Máfia; Teresa Deviato, presa e indiciada por extorsão; Rita Atria, que se tornou colaboracionista da Justiça, não suportou a pressão e suicidou-se em 1992.

E várias outras. “Mulheres da Máfia” é um esplêndido livro-reportagem, de linguagem límpida e direta que nos ajuda a descortinar um pouco mais nossa costumeira realidade.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente no iGLer

Freya das sete ilhas

28 de setembro de 2012

 

Antônio Olinto conta, em sua excelente apresentação a este volume das obras de Joseph Conrad editada pela Revan, que quando Freya das sete ilhas foi publicado pela primeira vez houve um protesto dos leitores, reclamando do final especialmente infeliz reservado aos personagens principais. Teve até quem disse que nunca mais leria outro livro do autor.

Pode-se entender esta reação. Pode-se inclusive sentir o mesmo. Freya Nielsen (ou Nelson) é tão viva, bela e radiosa, e seu envolvimento e amor por Jasper Allen é tão empolgante e bonito, que nos deixamos levar, participamos de sua ânsia, sofremos suas angústias, saboreamos sua juventude e beleza. Conhecemos a austera honestidade do velho Nelson (ou Nielsen) e sua absurda ingenuidade e receios infantis. Somos tomados pela malevolência e estupidez de Heemskirk. Somos dominados pela poderosa escrita de Conrad e nos deixamos conduzir por onde ele quiser.

Por isso ficamos tão mais chocados e impactados, mesmo que desde a primeira linha, desde o primeiro instante sejamos informados de que a tragédia já aconteceu, já está formalizada e terminada e os destinos foram determinados, concluídos, estão no passado.

Naquele dia – e aquele dia foi há muitos anos – eu recebi uma carta longa, loquaz, de um velho amigo, um dos camaradas que viajavam nas águas do Oriente. Ele ainda estava por lá, mas estabelecido e de meia idade. Eu o imaginava transformado em corpulento, fisicamente, e doméstico, nos hábitos. Em suma, surpreendido pelo fato comum a todos aqueles que, sendo muito amados pelos deuses, morrem cedo. A carta, do tipo – ‘você se lembra?’ – era uma carta triste, de reminiscências do passado. E, entre outras coisas, ‘certamente você se lembra do velho Nelson’, ele escreveu.”

E deste começo de aparência tão inócua, saberemos mais tarde a quantidade de informações que já nos foi passada de modo tão simples, tanto sobre a história que recém-iniciou, quanto dessa ciranda de narradores típica de Conrad.

Joseph Conrad por JDCanales

A infelicidade não acontece pela presença ou caprichos de deuses externos, mas por decorrência dos atos dos próprios envolvidos; tal como na Tragédia grega clássica, o mórbido jogo do ‘Destino’ só é possível pela iniciativa dos seres humanos. ‘Destinados’, portanto, a serem infelizes, sempre? E por sua culpa? Tragicidade, culpabilidade, são termos que nos remetem de imediato ao universo de Conrad, e são bem citados e discutidos por Antonio Olinto.

Narradores múltiplos que constantemente se auto-referem e se inserem como na brincadeira das caixas de diversos tamanhos que se encaixam uma dentro da outra em um jogo infinito; o senso do trágico que se imiscui nos detalhes ínfimos do cotidiano; personagens densos, minuciosamente construídos, vívidos e que colam em nossa imaginaçao; narrativa límpida, clara, direta e assombrosa pela sua força. Joseph Conrad está por inteiro em “Freya das sete ilhas”.

A Love Supreme – A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane

11 de setembro de 2012

 

Em “Acknowledgement” John Coltrane pulsa rápido seu sax tenor e Elvin Jones retine o metal em uma introdução forte, simples e curta. É uma conclamação, um chamado. Um aviso. Saberemos logo em seguida o que significa. Enquanto o tema se impõe, Coltrane sola e aos poucos as quatro notas se repetem, falam a frase-título, ‘a-love-su-preme’, como um mantra, o reflilhão da liturgia jazzística que está a se impor. O som cala fundo. É, ao mesmo tempo, calmante, reflexivo, introspectivo, indagador, experimentador. Há controle e fuga, viagem e condução, reflexos da busca de Coltrane, que volta com o mantra, experimentando-o em diversos tons, fôlegos, aspirações, até mesmo com a voz, a de Coltrane e de mais alguém.

Em ‘Resolution’, o segundo movimento da suíte de Coltrane, há de novo outra conclamação no inicio, mas desta vez é uma verdadeira tomada de posição, é o próprio vigor da emoção dos músicos se manifestando. O que havia de discreto e simples no movimento anterior aqui explode. Para mim, é o momento mais fascinante, a ponto de me arrepiar o cabelo. Depois de muito tempo, aquela melodia ainda persegue a memória. MacCoy Tyner toma conta do tema com seu piano e logo volta à bola para o líder, que a retoma com mais emoção ainda.

Segundo nos mostra Ashley Kahn (“A Love Supreme – A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane“, editora Barracuda) ao ouvir as gravações originais dos takes de estúdio, houve normalmente algumas tentativas, voltas e retomadas, como era natural. Coltrane podia retornar várias vezes, como o fez nos dois primeiros movimentos (‘Resolution’ teve seis takes falhados ou imperfeitos, antes dele se contentar com o sétimo) (e é sempre interessante, quando ouvimos somente o resultado final, como poderia ser realmente diferente daquilo que foi; é claro, não poderia). ‘Pursuance’, o terceiro movimento, foi levado de uma só vez, um único take. Para mim (e isso está longe de ser uma avaliação fria e objetiva) é o momento mais nervoso, mais agitado, mais viajante. Sem dúvida, é a bateria de Elvin Jones e seu “estilo ‘bastante ativo”, e sua forma toda particular de misturar e trazer os ritmos “africanos e caribenhos para a bateria de jazz tradicional”, ao abrir o movimento, dá o tom geral. Pelo menos, é como aparece para mim. Jimmy Garrison com seu baixo dá um breque, puxa o tom para baixo, soa solene, profundo.

Quase não sentimos a transição para o quarto movimento, o ‘Psalm’, pois Coltrane pega o tom intimista de Garrison e o aprofunda ainda mais. E aqui é preciso respirar fundo. O sublime acontece. Coltrane se fecha, seu sax se aquieta, os sons se acalmam. Os demais músicos o acompanham, mas servem somente como pano de fundo. Pois Coltrane assume um tom de oração. Neste momento, através do Jazz, ele está orando, conversando com Deus.

“A Love Supreme” é uma composição, uma suíte jazzística, criada no apogeu da capacidade artística de John Coltrane e seus companheiros McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria), como uma elegia, uma canção de louvor ao Senhor. Não é blues (embora, uma ponta aqui e acolá apareçam por conta da extrema versatilidade das influências e do conhecimento de Coltrane), nem gospel (a inspiração existe, é claro, mas somente como inspiração). É jazz, no seu extremo. Feita para tocar o sentimentos humanos, beirando no sublime religioso.

Talvez, para quem me conhece, até estranhe minha referência e o meu fervor em uma composição que possui tal grau de dedicação religiosa. Fico sinceramente ofendido com este tipo de pensamento. É como se meu ateísmo me impedisse de reconhecer a beleza e a cultura dos que cultivaram sua veia religiosa e conseguiram expressá-la com fervor e arte (como quando um amigo, grande amigo aliás, ficou um tanto chocado ao saber que eu curtia e apreciava o ‘Messias’, de Haendel; até pensei em responder que o pensamento rasteiro e o preconceito estavam vindo dele e não de mim, mas deixei quieto).

Portanto, se como ateu posso me impressionar e me comover até ás lágrimas com um ‘Messias’ ou com ‘A Love Supreme’, mesmo sem compartilhar de suas convicções tão intimas (e, de certa forma, até devo fazê-lo, pois o que me pega é sua música, sua arte, tão genuinamente humanas e belamente realizadas), não se pode deixar isso de lado quando se pensa em sua formação, em sua construção, em seu objetivo. Claro, para um rapaz de poucos anos atrás que estava se iniciando em sua formação musical e havia se impressionado com o disco ‘Standards’, de Thelonious Monk (foram as primeiras notas de ‘Memories of You’, que me conquistaram definitivamente para o jazz), e com o ‘Pithecanthropus Erectus’, de Charles Mingus (e tinha acabado de assistir a biografia de Charlie Parker, ‘Bird’, do Clint Eastwood, e se encantado), demorei um bom tempo para conhecer e apreciar de verdade este trabalho de John Coltrane.

Me lembro vividamente até hoje o exato instante da coisa: havia decidido saber, afinal de contas, qual o grande X deste tal Amor Supremo, preparei meu lugar com cuidado, me fechei para o mundo, acionei o braço da agulha e a rotação do disco dando um ligeiro tranco para a direita, ligando assim o aparelho (no ‘toca-disco’, aquele aparelho ancestral e longínquo que tocava o long-play, a mídia da época, que até se parecia com um cd dos de hoje, só que preto e bem maior), sentei, relaxei, ouvi e fiquei estupefato com a minha própria estupidez em não tê-lo ouvido com a devida atenção há muito tempo atrás!

O impacto de “A Love Supreme” foi absurdamente tremendo na época do seu lançamento. Até hoje, é o disco de jazz mais popular de todos os tempos e um dos mais vendidos (mesmo levando-se em conta a péssima condição das estatísticas relativos ao mercado de jazz e o virtual desconhecimento de cifras e números que reflitam o montante real de suas vendas; o que se pode fazer é uma avaliação aproximada). Lançado em 1965, influenciou e foi reverenciado não só pelos músicos, mas, na prática, pelos movimentos sociais e políticos (década de sessenta, lembre-se, momento dos grandes movimentos de afirmação negra norte-americana e pelos direitos civis), religiosos, e no plano artístico em específico, deixou marcas profundas em todo o universo musical, e não somente jazzístico. Ashely Kahn ajuda a rastrear esse impacto e essa influência, neste livro que eu teria pago com um pedaço da minha existência para poder ter lido na mesma época que estava começando a ouvir jazz (e ao qual fiquei cobiçando desde o primeiro instante que soube que fora editado nos Estados Unidos; sentimentos que chegaram a uma verdadeira aflição quando soube seria editado aqui no Brasil pela Barracuda).

Ashley Kahn escreve sem frescuras, sem pedantismos, sem demonstrações de gíria de músico-escrevendo-para-músico, e ao mesmo tempo sem didatismos infantis dirigidos para um ‘grande público’, sobre como foi o nascimento desse disco, sua gênese e repercussões. Com estilo claro, simples, de um apaixonado pelo jazz, com farta documentação (entrevistou músicos ainda sobreviventes do grupo de Coltrane e pessoas ligadas ao redor, assim como à viúva do saxofonista e seu filho, também músico, Ravi Coltrane), com trechos de entrevistas ainda inéditas do próprio Coltrane (ele não era muito dado a dar entrevistas, acreditava que sua música falava por si mesma e por ele, portanto não falava muito; Kahn aproveita um pouco disso), e muito material fotográfico também inédito.

Portanto, essa edição da Barracuda é uma delicia de se ler, visualmente linda, informativamente embasada, serve tanto para os que já conhecem todos os detalhes (para renovar sua devoção) quanto para os calouros que estão chegando e ainda não sabem o tamanho desse universo.

Para esses, eu diria o seguinte: esqueça o jazz. É, simplesmente deixe de lado. Pegue esse livro e curta-o como um pequeno romance, um artigo de jornal (um ótimo artigo de jornal) um pouco maior do que o comum. Se você tiver o disco ou o cd à mão, ainda melhor, mas deixe-o somente como um pano de fundo, bem baixinho. Não preste atenção na música, neste primeiro momento, não tente entendê-la. (certa vez, Coltrane disse que bastava ouvir a música, não era necessário compreendê-la, não adiantava tentar explicar, o ‘sentir’ vinha primeiro e era mais importante). Portanto, deixe-a de fundo, não a ouça. O que estou tentando dizer, ao final, é: não force a percepção. Leia e deixe fluir.

Ao término da leitura, você pode ter sentido um êxtase religioso ou tomado um novo rumo em seus gostos musicais e ter decidido até se tornar um saxofonista. Ou não. Tenho certeza absoluta que terá tido, pelo menos, uma leitura extremamente agradável, eu garanto.

 

 

 

 

A Mulher de 30 Anos de Balzac

25 de agosto de 2012

 

O ego de Honoré de Balzac era enorme e suas pretensões também. Começando pelo próprio nome: o “de” indica nobreza e foi colocado por ele mesmo. Filho de família modesta, no interior da França, era uma posição a qual nunca teve direito e nunca conseguiu alcança-la, apesar de todos os seus esforços, mas nunca renunciou ao “de”.

Era teimoso, de convicções obstinadas. Desde cedo, decidiu que seria um escritor tão poderoso escritor e faria tanto sucesso que tomaria a França da mesma forma como Napoleão. A única diferença seria pelas armas utilizadas: Napoleão, pelas armas; Balzac, pela pena.

Sua família ficou perplexa. Não era para menos: ele nunca havia se destacado na escola, nunca escrevera algo reconhecido, seus maiores estudos tinham se limitado ao Direito, a qual lhe daria um trabalho decente e uma boa remuneração. Do que precisava mais? Fizeram um acordo: durante um ano, lhe mandariam uma mesada para sobreviver em Paris para escrever. Pelo resultado, decidiriam se ele realmente tinha razão.

Este resultado foi uma peça, uma tragédia histórica chamada “Cromwell”. Não existem resquícios desse texto. Foi rasgada e esquecida. Foi um fracasso para todos que a leram e convenceu sua família de que ele deveria desistir de uma vez com essa loucura.

Balzac reconheceu a derrota nesta batalha. Percebeu que o teatro não fora sua melhor escolha e ainda precisava se aperfeiçoar muito para chegar ao nível de excelência que almejava. Continuou em Paris, agora sem a ajuda paterna, e para se manter começou a escrever novelas fantásticas para jornais. Era uma subliteratura, descartável e esquecível; serviu somente para que Balzac construísse uma disciplina própria, treinasse a escrita e não morresse de fome. Para não se manchar com esses escritos, assinou com vários pseudônimos. Mesmo nessa época, algumas características do futuro clássico já estavam presentes: um ritmo de trabalho alucinado, verdadeira produção industrial, e uma imaginação fértil.

Quando sentiu que estava pronto, abandonou essa subliteratura, começou a assinar com seu próprio nome. E não parou mais de escrever clássicos.

A diferença destas duas fases é estonteante. De um lado, um escrevinhador que vomitava textos ínfimos, de uma nulidade absoluta, puramente por dinheiro. Do outro, um autor com uma densidade e uma pureza artística que nunca foi maculada pela sua aspiração à nobreza, por reconhecimento ou dinheiro. A ascensão do “novo” Balzac foi fulminante.

Está certo que no começo foi devido ao escândalo: ele conseguia causar sensação. Seu primeiro livro “sério” (“Chouans”) era uma imitação do grande sucesso editorial da época, Walter Scott e o seguinte, “Fisiologia do Casamento” primava pelo cinismo, a sátira pesada e a discussão de temas tabus. No entanto, nada que lembre sua antiga produção. Mesmo que estes dois primeiros livros não tenham a mesma qualidade de obras posteriores, até hoje possuem uma frescura e uma densidade ímpar. Sua tentativa de imitação de Scott não deu certo simplesmente porque Balzac já possuía uma identidade e uma escrita própria e personalista que não foi mais abandonada e cujo correr do tempo só fez aumentar e destacar a importância.

O ritmo, a dedicação e a seriedade para com sua literatura eram impressionantes. Escrevia e reescrevia vários rascunhos. Oito, nove, dez, doze vezes. O livro inteiro. Seu desespero pelo melhor fazia com que paralisasse a gráfica enquanto o livro já estava sendo impresso. Isso para a primeira edição. Toda reedição merecia ser reescrita outras duas, três, cinco, dez vezes. Se pensarmos que, quando Balzac morreu, deixou uma obra que abrangia 95 romances, fora as peças de teatro, ensaios e artigos de jornal e lembrarmos que para todos eles o tratamento era o mesmo, podemos ficar espantados com toda a justeza. E ainda precisamos lembrar que ele possuía uma imensa atividade social, teve várias amantes, tentou carreira política, viajou por vários países … A racionalidade é pouca para entender tal gênio.

Ele conseguiu o seu intento. Tomou a França e a conquistou. Montou um painel desta sociedade que estonteia pela amplidão. Em um determinado momento, percebeu que estava, na prática, refletindo a realidade de todo um momento histórico. Mais do que um romancista, decidiu ser um Historiador, um Cientista Social. Todos os seus livros fariam parte de uma mesma e única obra. Haveria um fluxo de personagens de um livro para o outro, uma hora mostrando sua velhice, outra hora o início de sua vida e carreira. Seria a França em sua totalidade, com todas as suas idiossincrasias, seus tipos particulares, sua História, Economia, ambições, maldades, etc. Já estava superando Napoleão; superaria agora o próprio Registro Civil.

Esta obra é a Comédia Humana, constituída por dezessete volumes, mais de oitenta obras entre romances e contos. Personagens que cativam e marcam nossa memória: o jovem estudante Rastignac que deixa de lado seus escrúpulos morais para ascender socialmente (que serviu, mais tarde, como modelo para Dostoievski criar o seu Raskólhnikov, em “Crime e Castigo”); o grande Papai Goriot que sacrifica sua vida pela felicidade das filhas; o judeu Gobsek; a infeliz menina Pierrete e etc, etc. Não cabem nesta resenha. Entre tantos estudos sobre a vida e obra de Balzac, existe um dicionário somente para os personagens da Comédia Humana.

“A Mulher de Trinta Anos”. Esta é, sem dúvida, sua obra mais famosa. Impregnou tanto o imaginário ocidental que muitas pessoas que nunca sequer ouviram falar do escritor francês e nem tem idéia de sua procedência, conhecem a expressão “mulher balzaquiana”. O choque provocado em sua primeira publicação foi bem considerável. Pela primeira vez, um escritor valorizava os pensamentos e desejos de mulheres maduras, prestava atenção em suas angústias, reinvidicava o direito delas serem felizes, bonitas e sensuais e discutia de maneira franca e objetiva os problemas íntimos de casamentos fracassados. Foi um sucesso mesclado com escândalo e comoção social, cujos reflexos chegam até os dias de hoje.

No entanto, literariamente, “A Mulher de Trinta Anos” é uma de suas obras mais fracas, com péssimo desenvolvimento narrativo, personagens frágeis cujas personalidades se contradizem em várias cenas, uma escrita frouxa e mal acabada. Quem começar a conhecer Balzac através deste livro por causa de sua fama, provavelmente se decepcionará e não terá uma idéia precisa do brilho do restante de sua obra.

Na verdade, o livro é a junção de vários contos independentes e escritos em separado que sofreram algumas modificações mínimas, como a troca dos nomes dos personagens, por exemplo, no esforço para constituir um romance único que coubesse dentro da saga maior da “Comédia Humana”. Por isso, momentos brilhantes alternam com outros, baixos, quase constrangedores e personagens agem em contraste absoluto com atitudes anteriores. Sem dúvida, Balzac apararia estas arestas e as ligações ficariam melhor combinadas, mas morreu com apenas 51 anos, completamente esgotado, e com a arquitetura de sua “Comédia”, incompleta.

Muito melhor é conhecer Balzac pelo seus picos: “Ilusões Perdidas”. Ou “Eugenie Grandet”. Ou “Pai Goriot”. Ou até mesmo outros não tão conhecidos (injustamente), melhores (muito melhores!) do que “A Mulher de Trinta Anos”, como “Gobsek”, “Pierret”, “Coronel Chabert”, “A Prima Bete”, “A Casa Nucingen”… Alternativas realmente não faltam.

Dez experiências impressionantes sobre o comportamento humano

11 de agosto de 2012

 

Pense na seguinte situação: você está fazendo parte de uma experiência científica. Entra em uma sala com mais uma pessoa que chega ao mesmo tempo que você, sem saber muito bem o que vai acontecer, só têm uma certa ideia de que se trata de uma espécie de teste de memória. Há um pequeno sorteio para decidir quem vai fazer perguntas e quem responderá. Por este sorteio, você perguntará e se sentará em frente a uma mesa com um microfone e uns aparelhos com botões enquanto a outra pessoa se dirige para uma sala do lado. Com um detalhe: o seu companheiro de experiência sentou em uma cadeira repleta de fios e amarras, as quais você até ajuda a prender.

O esquema é explicado: você lerá uma lista de nomes, várias palavras em cada grupo, e o outro tem que repetir na mesma seqüência. A cada erro que o outro cometa, ele recebe um choque elétrico. Curtos, nem doloridos; irritantes, no máximo. No entanto, a cada erro cometido, a voltagem aumenta. Ao seu lado, está sempre um supervisor (cientista, médico?; pelo menos, vai estar vestido com avental) que monitora a situação e garante a integridade física de quem recebe o choque.

Só que os erros se acumulam e a voltagem fica cada vez mais alta. O cara começa a gritar de dor. Urrar. Você pode até dizer que a coisa toda tem que parar (afinal a pessoa está sofrendo!), mas o supervisor repete que, apesar dos choques serem doloridos, não haverá nenhum dano tissular permanente. O que você faz? Para tudo, e vai embora pra casa, inclusive sem receber os trocados que eles haviam te garantido pagar? Ou continuará aumentando a voltagem, até chegar a um ponto que a pessoa dê um grito desesperado? E final. Até não haver não resposta nenhuma, pois ela não tem condições de responder (terá morrido? os tais danos tissulares terão sido em demasia?)

Não é uma simples história ou pergunta retórica, nem mesmo teórica. Esta experiência realmente foi levada a cabo, em 1961, por Stanley Milgram que desejava entender como funciona o mecanismo de obediência à autoridade. Lembre-se que o peso e o horror do Holocausto eram ainda mais presentes do que hoje, e não se concebia o porque tantas pessoas terem cometido o que realmente cometeram durante a guerra em nome, ou sob a desculpa, de estarem obedecendo ‘ordens’. Milgram era professor-assistente de psicologia de Yale e tinha a hipótese de que o determinante não era a figura da Autoridade em si, mas o poder da situação. Dependendo da situação, pessoas comuns, normalmente pacatas, poderiam se tornar bestas agressivas e passivas, obedientes.

Voltando à pergunta: o que você, caro leitor deste texto na internet, faria no lugar. Você giraria o botão? Os choques não são reais, a cadeira com os fios é falsa, o seu ‘colega’ de experimento na verdade é um ator que representa a dor até onde você permita. Mas tudo isso só se fica sabendo Depois. Na hora, tudo é real: você está dando choque em uma pessoa! Independente do que você responda neste momento, o fato é que é impossível se ter certeza, a não ser que estivesse passando pela experiência mesmo. Você sabe!, que não faria isso, não é mesmo?; que não cometeria um ato tão brutal.

Naquela tarde de junho de 1961, de 100 homens comuns e pacatos de New Haven, Connecticut, homens que fizeram o tal ‘teste de memória’, 65 giraram o botão, aumentando a dosagem a ponto de ‘matar’ a outra pessoa.

65.

O que isso prova? O que Milgram realmente provou? A partir do experimento, podemos partir para conjecturas e discussões infindáveis, mas o fato inegável é que há algo aqui, estranho. Muito forte. Muito potente. Foram 65!

Lauren Slater, psicóloga, autora de vários livros, entre os quais “Bem Vindo ao Meu País”, resgata em “Mente e Cérebro” – Dez experiências impressionantes sobre o comportamento humano” dez grandes experimentos realizados no século XX que, normalmente, ficam relegados a livros didáticos ou obras de referência em universidades de psicologia ou em revistas especializadas. Grandes no sentido de que provocaram súbitas rupturas, promove olhares para profundezas insuspeitadas no ser humano, desconcertam, polemizam. Ferem. E são alvos de discussão e polêmica até hoje.

Das “caixas de educação e condicionamento” de Skinner ao “sugestionamento social” de John Darley e Bibb Latané, da “Teoria da Dissonância Cognitiva” de Leon Festinger aos experimentos com macacos de Harry Harlow, cada uma provoca um estranhamento absurdo ao que pensávamos que fosse certo e estabelecido. Eles desconstroêm e derrubam estas certezas ilusórias, com golpes fulminantes.

O mérito de Lauren Slater é de, que além de resgatar estas histórias, faz questão de apresentá-las do modo mais humano, passional e direto possível. Ela entra em contato com as pessoas que participaram dos projetos, pede sua opinião, observa como elas evoluíram, como pensam o que fizeram anteriormente. Fala do impacto dos experimentos, quais suas conseqüências, como foram combatidas pelo seus inimigos. Ela nunca deixa de enfatizar e esclarecer o outro claro, as opiniões contrárias. E quando possível, também tenta repetir, ao seu modo, as experiências.

Retoma, por exemplo, o que fez David Rosenhan que, em 1972, quis testar o “quanto os psiquiatras eram capazes de diferenciar os sãos dos insanos”. Como? Pediu para oito amigos que se apresentassem em algum hospital mental e dissessem para os médicos que estavam ouvindo um barulho, “uma voz que dizia Tum”. Mais nada. Que não mentissem sobre suas vidas, que não acrescentassem novos sintomas. Somente o barulho. Tum. Rosenhan também faria a mesma coisa e verificaria quantos seriam internados e por quanto tempo. Todos! foram internados, todos “exceto um deles, tinham recebido o diagnóstico de esquizofrênicos, com base num único sintoma idiota (a exceção recebeu o diagnostico de psicose maníaco-depressiva)”, a média de permanência foi de 19 dias (a mínima foi sete, a máxima 52). E todos “foram liberados com sua doença em remissão, o que significa, obviamente, que sua sanidade essencial nunca fora detectada e que sua presente sanidade foi entendida como uma flutuação temporária”.

A gritaria foi tremenda (como em todos os outros experimentos, aliás). Aquilo seria uma farsa, uma brincadeira absurda, e foi lançado um desafio, aceito por Rosenhan: que em três meses, ele mandasse outros pseudo-pacientes, cuja quantidade fosse segredo, e os hospitais se incumbiriam de desmascará-los. No final dos três meses, orgulhosos e arrogantes, eles identificaram 41 mandatários de Rosenhan. 41. Acontece que ele não tinha mandado ninguém. Absolutamente ninguém.

Lauren resolve repetir a experiência. O que, provavelmente, seria uma brincadeira boba, logo descoberta. Estamos no século 21, muita água rolou, estes experimentos fazem parte da literatura médica de qualquer estudante de psicologia. Ela vai em frente. Utiliza inclusive o mesmo sintoma do Tum, e mais nada. Ela seria internada?

Até pensei em acabar a resenha aqui, para instigá-los a ler o livro, mas acho que é sacanagem. O resultado do re-experimento de Lauren foi o seguinte: ela foi a oito hospitais em seguida. Não foi internada em nenhum. Em todos recebeu o diagnóstico de depressão psicótica, e saiu carregada de remédios antidepressivos e antipsicóticos.

E ninguém lembrou da história de Rosenhan.

“Mente e Cérebro” – Dez experiências impressionantes sobre o comportamento humano”  é um livro que mete um certo medo pelas suas vastas implicações.

Sylvia Plath, Diários e a incógnita de sua morte

25 de julho de 2012

 

Entender a vida de uma pessoa (qualquer pessoa) é uma incógnita que incomoda e atiça a curiosidade da humanidade; a quantidade de biografias de personalidades famosas (ou que, pelo menos, teve o seu quinhão de celebridade, seja por qualquer motivo) nunca diminuiu e sempre constituiu um ‘gênero’ de enorme sucesso. Sylvia Plath, no entanto, inverteu essa equação. É sua morte que incomoda, que estranha, que fustiga a imaginação dos curiosos, confunde os estudiosos, atrapalha a vida dos sobreviventes. Pois esta morte pode ser considerada como uma espécie de catástrofe que continua fustigando aos que a conheceram e com ela se relacionaram. Ou quem sabe tenha sido a finalização inevitável de uma crise permanente (social, pessoal, mental) que sempre a teria acometido e finalmente explodido em um ato de auto-imolação. A Nêmesis atacando pelas suas próprias mãos, após uma tocaia incansável. Houve quem considerasse seu suicídio como um acidente infeliz: ela teria armado uma situação na qual pudesse ser resgatada antes do desenlace, mas da qual perdera o controle e seus vizinhos não teriam compreendido que estava acontecendo alguma coisa de errado em seu apartamento.

E há a grande questão, aquela que divide os pesquisadores, os biógrafos, os parentes, os admiradores de poesia e aqueles tais curiosos: a participação de seu marido, Ted Hughes (ele próprio um poeta respeitado e com carreira literária independente), criador de uma situação que teria tornado insuportável a vida de Sylvia (tornando-o, portanto, no vilão maquiavélico da história); ou, então o marido incapaz de suportar a paranóia de uma mulher ciumenta e desequilibrada e com impulsos suicidas (e, nesse caso, a vitima teria sido ele).

Poderia-se perguntar, na verdade, por quê a morte de Sylvia comove e intriga tanto, por quê nos afeta dessa forma. As respostas seriam variadas, abundantes e contraditórias entre si tanto quanto as colocadas acima, mas o fato é que isso acontece. Talvez seja chocante demais ter se matado uma pessoa tão inteligente, jovem, bonita e instigante, no auge de sua produção literária e reconhecida como das mais importantes poetas norte-americanas. Talvez toque em fibras psicológicas internas que nos afeta a todos, embora muitas vezes nem tenhamos consciência delas, e quando as percebemos não temos coragem de encarar. Não haverá aqui algum tipo de laço que nos une, forçando-nos a aceitar que somos humanos, isto é, fracos, frágeis, sempre à beira do desespero à borda de um precipício? Nesse ponto, a publicação dos diários de Sylvia Plath deveria nos ajudar a entender sua vida, sua mente, seu íntimo mais profundo e, conseqüentemente, sua morte.

Escritora compulsiva, Sylvia jogava em seus cadernos todos os detalhes, pensamentos, considerações e ações pelas quais passava, desde os 13 anos até dias antes de morrer, com poucas interrupções. Mais do que impulso, uma necessidade, uma fundamentalidade. Certa vez, ao ter passado por uma crise pessoal, onde se misturou um braço quebrado, ela considerou indispensável colocar isso no papel para ter uma visão correta do que acontecera e sua diferença com o presente: “Portanto, este é o trecho inicial incipiente da virada. Ainda bem que expus aqui parte do inferno pavoroso por que passei. Caso contrário, do ponto de vista privilegiado atual mal poderia crer nele!”. Em outro momento, é ainda mais enfática: “É impossível ‘capturar a vida’ se a gente não mantém diários.”

Os diários em si, os cadernos, também possuem uma história, que se tornou extremamente complicada com a morte de Sylvia. Alguns cadernos foram obstruídos por Hughes e guardados sigilosamente para serem abertos somente anos depois. Aos poucos, ele foi liberando-os. Mas, dois não foram encontrados. Um teria desaparecido, conforme ele, não localizado até hoje. O outro, o último, no qual Sylvia escreveu até três dias antes de morrer, foi confessadamente destruído. É obvio que isso só aumentou as desconfianças e o ódio da facção Contra-Hughes. Fora estes, todos os cadernos da fase adulta de Sylvia Plath, de 1950 a 1962, estão reproduzidos aqui, nos mínimos detalhes, com os desenhos que ela colocava de vez em quando, as misturas com letras, até erros de linguagem: estão tal e qual foram escritos.

É possível se dizer que nestas páginas estão contidas as chaves para se entender o desenvolvimento do psiquismo, da vida, e em conseqüência, da morte da poeta? Pergunta-monstro. No entanto, uma falsa pergunta que leva a caminhos equivocados. Pois o que encontramos, no final das contas, são as palavras de uma mulher extremamente inteligente, consciente de sua força como artista, mesmo com grandes graus de auto-crítica, consciente também de sua beleza e de seu vigor sexual, de enorme insegurança no trato com o marido e com os filhos.

E tudo isso já sabíamos. O que acontece é que quanto mais paginas escritas, quantos mais detalhes acumulados, quanto mais pensamentos assimilados, mais a incógnitas aumentam em ritmo, tamanho, profundidade e espacialidade possíveis em relação diretamente proporcional. Talvez seja melhor encarar os Diários como Texto e deixarmos de lado um pouco a questão da intimidade ‘real’ de uma pessoa. E nesse caso encontraremos um livro denso, complexo, com milhões de detalhes e, em muitos trechos, até mesmo belo, que deve ser absorvido com vagar, com apreciação. Além de estar entupido de notas, explicações, apêndices que ficam em separados para não interromper a fluidez da escrita. Como diz Karen V. Kukil, a organizadora dos originais, “Sylvia Plath fala por si nesta edição integral de seus diários”. A interpretação fica, portanto, por conta de cada leitor.

 

 

 

Trilogia do Invisível, de Eric-Emmanuel Schmitt: fábulas modernas de religiões modernas

16 de julho de 2012

 

Eric-Emmanuel Schmitt é um fenômeno editorial na França e em todo o mundo, dramaturgo, escritor, roteirista e sua famosa “Trilogia do Invisível” vendeu mais de meio milhão de livros, foi traduzido para dezenas de países, foi adaptada para o teatro e cinema.

Três histórias que tem como eixo as principais religiões da humanidade. “Milarepa” (Budismo), “Seu Ibrahim e as flores do Corão” (Islamismo), “Oscar e a Senhora Rosa” (Cristianismo). São contos, pequenas fábulas que, de certa forma, nos remetem de imediato a outras obras que também tiveram bastante repercussão e que se tornaram referências, como “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder, que mostra a história da filosofia através de perguntas existenciais dirigidas à adolescente Sofia, e “A viagem de Théo”, de Catherine Clément, um amplo painel das religiões no mundo atual por meio da história de um garoto que faz uma viagem ao redor do mundo em busca de uma cura para seu câncer. O que liga estas obras é o seu sentido diretamente paradidático: o enredo é construído como um pretexto para transmitir lições específicas. Tanto que, num caso, as lições de filosofia são verdadeiros capítulos em separado e, no outro, a apresentação das tendências religiosas são aulas dirigidas para o garoto e o leitor.

Schmitt faz um trabalho bem diferente e muito mais rico. Não há um sentido didático específico. As idéias religiosas estão internalizadas pelo contexto do enredo e dos personagens. Em vez de falar sobre reencarnação, uma história cujo eixo é o final do ciclo de uma vida comum que tem relações com um antigo mestre budista; em vez de falar das diferenças entre os árabes e muçulmanos, a história da convivência de um garoto judeu com velho árabe simpático, dono de uma mercearia na moderna Paris; em vez de falar sobre os propósitos indefinidos de um Deus abstrato, a relação cara-a-cara de um menino prestes a morrer com um Deus vivo e próximo. Em vez de lições, exemplos de vida, práticos e ligados ao nosso cotidiano contemporâneo. Tudo embalado por uma prosa simples, delicada, aliciadora. A “mensagem” torna-se, assim, mais poderosa. Dá para entender por que fez tamanho sucesso.

O que não quer dizer que os resultados sejam de uma qualidade constante. Os resultados são até meio que irregulares. ‘Milarepa‘ é, de longe, o mais fraco. Talvez justamente por que essa proximidade não esteja tão acentuada quanto nos demais. Apesar de começar com Simon, um rapaz parisiense que toma seu cafezinho todo dia, mas cujo rotina é interrompida por conta de um insistente sonho que atravessa suas noites onde ele é um homem esquisito repleto de um imenso ódio por alguém. Uma estranha senhora interpreta o sonho e conclui que ele é a encarnação do tio de um antigo místico budista chamado Milarepa. O sonho revela o modo como Milarepa passou de herdeiro prepotente de uma rica família para uma existência de abnegação, renúncia e sabedoria e como seu tio o perseguiu quase até à morte. A roda das existências do tio só terminaria quando ele tivesse contado sua história cem mil vezes. Simon só espera, então, que esta seja sua centésima milésima vez.

Para ler ‘Oscar e a Senhora Rosa‘ é preciso ter um lenço à mão, pois esta história é feita sob medida para fazer chorar. A história é tão melosa, melodramática mesmo, que com outro autor seria insuportável. Ainda bem que Schmitt consegue conter a mão e o livro acaba como que iluminado por uma delicadeza e emoção tais que somos rendidos pela força do escritor.

Pois Oscar está morrendo de um câncer terminal. Nestas condições, como pensar em coisas absurdas como o amor de Deus, sua onipresença e tudo? A vovó-rosa, a senhora que visita as crianças no hospital faz uma sugestão: escrever para Deus, contando de suas angústias, reclamações e até pedidos. Oscar a princípio fica desconfiado, mas concorda. Os capítulos do livro são as cartas que Oscar vai escrevendo. E, aos poucos, ele vai reconhecendo Deus em pequeníssimas coisinhas do dia-a-dia, as limitações e fraquezas das pessoas ao seu redor, até dos seus próprios pais, descobre o amor e a amizade. Tudo em doze dias, uma vida inteira e completa em doze dias, que é o tempo que lhe resta. A lição de amor e confiança que Oscar transmite provoca em nós, leitores, uma curiosa inversão: tal qual seus pais, o médicos, as enfermeiras e até a Senhora Rosa, somos tocados pela força que emana dessa criança de dez anos, ou cento e dez anos. O final é de rasgar o coração de qualquer ser sensível.

Falo por último do segundo livro, ‘Seu Ibrahim e as Flores do Corão‘, por este ser o melhor de todos, sem as fraquezas narrativas do primeiro e sem os exageros melodramáticos do terceiro. Seu Ibrahim é um velho árabe dono da mercearia que se aproxima de Momô, de doze anos, por causa de uma situação extraordinária e inusitada. Na verdade, eles já se “conheciam”, pois Momô costumava roubar latas de conserva quando o árabe se distraia. Momô presencia o momento quando, em um quente dia em Paris, Brigitte Bardot interrompe uma sessão de fotos que estavam sendo feitas no bairro para comprar uma garrafa de água… justamente na mercearia do árabe! E quando vai pagar, ele cobra quarenta francos. O menino e Brigitte se assustam, pois o preço normal era dois francos. A água não era rara; as verdadeiras estrelas, sim, diz o velho com um charme impressionante, a ponto de embaraçar a atriz.

Custei a acreditar.
– Puxa, seu Ibrahim, que cara-de-pau!
– Pois é, meu pequeno Momô, preciso compensar todas as latas que você anda afanando de mim.
Foi nesse dia que ficamos amigos.”

A inusitada amizade adquire uma profundidade insuspeitada, que mudará a vida do garoto, do velho e do leitor. Saberemos que as aparências são enganadoras demais: Momô, afinal, não é seu nome: é Moisés; o árabe, afinal, não é árabe, é muçulmano; aliás, não qualquer muçulmano, mas sufi (e o garoto fica pensando que doença é essa). Pelas brincadeiras, pelo uso do Corão, que nunca vemos nem lemos, mas cujos preceitos acabam sendo aplicados diretamente na vida cotidiana, pela descoberta de uma inteligência interior, pelo uso do sorriso como atitude básica… Amizade acaba se tornando uma palavra muito fraca para descrever seu relacionamento. Lirismo, ternura, inteligência, humor… Seu Ibrahim é uma das maiores figuras da literatura mundial. Eric-Emmanuel Schmitt aqui se torna simplesmente sublime.

‘A Trilogia do Invisível’ vai para além dos seus contextos e objetivos religiosos e místicos; não é necessário ser praticante de uma das dessas religiões (ou quaisquer outras) ou rejeitá-la de imediato por ser ateu (como eu), para apreciar a força da escrita de Eric-Emmanuel Schmit e ficar embalado pela beleza da narrativa. Basta ter sensibilidade e ser humano.

Omar Shariff na adaptação de ‘Seu Ibrahim e as Flores do Corão’

O Botão de Puchkin

28 de maio de 2012

 

Serena Vitale nos faz mergulhar nos quatro últimos meses da vida de Puchkin, o poeta nacional da Rússia. Mais do que uma simples biografia, no entanto, ela compartilha conosco toda a emoção da pesquisa, das informações desencontradas e dos debates acalorados que até hoje persistem. Ela nos conduz pelos labirintos das intrigas, nos faz presenciar a caça de documentos, de cartas escondidas, de outras desaparecidas para sempre e de outras que somente agora vieram à luz. Um verdadeiro trabalho de detetive e de dedução, tentando separar os fatos dos simples boatos, as acusações das maledicências puras, para somente depois de muita procura e averiguações, tentar chegar a alguma conclusão. Ela nunca faz uma afirmação sem especificar de quem foi buscar a informação e tentar entender a sua validade e veracidade.

As circunstâncias da morte de Aleksandr Puchkin ainda estão cercadas de muita polêmica. Não do duelo em si: no dia 27 de Janeiro (8 de Fevereiro, segundo o Calendário Juliano) de 1837, o poeta duelou com pistolas com Georges d’Anthès, um oficial francês que havia pouco tempo tinha se incorporado na guarda russa e se casado com a irmã da mulher de Puchkin, Natalia. O casamento provocou um verdadeiro furor na alta sociedade russa, pois todos sabiam (ou comentavam, ou fofocavam) que ele havia se casado somente para poder disfarçar sua verdadeira paixão, Natalia. Mas as investidas de D’Anthés não teriam parado mesmo com o casamento e Puchkin o desafiara, afinal, para defender sua honra. O poeta recebeu um tiro no estômago e morreu depois de três dias de agonia.

As paixões e os sentimentos aqui envolvidos complicam esta história que, em tudo, lembra o enredo de uma novela romântica, inclusive de algumas escritas pelo próprio Puchkin. Quando morreu, o poeta gozava do auge de sua fama. Estava somente com 37 anos de idade, mas já tinha moldado toda uma literatura: era o líder (e praticamente o fundador) do movimento romântico russo; suas baladas e suas sagas de personagens históricas, escritas em formas de versos, buscavam inspiração nas raízes culturais e folclóricas nacionais; foi o primeiro a utilizar a linguagem popular, cotidiana, em seu trabalho literário, criando uma mescla de beleza e alto rigor lingüístico ao mesmo tempo em que popular e acessível. É reconhecido como o criador da língua moderna russa.
É um verdadeiro herói em sua terra. A cada ano, uma caravana se dirige ao seu túmulo na data de sua morte levando velas e flores, passando a tarde declamando seus poemas.

Além disso, Puchkin era um satírico mordaz, um crítico inteligente e divertido, o que certamente só aumentava sua popularidade. Se como poeta podemos compará-lo ao romântico Lorde Byron e, como formador cultural, ao também romântico Goethe, como satírico é inevitável pensar em Voltaire, com a mesma crítica social e sátira corrosiva.

E há o mesmo relacionamento de amor e ódio para com a aristocracia. Mesmo não fazendo parte de nenhum partido político de oposição (potencialmente perigoso para uma sociedade dominada pela feroz autocracia czarista), ele incomodava e dava muito trabalho para os censores que, em troca, eram constantemente fustigados pelas palavras impiedosas do poeta.

Fama e popularidade, no entanto, não se traduziam em dinheiro. Nascido em família nobre, mas empobrecida, mesmo assim conseguiu casar com a mais bela moça da família Gontcharov. Todas as descrições são unânimes: por onde quer que passasse, Natália Nikolaevna brilhava e ofuscava todas as outras beldades, despertando a inveja das mulheres e a admiração dos homens.

E praticamente por aí acaba a unanimidade. Qual a personalidade de Natália, quais as suas idéias e sentimentos, é impossível saber. Não existe documentação, nenhuma carta sobrou. Ela está muda para nós. Só podemos ouvir os murmúrios de outros, percebemos ecos pelas cartas de Puchkin que chegaram até os dias de hoje. Sabemos que gostava de participar dos bailes, onde era a rainha incontestável. Palavras maldosas nos dizem que tanta beleza era uma magnífica capa para uma pessoa frívola e coquete cujo único propósito na vida era justamente (e somente) dançar. A verdade se dispersa no meio dos murmúrios.

Georges D’Anthés também não é fácil de discernir. Execrado pela sociedade russa, expulso das forças armadas do país, voltou para a França em desgraça. Sua vida estabilizou-se, viveu longamente (até os 83 anos) tornou-se político, anos depois foi embaixador designado pelo próprio Luís Bonaparte para fazer negociações (ironia das ironias!) com o czar. Até onde ele teria ido em suas investidas em Natalia Puchkina? Até onde ela teria cedido? Até que ponto tudo foi uma brincadeira inconseqüente? Ou uma traição consciente?

A grande qualidade do texto de Serena Vitale é o modo como ela consegue nos fazer sentir como se estivéssemos participando junto com ela desta investigação. Batemos cabeça, nos desesperamos com a falta de informação ou ficamos perdidos com tanta informação desencontrada. De repente, ela pára a narrativa, nos traz para o presente, diante de um baú da família dos descendentes de D’Anthés e encontramos cartas! Com emoção, abrimos os envelopes e gritamos de alegria: buracos inteiros da história são finalmente revelados, dúvidas são esclarecidas, a busca paciente valeu a pena. Tudo bem que novos problemas sejam colocados, isso também faz parte.

Um exemplo particularmente interessante é sobre as cartas anônimas. Alguns meses antes de sua morte, Puchkin e vários outros membros da sociedade receberam cartas anônimas dizendo que o poeta teria aderido ao Clube dos Cornos. Irascível, passional, ciumento, briguento, sensível para os mexericos desta sociedade que conhecia tão bem, Puchkin não precisava de muito mais para desafiar D’Anthés. Estaria ele também convencido da frivolidade de sua mulher ou foi somente para resgatar a humilhação do seu orgulho ferido? O fato é que estas cartas, das quais existem ainda duas cópias, foram a gota d’água.

Sua autoria nunca foi estabelecida ou provada, embora as discussões tenham sido intermináveis. Vitale repassa todos os possíveis culpados, compara suas letras, julga os possíveis (e os necessários) dotes culturais para a feitura da redação, relaciona os graus de amizade e relacionamento com a alta sociedade russa e, no final, com relativa segurança, indica-nos quem, na sua opinião, teria sido o responsável.

A impressão é que Vitale sabe tudo, leu tudo, conhece todo mundo. Para a autora, não se trata de personagens históricas, mas gente de carne e osso que amou, sofreu, odiou. Mais do que isso, ela consegue transmitir essa compaixão e sua empatia em um texto emocionante que lemos como se fosse um romance policial; viramos as páginas sofregamente, ansiosos não só para descobrir as novas revelações, mas o modo como isso foi feito. E para o leitor que for fisgado (o que é fácil, basta começar a ler) e chegar até o final, Serena Vitale nos recompensa com o fruto desse esforço, uma extraordinária e impactante conclusão.

Sem dúvida, um belo e instigante livro que consegue fazer do ato de escrever seu verdadeiro personagem principal.

 

 

Christopher Hitchens e o Julgamento de Kissinger

16 de dezembro de 2011


Henry Kissinger, prêmio Nobel da Paz em 1973, secretário de Estado dos EUA durante os governos de Nixon e Gerald Ford, atual consultor político internacional, empresário muito bem-sucedido e escritor com artigos publicados em revistas e jornais do mundo inteiro, já passou por alguns apertos. A cada dia, novos e esclarecedores documentos estão sendo levantados e mais países estão contestando sua antiga e poderosa atividade como secretário de Estado.

Na apresentação d´O Julgamento de Kissinger, de Christopher Hitchens, publicado no Brasil pela Boitempo, Giancarlo Summa lembra que, em maio de 2001, enquanto passava pela França, Kissinger foi abordado pela policia francesa para prestar esclarecimento sobre a morte de cinco franceses durante a ditadura de Pinochet no Chile. A resposta de Kissinger foi sair do país no mesmo dia.

Um juiz argentino intimou-o a discutir sua participação na tristemente famosa Operação Condor; tribunais chilenos, sobre a morte do jornalista norte-americano Charles Horman (cujo seqüestro e assassinato formaram o assunto de um dos mais contundentes filmes políticos de todos os tempos, “Missing” de Costa-Gavras); o jornalista e professor Emir Sader comentou que “a própria Corte Federal dos EUA acusa Kissinger pela´execução´ sumária do general chileno René Schneider”.

Acusações sérias? Bom, ainda não chegam perto das que Christopher Hitchens realiza neste livro. Para o autor, Kissinger deveria estar sentado ao lado de Pinochet, o sanguinário ditador chileno, e junto com o ditador sérvio Milosevic, respondendo por crimes contra a humanidade da mesma forma como os nazistas julgados pelos tribunais internacionais.

Kissinger nunca primou pela delicadeza em relação ao comportamento norte-americano em sua luta contra os “inimigos”, fossem eles quais fossem, embora sempre houvesse uma “predileção” pelos comunistas. Sua famosa frase “Não vejo porque temos que ficar parados enquanto um país se torna comunista em razão da irresponsabilidade de seu povo”, define toda sua personalidade e sua atuação como político. Foi gestor consciente da “realpolitik”, onde não há muitas considerações sobre a ética e a moralidade, principalmente quando elas atrapalham os interesses norte-americanos.

Mas não é contra isso que Hitchens se levanta. Ele não está contestando as possíveis atitudes dúbias de algum estadista que acaba tendo que tomar decisões moralmente complicadas por conta de algum interesse nacional maior.  Hitchens não está fazendo nenhuma discussão filosófica ou de oposição política. Ele é direto e objetivo: Kissinger é um criminoso, mesmo que bancado pela mais poderosa nação do planeta e, dessa forma, deve ser julgado. Este livro foi escrito, portanto, como uma peça dessa acusação.

Hitchens assume uma postura clara desde o prefácio: ele é adversário político de Kissinger, sim, mas está se restringindo a fatos e atitudes que sejam criminalmente caracterizados. Quanto a sua posição, não há duvidas. Comentando sobre os resultados da guerra do Vietnã, ele diz:

“Isso é o que custou promover Henry Kissinger da condição de acadêmico medíocre e oportunista a potentado internacional. As marcas estavam lá desde o momento inaugural: a adulação e a duplicidade; a adoração pelo poder e a ausência de escrúpulos”, “e os efeitos distintos também estavam presentes: os incontáveis mortos; as mentiras oficiais e oficiosas sobre o custo; a pesada e pomposa pseudo-indignação diante de perguntas indesejáveis”.

Hitchens não se importava com a possível ridicularização de sua obra. Ele encara de frente: “Eu já posso ouvir os guardiões do consenso tentando classificar isso como uma ‘teoria da conspiração’. Aceito o desafio, com prazer”, para, logo em seguida, desfilar uma avalanche de documentação, citações, testemunhos, notas, transcrições de gravações, etc.

Quais são, então, as acusações? Ele define seis:

– genocídio deliberado de civis na Indochina;

– conluio deliberado no genocídio e em posteriores assassinatos em Bangladesh;

–  suborno e planejamento de assassinato de um oficial graduado numa nação democrática – o Chile – com a qual os Estados Unidos não estavam em guerra;

– envolvimento pessoal para assassinar o chefe de Estado numa nação democrática – Chipre;

– promoção e facilitação de genocídio no Timor Leste;

– envolvimento pessoal em um plano para seqüestrar e assassinar um jornalista residente em Washington.

Nenhuma dessas acusações é novidade. Kissinger já está respondendo ou fugindo dessas questões há algum tempo. O mérito de Hitchens é o de aproveitar todo um material novo, como a documentação liberada em 2000 pelo FBI, por exemplo, e de conseguir apresentá-lo de uma forma direta e limpa, “traduzindo” para a linguagem comum o pesado jargão jurídico e burocrático. Além de revisar todo o material antigo já existente.

Não são afirmações levianas, portanto. Jornalista acostumado com a polêmica, disse que desde que se radicou nos Estados Unidos na década de 80 (ele é britânico, nascido em 1957), se sentia obrigado a dizer a verdade sobre essa sinistra figura. Foi-se armando, coligindo dados e informações até escrever dois artigos que formaram a base deste livro. (Antes disso, já havia criado uma enorme polêmica quando “ousou” investir contra uma pessoa que ninguém julgaria passível de recriminação: Madre Teresa de Calcutá. Bateu forte, realizando uma profunda desmistificação da vida e da obra dela e demonstrando o quanto suas pretensas “santidade” e caridade foram conscientemente construídas. Qual será a editora brasileira que traduzirá e publicará este livro, afinal?)

Quais são as possibilidades, porém, de que Kissinger venha a ser seriamente questionado e tenha que responder pelos seus atos e, quem sabe, sentar em qualquer tipo de banco de tribunal? Hitchens acredita que está mudando a atitude internacional perante as “grandes figuras políticas”; está se perdendo o respeito irrestrito a sua impunidade parlamentar. Ele cita o caso justamente dos agravos de Pinochet e Milosevic.

Acrescenta que o próprio Kissinger reconhece o perigo por que está passando. Não foi à toa que escreveu um livro em que discute justamente a questão da “doutrina universal”, cujo titulo “Does America Need a Foreign Policy?” (A América precisa de uma política externa?) já diz tudo. Por outro lado, ele até hoje não devolveu cerca de cinco mil páginas de material secreto que retirou das gavetas do governo quando deixou seu cargo de secretário de Estado, em 1977, ignorando solenemente todas as instâncias jurídicas.

Tenho minhas dúvidas se algum dia Kissinger possa ser efetivamente condenado (ou, sequer, julgado). Sua conduta está tão imbricada na razão de ser do império norte-americano, sua arrogância e prepotência representam tão bem a própria arrogância e prepotência desse país, que julgar Kissinger é o mesmo que julgar o próprio imperialismo. Na época do lançamento desse livro, o jornal A Folha de São Paulo, por exemplo, publicou um artigo seu (“Intervir no Iraque surge como imperativo”, 11 de agosto de 2002) que demonstra o quanto ele está sintonizado com o público norte-americano.

O livro de Hitchens é uma bela tentativa no sentido de ajustar as contas. Forte, poderoso, instigante. É um ataque apaixonado, decidido, mas ao mesmo tempo, lúcido e equilibrado. Indispensável para qualquer pessoa com um mínimo de coerência política e interessada na justiça.

 

obs – texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer (se não me engano) e republicado agora por conta da morte de Hitchens, cujas polêmicas farão imensa falta

obs2 – a pergunta que eu fiz no texto ainda continua válida: agora com a morte de Hitchens, alguma possibilidade de, afinal de contas, publicarem seu livro sobre Madre Tereza??

 

 

 

Os três mosqueteiros

27 de novembro de 2011

Os franceses são um povo meio complicado. Depositária de uma herança que ajudou a moldar a mentalidade, o pensamento, a cultura do planeta, principalmente do seu lado ocidental, a França sempre foi um viveiro de pensadores, cientistas e artistas das mais variadas espécies: pintores, músicos, escritores, cineastas, etc. Criadora de movimentos culturais e políticos com repercussões mundiais e permanentes. Além de abrigar manifestações do mundo inteiro: a França foi a segunda pátria para jazzistas norte-americanos que fugiam do racismo em sua terra natal e recebiam, muitos pela primeira vez, respeito, admiração e espaço para trabalhar e criar; os franceses foram os primeiros também a reconhecer Hitchock como um verdadeiro artista, acolheram os filmes noir de Hollywood e, ao mesmo tempo, montaram seu reverso, a Nouvelle Vague. Enfim, essa lista poderia se estender ad infinitum.

Por outro lado, é a mesma França que concede a Legião de Honra para um Paulo Coelho e sua “inestimável contribuição para a humanidade”. Bom, isso em si não seria um verdadeiro crime (já que Paulo Coelho “enfeitiçou” o planeta inteiro), não fosse um pequeno fato ocorrido no final de 2002: Em novembro desse ano, os restos mortais de Alexandre Dumas começaram a ser transferidos de Villers-Cotterêts para o Panteão em Paris. O fato pode ser pequeno, mas seu significado é tremendo.

Para se ter uma idéia apropriada, é preciso saber que o Panteão abriga ídolos franceses centenários, personalidades que carregam o próprio significado de sua identidade nacional, pessoas como Voltaire e Vitor Hugo. Ser depositado ali quer dizer que Dumas foi colocado no mesmo nível  desses outros gigantes. Como disse Gilles Lapouge na ocasião: “O que espanta não é o fato de Alexandre ser admitido no Panteão. O que precisamos dizer é exatamente o contrário: por que o Panteão demorou tanto tempo para acolher as cinzas desse gigante da literatura francesa e mundial?”. Lapouge também dá a resposta que, infelizmente, é muito simples: Dumas sempre foi considerado, pelos franceses, “como um autor de segunda categoria”. O escritor francês mais traduzido no mundo inteiro, cujas obras alcançaram a imaginação e a vivência de gerações inteiras, que ajudou a espalhar e generalizar símbolos da história, da sociedade e da força tipicamente francesas e que era admirado e respeitado por escritores do quilate de um Vitor Hugo e Honoré Balzac, demorou mais de cento e trinta anos depois de sua morte para ser considerado um escritor sério e competente com direito a ficar do lado de autores clássicos!

Depois de um Paulo Coelho receber a tal Legião de Honra e tal.

Foi um francês quem disse que o Brasil não era um país sério.

A literatura de Alexandre Dumas caracteriza-se justamente por uma agilidade narrativa impressionante, com altas cargas de emoção, suspense e ação. Ele não se envergonhava de ser melodramático, sentimental, exagerado. Sua maior qualidade eram os diálogos: rápidos, cortantes, inteligentes, incisivos. Além de serem agradabilíssimos de ser lidos, constituem elementos fundamentais para a trama e por meio deles o enredo é alavancado. Nisso, Dumas continua sendo um mestre indiscutível até hoje. Além do que, o carisma, a empatia e a densidade com que conseguia envolver seus personagens, transforma-os em verdadeiras personalidades que marcam indelevelmente nossa mente.

São romances de aventuras, de intrigas palacianas, de heróis destemidos e de vilões malignos que fazem ferver a imaginação e, acima de tudo (pecado dos pecados!), são divertidos!! Dumas foi desprezado e desdenhado pela intelectualidade porque possuía uma característica que o incapacitava: era popular! Como tal escritor poderia ser considerado “sério”?

A própria vida de Dumas daria um enredo perfeito para algum de seus romances (e certamente passou muita coisa de sua experiência própria para os livros). Começou sua carreira como dramaturgo, já com muito sucesso. Escreveu por volta de quinze peças (pelo menos uma das quais, “La Tour de Nesle”, considerada como uma obra-prima do melodrama francês), mas foi quando se voltou para o romance que ele realmente “estourou”. Ficou famoso e idolatrado, ganhou rios de dinheiro e gastou-os na mesma proporção, com festas, mulheres, viagens, palácios e, portanto, estava sempre envolvido em luxo e dívidas, caçado pelos credores. Possuidor de um ritmo frenético de trabalho, escreveu milhares de páginas. Quando morreu, deixou por volta de duzentas e cinquenta obras. Escrevia tanto e tão rápido que durante um certo tempo pairou a suspeita de que ele, na verdade, pagava uma equipe de secretários para isso e ele só assinava. Intrigas da Academia.

Athos, Porthos, Aramis, capitaneados pelo cativante d’Artagnan,  e o seu brado de guerra e declaração de amizade infinita, o “Um por todos e todos por um”, são conhecidos até mesmo por quem nunca chegou sequer perto do livro. D’Artagnan, o jovem ansioso por aventuras e honrarias, recém-chegado a Paris com alguns trocados na bolsa e cujo maior sonho é se tornar mosqueteiro, é o verdadeiro líder da turma; Athos é o nobre de alma pura que carrega um terrível segredo escondido; Aramis é o galanteador, gosta de armar e participar de intrigas e, ao mesmo tempo sonha em se tornar padre; e Porthos é o Hércules: forte como um touro, íntegro de coração, ingênuo e burro. Os quatro colocam a França de pernas para o ar: se envolvem em uma luta contra a personalidade mais poderosa da época, o Cardeal Richelieu, auxiliam a Rainha em apuros, enfrentam a bela e maligna Milady, a vilã – protótipo de todas as “femmes fatalles” que se seguiram… Tudo isso recheado com um humor escrachado, repleto de frases de efeitos, tiradas memoráveis, cenas inesquecíveis.

O que nem todo mundo sabe é que os quatro realmente existiram. Dumas “chupou” os personagens de um libretinho assinado pelo d’Artagnan, pretensamente escrito pelo próprio. Dumas se apropriou dos caracteres e da trama em geral, enxertou uma certa ambientação histórica, sem tanta preocupação com a veracidade científica, e moldou-os a sua própria vontade (aliás, tal como fazia um outro autor, inglês, um autêntico plagiador que também cometeu o tal pecado de ser popular, fazer sucesso e ser profundo, chamado Shakespeare).

“Os três mosqueteiros” foi o ápice absoluto da carreira de Dumas, apesar de várias outras obras de bastante repercussão como “O Conde de Monte-Cristo”, “A Tulipa Negra” ou “A Rainha Margot”. Ele continuou a história dos heróis por bastante tempo, em “Vinte Anos Depois” e foi até a morte de cada um, em “O Visconde de Bragelonne”, onde inclusive está inserida uma outra aventura famosa, “O Máscara de Ferro”.

Deixe de lado as histórias em quadrinhos, os desenhos de animação, as adaptações infantis. Esqueça os filmes (mesmo os 3D, 4D, 5D) que porventura você tenha assistido; Se ainda não leu “Os Três Mosqueteiros”, está perdendo tempo e marcando passo.

As boas mulheres da China

14 de novembro de 2011

A leitura de “As Boas Mulheres da China” provoca de imediato duas reações que, a primeira vista, podem parecer contrárias e conflitantes. De um lado, há o espanto, a perplexidade, o choque. Estarrecimento. Supresa. Do outro lado, há uma desconfortável sensação de reconhecimento.

Durante sete anos, Xinran manteve um popular programa de rádio onde pela primeira vez as mulheres podiam contar suas histórias, seus problemas e angústias. Na verdade, era a primeira que alguém se dispunha a escutar e fazer com que elas fossem ouvidas. Era uma iniciativa espinhosa e potencialmente perigosa: uma palavra equivocada, um pensamento que significasse algum tipo de crítica, mesmo que leve, ao governo ou o partido comunista (o que, no caso da China, obviamente sáo a mesma coisa), ou que resvalasse para um dos inumeráveis assuntos proibidos, podia levar a destruição de uma carreira ou mesmo a um julgamento sumário. O programa durou de 1989 a 1996.

Xinran vai, cuidadosamente, colocando estas vozes no ar. Primeiro, como leitura das centenas de cartas que recebia diariamente. Depois, conversando com a próprias mulheres, ao vivo. É quase incompreensível saber como Xinran não foi presa e condenada. As histórias que essas mulheres contavam não eram nada doces e simpáticas.

Ao contrário. Tratam de incesto, rapto e sequestro domiciliares, estupro, sofrimento, dor, tortura, negligencia, casamentos arranjados politicamente. Brutalidade quase sempre familiar, geralmente cometida pelo pai, tio ou parentes, líderes comunitários e políticos, membros do partido. A ignorancia sobre ridículos fatos básicos sobre sexualidade é absurdamente imensa. Xinran dá um exemplo de si mesma quando, aos 22 anos ficou em crise porque não sabia se havia ficado grávida por ter andado de mãos dadas com um homem.

Atitude que, por pouco, não invibializaram o projeto. Sua idéia, de tentar entender a alma da mulher chinesa, era ridicularizada: a alma da mulher era impenetrável e incompreensível. E, depois, afinal de contas. quem se importaria com isso?

A audiência foi a resposta. O programa começou a ser ouvido por milhares de pessoas; centenas de histórias eram despejadas em sua mesa, diariamente, tornando-a uma verdadeira celebridade. Nem Xinran tinha consciencia da profundidade do que havia iniciado.

Histórias como a da menina estuprada pelo pai desde quando tinha 11 anos de idade que só encontrou alívio quando foi internada e o único toque gentil que sentiu em sua vida foi pelas patas de uma mosca. Sua única felicidade foi quando soube que iria morrer e não retornaria jamais para a casa do pai.

Ou a do velho que raptou uma garota de 12 anos para ser sua mulher e a acorrentou na cama para que ela não fugisse. Toda a aldeia sabia e não se importava, pois essa é uma prática tão comum… Somente uma pessoa se importou e mandou uma carta anônima para Xinran, pois a menina estava para morrer por causa dos ferimentos causados pelas correntes. Ela implorava, no entanto, para que Xinran fosse discreta, pois se descobrissem quem havia denunciado, ela seria escorraçada da aldeia. Essa menina Xinran conseguiu ajudar, mas quantos outros casos haveria pela China inteira?

Em suas pesquisas, em suas entrevistas com mulheres pelo país, Xinran visita o presídio de Hunan para conhecer Hua’er, presa por promiscuidade ou, em palavras oficiais “delitos sexuais e coabitação ilegal”. A história da dizimação de sua família promovida na época da Revolução Cultural e o estupro coletivo que sofreu quando era criança por vários guardas vermelhos revolucionários, não pôde, evidentemente, ir para o ar.

Em 1976, a cidade de Tangshan sofreu um terremoto que matou trezentas mil pessoas. Estas mortes se deveram não somente ao impacto imediato do terremoto, mas, por causa da precariedade das comunicações na época, o resto da China sequer soube do que aconteceu por dias. Na verdade, só tomaram conhecimento do fato por conta de entidades estrangeiras que haviam registrado o abalo sísmico. A demora na ajuda, a desorganização e a falta de equipamento necessário certamente pioraram uma situação já terrível. As histórias das mulheres do desastre de Tangshan, porém, não cabem nesta resenha.

E vou parar com os exemplos. Mesmo porque, o livro de Xinran não é um simples relatório. A dor, as lágrimas e o crescente choque, a descoberta de horrores somente vislumbrados anteriormente, percorrem cada página, cada parágrafo. Não é um documentário. É um longo desabafo, uma forma de Xinran prestar alguma forma de auxílio àquelas mulheres, uma forma de fazer com que suas vozes continuem a serem ouvidas de alguma forma. E nisso tudo está a vida da própria Xinran.

Até aqui falei do choque. O segundo sentimento, o do triste reconhecimento, pode ser exemplificado quando se sabe que existem meio milhão de crianças, com idades entre 12 e 15 anos, que trabalham como domésticas no Brasil. Ou quando sabemos que o tráfico de mulheres e crianças no mundo movimenta em torno de sete bilhões de dólares por ano sendo que no Brasil é a terceira maior fonte de renda ilícita, perdendo somente para o tráfico de armas e o de drogas. As adoções ilegais, o turismo sexual, o abuso sexual de criancas por membros da família, principalmente o pai ou tios ou parentes … Aqui não houve uma Revolução Cultural chinesa e, formalmente, somos uma democracia, certo?

Atualmente, Xinran vive em Londres, casada com um inglês, tem um filho. As marcas são profundas, no entanto:

Ainda hoje, ela se sente incomodada quando chega em casa e vê seu marido fazendo o jantar ou lavando a louça. Precisa lutar com uma vozinha na sua cabeça que fica dizendo que Ela é a mãe, Ela é a esposa, Ela é quem tem essas obrigações …

Xinran responde perguntas sobre seu novo livro, “Mensagem de uma mãe chinesa desconhecida”

 

 

A Caixa Preta de Amóz Oz e ‘Israel é uma decepção’

10 de novembro de 2011

Amóz Oz é uma das prova vivas, caso fosse necessário, de que um verdadeiro escritor, ao tratar do que realmente conhece, de sua terra, de sua gente, consegue falar de temas universais.

Oz é reconhecido como um autor não só judeu, não só israelita, mas eminentemente israelense. Nascido em 1939, em Jerusalém, sua vida está diretamente imbricada com a construção e sobrevivência do Estado de Israel, o qual sempre defendeu. Foi soldado da reserva em todas as batalhas de fundação e manutenção do pequeno país, como a Guerra dos Seis Dias em 1967 e o das Colinas de Golan em 1973. Mas, ao mesmo tempo, sempre entendeu que havia possibilidades de convivência pacífica entre as nações desde que houvesse respeito mútuo. Para Oz, há condições para que existam tanto um estado judeu quanto o palestino.

Logo que possível, deixou o exercito e engajou-se em todos os movimentos pacifistas; foi um dos fundadores do grupo “Peace Now” em 1977 e é uma de suas figuras públicas mais conhecidas; escreve artigos em defesa da paz em várias revistas e jornais do país e do mundo. Em 1992, ganhou um dos mais importantes prêmios alemães dedicado as pessoas que militam a favor da paz, o German Friedenspreis; e, 1997, ganhou do presidente francês Jacques Chirac,  a Legião de Honra.

Por outro lado, é um grande cultor das tradições e da cultura judaicas. Durante muitos anos, viveu nos kibutz, sem nenhum luxo apesar dos seus rendimentos; sempre escreve seus livros primeiro em hebraico; até hoje continua dando aula de língua e literatura hebraicas na Universidade Ben-Gurion; durante um ano morou e deu aula nos Estados Unidos como professor convidado. Em 1991, foi eleito como membro pleno da Academia de Língua Hebraica.

Isto por si só não explica sua ascensão como escritor e nem o sucesso dos seus livros pelo mundo inteiro. Nem o fato de ser traduzido para mais de trinta línguas, publicado em mais de quarenta países, detentor de vários recordes de vendagem em Israel, aclamado por críticos e por milhares de leitores e xingado e criticado, tanto por suas posições quanto pelas suas qualidades literárias por outros tantos críticos. A cada nova obra ou novo artigo, a polêmica se reinstala.

“A Caixa Preta” é um dos seus livros mais reconhecidos. Desde quando foi lançado em 1987, (quando centenas de exemplares eram vendidos por dia pelas ruas de Israel, disputados a tapa, e permaneceu assim por muito tempo até alcançar um impressionante número de setenta mil livros vendidos, considerando-se uma população de pouco menos de quatro milhões de pessoas), foi considerado tanto como uma obra-prima da literatura mundial quanto lixo que deveria ser jogado na fogueira.

Basta uma primeira leitura para entender como é possível provocar emoções tão exarcebadas: como um verdadeiro cirurgião, ele deixa expostos todos os nervos da relação humana. É fácil compreender como algumas pessoas não conseguem se reconhecer ou assumir que aqueles personagens são cópias fieis de uma realidade, de sua própria realidade, interna, profunda, verdadeira. “A Caixa Preta” é um mergulho nas dores de relações quebradas, de anseios interrompidos, de esperanças frustradas. O título faz referencia aos equipamentos de registro dos aviões, utilizados quando de algum desastre para se saber de todos os detalhes do acontecido e tentar entender o que aconteceu.

O “desastre” neste caso é o final do casamento de Alec Guideon e Ilana. Oz abre para nós a caixa preta desta separação através da correspondência trocada entre os dois e as pessoas que os circundam. Sete anos depois do final de um casamento marcado pelas brigas, desentendimentos, traições e luta pela guarda do filho (do qual ninguém tem certeza absoluta de que Alec seja realmente o pai, pois tanto ele quanto Ilana se recusam a fazer o teste de DNA), Alec está morando nos Estados Unidos, desfrutando da herança do pai e de sua fama como intelectual e historiador e Ilana casou-se novamente com um líder tradicionalista e de direita.

O motivo para que Alec e Ilana voltem a se falar é o filho, Boaz, que se revela um rapaz problemático, violento e agressivo, sem perspectivas de futuro, forçando Ilana a pedir ajuda para Alec. É o suficiente para que toda a amargura, frustrações e defeitos de caráter ou comportamento voltem a tona. Cada carta destila ódio, desespero, incompreensão. Uma autêntica lavagem de roupa (moral, pessoal, íntima) da qual nós, leitores, participamos como verdadeiros voyers perplexos perante a profundidade de sofrimento que cada ser humano é capaz de aguentar. Ou provocar.

Cada página do livro de Oz é um verdadeiro petardo. A cada momento, há uma revelação sobre algum aspecto deixado obscuro em uma carta anterior; a cada instante, somos obrigados a fazer uma reavaliação sobre aquilo que sabíamos (ou pensávamos saber). Um comentário feito pela escritora e blogueira  Tatiana Carlotti (do blog ‘Atalhos Urbanos‘) durante uma conversa sobre este livro é completamente pertinente: é o modo magnífico como Oz trabalha os silêncios. Através de toda a verborragia pelo qual somos inundados pelas cartas, há “buracos”, verdades escondidas ou meio-veladas que vão se revelando com muito custo, com fórceps, por cada correspondente. O leitor fica em suspensão eterna, em verdadeiro suspense, esperando pela próxima carta que trará, ou deveria trazer, uma luz sobre aqueles aspectos que parecem tão assentados.

Impressionante também é como Oz assume cada personagem. Sem grandes floreios ou enormes frases de efeito, nós sentimos cada personalidade completamente diferentes um do outro, sem recorrer a truques de repetição de falas para caracterizar uma pessoa. Parece incrível que tenha sido um homem quem no final das contas tenha escrito esta carta, por exemplo, de Ilana, datada de 19/4/1976:

A carta começa com ela reconhecendo suas próprias mentiras, seu “sangue de puta” que fez com que traísse Alec com vários homens e o quanto, no entanto, apesar de tudo o que eles tinham vivido e brigado, ele continuava sendo uma figura importante, fundamental, primordial, a ponto de ela dizer “Você foi e continua sendo meu marido. Meu senhor e mestre. Para sempre. E na vida após a vida, Michel” (o atual marido), “segurará o meu braço para me conduzir ao altar para a cerimônia de casamento com você“.

Pois bem, a bomba vem logo: “Como um cavaleiro que matou um dragão, escrevi há um momento. Mas não se apresse em comemorar. Sua arrogância é prematura, meu senhor: você é o cavaleiro louco que matou o dragão, e depois matou também a donzela e por fim destroçou também a si mesmo. Na realidade, você é o dragão. E este é o momento mais delicioso para mim: revelar que Michel-Henri Sommo é muito melhor do que você na cama. Em tudo que se refere ao corpo, Michel foi muito bem dotado desde que nasceu. Na verdade, não apenas Michel. Quase todos eles poderiam ter ensinado uma ou duas lições a você. Até o rapaz albino que era seu motorista no Exército: casto como um cabrito, talvez no máximo dezoito anos, culpado, assustado, mais submisso que talo de grama, tremendo todo, os dentes batendo, quase implorando que eu desistisse dele, quase em lágrimas, e de repente começou a esporrar antes sequer de me tocar, soltou um uivo de cachorrinho e, mesmo assim, Alec, no instante em que os olhos assustados do rapaz me lançaram um brilho puro de gratidão, de admiração, de adoração sonhadora, inocente como o canto dos anjos, isso fez meu corpo e o meu coração estremecerem mais do que você conseguiu em todos os nossos anos juntos.”

Creio que dá para sentir o “clima” de “A Caixa Preta”. E fica perfeitamente entendível por que qualquer rabino tradicionalista de Israel deve sentir horror de pegar um livro de Amóz nas mãos.

“Israel é uma decepção”, diz Amós Oz

De São Paulo 10/11/2011 – 00h05

“Israel é uma decepção”, disse o escritor Amós Oz, na noite desta quarta (9), diante do público que lotou os 1.010 lugares do teatro do Sesc Pinheiros, em São Paulo.

No Brasil para participar da celebração de 25 anos da editora Companhia das Letras, Oz, mais importante escritor israelense da atualidade, falou com um toque de humor da fundação de seu país, ocorrida em 1948.

“Israel nasceu de um sonho, e tudo que nasce de um sonho está destinado a ser uma decepção. A única maneira de manter um sonho intacto é nunca vivê-lo”, disse.

Os Cães de Riga

1 de novembro de 2011

Um bote é encontrado vagando pelo mar, nas costas de uma pequena cidade da Suécia, com uma carga macabra: dois homens mortos. A primeira constatação é de que não são náufragos de algum acidente marítimo: estão bem vestidos, com ternos caros, tiveram portanto uma boa vida. Foram baleados, assassinados, jogados no bote e abandonados. A segunda constatação: antes de morrerem, também foram barbaramente torturados. A terceira e não menos surpreendente constatação: são russos ou pelo menos de algum país da extinta cortina de ferro. Difícil calcular de onde vieram, pois os descobridores dos corpos não quiseram se identificar; afinal, eram contrabandistas e sua relação com a lei era um tanto ou quanto ‘delicada’. O crime agita a vida da cidade, faz a sensação do noticiário, mobiliza a Divisão de Crimes Violentos, a de Entorpecentes e o próprio Ministério do Interior, além de complicar a rotina do inspetor Kurt Wallander.

A princípio, tudo pareceu estar se encaminhando para uma solução rápida quando a identidade dos mortos é feita: eram bandidos, membros da máfia russa que agia na Letônia. Nada mais fácil, então: um policial letão vem, ajuda um certo tempo na investigação e leva os cadáveres. E tudo terminaria aqui para os suecos se esse mesmo policial, logo ao chegar em sua terra natal não tivesse sido assassinado. Assim, o inspetor Wallander é convocado para cooperar Em Riga, na própria Letônia!

Política, intriga internacional, espionagem, lugares ‘exóticos’ e enredo de romance policial são elementos para bons livros, sendo que um de seus mestres foi Eric Ambler. Países estrangeiros dos quais pouco conhecemos e cuja realidade pode ser entrevista através deste gênero estão cada dia mais populares e constantes, perfeitamente ‘globalizados’, mas já tínhamos há algum tempo atrás um Jan Willem Van de Wetering cujas aventuras se passavam em uma incomum e desconhecida Holanda. Aliás, são dois autores há muito fora de catálogo e bem que poderiam ser lembrados e reeditados.

Ambler e Van de Wetering são referências e lembranças obrigatórias ao se ler este livro de Henning Mankell. E a comparação não é nada favorável para Mankell. Apesar de mexer com tantos elementos estimulantes e instigantes, o resultado é quase nulo. O que poderia ser uma ótima oportunidade para se aproveitar de uma complexa situação política, rica em eventos e desdobramentos e virtualmente desconhecida para os estrangeiros, como o caso da Letônia, vira um pastiche insosso e inverossímil, recheada de clichês e lugares-comuns, quase infantis mesmo. A impressão é que Mankell deve ter feito pesquisas históricas em reportagens da CNN. O que não teria feito Eric Ambler com tal material!

No entanto, independente de qualquer comparação ou generalização, é a própria escrita de Mankell o que mais compromete. A narrativa frouxa, sem vigor, impossibilita que criemos uma verdadeira empatia com o personagem ou que nos emocionemos com suas peripécias, pecado mortal para uma obra que depende justamente das diversas reviravoltas da trama.

Considerando-se somente este “Os Cães de Riga”, fica difícil entender como Mankell faz tanto sucesso em vários países. Talvez só a globalização explique.

 

texto originalmente publicado pelo iG