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Valente, Pixar, valente decepção

20 de julho de 2012

 

O fracasso da Pixar em continuar a qualidade de sua produção a que estamos tão acostumados pode ser um indício do começo de sua decadência ou, pior ainda, horror dos horrores, sua disneyzação?

Foram sete anos de desenvolvimento de um projeto para chegar a um resultado que, na prática, não é mais do que um bom filme disney. Para um estúdio que se notabilizou pela riqueza e inteligência dos seus roteiros e pela criação de alguns clássicos do cinema como ‘Up’, ‘Wall-E’, ou ‘Toy Story’, isso é desesperadoramente pouco. ‘Carros 2’ já foi um choque tremendo, pois provou que mesmo a Pixar de ‘Procurando Nemo’ e ‘Monstros S.A.’ pode tropeçar (ou capotar) e produzir um trabalho porco e mal-feito (e já era continuação de um filme morno e sem graça). ‘Valente’ não chega a ser tão infame quanto ‘Carros 2’, é agradável de assistir e um tanto divertidinho, mas não tem garra nem ambição, cai na vala comum de historinhas bobas e açucaradas, com roteiro falho e mau resolvido.

Muito está se falando (e vai se falar mais ainda, com certeza) da bela e vermelhíssima cabeleira da personagem principal. E com toda razão: mais do que um magnífico trabalho visual e técnico muito bonito, compõe à perfeição com a personalidade e vitalidade da princesa rebelde e autodeterminada que está decidida a quebrar a tradição do reino e seguir sua verdadeira ‘vocação’ de guerreira arqueira. Observar uma imagem ou fotograma parada não proporciona a verdadeira dimensão e beleza desse cabelo; é preciso vê-lo ao ‘vivo’, e em movimento.

Brave é o que há de melhor em todo o filme: carismática, forte, simpática, cativante, ela prende nossa atenção, arrebata nosso fôlego, caímos fácil em seu charme, aceitamos suas pretensões e compartilhamos de sua frustração. É um belíssimo personagem, muito bem construído e montado, marcante e impactante. (fundamental neste sentido é a participação da atriz escocesa Kelly Macdonald, a escolha absolutamente perfeita para fazer a dublagem original; desde já, sinto pena das pessoas que assistirão ao filme com dublagem, pois por melhor que seja a dubladora nacional que trabalhar aqui, ninguém conseguirá reproduzir a delícia do particularíssimo sotaque de Macdonald). Queremos vê-la, desejamos acompanhar suas aventuras, nos motivamos e torcemos para que ela atinja seus propósitos. O que torna ainda mais decepcionante a incompetência do roteiro em não saber aproveitar tão boa abertura.

Pois, mesmo não havendo o príncipe encantado que irá resgatá-la dos perigos da vida e da floresta (o que remete a um Chapeuzinho vermelho e o lobo mau, quem sabe?), os clichês e os velhos esquemas ao estilo disney estão presentes e tomam conta da história. A bela, inteligente e determinada heroína (como a Bela, de ‘A Bela e a Fera’) que ostenta sua cabeleira revolta e viva (remetendo à Rapunzel, de ‘Enrolados’) inconformada com seu destino subalterno de ter de se casar e ter filhos, independente de sua opinião sobre seus pretendentes, terá a ajuda de uma bruxa com uma solução mágica (tal como Ariel de ‘A Pequena Sereia’). O feitiço, obviamente, terá consequências funestas, colocará a mãe de Valente, com quem discutia tanto, em perigo de morte. Mãe e filha terão que se entender como nunca fizeram antes para poderem sobreviver.

Posso ter adotado um certo tom irônico no parágrafo acima, mas não quero dar a impressão de que usar os lances disneyanos sejam um mal em si. O problema não são os clichês, é como são utilizados. É nesse ponto que os roteiristas vacilam e se acomodam, se perdem e parecem não saber exatamente qual é o foco e qual é a ideia que desejam passar de verdade. Tudo é piorado com um final abrupto e raso, que não responde às (poucas) questões relevantes levantadas no começo. Assim, a Pixar (tão famosa pela originalidade de sua abordagem e pela coragem dos seus temas) vacila, se acomoda, e nos entrega um produto insosso, bonitinho e oco.

Se ‘Carros 2’ foi uma capotagem feia (o ponto mais baixo da história da Pixar, em todos os sentidos) e ‘Valente’ parece incapaz de reverter essa má impressão, isso significa que não foi somente um tropeço? Isso indica uma tendência? A usina de ideias, criatividade e belos filmes terá se esgotado?

A resposta só teremos nos próximos trabalhos, sem dúvida. No entanto, a preocupação se justifica, porque por enquanto a Pixar está respondendo com o anúncio de … ‘Procurando Nemo’. 2.

ai, ai

 

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Heroínas arregaçam as portas de Hollywood

20 de março de 2012

Com a próxima estréia de ‘Jogos Vorazes’ ainda essa semana, a atriz Jennifer Lawrence estará enfrentando um triplo desafio: vencer uma disputa mortal em um Estados Unidos distópico, autoritário e decadente, de futuro não muito distante; encabeçar uma nova franquia que garanta uma safra de novos filmes rentáveis dirigidos para uma faixa de público adolescente carente das finadas franquias do Harry Potter e Crepúsculo; e, por fim, dar a partida para uma nova geração de mulheres fortes e carismáticas que provem o quanto elas podem fazer sucesso como protagonistas de filmes de ação, em geral restritos e dirigidos para um público masculino.

Já comentei sobre o fato de haver um preconceito sobre mulheres protagonistas e o quanto é difícil e raro alguma conseguir furar a preponderância masculina. Em geral, a elas é destinado o papel das heroínas-cabide para, fundamentalmente, para embelezar o filme e servir de escada para uma maior masculinidade do personagem principal. Quando conquistam um pequeno espaço, a maioria termina em filmes porcamente realizados, o que só serve para alimentar o preconceito (para um monte de outros detalhes eletrizantes sobre as heroínas-cabide no cinema e nas histórias em quadrinhos, é só ler o texto completo: “Hollywood promove a nova onda das heroínas-cabides“).

Ao que parece, paira no ar a tremenda a vontade de mudar essa atitude, com produções de nível e financiamento decente, boas direções e enredos cuidadosos, calcados, quando possível, em séries literárias já comprovadas. Mesmo porque, Hollywood não é cega nem idiota de deixar de perceber o grande apelo e as possibilidades (além do aspecto lucrativo, é óbvio) que as franquias anteriores citadas demonstraram fartamente. Neste ano de 2012, pelo menos três filmes, completamente independentes um do outro, chamam a atenção para esse aspecto e assumem a responsabilidade, pois com certeza, muita coisa no universo hollywoodiano pode mudar, dependendo do resultado que eles tiverem:

‘Jogos Vorazes’ (The Hunger Games), baseado nos livros de Suzanne Collins; ‘Valente’ (Brave), a novíssima aposta da Pixar, muito para compensar o ridículo de ‘Carros 2’; e ‘Branca de Neve e o Caçador’ (Snow White and the Huntsman), com a mesma Kristen Stewart de ‘Crepúsculo’, que promete uma Branca de Neve guerreira e destemida, como nunca vista antes, nada tímida ou fraquinha, que picotaria Bella em um piscar de olhos (os trailers e imagens divulgados até agora não deixam dúvida dessa intenção, vejamos se será cumprida).

Não que as heroínas-cabide tenham saído de moda. Muito pelo contrário. Em ‘Os Vingadores’ (The Avengers), Scarlett Johansson briga (e discutiu muito) para que seu papel como Natasha Romanoff, a Viúva Negra, tenha uma relevância maior e esteja no mesmo patamar de importância que todos os demais superheróis-machos. Dificilmente conseguirá isso, mesmo com toda a estrela de Scarlett. Seu melhor resultado seria a realização de um filme-solo da personagem, como já foi cogitado, e isso sim seria sensacional!

Enquanto isso, no final da saga do Batman de Nolan (‘O Cavaleiro das Trevas Ressurge’, The Dark Knight Rises), a maior discussão sobre a participação de Anne Hathaway como a Mulher Gato era saber se sua máscara, afinal de contas, teria ou não orelhas de gato, ou qual seria o seu tamanho. São detalhes fundamentais assim que praticamente definem uma heroína-cabide.

o desenhista e cartunista norte-americano Kevin Bolk revela (desbunda) o grau de machismo em Hollywood ao mostrar graficamente como seriam retratados os heróis-machos se lhes fosse dado o mesmo tratamento que a Viúva Negra (Scarlett Johanson) recebe (clique na imagem para ampliar)

Em 2011, houve duas tentativas interessantes de se colocar mulheres fortes protagonistas em filmes de ação. Pela expectativa criada, foram duas profundas decepções.

Em ‘Hanna’, Saoirse Ronan é uma garota criada em um remoto e geladíssimo lugar afastado da civilização e treinada pelo próprio pai para ser uma assassina perfeita e matar Cate Blanchet, por razões obscuras que serão descobertas arduamente pela matadora adolescente. O diretor Joe Wright vem de densos e competentes dramas de época (‘Orgulho e Preconceito’, ‘Desejo e Reparação’, ‘O Solista’, e está acabando de filmar uma nova versão de ‘Anna Karenina’) e tentou criar um clima diferenciado para uma trama policial básica de assassinato e perseguição, enveredou para uma direção sóbria e introduziu toques de crítica social e personagens bizarros. Uma espécie de ‘Identidade Bourne’ feminino com levada de cinema indie. O resultado foi uma perda de identidade do próprio filme que não se assume como obra de entretenimento ou como reflexão, e nunca entusiasma de verdade.

Há boas caracterizações, Cate Blanchett está excelente como sempre, e Saoirse Ronan faz um ótimo trabalho (acreditamos realmente na ferocidade e sangue frio dessa assassina), mas sua performance é infelizmente prejudicada por um roteiro confuso e atrapalhado, se perdendo com piadinhas baratas e situações estranhas e sem sentido que não levam a lugar algum); e bons momentos como o treinamento na neve, a apresentação da garota, a fuga da instalação militar, fazem um ótimo começo, são instigantes e prometem uma boa continuidade, mas (de novo) tudo se perde com um roteiro falho, com furos feios, e uma direção relaxada. Uma pena.

Zoe Saldana está acostumada a ser heroína-cabide (‘Star Trek’, ‘Avatar’, ‘Os Perdedores’) e teve uma oportunidade de ser a protagonista, em ‘Em Busca de Vingança’ (Colombiana).

Em poucas palavras, o filme é um lixo.

Zoe é muito bonita e tem boa presença (embora seja do estilo esquelética magra-anoréxica, que definitivamente parece mais doença do que beleza), mas o filme é somente uma avalanche de clchês mal conduzidos e nem um pouco aproveitados, que descamba para um vale-tudo, uma salada com muito barulho e explosões e nenhuma substância. Apesar de movimentado, é apático, nulo de emoções, quase sonífero, uma pura perda de tempo.

Por outro lado, há o exemplo de duas franquias de relativo sucesso, com mulheres poderosas na liderança, que se fundamentam na força de suas atrizes e que provam (numa aparente contradição à primeira vista) a necessidade de uma urgente renovação: Kate Beckinsale tem se provado uma ótima atriz, que busca diversificar seus trabalhos alternando filmes sérios com outros de maior apelo popular (que, imagino, devem ser os que realmente pagam suas contas); a recepção morna da quarta edição da série ‘Anjos da Noite’, o ‘Despertar’ (Underworld: Awakening) sinaliza que a fórmula deve estar desgastada. O filme é fraco, percebe-se bem que não têm muita ideia de para onde realmente querem ir e acabam fazendo mais do mesmo, se apoiando integralmente no carisma e presença de Beckinsale. É sempre muito bom vê-la a qualquer momento, mas o filme é cansativo e um tanto irritante.

Com Milla Jovovich, é ao contrário. Ela está tão à vontade e até um tanto acomodada com a série ‘Resident Evil’ que parece não querer fazer outra coisa. Na verdade, a identificação de Milla com a série é tão grande que não nos damos conta de tudo o que ela realiza: somente ao conferir sua carreira no site IMDB foi que constatei que entre Resident 4, de 2010, e o próximo Resident 5 (Resident Evil: Retribution) marcado para estrear no Brasil em setembro, ela participou de 6 filmes! que não têm nada a ver com ficção científica, games, ou coisas do tipo, e já está trabalhando em mais dois.

Seja como for, eu gosto da série ‘Resident Evil’. Apesar de tão criticada pela sua distância cada vez maior do game original, isso nunca me incomodou; eu não jogo nenhum tipo de game eletrônico, portanto nunca passei pela pressão da comparação e pude assisti-la como são : passatempos ligeiros e divertidos, sem nenhum compromisso com realidade ou profundas reflexões, brincadeiras para relaxar e esquecer. Para mim, funcionam assim, nada menos, nada mais.

Com antecedentes tão precários, como se pode dizer que estes próximos filmes farão diferença e abrirão novas portas para filmes de ação firmando como prática contínua em Hollywood personagens femininos com real importância?

Bueno, nada garante isso. Os trailers podem ser enganosos e nos passar uma falsa impressão; os resultados podem ser desastrosos e confirmar a opinião generalizada do ‘verdadeiro’ lugar das mulheres no cinema. Acredito porém que os sinais são bem favoráveis. O cuidado e a atenção que ‘Jogos Vorazes’, ‘Valente’ e ‘Branca de Neve e o Caçador’ estão recebendo, o apuro visual, a diversificação de personagens e caracteres, as tramas diferenciadas, até o momento mostram-se extremamente positivos. Teremos que esperar para conferir.

Jennifer Lawrence, com ‘Jogos Vorazes’ logo logo nos cinemas, dá a partida.

Oscar de Animação: o ano da mediocridade

1 de fevereiro de 2012

Para não acirrar ânimos mais do que o necessário, ‘medíocre’ aqui está sendo utilizado no seu sentido mais literal: de médio, de comum, do que não é extraordinário ou sensacional nem desce a lixo inominável. Não entusiasma nem repugna. Esta é a média dos filmes indicados para o Oscar de 2012 em todas as categorias, de um cinema que pode ser assistido e passa batido e não deixará lembranças, que não marcará. Não ficamos extasiados (não é um clássico nem um ‘cult’) nem revoltados (do tipo: ‘por que? por que? OH, POR QUE?! perdi meu tempo assistindo isso?!?’). Em 2011, até mesmo os blockbusters mais fúteis, por serem tão ruins, acabavam por ficar divertidos em sua proposta de passatempo fácil (penso em um ‘Os Mercenários’, por exemplo). Em Animação, acontece exatamente o mesmo. Quando se pensa que, ano passado, teve o explode-corações ‘Toy Story 3’ e depois a Pixar apresentou ‘Carros 2’ (o ponto mais baixo da empresa), a coisa fica meio desanimadora (estou apostando muito no próximo da Pixar, ‘Valente’; mais do que aposta, é um fervoroso desejo e esperança).

Antes de fazer alguns breves comentários sobre os desenhos animados que foram indicados, já parto da constatação de que este Oscar está sendo marcado justamente pelos que Não foram indicados, ‘Rio’ e ‘As aventuras de Tintim’. Mais do que injustas, estas faltas são na verdade incompreensíveis.

Não posso falar de ‘Rio’, que não assisti e não tive vontade. Muitos falaram bem, outros tantos falaram mal. As críticas negativas condiziam com a minha própria expectativa, o que diminuiu ainda mais minha vontade em assistir; e as críticas positivas não me entusiasmaram em nada, deixei passar. No entanto, um pensamento não me sai da cabeça: ‘Rio’ teria que ser muito ruim, especialmente ruim, para ser pior do que ‘Gato de Botas’. Este ‘Gato’ é para mim, o limite da Ruindade deste ano: Nada pode ser pior. Bom, talvez ‘Gnomeu e Julieta’ (por muito pouco). De qualquer forma, dizer que não se foi indicado, enquanto um destes dois está lá concorrendo… É estilo ‘vergonha alheia’ forte.

No entanto, o máximo da complexidade incompreensível é mesmo ‘Tintim’.

Deixemos de lado a espantosa obtusidade da Academia de Hollywood em considerar que a técnica de captura de movimentos não pode ser considerada como desenho animado e, por conta disso, ‘Tintim’ era inelegível (acompanhada por uma incoerência burra, pois Tintim estava no meio da lista dos pré-indicados…; eles não se decidem!) (para quem quiser ter uma idéia de outros possíveis motivos para sua não-indicação, recomendo o ótimo texto do site ‘O Judão’, ‘TOP8! Motivos que fizeram As Aventuras de Tintim ficar fora do Oscar’, que vão desde o preconceito de Hollywood contra ruivos até o fato de Meryl Streep não participar de ‘Tintim’).

Fora isso, é inegável que este projeto de Spielberg se ressente de alguns problemas sérios que o impossibilitam de ser uma grande obra. Divertida, agitada, animada, colorida, assístivel. E esquecível. O que aconteceu?

Duas coisas: A técnica utilizada é espetacular para recriar os movimentos humanos e torná-los críveis, em um patamar inimaginável. Os objetos, os cenários, e os corpos humanos interagem harmonicamente e o 3D foi muito bem utilizado (ao que parece, demonstrando afinal um amadurecimento neste sentido, saindo do êxtase babão do início do ‘Avatar’). No entanto, ainda está muito longe de conseguir retratar de forma confortável as feições humanas. Os personagens continuam parecendo bonecos infláveis de péssima qualidade. Piora quando tentam expressar emoções, pois precisam compensar essa deficiência com exageros faciais e o que funcionava muito bem nos desenhos cartunescos originais de Hergé aqui fica insuficiente e frustrante. E feio. O resultado é esquisito. Tintim fica esquisito. O capitão Haddock está muito feio e bem esquisito. Os agentes Dupont e Dupond, o vilão Rackham, todos os coadjuvantes. O melhor de todos, a melhor ‘caracterização’, fica sendo do cachorrinho Milou, por motivos óbvios.

No entanto, não é esse o maior entrave. O problema maior é mesmo Spielberg.

Ao se concentrar na ação e na aventura desenfreada, ao não permitir que haja respiros maiores entre as cenas (muito bem executadas, coreografadas e desenhadas), o roteiro e a direção não permitem uma maior aproximação com os personagens. Não há uma construção efetiva de suas personalidades, eles acabam por se tornar vazios e desinteressantes. Enquanto os desenhos, o visual por completo, forçam o tempo todo uma maior naturalização dos traços como uma tentativa (fracassada) de recriar o Real, a narrativa se fixa, por ironia, no cartunesco mais raso. O maior trunfo de Hergé, o criador de Tintim, ao lado de sua bela qualidade de ótimo contador de histórias, era a empatia absoluta que ele conseguia criar com personagens a princípio unidimensionais e caricatos. ‘Tintim’ é um tremendo personagem, porque Hergé fazia com que realmente nos importássemos com ele.

Por tudo isso, Steven Spielberg era, em definitivo, o diretor que possuía as melhores qualidades para realizar essa adaptação. No mínimo, por já ter feito uma espécie de ‘transposição’ do ‘espirito’ de Tintim para o cinema que foi ‘Indiana Jones’. Em ‘Indiana’ há de tudo o melhor dos filmes de ação em seu ponto máximo: a aventura desenfreada, narrativa clássica e brilhante, cenas marcantes e inesquecíveis, e um personagem carismático, clássico desde o princípio. Em ‘Tintim’, infelizmente, Spielberg perde a mão, carrega por um lado, esquece do outro, e realiza um filme (um longa de Animação, Hollywood!) tecnicamente bonito e impecável, mas sem real emoção.

Rango

Western. O gênero reconhecido como o mais norte-americano de todos, praticamente uma fundação de sua cinematografia, já foi consagrado, reverenciado, ridicularizado, destruído, reconstruído, psicologizado, abandonado, retomado, esquecido. Vez em quando, Hollywood insiste em retomá-lo, em uma não muito sutil esperança de que volte a ter a importância que possuiu um dia.

Desnecessário nomear aqui todas as referências de westerns e faroestes que ‘Rango’ faz, dos filmes do Clint Eastwood, Sergio Leoni, os westerns-spaghetis, e por ai vai. Quem cresceu vivenciando essa época que atingia todas a mídias, do cinema à televisão, de publicidade e marketing à revistas em quadrinhos, vai reconhecê-las todas e pode se divertir contando-as. Quem não viveu e não faz a menor idéia de quais filmes ‘Rango’ está falando, também pode passar um tempinho agradável, observando o urbano e solitário camaleão que sempre viveu na cidade grande e tem pretensões de ser ator, que de repente se vê jogado em um vilarejo no meio do deserto, castigada pela seca, por políticos corruptos e vilões malvados. Acaba se tornando um herói por acaso, assume o lugar de xerife, e afinal vai ter que enfrentar perigos mortais de verdade e abandonar seu fingimento.

O outro lado é, para os que sabem das referências, fica cansativo reconhecê-las (são realmente muitas) e, na prática, acaba com o suspense da narrativa, pois se sabe exatamente para onde a história vai encaminhar, quais personagens vão surgir, quais as reviravoltas, e como vai terminar tudo. O que é um tanto brochante.

Para os novatos em westerns, tenho minhas dúvidas se agradará o ritmo meio irregular, que transita entre as caracterizações um tanto duras e psicológicas, em especial no começo do filme, e as repentinas tomadas de ação e comédia, sem serem empolgantes em nenhuma. Um outro desenho animado, quase com a mesma história, conseguiu fazer muito melhor, o ‘Vida de Inseto’.

Sem muito entusiasmo, imagino que seja ‘Rango’ quem vai ganhar o Oscar.

Ao contrário de ‘Tintim’, ‘Kung Fu Panda 2’ investe pesado no carisma e na simpatia dos personagens. O que torna esse filme, simpático. Jack Black, Angelina Jolie, Jackie Chan e todos os demais voltam com suas vozes e personas, agora também com Gary Oldman e um bando de gente (incluindo aí uma participação rápida de Jean-Claude Van Damme), e garantem acima de tudo a leveza e (tenho que repetir, perdão) simpatia geral.

A questão é que toda a jornada do herói, sua luta, afirmação, ascensão e redenção, já foi contada (e bem) no primeiro filme. Assim, nesta segunda parte, não é possível deixar de ter a sensação onipresente de uma forçação de barra na história para justificar uma série, como se assistíssemos um episódio de televisão. Para isso, um novo vilão maquiavélico e uma revelação bombástica na vida de Po, o Panda, são interessantes e fazem avançar a trama.

Mas faz falta, e nunca houve a intenção, é verdade, de uma ambição maior, de ser realmente grande, de explodir cabeças. A ambição mor parece a de colecionar um monte de vozes de atores famosos para os coadjuvantes que, por sinal, ficam na maior parte do tempo boiando, à espera de uma contribuição real.

Bueno. Simpático.

Se houve alguma utilidade real nesta edição do Oscar 2012 para Animação, foi a de que colocar em relevo algumas obras estrangeiras (isto é, não-norte-americanas) que, em caso contrário, ficariam esquecidas, mesmo que já lançadas há um certo tempo.. Bom, na prática, continuarão de escanteio, mas pelo menos alguma atenção lhes foi dada. Mesmo porque, nenhuma delas atinge a força de anos anteriores como fizeram ‘Persépolis’, ‘Valsa com Bashir’ ou ‘O Mágico’.

De qualquer forma, vale a pena entrar em contato com ‘Um Gato em Paris’ e ‘Chico e Rita’.

O gato, no caso, se chama Dino: ele é parisiense e tem uma  vida bem agitada: de dia, vive na casa da menina Zoe e de sua mãe, Jeanne. A casa está em um período de luto: o pai de Zoe morreu, assassinado por um mafioso local, e sua mãe é a policial que está tentando prendê-lo. De noite, Dino é parceiro de um profissional ladrão de jóias, Nico, um bandido dedicado, mas de bom coração. Um gato e um verdadeiro gatuno (um jogo de palavras clichê que não contive, fiquei esperando o texto todo para poder fazê-lo). É óbvio que, mais cedo ou mais tarde, todas essas vidas irão se chocar e suas vidas mudarão.

Com roteiro mínimo, e história idem, o melhor de ‘Um Gato em Paris’ é sua arte, de certa forma também minimalista, bonitinha e simples. Não dói assistir, nem empolga, mas tem a relativa vantagem de ser curtinho e rápido de assistir…

‘Chico e Rita’ é uma história de amor, simples, direta, romântica, que se passa em Cuba pré-revolução, com uma trilha sonora primorosa e envolvente, que inclui ritmos latinos, como rumba e bolero, com muito jazz, principalmente bebop, e um pouquinho de blues.

Chico e Rita são músicos, ela cantora, ele pianista, que se juntam e se apresentam, se apaixonam e brigam, e cujas carreiras e idiossincracias os levarão para caminhos muito diferentes.

Romance, muita música boa, sexo e nudez com cenas calientes (o clichê latino, por excelência), arte com desenho de estilo naturalista muito bem produzido (que me lembrou um tanto o que fazia Ralph Bakshi na década de 70, sem a preocupação excessiva com os detalhes dos personagens em si).

O ritmo é lento, no entanto, sem preocupação de um melhor desenvolvimento de personagens, contentando-se com sua unidimensionalidade, o que prejudica sua fluição plena. É uma pena, embora pareça corresponder às aspirações dos autores (entre vários roteiristas e diretores, Fernando Trueba). Mesmo assim, na minha opinião, o melhor longa de animação dentro dessa turma.

Havia, na primeira lista de pré-indicados, uma animação cujo trailer me chamou muito a atenção. Uma produção tcheca chamada ‘Alois Nebel’ baseada em uma graphic novel respeitada, cujo plot fala de um homem estranho e mudo que se envolve (ou é envolvido) em um crime de morte no meio de um inverno polonês (pelo menos, foi o que entendi). O estilo do desenho me remetia a ‘Valsa com Bashir’, aqui em um bonito preto-e-branco, e prometia um resultado sensacional. Ou uma chatice tremenda. Como não foi indicado, está sendo esquecido e não mais encontro referência, para poder assisti-lo de alguma forma.

E, entre os indicados, há um chamado ‘Gato de Botas’ que é, no mínimo, No Mínimo, uma perda de tempo.

Para ‘Tintim’ e ‘Rio’ sobraram indicações somente na área musical: para o primeiro, como Melhor Trilha Sonora (chega a ser uma brincadeira triste, pois John Wiliams não está em sua melhor forma); para o segundo, como Melhor Canção, onde concorre única e exclusivamente com ‘Os Muppets’ (outra brincadeira? somente duas canções foram boas este ano? então, é uma verdadeira catástrofe musical?)

Minha aposta para esse ano fica assim:

Para Desconcertos, Melhor Longa de Animação é ‘Chico e Rita’.
Quem vai levar o Oscar: ‘Rango

Cuba em ‘Chico e Rita’