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escandalosas dançarinas do teatro burlesco dos anos 90

3 de novembro de 2012

dos anos 1890′ s

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‘Ser ou não ser’ , no Cinema, nunca fez o menor sentido

27 de outubro de 2011


A primeira vez que li Shakespeare foi em uma belíssima edição de suas obras completas em um único volume, de capa cartonada e papel bíblia, com fartas notas de rodapé, com muitas explicações pertinentes. Em espanhol. E eu não sabia espanhol. E também não tinha dicionário. Dessa forma, foi simples saber por exemplo que Ofélia, a namorada de Hamlet, tinha se matado, mas por um bom tempo eu fiquei em dúvida se ela tinha se afogado ou se enforcado. O que, convenhamos, é uma diferença considerável. Mais tarde, com uma gramática básica do lado (e um dicionário escolar) a coisa ficou um tanto mais fácil.

Hoje em dia, eu consigo avaliar a excelência daquela tradução, toda em prosa, que conseguiu passar toda a força do texto de Shakespeare sem perder em nada sua beleza poética, o que nunca mais encontrei em nenhuma outra tradução em português (em espanhol, não tentei mais). Assim, consegui me divertir horrores com ‘A Megera Domada’ (e sua fervorosa defesa do casamento e submissão da mulher, meu machismo juvenil plenamente satisfeito), babar com o lindo e açucarado romantismo de ‘Romeu e Julieta’ (e entender como ele fazia tanto sucesso), penetrar nas ambiguidades morais e intelectuais de Iago em ‘Otelo’, me impressionar com a loucura do ‘Rei Lear’, minha peça preferida de todas (a cena da morte de sua filha mais jovem ainda me emociona quando releio). Foi igualmente nesta leitura que senti o choque de entender, pela primeira vez, do que se tratava o monólogo ‘Ser ou não ser’, de Hamlet.

Não pretendo generalizar demais e impor uma condição a partir de uma experiência eminentemente pessoal e particular, mas a impressão que tenho é de que as pessoas não têm noção do que o monólogo trata. O título deste meu texto faz o gancho para como o cinema tratou ‘Hamlet’ e este monólogo em específico, e vou tratar disso mais para frente. Antes é preciso que se diga que o sentido foi perdido há muito tempo, até mesmo em sua manifestação cênica, não só no cinema como em qualquer mídia ou apresentação. O que acontece é que a frase ‘Ser ou não ser, eis a questão’ está tão entranhada em nossa cultura ocidental, se tornou um clichê tão absoluto, e possibilita tamanhas interpretações variadas as mais possíveis (todas válidas, a frase permite isso) que o resto do texto fica meio que ‘sobrando’. Foi um choque para mim descobrir que se tratava de suicídio e do medo do pós-morte.

Ser ou não ser – eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias –
E combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer – dormir –
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,
A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,
As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,
A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis,
Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso
Com um simples punhal? Quem agüentaria os fardos,
Gemendo e suando numa vida servil,
Senão, porque o terror de alguma coisa após a morte –
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos? …

Independente de qualquer explicação ou interpretação que se possa dar (filosófica, existencial, psicológica, política, religiosa, etc e etc), o texto em si parte da constatação de que matar-se não garante tranquilidade nem soluções. Existir ou não existir, lutar ou desistir, viver ou morrer. Se morrermos, acabamos com todos os problemas que temos em vida, não precisamos mais aturar as sacanagens, penar sofrimentos, chorar as injustiças, fica tudo tranquilo. Mas quem garante que, depois de morrermos, não aguentaremos outros tantos problemas? Para Hamlet, é isso que nos segura, essa incerteza absoluta do que poderá vir, pois ninguém que já morreu voltou para nos contar. Para o jovem dinamarquês, isso era fruto de sua intensa relutância em consumar o designio imposto pelo fantasma de seu pai, o de matar a sangue frio o tio. Para um jovem paulistano, ainda em formação intelectual e com um ateísmo incipiente (ainda não consciente) esse discurso resultou um tanto brochante e Hamlet uma figura meio patética…

De qualquer modo, o que notei em mim e ainda percebo nas pessoas em geral é que a expectativa de assistir ‘Hamlet’ alcança seu êxtase ao se ouvir a célebre frase, nublando-se o restante do pensamento. Simplesmente, não se ouve mais. Ficamos tão satisfeitos com sua simples enunciação que é como se tivéssemos dentro de nossa mente toda sua significação (é muito forte essa sensação, acompanhada pela imagem interna de que a pose de Hamlet nesse momento é falando com a caveira, uma cena completamente diferente, erro muito mais comum do que se pensa). Somente depois disso, a partir daí realmente começa-se a prestar atenção e reconhecer que há toda uma peça (com bastante história e muitas mortes) ainda a se desenrolar. E ainda bem que o monólogo acontece no primeiro ato, caso contrário a expectativa atrapalharia sobremaneira a fruição do enredo. Mais ou menos, como acontecia com Hitchcock e suas fortuitas aparições em seus filmes: o que tinha começado como uma simples brincadeira e uma forma de fazer volume e aumentar a quantidade de figurantes, tinha se tornado um tal ritual e fomentava uma expectativa tão grande, que o diretor fazia questão de se mostrar imediatamente nos minutos iniciais. Pois assim o público logo o reconhecia, relaxava e podia realmente curtir o filme. ‘Ser ou não ser’ é o equivalente shakespeareniano de Alfred Hitchcock.

Em todas as apresentações que já assisti (posso dizer que foram muitas) existe essa percepção por parte de quem as realiza. O modo como se relacionam com o monólogo é um capítulo completamente à parte. Em uma ocasião no ginásio, numa representação escolar (e, portanto, bastante resumida, com pouco menos de uma hora de duração), o ‘Ser ou não ser’ tomou quase toda a atenção, e correu-se com o restante da história. Na versão ‘extendida’ realizada pelo Teatro Oficina (com seis horas de duração), o monólogo foi dito logo após um intervalo. O ator disse as primeiras frases, fez uma pausa, se aproximou da platéia, catou pipoca do saquinho de uma garota sentada na primeira fileira, riu com a brincadeirinha, fez um suspensezinho, acabou de engolir as pipocas, voltou-se de repente, jorrou as últimas frases em um só fôlego, e a peça prosseguiu. Foi durante essa apresentação que cristalizei os pensamentos que expus nos parágrafos anteriores.

Pensar em como o monólogo foi retratado no cinema produz uns resultados muito interessantes. Ou ainda mais indagações variadas. Não só pela árdua transcrição de um texto dramatúrgico criado para ser encenado ao vivo, ou lido, para um meio onde o visual é o primordial. Observar os malabarismos técnico-filosóficos para concretizar essa façanha já é por si bastante gratificante. Mas não é essa a questão que me pega. O que me interessa é saber qual foi a mensagem passada. Qual ‘ser ou não ser’ é transmitido, qual é absorvido pelo público, qual foi a pretensão do cineasta e o quanto foi realizado? Em suma: em qual deles (se é que houve) foi explicitada a questão do suicídio?

Não farei uma relação extensiva de todas as versões cinematográficas; o maior site de informações sobre cinema, o Internet Movie DataBase IMDB, cita mais de setenta filmes, isso considerando-se somente os que possuêm o nome ‘Hamlet’ direto no título. Eu só não posso deixar de citar o que considero a mais bonita apresentação do ‘Ser ou não ser’ aconteceu em um western!

‘Paixão de Fortes’ (My Darling Clementine), de 1946, dirigido por John Ford, com Henry Fonda, Linda Darnell e Victor Mature. Enquanto a tensão cresce na pequena cidade de OK Corral (e que vai desembocar em um famoso tiroteiro, retratado tantas outras vezes), uma trupe teatral faz uma turne pelo faroeste, levando um pouco de cultura para aquelas paragens selvagens. Entre vaias e zoeiras, os vaqueiros e os pistoleiros assistem espantados às apresentações e no meio de uma discussão no bar fazem com que o veterano da turma improvise um monólogo. Devo dizer que esse é um momento muito especial: o ator está espetacular, a direção é sensível, a câmera se aproxima, o silêncio desce no saloon e as improváveis e distantes palavras do príncipe dinamarquês ecoam naquelas paredes e no espírito daqueles brutos. O inusitado cenário envolve e reforça a fragilidade daquele velho senhor, com sua voz quebradiça e decadente, que ainda transmite beleza e sonoridade. Somente um mestre como John Ford para fazer com que esta cena não soe ridícula ou forçada ou deslocada.

Vou destacar três filmes – ícones modernos pop e de grande impacto; é possível que sejam os mais importantes; com certeza, são muito conhecidos.

A interpretação que Laurence Olivier fez de Hamlet em 1948 (onde atuou e dirigiu) é a mais sombria, angustiada, fechada, psicologicamente atormentada, que conheço. Olivier investe na visão psicológica, freudiana até (com referências a complexo de Édipo, inclusive).

Os caminhos são estreitos, claustrofóbicos, não há espaço para humor ou considerações políticas, as cores são pesadas, fúnebres, reforçadas pelo  fotografia em preto-e-branco (opção e exigência do diretor), os corredores lembram labirintos, metáforas nada sutis da mente atormentada do personagem. O momento do monólogo as luzes se fecham ainda mais, o cenário (que já era mínimo) simplesmente desaparece, é o aprofundamento absoluto na psique. Não há ‘realidades’ concretas. O abstrato domina, Hamlet é envolto por nuvens escuras, simbolizando sua separação e alienação do mundo que o rodeia. A recitação é lenta, imponente; não fosse Laurence um ator fenomenal, a cena seria formal demais, insuportável.

As palavras aqui, como se pode inferir, realmente não têm importância. Somos cercados pela atmosfera pesada e solene, dirigida pela mão pesada e magistral de Olivier, de tal modo que por fim, também nos sentimos desgarrados e afastados do monólogo. Não há ponto de encontro ou reconhecimento entre o público e este ‘ser ou não ser’. Nenhuma ligação.

Magnificamente filmado e dirigido, roteiro preciso e muito inteligente, e bela fotografia, ‘Hamlet’ de Olivier foi um absurdo sucesso de crítica, venceu todos os festivais que participou, ganhou toneladas de prêmios, sedimentou a já arraigada crença de que Laurence Olivier era o melhor ator de todos os tempos. Para mim, é um filme bonito, que exige uma certa dose de boa vontade para ser assistido. Em outras palavras, vale a pena a experiência, mas é de uma chatice dolorida. E seu ‘ser ou não ser’ não me disse nada.

Em 1990, Franco Zefirelli veio com uma proposta inusitada e muito bem realizada: Mel Gibson como Hamlet! era uma idéia sensacional. Zefirelli já havia realizado anos antes versões definitivas para duas peças de Shakespeare: ‘A Megera Domada’, de 1968, (com Richard Burton e Elizabeth Taylor, simplesmente perfeitos) e ‘Romeu e Julieta’, de 1969, com atores estreantes adolescentes no papel dos personagens principais adolescentes, uma sacada genial.

O grande mérito de Zefirelli foi não forçar Mel Gibson a ser o que ele não era: um ator shakespeareniano. Para isso, o diretor aliviou a densidade filosófica da peça, retornou os momentos de sátira e humor e a questão política (que se transformou em um viés criminal; Hamlet era agora um jovem em busca de vingança contra a morte do pai) e deixou Gibson à vontade para um príncipe em conflito com sua natural tendência violenta e de busca por soluções rápidas, sem saber qual o melhor meio de alcançar sua vingança. O resultado geral ficou muito agradável, na minha opinião. Zefirelli não descaracterizou o personagem nem a peça e conseguiu formatá-lo para um público jovem, consumidor de blockbusters. Pode-se estranhar Gibson no papel no início, mas seu carisma é arrebatador (e na prática quem vemos ali é o próprio Martin Riggs!, de ‘A Máquina Mortífera’, o que ficou coerente com a proposta geral. Se, de repente, víssemos o Danny Glover como um soldado, olhasse para os cadáveres e exclamasse ‘Tou muito velho pra isso’, duvido que estranharíamos…).

Claro que o momento esperado era o de sabermos como Mel Gibson se sairia no monólogo. Zefirelli foi cuidadoso: diminuiu o ritmo da ação, deslocou o personagem para um aposento isolado, abaixou as luzes, abstraiu as paredes, e deixou que Gibson não dramatizasse demais as falas. Em muitos sentidos, o diretor repetiu o que Olivier havia feito para essa cena: alienou o personagem do restante do universo, só não permitiu que o monólogo voasse para abstração total: ao final, não são as nuvens ou a escuridão que cobrem Hamlet, é simplesmente ele saindo da sala, deixando o aposento vazio. Vazia também foi a interpretação, mas até aí que se importa? Era Mel Gibson recitando ‘Ser ou não ser, eis a questão’ e não fazendo feio. Não é necessário nem ouvir o resto do monólogo, não é mesmo?


 Em 1996, Kenneth Branagh radicaliza total. Não mais escuridão, nem recantos sombrios: seu ‘Hamlet’ explode de luzes, cores e vivacidade. Mesmo quando encontra o fantasma de seu pai, à meia-noite, é a brancura do fantasma e a intensa luminosidade da lua cheia que predominam. O objetivo mais imediato e óbvio dessa opção é destacar o contraste berrante entre a iluminação geral e a figura solene toda de preto de Hamlet que se recusa a tirar as roupas de luto em homenagem ao seu pai, mesmo no auge da festa do novo casamento da mãe.

Em tudo, Branagh faz questão de se opor ao filme de Olivier. Não mais a visão, nem mesmo referências, psicanalíticas (o que acontecia até mesmo no filme do Zefirelli), de volta todo o teor político e a discussão moral originais, a sátira e o escárnio e a inteligência do príncipe. Sua pretensão foi filmar o texto integral da peça e o conseguiu, as custas de impor um ritmo acelerado na trama, o que incomoda um pouco em várias cenas (e mesmo assim a duração total é de quatro horas).

O monólogo acontece em um imenso salão espelhado. As dezenas de espelhos são portas disfarçadas para armários ou outras saídas que juntas com a parede branca realizam aqui o isolamento do príncipe para seu principal autoquestionamento. É preciso lembrar que, neste momento, estão escondidos por trás de alguns desses espelhos, o novo rei e o pai de Ofélia, de tocaia à espera de que a garota apareça e comece a pressionar Hamlet para descobrirem afinal porque o príncipe está agindo tão estranhamente nos últimos tempos. Existe uma discussão centenária (literalmente) em relação a essa cena sobre se o príncipe percebe ou não que está sendo observado pelo rei e o assecla (o que influiria de forma decisiva no modo como se expressa e se comporta na conversa seguinte com a própria e coitada Ofélia.

Branagh é de opinião que Hamlet percebeu sim a presença fortuita. Portanto, o que acontece? Ele começa a ruminação ‘Ser ou não ser, eis a questão’, no meio dos pensamentos desconfia que há pessoas por trás dos espelhos, desconfia quem seja, e inicia-se um jogo de imagens e de intenções ocultas, mesclando-se os rostos do príncipe e do rei, que sente-se ameaçado (o punhal esticado não deixa muitas dúvidas sobre isso), Hamlet começa a abrir as portas freneticamente na tentativa de pegá-los em flagrante (e, quem sabe, até matá-los) obrigando-os a trocar de nichos e fugir. A cena é muito bonita e visualmente deslumbrante, proporcionando uma interpretação diferenciada e bem pessoal para um momento tão batido (o filme todo é sensacional). Em relação ao texto em si, esqueça-se.

Sério, esqueça-se. Não há correlação no sentido original do monólogo com a interpretação cinematográfica de Branagh. Na prática, poderia ser trocado por qualquer outro texto de qualquer autoria (depois da primeira frase, claro) e o resultado seria o mesmo. Porque não prestamos atenção ao que está sendo dito, estamos preocupados em saber se Hamlet vai emboscar e apunhalar o rei ali mesmo. Se ele estivesse recitando o pau-no-gato-da-dona-Chica com a devida impostação de voz, o resultado continuaria exatamente o mesmo.

– Não chega a ser impressionante que o monólogo mais famoso da dramaturgia mundial de todos os tempos nunca tenha sido devidamente apreciado?

 

 

Algumas notas de desconcertamentos

11 de junho de 2008

“confissões…” pela ótica e lápis sensacional de Paulo Stocker

CONFISSÕES DAS MULHERES DE 30

 

A estréia é hoje, lá no teatro Folha. E Fernanda D´Umbra mandando tudo. Acho que fazia tempo que não tinha algo que eu quisesse tanto assistir! Um trecho do que ela escreveu no seu blog (com o devido link aqui do lado, claro): “Lá estão as meninas: Juliana, Melissa e Camila. Eu dirijo o espetáculo e tento segurar minha alma na cadeira. Porque vez ou outra, ela sobe no palco e de lá eu aceno para a platéia. E minha carne, da cadeira, ri de mim e pensa (porque o pensamento não está na alma): “Lá vai ela de novo. Essa menina não devia ter tido tanta liberdade na infância.” (e a Fernanda, de vez em quando, costumava dizer que não sabia escrever… Ainda bem que ela parou com essa bichice)

 

Dramaturgia Domingos Oliveira

Direção Fernanda D´Umbra

Com Camila Raffanti, Juliana Araripe e Melissa Vettore

Figurino Marina Reis

Cenário Valdi Lopes Jn.

Iluminação Marcelo Montenegro

Trilha Sonora Selecionada Carlos Eduardo Miranda

Fotografia Alexandre Catan

Supervisão Eduardo Wotzik

 

Textos Originais de Clarice Niskier, Priscilla Rozenbaum, Domingos Oliveira, Dino Menasche, Lenita Plonczynski, Dedina Bernardelli, Cacá Mourthé, Clarisse Derzié e Maitê Proença.

 

TEATRO FOLHA

Shopping Pátio Higienópolis, Av. Higienópolis, 618

quartas e quintas – 21h – Ingresso: R$20,00

Televendas: (11) 3823.2737

 

E os camaradas Pipol e Edson Cruz, webdesigner de um lado, poeta do outro, editores e mantenedores de um dos mais belos portais de literatura da net, o CRONÓPIOS. Imperdível a entrevista que eles deram para o jornalista Julio Daio Borges, do Digestivo Cultural, onde explicitam as origens, o trabalho cotidiano e a persistência de construírem um espaço de tamanha inteligência, cultura, e beleza. Imperdível: http://www.digestivocultural.com:80/newsletter/20080610a.txt

 

Algum dia, ainda terei a capacidade multiplicativa do Multi-homem. Enquanto esse dia não chega, dou os toques do que está rolando: como este: TE PEGO LÁ FORA.

“TE PEGO LÁ FORA é treze. O 13º título publicado pelas Edições Toró, o primeiro só de contos e o primeiro livro de autoria de Rodrigo Ciríaco, professor de História da rede pública estadual de ensino na Zona Leste, em São Paulo.

O livro conta com 25 contos divididos em quatro estações, que transpassam histórias – e estórias – de uma gente vivida e sofrida que ainda está nos bancos de classe da primeira série.

Escritos de vingança, dor e justiça de um professor que não aceita perder alunos para o tráfico e para a miséria, ver o preconceito camuflado para baixo de carteiras e nem abaixa a cabeça para diretores incompetentes e sistemas educacionais falidos. Contra tudo isto, usa a sua principal arma: a caneta.

Textos ficcionais baseados em fatos reais. Um recorte da nossa deseducação, ilustrado com o trampo de Yili Rojas, confeccionado nas mãos de Silvio Diogo, Mateus Subverso e Allan da Rosa, acompanhado de um pequeno caderno de fotos das entranhas do ensino e outras surpresas.

Diário de Escola com leituras proibidas para educastradores, burocratas de plantão e alunos matriculados na rede particular.

 

QUARTA, 11/06 – COOPERIFA – 20HS

QUINTA, 12/06 – AÇÃO EDUCATIVA – 19HS

DOMINGO, 15/06 – FRANCISCO MORATO – 17HS

É SÓ CHEGAR!”

Mais detalhes: http://efeito-colateral.blogspot.com/

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E já devo ter dito em algum lugar que, hoje, 11, é o lançamento do GREGUERIAS, de Ramon Gomez de la Serna, pela editora Amauta, e que sábado vai ter o encontro e o bate-papo com as três escritoras Sabina Anzuategui, Cidinha da Silva e Márcia Bechara, no Desconcertos na Paulista. Tudo na Casa das Rosas, Avenida Paulista, 37. Hum, sim, tenho quase certeza de que já falei.

                     

Amigos pelas ruas de uma São Paulo em pé de frio.

14 de maio de 2008

Querida Li, como andas pela cidade de São Paulo? Claro, sabemos, percorremos essas ruas frias, de um gelo que ainda não esperávamos, quem sabe seria somente para o mês que vem, no entanto, nos pegou agora, desestrutura nossa rotina, torna ainda mais difícil a sempre extenuante tentativa de levantar a cabeça do travesseiro, com todos os tempos verbais possíveis ainda embaralhando o sono e o trânsito.

Li, como andas? Pois gostaria de dizer que as ruas, apesar dos agasalhos, estão fervendo, que cabeças estão fervendo, que amigos meus e nossos estão brigando para mostrar arte e talento, e sabemos bem que, ao lado dessa tal amizade estes caras e estas minas mandam muito e prezam demais continuar brincando com a bola para ‘desfrutar desse indescritível prazer que é chutá-la mais longe’.

Misto de admiração e espanto, penso neles. Em Fábio Brum, guitarrista do Bêbados Habilidosos, do Made in Brazil, faz arrepiar a alma com seus acordes, a ponto do mestre Chacal dizer que gostaria de fazer poesia como Fábio toca sua guitarra, e agora repassa sua experiência dando aulas. Não vou falar de sua excelência, basta tê-lo ouvido uma vez, ou aproveite-se um Tranqueiras Líricas, um Saco de Ratos Blues, um Melodrama Blues. Paulo Stocker é outro. Traços e linhas se aprendem e se aperfeiçoam.

Flavinho Vajman é outro. Conhecido até há pouco como Garoto-Enxaqueca, é preciso reconhecer o quanto ele é chato é com seu trabalho, com sua arte, com o modo como lida com o que sabe melhor fazer, sua música. Penso em sua apresentação com Fernanda D´Umbra no Bourbon Street, tocando com a boca machucada, para se perceber sua seriedade: tocando gaita. Penso em que o ponto na Frei Caneca, o famigerado Juke Joint, está para fechar (ao que tudo indica, realmente fecha agora) no dia 31de maio, fechando um ciclo em sua vida e na vida cultural dessa cidade. Flavinho com suas aulas de gaita pode até assustar, mas como o Mário Bortolotto já disse uma vez, ele só morde se você pedir. Penso no Paulo de Tharso, essa figura extraordinária, que exarceba em sua simples pessoa toda essa complexidade de um fazer / ser artista mandatário dessa tão antiga tradição de ser / fazer / ser humano. Carisma e talento se unem, músico e ator, cantor e poeta, escritor e professor de francês, com o qual fala um francês castiço e exuberante, baseando-se em peças de teatro ou obras literárias ou cinematográficas ou um falar simples e direto para necessidades imediatas, conforme desejar o aluno.

Querida Li, não sei bem o que dizer. Devíamos marcar uma ponta, tomar um café (isso é, você tomaria um café, eu ficaria com a minha cerveja, ou sempre podemos compartilhar um vinho), deixar passar o frio, o vapor de nossas bocas se confundiria com a fumaça dos carros congelados nessa São Paulo que ambos conhecemos, e eu diria da minha incapacidade de absorver o tamanho da bronca que poderíamos aguentar. e da impossibilidade de abarcar com a mente a quantidade de arte que nossos amigos conseguem produzir e com qual dimensão. Preciso te ouvir sobre suas aulas (imagino que ainda dê aula, em quatro ou cinco escolas diferentes por dia, como normalmente você fazia, além do doutorado na História) e retribuirei perguntando, com a minha costumeira ansiedade, sobre sua vida e acrescentarei, com um certo toque mínimo de malícia: Você conhece o trabalho do Edinho Kumasaka? Suas fotos causam um estranhamento instigante delicioso. Não são bonitas. São impactantes (veja a cara desse boneco!). Vai abrir exposição sua lá no B_Arco em Pinheiros (outra usina impressionante de talento). Precisamos assistir ao “Desatino” no Sesi da Avenida Paulista, é de quarta a domingo, é de graça e é com a Mariana Leme (o que por si valeria pagar qualquer ingresso, aliás), vai estrear nesta quinta, mesmo dia da abertura da exposição do Edinho no B_arco. Podemos nos jogar na exarcebação de um (anti-)Sade, no Anti-Justine, no Teatro X, da Rui Barbosa, suas sessões são às sextas-feiras, meia-noite (e, portanto, poderíamos, com justeza, passar pela Praça Roosevelt e nos dirigir para uma fogazza no Giannotti, como já combinamos e ainda não rolou); ou nos embebedar nas palavras de Dostoiévski, em “A Voz Subterrânea“, uma adaptação de “Memórias do Subsolo”, espetáculo que impressionou fortemente nosso caro Paulo de Tharso (veja aqui: http://paulodetharso.blog.uol.com.br/). Ou nos desbragarmos no nonsense hilário do Rolex – o antivelox, do Mário Bortolotto, no Teatro Ruth Scobar. Quero falar com mais vagar e falarei, em outro momento, do ‘Natimorto‘, no Parlapatões, e da “Festa da Abigaiu“, que retornou, dando mais uma chance aos incautos e desavisados (tipo um claudinei da vida) para não perderem infantilmente a oportunidade.

Podemos, é claro, querida Li, esquecermos todos esses amigos e sua arte e continuarmos com o café e a cerveja, passarmos pela casa da Tati Carlotti, e observarmos o frio caindo na paulistana Brigadeiro Luís Antônio, perceber o sentido do embaçamento acumulado na janela da sala e da fumaça do cigarro, ouvir um Chet Baker (que sempre cai bem), e podermos enfim conversar.