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O que mudou na televisão de ‘Assombros Urbanos’, de Dionisio Jacob?

5 de novembro de 2012

 

Assombros Urbanos, um programa de televisão que não é assistido por ninguém pois passa às duas horas da manhã, tem um patrocinador misterioso que, curiosamente, não quer fazer propaganda de sua atividade, tem o apresentador mais cético e mal humorado que já existiu, o Lima, que, ao contrário de qualquer outro trabalhador de televisão torce para que o programa continue marcando zero de audiência pois tem total consciência da porcaria do trabalho que faz.

E mais que tudo: Assombros Urbanos é um talk show que traz as pessoas mais inverossímeis, malucas e bizarras para serem entrevistadas como Gorete, balconista de uma loja de calcinhas e sutiã, seduzida por um extraterrestre charmoso, e que desmaia depois de tentar se suicidar com uma pistola de raios laser de plástico; ou Clarice, uma ex-fada que perdeu seus poderes e cuja frustração a levou a se tornar uma glutona e a engordar; ou Hugo que tenta fazer com que sua planta carnívora de estimação adote uma dieta mais saudável e se torne vegetariana. Sua fixação por plantas exóticas começara desde criança quando começara a colecionar cactos:

“LIMA Cactos? Não é uma preferência um tanto … como direi? Árida? Para uma criança, eu quero dizer…
HUGO Os cactos são muito … dignos.
LIMA Não disse o contrário, apenas…
HUGO Os cactos são …. profundos!
LIMA Eu sei, o que eu quero dizer é …
HUGO Os cactos não mentem!!!
LIMA Não se fala mais em cacto.”

Ou então o Fagundes, um funcionário da saúde pública que veio a público denunciar a presença de sanduíches assassinos que atacam e devoram os seres humanos e cuja presença já é sabida de há muito pela policia federal mas nada havia sido divulgado sob a alegação de que criaria pânico na população. Aliás, quem quiser já ficar prevenido, preste atenção nas instruções do Fagundes:

Quando o garçom trouxer o sanduíche, não vá pegando ele logo de cara. Espere um pouco. Aguarde um instante. Olhe bem para ele. Dê uma geral no jeitão do sanduíche. O ideal mesmo é você tentar entabular uma conversa com ele. Diga alguma coisa… um boa-noite, algum comentário sobre o tempo, sobre o jogo da seleção, qualquer coisa! Se – veja bem – SE você obtiver alguma resposta por parte do sanduíche, MESMO que seja uma resposta vaga, saia de perto na mesma hora, procure evacuar a área, avise o gerente da lanchonete que ele saberá o que fazer“.

E, de repente, sem ninguém saber como ou porque, para completo desespero de Lima, Assombros Urbanos começa a se tornar um sucesso, todos passam noites insones só para assistir o programa e ele vira um astro, reconhecido nas ruas, obrigado a dar autógrafos e a comparecer nas reuniões do condomínio!

Dionisio Jacob promove um mergulho nas mazelas do cotidiano urbano. Sua metralhadora giratória de puro e sarcástico humor é um profundo e ácido comentário dos começos do mundo-cão na tv e da própria massificação da “cultura” televisiva.

O livro é ambientado nos “longínquos anos oitenta do século passado”, e Lima é o perfeito representante de uma geração que saiu de uma época conturbada sem ter a mínima ideia do que estava acontecendo no país e nem se lixando para isso e que continua perdido sem saber dos seus próprios valores morais, se é que alguma vez chegou a tê-los. Ele nem sabe se acredita ou não na sinceridade daqueles entrevistados: serão loucos autênticos ou pobres coitados desesperados por alguém que os ouça, que alguém lhes dê atenção algum tipo de atenção? Não importa.

É incrível como tal livro foi publicado no exato momento, quase como se tivesse sido sincronizado, em que a televisão brasileira apresentou sinais claros de histeria e pânico, pelo menos em um certo tipo de segmento dito “popular”. Se isto desembocará em mudanças efetivas e profundas na mentalidade e, sobretudo, na responsabilidade gerais é outra história, mas o baque foi grande. Nunca como antes ficou tão escancarada a fria manipulação dos sentidos dos incautos expectadores.

Para quem ainda se lembra, foi uma época em que o programa do Gugu montou uma entrevista com falsos membros do PCC fazendo ameaças de morte a políticos e jornalistas e foi descoberto que tudo não passara de uma farsa, um dos momentos mais baixos e melancólicos da televisão brasileiro; as “pegadinhas” simuladas, “testes de paternidade” encenadas, brigas entre casais arrumadas e ensaiadas, os produzidíssimos reality shows, não estão no livro de Jacob. Mais uma vez a ficção ficou para trás; a realidade consegue ser mais surrealista e bizarra do que qualquer ficção.

E é justamente neste ponto que Jacob ultrapassa o mero comentário engraçado sobre desgraças televisivas e afins. Seu livro não é um mero desenrolar de esquisitices. Sua pesada ironia, que já havia investido sobre a estúpida burocracia do funcionalismo público no seu primeiro romance, “A Utopia Burocrática de Máximo Modesto”, ajuda a desnudar o ser humano através das aparências.

Um humor amargo e reflexivo, finamente realizado. E incomodamente atual.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer

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Para a Wikipédia, Philip Roth não é uma fonte confiável para corrigir dados relacionados a sua própria obra.

30 de outubro de 2012

 

As contradições da moderna tecnologia com a criação de pensamento ou a conservação e manipulação de dados leva a situações esdrúxulas algumas vezes, algumas até engraçadas; na maioria das ocasiões, somente ridículas. Das últimas, envolve a famosa Wikipedia e o decano escritor norte-americano Philip Roth (sei bem que a notícia já está até um tanto ‘velha’, mas como tive plena consciência somente agora da história por inteiro, não pude deixar de marcar esse comentário).

Simplesmente, a Wikipedia não permitiu que Roth corrigisse uma informação equivocada sobre seu próprio livro, ‘A Marca Humana’!

A princípio, eu até entenderia se fosse um caso de erro de identidade, isto é, se a Wikipédia duvidasse da identidade de Roth e exigisse maiores certificações. Mas, em definitivo, não foi isso. Eles não duvidavam que ele fosse quem dizia ser. Simplesmente, isso não era suficiente. Ele, somente, não era confiável.

Segundo Roth: “O Administrador da Wikipedia em Inglês” – numa carta de 25 de agosto – que eu, Roth, não era uma fonte confiável:
‘Compreendo seu ponto de que o autor é a maior autoridade em seu próprio trabalho’, escreveu, ‘mas exigimos outras fontes.’

O bacana de coisas assim acontecerem com escritores é que eles conseguem transforma-las em literatura. Sua carta aberta em resposta ao Wikipedia publicada no The New Yorker é ótima literatura, como não seria diferente se tratando de tal autor.

(um outro detalhe, desta vez em relação à tradução do texto de Roth publicada pelo jornal O Estado de São Paulo: o livro, publicado no Brasil pela Companhia das Letras com o título ‘A Marca Humana’ está aqui designado com o título ‘A Mancha Humana’, que é como foi publicado em Portugal. Bueno, o tradutor Celso Paciornik é, até onde sei, brasileiro, paulistano. O jornal ‘O Estado de São Paulo’ é brasileiro e o texto foi publicado em São Paulo. Qual a razão, ou distração, ou falta de revisão, ou pura preguiça, de traduzirem com o título de outro país, ainda estou até agora tentando entender)

Prezada Wikipedia:
Philip Roth

http://blogs.estadao.com.br/link/prezada-wikipedia/

Sou Philip Roth. Tive motivos recentes para ler pela primeira vez o verbete da Wikipedia discutindo meu romance A Mancha Humana. Ele contém um sério equívoco e gostaria que fosse removido. Ele entrou na Wikipedia não do mundo da veracidade, mas dos balbucios das tagarelices literárias – não há nenhuma verdade nele.

Mas quando, por meio de um interlocutor oficial, pedi à Wikipedia que deletasse o equívoco, fui informado pelo “Administrador da Wikipedia em Inglês” – numa carta de 25 de agosto – que eu, Roth, não era uma fonte confiável: “Compreendo seu ponto de que o autor é a maior autoridade em seu próprio trabalho”, escreveu, “mas exigimos outras fontes.”

Assim nasceu esta carta aberta. Depois de não conseguir uma mudança feita pelos canais usuais, não sei de que outra maneira proceder.

Meu romance A Mancha Humana foi descrito no verbete como “alegadamente inspirado na vida do escritor Anatole Broyard”. Essa afirmação não é minimamente substanciada pelos fatos. A Mancha Humana foi inspirado num evento infeliz na vida meu amigo Melvin Tumin, já falecido, professor na Universidade de Princeton. Um dia, no outono de 1985, quando Mel, que era meticuloso em todas as coisas, estava meticulosamente fazendo a chamada numa turma de sociologia, notou que dois de seus alunos ainda não haviam frequentado uma só aula ou tentado se encontrar com ele para explicar a ausência, embora já se estivesse no meio do semestre.

Terminada a chamada, perguntou à classe sobre os dois alunos que nunca havia encontrado. “Alguém os conhece? Elas existem ou são fantasmas? (spooks, em inglês)” – infelizmente, as mesmíssimas palavras que Coleman Silk, o protagonista de A Mancha Humana, usa na pergunta que faz a sua turma no Athena College em Massachusetts.

Quase imediatamente, Mel foi convocado pelas autoridades universitárias para justificar seu uso da palavra “spooks” já que os alunos faltantes, nas circunstâncias, eram ambos afro-americanos, e “spook”, nos Estados Unidos da época, era uma designação pejorativa para negros. Seguiu-se uma caça às bruxas durante os meses seguintes da qual o professor Tumin – como o professor Silk em A Mancha Humana – saiu ileso, mas somente depois de ter dado depoimentos demorados declarando-se inocente da acusação de discurso do ódio.

Circulou um sem-número de ironias, pois Mel havia adquirido proeminência nacional entre sociólogos, ativistas de direitos civis e políticos liberais ao publicar, em 1959, o estudo sociológico Desegregation: Resistance and Readiness, e depois, em 1967, com Social Stratification: The Forms and Functions of Inequality, que se tornou referência. Antes de vir para Princeton, ele fora diretor da Comissão Municipal de Relações de Raça, em Detroit. Quando morreu, em 1995, a manchete no obituário do New York Times dizia “Melvin M. Tumin, 75, especialista em relações raciais”.

Nenhuma dessas credenciais contou quando os poderes do momento tentaram tirar o professor Tumin de seu elevado cargo acadêmico sem nenhuma razão, como o professor Silk foi tirado em A Mancha Humana.
E foi isso que me inspirou a escrever A Mancha Humana: não algo que possa ou não ter ocorrido na vida, em Manhattan, da figura literária cosmopolita de Anatole Broyard, mas que realmente ocorreu na vida do professor Melvin Tumin, cem quilômetros ao sul de Manhattan, na cidade universitária de Princeton, onde conheci Mel no começo dos anos 60.

Assim como ocorreu com a distinta carreira acadêmica do protagonista de A Mancha Humana, a carreira de Mel foi conspurcada da noite para o dia por ele ter supostamente destratado dois alunos nos quais jamais havia posto os olhos. Até onde tenho conhecimento, nenhum evento remotamente como esse manchou a longa e bem-sucedida carreira de Broyard nos mais altos cumes do mundo do jornalismo literário.

A ocorrência com “spooks” é o incidente inaugural de A Mancha Humana. O núcleo do livro. O romance não existe sem ela. Coleman Silk não existe sem ela. Cada novidade que ficamos sabendo sobre Silk, no curso de 361 páginas, começa com sua perseguição desenfreada por ter pronunciado “spooks” em voz alta numa sala de aula de faculdade. Nessa palavra, falada em absoluta inocência, jaz a fonte do ódio a Silk, suas angústia e queda.

Por ironia, essa e não seu enorme segredo de toda a vida – ele é o filho de pele clara de uma respeitável família negra em Nova Jersey, que consegue fazê-lo passar por branco desde o momento em que entra na Marinha aos 19 anos – é a causa de sua morte humilhante.

Quanto ao escritor Anatole Broyard, ele algum dia esteve na Marinha? Na prisão? Num curso de pós-graduação? Algum dia terá sido vítima inocente de perseguição institucional? Não tenho a menor ideia. Em mais de três décadas, cruzei com ele, casual e inadvertidamente, talvez três ou quatro vezes antes de prolongada batalha contra um câncer de próstata pôr fim à sua vida, em 1990.

Silk, por sua vez, é morto maldosamente, assassinado num acidente de carro planejado e premeditado quando estava com sua improvável amante, Faunia Farley. As revelações que fluem das circunstâncias específicas da morte de Silk pasmam seus sobreviventes e levam à conclusão desolada do romance num desolado lago coberto de gelo onde ocorre uma espécie de confronto entre Nathan Zuckerman e o executor de Faunia e Coleman, o ex-marido de Faunia, o atormentado e violento veterano do Vietnã, Les Farley. Nem os sobreviventes de Silk, nem seu assassino, nem sua amante tiveram origem em outro lugar que não a minha imaginação. Na biografia de Anatole Broyard não há qualquer pessoa ou evento comparável, até onde eu sei.

Eu não conhecia nada da vida privada de Broyard e, no entanto, os aspectos mais delicadamente privados da vida privada de Coleman Silk constituem praticamente toda a história narrada em A Mancha Humana.

Nunca conheci, falei com ou, até onde sei, estive na companhia de uma única pessoa da família Broyard. A decisão de ter filhos com uma mulher branca e, possivelmente, ser exposto como negro pela pigmentação de seu filho é um motivo de grande apreensão de Silk. Se Broyard sofreu essa apreensão, não tinha nenhuma maneira de saber.

Jamais fiz uma refeição com Broyard, jamais saí com ele para um bar ou um jogo de beisebol, nunca o vi numa festa à qual poderia ter ido nos anos 60 quando estava vivendo em Manhattan e em raras ocasiões socializava em festas. Nunca cruzei acidentalmente com ele na rua, embora uma vez – se não me engano, nos anos 80 – nós nos encontramos na loja de roupas masculinas Paul Stuart na Madison Avenue, onde estava comprando sapatos. Como Broyard era a essa altura o resenhista de livros intelectualmente mais refinado do Times, lhe disse que gostaria que ele se sentasse na cadeira ao meu lado e me permitisse comprar-lhe um par de sapatos, na esperança, admiti francamente, de aprofundar seu apreço por meu próximo livro. Foi um encontro alegre, divertido, que durou dez minutos se muito, e foi o único encontro do tipo que tivemos.

Nós nunca nos demos ao trabalho de ter uma conversa séria. Caçoadas de passagem eram nossa especialidade, com o resultado de que nunca soube quem eram seus amigos ou inimigos, não soube onde e quanto ele havia nascido e crescido, nada sobre sua condição econômica, nada de sua política ou times favoritos ou se tinha algum interesse por esporte. Não sabia nada sobre a sua saúde mental ou seu bem-estar físico, e só fiquei sabendo que ele estava morrendo de câncer muitos meses depois de ele ter sido diagnosticado, quando ele escreveu sobre sua luta com a doença na New York Times Magazine.

Eu o conhecia somente como um crítico em geral generoso de meus livros. No entanto, após admirá-lo por sua coragem no artigo sobre sua morte iminente, consegui o número do telefone de Broyard de um conhecido comum e liguei para ele. Foi a primeira e última vez que falei com ele por telefone. Ele foi encantadoramente efusivo, extremamente exuberante, e riu com gosto quando o lembrei de nós em nossa mocidade, lançando uma bola de futebol americano em uma praia em Amagansett, em 1958, que foi onde e quando eu o conheci.

Na época, eu estava com 25 anos, ele com 38. Era um belo dia de verão, e me lembro de ter ido até ele na praia para me apresentar e lhe dizer como havia apreciado seu brilhante conto What the Cystoscope Said. A história havia aparecido em meu último ano de faculdade, 1954, no quarto número da mais soberba das revistas literárias da época, Discovery.

Logo havia quatro de nós – escritores recém-publicados quase da mesma idade. Aqueles vinte minutos de bola constituíram o envolvimento mais íntimo que Broyard e eu tivemos, e elevaram a um total de trinta o número de minutos que gastaríamos na companhia um do outro.

Antes de sair da praia, naquele dia, alguém me disse que havia rumores de que Broyard era um “oitavão” (expressão que indica pessoa com descendência de etnias diferentes). Não dei muita atenção a isso ou, lá em 1958, dei pouco crédito. Em minha experiência, oitavão era uma palavra raramente ouvida fora do sul dos EUA. Não é impossível que eu a tenha procurado no dicionário mais tarde para compreender seu significado preciso.

Broyard era na verdade filho de dois pais negros. Não sabia disso, na época nem quando comecei a escrever A Mancha Humana. Sim, alguém havia me dito um dia, por acaso, que o homem era o filho de um “quadrarão” (outro termo do tipo) com uma negra, mas esse trecho de um disse me disse improvável foi tudo que eu jamais soube sobre Broyard.

Contudo, com o passar dos anos, não foram poucas as pessoas que se perguntaram se, por causa de certas feições suas aparentemente negras – seus lábios, seus cabelos, seu tom de pele – Mel Tumin, que era inflexivelmente judeu na Princeton avassaladoramente branca e protestante de seu tempo, não pudesse ser um afro-americano se passando por branco. Outro fato na biografia de Mel Tumin que nutriu minhas primeiras imaginações de A Mancha Humana.

Meu protagonista, o acadêmico Coleman Silk, e o escritor real Anatole Broyard, inicialmente se passaram por homens brancos nos anos antes do movimento pelos direitos civis começarem a mudar a natureza de ser negro na América. Os que escolheram se passar (essa palavra, aliás, não aparece em A Mancha Humana) imaginaram que não teriam de compartilhar as privações, humilhações, insultos, danos e injustiças que seriam mais do que prováveis de atravessarem seu caminho se eles fossem abandonar suas identidades exatamente como as haviam encontrado. Na primeira metade do século 20, não houve apenas Anatole Broyard – houve milhares, provavelmente dezenas de milhares de homens e mulheres de pele clara que decidiram escapar dos rigores da segregação institucionalizada sepultando para sempre suas vidas negras originais.

Finalmente, para se inspirar para escrever um livro inteiro sobre a vida de um homem, é preciso ter um interesse considerável pela vida do homem, e, sinceramente, embora eu tenha admirado particularmente o conto What the Cystoscope Said quando surgiu, em 1954, no correr dos anos eu não tive nenhum interesse particular em Anatole Broyard. Nem Broyard nem ninguém associado a ele teve alguma coisa a ver com minha imaginação em A Mancha Humana.

Escrever romances é para o romancista um jogo de faz de conta. Como a maioria dos outros romancistas que conheço, tão logo tive o que Henry James chamou de “o germe”, – neste caso, a desafortunada história de Mel Tumin em Princeton – comecei a fazer de conta e inventar Faunia Farley, Les Farley, Coleman Silk, os antecedentes da família de Coleman e outros cinco mil elementos biográficos que no conjunto formam o personagem ficcional no centro do romance.

Sinceramente, Philip Roth.

/ Tradução de Celso Paciornik

Ilustração: Carlinhos Müller / Estadão

Orlando, O Quarto de Jacob: Virginia Woolf no máximo

9 de outubro de 2012

 

Virginia Woolf carregava um imenso universo interno que a atormentou durante toda sua vida. Uma parte ela pôde transformar em escritos, pensamentos e ficção, moldando, modificando a literatura inglesa e mundial. Outra parte, não conseguiu superar. Sofrendo de depressão profunda, com um histórico de tentativas de suicídio e internações em instituições psiquiátricas, afinal sucumbiu, carregando sua roupa de pedras para afundar no rio Ouse, na Inglaterra. No meio disso, revolucionou a narrativa moderna.

Sua inquietação, seu afã de descobertas e experiências literárias e artísticas tinha raízes próprias. Nascida em 1882, era dotada de grande inteligência, teve o privilégio de uma família culta que valorizava o incentivo artístico e cultural, seus pais eram literatos e editores, descendentes de escritores ingleses consagrados. Foi educada em casa pelo próprio pai. Ao lado disso, as tragédias a acompanharam desde cedo: seus pais morreram prematuramente (aliás, quase todos seus parentes mais próximos morreram muito cedo, assim como sua meia-irmã Stella Duckworth, que havia praticamente tomado o lugar como sua mãe, e seu irmão Toby) e, na adolescência, foi abusada sexualmente pelo meio-irmão Gerald Duckworth.

Junto com sua irmã Vanessa Bell, artista plástica casada com o critico de arte Clive Bell, criou um grupo de discussão literária e cultural que agitou o cenário inglês da época e que ficou conhecido como o grupo de Bloomsbury. Igualmente jovens e inquietos, buscavam novas formas de entender, criticar e produzir cultura. Foi neste grupo que Virginia conheceu o escritor e critico literário Leonard Woolf com quem se casou.

Ela e o marido fundaram uma editora, a Hogarth Press, originalmente para publicar os trabalhos dela e faze-la ocupar-se, distraindo-a de seus problemas mentais, mas que mais tarde tornou-se uma importante casa editorial que teve entre seus publicados autores do calibre de T.S. Eliot, Gorky, E.M. Forster, Katherine Mansfield, e foram os primeiros a publicar uma edição em vinte e quatro volumes das obras completas de Freud na Inglaterra.

O Quarto de Jacob‘ é o terceiro romance de Virginia Woolf e o primeiro no qual ela radicalmente quebra com as regras da narrativa tradicional. Seus trabalhos anteriores haviam deixado entrever suas tentativas tímidas neste sentido, mas aqui ela vai fundo. A bem dizer, não existe realmente um enredo, uma história. São quadros emocionais, são grandes lances que acompanham um fio de enredo que, provavelmente, é a história do garoto Jacob desde sua infância até sua morte, vagamente inspirado na figura do irmão de Virginia, Toby. É inacreditável constatarmos como este livro ainda transpira vigor, novidade, criatividade, beleza! Precisamos esquecer, deixar de lado a narrativa linear do simples começo-meio-e-fim, embarcar em suas digressões e mentalizações, os fluxos internos de pensamentos dos personagens, e sentir (como devem ter sentido os contemporâneos de Woolf e como sentem todos os que lêem seus livros pela primeira vez), um sopro de liberdade e potência narrativa nunca experimentada antes. É uma viagem empolgante e verdadeiramente esclarecedora. A apresentação feita por esta edição da Nova Fronteira é impecável: “Tudo é narrado de forma fragmentada, quase inapreensível, sem impor um enredo que oriente e esclareça de uma vez por todas o leitor. Cabe a este, ao contrário, a tarefa de montar estes fragmentos e, a partir deles, inventar o seu sentido, a sua moral, sobretudo a ácida e implacável visão critica de uma sociedade encurralada no cultivo de suas mais medíocres aparências.”

Virginia Woolf também foi uma grande ensaísta e critica literária, escreveu por volta de quinhentos ensaios, publicados em jornais, revistas, suplementos

Tilda Swinton na versão cinematográfica de ‘Orlando’, em mais uma dessas estranhas tentativas, fadadas ao fracasso, de transpor Virginia Woolf para as telas de cinema

literários, e cujo eixo principal era a participação das mulheres em uma literatura dirigida e dominada pela visão masculina do mundo. Embora nunca tenha sido uma ativista feminista militante, em seus ensaios deixava claro a necessidade das mulheres se tornarem independentes para poderem produzir cultura do seu próprio ponto-de-vista, de deixar de serem objetos-da-literatura para autoras-de-literatura e de sua vida.

ORLANDO não é uma peça neste quebra-cabeça cultural, mas certamente é um importante ponto para esta discussão. É sua obra mais famosa e de maior sucesso. Acompanha a ‘história’ da vida de Orlando, um gentil-homem cavalheiro inglês no final do século XVIII. Duzentos anos mais tarde, observamos as mudanças (sociais, técnicas, culturais) desta Inglaterra e em Orlando que, de forma gradual, natural, imperceptível, agora é uma mulher.

Orlando pulou, como se tivesse levado uma violenta pancada na cabeça. Na verdade, eram dez horas da manhã. Era o dia 11 de outubro. Era 1928. era o momento presente.

Ninguém se assombre de Orlando ter um sobressalto, levar a mão ao coração e empalidecer. Pois que revelação mais terrível que a de ser sentir que este é o momento presente? Se sobrevivemos ao choque, é apenas porque o passado nos ampara de um lado e o futuro do outro. Mas não temos tempo agora para reflexões; Orlando já estava terrivelmente atrasada. Correu pela escada abaixo, pulou para o automóvel, calcou o acelerador e partiu.”

Orlando é calcada/o na escritora Vita Sackville-West, com quem Virginia teve um caso e serve como uma verdadeira homenagem para a amante. A primeira edição inglesa, inclusive, trazia uma foto de Vita Sackville-West ilustrando o livro, vestida como o personagem.

Há, ainda, um importantíssimo ‘detalhe’ nesta publicação de ‘O Quarto de Jacob’ e ‘Orlando’: as traduções. A do primeiro é de Lya Luft e do segundo, de Cecília Meirelles! Simplesmente imperdível.

A Mulher de 30 Anos de Balzac

25 de agosto de 2012

 

O ego de Honoré de Balzac era enorme e suas pretensões também. Começando pelo próprio nome: o “de” indica nobreza e foi colocado por ele mesmo. Filho de família modesta, no interior da França, era uma posição a qual nunca teve direito e nunca conseguiu alcança-la, apesar de todos os seus esforços, mas nunca renunciou ao “de”.

Era teimoso, de convicções obstinadas. Desde cedo, decidiu que seria um escritor tão poderoso escritor e faria tanto sucesso que tomaria a França da mesma forma como Napoleão. A única diferença seria pelas armas utilizadas: Napoleão, pelas armas; Balzac, pela pena.

Sua família ficou perplexa. Não era para menos: ele nunca havia se destacado na escola, nunca escrevera algo reconhecido, seus maiores estudos tinham se limitado ao Direito, a qual lhe daria um trabalho decente e uma boa remuneração. Do que precisava mais? Fizeram um acordo: durante um ano, lhe mandariam uma mesada para sobreviver em Paris para escrever. Pelo resultado, decidiriam se ele realmente tinha razão.

Este resultado foi uma peça, uma tragédia histórica chamada “Cromwell”. Não existem resquícios desse texto. Foi rasgada e esquecida. Foi um fracasso para todos que a leram e convenceu sua família de que ele deveria desistir de uma vez com essa loucura.

Balzac reconheceu a derrota nesta batalha. Percebeu que o teatro não fora sua melhor escolha e ainda precisava se aperfeiçoar muito para chegar ao nível de excelência que almejava. Continuou em Paris, agora sem a ajuda paterna, e para se manter começou a escrever novelas fantásticas para jornais. Era uma subliteratura, descartável e esquecível; serviu somente para que Balzac construísse uma disciplina própria, treinasse a escrita e não morresse de fome. Para não se manchar com esses escritos, assinou com vários pseudônimos. Mesmo nessa época, algumas características do futuro clássico já estavam presentes: um ritmo de trabalho alucinado, verdadeira produção industrial, e uma imaginação fértil.

Quando sentiu que estava pronto, abandonou essa subliteratura, começou a assinar com seu próprio nome. E não parou mais de escrever clássicos.

A diferença destas duas fases é estonteante. De um lado, um escrevinhador que vomitava textos ínfimos, de uma nulidade absoluta, puramente por dinheiro. Do outro, um autor com uma densidade e uma pureza artística que nunca foi maculada pela sua aspiração à nobreza, por reconhecimento ou dinheiro. A ascensão do “novo” Balzac foi fulminante.

Está certo que no começo foi devido ao escândalo: ele conseguia causar sensação. Seu primeiro livro “sério” (“Chouans”) era uma imitação do grande sucesso editorial da época, Walter Scott e o seguinte, “Fisiologia do Casamento” primava pelo cinismo, a sátira pesada e a discussão de temas tabus. No entanto, nada que lembre sua antiga produção. Mesmo que estes dois primeiros livros não tenham a mesma qualidade de obras posteriores, até hoje possuem uma frescura e uma densidade ímpar. Sua tentativa de imitação de Scott não deu certo simplesmente porque Balzac já possuía uma identidade e uma escrita própria e personalista que não foi mais abandonada e cujo correr do tempo só fez aumentar e destacar a importância.

O ritmo, a dedicação e a seriedade para com sua literatura eram impressionantes. Escrevia e reescrevia vários rascunhos. Oito, nove, dez, doze vezes. O livro inteiro. Seu desespero pelo melhor fazia com que paralisasse a gráfica enquanto o livro já estava sendo impresso. Isso para a primeira edição. Toda reedição merecia ser reescrita outras duas, três, cinco, dez vezes. Se pensarmos que, quando Balzac morreu, deixou uma obra que abrangia 95 romances, fora as peças de teatro, ensaios e artigos de jornal e lembrarmos que para todos eles o tratamento era o mesmo, podemos ficar espantados com toda a justeza. E ainda precisamos lembrar que ele possuía uma imensa atividade social, teve várias amantes, tentou carreira política, viajou por vários países … A racionalidade é pouca para entender tal gênio.

Ele conseguiu o seu intento. Tomou a França e a conquistou. Montou um painel desta sociedade que estonteia pela amplidão. Em um determinado momento, percebeu que estava, na prática, refletindo a realidade de todo um momento histórico. Mais do que um romancista, decidiu ser um Historiador, um Cientista Social. Todos os seus livros fariam parte de uma mesma e única obra. Haveria um fluxo de personagens de um livro para o outro, uma hora mostrando sua velhice, outra hora o início de sua vida e carreira. Seria a França em sua totalidade, com todas as suas idiossincrasias, seus tipos particulares, sua História, Economia, ambições, maldades, etc. Já estava superando Napoleão; superaria agora o próprio Registro Civil.

Esta obra é a Comédia Humana, constituída por dezessete volumes, mais de oitenta obras entre romances e contos. Personagens que cativam e marcam nossa memória: o jovem estudante Rastignac que deixa de lado seus escrúpulos morais para ascender socialmente (que serviu, mais tarde, como modelo para Dostoievski criar o seu Raskólhnikov, em “Crime e Castigo”); o grande Papai Goriot que sacrifica sua vida pela felicidade das filhas; o judeu Gobsek; a infeliz menina Pierrete e etc, etc. Não cabem nesta resenha. Entre tantos estudos sobre a vida e obra de Balzac, existe um dicionário somente para os personagens da Comédia Humana.

“A Mulher de Trinta Anos”. Esta é, sem dúvida, sua obra mais famosa. Impregnou tanto o imaginário ocidental que muitas pessoas que nunca sequer ouviram falar do escritor francês e nem tem idéia de sua procedência, conhecem a expressão “mulher balzaquiana”. O choque provocado em sua primeira publicação foi bem considerável. Pela primeira vez, um escritor valorizava os pensamentos e desejos de mulheres maduras, prestava atenção em suas angústias, reinvidicava o direito delas serem felizes, bonitas e sensuais e discutia de maneira franca e objetiva os problemas íntimos de casamentos fracassados. Foi um sucesso mesclado com escândalo e comoção social, cujos reflexos chegam até os dias de hoje.

No entanto, literariamente, “A Mulher de Trinta Anos” é uma de suas obras mais fracas, com péssimo desenvolvimento narrativo, personagens frágeis cujas personalidades se contradizem em várias cenas, uma escrita frouxa e mal acabada. Quem começar a conhecer Balzac através deste livro por causa de sua fama, provavelmente se decepcionará e não terá uma idéia precisa do brilho do restante de sua obra.

Na verdade, o livro é a junção de vários contos independentes e escritos em separado que sofreram algumas modificações mínimas, como a troca dos nomes dos personagens, por exemplo, no esforço para constituir um romance único que coubesse dentro da saga maior da “Comédia Humana”. Por isso, momentos brilhantes alternam com outros, baixos, quase constrangedores e personagens agem em contraste absoluto com atitudes anteriores. Sem dúvida, Balzac apararia estas arestas e as ligações ficariam melhor combinadas, mas morreu com apenas 51 anos, completamente esgotado, e com a arquitetura de sua “Comédia”, incompleta.

Muito melhor é conhecer Balzac pelo seus picos: “Ilusões Perdidas”. Ou “Eugenie Grandet”. Ou “Pai Goriot”. Ou até mesmo outros não tão conhecidos (injustamente), melhores (muito melhores!) do que “A Mulher de Trinta Anos”, como “Gobsek”, “Pierret”, “Coronel Chabert”, “A Prima Bete”, “A Casa Nucingen”… Alternativas realmente não faltam.

Sylvia Plath, Diários e a incógnita de sua morte

25 de julho de 2012

 

Entender a vida de uma pessoa (qualquer pessoa) é uma incógnita que incomoda e atiça a curiosidade da humanidade; a quantidade de biografias de personalidades famosas (ou que, pelo menos, teve o seu quinhão de celebridade, seja por qualquer motivo) nunca diminuiu e sempre constituiu um ‘gênero’ de enorme sucesso. Sylvia Plath, no entanto, inverteu essa equação. É sua morte que incomoda, que estranha, que fustiga a imaginação dos curiosos, confunde os estudiosos, atrapalha a vida dos sobreviventes. Pois esta morte pode ser considerada como uma espécie de catástrofe que continua fustigando aos que a conheceram e com ela se relacionaram. Ou quem sabe tenha sido a finalização inevitável de uma crise permanente (social, pessoal, mental) que sempre a teria acometido e finalmente explodido em um ato de auto-imolação. A Nêmesis atacando pelas suas próprias mãos, após uma tocaia incansável. Houve quem considerasse seu suicídio como um acidente infeliz: ela teria armado uma situação na qual pudesse ser resgatada antes do desenlace, mas da qual perdera o controle e seus vizinhos não teriam compreendido que estava acontecendo alguma coisa de errado em seu apartamento.

E há a grande questão, aquela que divide os pesquisadores, os biógrafos, os parentes, os admiradores de poesia e aqueles tais curiosos: a participação de seu marido, Ted Hughes (ele próprio um poeta respeitado e com carreira literária independente), criador de uma situação que teria tornado insuportável a vida de Sylvia (tornando-o, portanto, no vilão maquiavélico da história); ou, então o marido incapaz de suportar a paranóia de uma mulher ciumenta e desequilibrada e com impulsos suicidas (e, nesse caso, a vitima teria sido ele).

Poderia-se perguntar, na verdade, por quê a morte de Sylvia comove e intriga tanto, por quê nos afeta dessa forma. As respostas seriam variadas, abundantes e contraditórias entre si tanto quanto as colocadas acima, mas o fato é que isso acontece. Talvez seja chocante demais ter se matado uma pessoa tão inteligente, jovem, bonita e instigante, no auge de sua produção literária e reconhecida como das mais importantes poetas norte-americanas. Talvez toque em fibras psicológicas internas que nos afeta a todos, embora muitas vezes nem tenhamos consciência delas, e quando as percebemos não temos coragem de encarar. Não haverá aqui algum tipo de laço que nos une, forçando-nos a aceitar que somos humanos, isto é, fracos, frágeis, sempre à beira do desespero à borda de um precipício? Nesse ponto, a publicação dos diários de Sylvia Plath deveria nos ajudar a entender sua vida, sua mente, seu íntimo mais profundo e, conseqüentemente, sua morte.

Escritora compulsiva, Sylvia jogava em seus cadernos todos os detalhes, pensamentos, considerações e ações pelas quais passava, desde os 13 anos até dias antes de morrer, com poucas interrupções. Mais do que impulso, uma necessidade, uma fundamentalidade. Certa vez, ao ter passado por uma crise pessoal, onde se misturou um braço quebrado, ela considerou indispensável colocar isso no papel para ter uma visão correta do que acontecera e sua diferença com o presente: “Portanto, este é o trecho inicial incipiente da virada. Ainda bem que expus aqui parte do inferno pavoroso por que passei. Caso contrário, do ponto de vista privilegiado atual mal poderia crer nele!”. Em outro momento, é ainda mais enfática: “É impossível ‘capturar a vida’ se a gente não mantém diários.”

Os diários em si, os cadernos, também possuem uma história, que se tornou extremamente complicada com a morte de Sylvia. Alguns cadernos foram obstruídos por Hughes e guardados sigilosamente para serem abertos somente anos depois. Aos poucos, ele foi liberando-os. Mas, dois não foram encontrados. Um teria desaparecido, conforme ele, não localizado até hoje. O outro, o último, no qual Sylvia escreveu até três dias antes de morrer, foi confessadamente destruído. É obvio que isso só aumentou as desconfianças e o ódio da facção Contra-Hughes. Fora estes, todos os cadernos da fase adulta de Sylvia Plath, de 1950 a 1962, estão reproduzidos aqui, nos mínimos detalhes, com os desenhos que ela colocava de vez em quando, as misturas com letras, até erros de linguagem: estão tal e qual foram escritos.

É possível se dizer que nestas páginas estão contidas as chaves para se entender o desenvolvimento do psiquismo, da vida, e em conseqüência, da morte da poeta? Pergunta-monstro. No entanto, uma falsa pergunta que leva a caminhos equivocados. Pois o que encontramos, no final das contas, são as palavras de uma mulher extremamente inteligente, consciente de sua força como artista, mesmo com grandes graus de auto-crítica, consciente também de sua beleza e de seu vigor sexual, de enorme insegurança no trato com o marido e com os filhos.

E tudo isso já sabíamos. O que acontece é que quanto mais paginas escritas, quantos mais detalhes acumulados, quanto mais pensamentos assimilados, mais a incógnitas aumentam em ritmo, tamanho, profundidade e espacialidade possíveis em relação diretamente proporcional. Talvez seja melhor encarar os Diários como Texto e deixarmos de lado um pouco a questão da intimidade ‘real’ de uma pessoa. E nesse caso encontraremos um livro denso, complexo, com milhões de detalhes e, em muitos trechos, até mesmo belo, que deve ser absorvido com vagar, com apreciação. Além de estar entupido de notas, explicações, apêndices que ficam em separados para não interromper a fluidez da escrita. Como diz Karen V. Kukil, a organizadora dos originais, “Sylvia Plath fala por si nesta edição integral de seus diários”. A interpretação fica, portanto, por conta de cada leitor.

 

 

 

Trilogia do Invisível, de Eric-Emmanuel Schmitt: fábulas modernas de religiões modernas

16 de julho de 2012

 

Eric-Emmanuel Schmitt é um fenômeno editorial na França e em todo o mundo, dramaturgo, escritor, roteirista e sua famosa “Trilogia do Invisível” vendeu mais de meio milhão de livros, foi traduzido para dezenas de países, foi adaptada para o teatro e cinema.

Três histórias que tem como eixo as principais religiões da humanidade. “Milarepa” (Budismo), “Seu Ibrahim e as flores do Corão” (Islamismo), “Oscar e a Senhora Rosa” (Cristianismo). São contos, pequenas fábulas que, de certa forma, nos remetem de imediato a outras obras que também tiveram bastante repercussão e que se tornaram referências, como “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder, que mostra a história da filosofia através de perguntas existenciais dirigidas à adolescente Sofia, e “A viagem de Théo”, de Catherine Clément, um amplo painel das religiões no mundo atual por meio da história de um garoto que faz uma viagem ao redor do mundo em busca de uma cura para seu câncer. O que liga estas obras é o seu sentido diretamente paradidático: o enredo é construído como um pretexto para transmitir lições específicas. Tanto que, num caso, as lições de filosofia são verdadeiros capítulos em separado e, no outro, a apresentação das tendências religiosas são aulas dirigidas para o garoto e o leitor.

Schmitt faz um trabalho bem diferente e muito mais rico. Não há um sentido didático específico. As idéias religiosas estão internalizadas pelo contexto do enredo e dos personagens. Em vez de falar sobre reencarnação, uma história cujo eixo é o final do ciclo de uma vida comum que tem relações com um antigo mestre budista; em vez de falar das diferenças entre os árabes e muçulmanos, a história da convivência de um garoto judeu com velho árabe simpático, dono de uma mercearia na moderna Paris; em vez de falar sobre os propósitos indefinidos de um Deus abstrato, a relação cara-a-cara de um menino prestes a morrer com um Deus vivo e próximo. Em vez de lições, exemplos de vida, práticos e ligados ao nosso cotidiano contemporâneo. Tudo embalado por uma prosa simples, delicada, aliciadora. A “mensagem” torna-se, assim, mais poderosa. Dá para entender por que fez tamanho sucesso.

O que não quer dizer que os resultados sejam de uma qualidade constante. Os resultados são até meio que irregulares. ‘Milarepa‘ é, de longe, o mais fraco. Talvez justamente por que essa proximidade não esteja tão acentuada quanto nos demais. Apesar de começar com Simon, um rapaz parisiense que toma seu cafezinho todo dia, mas cujo rotina é interrompida por conta de um insistente sonho que atravessa suas noites onde ele é um homem esquisito repleto de um imenso ódio por alguém. Uma estranha senhora interpreta o sonho e conclui que ele é a encarnação do tio de um antigo místico budista chamado Milarepa. O sonho revela o modo como Milarepa passou de herdeiro prepotente de uma rica família para uma existência de abnegação, renúncia e sabedoria e como seu tio o perseguiu quase até à morte. A roda das existências do tio só terminaria quando ele tivesse contado sua história cem mil vezes. Simon só espera, então, que esta seja sua centésima milésima vez.

Para ler ‘Oscar e a Senhora Rosa‘ é preciso ter um lenço à mão, pois esta história é feita sob medida para fazer chorar. A história é tão melosa, melodramática mesmo, que com outro autor seria insuportável. Ainda bem que Schmitt consegue conter a mão e o livro acaba como que iluminado por uma delicadeza e emoção tais que somos rendidos pela força do escritor.

Pois Oscar está morrendo de um câncer terminal. Nestas condições, como pensar em coisas absurdas como o amor de Deus, sua onipresença e tudo? A vovó-rosa, a senhora que visita as crianças no hospital faz uma sugestão: escrever para Deus, contando de suas angústias, reclamações e até pedidos. Oscar a princípio fica desconfiado, mas concorda. Os capítulos do livro são as cartas que Oscar vai escrevendo. E, aos poucos, ele vai reconhecendo Deus em pequeníssimas coisinhas do dia-a-dia, as limitações e fraquezas das pessoas ao seu redor, até dos seus próprios pais, descobre o amor e a amizade. Tudo em doze dias, uma vida inteira e completa em doze dias, que é o tempo que lhe resta. A lição de amor e confiança que Oscar transmite provoca em nós, leitores, uma curiosa inversão: tal qual seus pais, o médicos, as enfermeiras e até a Senhora Rosa, somos tocados pela força que emana dessa criança de dez anos, ou cento e dez anos. O final é de rasgar o coração de qualquer ser sensível.

Falo por último do segundo livro, ‘Seu Ibrahim e as Flores do Corão‘, por este ser o melhor de todos, sem as fraquezas narrativas do primeiro e sem os exageros melodramáticos do terceiro. Seu Ibrahim é um velho árabe dono da mercearia que se aproxima de Momô, de doze anos, por causa de uma situação extraordinária e inusitada. Na verdade, eles já se “conheciam”, pois Momô costumava roubar latas de conserva quando o árabe se distraia. Momô presencia o momento quando, em um quente dia em Paris, Brigitte Bardot interrompe uma sessão de fotos que estavam sendo feitas no bairro para comprar uma garrafa de água… justamente na mercearia do árabe! E quando vai pagar, ele cobra quarenta francos. O menino e Brigitte se assustam, pois o preço normal era dois francos. A água não era rara; as verdadeiras estrelas, sim, diz o velho com um charme impressionante, a ponto de embaraçar a atriz.

Custei a acreditar.
– Puxa, seu Ibrahim, que cara-de-pau!
– Pois é, meu pequeno Momô, preciso compensar todas as latas que você anda afanando de mim.
Foi nesse dia que ficamos amigos.”

A inusitada amizade adquire uma profundidade insuspeitada, que mudará a vida do garoto, do velho e do leitor. Saberemos que as aparências são enganadoras demais: Momô, afinal, não é seu nome: é Moisés; o árabe, afinal, não é árabe, é muçulmano; aliás, não qualquer muçulmano, mas sufi (e o garoto fica pensando que doença é essa). Pelas brincadeiras, pelo uso do Corão, que nunca vemos nem lemos, mas cujos preceitos acabam sendo aplicados diretamente na vida cotidiana, pela descoberta de uma inteligência interior, pelo uso do sorriso como atitude básica… Amizade acaba se tornando uma palavra muito fraca para descrever seu relacionamento. Lirismo, ternura, inteligência, humor… Seu Ibrahim é uma das maiores figuras da literatura mundial. Eric-Emmanuel Schmitt aqui se torna simplesmente sublime.

‘A Trilogia do Invisível’ vai para além dos seus contextos e objetivos religiosos e místicos; não é necessário ser praticante de uma das dessas religiões (ou quaisquer outras) ou rejeitá-la de imediato por ser ateu (como eu), para apreciar a força da escrita de Eric-Emmanuel Schmit e ficar embalado pela beleza da narrativa. Basta ter sensibilidade e ser humano.

Omar Shariff na adaptação de ‘Seu Ibrahim e as Flores do Corão’

Sangue na Lua e “Crazy” Lloyd Hopkins, o policial psicopata de James Ellroy

11 de julho de 2012


A literatura de James Ellroy incomoda. Existe um grau de paranóia ou neurose em seus personagens e em suas histórias que impressiona. Para os padrões de hoje, quando estamos tão mal-acostumados com a violência diária, cotidiana, persistente, onde nossos sentidos são continuamente assaltados pela brutalidade e pela feiúra ou pela hipocrisia burra, onde enfim, parece que nada mais pode impressionar, Ellroy impressiona.

Um estranhamento que ultrapassa a mera narração de atos violentos ou a descrição de esquizofrênicos serial killers. É pior: existe uma lógica interna que determina e explicita o horror, mas que por ser orgânica e ter uma ligação tão íntima com o ser humano, cria um sentimento de expectativa medrosa. Afinal, tudo pode ser pior, não? Não para James Ellroy que parece escrever, fria e costumeiramente, de dentro do próprio inferno. Seus livros são como facas que se enterram em nossa mente: ele se compraz em revirar muitas vezes na ferida ao mesmo tempo em que diria: não há alternativas, não há saídas.

É por este mesmo motivo que os finais de seus livros são relativamente fracos em relação a todo o corpo da história. Ellroy se atem as regras do bom romance policial e se obriga a fechar e proporcionar as soluções para um universo que em si não proporciona soluções.

E, é lógico, conduzindo tudo isso, sangue, morte, tiros, mentes perturbadas, situações de pavor e suspense, recriados por uma mão absolutamente segura do que está fazendo.

É inevitável referir-se ao próprio Ellroy e a sua mãe para explicar sua literatura, mesmo porque ele é o primeiro a retornar ao assunto, várias e várias vezes, ao longo dos seus livros, entrevistas ou palestras.

Quando seus pais se separaram, Ellroy ficou com a mãe. Alcoólatra, neurótica, violenta e promíscua. Certa vez, perguntou ao filho se ele preferia ficar com ela ou com o pai; respondeu que com o pai e recebeu um tapa na cara. Ellroy estava com dez anos quando sua mãe foi encontrada em um terreno baldio, barbaramente trucidada, um crime nunca solucionado, os assassinos nunca foram encontrados.

A roda-viva de Ellroy foi alucinante: instituições para crianças com problemas mentais, drogas, pequenos roubos e furtos, alcoolismo precoce. Até chegar um momento em que esteve praticamente prestes a morrer de tanto beber. Recuperou-se, começou a escrever e pode-se perceber o quanto os fantasmas de sua existência são passados para suas obras. A maioria dos seus livros gira em torno de serial killers que matam mulheres, com descrições explícitas de seus crimes. A grande diferença para a vida “real” é que estes criminosos são pegos. Com “Tablóide Americano” iniciou uma nova fase, saiu do eixo dos serial killers e começou a montar um enorme painel histórico-político dos Estados Unidos começando a partir do assassinato de Kennedy e se estendendo por mais dois livros.

Antes de escrever a segunda parte desta trilogia, no entanto (“6 Mil em Espécie”, editado também pela Record), Ellroy retornou, literalmente, ao cenário da morte de sua mãe e começou a fazer suas próprias investigações. O resultado deste trabalho foi “Meus lugares Escuros”.

“Sangue na Lua” é o seu terceiro romance e foi escrito antes de estourar com “Los Angeles – Cidade Proibida”. Representa plenamente todos os aspectos de suas neuroses íntimas. Primeiro de uma trilogia com o Sargento “Crazy” Lloyd Hopkins, um policial com um QI extraordinário e a melhor folha de crimes solucionados da história da corporação. Genial, impulsivo, determinado, fascista, carregando complexos profundos em sua psique. Difícil diferencia-los dos “bandidos”, na verdade. Em “Sangue na Lua”, Hopkins se depara com um serial killer de mulheres quase tão inteligente quanto ele e, para captura-lo, destrói sua vida familiar, acaba com as (poucas) amizades que possui e sacrifica até sua própria posição na polícia.

“Tablóide Americano” e “Los Angeles – Cidade Proibida” registraram o respeito e o sucesso de público e crítica, definindo-o como um dos melhores escritores da moderna literatura norte-americana. Mas, como podemos percebemos com “Sangue na Lua”, ele já era dinamite pura bem antes disso.

 

Entre ‘Nooks’ e ‘Kindles’, quem acaba censurado é Tolstoi

4 de junho de 2012

Nenhuma tecnologia salva da burrice. Ainda mais quando misturada com ganância comercial que deixa acontecer, ou nem se importa com, deslizes idiotas. Abaixo passo o link para a história completa, mas só para dar uma ideia da palhaçada: de um lado, o aparelho leitor de e-books, e-reader, da Amazon, chamado Kindle; do outro, o e-reader da Barnes & Nobles, chamado Nook. Certo. A Barnes & Nobles edita e-book do Guerra e Paz, de Tolstoi, a um preço bem baratinho. Até ai, nada a declarar, certo?

Até que um blogueiro norte-americano, que comprou uma edição dessas da Barnes (para ser lida pelo aparelho Nook, não se esqueçam) começou a reparar na ocorrência de várias vezes da palavra ‘nookd’. O estranhamento foi aumentando até que ele foi conferir na sua edição de papel, se também havia aquela palavra ou se ele tinha se distraído e descobriu que, na verdade, a palavra estava traduzida como ‘Kindle’.

Não é uma beleza? o pessoal da Barnes não queria que a palavra com o nome do concorrente aparecesse e simplesmente passou o corretor automático, sem se tocar que a palavra aparecia muitas vezes e há frases que o seu termo ‘nookd’ simplesmente não servia!

Não nos enganemos: bobagens e estupidezes do gênero sempre aconteceram, desde que o ser humano resolveu descer das árvores e inventou um troço chamado ‘livro’. Acontece que essa tal tecnologia que permite que tais bobagens moderníssimas aconteçam também proporciona que sejam descobertas com mais facilidade e, mais importante, sejam divulgadas com mais rapidez ainda.

Segundo o Fabrício Vitorino, do site Techtudo, nem a editora Barnes and Noble nem a fábrica dos e-readres Nook se pronunciaram ainda. E, na verdade, fica até difícil saber o que se responder nesse caso. Alguém arrisca um palpite?

http://www.techtudo.com.br/noticias/noticia/2012/06/e-reader-nook-censura-palavra-que-da-nome-ao-rival-em-livro-de-tolstoi.html

 

 

 

 

O Botão de Puchkin

28 de maio de 2012

 

Serena Vitale nos faz mergulhar nos quatro últimos meses da vida de Puchkin, o poeta nacional da Rússia. Mais do que uma simples biografia, no entanto, ela compartilha conosco toda a emoção da pesquisa, das informações desencontradas e dos debates acalorados que até hoje persistem. Ela nos conduz pelos labirintos das intrigas, nos faz presenciar a caça de documentos, de cartas escondidas, de outras desaparecidas para sempre e de outras que somente agora vieram à luz. Um verdadeiro trabalho de detetive e de dedução, tentando separar os fatos dos simples boatos, as acusações das maledicências puras, para somente depois de muita procura e averiguações, tentar chegar a alguma conclusão. Ela nunca faz uma afirmação sem especificar de quem foi buscar a informação e tentar entender a sua validade e veracidade.

As circunstâncias da morte de Aleksandr Puchkin ainda estão cercadas de muita polêmica. Não do duelo em si: no dia 27 de Janeiro (8 de Fevereiro, segundo o Calendário Juliano) de 1837, o poeta duelou com pistolas com Georges d’Anthès, um oficial francês que havia pouco tempo tinha se incorporado na guarda russa e se casado com a irmã da mulher de Puchkin, Natalia. O casamento provocou um verdadeiro furor na alta sociedade russa, pois todos sabiam (ou comentavam, ou fofocavam) que ele havia se casado somente para poder disfarçar sua verdadeira paixão, Natalia. Mas as investidas de D’Anthés não teriam parado mesmo com o casamento e Puchkin o desafiara, afinal, para defender sua honra. O poeta recebeu um tiro no estômago e morreu depois de três dias de agonia.

As paixões e os sentimentos aqui envolvidos complicam esta história que, em tudo, lembra o enredo de uma novela romântica, inclusive de algumas escritas pelo próprio Puchkin. Quando morreu, o poeta gozava do auge de sua fama. Estava somente com 37 anos de idade, mas já tinha moldado toda uma literatura: era o líder (e praticamente o fundador) do movimento romântico russo; suas baladas e suas sagas de personagens históricas, escritas em formas de versos, buscavam inspiração nas raízes culturais e folclóricas nacionais; foi o primeiro a utilizar a linguagem popular, cotidiana, em seu trabalho literário, criando uma mescla de beleza e alto rigor lingüístico ao mesmo tempo em que popular e acessível. É reconhecido como o criador da língua moderna russa.
É um verdadeiro herói em sua terra. A cada ano, uma caravana se dirige ao seu túmulo na data de sua morte levando velas e flores, passando a tarde declamando seus poemas.

Além disso, Puchkin era um satírico mordaz, um crítico inteligente e divertido, o que certamente só aumentava sua popularidade. Se como poeta podemos compará-lo ao romântico Lorde Byron e, como formador cultural, ao também romântico Goethe, como satírico é inevitável pensar em Voltaire, com a mesma crítica social e sátira corrosiva.

E há o mesmo relacionamento de amor e ódio para com a aristocracia. Mesmo não fazendo parte de nenhum partido político de oposição (potencialmente perigoso para uma sociedade dominada pela feroz autocracia czarista), ele incomodava e dava muito trabalho para os censores que, em troca, eram constantemente fustigados pelas palavras impiedosas do poeta.

Fama e popularidade, no entanto, não se traduziam em dinheiro. Nascido em família nobre, mas empobrecida, mesmo assim conseguiu casar com a mais bela moça da família Gontcharov. Todas as descrições são unânimes: por onde quer que passasse, Natália Nikolaevna brilhava e ofuscava todas as outras beldades, despertando a inveja das mulheres e a admiração dos homens.

E praticamente por aí acaba a unanimidade. Qual a personalidade de Natália, quais as suas idéias e sentimentos, é impossível saber. Não existe documentação, nenhuma carta sobrou. Ela está muda para nós. Só podemos ouvir os murmúrios de outros, percebemos ecos pelas cartas de Puchkin que chegaram até os dias de hoje. Sabemos que gostava de participar dos bailes, onde era a rainha incontestável. Palavras maldosas nos dizem que tanta beleza era uma magnífica capa para uma pessoa frívola e coquete cujo único propósito na vida era justamente (e somente) dançar. A verdade se dispersa no meio dos murmúrios.

Georges D’Anthés também não é fácil de discernir. Execrado pela sociedade russa, expulso das forças armadas do país, voltou para a França em desgraça. Sua vida estabilizou-se, viveu longamente (até os 83 anos) tornou-se político, anos depois foi embaixador designado pelo próprio Luís Bonaparte para fazer negociações (ironia das ironias!) com o czar. Até onde ele teria ido em suas investidas em Natalia Puchkina? Até onde ela teria cedido? Até que ponto tudo foi uma brincadeira inconseqüente? Ou uma traição consciente?

A grande qualidade do texto de Serena Vitale é o modo como ela consegue nos fazer sentir como se estivéssemos participando junto com ela desta investigação. Batemos cabeça, nos desesperamos com a falta de informação ou ficamos perdidos com tanta informação desencontrada. De repente, ela pára a narrativa, nos traz para o presente, diante de um baú da família dos descendentes de D’Anthés e encontramos cartas! Com emoção, abrimos os envelopes e gritamos de alegria: buracos inteiros da história são finalmente revelados, dúvidas são esclarecidas, a busca paciente valeu a pena. Tudo bem que novos problemas sejam colocados, isso também faz parte.

Um exemplo particularmente interessante é sobre as cartas anônimas. Alguns meses antes de sua morte, Puchkin e vários outros membros da sociedade receberam cartas anônimas dizendo que o poeta teria aderido ao Clube dos Cornos. Irascível, passional, ciumento, briguento, sensível para os mexericos desta sociedade que conhecia tão bem, Puchkin não precisava de muito mais para desafiar D’Anthés. Estaria ele também convencido da frivolidade de sua mulher ou foi somente para resgatar a humilhação do seu orgulho ferido? O fato é que estas cartas, das quais existem ainda duas cópias, foram a gota d’água.

Sua autoria nunca foi estabelecida ou provada, embora as discussões tenham sido intermináveis. Vitale repassa todos os possíveis culpados, compara suas letras, julga os possíveis (e os necessários) dotes culturais para a feitura da redação, relaciona os graus de amizade e relacionamento com a alta sociedade russa e, no final, com relativa segurança, indica-nos quem, na sua opinião, teria sido o responsável.

A impressão é que Vitale sabe tudo, leu tudo, conhece todo mundo. Para a autora, não se trata de personagens históricas, mas gente de carne e osso que amou, sofreu, odiou. Mais do que isso, ela consegue transmitir essa compaixão e sua empatia em um texto emocionante que lemos como se fosse um romance policial; viramos as páginas sofregamente, ansiosos não só para descobrir as novas revelações, mas o modo como isso foi feito. E para o leitor que for fisgado (o que é fácil, basta começar a ler) e chegar até o final, Serena Vitale nos recompensa com o fruto desse esforço, uma extraordinária e impactante conclusão.

Sem dúvida, um belo e instigante livro que consegue fazer do ato de escrever seu verdadeiro personagem principal.

 

 

O Estado Fundamental de Adriana Brunstein

24 de maio de 2012

 

ontem eu dei de cara com o steven seagal. não foi nada premeditado, eu só tava tentando colocar algumas coisas no lugar, parear umas meias e dar uma arejada no quarto. foi aí que ele entrou. veja que toda premeditação foi por parte dele. é impressionantemente contraditória a nossa falta de ação quando dá de cara com o steven seagal. eu nunca fui lá muito fã do cara, a única coisa que dediquei a ele nesse tempo foi a tecla de canais do controle remoto. perguntei como havia sido a temporada dele no japão e como ele tinha se safado daquele processo por ter matado um cachorro num reality show. ele ficou bem puto nessa hora. quer dizer, eu acho que ficou. a cara dele não mudou muito. mas ter bom senso em conversas improvisadas nunca foi meu forte. aí fui comentar a última luta daquele programa do belfort, um tal de bodão ganhou. e eu dizia: big goat, man. aí a coisa fedeu de vez. reality show definitivamente é assunto proibitivo quando você dá de cara com o steven seagal. pedi água. bati três vezes a mão no chão e ele me olhou com desprezo quando disse, volta a sonhar, garota. e saiu. pela mesma janela que entrou. quando o perdi de vista gritei: sabe como é gaivota em inglês? é seagull. panaca.

 

 

hoje eu tô usando a camiseta daquele filme com o de niro e imaginando o tal segurança que deu calote nas putas colombianas comendo a sarah palin. comendo mesmo. tipo pagando duzentos dólares pra vendar aquele puritanismo todo que ela traça com granola toda manhã. isso me enoja. granola, quero dizer. ela jogava leite desnatado na porra da granola porque não gostava do barulho de coisas crocantes sendo mastigadas. dizia que ecoava na cabeça dela. não, não a sarah. o mais perto que eu cheguei do alaska foi essa garota. ela tinha uma mancha na planta do pé e uma tia que testemunhou a aparição da nossa senhora numa torrada. aí ela entrou numas de álcool gel e sexo com assepsia. cara, eu te juro que teria muito mais tesão trepando com uma garrafa de vodka. arriscando até ser ciruncidado por um caco de vidro. só pra sujar aquele lençol anti-ácaro com minhas hemácias podres. ela que me ensinou isso do sangue ter hemácias. e umas duas outras coisas também. mas sabe como é, minha memória tá fazendo serenata em outro lugar. e eu tô aqui limpando sujeira das unhas da minha mão com um palito pra bater uma. não, não tô pensando nela. sério mesmo. se tivesse eu até te diria que ela era a cara da putinha do taxi driver. esqueci o nome da atriz, mas anos depois ela se meteu a desvendar mente de psicopata. faz frio pra cacete no alaska, né não?

Considere-se que estes textos são do blog de Adriana Brunstein PONTADA NO APÊNDICE 

Considere-se que ‘ESTADO FUNDAMENTAL’, é seu primeiro livro, está sendo publicado pela PANELINHA BOOKS, e será lançado agora, dia 28 de maio, segunda-feira, na MERCEARIA (Rua Rodésia, 34 – Vila Madalena)

Considere-se que CLAUDINEI VIEIRA sente-se desconcertado, emocionado, impactado e envolvido pela força da escrita desta mulher.

 

 

Feras no Jardim – Don’t Let’s Go to the Dogs Tonight

13 de maio de 2012

 

O apelido de Alexandra Fuller quando criança era Bobo. Um detalhe semântico aparentemente ínfimo diante de todo o contexto de sua infância, mas que, no final, adquire uma impressionante importância. Essa infância deveria ser a mais comum possível, com algumas vantagens adicionais. Isto é, seus pais eram brancos, de origem inglesa (portadores, portanto, de uma intensa e antiga carga de comando imperialista) e viviam em um continente onde a ínfima minoria branca comandava, dirigia e explorava: a África.

Qual o problema, então? Acontece que estes mesmos pais eram alcoólatras, neuróticos e fracassados social e economicamente, que já haviam morado na África e voltaram por não terem conseguido construir uma vida razoável em sua terra natal. Sua mãe era maníaca depressiva, principalmente depois de perder três filhos em idade pequena e dizia que o nascimento de Bobo havia sido encaminhado somente para compensar a morte do seu filho anterior. E, mais do que tudo, esta família branca, racista, neurótica e prepotente vivia em uma África convulsionada em plena guerra civil. A qual seria vencida pelos africanos negros quebrando finalmente a longa tradição colonialista.

A infância de Bobo foi marcada, então, pela intensa necessidade de encontrar balizas físicas e mentais pela sobrevivência, dia a dia, quase minuto a minuto. Aprendeu a engatilhar armas com seis anos de idade; com oito anos já tinha feito um curso de primeiros socorros aprendido como atividade escolar e saberia cuidar de um parto de emergência, fazer talas e conter hemorragias, embora também lhe fosse ensinado que só deveria cuidar destas coisas se não houvesse nenhum adulto por perto. Isso, aliás, é um eufemismo. A lição era bem clara: se todos os adultos ao seu redor estivessem mortos.

Ir para a escola significava prestar atenção nas encruzilhadas para não serem emboscados pelos guerrilheiros ou utilizar veículos especiais que pudessem passar por cima das minas sem explodi-las. Ir trabalhar na fazenda de tabaco da família ou participar das patrulhas armadas organizadas juntamente com os vizinhos fazendeiros implicava sempre em dúvidas se o seu pai iria voltar para casa ao cair da noite.

Ficar em casa, no entanto, também era perigoso. Como quando uma enorme cobra entra esguichando veneno e sua mãe, péssima atiradora, destrói a sala e gasta um pente inteiro de balas até conseguir mata-la. Ou quando um empregado rouba a família, mata a facadas a criada e tenta fugir pela floresta carregando um enorme saco repleto de quinquilharias.

Os negros vencem a guerra. Os antigos explorados agora estão no poder. A Rodésia muda de nome para Zimbábue. A família de Bobo tenta se adaptar, muda para Malui, depois para a Zâmbia, mas são sempre prepotentes, estão sempre deslocados. Talvez, principalmente, de si próprios (de onde não há mudança possível).

Bobo mergulha em suas memórias, navega pelas dores passadas. Sem complacência, sem autopiedade ou mistificações. Mas, também sem falsos moralismos nem pré-julgamentos. O mais admirável é que Bobo consegue transportar para o papel toda essa realidade crua, forte e chocante sem cair em maniqueísmos simplistas e facilitadores. Ao retratar seus pais de forma tão impiedosa, com todas as suas falhas e defeitos, neuroses e preconceitos, ela retira a frágil aparência das máscaras e desnuda o ser humano.

Não foi fácil alcançar esse ponto. Bobo tentou escrever vários romances tendo a África como personagem principal e as tramas seriam conduzidas pelos núcleos de fazendeiros brancos. Ela diz que não foi possível, algo sempre emperrava, os enredos eram falsos e vazios, os personagens aéreos e sem substância. Morou no Canadá, onde se graduou em literatura inglesa e durante anos começou a escrever sete, oito, nove vezes em seguida. Quando decidiu deixar a ficção de lado e assumiu que precisava escrever sobre sua própria vida, a escrita jorrou e, em poucos meses, o livro estava pronto. Era como se, em sua mente, tudo estivesse preparado; a memória foi o seu grande guia e depositário. Só que, para poder deixar que esta memória extravasasse, não poderia haver invenções nem fantasias. Se a carne tinha que se expor, então teria que ser real, assim como a faca e o sangue. A franqueza e a sinceridade foram suas grandes armas. Ela disse em uma entrevista para a New York Times que seus sentimentos de recalque e culpas pessoais a impediram de se exprimir durante muito tempo: “Então, eu decidi que as pessoas poderiam me acusar de tudo menos de dizer a verdade”. Ela tinha que contar como as coisas realmente aconteceram.

O resultado em “Feras no Jardim” é estonteante.

É óbvio que franqueza e sinceridade não garantem de forma nenhuma qualidade literária. Bobo passa por cima de uma simples narração de fatos chocantes. Estamos diante de uma obra acabada de uma escritora que encontrou sua escrita. O que conta aqui é a habilidade da autora em contar dados dramáticos sem nunca perder um sentido de sutileza e observação psicológica profunda, ao lado de um senso de humor e ironia mordazes. Há humor nestas páginas! Não do tipo que provoca risadas e depois, com a consciência tranqüila e sossegada, esquecemos o que acabamos de ler. É um humor incômodo, pesado, que faz-nos lembrar o quanto a vida é irônica e cruel. E, acima de tudo, verdadeira.

Com tudo isso, o apelido se torna mais do que uma lembrança de infância. É uma verdadeira tomada de consciência de uma africanidade assumida, mesmo que atualmente esteja casada com um norte-americano e viva nos Estados Unidos. Foi na África que conheceu seu futuro marido, pois ele trabalhava como guia de turismo no continente. Seus pais e sua irmã continuam morando em território africano, mesmo que mudando constantemente de país. E ela está desgostosa com a vida de competição e de shopping center norte-americana e não quer que seus dois filhos cresçam comendo no Mac’Donalds e jogando videogames. Por isso, seus planos são de se mudar para a Tanzânia.

O seu nome, Alexandra Fuller, aparece somente na capa do livro.  Bobo, então, é seu nome real e é por ele que ela gosta de ser chamada. Com todas as lembranças, dores e responsabilidades consequentes.

Retrato do Artista Quando Velho

23 de abril de 2012

 

Eugene Pota, personagem-narrador-objeto do último romance de Joseph Heller, é um escritor cujos livros, embora intelectualmente densos, sempre venderam bem. Respeitado, convidado constante para dar palestras, qualquer nova obra tem publicação certa. Aos 73 anos, não possui problemas financeiros e seu casamento com a terceira mulher é estável, apesar de viver dando em cima das mocinhas de 40, 45 anos. Está passando, porém, pelo terror de todo escritor, ou mesmo de qualquer pessoa que alguma vez tentou colocar um pensamento no papel: a falta de inspiração. No ocaso da vida, sua vontade é de escrever uma obra-prima que tivesse o mesmo sucesso retumbante de suas primeiras obras e, quem sabe, até fosse vendida para Hollywood. No entanto, nenhuma idéia decente aparece; nada que o faça retomar o antigo entusiasmo. Como escrever algo que já não tenha sido dito, e melhor, por outras pessoas de talento, inclusive ele próprio?

Em desespero, se volta para obras consagradas e começa a parodiá-las. Tenta uma versão atualizada da “Metamorfose”, de Kafka, desta vez na Manhattan do final do século XX. Joga-a fora. Vira-se para a Bíblia e tenta imaginar como seria o relacionamento entre Deus e sua Mulher. Mas isso acabaria em uma outra variação irônica da Criação, de Adão, de Eva. Quantos já não fizeram isso? As infidelidades de Zeus contadas por sua mulher, Hera. A vida de Tom Sawyer adulto. O sacrifício de Isaac, do ponto de vista de Isaac. Nada. Nada. A única idéia que lhe parece interessante e que consegue arrancar um saudável sorriso irônico das pessoas ao seu redor, quando anunciada, seria um romance com o título “Uma Biografia Sexual de Minha Mulher”. Mas ele nunca consegue avançar além do título.

Retrato do Artista Quando Velho” foi escrito por Heller aos 76 anos, pouco antes de morrer. Ele não viu a obra ser publicada. É, pois, um inquietante e incômodo relato fictício/autobiográfico. A estranheza vem do fato de que Heller não poupa a ironia pesada e o sarcasmo ao se retratar, ao comentar suas idiossincrasias e manias de velho, suas incertezas de escritor, as dúvidas sobre a qualidade de sua obra, suas infidelidades amorosas, que só não são efetivadas pela sua decadência física. Ao contrário do seu alter-ego Eugene Pota, no entanto, Heller tem a escrita bem firme e esbanja talento, humor (mesmo que cáustico e, no mais das vezes, bem melancólico), e elegância de estilo. Na verdade, os trechos ‘escritos’ por Eugene do diário de Hera são muito engraçados e a versão de Kafka merece figurar em qualquer antologia. Com a ironia já começando pelo próprio título, uma referência direta do clássico “Retrato do Artista Quando Jovem”, de James Joyce, e mesmo o nome do personagem, Pota, é derivada dessa brincadeira (Portrait Of The Artist).

Joseph Heller é considerado um dos mais importantes escritores norte-americanos do século XX. Nascido em 1923, escreveu vários contos e artigos de prestígio, quando lançou no começo da década de 60 uma novela que o consagrou mundialmente, tanto pela crítica quanto pelo público: “Ardil 22”, uma sátira arrasadora da Segunda Guerra Mundial, utilizando sua própria experiência como aviador. Esse livro foi filmado na década de 70, também com bastante repercussão. “Ardil 22” penetrou tão fundo na consciência norte-americana que se tornou um dos símbolos máximos do movimento antibélico e foi tomado como estandarte pelos militantes contrários à guerra do Vietnã. E, segundo o jornalista e escritor Marcelo Barbão, “Catch 22” até virou uma expressão popular, significando uma situação onde não há vencedores.

Heller nunca deixou de escrever, até morrer de infarto em 1999. Sua obra inclui vários outros romances, contos, ensaios, peças de teatro, artigos. Sendo assim, seu último livro se torna, portanto, o seu testamento literário, um auto-ajuste de contas, uma lavagem de roupa suja consigo mesmo, refletindo suas preocupações sobre a vida, o peso da idade, a literatura, fracasso pessoal, a busca por um sentido para sua existência.

Em uma entrevista para Barbara Gelb em 1994, pode-se perceber como isso estava presente em sua mente. Em um determinado momento, ele diz como ficou impressionado ao constatar o quanto a profissão de escritor havia levado tanta gente ao desespero existencial, desembocando no alcoolismo, depressão, suicídio.

Quando Gelb pergunta se ele estava indo pelo mesmo caminho, responde, enfaticamente: “Não… ainda. Eu estou indo muito bem, emocionalmente. Ou, pelo menos, acho que sim”.

Isso acabou se refletindo em algumas das páginas mais impressionantes de “Retrato…”. O jovem Tom Sawyer cresceu e agora quer se tornar um escritor. Vai em busca de conselho. Naturalmente, tenta se encontrar com a pessoa que se tornou famosa as suas custas, Samuel Clemens, mais conhecido como Mark Twain. Ao chegar ao seu endereço, no entanto, constata que Twain está percorrendo o país com palestras pagas para conseguir cobrir as vultosas dívidas contraídas com suas aventuras comerciais. Mais tarde, fica sabendo de suas tragédias pessoais, a morte da esposa depois de uma grave doença, a morte da filha afogada em uma banheira ao ter um ataque epiléptico, o próprio fim melancólico.

Tom Sawyer tenta falar, então, com o lendário Jack London, o protótipo do self-made man norte-americano, criador de obras imortais como “Caninos Brancos”, “O Chamado Selvagem”, exemplo do homem que ficou milionário com literatura. Ele, porém, estava viajando pelo Havaí. E se suicidaria ao voltar. Sawyer acaba indo para Inglaterra encontrar Stephen Crane, autor de “O Emblema Rubro da Coragem”, mas este morrera na Alemanha, de tuberculose, carregado de dívidas, aos 28 anos. Dos ingleses, Henry James vivia recluso e deprimido pelo desprezo da crítica por suas últimas obras, como “Os Embaixadores”, “O Cálice de Ouro” (que só seriam reconhecidas como obras-primas depois de sua morte) e invejoso do sucesso da norte-americana Edith Wharton (que, apesar disso, era explorada por um marido alcoólatra que roubava seu dinheiro). E mais: Bret Harte, Joseph Conrad, todos com histórias trágicas.

Sawyer, horrorizado, desiste de ser escritor e volta para junto de sua tia Polly, decidido a se tornar ferroviário.

Eugene Pota/Joseph Heller chama a isso de Literatura do Desespero.
Heller conduz sua escrita com absoluta precisão. Da comédia desbragada ao drama, da celebração da vida à melancolia do cotidiano. Emocionante, engraçada, sensível, satírica. É uma lição de pura literatura.

cena do filme 'Ardil 22', baseado na obra de Heller

 

 

Para Guimarães Rosa, um nome nunca é somente um nome.

19 de abril de 2012

 

Guimarães Rosa não é somente uma literatura: é todo um universo sensível lingüístico, literário e cultural agrupado em uma só pessoa. Um escritor fenomenal com uma impressionante capacidade mental do qual parece não haver fim. Suas obras são como camadas da superfície da terra que, por mais que seja escavada, sempre revela outra e outra camada, um matiz diferenciado e insuspeitado. Com a diferença de que a Terra não faz isso conscientemente.

Em Rosa, tudo é arquitetado, minuciosamente construído, previamente concebido. Por isso, a leitura dos seus livros também possui diversas camadas, várias fases, que vai além, muito além, do primeiro impacto, de conhecer as histórias e os enredos e se deliciar com as milhares de brincadeiras semânticas, sonoras, brilhantes, espalhadas ao longo dos textos. Mas, também é fascinante descobrir o trabalho do autor, atravessar as tessituras, compreender os sentidos. Rosa é tão grande que montou vários jogos interpretativos, logo abaixo da fina superfície narrativa. E como verdadeiro mestre de cerimônias convida-nos a entrar no jogo, compreender as nuances, viajar pelas palavras.

Ana Maria Machado parte desta primeira constatação: em Guimarães Rosa, nada é por acaso, nada é à toa, tudo possui um propósito específico e consciente. Ate aí, nada de mais. Basta ler qualquer livro para o perceber. Mesmo a questão dos Nomes rosianos já foram estudados: sua etimologia, as construções originais, a contribuição de tantas e diversas línguas dos quais Rosa era mestre.

O nome próprio em um texto como o de Proust ou o de Guimarães Rosa é, portanto, uma palavra poética, um signo espesso e rico que escapa sempre aos limites de cada sintagma, enviando ao conjunto do texto, e mesmo para além do texto.”

Ah, mas Ana Maria Machado envereda por caminhos diferentes e traz à luz uma profundidade insuspeitada: os Nomes Próprios para Rosa possuem uma função não só designativa, não são somente uma caracterização dos personagens, não são decisivos somente para demonstrar a personalidade ou a alma de um Diadorim, de um Riobaldo, ou de um Miguilim. Os Nomes próprios são determinantes para a própria narrativa!

O Nome, em Guimarães Rosa, não atribui ao personagem uma característica marcante que o acompanha em todas as situações vividas, mas ao contrário, vai recebendo em cada novo momento um novo significado e, freqüentemente, um novo significante, num processo de permanente mutação do signo. Assim, o nome próprio não é um atributo mágico descritivo, que confere características ao personagem, mas um signo do funcionamento da narrativa e do desenrolar da ação.”

Vejamos como isso funciona na prática, com um exemplo: em “Grande Sertão: Veredas“, Diadorim, além de carregar suas milhares de possibilidades interpretativas (DIADORIM: Diá como Diabo; Diá, como Dea, referindo ao outro pólo, Deus; conjugação do verbo Dar; Dia, em suas conotações de tempo, luz, brilho; Dor; Adorar, deadora, deamar; Durar; Ódio, odiar; Odor; Rio e etc), ela também traz uma história própria, sua. Quando Riobaldo conhece Diadorim, é sempre como O Menino, ou Menino do Porto ou o Menino-Moço; depois, seu nome é Reinaldo; e só por fim, vem Diadorim. Cada apresentação do nome corresponde a um momento dramático preciso e objetivo do livro, determina o andamento da trama e da aproximação dos personagens.

Isso já é muito interessante, mas Ana Maria é uma verdadeira arqueóloga literária: fuça nas entranhas da terra, escava e nos mostra os ossos: Em “A Hora e a Vez de Augusto Matraga“, acompanhemos a história, a narração, através dos nomes dos personagens. Neste conto, o personagem principal é um prepotente que, depois de escapar da morte, acaba levando uma vida dedicada à pobreza e morre quase como um santo. Pois bem, Ana Maria assinala:

um Augusto personagem, cujo sobrenome (Esteves) assinala o caráter transitório de seu estar no mundo, é mais conhecido como Matraga. Para quem segue um caminho de ascensão espiritual, tendo casado com Dionora, nora de Deus, passado pelo obstáculo de Flosino Capeta, se aproximado de Joãozinho Bem-Bem junto a Epifânio, e tendo sido mandado num jumento para salvar desamparados, tudo leva ao atingimento de sua hora e vez, que ele entrega a Deus, conforme lhe fora ordenado em próprio nome, Matraga.”

No capitulo 5, no entanto, Ana Maria vai mais longe, ao desmontar o edifício de “Recado do Morro“, uma das novelas de “Corpo de Baile“. A questão que ela se coloca é a seguinte: como hipótese teórica é possível trocar os nomes dos personagens de um escrito de Rosa? Calma, tranqüilamente, ponto por ponto, com sua prosa suave, Ana Maria prova que não. E mostra a importância disso.

Grosso modo, “Recado do Morro” conta uma viagem de sete dias de um grupo guiado por Pedro Osório. Cada nome dos personagens tem relação com o nome dos donos das fazendas por onde eles passam que corresponde diretamente ao nome do dia da semana específico que determina a ação que cada um vai cometer. Este é somente um dos fios tomados por Ana Maria. Não é possível aqui refazer esta trilha, mas não posso me furtar a exemplificar: Domingo é dia do Sol, Apolo, (sun-day) e eles estão na fazenda do seu Apolinário; terça é dia de Marte, deus da guerra (martedi, mardi, martes), na fazenda do seu Marciano, onde acontece uma briga; sexta-feira é dia de Vênus (venerdi, vendredi, vernes), na fazendo Bõamor, de Dona Vininha, onde sai um namorico com a filha da dona, Lirina (e Lírica é filha do Amor, na mitologia grega). E por aí vai. Creio que foi suficiente para demonstrar que Ana Maria é minuciosa, cata os exemplos, cita as palavras, nomeia as páginas. Elegantemente, prova sua tese.

Com essa discussão, ficamos conhecendo uma figura intelectual que não é muito conhecida, ou melhor dizendo, praticamente desconhecida: Ana Maria Machado, a ensaísta! Escritora tão famosa de livros infantis e infanto-juvenis, membro da Academia Brasileira, já ganhou o “Prêmio Nobel” da literatura infanto-juvenil mundial, o “Hans Christian Andersen”, já vendeu quase 14 milhões de livros, com quase cem obras escritas. Mas, também, como vimos, é uma ensaísta espetacular.

“Recado do Nome” é sua tese desenvolvida nos anos de 1969 a 1972 na França, no Brasil corria brava a ditadura, sob a orientação de Roland Barthes. Foi publicada somente em 1976, tornando-se desde já um clássico da ensaística literária. Segundo a apresentação da edição da Nova Fronteira, Barthes teria dito que Ana Maria fizera o que ele mesmo não conseguira fazer com Proust; e Carlos Drummond de Andrade dizia que só lamentava duas coisas: “que Guimarães Rosa não estivesse vivo para ler este livro … e que Ana Maria não tivesse escolhido voltar seu olhar para a obra dele, Drummond, pois era a leitora que ele sempre gostaria de ter tido“.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer

 

 

Do labirinto

8 de abril de 2012

 

Já nos mostrava Kafka, de forma bela e terrível, que o labirinto é tão forte e opressivo que é virtualmente impossível escapar dele. Para piorar, ainda carregamos um sentimento de culpa, pois temos a impressão de que o labirinto só existe por nossa causa, nós o criamos, nós somos os responsáveis e por isso temos que pagar.

Ou tentamos ignorá-lo até o inexorável instante quando ele nos alcança, por fim.

Não sei. Tenho a impressão de que reflexões do tipo não ajudam em nada a começar o dia.

Bom dia.

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Habitante Irreal, de Paulo Scott, uma jornada ética, um livro absurdamente necessário

29 de março de 2012

 

Acabei de ler, emocionado e contente ( e finalmente, pois o livro foi lançado ano passado) a última obra do contista, romancista e poeta, Paulo Scott, o ‘Habitante Irreal’.

Que belíssimo livro, que literatura sofisticada, que trabalho maduro, tão bem construído (apesar de algumas imperfeições), fluido e agradável de ler (uma leitura extremamente prazerosa) com uma narrativa de aparência simples, à primeira vista, e com um universo de intenções e interpretações possíveis como embasamento. Embora inicie-se como uma reflexão política, através da trajetória de um militante desiludido, a obra não finaliza como um manifesto e sim como uma reflexão profunda sobre escolhas éticas (ou falta de) e de suas consequências (embora imprevisíveis, inexoráveis, algumas trágicas).

Durante esse tempo desde seu lançamento no ano passado, me abstive de ler críticas ou comentários afora, minha pretensão era de chegar ‘puro’ à obra, sem intermediações de pensamentos alheios. Não foi uma pretensão muito bem realizada, acabei vendo alguma coisa ou outra, embora tenha realmente tentado me desligar de outras opiniões. A minha expectativa era grande, por motivos intelectuais, literários e pessoais, e tinha receio de ser novamente decepcionado, como aconteceu algumas vezes (e há pouco tempo). Portanto, neste primeiro parágrafo, antes de prosseguir eu gostaria de deixar claro dois pontos primordiais, duas recomendações: não leia este meu texto. Não neste momento, pelo menos. Não forme preconceitos; vá de cabeça limpa, esqueça esse pobre resenhista. Pois minha segunda recomendação é Leia o livro Agora, de Imediato, pois é dos mais importantes que apareceu na literatura brasileira nos últimos anos.

Dito isso, também devo enfatizar que posso cair em uma apreciação não muito isenta. Há muitas questões externas a uma análise de pretensa objtetividade que podem comprometer meu pensamento, o que  reconheço desde logo ser uma lástima. Tentarei deixa-las todas claras à medida que ocorrerem. Ao menos, prezarei a sinceridade.

Para uma primeira aproximação, o básico: a linha narrativa e a construção formal da linguagem. O enredo é simples. Paulo é um militante do PT no final da década de 80 (o livro começa bem especificamente, em 1989), desiludido e desanimado com os caminhos de acomodação política e de disputa de poder que o partido está tomando, mesmo que saiba ser o rumo óbvio de um grupo que, afinal, está conquistando seu espaço. Paulo sabe, também, que seria fácil seguir os mesmos passos, montar as peças de uma carreira, e se destacar; tem cacife, anos de militância e um certo reconhecimento. Porém, percebe que isso o deixa completamente apático, não possui essas ambições, e vê-se, assim, desprovido de perspectivas. A mudança abrupta em sua vida acontece quando conhece uma índia adolescente, Maina, parada ao lado de uma estrada, a quem oferece uma carona. A carona evoluirá para um relacionamento e para acontecimentos que remodelaração suas existências e não necessariamente para o melhor. Por mais previsível que seja, porém, a tragédia não deixa de ser inevitável. Os caminhos se bifurcam, as rotas pessoais se dividem, Maina engravida, Paulo se muda para Londres, outros personagens e outras histórias aparecem e tomam conta da narrativa, e mesmo Paulo retoma, sua importância é relativizada, outras são as preocupações, assomando-se assim uma primeira grande questão: Quem é, de fato, o personagem principal, e para onde ele, e o romance, nos levam.

Não é uma falsa questão. Quando, ao acabar a minha leitura, fui colher curioso o que outros teriam dito e como foi a reação geral, percebi que há uma grande confusão, mesmos entre aqueles que elogiaram a obra. Constatei, divertido, a irritação de quem pensou que o livro não leva a lugar algum. São os que interrompem sua interpretação somente por meio da história, e perdem suas inferências. Mais para frente, digo qual a minha resposta e porque a considero tão fundamental.

Formalmente, ‘Habitante Irreal’ é uma surpresa, considerando-se os trabalhos anteriores de Scott. Muito diferente de suas experimentações linguísticas de seus poemas e inclusive de sua prosa: seu livro de contos, ‘Ainda Orangotangos’, exibia uma volúpia luxuriosa e libertária, mesmo que tensa e pesada em alguns momentos, além de trazer um cd no encarte com músicas para serem lidas durante a leitura de cada um dos contos. Seu romante anterior, ‘Voláteis’ aumenta a intensidade, mesmo que adote uma linha mais ‘psicologizante’, o que me fez esperar que ‘Habitante Irreal’ as experimentações fossem aumentar.

Ao contrário. A prosa agora é contida, simples, quase melancólica, mesmo em momentos de crise ou violência, nunca, porém, ‘devagar’ ou parada, pois sempre fluente, sempre em movimento, o que às vezes provoca um belo contraste entre a contenção da palavra e a aspereza violenta da ação narrada. Esse movimento constante da ação está presente o tempo todo, mesmo quando não existe, na verdade, uma ‘ação’ propriamente dita, quando penetramos em seus pensamentos e elucubrações íntimas. Boa parte da narrativa é conduzida assim, aliás, e o fato de sermos tomados e não despegarmos os olhos das páginas é mérito total do controle criativo de Paulo Scott.

Há falhas, no entanto; esse controle é perdido, algumas vezes. Por exemplo, instantes onde se instala uma espécie de ‘didatismo’ (não gostei muito dessa palavra, mas parece expressar o que estou sentindo, por enquanto) quando o narrador paralisa a ação ou insere uma fala que explica em demasia, focaliza um ponto sem necessidade, ou começa a enumerar ítens, um recurso interessante quando bem utilizado, mas que aqui parece tímido, sem que sua potencialidade plena seja atingida, como em uma cena de sexo, quando o personagem começa a citar para si e para o leitor os acontecimentos políticos importantes que o rodeavam naquele exato momento e que deveriam chamar sua atenção. Como painel explicativo da época, o didatismo quase infantil apresentado é flagrante; como recurso estilístico, é fraco e insuficiente.

Para explicar melhor, penso em obras como ‘Quarup’, de Antônio Callado, engajadamente política e militante, que conta a transformação de um padre em guerrilheiro contra a ditadura, quando ao abrir um capítulo, deparamo-nos com a descrição de  uma farmácia da época, com a enumeração de cada um dos itens das prateleiras; minuciosa e exaustiva (até demais) a descrição leva bem umas três ou quatro páginas!, o que tem sua intenção dentro do romance. Outra obra (muito menos importante) que faz isso e possui também um impacto é ‘Viva o Povo Brasileiro’, de João Ubaldo Ribeiro (neste caso, o impacto é negativo, o recurso é em latim, uma bobagem longa, exaustiva e pedante). Na obra de Scott, não é pedante, mas é tímido, sem vigor, sem plena utilidade.

O ‘didatismo’ não me refiro somente aos momentos diretamente políticos. Uma cena que me irritou em particular é quando, em uma conversa sobre trotskismo e de sua vida como militante, Paulo fala de sua existência vazia: “Às vezes tenho a impressão de que só comecei a militar porque queria ser diferente, precisava aparecer, precisava chamar a atenção. Sou um cara vazio, Rener, um cara oco.” Poucas páginas depois, Paulo telefona para seus pais no Brasil (ele está em Londres) e deixa um recado na secretária eletrônica. Frases soltas e clichês, tentativa infrutífera de expressar uma emoção ou um sentimento verdadeiro. É somente um parágrafo, mas a sensação final é de uma pungência pesada e melancólica, que nos diz muito mais sobre o vazio e o oco do personagem do que em todo o diálogo explícito anterior.

O que há de forte, bonito e bem construído nesta obra compensam, de longe, as deficiências fortuitas. O escritor nos conduz aonde quer, domina nossas emoções, nos obriga, de puro prazer, a continuar a leitura. A construção dos personagens é primorosa: entendemos, nos identificamos, nos importamos, ficamos apreensivos com o futuro de Paulo, Maina, Donato, Luisa, Catarina, eles possuem ossos e carne e personalidades, inclusive os personagens passageiros, ‘coadjuvantes’, são marcantes e fazem presença, Rener, Henrique, Passo Fundo, o Espectro, são pessoas. Como seria fácil cair nos estereótipos!, o militante frustrado, a índia nativa, o índio aculturado, o policial estúpido… Eles são isso, só que muito mais, são concretos.

E há trechos poderosos, belos: o final da primeira parte (todo o capítulo ‘desenhos romanos’), a educação de Donato, a consulta de Maina durante a gravidez, a luta com os libaneses. Preciso especificar uma cena: a conversa com a velha senhora, à noite, em uma esquina antes da invasão da casa abandonada: a profunda sensação de estranheza e a bizarrice daquele diálogo, o desconforto quase pânico de Paulo, criam um clima de filme noir ou de literatura fantástica… amei essa cena e, desde já, é um dos trechos preferidos de tudo o que já li.

‘Habitante Irreal’ preenche, ou se pretende, uma falta que a moderna literatura brasileira não se engaja, nem encara: a da feição do Brasil presente como derivado da ditadura militar. Interessante observar como possuímos uma portentosa arte de resistência que, mesmo quando não-explícita (por censura ou auto-contenção), era consciente plena de sua postura. Esse fervor e urgência foram diluindo com os anos, com uma ‘redemocratização’ e uma certa ‘acomodação’ de alívio. Para a geração que nasceu no final da década de 60 e, portanto, passou sua infância e começo de adolescência inconscientes justamente na instalação e maior vigor da ditadura militar, a situação ideológica é muito confusa: somos depositários da mentalidade das grandes utopias do século e participamos do (ou assistimos o) final de uma ditadura dentro um contexto mundial político e econômico completamente diferentes do que nos era posto durante nossa formação pessoal e intelectual, ao mesmo tempo que presenciamos impotentes a derrocada das respostas totalizantes (ou de ‘ilusões prepotentes’, conforme seu foco). A reação geral foi de distanciamento, de não comprometimento, eu diria até mesmo de fuga. Atitude de diametral diferença às adotadas por outros países com históricos semelhantes (veja-se como é absurdamente difícil impor uma agenda de discussão e responsabilização pelos terrores da ditadura e compare-se o que já foi feito nesse sentido em países como Chile e Argentina; compare-se com o que as respectivas literaturas e as artes igualmente refletem). Essa percepção, essa ‘desacomodação’, esse conflito interno, é quase inexistente no Brasil, aparece esporadicamente em pontos esparsos. Só por esse motivo, só por provar que é possível fazer essa discussão no universo artístico, no universo literário, e, mais do que isso, realiza-la de modo tão bem e belamente construída, já valeria um posto único para ‘Habitante Irreal’.

Mas, isso é insuficiente.

Ao término da minha leitura, apesar do meu entusiasmo, estava incomodado. Senti que faltava alguma coisa e fiquei em dúvida se era uma falta de percepção minha ou se havia uma nota discrepante no trabalho de Scott. Demorei um pouco para descobrir que havia caído na mesma armadilha de alguns outros críticos (tanto os favoráveis quanto os discordantes) e ficado satisfeito e paralisado na primeira e superficial apreciação da história e esta, no final das contas, por mais surpreendente que seja, não é o mais importante! Permita-me explicar:

Os grandes saltos temporais, as mudanças geográficas, os pequenos painéis históricos, as mudanças dos personagens principais que se alternam entre Paulo, Maina, Luisa e Donato (os principais, mesmo que não ameacem a preponderância de Paulo, ainda que ele não esteja presente em metade do livro), podem nos fazer pensar em que tudo termine em uma espécie de beco sem saída (literário, o de Scott, e narrativo, dos personagens). Pois há uma pergunta que eu nem imaginava fosse tão importante e se revelou fundamental: quem é o personagem principal? É um desses citados? É o Brasil, como um todo? (Por um momento, pensei que fosse o filho de Maina, Donato, o verdadeiro responsável, e Paulo como um introdutor) Ou talvez uma idéia mais abstrata, a Política? Ideologia?

Creio que quem chega mais perto de uma boa resposta é Carlos André Moreira. Eu fiquei muito feliz de ler seu texto ‘Brincadeira de Forte Apache’ (Zero Hora), principalmente no trecho “O trajeto romanesco de Habitante Irreal é, assim, também um trajeto ético, uma vez que cada decisão parece gerar mais dúvidas e provocar consequências contrárias às intenções que as balizavam na origem.” É esse o principal!

É o que perpassa e fundamenta todo o romance de Paulo Scott e que, afinal, constitui sua real importância e nos explica seus personagens. São estas escolhas, suas consequências, suas aspirações e seus resultados, enfim seus posicionamentos éticos determinam (ou induzem) suas respostas e o que sofrerão de volta. O retorno da realidade é o fruto de suas ações (ou a falta de). A incapacidade congênita de Paulo, ou sua perene falta de coragem, a busca de identidade de Donato, a militância pseudo-anarquista de Rener, impoem, ou ao menos tentam impor, sua marca na vida, em sua existência, mesmo quando se deixam simplesmente levar pelos acontecimentos. Mesmo o ato final de Maina transcende sua pessoa, pois resvala inexoravelmente em outros. São todos responsáveis, todos os personagens, mesmo que as respostas recebidas sejam quase todas dolorosas (o Brasil é um dos personagens, realizar eleições e disputar poder são suas atitudes, o Brasil moderno, seja qual for, é sua resposta). Somos todos responsáveis, mesmo que inconscientes ou inconsistentes, inclusive o autor. Inclusive o leitor.

‘Habitante Irreal’ é um manifesto, sim, mas não político (pelo menos, não somente político). É uma bela obra que levanta a questão do ser humano como ente ético e suas tremendas consequências, até mesmo a morte, que o acompanham.

 

 

H. P. Lovecraft provou que uma cor, uma simples cor, pode ser aterrorizante.

23 de março de 2012

Para H.P. Lovecraft, a estabilidade do ser humano é frágil e se assenta sobre bases falsas. A nossa ridícula pretensão de estarmos no controle da situação logo será desmascarada pois os verdadeiros donos do universo despertarão do seu sono milenar e retomarão o seu lugar. De vez em quando, no entanto, algumas brechas são abertas e somos convidados a ter alguns vislumbres da realidade. É necessário cuidado, no entanto. Algumas pessoas conseguem esse vislumbre: inevitavelmente acabam loucas, possuídas pelo terror. Ou então algumas tentam nos contar o que aconteceu, tentam avisar dos perigos pelos quais a humanidade está passando, mas quem pode acreditar na profundidade do horror?

Indícios estão por toda parte: nas terríveis lendas antigas, nos rituais macabros dos povos ainda não contaminados pela “civilização”, em pedaços de manuscritos encontrados por acaso mesmo que alguns sejam misericordiosamente escondidos ou destruídos, está nas infames palavras do árabe louco Abdul Ahazred, autor do odioso “Necronomicon” ou em velhas inscrições em paredes de edifícios cuja origem se perde pelas brumas do tempo e cuja língua já não nos é mais dado saber. O terrível “Necronomicon” não é o único livro maldito: escondidos em bibliotecas secretas e trancados sob rígida segurança há ainda os “Fragmentos Pnakóticos” ou o “Unaussprechlichen Kulten” para quem tiver a coragem, a determinação ou a loucura por conhecê-los.

Howard Phillips Lovecraft é o autor de uma verdadeira mitologia fantástica e do terror. Seus contos formam um todo coerente e interligado, suas criações bestiais são inesquecíveis, penetram em nossas mentes e pesadelos. Talvez por terem sido mesmo originados pelos sonhos do autor, como uma parte considerável de seus contos.

Nascido em 1890, sua saúde frágil impediu que tivesse uma educação formal e foi criado em casa pela mãe viúva. Continuou autodidata durante toda a vida, era entusiasmado pelas Ciências em geral e Química e Astrologia em particular (um de seus primeiros escritos incluía um artigo sobre Astronomia). Reservado, solitário, pouco saiu de sua cidade natal Providence, em Rhode Island, fora algum tempo quando morou em Nova York, no Brooklyn, e esteve casado.

Sozinho, criou um mundo alternativo de terrores com centenas de contos que se espalhavam em revistas e jornais. Publicou somente um livro quando vivo. Sua produção, apesar de intensa e numerosa, era conhecida por poucos amigos e admiradores. Depois de sua morte, começou a ser divulgada justamente por estes admiradores que se reuniam em um grupo chamado Cthulhu Mythos e que se dedicaram a reunir os seus escritos e agrupa-los em antologias.

O estilo de Lovecraft é francamente copiado de Edgar Allan Poe (de quem era admirador e um discípulo confesso), e juntos são os criadores dessa literatura de terror gótico da qual um Stephen King ou um Clive Barker modernos não conseguem chegar aos pés. Mais do que a história, o que conta para Lovecraft (assim como para Poe) é a criação de um clima mórbido que impressiona o leitor pela riqueza de detalhes, pela narração densa e o cuidadoso manejo das emoções. O que torna crível o universo de Lovecraft não é sua vasta imaginação em criar monstros ou lugares terríveis, mas sua habilidade em manipular o suspense e o seu domínio da escrita. Em boa parte dos seus contos, nem sequer enxergamos esses monstros; só os vislumbramos e isso é suficiente para preencher nossa existência do mais puro e autêntico medo. Sua maestria é total; ao final de cada conto percebemos como nosso coração está batendo. Portanto, um conselho: sua leitura não é recomendável para pessoas cardíacas. E nunca, nunca, deve ser lido de noite.

As antologias “A cor que caiu do céu”, pela editora Iluminuras, e mais recentemente, “A cor que caiu do espaço”, pela Hedra, trazem alguns de seus contos mais clássicos e famosos. Traz também alguns muito fraquinhos e bestas, quase descartáveis, mas isso não estraga o conjunto. “O Horror de Dunwich”, “Os ratos nas paredes”, “A sombra fora do tempo” estão aqui e pronto: cada um deles bastaria para tornar a fama de Lovecraft imorredoura.

O conto cujo título dá o nome para as antologias é exemplar em todos os sentidos. “A cor que caiu do céu” é literal: estava dentro de um pequeno meteorito que despencou na propriedade de Nahum Gardner, a oeste de Arkham (cenário favorito da maioria dos escritos de Lovecraft). Lentamente, metodicamente vamos conhecendo a história: o modo como a colheita de Gardner foi abundante e farta, mas, cujos frutos no entanto, eram amargos e imprestáveis; a vegetação vai sendo substituída aos poucos por uma flora anômala e desconhecida, insetos estranhos e malignamente silenciosos começam a povoar o lugar, pegadas de animais inimagináveis começam a ser encontradas.

A loucura, a violência e as mortes se proliferam na família Gardner. Em nenhum momento vemos o que está acontecendo, não há monstros pegajosos, muito menos fantasmas carregando correntes. Nada tão simples. É somente uma cor: indistinta, inexplicável, indescritível e que se aloja no poço no qual os mais sensatos não arriscam a se aproximar.

“A cor que caiu do céu” é um dos melhores escritos de terror de todos os tempos e dos mais contundentes de toda a obra de Lovecraft.

Seja bem vindo, caro leitor.

 

 

 

Proíba-se Dante Alighieri.

15 de março de 2012

Puxa, eu gostaria de começar o dia com uma nota mais animada (e, na verdade, até estou com uma engatilhada, mas vou ter que deixar um pouco mais tarde). É que abro o computador e topo com essa: uma ONG italiana de defesa dos direitos humanos considera que a obra ‘A Divina Comédia’, de Dante Alighieri, é ofensiva, discriminatória, racista, homofóbica, islamofóbica, e deveria ser retirada do currículo escolar. Segundo a reportagem publicada no ‘The Guardian’, para Valentina Sereni, presidente do grupo Gherush92, ‘A Arte não deve ficar acima da crítica’. Como é natural, houve de imediato uma onda de indignação contra essa postura e de defesa de Dante e, de tudo, de tudo!, é justamente dessa defesa o que mais tenho receio.

Porque concordo que a Arte não é anódina e superficial. Ela reflete (mesmo que inconscientemente, mesmo sem vontade) seu tempo, as pessoas, suas ilusões, seus pensamentos, seus preconceitos e visões de mundo. Dante não escapa a isso, é claro que não. Todas as críticas acima são reais e podem ser apontadas e encontradas, uma a uma. Dizer que Dante faz parte do seu tempo não torna seu preconceito mais aceitável. Pior ainda (muito pior) é dizer que a ‘Divina Comédia’ é uma obra-prima absoluta da literatura mundial (o que é verdade) e por isso é inatacável (o que é uma estupidez).

O problema é o que fazer com essa equação Valor Literário versus Ideologia Preconceituosa. E a resposta mais idiota e imbecil é querer proibir sua circulação e tentar negar sua importância. O único caminho é fazer valer ainda mais sua importância artística, embutir essa discussão no próprio currículo, e abrir caminho para que os jovens leitores entendam todos os pontos problemáticos e aprendam a discernir, a separar as questões e colocá-las nos seus devidos contextos. Enfim, que pensem! Atitude que os adultos estão tomando cada vez menos.

– Conforme o pensamento dessa ONG, quem sabe seja essa a lista das próximas obras que deveriam ser proibidas conforme seu conteúdo preconceituoso: ‘Ilíada’, ‘Odisséia’, ‘Dom Quixote’, Os Lusíadas’, todas as peças de Shakespeare.

– Eu ia colocar uma imagem mais neutra, o de Beatriz ciceroneando o poeta pelo Inferno, mas não sei porque considerei essa figura de um homem sem cabeça mais apropriada para a ocasião.

J.K. Rowling anuncia novo livro

23 de fevereiro de 2012

Acesso o computador e fico sabendo, pelo site Pink Vader, que J.K. Rowling acabou de anunciar seu novo livro!, simplesmente chamado de ‘Novo Livro’ (‘The New Book’). Nada mais de Harry Potter, claro. Agora é obra de temática adulta, a única informação relevante divulgada.

Conversei com alguns amigos sobre isso. O primeiro com quem compartilhei o assunto, ficou alguns segundos calado. Percebi que ele estava processando o dado em sua mente, ou, na verdade, tentando lembrar quem era J. K. Rowling. Quando lembrou, sua reação foi algo do tipo ‘Ah, é? Bacana’.

ok. Para compensar isso, falei com outra pessoa, que sabia gostar da Rowling e de Harry Potter tanto quanto eu, alguém que provelmente reagiria com um ‘O que? Como? Quando? QUANDO? Por que está demorando tanto??” Sem surpresa: ela já tinha sabido antes de mim. Trocamos nossas primeiras impressões e tiramos duas conclusões e sentimentos que, acredito, deve estar guiando as cabeças e as emoções dos rowlinguianos fanáticos do mundo todo: em primeiro lugar, a óbvia ansiedade por este novo trabalho, e a expectativa, acompanhada por apreensão, do que pode Rowling construir agora que está saindo do imenso universo criado anteriormente. Só nós falta esperar para descobrir.

Por enquanto, no citado site Pink Vader a Laura Buu relacionou alguns ‘exemplos’ da reação em cadeia provocada pelo anúncio da notícia. Me identifiquei com cada um deles!

 

Ivana Pansera, um textinho ‘antropológico’

21 de fevereiro de 2012

Ela já é uma escritora. Esta é a certeza de quem tem lido os seus textos (ainda poucos) em espaços como o Facebook, ou teve o privilégio de conhecer o seu trabalho de mestrado sobre história da África, tão bem pesquisado e ainda mais belamente escrito (em uma futura publicação, todos poderão comprovar isso). Ela está se soltando, se sentindo cada vez mais segura em sua escrita, e isso está sendo muito bonito de acompanhar.

Pedi à Ivana um texto para este meu cantinho desconcertábil, com um tema específico e me foi prometido daqui a algum tempo. Este aqui, no entanto, chegou primeiro, foi posto no ‘feici’ descompromissadamente e percebi, desde a primeira leitura, que eu Precisava publicá-lo aqui. Precisava ter essa honra. E assim está.

(a única observação que faço é que, de modo algum!, isso implica em promessa cumprida: em breve, espero o texto combinado)

 

de Ivana Pansera:

“O negócio é fingir que pegou fogo. Se a humanidade seguiu adiante sem a biblioteca de Alexandria, acho que sobrevivo temporariamente sem alguns volumes. Finjo que pegou fogo. Faço uma lista, em ordem de prioridades, e vou comprando na feira da EACH. Ou passo a lista numa corrente de e-mails, pros amigos me darem de presente de aniversário.

O que demora pra por em ordem são os pensamentos. Recomeçar é como caminhar em terreno movediço, desconhecido e muitas vezes doloroso.

Outro dia li que as águias – as aves que possuem a maior longevidade da espécie – precisam dar uma paradinha quando chegam aos 40 anos.

Nessa idade elas estão com as unhas compridas e flexíveis e, portanto, não conseguem mais agarrar as presas para se alimentar. As penas grossas deixam as asas pesadas e dificultam o voo. O bico também não está melhor: alongado e pontiagudo, se curva em direção ao peito.

Diante do fim inexorável, cada uma delas ainda têm uma alternativa: retirar-se no alto de uma montanha e construir um ninho próximo a um paredão, contra o qual baterá o bico até conseguir arrancá-lo. Pacientemente, a águia solitária esperará nascer um bico novinho em folha e, com ele, vai arrancar as unhas, uma por uma. Mais uma vez, com paciência e extrema tolerância à dor, ela vai esperar crescerem as unhas e, com elas, passará a arrancar as velhas penas. Passados cinco meses desse processo de renovação, cada águia está finalmente pronta para viver plenamente outros 30 anos.

E eu que sempre achei que a capacidade de se reinventar fosse justamente o traço mais marcante que nos difere dos animais! Pelo visto a gente divide essa dor com outras espécies. O que talvez a gente não consiga medir é se dói tanto para elas quanto para nós. Porque a gente reflete sobre o processo, a gente antecipa a dor, sente, pensa, tem consciência da dor e formula teorias sobre ela. E a revive em livros, em filmes, em canções.

E nessa hora chega a dar raiva do polegar opositor e dos alimentos cozidos. Ódio mortal da primeira criatura que pegou barro e pintou paredes de cavernas e daquele bendito raio que mostrou pros hominídeos as possibilidades do fogo!

Eu, pobre mortal, criatura insignificante nesse caminhar da humanidade em direção à cultura, antevejo a dor, sinto a dor, reflito sobre a dor, escrevo sobre a dor. Revivo a dor. Pensando bem, não dá pra fingir que pegou fogo. Afinal, não são só livros…”

 

 

 

Zadie Smith e seu Dentes Brancos

15 de fevereiro de 2012

Zadie Smith nos mostra uma atual e conturbada Inglaterra multirracial, multi-religiosa, uma verdadeira salada étnica, política e social . Mas, nem por isso, menos racista, preconceituosa ou intolerante. Saga, epopéia, épico, são algumas das palavras utilizadas pela crítica internacional para se referir a “Dentes Brancos” em todos os lugares onde foi publicado.

Todas elas se aplicam. “Dentes Brancos” é um portentoso épico histórico-cultural de uma Inglaterra contemporânea, carregado de humor, sátira, aventura e respeito humano. Como isso pode ter sido feito por uma escritora iniciante, com toda a força, reflexão e profundidade de alguém que já escrevesse por décadas, é quase inimaginável. O máximo que Zadie Smith havia escrito foram alguns contos publicados em revistas da universidade. Na verdade, ela mesma contou que, dos cinco aos quinze anos, seu sonho era se tornar atriz de filmes musicais. Nunca escreveu muito e isso certamente não era o eixo de sua vida.

Quando se tornou patente de que nunca seria uma atriz, muito menos de musicais, e começou a procurar outras alternativas, entrou para a Universidade de Cambridge, onde estudou Literatura Inglesa. Mais do que uma técnica de escrita (ela não tem, até hoje, nenhuma disciplina literária, não possui um horário específico nem se impõe um tempo para escrever), o estudo acadêmico lhe valeu mais pela carga de leitura (ela leu muito, de autores clássicos a contemporâneos) e diz que essa foi sua verdadeira escola. Começou a desenvolver a idéia para um conto que descambou para uma novela, tinha oitenta páginas e sem um horizonte para terminar. Através do entusiasmo e incentivo de amigos que leram estas páginas, tomou coragem e fôlego para escrever um romance.

E que romance! O plano abarcado por ele compreende algumas décadas da história mundial centralizadas em um pequeno espaço do planeta, na Inglaterra, mais especificamente na zona norte de Londres. Gira em torno de uma improvável e profunda amizade entre um típico e estúpido inglês de classe média com um indiano (aliás, bengali), membro de uma ancestral, respeitável e decadente família oriental, perdida nas brumas do império inglês.

Eles se conhecem no meio da Segunda Guerra e só tornam a se encontrar trinta anos depois quando Archie Jones é salvo do suicídio por um muçulmano (bem, não foi exatamente por razões humanitárias:  Archie havia estacionado no pátio de um açougue e o dono achava que um suicídio bem no local de carga e descarga das carnes não seria muito bom para os negócios). Com uma nova oportunidade na vida, Archie encontra uma comunidade hippie e, no mesmo dia, conhece Clara Bowden, uma negra de família de origem jamaicana cuja mãe é uma fervorosa Testemunha de Jeová que está esperando pelo fim do mundo. Ele tem quarenta e sete anos e Clara, dezenove. Duas semanas depois, ela se torna sua segunda mulher (a primeira mulher de Jones havia sido um dos motivos de sua tentativa de suicídio).

Samad Miah Iqbal é um bengali (que, como todo mundo sabe, é bem diferente de ser indiano), possui um dos braços inutilizados por causa de um ferimento de guerra e, apesar de ser de uma família tão ancestral e respeitável, nunca conseguiu outro emprego fora o de garçom de um restaurante indiano. Seu casamento com a feroz e decidida Alsana foi arranjado antes mesmo dela ter nascido.

Estes são os anos 70, repletos de contra-cultura, conflitos sociais, raciais e religiosos. Zadie Smith faz outro pulo temporal, desta vez para o final da década de 80 e começo de 90 e amplia ainda mais o leque. E aqui teremos o conflito de gerações com a incapacidade de compreensão dos tempos modernos por parte de Jones e Samad e as dificuldades de relacionamento com os filhos adolescentes. Aqbal e Alsana têm filhos gêmeos e profundamente distintos em gênio e aspirações e Jones e Clara com Irie, uma bela filha que se envolve com um dos gêmeos. Nisso tudo, Samad começa a se envolver seriamente com sua religião ao mesmo tempo em que se apaixona pela loiríssima professora de seus filhos. E entra em cena o cientista judeu Marcus Chalfen. E por aí vai.

Zadie Smith nos conduz com uma segurança impecável por onde deseja. Todos os seus personagens são tão demarcados e bem descritos, com sua falhas, problemas de caráter e limitações, que os sentimos próximos e reais. Há cenas de um terror pessoal profundos como quando eles matam um francês nazista na Segunda Guerra. E cenas de uma sátira feroz e corrosiva como quando Jones não percebe do cerco racista que o envolve por causa de Clara, tão alegre está com o nascimento de sua filha.

E cenas de um humor desbragado, divertido e saudável. É impressionante como Smith consegue rechear seu livro de frases, ditos, pensamentos.

Samad seguiu a voz até o banheiro e deparou com Millat imerso até o queixo na rósea espuma suja na banheira, lendo VIZ.

-Ô, pai, superlegal. Lanterna. Ilumina aqui para eu poder ler.

-Esquece – Samad arrancou o gibi das mãos do filho – Tem um puta vendaval soprando lá fora e a doida da tua mãe pretende ficar plantada aqui dentro até o telhado desabar. Saia da banheira. Quero que você vá até o barracão buscar madeira e prego para a gente poder…

– Mas, abba, tô peladinho da silva!

-Não me venha com detalhes… estamos em uma emergência“.

Impagável o momento quando Millat entra em crise em suas convicções religiosas e, portanto com sua necessidade de abandonar antigos prazeres ocidentais, principalmente os filmes do Robert de Niro e os da Máfia em geral. Ele até tenta adaptar em sua mente a abertura de “Os Bons Companheiros” com a frase dita por Ray Liotta (“Tanto quanto me lembro, sempre quis ser um gângster“), mas o resultado (“Tanto quanto me lembro, sempre quis ser um muçulmano“) não o convence.

Zadie Smith nasceu em 1975 e tinha somente vinte e quatro anos quando escreveu “Dentes Brancos”. Já foi comparada a alguns autores como Salmon Rushdie ou V. S. Naipaul e até mesmo a Dickens! Tudo isso é uma grande bobagem, pois o que seu livro mais demonstra é justamente uma voz que nasceu forte e muito particular.

Seu segundo livro, “O Caçador de Autógrafos”, foi no entanto bem menos entusiasmante. Embora mantenha a prosa afiada, faz um breque abrupto no ritmo e muda, trabalho diferentemente seu estilo, busca novas vias, que ao meu ver não foram bem sucedidas. Ao contar a história de um homem branco judeu que negocia ou contrabandeia autógrafos, autênticos ou nem tanto, de celebridades, Zadie tentou sair das classificações simplistas e limitadoras. Como ela disse, não quer ser conhecida como uma “escritora negra” ou “oriental”, mas simplesmente como Escritora. Mas, pesou a mão, e se perdeu um pouco. Ou, quem sabe, a experiência com ‘Dentes Brancos’ tenha sido tão interessante que apagou um pouco o brilho do seu livro imediatamente posterior; talvez seja necessário relê-lo agora, quando se passou um bom tempo do seu lançamento. Preciso fazê-lo.

Zadie Smith está bem ativa. Além do seu terceiro romance (‘Sobre a Beleza’, do qual nada posso dizer), escreve textos e artigos para vários jornais e revistas. Independente do que faça daqui por diante, no entanto, “Dentes Brancos” já é, sem dúvida alguma, um clássico da literatura moderna.

(texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer)

 

 

 

Hoje é dia de Baianas!

10 de fevereiro de 2012

da divulgação: “Com o lançamento de ”As baianas” (Casarão do verbo, 2012), seis escritores envolvem o leitor com histórias que apresentam vigorosas personagens femininas, oriundas de seis bairros soteropolitanos: Barris, Cabula, Vitória, Lapinha, Ribeira e Ondina.

O projeto, inspirado no célebre livro de Sérgio Porto, “As cariocas”, passa longe de uma simples reverência ao famoso cronista e escritor. São seis olhares distintos sobre cenários e personagens igualmente peculiares, e com a dicção e o estilo de seus autores, bem diferentes entre si e ainda mais de Sérgio Porto. Não podia ser diferente, afinal de contas quase meio século separa um livro do outro, e como disse Camões: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Se o leitor não é o mesmo de duas gerações atrás, também os livros tiveram que se adaptar aos novos tempos.

Em “As baianas”, a mulher baiana comparece sem apelos de caricatura e estereótipo. Antes de tudo, são mulheres diversas. E esta diversidade escapa dos relatos e alcança a capa, em duas versões, para o leitor escolher a que está mais de acordo com a sua expectativa e a sua vontade.

as 'baianas': Carlos Barbosa, Elieser Cesar, Gustavo Rios, Lima Trindade, Mayrant Gallo, Tom Correia

Integram o volume: Carlos Barbosa (A putinha da Vitória), Elieser Cesar (A guerreira da Lapinha), Gustavo Rios (A noivinha do Cabula), Lima Trindade (A piriguete de Ondina), Mayrant Gallo (A Bonnie dos Barris) e Tom Correia (A santinha da Ribeira). 152 páginas de puro deleite e literatura! Uma variedade de enredos e ângulos, dos quais emerge uma Salvador extremamente contemporânea, urbana e repleta de singularidade, sob o olhar de seis escritores seduzidos por suas personagens.

A orelha é do jornalista Xico Sá, e o posfácio ficou a cargo do escritor e presidente da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa. O volume inclui ainda um breve ensaio fotográfico em P&B, assinado por Gal Meirelles. São seis imagens, cada uma abrindo um dos contos.

LANÇAMENTO
As baianas
10 de fevereiro (sexta-feira), 19h
Livraria Cultura (Shopping Salvador)

Os três mosqueteiros

27 de novembro de 2011

Os franceses são um povo meio complicado. Depositária de uma herança que ajudou a moldar a mentalidade, o pensamento, a cultura do planeta, principalmente do seu lado ocidental, a França sempre foi um viveiro de pensadores, cientistas e artistas das mais variadas espécies: pintores, músicos, escritores, cineastas, etc. Criadora de movimentos culturais e políticos com repercussões mundiais e permanentes. Além de abrigar manifestações do mundo inteiro: a França foi a segunda pátria para jazzistas norte-americanos que fugiam do racismo em sua terra natal e recebiam, muitos pela primeira vez, respeito, admiração e espaço para trabalhar e criar; os franceses foram os primeiros também a reconhecer Hitchock como um verdadeiro artista, acolheram os filmes noir de Hollywood e, ao mesmo tempo, montaram seu reverso, a Nouvelle Vague. Enfim, essa lista poderia se estender ad infinitum.

Por outro lado, é a mesma França que concede a Legião de Honra para um Paulo Coelho e sua “inestimável contribuição para a humanidade”. Bom, isso em si não seria um verdadeiro crime (já que Paulo Coelho “enfeitiçou” o planeta inteiro), não fosse um pequeno fato ocorrido no final de 2002: Em novembro desse ano, os restos mortais de Alexandre Dumas começaram a ser transferidos de Villers-Cotterêts para o Panteão em Paris. O fato pode ser pequeno, mas seu significado é tremendo.

Para se ter uma idéia apropriada, é preciso saber que o Panteão abriga ídolos franceses centenários, personalidades que carregam o próprio significado de sua identidade nacional, pessoas como Voltaire e Vitor Hugo. Ser depositado ali quer dizer que Dumas foi colocado no mesmo nível  desses outros gigantes. Como disse Gilles Lapouge na ocasião: “O que espanta não é o fato de Alexandre ser admitido no Panteão. O que precisamos dizer é exatamente o contrário: por que o Panteão demorou tanto tempo para acolher as cinzas desse gigante da literatura francesa e mundial?”. Lapouge também dá a resposta que, infelizmente, é muito simples: Dumas sempre foi considerado, pelos franceses, “como um autor de segunda categoria”. O escritor francês mais traduzido no mundo inteiro, cujas obras alcançaram a imaginação e a vivência de gerações inteiras, que ajudou a espalhar e generalizar símbolos da história, da sociedade e da força tipicamente francesas e que era admirado e respeitado por escritores do quilate de um Vitor Hugo e Honoré Balzac, demorou mais de cento e trinta anos depois de sua morte para ser considerado um escritor sério e competente com direito a ficar do lado de autores clássicos!

Depois de um Paulo Coelho receber a tal Legião de Honra e tal.

Foi um francês quem disse que o Brasil não era um país sério.

A literatura de Alexandre Dumas caracteriza-se justamente por uma agilidade narrativa impressionante, com altas cargas de emoção, suspense e ação. Ele não se envergonhava de ser melodramático, sentimental, exagerado. Sua maior qualidade eram os diálogos: rápidos, cortantes, inteligentes, incisivos. Além de serem agradabilíssimos de ser lidos, constituem elementos fundamentais para a trama e por meio deles o enredo é alavancado. Nisso, Dumas continua sendo um mestre indiscutível até hoje. Além do que, o carisma, a empatia e a densidade com que conseguia envolver seus personagens, transforma-os em verdadeiras personalidades que marcam indelevelmente nossa mente.

São romances de aventuras, de intrigas palacianas, de heróis destemidos e de vilões malignos que fazem ferver a imaginação e, acima de tudo (pecado dos pecados!), são divertidos!! Dumas foi desprezado e desdenhado pela intelectualidade porque possuía uma característica que o incapacitava: era popular! Como tal escritor poderia ser considerado “sério”?

A própria vida de Dumas daria um enredo perfeito para algum de seus romances (e certamente passou muita coisa de sua experiência própria para os livros). Começou sua carreira como dramaturgo, já com muito sucesso. Escreveu por volta de quinze peças (pelo menos uma das quais, “La Tour de Nesle”, considerada como uma obra-prima do melodrama francês), mas foi quando se voltou para o romance que ele realmente “estourou”. Ficou famoso e idolatrado, ganhou rios de dinheiro e gastou-os na mesma proporção, com festas, mulheres, viagens, palácios e, portanto, estava sempre envolvido em luxo e dívidas, caçado pelos credores. Possuidor de um ritmo frenético de trabalho, escreveu milhares de páginas. Quando morreu, deixou por volta de duzentas e cinquenta obras. Escrevia tanto e tão rápido que durante um certo tempo pairou a suspeita de que ele, na verdade, pagava uma equipe de secretários para isso e ele só assinava. Intrigas da Academia.

Athos, Porthos, Aramis, capitaneados pelo cativante d’Artagnan,  e o seu brado de guerra e declaração de amizade infinita, o “Um por todos e todos por um”, são conhecidos até mesmo por quem nunca chegou sequer perto do livro. D’Artagnan, o jovem ansioso por aventuras e honrarias, recém-chegado a Paris com alguns trocados na bolsa e cujo maior sonho é se tornar mosqueteiro, é o verdadeiro líder da turma; Athos é o nobre de alma pura que carrega um terrível segredo escondido; Aramis é o galanteador, gosta de armar e participar de intrigas e, ao mesmo tempo sonha em se tornar padre; e Porthos é o Hércules: forte como um touro, íntegro de coração, ingênuo e burro. Os quatro colocam a França de pernas para o ar: se envolvem em uma luta contra a personalidade mais poderosa da época, o Cardeal Richelieu, auxiliam a Rainha em apuros, enfrentam a bela e maligna Milady, a vilã – protótipo de todas as “femmes fatalles” que se seguiram… Tudo isso recheado com um humor escrachado, repleto de frases de efeitos, tiradas memoráveis, cenas inesquecíveis.

O que nem todo mundo sabe é que os quatro realmente existiram. Dumas “chupou” os personagens de um libretinho assinado pelo d’Artagnan, pretensamente escrito pelo próprio. Dumas se apropriou dos caracteres e da trama em geral, enxertou uma certa ambientação histórica, sem tanta preocupação com a veracidade científica, e moldou-os a sua própria vontade (aliás, tal como fazia um outro autor, inglês, um autêntico plagiador que também cometeu o tal pecado de ser popular, fazer sucesso e ser profundo, chamado Shakespeare).

“Os três mosqueteiros” foi o ápice absoluto da carreira de Dumas, apesar de várias outras obras de bastante repercussão como “O Conde de Monte-Cristo”, “A Tulipa Negra” ou “A Rainha Margot”. Ele continuou a história dos heróis por bastante tempo, em “Vinte Anos Depois” e foi até a morte de cada um, em “O Visconde de Bragelonne”, onde inclusive está inserida uma outra aventura famosa, “O Máscara de Ferro”.

Deixe de lado as histórias em quadrinhos, os desenhos de animação, as adaptações infantis. Esqueça os filmes (mesmo os 3D, 4D, 5D) que porventura você tenha assistido; Se ainda não leu “Os Três Mosqueteiros”, está perdendo tempo e marcando passo.

A Caixa Preta de Amóz Oz e ‘Israel é uma decepção’

10 de novembro de 2011

Amóz Oz é uma das prova vivas, caso fosse necessário, de que um verdadeiro escritor, ao tratar do que realmente conhece, de sua terra, de sua gente, consegue falar de temas universais.

Oz é reconhecido como um autor não só judeu, não só israelita, mas eminentemente israelense. Nascido em 1939, em Jerusalém, sua vida está diretamente imbricada com a construção e sobrevivência do Estado de Israel, o qual sempre defendeu. Foi soldado da reserva em todas as batalhas de fundação e manutenção do pequeno país, como a Guerra dos Seis Dias em 1967 e o das Colinas de Golan em 1973. Mas, ao mesmo tempo, sempre entendeu que havia possibilidades de convivência pacífica entre as nações desde que houvesse respeito mútuo. Para Oz, há condições para que existam tanto um estado judeu quanto o palestino.

Logo que possível, deixou o exercito e engajou-se em todos os movimentos pacifistas; foi um dos fundadores do grupo “Peace Now” em 1977 e é uma de suas figuras públicas mais conhecidas; escreve artigos em defesa da paz em várias revistas e jornais do país e do mundo. Em 1992, ganhou um dos mais importantes prêmios alemães dedicado as pessoas que militam a favor da paz, o German Friedenspreis; e, 1997, ganhou do presidente francês Jacques Chirac,  a Legião de Honra.

Por outro lado, é um grande cultor das tradições e da cultura judaicas. Durante muitos anos, viveu nos kibutz, sem nenhum luxo apesar dos seus rendimentos; sempre escreve seus livros primeiro em hebraico; até hoje continua dando aula de língua e literatura hebraicas na Universidade Ben-Gurion; durante um ano morou e deu aula nos Estados Unidos como professor convidado. Em 1991, foi eleito como membro pleno da Academia de Língua Hebraica.

Isto por si só não explica sua ascensão como escritor e nem o sucesso dos seus livros pelo mundo inteiro. Nem o fato de ser traduzido para mais de trinta línguas, publicado em mais de quarenta países, detentor de vários recordes de vendagem em Israel, aclamado por críticos e por milhares de leitores e xingado e criticado, tanto por suas posições quanto pelas suas qualidades literárias por outros tantos críticos. A cada nova obra ou novo artigo, a polêmica se reinstala.

“A Caixa Preta” é um dos seus livros mais reconhecidos. Desde quando foi lançado em 1987, (quando centenas de exemplares eram vendidos por dia pelas ruas de Israel, disputados a tapa, e permaneceu assim por muito tempo até alcançar um impressionante número de setenta mil livros vendidos, considerando-se uma população de pouco menos de quatro milhões de pessoas), foi considerado tanto como uma obra-prima da literatura mundial quanto lixo que deveria ser jogado na fogueira.

Basta uma primeira leitura para entender como é possível provocar emoções tão exarcebadas: como um verdadeiro cirurgião, ele deixa expostos todos os nervos da relação humana. É fácil compreender como algumas pessoas não conseguem se reconhecer ou assumir que aqueles personagens são cópias fieis de uma realidade, de sua própria realidade, interna, profunda, verdadeira. “A Caixa Preta” é um mergulho nas dores de relações quebradas, de anseios interrompidos, de esperanças frustradas. O título faz referencia aos equipamentos de registro dos aviões, utilizados quando de algum desastre para se saber de todos os detalhes do acontecido e tentar entender o que aconteceu.

O “desastre” neste caso é o final do casamento de Alec Guideon e Ilana. Oz abre para nós a caixa preta desta separação através da correspondência trocada entre os dois e as pessoas que os circundam. Sete anos depois do final de um casamento marcado pelas brigas, desentendimentos, traições e luta pela guarda do filho (do qual ninguém tem certeza absoluta de que Alec seja realmente o pai, pois tanto ele quanto Ilana se recusam a fazer o teste de DNA), Alec está morando nos Estados Unidos, desfrutando da herança do pai e de sua fama como intelectual e historiador e Ilana casou-se novamente com um líder tradicionalista e de direita.

O motivo para que Alec e Ilana voltem a se falar é o filho, Boaz, que se revela um rapaz problemático, violento e agressivo, sem perspectivas de futuro, forçando Ilana a pedir ajuda para Alec. É o suficiente para que toda a amargura, frustrações e defeitos de caráter ou comportamento voltem a tona. Cada carta destila ódio, desespero, incompreensão. Uma autêntica lavagem de roupa (moral, pessoal, íntima) da qual nós, leitores, participamos como verdadeiros voyers perplexos perante a profundidade de sofrimento que cada ser humano é capaz de aguentar. Ou provocar.

Cada página do livro de Oz é um verdadeiro petardo. A cada momento, há uma revelação sobre algum aspecto deixado obscuro em uma carta anterior; a cada instante, somos obrigados a fazer uma reavaliação sobre aquilo que sabíamos (ou pensávamos saber). Um comentário feito pela escritora e blogueira  Tatiana Carlotti (do blog ‘Atalhos Urbanos‘) durante uma conversa sobre este livro é completamente pertinente: é o modo magnífico como Oz trabalha os silêncios. Através de toda a verborragia pelo qual somos inundados pelas cartas, há “buracos”, verdades escondidas ou meio-veladas que vão se revelando com muito custo, com fórceps, por cada correspondente. O leitor fica em suspensão eterna, em verdadeiro suspense, esperando pela próxima carta que trará, ou deveria trazer, uma luz sobre aqueles aspectos que parecem tão assentados.

Impressionante também é como Oz assume cada personagem. Sem grandes floreios ou enormes frases de efeito, nós sentimos cada personalidade completamente diferentes um do outro, sem recorrer a truques de repetição de falas para caracterizar uma pessoa. Parece incrível que tenha sido um homem quem no final das contas tenha escrito esta carta, por exemplo, de Ilana, datada de 19/4/1976:

A carta começa com ela reconhecendo suas próprias mentiras, seu “sangue de puta” que fez com que traísse Alec com vários homens e o quanto, no entanto, apesar de tudo o que eles tinham vivido e brigado, ele continuava sendo uma figura importante, fundamental, primordial, a ponto de ela dizer “Você foi e continua sendo meu marido. Meu senhor e mestre. Para sempre. E na vida após a vida, Michel” (o atual marido), “segurará o meu braço para me conduzir ao altar para a cerimônia de casamento com você“.

Pois bem, a bomba vem logo: “Como um cavaleiro que matou um dragão, escrevi há um momento. Mas não se apresse em comemorar. Sua arrogância é prematura, meu senhor: você é o cavaleiro louco que matou o dragão, e depois matou também a donzela e por fim destroçou também a si mesmo. Na realidade, você é o dragão. E este é o momento mais delicioso para mim: revelar que Michel-Henri Sommo é muito melhor do que você na cama. Em tudo que se refere ao corpo, Michel foi muito bem dotado desde que nasceu. Na verdade, não apenas Michel. Quase todos eles poderiam ter ensinado uma ou duas lições a você. Até o rapaz albino que era seu motorista no Exército: casto como um cabrito, talvez no máximo dezoito anos, culpado, assustado, mais submisso que talo de grama, tremendo todo, os dentes batendo, quase implorando que eu desistisse dele, quase em lágrimas, e de repente começou a esporrar antes sequer de me tocar, soltou um uivo de cachorrinho e, mesmo assim, Alec, no instante em que os olhos assustados do rapaz me lançaram um brilho puro de gratidão, de admiração, de adoração sonhadora, inocente como o canto dos anjos, isso fez meu corpo e o meu coração estremecerem mais do que você conseguiu em todos os nossos anos juntos.”

Creio que dá para sentir o “clima” de “A Caixa Preta”. E fica perfeitamente entendível por que qualquer rabino tradicionalista de Israel deve sentir horror de pegar um livro de Amóz nas mãos.

“Israel é uma decepção”, diz Amós Oz

De São Paulo 10/11/2011 – 00h05

“Israel é uma decepção”, disse o escritor Amós Oz, na noite desta quarta (9), diante do público que lotou os 1.010 lugares do teatro do Sesc Pinheiros, em São Paulo.

No Brasil para participar da celebração de 25 anos da editora Companhia das Letras, Oz, mais importante escritor israelense da atualidade, falou com um toque de humor da fundação de seu país, ocorrida em 1948.

“Israel nasceu de um sonho, e tudo que nasce de um sonho está destinado a ser uma decepção. A única maneira de manter um sonho intacto é nunca vivê-lo”, disse.

Wallander

1 de novembro de 2011

Nunca pude entender direito como os livros policiais do sueco Henning Mankell podem fazer tanto sucesso.

E olha que fazem. Traduzido em várias línguas, também publicado aqui no Brasil, onde me parece que provoca sensação igual.

Decepção pessoal inesperada, pois há alguns detalhes que me chamam atenção, favoravelmente.

Gosto, por exemplo, do fato de seus livros serem baseados na Suécia; é sempre muito interessante observarmos lados e ângulos inesperados em países que, em geral, somos acostumados a considerar muito distantes de nossa realidade e que posam como uma espécie de refúgio capitalista quase paradisíaco. O romance policial é pródigo em nos proporcionar autores que revelam uma face mais dura, mais chocante, desses recantos. Lembro de uma Marselha descrita por Jean-Claude Izzo que, tudo bem, já se apresentava como uma cidade violenta e tempestuosa, mas cujo autor conseguia descer ainda mais em suas entranhas. Outro autor clássico é Jan Willem Vand De Wetering e seus livros mostravam uma Holanda bem inusitada (uma pena, suas obras há muito estão esgotadas no Brasil e não parece haver interesse algum em retomá-las, uma injustiça).

A questão aqui não é exatamente mostrar lances geniais de originalidade. Se isso já é uma impossibilidade humana em qualquer arte, no romance policial é ainda mais. Os policiais transitam e lidam com os clichês, utilizam-nos. O que vale, no mais de tudo, é a forma como eles são tratados, montados, escritos, apresentados. Nos dois exemplos citados acima, o que conta é a forma seca e ao mesmo tempo um tanto poética como Izzo escreve, em um contraponto bem curioso com a facilidade e uma certa ‘doçura’, raiando a ingenuidade mas com narrativa primorosa de De Wetering.

Henning Mankell não apresenta nada disso. Se os clichês são aceitáveis e inevitáveis, ele no entanto os usa e abusa, sem render mais nada. Sua escrita é fraca, os personagens rasos e caricatos, os argumentos partem de um terra-chão do dia-a-dia de uma realidade sueca, e rápido perdem o desejo de simplicidade fazendo com que as histórias sejam uma colcha de retalhos entre o registro policial, espionagem internacional, beirando a fantasia e a chacota. Li dois livros de Mankell, tentei um terceiro, desisti e deixei de lado.

Quando soube que tinham criado uma série televisiva baseada nos romances de Mankell, minha primeira reação foi de ceticismo e desconfiança. Meu preconceito contra o autor já estava arraigado e não me preocupei em alivia-lo. Aos poucos, fui conhecendo detalhes que conseguiram atiçar minha curiosidade. Quem protagoniza o detetive principal é Kenneth Branagah, um ator que respeito tremendamente (isto é, ele é capaz de interpretações fantásticas e outras ridículas e canastronas; depende do seu estado de espírito na época que estiver filmando, imagino). As histórias respeitavam as locações originais, proporcionado pela co-produção inglesa e sueca, fazendo com que os episódios fossem filmados realmente na Suécia. Portanto, boa produção, bom ator, as críticas foram muito favoráveis, Kenneth Branagh chegou a ser indicado para vários prêmios, ok, a coisa até parecia bem encaminhada. Resolvi dar uma chance.

‘Wallander’ foi concebido para ser uma mini-série fechada, com três episódios independentes (baseados em três obras diferentes) e únicos. A ótima repercussão dos episódios fez com que se assumissem como série com continuidade, e realizaram uma segunda temporada, com mais três episódios. Branagah deu um tempo para se dedicar a outros projetos (o principal, a direção do filme do ‘Thor’, que pode não ter sido um fracasso, mas ficou bem longe das expectativas dos produtores e do público) e uma terceira temporada para 2012 garantida.

Uma grande vantagem de não ter lido os livros é o alívio de poder assistir os episódios sem a necessidade (compulsão) de ficar comparando o tempo todo com a obra original. Tem-se assim a ambientação, reconhece-se os personagens, com liberdade e sem (muitos) pré-julgamentos. A primeira impressão do primeiro episódio, ‘Sidetrack’, é o impacto da música solene, séria, tensa, que já predispõe para o clima de suspense e agitação que virá (de um modo como Mankell gostaria, ou pensa que faz, em seus livros). A segunda impressão é a perfeita caracterização de Kenneth Branagh como o detetive Kurt Wallander: barba mal-feita, movimentos desleixados e desanimados, visão cínica da vida, e um sotaque carregadíssimo (com um inglês ‘suecado’ digamos assim) que funciona muito bem.

A premissa da história é boa: uma jovem se mata tacando fogo em si mesma enquanto uma série de assassinatos estranhos vitima personalidades importantes da cidade; um e outro fato estão interligados, o que levará à descoberta de uma rede de pedofilia e abuso infantil. O desenvolvimento dessa história, no entanto, já é outra coisa. Tenho a impressão de que devem ter seguido fielmente o livro em que foi baseado, pois os pontos ridículos da trama (o assassino arranca escalpo das vítimas, um estilo nativo-indígena-norte-americano, sem propósito ou explicação convincente) e, principalmente, o final péssimo, tudo lembra muito o estilo dos livros que li.

O que mais me incomodou, no entanto, foi a própria caracterização de Branagh. O problema é que ele não consegue manter o mesmo ritmo e a mesma figura no filme inteiro. Aliás, falando em clichês, o detetive Kurt Wallander é recheado. Policial de meia-idade, obsessivo com a profissão, desiludido com a vida, problemas com o pai distante e adoentado, em vias de separação da mulher, com relacionamento conflituoso com a filha única (que tentara suicídio aos quinze anos), a minha única surpresa foi ele não ser alcóolatra, para completar o personagem arquetípico.

Em alguns momentos de alívio na trama, quando cabe um sorriso ou até mesmo uma risada dos personagens, Wallander acaba sorrindo. Até aí, no problem. Até os durões riem. Até Clint Eastwood ri. (Tenho certeza que já vi até mesmo Chuck Norris rir!) A questão é que o que aparece é o sorriso de Branagh. Isto é, franco, caloroso, simpático. Não é o sorriso de um policial fodido e ferrado que ri a contragosto, sem vontade. Nestes segundos, a persona de Wallander é abandonada e tudo o mais fica falso.

Com tudo isso, a minha vontade de assistir os outros dois episódios da primeira temporada era quase nula. Mas havia pontos positivos no primeiro. Arrisquei ver pelo menos mais um. A insistência valeu a pena. Há uma melhora progressiva e muito maior segurança em toda a produção, inclusive nos roteiros e até os atores. Eu não sei se foram filmados na mesma ordem de sua exibição, a impressão é essa.

‘Firewall’, começa com uma adolescente que confessa e assume o assassinato de um motorista de táxi para roubar uns trocados. A investigação, porém faz crer que suas motivações são bem mais profundas (mais até do que o fato de ter sido estuprada por este homem, anos antes!). Branagah, agora sim, mantém Wallander o tempo todo, o enredo no geral é muito melhor, os personagens não estão caricatos. Uma pena (uma grande pena!) que a finalização seja péssima, a solução da história ridícula e ainda por cima mal realizada. Ponto feio para um episódio que vinha tão bem.

Em ‘One Step Behind’, uma turma de adolescentes é assassinada quando realizam um piquenique. E um colega policial de Wallander parece estar muito mais envolvido do que aparenta à primeira vista.A partir daí, a investigação segue duas trilhas paralelas, por um lado os assassinatos; por outro, a descoberta de que aquele policial tinha uma vida completamente insuspeitada para aqueles que pensavam que o conheciam intimamente. De novo, fico pensando se as exibições seguiram a ordem de quando foram filmados. Pois aqui, está tudo tão bem equilibrado, os maneirismos estão contidos, os atores parecem estar muito mais à vontade consigo mesmos e com os demais, a história tá bem contada. Até mesmo o final ruim e previsível (ao que se indica, isso deve ser uma característica fixa do Mankell…) não compromete o resultado final, que é mais do que digno.

O amadurecimento dos personagens e da produção em geral e o aprofundamento das boas atuações aumentam na segunda temporada. O estilo do enredos, inclusive com seus péssimos finais, continuam. Não vou comentar os outros três episódios um por um, como fiz acima.  Basta dizer que, no cômputo geral, ‘Wallander’ é agradável, dá para assistir numa boa, o saldo é muito positivo. Não me fez querer ler os livros de Mankell (na verdade, só reforçou a impressão negativa que tenho dele como escritor), mas vou aguardar os próximos episódios, se não com extrema ansiedade, pelo menos com bastante curiosidade.

 

– obs1 – texto corrigido e atualizado, publicado no meu site anterior; como o dito site anterior não existe mais, de vez em quando vou fazer como fiz agora e realizar alguns resgates de textos que, na minha humilde opinião, ainda possam causar interesse em pessoas que ainda não os tenham lido;

 

– obs2 – por outro lado, há uma outra razão para que seja esse texto em particular, pois fiquei devendo uma resposta a um comentário naquele site; o comentarista havia me criticado e, sendo fã dos livros do Mankell, havia discordado das minhas opiniões sobre o autor; não lembro agora se ele citou o seriado, mas em relação às obras escritas, foi bem enfático, pondo em questão meu suposto conhecimento de romances policiais e duvidando inclusive que eu tivesse realmente lido os livros do inspetor Wallander;

– quis escrever uma resposta arrasadora na época, não pelas suas opiniões contrárias (pensamentos discordantes são ótimos para atiçar a discussão) nem mesmo por me chamar de ‘ignorante’ (não usou essa palavra, mas o sentido foi esse), ele tinha todo o direito de duvidar das minhas ‘credenciais’, digamos assim; o que me aborreceu foi o tom e as palavras utilizadas, de uma agressividade desnecessária; e contrapoducente, já que fiquei sem vontade de entrar em uma discussão estéril, ainda mais desanimador por ser com uma pessoa que compartilhava de gostos literários comigo, uma pena.

vejo hoje que foi bom não respondido na lata, pois não sei se eu teria sido bem educado.

Pois bem, posso ser educado hoje e responder algumas coisas: em primeiro lugar, meu caro comentarista, eu já li livros policiais (romances, contos, ensaios, livros teóricos) pra caralho! É o meu gênero literário preferido (junto com ficção científica) e não posso passar muito tempo enfiado com os meus outros interesses (literatura clássica, histórica, literatura latino-americana, russa, francesa e um tanto da brasileira, atuais, contemporâneos ou antigos) sem que precise dar um tempo nestes e ler algum bom policial que, como toda boa literatura, de qualquer gênero, sempre ultrapassa os limites desse mesmo gênero. Parafraseando desavergonhadamente Oscar Wilde, não existem bons ou maus livros policiais, o que existe são livros bem ou mal escritos. Para mim (sempre na minha humildíssima opinião) Henning Mankell é um péssimo escritor policial (e longe de ser literatura ‘bem escrita’) que calhou de servir de base para um bom seriado de televisão.

Quanto às obras do Mankell, fui conferir nos meus arquivos quantos foram de verdade, para não falar besteira, encontrei a resenha do primeiro livro dele que eu li, ‘Os cães de Riga’ (que fiz questão de re-publicar no post anterior); além deste, também li ‘O homem que sorria’ e ‘A leoa branca’ (‘os cães de riga’ segue sendo o pior de todos, o que não ajuda em nada na qualidade dos outros). Realmente, são fracos demais. MESMO ASSIM, ainda tentei ler ‘Assassinos sem rosto’  e, mais recentemente, ‘O guerreiro solitário’, este com uma expectativa em especial, já que foi a base para um dos episódios que mais gostei no seriado. E não consegui.

Creio que isso dá uma boa base para definir minha opinião (e o meu desgosto) por Mankell. Ainda não consigo entender sua popularidade, mas cada um é cada um. E ficarei por aqui, porque não lerei outros livros desse autor.