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Verbo 21, site de literatura e cultura, acabou após 14 anos de existência

4 de junho de 2014

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Verbo 21, a revista eletrônica de literatura e cultura criada e mantida pelo escritor Lima Trindade, acabou. Foram 14 anos de atividade, discussões, troca de ideias, pensamentos, propagação de beleza, em sua plena acepção. 14 anos! De atualizações mensais ininterruptas (das quais só consigo imaginar, de longe, o trabalho e a dedicação que devem ter sido exigidos)

Tenho escrito para e por internet há vários anos. Tive a honra e o prazer de participar e contribuir com textos meus para sites, blogs, páginas internéticas de todas as espécies, tamanhos e qualidades. Posso dizer que, desse turbilhão internético do webuniverso em que estamos mergulhados, com o tsunami de informações, opiniões, discussões avassaladoras a que somos submetidos, existem poucos espaços, tão poucos, que realmente se mantém por tanto tempo, com tanta integridade, com tanta Identidade, conteúdo, inteligência, variedade, abrangência e profundidade quanto a Verbo 21 manteve. Os textos (poucos, infelizmente) que publiquei em suas páginas, os exibo com muito orgulho, pois sabia que, para serem aceitos, precisavam passar pelo crivo severo e arguto do seu Lima Trindade. A Verbo 21 vai fazer falta.

Percebam, portanto: um pedaço da história de nossa cultura está acabando exatamente agora.

verbo21234Abaixo reproduzo, com a permissão do Lima, o texto onde explicita os motivos do fechamento.

Claro, em se tratando do Lima, pode-se ter certeza que projetos outros se apresentarão, livros novos serão lançados, novos meios de integração e de trocas serão montados, com o tempo. Novos verbos virão, não tenho dúvida.

“Prezados colaboradores & leitores,

É com pesar que anuncio o fim das minhas atividades como editor da Verbo21, revista eletrônica criada por mim e pelo Wilton Rossi em julho de 1999, a qual passei a comandar sozinho a partir de 2001 até a presente data, atuando sempre em caráter de total independência e dedicação.

Nesses quase quinze anos de atividades ininterruptas, selecionamos trabalhos de anônimos e notórios, divulgamos textos criativos e provocantes que se alinhavam com o propósito maior da publicação: pensar a produção cultural contemporânea em suas mais diversas matizes.

Em nossas páginas foram entrevistados nomes como FANNY ARDANT, ANTONIO CÍCERO, CRISTOVAM BUARQUE, JUAN PEDRO GUTIERREZ, JOÃO SILVÉRIO TREVISAN, CARLOS FUENTES, GLAUCO MATTOSO, ROMAN POLANSKI, WALLY SALOMÃO, ELIZABETH DI CAVALCANTI, RUY ESPINHEIRA FILHO, PAULO SCOTT, DAVID LEAVITT, VLADIMIR CARVALHO, TOM ZÉ, LUIZ RUFFATO, SOFIA LOREN, ROBERTO MACHADO, FERNANDO GONSALES, MARTIN AMIS, ARMANDO FREITAS FILHO, LUIZ MOTT, LÁZARO RAMOS, AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA, NELSON DE OLIVEIRA, LYA LUFT, NICOLAS BEHR, TATIANA BELINK, RONALDO CORREIA DE BRITO, GILBERTO GAWRONSKI, ITHAMARA KOORAX, CAIO PORFÍRIO CARNEIRO, JUDITH THOMPSON, THELMA GUEDES, EDUARDO GIANNETTI, OSCAR ARARIPE e muitos, muitos outros.

Publicamos: a) ensaios sobre cinema, política, filosofia, literatura, comportamento, artes plásticas, quadrinhos, sociologia e inúmeras outras áreas do conhecimento e investigação; b) resenhas sobres produções artísticas; c) um acervo de imagens envolvendo desde o desenho até a fotografia e o grafismo virtual; d) colunas de humor, crônica, poesia, conto, críticas rápidas, ficção científica; e e) trabalhos ficcionais inéditos de leitores.

Por meio de uma parceria com a Brechó Discos, possibilitamos o download de músicas, dando visibilidade ao trabalho de diversas bandas com a apresentação de releases e fotos.

Mesmo com a explosão dos blogues na última década, optamos por continuar como um site. Eu, na qualidade de editor, e todos os demais colaboradores, incluindo-se entre eles os webdesigners e nossa corajosa sub-editora, Anna Amélia, persistimos sem negociar o nosso trabalho por nenhuma moeda que não fosse a da autenticidade e da liberdade de expressão.

A revista teve muitos webdesigners como parceiros. No princípio, era o próprio Wilton quem cuidava da apresentação visual da revista. Quando ele deixou a Verbo21 para se dedicar a outros projetos pessoais, contamos com mais três excelentes voluntários: Ed, Manoel e Ernesto. Cada um deles desenvolveu um trabalho com uma assinatura que marcou determinada fase do periódico. Por último, veio o Wilson Foca Neves, talvez o mais longevo deles. E igualmente talentoso. Quando o Foca pediu demissão em meados de 2013, pela primeira vez não encontramos um webdesigner imbuído da mesma paixão pelo projeto.

Por um outro lado, eu atravessava um momento em que precisava de mais tempo para me dedicar ao trabalho de escritor. Tinha um romance com prazo de entrega definido e já não estava mais lendo e pesquisando como pretendia. Eu acreditei que esse seria um período curto e rapidamente apareceria um novo webdesigner e a Verbo21 retomaria com novo vigor sua história. No entanto, após duas tentativas mal sucedidas, os meses foram passando e eu não via uma solução satisfatória. De setembro de 2013 para cá, atualizamos uma única edição. Ainda assim, com problemas. Tudo isso me cansou. Fiquei triste, chateado. E me levou a pensar que era preciso seguir adiante.

Fecho as portas da Verbo21 com orgulho por tudo o que ajudei a construir. Acredito que muitos de vocês possivelmente guardem boas lembranças das leituras e do tempo que passamos juntos. Agradeço a todos pelo tempo despendido conosco. E que possamos nos ver por aí: nas malhas virtuais ou num café de uma livraria de rua.

Abraços,

Lima Trindade”

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‘Neonomicon’: o genial e o lixo de Alan Moore

18 de maio de 2013

 

‘Neonomicon’chega ao Brasil carregada de polêmicas, críticas, expectativas frustradas e considerações ácidas sobre uma suposta decadência criativa de Alan Moore. Mesmo os elogios e as críticas positivas são acompanhados por várias ressalvas e o entusiasmo nunca é muito profundo. O embaraço ficou um tantinho maior quando o próprio autor disse que escreveu ‘Neonomicon’pelo dinheiro, por conta de umas dívidas apertadas com o imposto de renda (e mesmo que ele enfatize que isso em nada influiu na seriedade de sua escrita e no seu compromisso de entregar um bom trabalho, em geral as pessoas só se lembram da primeira metade da frase).

A narrativa reta e direta pode fazer com que a história pareça simplificada em excesso (embora essa aparente simplicidade esconda subtextos e camadas de representações); a violência sexual explícita e escancarada pode parecer desnecessária e exagerada ou deslocada (o que ajudou a criar o clima de choque e o sentimento de repulsa de leitores norte-americanos); os elementos do universo do escritor H. P. Lovecraft podem ter sido desviados e apropriados de forma indevida ou, conforme o costume de Moore, livre e pessoalmente adaptados. Para variar, mesmo em suas obras menores, ele consegue causar sensação, e o repúdio ou admiração são tomados como paixões sem gradações.

Acontece que Alan Moore, mesmo quando erra, mesmo nos erros monumentais, ainda consegue ser o melhor escritor de quadrinhos da História.

Em 2003, a editora independente de quadrinhos Avatar Press, conhecida por sua produção alternativa de trabalhos que fogem do mainstream e por não impor nenhuma trava ou limites aos seus autores, adaptou um conto de Moore, “O Pátio”(“The Courtyard”) que fazia referência a personagens e ao clima das histórias de H.P. Lovecraft, ambientada nos dias atuais.

Cultos secretos, seres ancestrais e abomináveis, línguas desconhecidas, universos estranhos e psicodélicos, violência, medo, desconhecido, Cthulhu, Akla. Os temas lovecraftianos sempre estiveram presentes na obra de Moore e podem ser identificados ou citados em vários momentos, do ‘Monstro do Pântano’e Constantine a ‘Watchmen’e a ‘Liga Extraordinária’ e assim por diante. Em ‘O Pátio’ o agente federal Aldo Sax acredita que uns assassinos psicopatas e certos cultos satânicos antigos estão relacionados com o tráfico do que pensa ser uma nova e poderosa droga chamada Akla que está circulando em circuitos de bandas de punk rock. A adaptação escrita por Antony Johnston, tendo Moore como uma espécie de assessor literário, e ilustrada por Jacen Burrows, resulta em um quadrinho extremamente denso e pesado, uma curta história em duas partes que deixa o leitor sem fôlego pelos mistérios apresentados e a rapidez da solução. O suspense é construido com cuidado, pela apresentação de personagens estranhos ou diretamente desagradáveis (Aldo Sax é um agente muito inteligente, brilhante até, racista e arrogante) e pela estruturação de um ‘método’de investigação de crimes diversos, em especial aos mais hediondos que, à primeira vista, não parecem ter nenhuma ligação.

O método e a psicopatia sofrem uma brusca virada quando o caso se transforma, de meros assassinatos, para algo mais profundo e aterrorizador. As sutilezas do texto de Moore acompanhadas de perto pela imagem limpa e vibrante de Jacen Burrows funcionam com perfeição: a violência é tangencial, não gráfica, quase nada é mostrado com plenos detalhes, a não ser quando ocorre a explosão psicodélica. No entanto, o impacto é ainda maior por causa do tenebroso e sensacional final-porrada, onde se sabe tudo o que está acontecendo somente pela fala do personagem. De arrepiar, uma das melhores conclusões de narrativa que conheço.

Anos depois, a Avatar Press instiga o autor a retornar ao universo lovecraftiano com texto inédito, e Moore, como se disse, aceitou premido por problemas financeiros. Com o mesmo ilustrador Burrows, ‘Neonomicon’torna-se uma minissérie em quatro partes que se configura como uma continuação de ‘O Pátio’ embora sejam independentes e possam ser lidas muito bem em separado.

‘Neonomicon’retoma a história de ‘O Pátio’do ponto que havia terminado. O agente Aldo Sax agora está preso e internado no hospício, ele mesmo considerado um louco homicida psicopata que só se comunica com o mundo externo através de uma língua estranha que ninguém entende. Os agentes Gordon Lamper e Merril Brears assumem a investigação dos assassinatos anteriores, mas frustram-se com a impossibilidade de obter informações de Sax.

Merril, no entanto, tem uma pequena vantagem sobre os demais: ela conhece algo da obra de Lovecraft e percebe que há uma relação forte entre sua literatura, as mortes, a loucura de Sax e os cultos satânicos. Que não seriam satânicos, e sim lovecraftianos, isto é, reunindo fanáticos que acreditavam que seus contos de terror não eram fictícios, que os deuses e monstros primordiais e abomináveis são reais e estão para voltar. Tudo misturado com o clube de punk rock, alucinações, indústria de filmes pornográficos e rituais de orgias e sadomasoquismo. O que os leva a Salem, cidade natal de Lovecraft e palco da maioria absoluta dos seus escritos, e que pode ser o epicentro dos tais cultos.

Não há mais sutilezas aqui. Moore não está interessado, não tem tempo ou paciência para sutilezas e as manda para o espaço. O horror, as mortes, as vísceras, os monstros, estão expostos e escancarados. Tortura, orgias, bizarrice, sangue, estupro, com detalhes e cenas prolongadas. O ritmo e a velocidade da narrativa também estão mais rápidos, sem espaço para elucubrações psicológicas (como havia em ‘O Pátio’, o que pode levar a uma falsa percepção de que o enredo é raso e vazio, repleto de clichês. Os clichês estão presentes, claro, e em alguns pontos ele escorrega feio e emprega umas soluções bem pouco convincentes (como, por exemplo, Merril ser míope induz a algumas situações constrangedoras para o leitor, quando ela está sem as lentes de contato) (ou uma cena de masturbação que parece tirada de sitcom).

O roteiro tem problemas estruturais sérios. As diversas partes avançam aos pulos e o ritmo se quebra em momentos inadequados, em especial da terceira para a quarta parte, o que provoca um vácuo emocional (ainda mais considerando o peso da violência logo antes) transformando o final em um longo e incômodo anticlímax. Dessa forma, a construção dos personagens que havia sido primorosa até então (sentimos empatia e cortesia pelos personagens principais e sofremos por seus problemas, muito diferente do que fora com Aldo Sax: Merril acabou de passar por uma experiência traumática em uma missão anterior; Gordon está passando por um casamento morno e um tanto complicado), tudo torna ainda mais inconsistente (até incomprensível) a reação e o comportamento de Merril depois da cena mais chocante. Não que a tal reação fosse impossível (talvez ‘só’muitíssimo improvável), mas não há tempo (ou disposição) de Moore para torná-la crível.

Por outro lado,

se furos e problemas existem (como realmente concordo), não há como negar que trechos brilhantes também estão presentes e são excepcionais. Os diálogos tem naturalidade e fluência e são repletos de subtextos e camadas. Além do que, mesmo nesse enredo rápido, Moore desfila erudição e conhecimentos pop e de literatura de terror (em especial a de Lovecraft, claro), como de costume. Os personagens têm densidade e, como dito, são bem construídos, mesmo que não tão bem finalizados. O suspense é diluído e espalhado, há mais situações de estranheza e bizarrice do que de medo em si, até o momento quando o verdadeiro terror acontece e a violência irrompe.

Um grande momento (o melhor de ‘Neonomicon’e que por si vale toda a leitura da obra) é o da segunda descida ao corredor subterrâneo do culto em Salem. Aqui sim reconhecemos o Alan Moore escritor de alto quilate, com a escrita envolvente e poderosa, o suspense em alta tensão a ponto de fazer contrair os músculos do corpo. Na primeira descida, o enredo é linear e direto, acompanhamos a linha do percurso subterrâneo e as incertezas são óbvias: sabemos que, em algum ponto do caminho, as coisas ficarão feias e sairão do controle. Da segunda vez, o que poderia ser simples e repetitivo, torna-se tenso e inesperado, a cena é complexa e detalhada, fragmentada e dividida pela fala de Merril e nós mesmos nos espantamos com o espanto dos agentes federais, muito embora tal qual Merril, saibamos exatamente o que será encontrado, e mesmo assim somos afetados.

E é esta cena memorável, já na quarta parte, logo antes da conclusão geral chocha, sem força e anticlimática, que torna ‘Neocomicon’uma obra contraditória, irregular, cheia de falhas e ainda assim imprescindível da lavra de Alan Moore.

Um detalhe muito interessante da edição nacional da Panini, além da publicação integral sem cortes em um único volume, é o de terem colocado também ‘O Pátio’ que se tornou uma espécie de prólogo de luxo. Como disse, as duas obras são independentes e não impedem a compreensão se lidas em separado. Mas não deixa de ser um detalhe simpático.

texto publicado originalmente na revista eletrônica de literatura e artes, VERBO 21

Verbo 21, Outubro, e Alan Moore

22 de outubro de 2012

 

opa, número novo da VERBO 21 e opa, texto meu, tinindo de novo, sobre ‘Neonomicon’, quadrinhos de terror, violência e suspense de Alan Moore, publicado no Brasil pela Panini. Cercado de polêmicas, discuto se esse recente trabalho mostra realmente sinais de decadência do melhor escritor de quadrinhos de todos os tempos.

Mas, obviamente, VERBO 21 traz muito mais do que um texto meu:

Ano 13, número 159, outubro 2012

Neonomicon: o genial e o lixo de Alan Moore – Claudinei Vieira
Tradução: Quatro poemas de Paul-Jean Toulet – João Filho
JOSÉ WEIS: NEM CINISMO, NEM DOCE-LIRISMO – Sidnei Schneider
Gente da Minha Terra – Maria Lucília Viveiros Araújo
Perdendo a noção: um intertexto que se cria – Juliana Assis
A ANTOLOGIA METAPOÉTICA DE ANDERSON BRAGA HORTA – Claudio Sousa Pereira
Foucault, as genealogias e os poderes – Tatiana Sena
SUTILEZAS DO EROTISMO EM ROLAND BARTHES- Rodrigo da Costa Araujo
O Poeta Utópico – Mariel Reis
Cinema na televisão: considerações sobre o telefilme – Leonardo Campos

conto de Dênisson Padilha Filho
COLUNAS:
Aguacesa
Bordado sem dedal
Daguerreótipos
Diálogos
Os Gallos
Vértebra

ENTREVISTAS:
David Léo Levisky
Salgado Maranhão

http://www.verbo21.com.br/

Verbo21 Forever!

5 de agosto de 2012

uma pequena homenagem ao querido amigo Lima Trindade, criador, editor e mantenedor da revista eletrônica de arte, cultura, literatura VERBO21