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Eu gosto de séries históricas. Há séries históricas muito boas. Há séries históricas extremamente ruins. E, abaixo, tem ‘Borgias’

19 de junho de 2012

 

‘Roma’ marcou época e definiu um estilo em relação ao modo de encarar os seriados históricos, não só para televisão em geral, como para a própria BBC. Não sei por quais razões definidas… não me pegou. Reconheço toda a qualidade da produção e acredito serem válidas e merecidas as premiações, a fama e a força que ela demonstrou, resultado do extremo cuidado com a ambientação, com roteiros sérios e muito bem trabalhados, com temas que me agradam sempre, as intrigas palacianas, o pano de fundo real, a mistura de personagens históricos com outros fictícios, bons atores e atrizes. E nudez desavergonhada. Tudo muito bom. Mas não curti (será que devo avisar que a palavra ‘curtir’ veio bem antes da criação do Facebook e já era usada antes mesmo que o Mark Zuckerberg nascesse?; espero que não).

Durou somente duas temporadas, um pouco pelo estilo inglês de fazer seriado, com temporadas curtas e episódios bem longos, praticamente média-metragens, e um pouco pelo alto custo da produção. De qualquer modo, pretendo tentar assisti-lo novamente, veremos como será a experiência, depois de um tempo.


Não assisti ‘Spartacus’  e fiz questão de não acompanhá-lo quando começou a ser exibido, por puro e assumido preconceito. Uma espécie de imitação norte-americana de ‘Roma’, tendo como base o personagem e o filme clássico do Stanley Kubrick, de 1960 (que amo!),  e o emoldurando com o tipo de filmagem e fotografia colorida exagerada de ‘300’ de Esparta, do Zack Snyder, de 2006 (que considero apenas mediano), além de fazer uma mistura intragável com o filme ‘Gladiador’, de 2000 (que detestei) copiando descaradamente seu visual das lutas arqui-artificiais.

Por um acaso, acabei assistindo um episódio (por um acaso, mesmo!, não queria gastar o dinheiro do aluguel dos dvds para ver isso) e, putz, me peguei me divertindo horrores.

Tudo que escrevi acima continua válido; acrescente-se os roteiros dramalhões e exagerados, as interpretações canastronas, os constantes jorros de sangue digitalizados nos combates constantes e recorrentes e o resultado final é Extremamente divertido, como não imaginava que seria tanto. O montante de mulheres peladas  a cada episódio e as inúmeras cenas de sexo fake também não atrapalhavam. Pelo menos, na primeira temporada, que termina com Spartacus finalmente se rebelando e começando a revolução contra Roma.

Até que a tragédia (real) aconteceu: o ator principal, que protagonizava Spartacus, Andy Whitfield, foi diagnostico com um tipo de câncer que pensou-se ser tratável. Para dar tempo para que ele se recuperasse do tratamento e para não perder o pique do sucesso de audiência, realizaram uma minissérie que se passava na mesma escola de gladiatores, mas antes que Spartacus ali chegasse. Pensando estar recuperado, começaram a produção da segunda temporada, mas o câncer foi cruel, ele teve uma recaída e dois meses depois de pensar que estava curado, Andy Whitfield morreu. Prosseguiram com a temporada, com outro ator no lugar, de incrível semelhança física com Whitfield, mas o pique tinha se ido. Os roteiros e as histórias foram piorando, a audiência fugiu, e eu também, determinando o final do seriado.

(correção: a série continua, terceira temporada, agora com o nome ‘Spartacus – War of Damned’; pelo visto, consideram que há fôlego para terminar a história do personagem, até seu amargo e previsto fim; ou é puro desespero dos produtores para resgatar os últimos espectadores)


‘The Tudors’ é um clássico. Tudo funciona. Roteiros preciosos, elenco perfeito, produção compatível, direções firmes. Grandes e tumultuosos momentos históricos da Inglaterra e da Europa, prontos para serem dramatizados, com uma trama entupida de cenas tensas e empolgantes, sexo e política, corrupção e guerras, frases de efeito muito bem escritas e colocadas. Em quatro temporadas, acompanhamos Henrique VIII e seus conflitos militares, políticos, religiosos e caseiros. Ao lado da procura pela preponderância inglesa, o racha com a poderosa igreja católica e o papa, seu apetite por mulheres e a busca por uma esposa para gerar um herdeiro (e, quem não o gerou foi descartada e jogada fora, literalmente).

Obviamente, tudo fica mais chique, bonito e palatável se o feioso Henrique VIII da vida real é protagonizado pelo galã (e excelente ator) Jonathan Rhys Meyers, seu melhor amigo (na maior parte do tempo) é Henry Cavill (que vai ser o próximo Clark Kent / Superman), e Ana Bolena é a Natalie Dormer!

O ritmo e a qualidade caem um pouco na quarta temporada, que foca o período inevitavemente menos glamouroso na vida de Henrique, sua decadência física e mental. O problema é que não tiveram coragem de se aprofundar nesse lado feio e a coisa fica bastante artificial. A maquiagem para atestar a idade do rei é ridícula, até mesmo relaxada, e a impressão que passam é que jogam um talco, de leve, na cabeça de Meyers para fazer-se de cabelos brancos. Ainda é possível assistir, mas não com todo entusiasmo das outras temporadas.

E tem ‘Borgias’.


O qual não fazia a Menor questão de conferir, pois tinha ouvido e lido várias e péssimas referências, apesar do pessoal de enorme gabarito envolvido: só pelos nomes do grande cineasta Neil Jordan e o fantástico ator Jeremy Irons já é possível deixar a baba escorrer de tanta ansiedade. Mas as críticas negativas se avolumaram e preferi ficar quieto. No entanto, o seriado conseguiu garantir uma segunda temporada! Ora, então, alguma coisa de minimamente bom deveria ter, pensei. Vou experimentar, pensei mais ainda. Ao menos, me divertiria com a ruindade, se assim realmente o fosse.

Não, não dá para se divertir com ‘Borgias’. Com ‘Spartacus’ é possível achar engraçado o ar geral de canastrice assumida. Não em ‘Borgias’.

Eu fico imaginando que a coisa deve funcionar mais ou menos assim: os roteiristas se juntam, assistem a episódios de ‘Tudors’, pensam em como situá-los para a Itália, diminuem a complexidade dos personagens, das tramas e do enredo para -10%, repassam para um diretor que encontrará todos os meios para tornar as situações, as caracterizações as mais chatas e aborrecidas, não tirará nada de alguns (poucos) bons atores de apoio ao mesmo tempo que deixa solta e liberta a canastrice furiosa de Jeremy Irons, que nunca esteve tão caricato, tão ridículo. Aí fico sabendo (conferi agora) que Neil Jordan não só foi o criador da série, como está assinando a produção, a direção e o roteiro de quase todos os episódios da primeira temporada!

Assim, ao invés de tentar saber como Rodrigo Bórgia consegue se tornar papa e manipular seus capangas, seus inimigos, sua família e suas amantes para o seu próprio interesse, perguntas de outro viés começaram a se acumular: Como Jeremy Irons decaiu tanto? O que aconteceu com o talento de Neil Jordan? Como essa droga conseguiu ter crédito suficiente para uma segunda temporada?!

Um toque: a melhor versão já realizada até hoje sobre as ‘divertidas aventuras da família Borgia, entre incestos, assassinatos, Igreja e política’ é a série em quadrinhos escrita por Alejandro Jodorowsky e ilustrada por Milo Manara; se Essa versão fosse filmada, oh oh, aí sim! Provavelmente seria proibida, mas somente assim para fazer jus a esse tipo de material e esquecer o infortúnio de ter visto o Bórgia de Jeremy Irons.

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Obama, Uhura, e o beijo interracial galáctico

10 de abril de 2012

 

Nichelle Nichols, a Tenente Uhura da clássica série de ficção científica, Jornada nas Estrelas, sendo recebida na Casa Branca pelo único presidente negro da história de um dos países mais preconceituosos e intolerantes do mundo, ambos  fazendo a saudação vulcana, o famoso gesto-símbolo do seriado. No entanto, o que deveria ser uma cena épica, carregada de um simbolismo tremendo, quem sabe até mesmo altamente contestador, tornou-se… vazia. Em outros tempos, talvez causasse impacto; hoje em dia, porém, provoca uma sensação fria de indiferença.

Nichelle já contou dos perrengues que sofreu e dos problemas que passou na época da série, que começou em 1966 e durou três anos (com muito esforço e apesar da aflitiva mesquinharia gananciosa dos produtores, nada interessados na importância histórica ou artística de um programa que não lhes dava o retorno financeiro pretendido): a pouca importância que seu personagem tinha nos enredos, quase sempre se limitando a uma frase ou duas no episódio inteiro; as crises de estrelismo de William Shatner, o capitão Kirk, que sempre queria tomar mais e mais espaço e não se incomodava de tentar diminuir a participação dos demais atores; as longas jornadas de trabalho e a precária preparação (todos tinham que correr e fazer o máximo no menor tempo possível para diminuir os custos e escapar do fantasma do cancelamento que  sempre os assombrava e os ameaçava a cada final de temporada), além dos contínuos problemas de produção, cortes de despesas, falta de pessoal, etc.

‘Jornada nas Estrelas’ era o projeto pessoal de Gene Roddenberry que acreditava ser possível fazer discussões profundas através de um produto eminentemente de entretenimento, mesmo na televisão, mesmo na década de 60 nos Estados Unidos. Sua primeira tentativa de realizar suas pretensões deixou os produtores perplexos: no episódio de apresentação, o personagem principal, Capitão Christopher Pike, era um caucasiano corajoso, inteligente e destemido, feito pelo branquíssimo Jeffrey Hunter, e até aí, tudo bacana. O problema começava pelos personagens coadjuvantes imediatos: na ausência do capitão, quem tomava conta da nave era uma mulher! eficiente e também muito destemida; outro personagem muito importante era um ‘marciano’ com aparência de diabo, orelhas pontudas e sobrancelhas finas arqueadas; e era uma sociedade igualitária, onde os humanos eram somente parte de uma federação que englobava várias raças diferentes. Para dourar a perplexidade, as missões daquela tripulação tinham um cunho de pesquisa científica  e levavam uma mensagem de paz para o universo. Sem guerras interplanetárias, sem aliens malvados e sedentos de invasão da Terra, sem a propagação da ‘natural’ superioridade humana (branca e norte-americana) por outros mundos.

A rejeição dos produtores foi imediata, e o episódio foi arquivado imediatamente, mas alguma coisa deve ter tocado suas mentes (e seus bolsos) pois permitiram que Roddenberry tivesse mais uma chance, Desde Que tirasse aquela mulher do comando (mulheres deveriam ser bonitinhas, insossas e servir como interesse romântico do capitão), esquecesse aquele ‘marciano’ esquisito, e agilisasse a história. Roddenberry disse ‘sim’ para tudo, sacrificou a personagem feminina, e manteve quase todo o resto exatamente como pensava antes. Em alguns pontos, até radicalizou: não só manteve o alienígena de orelhas pontudas, como o promoveu a Segundo em comando; mudou o ator principal; e, principalmente, aumentou a diversidade racial e intergaláctica da tripulação, colocando como auxiliares diretos um nipônico, um russo (em plena Guerra Fria) e uma mulher negra, Nichelle Nichols, como Tenente e Chefe das comunicações da nave Enterprise.

Nichelle sempre teve muita consciência do imenso valor simbólico de sua presença em uma mídia tão importante, principalmente na época do fervor dos movimentos de direitos civis, da contracultura e dos grupos negros de contestação, o que não relaxava a pressão que sentia e a deixava exasperada. Mas a coisa realmente piorou com o episódio do mítico Beijo Interracial Intergaláctido. Que não aconteceu.

Roddenberry sabia bem que pisava em terreno ultradelicado quando cogitou a idéia de uma história onde o Capitão Kirk beijava a Tenente Uhura, uma cena que seria histórica na televisão mundial (seria o primeiro beijo interracial em transmissão nacional), portanto preparou-a com bastante cuidado: escreveu um enredo com sentido e onde o beijo não seria gratuito, avisou os atores com bastante antecedência (até mesmo perguntaram para William Shatner se ele se ‘importaria’ de fazer a tal cena, e ele respondeu ‘Vocês estão me “pedindo” para beijar a Nichelle? E ainda vão me pagar?”). Nichelle ficou eufórica: além de sua participação no episódio ser bem maior do que o normal, o simples fato de existir aquela cena era do tipo de marcar a carreira de qualquer ator ou atriz. A série e seus participantes atingiriam de imediato outro patamar de importância.

Os produtores não entenderam desse jeito. Na verdade, ficaram horrorizados. Brigaram e tentaram retirar a cena. Roddenberry bateu pé e insistiu com veemência, mas foi obrigado a amenizar o máximo que pôde: o capitão estava sendo forçado a beijar a tenente, por conta do poder mental de alienigenas despóticos! (Shatner disse que até faria uma careta para enfatizar que o capitão estava sendo ‘forçado’ a isso). Não adiantou. No final das contas, o beijo ficou somente na simulação: quando o capitão se aproxima, a câmera se afasta e se fixa em suas costas durante todo o tempo em que dura o ‘ato’ e só se aproxima de novo quando os corpos se afastam. Shatner descreveu o momento patético ou simplesmente ridículo: os produtores fizeram questão de assistir a filmagem e ficaram ao redor, bem de perto, para se certificarem que os lábios dos dois nunca se tocariam de verdade…

O desânimo de Nichelle foi imenso, naturalmente. Para um seriado que se passava em uma avançada sociedade do século 23, o racismo era ainda muito próprio do mero século 20.

O cansaço e a irritação foram minando as resistências de Nichelle que pensou em desistir e teria até mesmo pedido demissão a Roddenberry. Na mesma época, durante um evento do movimento negro no qual participava, vieram lhe chamar e disseram que um grande fã seu queria lhe conhecer. Curiosa pelo tom de voz de quem lhe falou ‘um grande fã’, ela foi até a mesa e se viu sentada ao lado de Martin Luther King!, que lhe professou uma genuína admiração. Conforme a conversa evoluiu, ela acabou se soltando e desabafou os problemas da série e de sua vontade de se demitir. Depois de ouvi-la com atenção, King respondeu:

“- Não faça isso, Nichelle, você não pode fazer isso. Você não percebe que o mundo, pela primeira vez, está começando a nos ver como iguais? Seu personagem partiu para o espaço numa missão de cinco anos. Ela é inteligente, forte, capaz e um modelo maravilhoso de papel, não apenas para o povo negro, mas para todas as pessoas. O que você está fazendo é muito, muito importante, e eu odiaria ver você simplesmente abandonar tão nobre tarefa.” (‘Jornada nas Estrelas – Memórias’, William Shatner e Crhris Kreski, ed. Nova Fronteira)

Receber um pedido de uma figura de tal porte fez Nichelle Nichols recuperar o fôlego e continuar sua jornada. Por onde se vê o quanto Martin Luther King influenciou até mesmo a cultura pop do seu país!

Quase quarenta anos depois da estréia do primeiro episódio de ‘Jornada nas Estrelas’ na televisão, ainda é complicado avaliar os tremendos avanços dos movimentos negros norte-americanos na sua luta contra o racismo e pela plena inserção da população negra na vida orgânica do país, ao lado da manutenção das imensas desigualdades ainda vigentes. O que, em última instância, foram o que garantiram a posse de um homem negro na presidência dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que ele mantém, com todo garbo, carisma e elegância, a mesmíssima política (econômica e social, militar e civil) de todos os demais branquíssimos presidentes anteriores. Se não se pode concordar com todas as linhas com um cartum publicado logo no primeiro ano da gestão de Obama que o representava como somente um Bush com pele e traços afro-americanos, não se pode igualmente deixar de reconhecer que ele nunca se elegeria se não tivesse sido bancado, financiado e apoiado por boa parte da elite branca burguesa, cuja única preocupação é a manutenção eterna de seus privilégios.

Ainda hoje, beijos, sexo e relacionamentos interraciais, embora bem mais comuns, não são plenamente aceitos e respeitados, mesmo que não produzam escândalos violentos (pelo menos, publicamente).

Por conta de tudo isso, a simpática foto de Barack Obama ao lado de Nichelle Nichols é repleta de contradições, ironias e significações. É reconhecida e divulgada a ‘nerdice’ do presidente, que adora cultura pop, cinema, traquinarias eletrônicas e quadrinhos, e já foi retratado e reverenciado na companhia de vários superheróis. Ele, o primeiro presidente negro. Ela, a primeira tenente e chefe de comunicações negra da Frota Estelar, que pôde levar uma mensagem de paz e igualdade para além de universos conhecidos, embora não tenha podido beijar seu comandante branco. Seria demais esperar, seria ingenuidade-monstro da minha parte, acreditar que tal encontro deveria significar mais e ter um significado muito maior do que uma simples pose bonitinha?

Eu não esperaria nada de bombástico ou estratosférico. Com certeza, não aconteceria o fim do preconceito racial, uma tempestade protônica galáctica, a invenção do holodeck, muito menos a mudança radical nos rumos políticos e econômicos do presidente democrata. Mas, com certeza, Nichelle Nichols merece mais, muito mais do que um simples aperto de mão ou saudação vulcana, mesmo que de um ‘irmão negro’ tão poderoso.

Quem está sobrando nessa foto é Barack Obama.

 

 

 

 

Wallander

1 de novembro de 2011

Nunca pude entender direito como os livros policiais do sueco Henning Mankell podem fazer tanto sucesso.

E olha que fazem. Traduzido em várias línguas, também publicado aqui no Brasil, onde me parece que provoca sensação igual.

Decepção pessoal inesperada, pois há alguns detalhes que me chamam atenção, favoravelmente.

Gosto, por exemplo, do fato de seus livros serem baseados na Suécia; é sempre muito interessante observarmos lados e ângulos inesperados em países que, em geral, somos acostumados a considerar muito distantes de nossa realidade e que posam como uma espécie de refúgio capitalista quase paradisíaco. O romance policial é pródigo em nos proporcionar autores que revelam uma face mais dura, mais chocante, desses recantos. Lembro de uma Marselha descrita por Jean-Claude Izzo que, tudo bem, já se apresentava como uma cidade violenta e tempestuosa, mas cujo autor conseguia descer ainda mais em suas entranhas. Outro autor clássico é Jan Willem Vand De Wetering e seus livros mostravam uma Holanda bem inusitada (uma pena, suas obras há muito estão esgotadas no Brasil e não parece haver interesse algum em retomá-las, uma injustiça).

A questão aqui não é exatamente mostrar lances geniais de originalidade. Se isso já é uma impossibilidade humana em qualquer arte, no romance policial é ainda mais. Os policiais transitam e lidam com os clichês, utilizam-nos. O que vale, no mais de tudo, é a forma como eles são tratados, montados, escritos, apresentados. Nos dois exemplos citados acima, o que conta é a forma seca e ao mesmo tempo um tanto poética como Izzo escreve, em um contraponto bem curioso com a facilidade e uma certa ‘doçura’, raiando a ingenuidade mas com narrativa primorosa de De Wetering.

Henning Mankell não apresenta nada disso. Se os clichês são aceitáveis e inevitáveis, ele no entanto os usa e abusa, sem render mais nada. Sua escrita é fraca, os personagens rasos e caricatos, os argumentos partem de um terra-chão do dia-a-dia de uma realidade sueca, e rápido perdem o desejo de simplicidade fazendo com que as histórias sejam uma colcha de retalhos entre o registro policial, espionagem internacional, beirando a fantasia e a chacota. Li dois livros de Mankell, tentei um terceiro, desisti e deixei de lado.

Quando soube que tinham criado uma série televisiva baseada nos romances de Mankell, minha primeira reação foi de ceticismo e desconfiança. Meu preconceito contra o autor já estava arraigado e não me preocupei em alivia-lo. Aos poucos, fui conhecendo detalhes que conseguiram atiçar minha curiosidade. Quem protagoniza o detetive principal é Kenneth Branagah, um ator que respeito tremendamente (isto é, ele é capaz de interpretações fantásticas e outras ridículas e canastronas; depende do seu estado de espírito na época que estiver filmando, imagino). As histórias respeitavam as locações originais, proporcionado pela co-produção inglesa e sueca, fazendo com que os episódios fossem filmados realmente na Suécia. Portanto, boa produção, bom ator, as críticas foram muito favoráveis, Kenneth Branagh chegou a ser indicado para vários prêmios, ok, a coisa até parecia bem encaminhada. Resolvi dar uma chance.

‘Wallander’ foi concebido para ser uma mini-série fechada, com três episódios independentes (baseados em três obras diferentes) e únicos. A ótima repercussão dos episódios fez com que se assumissem como série com continuidade, e realizaram uma segunda temporada, com mais três episódios. Branagah deu um tempo para se dedicar a outros projetos (o principal, a direção do filme do ‘Thor’, que pode não ter sido um fracasso, mas ficou bem longe das expectativas dos produtores e do público) e uma terceira temporada para 2012 garantida.

Uma grande vantagem de não ter lido os livros é o alívio de poder assistir os episódios sem a necessidade (compulsão) de ficar comparando o tempo todo com a obra original. Tem-se assim a ambientação, reconhece-se os personagens, com liberdade e sem (muitos) pré-julgamentos. A primeira impressão do primeiro episódio, ‘Sidetrack’, é o impacto da música solene, séria, tensa, que já predispõe para o clima de suspense e agitação que virá (de um modo como Mankell gostaria, ou pensa que faz, em seus livros). A segunda impressão é a perfeita caracterização de Kenneth Branagh como o detetive Kurt Wallander: barba mal-feita, movimentos desleixados e desanimados, visão cínica da vida, e um sotaque carregadíssimo (com um inglês ‘suecado’ digamos assim) que funciona muito bem.

A premissa da história é boa: uma jovem se mata tacando fogo em si mesma enquanto uma série de assassinatos estranhos vitima personalidades importantes da cidade; um e outro fato estão interligados, o que levará à descoberta de uma rede de pedofilia e abuso infantil. O desenvolvimento dessa história, no entanto, já é outra coisa. Tenho a impressão de que devem ter seguido fielmente o livro em que foi baseado, pois os pontos ridículos da trama (o assassino arranca escalpo das vítimas, um estilo nativo-indígena-norte-americano, sem propósito ou explicação convincente) e, principalmente, o final péssimo, tudo lembra muito o estilo dos livros que li.

O que mais me incomodou, no entanto, foi a própria caracterização de Branagh. O problema é que ele não consegue manter o mesmo ritmo e a mesma figura no filme inteiro. Aliás, falando em clichês, o detetive Kurt Wallander é recheado. Policial de meia-idade, obsessivo com a profissão, desiludido com a vida, problemas com o pai distante e adoentado, em vias de separação da mulher, com relacionamento conflituoso com a filha única (que tentara suicídio aos quinze anos), a minha única surpresa foi ele não ser alcóolatra, para completar o personagem arquetípico.

Em alguns momentos de alívio na trama, quando cabe um sorriso ou até mesmo uma risada dos personagens, Wallander acaba sorrindo. Até aí, no problem. Até os durões riem. Até Clint Eastwood ri. (Tenho certeza que já vi até mesmo Chuck Norris rir!) A questão é que o que aparece é o sorriso de Branagh. Isto é, franco, caloroso, simpático. Não é o sorriso de um policial fodido e ferrado que ri a contragosto, sem vontade. Nestes segundos, a persona de Wallander é abandonada e tudo o mais fica falso.

Com tudo isso, a minha vontade de assistir os outros dois episódios da primeira temporada era quase nula. Mas havia pontos positivos no primeiro. Arrisquei ver pelo menos mais um. A insistência valeu a pena. Há uma melhora progressiva e muito maior segurança em toda a produção, inclusive nos roteiros e até os atores. Eu não sei se foram filmados na mesma ordem de sua exibição, a impressão é essa.

‘Firewall’, começa com uma adolescente que confessa e assume o assassinato de um motorista de táxi para roubar uns trocados. A investigação, porém faz crer que suas motivações são bem mais profundas (mais até do que o fato de ter sido estuprada por este homem, anos antes!). Branagah, agora sim, mantém Wallander o tempo todo, o enredo no geral é muito melhor, os personagens não estão caricatos. Uma pena (uma grande pena!) que a finalização seja péssima, a solução da história ridícula e ainda por cima mal realizada. Ponto feio para um episódio que vinha tão bem.

Em ‘One Step Behind’, uma turma de adolescentes é assassinada quando realizam um piquenique. E um colega policial de Wallander parece estar muito mais envolvido do que aparenta à primeira vista.A partir daí, a investigação segue duas trilhas paralelas, por um lado os assassinatos; por outro, a descoberta de que aquele policial tinha uma vida completamente insuspeitada para aqueles que pensavam que o conheciam intimamente. De novo, fico pensando se as exibições seguiram a ordem de quando foram filmados. Pois aqui, está tudo tão bem equilibrado, os maneirismos estão contidos, os atores parecem estar muito mais à vontade consigo mesmos e com os demais, a história tá bem contada. Até mesmo o final ruim e previsível (ao que se indica, isso deve ser uma característica fixa do Mankell…) não compromete o resultado final, que é mais do que digno.

O amadurecimento dos personagens e da produção em geral e o aprofundamento das boas atuações aumentam na segunda temporada. O estilo do enredos, inclusive com seus péssimos finais, continuam. Não vou comentar os outros três episódios um por um, como fiz acima.  Basta dizer que, no cômputo geral, ‘Wallander’ é agradável, dá para assistir numa boa, o saldo é muito positivo. Não me fez querer ler os livros de Mankell (na verdade, só reforçou a impressão negativa que tenho dele como escritor), mas vou aguardar os próximos episódios, se não com extrema ansiedade, pelo menos com bastante curiosidade.

 

– obs1 – texto corrigido e atualizado, publicado no meu site anterior; como o dito site anterior não existe mais, de vez em quando vou fazer como fiz agora e realizar alguns resgates de textos que, na minha humilde opinião, ainda possam causar interesse em pessoas que ainda não os tenham lido;

 

– obs2 – por outro lado, há uma outra razão para que seja esse texto em particular, pois fiquei devendo uma resposta a um comentário naquele site; o comentarista havia me criticado e, sendo fã dos livros do Mankell, havia discordado das minhas opiniões sobre o autor; não lembro agora se ele citou o seriado, mas em relação às obras escritas, foi bem enfático, pondo em questão meu suposto conhecimento de romances policiais e duvidando inclusive que eu tivesse realmente lido os livros do inspetor Wallander;

– quis escrever uma resposta arrasadora na época, não pelas suas opiniões contrárias (pensamentos discordantes são ótimos para atiçar a discussão) nem mesmo por me chamar de ‘ignorante’ (não usou essa palavra, mas o sentido foi esse), ele tinha todo o direito de duvidar das minhas ‘credenciais’, digamos assim; o que me aborreceu foi o tom e as palavras utilizadas, de uma agressividade desnecessária; e contrapoducente, já que fiquei sem vontade de entrar em uma discussão estéril, ainda mais desanimador por ser com uma pessoa que compartilhava de gostos literários comigo, uma pena.

vejo hoje que foi bom não respondido na lata, pois não sei se eu teria sido bem educado.

Pois bem, posso ser educado hoje e responder algumas coisas: em primeiro lugar, meu caro comentarista, eu já li livros policiais (romances, contos, ensaios, livros teóricos) pra caralho! É o meu gênero literário preferido (junto com ficção científica) e não posso passar muito tempo enfiado com os meus outros interesses (literatura clássica, histórica, literatura latino-americana, russa, francesa e um tanto da brasileira, atuais, contemporâneos ou antigos) sem que precise dar um tempo nestes e ler algum bom policial que, como toda boa literatura, de qualquer gênero, sempre ultrapassa os limites desse mesmo gênero. Parafraseando desavergonhadamente Oscar Wilde, não existem bons ou maus livros policiais, o que existe são livros bem ou mal escritos. Para mim (sempre na minha humildíssima opinião) Henning Mankell é um péssimo escritor policial (e longe de ser literatura ‘bem escrita’) que calhou de servir de base para um bom seriado de televisão.

Quanto às obras do Mankell, fui conferir nos meus arquivos quantos foram de verdade, para não falar besteira, encontrei a resenha do primeiro livro dele que eu li, ‘Os cães de Riga’ (que fiz questão de re-publicar no post anterior); além deste, também li ‘O homem que sorria’ e ‘A leoa branca’ (‘os cães de riga’ segue sendo o pior de todos, o que não ajuda em nada na qualidade dos outros). Realmente, são fracos demais. MESMO ASSIM, ainda tentei ler ‘Assassinos sem rosto’  e, mais recentemente, ‘O guerreiro solitário’, este com uma expectativa em especial, já que foi a base para um dos episódios que mais gostei no seriado. E não consegui.

Creio que isso dá uma boa base para definir minha opinião (e o meu desgosto) por Mankell. Ainda não consigo entender sua popularidade, mas cada um é cada um. E ficarei por aqui, porque não lerei outros livros desse autor.

Person of No Interest

18 de outubro de 2011

Já tinham me dado o toque de que ‘Person of Interest’ não correspondeu à boa expectativa inicial. E comprovei, infelizmente, que é verdade. A irregularidade dos roteiros aumentou de forma abrupta, os casos ainda bem conduzidos, mas suas conclusões são péssimas. E, mesmo assim, eu ainda aguentaria. No entanto, a introdução (desde já!) de um misterioso supergênio do mal que vai resvalar de modo constante nas atividades da dupla principal me brochou. Que balde de água fria.

É definitivo: este ano de 2011 proporcionou uma das piores aberturas de temporada de seriados que tenho recordação. Impressionante.

 

 

Novas séries policiais: o insosso ‘Unforgettable’, o ótimo ‘Person of Interest’, o desastre ‘Prime Suspect’

17 de outubro de 2011

Desconcertando as novas séries da temporada norte-americana.

Unforgettable
Ex-policial utiliza sua rara condição de supermemorização para solucionar crimes.

Série típica de ‘caso da semana’, com o personagem principal com uma habilidade (ou personalidade) incomum e que também carrega algum segredo (ou trauma) em sua vida. Estes dois níveis (a capacidade e o seu histórico) se contrabalançam (ou, às vezes, se chocam) para poder responder os percalços do seu trabalho ou o relacionamento com seus colegas. ‘Unforgettable’ segue esse script linha a linha, portanto, por esse lado não há (e nem promete) nenhuma surpresa maior.

Carrie Wells (Poppy Montgomery) foi uma excelente detetive policial, a melhor do seu departamento, por possuir uma condição extremamente rara, na verdade uma doença, de não conseguir esquecer absolutamente nada de sua vida. Cada mínimo detalhe do que acontece ao seu redor fica gravado na sua mente para sempre. Com isso, ela pode fazer relações e encontrar equivalências a partir de minúcias mínimas, impossíveis de serem percebidas para qualquer outra pessoa. Por outro lado, sua mente bloqueou (sua absoluta contradição) os fatos relativos à morte de sua irmã, quando crianças. A obsessão por descobrir ou se lembrar quem é esse assassino custou sua carreira e sua relação amorosa. Anos depois, agora em Nova Iorque, sobrevive de biscates e de jogo de cartas, até que reencontra seu antigo namorado, Detective Al Burns (Dylan Walsh), que foi transferido para a mesma cidade. Voltar a trabalhar com a polícia, como assessora, pode significar retomar o rumo de sua vida novamente.

Devo dizer, antes de mais nada, que gosto (e muito) de séries-caso-da-semana (o pessoal que acompanha seriados têm um nome específico para isso, que me escapa no momento). Gosto de uma estrutura que seja mais ou menos fixa, e que mude somente o desafio proposto para os personagens, se utilizando dos mesmos esquemas já preestabelecidos. Atualmente, não há mais espaço para isso; o que se exige é que haja um maior aprofundamento (e desenvolvimento) psico – histórico – sócio – ecônomico dos personagens e que isso afete as histórias de tal modo que nada fique como foi no começo. Não tenho nada contra essa linha, por certo!, é somente uma espécie de saudosismo de alguma coisa um tanto mais simples.

Esse lance dos dois níveis, como me referi acima, é um modo dos produtores garantirem aos espectadores que os dois esquemas serão mantidos: o ‘caso da semana’ mudará constantemente e, como subsídio para quando o esquema ficar repetitivo ou quadrado, sempre a possibilidade de fortes reviravoltas com a revelação súbita de novos segredos íntimos. Em ‘Monk’ havia a genialidade e o excentrismo do detetive e sua busca pelo assassino de sua mulher. Em ‘House’ a genialidade do doutor e sua rabujice, e os problemas com sua perna. Em ‘Unforgettable’, a supermemória da ex-detetive e a busca pelo assassino da irmã.

Sendo assim, pode-se dizer que ‘Unforgettable’ cumpre suas expectativas mínimas. No episódio piloto, Carrie está em uma espiral sem sentido em sua vida, até que um assassinato é cometido no seu prédio e ela acaba se envolvendo com a força policial comandada pelo seu ex-amante, o qual vê a possibilidade de trazê-la de volta à ativa e, quem sabe, a retomada do relacionamento (com a complicação de que agora ele está com nova namorada).

Boa apresentação dos personagens, bom desenvolvimento de suas aspirações primárias, flashbacks necessários inseridos nos momentos certos, direção simples, sem muitas frescuras (embora exagerem um pouco nos instantes em que Carrie se concentra em sua memória, com trucagens bonitinhas mas desnecessárias dela olhando para si mesmo enquanto se recorda). Os atores estão medianos, sem arroubos nem exageros.

A questão é Poppy Montgomery que está encarando uma atuação principal, depois do bom desempenho que teve como coadjuvante em ‘Desaparecidos’ (Without a Trace). Ela continua simpática, bonita e com ótima presença, mas suas limitações como atriz também ficam mais à mostra.

Assim como o seriado. ‘Unforgettable’ é simpático, dá para assistir numa boa, dá para acompanhar os episódios, sem grande entusiasmo, e sem grandes frustrações.

Person of Interest
Um ex-agente da CIA se alia a um gênio (e milionário) da computação para ajudar a prevenir crimes considerados ‘irrelevantes’ para o governo.

Opa, finalmente uma série que consegue envolver o espectador, com boa dose de ação, um pouco de drama, outro tanto de crítica política, equilibrados com boa produção e roteiros bem amarrados. Nenhuma maravilha da natureza, nada que te faça sofrer desesperado para assistir o novo episódio da semana, mas em vista do que se tem apresentado nesta temporada, até que foi bem.

A premissa do argumento é apresentada com bastante coerência, do tipo que sabemos, com certeza, ser absurdo e inexistente, mas que nos deixa sempre com uma pulga na orelha, pela sua possibilidade latente. Parte-se (mais uma vez!) da paranóia provocada pelos ataques ás Torres Gêmeas e do esforço do governo norte-americano de evitar novos atentados. Nesse sentido, construiu-se um gigantesco computador que reune todas as informações possíveis e imagináveis da metrópole Nova Iorque colhidas através de todos os milhares de pontos espalhados pela cidade: câmeras, gravações, telefonemas e tudo o mais. O responsável pelo projeto, Harold Finch (Michael Emerson), cria os programas que refinam as informações, cruzam os dados e permitem prever, com alta probabilidade de acerto matemático, as situações e as pessoas envolvidas com possíveis novos atentados.

A máquina, no entanto, vai um pouco além, pois não diferencia esses ‘grandes problemas’ dos crimes comuns ocorridos no dia a dia. Para o governo, porém, isso não é interessante, importam somente as grandes conspirações; menos que isso, é tudo considerado como ‘irrelevante’ e descartado. Finch revolta-se com essa atitude, é afastado e considerado morto (de uma forma que saberemos somente mais para adiante). Antes disso, ele tinha podido colocar uma chave de acesso restrito à lista de irrelevantes: para não chamar a atenção do computador e do governo, ele recebe somente a identificação da pessoa que estará envolvida em um crime, sem nem saber se ela será a vítima ou o próprio criminoso. Para ajudar as vítimas e evitar que o crime seja cometido, Finch conta com a ajuda de um ex-agente da CIA, John Reese (Jim Caviezel) atormentado e descrente da vida, a ponto de virar um mendigo e ser também considerado morto. A associação com Finch e a chance de ajudar realmente as pessoas lhe proporciona novo fôlego e um sentido para sua existência.

O roteiro consegue alinhavar os eventos de forma agradável e bem contada, com bons momentos de ação coreografados de modo que até relevamos os eventuais e inevitáveis absurdos (John Reese domina um grupo de mafiosos, explode um carro na exata medida para que capote e não exploda nenhum dos passageiros, prevê todos os movimentos dos adversários… se houvesse mais uns dez John Reese no exército norte-americano, os Estados Unidos já teriam eliminado o tal terrorismo mundial).

A produção e a direção equilibradas mantém o clima de tensão e de correria com bom suspense (os zooms e cliques vistos do ponto de vista das câmeras de segurança espalhadas pela cidade e que sabemos que estão sendo recolhidos e analisados pelo supercomputador aumenta o clima de desconforto com o o big brother onipresente) e também faz com que nos importemos com suas vidas pessoais e queiramos saber mais sobre como e por que acabaram sendo considerados mortos e quais os motivos de terem caido na clandestinidade.

O elo mais fraco nesse contexto fica sendo o da policial Carter (vivida pela carismática Taraji P. Henson) que, por um acaso cruza com o mendigo Reese logo antes dele se associar com Finch e percebe que ele está por trás de uma série de eventos violentos. Sua perseguição ao misterioso justiceiro e sua incompetência de chegar perto dele adquire uns tons de galhofa incômodos.

Os atores estão bem. Michael Emerson está excelente como o genial Finch, de saúde frágil, mas poderoso em sua inteligência e que também carrega seus próprios fantasmas pessoais. John Caviezel traz a mesmíssima cara de coitado que ele pensa ser de angústia mostrada desde o seu ‘Jesus Cristo’. Para alguns críticos isso incomodou muito. Para mim, não atrapalhou em nada: para um ex-agente-da-CIA-durão-com-cara-de-coitado, o que realmente em sã consciência se poderia esperar? Taraji é a mais prejudicada com um personagem inconsistente que não ajuda em nada sua interpretação. Ela até tenta dar um ar sério de policial durona e compenetrada, mas, por exemplo, ela usa uma arma na cintura que tem quase metade do seu tamanho: é impossível não pensar que, em caso de necessidade, a dificuldade em tirar a arma do coltre inviabiliza qualquer participação em um tiroteio.

Os três primeiros episódios (os que assisti) mantém o mesmo padrão. Espero que aumentem o tom daqui pra frente, com melhores histórias e melhor aproveitamento dos casos. Por enquanto, a boa qualidade (não excepcional, mas bem aceitável) faz ter vontade de continuar assistindo.

Prime Suspect
Policial enfrenta o dia a dia pesado das ruas de Nova Iorque, a perseguição a um serial killer, os profundos problemas pessoais e o machismo dos seus colegas.

Não sou contra adaptações ou atualizações de filmes ou séries que deram certo em outros lugares. O problema não é a adaptação em si. É a falta de coragem. De ousadia. No mais das vezes, não se pretende alcançar (quem diria ultrapassar) as qualidades do orignal; a única ambição se limita a querer beber do sucesso alheio. ‘Prime Suspect’ é uma série clássica inglesa que amealhou dezenas de prêmios, provocou intensa discussão sobre a força das mulheres na sociedade, e consolidou a carreira de Helen Mirren. Os argumentos são banais (em geral, serial killers), mas a direção sóbria (tipicamente britânica) valoriza os roteiros excepcionais, as atuações espetaculares. Não à tôa, é um autêntico marco. Querer reproduzir isso implica em aceitar o tamanho da responsabilidade.

Faz tempo que se pretende fazer um remake norte-americano. Maria Bello brigou muito para conseguir esse papel. O clima era de grande ansiedade pelo resultado. Eu não pretendia assistir o piloto. Gosto demais do original e sabia que a maior probabilidade era de frustração. A curiosidade, maldita!, foi bem maior do que minha razão (e o marketing foi bem feito, o trailer foi instigante). Portanto, a minha opinião não é isenta de um preconceito assumido e de um ceticismo incrustado.

O início do primeiro episódio é bom, o que me aliviou deveras. A apresentação faz uma ótima transposição da personagem inglesa da década de 90 passada para uma norte-americana dos dias atuais (perfeita a cena em que Maria Bello, a detetive Jane Timoney, obriga o motorista de táxi a desligar o celular enquanto dirigia), a ambientação de compadrio masculino no departamento onde trabalha, a indignação quando tomam um caso importante que deveria ser dela, a indignação maior ainda quando percebe que estão investigando errado. Até que o detetive responsável pelo caso, ‘líder’ informal do clube machista tem um ataque do coração e morre. Jane assume então, enfrentando a desconfiança ou direta hostilidade dos colegas, persegue um serial killer que ninguém, além dela, acredita existir, tem que tomar conta do pai doente e administrar um divórcio.

E, de repente, ligam o automático. A direção é corrida, as resoluções do roteiro são apressadas e mal resolvidas, os clichês se avolumam, e me irritaram até o mais profundo. O que poderia ser excepcional (ou, pelo menos, interessante) (ou, no mínimo, passável) se perde e vira uma trama rasteira, de ‘caso da semana e vamos partir para outra pois esse episódio já acabou’. E Maria Bello… Qualquer atriz teria um trabalho ingrato para apagar a referência original ou diminuir a comparação (simplesmente inevitável) com Helen Mirren. Maria Bello tomou o papel com muita força e com todas as garras e é bem evidente todo o seu esforço para imprimir autenticidade ao seu personagem. É justamente esse esforço o que mais lhe prejudica, pois o único que consegue é tornar sua Jane patética e irritante, sem estofo.

Como disse, assumo o preconceito. Não deveriam realizar esse remake. Realizaram, então deveria ser espetacular. Não é. Posso dizer que o chapéu que ela usa é bacana. O resto é somente uma espetacular perda de tempo.

 

 

 

Dr. House, Jack Bauer, e as novas séries norte-americanas: “A Gifted Man” e “Homeland”

14 de outubro de 2011

Comentários impertinentes sobre o que está rolando na nova leva de seriados norte-americanos.

A Gifted Man     Médico frio e arrogante, um cirurgião de alta classe que só trata de pacientes ricos, começa a receber ‘visitas’ do fantasma de sua ex-esposa, que lhe pede para concluir alguns trabalhos que ela nâo pôde resolver antes de morrer.

Dr. House é um marco na história da televisão. Os roteiros são fracos, os personagens caricatos, as situações exdrúxulas, as histórias são quadradas e esquemáticas. A explicação para tamanho sucesso e repercussão é a atuação extraordinária de Hugh Laurie que consegue conferir uma dimensão insuspeita e uma imensa humanidade a um personagem que, com qualquer outro ator, seria simplesmente insuportável. Méritos para o ator e para a produção que soube valorizar seu maior trunfo e cercá-lo com um mínimo de qualidade (como, pelo menos, uma companhia de atores coadjuvantes de bom nível), mesmo que tenha perdido bastante fôlego nas útlimas temporadas (e, felizmente, está acabando nesta oitava temporada, antes que descambe de vez).

Por outro lado, Hugh Laurie é o responsável (mesmo que indireto) por uma praga que grassa pelos seriados: a busca por um novo House, o gênio ranzinza, cínico e antissocial (quando não solitário) que passa por cima das leis mesquinhas de uma sociedade burocrata, quebra regras moralistas simplórias (para ele) para poder resolver seus casos, mas que no fundo, no fundo, tem um imenso coração (retraído e / ou magoado e / ou temeroso de se abrir). Claro que não foi Laurie a inventar o tipo; na verdade, boa parte da cultura norte-americana foi criada em cima de um mítico self made man que ultrapassa as barreiras das pessoas de alma pequena que o rodeiam, muitas vezes para ajudar estas mesmas pessoas que, a príncipio, o desprezaram.

Mas Laurie despejou tanta força e carisma no seu personagem que estabeleceu uma espécie de patamar, um nível de qualidade (e sucesso) invejado e perseguido. O que deu vazão a uma corrida engraçada por este patamar. Algumas (pouquíssimas) vezes chega-se perto. A Dra. Temperance Brennan (Emily Deschanel), a antropóloga forense que auxilia o FBI do seriado ‘Bones’, o especialista em comportamento Dr. Cal Lightman (o magnífico ator Tim Roth), de ‘Lie to Me’ (infelizmente cancelada na terceira temporada), ou o gênio matemático Charlie Eppes (David Krumholtz), de ‘Numb3rs’, são exemplos de variações bem sucedidas do gênero House-de-ser. Em geral, no entanto, os resultados são patéticos, ou até mesmo ridículos.

O médico Michael Holt, vivido por Patrick Wilson, de ‘A Gifted Man’, é uma cópia xerográfica de House. Cético, arrogante, rico, autocentrado aos limites do egoísmo, isolado (seu único ‘amigo’ é um alcoolátra viciado autodestrutivo), Holt teve os únicos momentos de alegria verdadeira e ‘humanidade’ quando esteve casado com Anna (Jennifer Ehle), também médica, mas preocupada com as mazelas dos desprotegidos e engajada nos trabalhos sociais de assistência para a população mais pobre, serviço que ele abertamente despreza.

Divorciados, passam anos sem se ver, até que certo dia, ‘por acaso’, encontram-se, batem papo durante a noite inteira e, quando ele cogita uma tentativa de reaproximação, ela se despede e vai embora. Ok. O grande choque, que tira o mundo debaixo dos pés do Dr. Holt, é quando de manhã, descobre que, na verdade, Anna havia morrido em um atropelamento na semana anterior. Entre se convencer de que não não estava ficando louco e consultar uma espécie de xamã para mandar embora aquele ‘encosto’, ele fica sabendo que Anna está com trabalhos inconclusos, tarefas que precisam ser terminadas para que ela encontre paz e por isso lhe pede ajuda. É mais do que evidente, portanto, que, sob a orientação de Anna, seu envolvimento com essa gente ‘pobre’ e ‘feia’ e, principalmente, sem dinheiro, fará com que o Dr. Holt repense suas opiniões, sua vida e seu universo.

‘A Gifted Man’ é, então, uma mistura de ‘House’ (pelo personagem principal e pelos casos raros que acontecerão em sua clínica chique), ‘Plantão Médico’ (o dia a dia da clínica dos ‘pobres’) e ‘Ghost’ (em que ela é o ghost), com pitadas de Paulo Coelho, com suas máximas pseudofilosóficas e positivistas, e dependendo do que eles enfocarem, entrará igualmente um ‘Nosso Lar’. Resta saber se a mistura resultou tragável ou se gorou no meio de tanta pretensão.

O piloto é bem realizado. A produção é mediana e a direção de arte é feliz em mostrar de forma eficiente as diferenças de tom e clima entre a clínica asséptica e impessoal do prédio de Holt em contraste com o caos e a sujeira da ‘clínica dos pobres’. O roteiro é equilibrado, mostra os personagens aos poucos e com boa construção; mesmo para um piloto comprido, com a duração de um longa metragem comum, os personagens inevitavelmente estão à espera de um melhor desenvolvimento (o que deve acontecer nos episódios posteriores, se forem bem sucedidos), mas mesmo rasos percebe-se que possuem profundidade, há algo pelo qual se pode esperar novidades. Os bons atores ajudam nisso e a direção simples e discreta de Jonathan Demme valoriza a trama, com emoção mas sem exageros melodramáticos.

O problema continua sendo a procura-por-House. Patrick Wilson faz uma interpretação correta, em boa medida para um médico cético (provavelmente, ateu) que precisa se conformar de que a) fantasmas existem e b) precisará descer do seu pedestal de ouro para por a mão na massa e na sujeira da miséria humana. No entanto, para os propósitos desta série, uma boa interpretação, correta simplesmente, não é o suficiente. Deveria ser espetacular, marcante, impossível de ser esquecida. Ou simpática ou empolgante. E não é nada disso. Dr. Holt é mais um House genérico, e Patrick Wilson é correto, nada mais. Bem longe de Hugh Laurie.

Com isso, a sensação ao final do piloto de ‘A Gifted Man’ é de mediocridade, de meio-tom, de falta de coragem ou de vontade de maiores arroubos. Bacaninha, simplesinho, levemente emocionante e com nada que realmente convença a querer continuar assistindo. Vá em frente os interessados. Eu passo.

Homeland

Um fuzileiro naval, dado como morto, é resgatado de uma prisão iraquiana depois de oito anos de cativeiro. Uma agente da CIA , no entanto, suspeita de que ele é um terrorista convertido que planeja um novo e grandioso atentado.

O ataque às torres gêmeas impôs um pesado tributo, não somente militar e politico. Repercutiu em toda sociedade, influenciou todas as mídias, fez parte de todas as artes, assim como no cinema e na televisão. Só bem recentemente começou a diminuir a ideologia da doutrina Bush de exaltação (e ira) patriótica, demonização dos muçulmanos, de perseguição racista, de caça aos terroristas pela sua cor de pele, filiação política ou crença religiosa, além do cerceamento de liberdades civis em nome da segurança nacional. Há poucos anos, seria impensável um filme como ‘Zona Verde’ (Green Zone, 2010) que diretamente diz que a existência de armas de destruição em massa no Iraque foi uma grande mentira, ou ‘No Vale das Sombras’ (In the Valley of Elah, 2007) que contesta a suposta aura heróica que se empresta aos soldados norte-americanos (e este filme, mesmo com a presença de astros como Charlize Theron e Tommy Lee Jones, teve muita dificuldade para ser colocado em circuito).

Em todos os seriados, houve a influência e o peso da ideologia, sem dúvida. Em algum episódio, pelo menos, jogava-se a referência, discutia-se o choque, ou perseguia-se um novo terrorista, desbaratava-se mais um plano de atentado, ou reconhecia-se mais um perigo nacional. Em maior ou menor nível, todos foram ‘combatentes’, mesmo que nem todos tenham sido tão exaltados como Jack Bauer. A julgar-se por Hollywood, milhares de atentados em território locais foram abortados por abnegados e destemidos anônimos heróis norte-americanos. Em ‘Blue Bloods’, uma família de veteranos policiais em Nova York, logo após desbaratar mais uma célula terrorista entranhada no centro da cidade, discute como os habitantes novaiorquinos são felizes em não saber a quantidade e o tamanho dos perigos que correm todos os dias.

‘Homeland’ dá um passo além e, sem vergonha, alegremente assume a paranóia direitista reacionária. O sargento da marinha Nicholas Brody (Damian Lewis) e seu parceiro são dados como mortos durante uma operação no Iraque. Depois de oito anos de sua suposta morte, ele é encontrado em condições miseráveis como um prisioneiro, resgatado e levado para casa, tratado como herói (e os militares bem sabem como precisam de exemplos heróicos nestes tempos de refluxo do entusiasmo pelas suas guerras). No entanto, uma agente da CIA, Carrie Mathison (Claire Danes, em extraordinária perfomance), tem indícios que a levam pensar que o sargento, depois de anos de tortura física e psicológica, acabou sendo convertido sob o comando de um líder terrorista máximo e planeja se valer de sua posição agora privilegiada de novo herói para perpetrar um grandioso atentado.

Os indícios de Carrie, porém, são muito leves e não lhe dão base para uma investigação séria sobre o sargento. Além do mais, ela não é bem quista pelo seu chefe carreirista e de mente limitada, com quem bateu de frente tempos antes, e foi transferida do seu trabalho de campo no Afeganistão para um serviço burocrático. E, para completar, ela ainda esconde de todos um histórico médico de problemas mentais. Sem poder contar com apoio oficial, ela assume a vigilãncia por conta própria e faz instalar câmeras e microfones ocultos na casa do Sargento, grampeia seu telefone, filma e grava seus movimentos, mantém-no em vigilância plena (mesmo que limitada pelos parcos recursos), durante as vinte e quatro horas.

A direção tensa e de sufocamento psicológico dá o tom. Nada é agradável nessa história. A fisionomia impassível do Sargento Brody pode esconder um traidor filho da puta ou simplesmente um soldado que foi barbaramente torturado. Sua família está decomposta: seu filho mais novo nem se lembra mais dele; a filha adolescente é (obviamente) uma rebelde desbocada e impaciente, e sua mulher Jessica (Morena Baccarin) (que acreditava ser viúva há muito tempo) transa com um colega militar do marido. Desde o início do episódio somos simpáticos à agente Carrie e sua luta (infrutífera) para salvar a vida de um informante. Mas à medida que acompanhamos sua crescente paranóia e sua perseguição dos detalhes íntimos da vida do sargento, vamos nos incomodando com sua insistência. Para Carrie, vale passar por tudo e por todos para provar sua tese e deter sua própria decadência pessoal.

O roteiro não é nada sutil ao sugerir que ela está correta. Não estou dando nenhum spoiler aqui, pois o episódio é recheado de flashbacks do sargento, de suas memórias no cativeiro, que contradizem sua fala pública. A trama é muito bem montada e articulada: as cenas com o sargento são demoradas e lentas; as com Carrie são nervosas, rápidas e recortadas, refletindo exatamente o estado de ânimo e a personalidade dos personagens.Os atores estão bem (inclusive Morena Baccarin que continua linda e graciosa, como a esposa incapaz de lidar com sua filha, faz sexo casual com o amante, e tem seu mundo revirado de cabeça para baixo ao descobrir que, afinal, não é viúva).

O show, no entanto, é de Claire Danes. Ela consegue passar toda a angústia de uma pessoa que tenta reconstruir sua posição e sua carreira, além de sua própria sanidade, suas dificuldades de relacionamento, sua incapacidade de lidar com o mínimo de atividade comum (como escolher uma roupa para sair). Ela não é simpática, está à beira do desespero, é doente (só não sabemos o quanto) e ficamos em dúvida sobre a validade de suas opiniões. O que o episódio quer nos convencer é que, apesar disso tudo, apesar de sua ambígua heroicidade, e de suas possíveis psicoses, precisamos ficar do lado dela, mesmo que seu personagem nos afaste e não nos reconheçamos nele. O texto bem escrito, a direção segura, e principalmente a ótima interpretação de Claire nos convence.

É nesse ponto que ‘Homeland’ passa pelo ponto que outras séries não cometeram. Porque quando a agente Carrie monta seus grampos ilegais e persegue a vida do sargento podemos ficar incomodados com sua aparente desmedida, mas no final tudo é justificável perante a revelação de um possível terrorista. Vale o que for necessário, inclusive violar os direitos de qualquer pessoa. A invasão de privacidade não é nada perante a segurança nacional. Neste sentido, é magistral a cena em que a agente Carrie ouve a cena de sexo entre Brody e sua esposa na primeira noite de sua volta à casa: por mais que incomode a ela (e a nós) escutar aquele momento tão íntimo (e naquela cena, tão doloroso) não há no rosto de Claire nenhuma dúvida que ela continuará ouvindo até o final. Custe o que custar, seja para quem for.

Poderia se dizer que Jack Bauer fazia isso e muito (muito!) mais, como torturar, matar e ficar viciado em cocaína, tudo também em nome da segurança, e sem nenhum remorso. Certo, é verdade, mas além de nada obstar que a agente siga o mesmo caminho, há duas diferenças fundamentais: em primeiro lugar, Bauer é um personagem caricato, um estereótipo, um superherói de videogame com 195 vidas para gastar, que sempre está correto em suas suposições, não dando margem para a dúvida. Mesmo quando está errado, bom, ele faz por estar certo. Ou mata quem disser o contrário. Carrie Mathison é o extremo oposto. Ser humano falível e paranóica, inteligente mas com a vida no buraco, psicótica quase insana, não é nada confiável ou segura. Mesmo que a estranhemos e rejeitemos, sabemos que ela é mais real, mais ‘possível’. No final das contas, podemos nos reconhecer nela, como seres humanos. Se ela estiver errada, e ferrar com a vida de um inocente, vai ficar na merda, sem volta.

A segunda e enorme diferença é o momento: ‘24 hs’ começou em 2001, exatamente no ano do atentado em Nova Iorque, fazendo com que os produtores pensassem se não seria melhor cancelar a série. Não o fizeram e o fato é que Jack Bauer acabou se valendo do clima de beligerância histérica (além de todas suas qualidades técnicas e artísticas incontestáveis) e se consolidou como um herói que mais atendia às necessidades psicológicas do norte-americano naquele exato momento. Em 2011, ‘Homeland’ se localiza no refluxo do apoio incondicional à lógica militarista. A crise econômica faz duvidar da validade de quaisquer antigas promessas políticas; os mesmos velhos esquemas de direcionamento ideológico não estão sendo facilmente engolidos, e o governo Obama conseguiu ser ainda mais decepcionante do que qualquer um poderia esperar, à direita e à esquerda. Neste clima de descrédito e cansaço, o que ‘Homeland’ diz na prática é que não importam os direitos, náo importam os ‘detalhes’ de uma sociedade supostamente democrática e livre (como podem comprovar os manifestantes da ocupação de Wall Street). Contra os terroristas, quaisquer terroristas (afegãos, iraquianos, iranianos, palestinos, o coreano da esquina, ou aqueles manifestantes da ocupação de Wall Street) vale passar por cima de qualquer coisa e qualquer um.

Eu estou de saco cheio dessa mensagem. ‘Homeland’ é uma bela peça, bem montada e azeitada, de pura propaganda reacionária, no formato de um ótimo suspense psicológico. Gostei da peça, ela é realmente bem feita. Mas cansei da mensagem. Eu passo.

As novas Panteras, os novos seriados, os velhos resultados: ‘Charlie´s Angels’, ‘American Horror Story’

11 de outubro de 2011

Comentários impertinentes sobre o que rola na nova safra de seriados norte-americanos.

Parece haver um sentimento generalizado de desconsolo e desconcerto diante das poucas opções de real qualidade que a televisão está oferecendo. Não sou catastrófico, não digo que Tudo está ruim e sem esperanças, mas para um viciado em séries como eu é necessário reconhecer que o número de programas que faço questão de seguir está diminuindo a cada ano. Isso é deveras preocupante, já que o vício precisa ser renovado com novas doses periódicas e a perspectiva de boas substituições não está sendo suprida.

Por isso, mais do que nunca, a internet está sendo valiosa para se manter a par do que acontece, tanto através dos sites especialistas de comentaristas quanto dos torrents, que permitem verificar as estréias quase-quase no dia de sua exibição original.

Opiniões não faltam pelo ciberespaço; aqui vão as minhas. Em alguns casos, assisti (e comento sobre) o piloto e parei por ai; em outros, preferi ver o segundo episódio antes de falar alguma coisa, para ter certeza se as potencialidades mostradas antes se concretizaram ou não.

AS PANTERAS (Charlie´s Angels) – Três deslumbrantes detetives particulares (que já tiveram problemas com a lei anteriormente) recebem uma segunda chance para usarem suas habilidades para solucionar os casos e trabalham sob as ordens de Charlie, um milionário bon-vivant altruista, que nunca se deixa ver e se comunica somente pelo rádio.

Nunca fui muito fã da série original. O meu machismo juvenil não me deixava à vontade para observar três lindas mulheres baterem e se darem bem por sobre os homens (vilões ou mocinhos) e mesmo a relação infantilizada que mantinham com seu chefe Charlie não aliviava a situação. Mais tarde, ao assistir as reprises com (um pouco) menos de preconceito, pude reconhecer que havia sim méritos nos episódios, mesmo nos roteiros mais rasos, mas o problema agora era o clima demasiado anos 70, que não conseguiu superar seu tempo. Isto é, estava (está) datado e diria que até pronto para uma nova roupagem há bastante tempo. O sucesso dos filmes produzidos pela Drew Barrymore mostrou que havia possibilidade para essa retomada e tudo ficou ainda mais provado quando uma outra série antiga também foi rebobinada e teve ótima aceitação, o Hawai 5-0. Diante disso, não foi surpresa nenhuma quando anunciaram o remake (mesmo porque já tinham circulado antes outros remakes não-oficiais, com péssimos resultados, estava na hora do remake de verdade).

Pois bem, fizeram. Imagino que deva ser amplamente reconhecido que o grande mérito da série original, seu maior trunfo, era a beleza e o tremendo charme do trio principal (e isso não ficou, de forma alguma, datado; é o que torna possível assisti-lo ainda hoje), além de sua enorme química como grupo. Essa química foi mantida nos filmes e é essa absurda simpatia exalada pela Drew Barrymore, a Lucy Liu e a Cameron Diaz, e sua interpretação livre, leve e divertida que faz com que relevemos todos os demais problemas de roteiro, produção, direção, etc. Portanto, esta é a questão primordial que precisa ser muito bem respondida. Os demais elementos podem ser melhor desenvolvidos à parte, mas de nada adianta se a química nã acontecer.

Pois bem, no episódio piloto essa química não acontece. Muito por conta de uma decisão equivocada da escolha do plot inicial. Para uma série que se pretende de ação e aventura, com histórias descomprometidas e diversão leve, começaram por uma dramatização exagerada: logo após uma operação bem sucedida, umas das panteras é assassinada, o que dá espaço para que uma novata se apresente para o público e mostre a agência de detetives liderada pelo misterioso Charlie. Nós ainda não criamos empatia pelos personagens (na verdade, sequer os conhecemos) e já se exige que sintamos pena delas e aceitemos seu desejo de vingança e a incompatibilidade inicial com a nova pantera. Louvável pretensão que se perdeu na fraquíssima realização. Durante o episódio todo não conseguiram equilibrar o tema melodramático com a aventura de ação.     

No entanto, não me senti totalmente lesado, o episódio proporcionou uma pequena diversão. Havia possibilidades e quem sabe a continuação poderia consolidar uma historinha melhor contada e pudesse, de fato, expor a relação entre os personagens.

POIS BEM,

o segundo episódio é sim melhor. Ou, pelo menos, é uma bomba menor. A história perde seu caráter exageradamente sizudo do piloto e permite-se divertir-se mais, o que deveria ser a regra desde o começo. Os cortes e a edição acompanhados ao fundo de leve pela música tema clássica remetem diretamente à série original (e não aos filmes), o que é um ponto positivo (e no piloto já haviam feito uma bonita homenagem ao velho Bosley, o assistente de confiança de Charlie) (e que nesta versão se tornou um rapaz latino e ágil, de quase nenhuma expressão, mas com boa presença). A história fraca e os furos de roteiro já eram mais do que esperados e, na prática, tornam-se um ítem a mais de diversão.

As atrizes parecem estar mais à vontade, o grupo está mais coeso, o que é um tremendo alívio. Rachael Taylor, a loira, Annie Ilonzeh, a afro norte-americana, e Minka Kelly, a morena latina, marcam sua posição, sem nenhum show de interpretação (isso sim seria inesperado!), são muito bonitas, possuem cada uma sua simpatia particular, e estão se esforçando para demonstrar que tem a química indispensável entre si. Esse esforço é que fica demasiado evidente. Elas riem muito, fazem caras de preocupação quando alguma está em perigo, se esforçam para darem respostas coletivas, mas ainda está muito difícil acreditar que elas são mesmo as melhores amigas desde sempre. Simplesmente não soa natural. Resolver esse entrosamento será a grande incógnita e a única garantia de que consigam ter continuidade.

Duvido de que consigam. O mais provável é que sigam nessa linha morna, sem experimentações ou idéias realmente novas, apostando que o público se identifique com personagens desgarradas de qualquer realidade e que não oferecem, de verdade, um retorno de diversão de qualidade. Assistirei mais alguns episódios para ver qual tendência predominará. Ou minha paciência termine. O que vier antes.

AMERICAN HORROR STORY Família disfuncional, o casal em plena crise conjugal e a filha adolescente problemática com tendências suicidas, muda-se para uma nova cidade para tentar restabelecer seus vínculos estremecidos, e passa a morar em um antigo casarão repleto de mistérios, horrores e crimes escondidos.

A bem da verdade, faz tempo que a televisão não apresenta um bom seriado de terror puro. O gênero, que é tão presente e enraizado no cinema e na própria cultura norte-americanas, não se reflete tanto na mídia televisiva. O mais das vezes, as séries se utilizam dos elementos e personagens do horror / terror e descambam para outros gêneros equidistantes, quanto não para a galhofa. ‘Sobrenatural’ é povoado de monstros e fantasmas e, mais do que tudo, está mais aventura e (um pouco de) suspense, protagonizados por dois jovens de muito sex appeal e regado a uma ótima trilha sonora de pop / rock. E com pitadas de humor. Até mesmo no excepcional ‘Walking Dead’ o foco principal não se fixa somente no ataque dos zumbis, mas se preocupa bem mais com as reações e complexidades dos humanos acuados. Mesmo assim, a seriedade e o respeito com que estes seres são tratados explica boa parte do seu sucesso.

O marketing de ‘American Horror Story’ foi agressivo e bem montado, querendo significar que estava vindo para ocupar esse espaço. Não liguei muito para essa propaganda (é tão fácil falar), mas até que os primeiros cartazes veiculados são bem instigantes, até um tanto perturbadores. A promessa era de terror visceral, sexualidade latente e pulsante, a ponto de chocar os espectadores, quem sabe até criar polêmicas.

Pois muito bem. O que de fato fizeram, qual o resultado de promessas de cenas chocantes e aterrorizantes?

O primeiro passo foi o respeito absoluto aos cânones totais das histórias clássicas: em primeiro plano, o casarão abandonado, palco de tudo o que acontecerá depois, a menina com síndrome de Down, que logo saberemos também tem o dom da vidência, o aparecimento dos dois irmãos gêmeos, os baderneiros da região, que desprezam o aviso da menina de que vão morrer ao entrar na casa e, obviamente, mais do que claramente, vão morrer. E morrem. Anos depois, uma família tenta recompor sua vida: Vivian (Connie Britton) tenta se recuperar do trauma de um aborto; seu marido, Ben (Dylan McDermott) acabou de ser fragrado por ela fazendo sexo com uma aluna; e a filha Violet (Taissa Farmiga) está passando por uma crise adolescente bem mais séria do que seus pais conseguem perceber. Esta família é a que vai ocupar aquele velho casarão, agora todo reformado, e com o preço baixíssimo pois os donos anteriores haviam se matado no porão.

Diante disso, o que nos oferece os criadores Ryan Murphy e Brad Falchuk?: um compêndio. Eles pegaram Todos os filmes, retomaram Todas as velhas histórias, recolheram Todos os clichês, refizeram Todos os tiques e maneirismos típicos do gênero, cataram Todo e qualquer objeto de cena que alguma vez e em qualquer tempo fizeram ou poderiam fazer parte de uma história de terror, e socaram Tudo neste episódio piloto. Literalmente, Tudo.

Demônios e monstros escondidos no porão, fantasmas ensanguentados, sombras furtivas que se mexem rapidamente e se refugiam nos recantos escuros, velhas portas rangentes (é sério!), vizinhos bizarros e intrometidos que sabem muito mais dos horrores da casa do que deixam revelar, adolescente rebelde que se apaixona por um adolescente psicopata proto-serial killer, prateleiras repletas de vidros com bichos esquisitos e pedaços de corpos humanos e fetos, o marido sonâmbulo que, em suas andanças noturnas, tem fixação por fogo, (aliás, para quem se interessa, Dylan McDermott não tem pudor em desnudar suas nádegas ao léo) (talvez para outros este seja o verdadeiro terror…), enfeites e pinturas bizarras e doentias que cobrem as paredes, trilha sonora insistente e persistente que ‘guia’ o espectador nos momentos de relaxamento ou ‘prepara’ para os de maior suspense, e por aí vai.

O que parecia respeito ao cânone na realidade é uma sucessão intermitente e mal alinhavada de clichês que, na ânsia de mostrar tudo de uma vez ou para caber nos quarentas minutos do episódio, acaba perdendo qualquer impacto ou relevância. Fica-se na espera de qual será o próximo cliché que aparecerá no outro segundo e assim perde-se o sentido primário. Não há tempo, ou espaço, ou fôlego, para se coordenar as cenas com alguma coerência, e de sustinhos em sustinhos não se cria nenhum clima de medo verdadeiro.

Os personagens principais estão bem delineados, muito por conta da boa presença dos atores; nesse sentido, até mesmo a veteraníssima Jessica Lange, com sua exagerada atuação à la ‘Crepúsculo dos Deuses’, não destoa. Mas a sucessão frenética de eventos não permite que a verdadeira grande personagem, a Casa, que deveria receber a atenção total, crie uma alma e tenha personalidade. E, mesmo que boa parte do episódio se passe dentro da casa ou em suas imediações próximas, não é possível relacionar a fachada mostrada de fora com os aposentos internos ou estes entre si. Não há como saber ou sentir a distância dos quartos para o sótão, por exemplo, (onde acontece uma cena importante) ou do escritório de Ben para o quarto de sua filha (a impressão que passa é que estão no mesmo patamar, quando sabemos que são andares diferentes; ou não? Não dá para se ter certeza!).

No meio do ridículo geral, ocorre uma ou duas sacadas boas. Há a velha governanta (mais outro clichê) que se apresenta para trabalhar pois já conhece a casa há bastante tempo: a questão é que, enquanto Vivian enxerga uma senhora de idade e cega de um olho, ao mesmo tempo o marido a vê como uma insinuante garota de uns vinte anos, de minissaia e cinta-liga aparecendo, fetiche total (o que acontece depois, infelizmente, acaba com a boa iniciativa). Outro bom momento (que também mexe com fetiche) é uma cena de sexo com um camarada vestido com um macacão de borracha sadomasoquista: a cena é bizarra e passa uma sensação bem estranha. E é só. A coisa mais monstruosa que resta é o tamanho da frustração do espectador.

A crítica Ana Maria Bahiana assistiu outros episódios e diz que, aos poucos, eles estão conseguindo arrumar o tom e o ritmo e que, se pudermos ter a paciência de passar pelo piloto, a série melhora. Pode ser. Desejo boa sorte aos que tentarem prosseguir. Quanto a mim, fiquei ofendido demais com tanta canastrice e vergonha alheia. Eu passo.

Nikita e o Cartaz. O Melhor cartaz, aliás

11 de outubro de 2010

A série é fraquinha (embora seja melhor do que muita crítica crítica que eu vi por aí). Nova Re / Continuação Re / Tomada da série de uma personagem que está provando ser e se manter como icônico e conseguir se reinventar, independente dos seus altos e baixos.

O primeiro filme, de Luc Besson, com Anne Parillaud, virou cult, mas é mais interessante do que realmente bom. Muito estiloso demais, exagerado. Esquisito. Cult. A refilmagem norte-americana, ‘A Assassina’, é de uma ruindade dolorosa, com uma Bridget Fonda ridícula, não merece mais comentários.

Em muitos sentidos, ‘La Femme Nikita’, a série de televisão canadense lançada em 1990 e que durou cinco temporadas, é muito superior aos originais do cinema. Denso, bem conduzido, com histórias plenas de suspense e ação, Nikita era vivida pela belíssima Peta Wilson, muito segura e expressiva. Ao reassistir alguns episódios, dias atrás, confirmei  que ainda é possível curtir e acompanhar numa boa, mas percebe-se o quanto está amarrado na época que foi produzido. Isto é, está datado. ‘La Femme Nikita’ foi tão bom que serviu como base para as séries que espionagem e ação que vieram depois, que souberam se servir de suas bases e alçou-as a patamares ainda melhores. Me refiro especificamente à ‘Alias’, com Jennifer Garner, que mesmo não tendo referência direta nem com roteiro, nem com personagens nem com ambientação, traz em cada um dos seus episódios a evidência do quanto deve. ‘Alias’ é uma série muito melhor, mais divertida (trouxe uma saudável carga de humor, num ótimo contrapondo à ação e ao melodrama), mais agitada, melhor acabada, mas não teria existido sem Nikita.

E agora Nikita recomeça (continua, como sequência da série com Peta Wilson). A escolha de Maggie Q para o papel, numa vigorosa virada de estilo e aparência, considero uma idéia sensacional. Infelizmente, uma das únicas coisas realmente inovadoras desta retomada, já que o esforço parece estar sendo todo para recriar o mesmo e idêntico clima de seriedade e austeridade da série antiga, um erro sério que não está sendo compensado pelos roteiros fracos, e demais atores mais fracos ainda (o vilão principal é de uma canastrice irritante e ridícula).

De qualquer modo, independente do que vai ocorrer no decorrer da temporada, a nova ‘Nikita’ na minha opinião já entrou para a história, por proporcionar um dos melhores cartazes promocionais que conheço. Inclusive até provocou alguns problemas com a divulgação, pois alguns veículos de mídia (revistas e jornais, se não me engano) tiveram algumas reações indignadas de um público mal humorado e ficaram com receio de propagar a imagem. Maggie Q está bem, mesmo que nada excepcional (considero injustas algumas críticas ferozes ao seu desempenho), mas claramente ela não tem densidade para carregar uma série nas costas (como Peta Wilson fez durante um bom tempo).

Para Maggie houve um aspecto interessante: sua tatuagem de escorpião, que muitas vezes precisa ser escondida por conta do trabalho que estiver realizando no momento, agora pôde ser exibida com todo o seu esplendor. Yes!