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Música Fúnebre, de Morag Joss: assassinatos ao sabor de Bach

13 de outubro de 2012

 

Este é um romance policial com trilha musical. Música clássica. “Canção sem palavras em ré menor”, de Mendelssohn; “Peças de fantasia, Opus 73”, de Schumann; “Elegia em dó menor”, de Fauré, entre várias outras.

E Bach. Em uma das cenas mais bonitas da obra, a violoncelista Sara Selkirk visita Edwin, um antigo músico e maestro que agora está inválido e com os dias contados por causa do câncer. Ela trouxe o instrumento e ele lhe pede que toque uma das suítes para violoncelo de Bach. Há muitos significados neste pedido: era uma das peças preferidas do marido de Sara, cuja morte fora há um ano antes e que a lançara em uma espécie de animação suspensa: cancelara todas as apresentações previstas, mergulhara em uma crise artística, nunca mais tocara e nem sabia se voltaria algum dia. Na verdade, não vivia; só deixava os dias passarem. E só por muita insistência de seu amigo James concordara em fazer uma pequena apresentação em uma cidadezinha no interior da Inglaterra. Mas, não Bach. Muito menos as suítes para violoncelo. A ocasião no entanto revela-se muito propícia e Edwin muito inteligente e sensível. A delicadeza do momento, a beleza da descrição, a ambientação… assistimos empolgados a um rejuvenescimento de Sara, embalados pela música. A impressão é tão vívida que parece que a estamos escutando.

Momento muito especial dentro de uma obra que retoma a tradição da literatura policial clássica inglesa, puxando para a linha moderna psicológica de uma P. D. James, por exemplo. E o faz extraordinariamente bem. “Música Fúnebre” é o primeiro romance de Morag Joss que também segue um outro tipo de tradição da literatura policial: o de trazer uma experiência de vida (pessoal, profissional, cultural) que, a princípio parecem bem distante da literatura, principalmente da policial. No caso de Joss, sua vida foi de trabalho em museus, galerias de arte e no ensino superior como administradora e palestrante!, como descrito na apresentação. Ela traz então todo esse universo, combina com uma trama de assassinato, detetives carismáticos, um mistério bem construído e, assim, temos um livro muito simpático!

Com “Música Fúnebre” penetramos na alta roda da pequena cidade de Bath. Somos apresentados a museus, galerias, spas, ouvimos concertos de música clássica. Mas, mesmo em um lugar tão agradável e prazeroso, as paixões, dores, sofrimentos e ambições dos seres humanos continuam sendo tão humanos como sempre. Sara Selkirk torna-se o pivô da trama ao descobrir o cadáver do novo administrador do museu, obrigando-a sair de sua apatia para não ser ela mesma a próxima vítima.

É interessante observar que há vários furos no enredo, muitos mesmo para dizer a verdade!, que qualquer leitor com um mínimo de inteligência vai perceber rapidamente. E, ao mesmo tempo, Sara é uma musicista que possui uns lances de dedução lógica tão geniais e tão complicados que fica difícil entender por que não a promovem logo para chefe da Scotland Yard. No entanto, a narrativa flui de modo tão gostoso e simples que fica fácil relevar estes “detalhes”.

A minha recomendação é esquecer estas pequenas incongruências, preparar uma fita com as músicas indicadas pela autora e se deixar levar. O prazer é garantido. Para músicos, leitores e assassinos.

texto corrigido e atualizado, publicado originalmente em iGLer

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Sangue na Lua e “Crazy” Lloyd Hopkins, o policial psicopata de James Ellroy

11 de julho de 2012


A literatura de James Ellroy incomoda. Existe um grau de paranóia ou neurose em seus personagens e em suas histórias que impressiona. Para os padrões de hoje, quando estamos tão mal-acostumados com a violência diária, cotidiana, persistente, onde nossos sentidos são continuamente assaltados pela brutalidade e pela feiúra ou pela hipocrisia burra, onde enfim, parece que nada mais pode impressionar, Ellroy impressiona.

Um estranhamento que ultrapassa a mera narração de atos violentos ou a descrição de esquizofrênicos serial killers. É pior: existe uma lógica interna que determina e explicita o horror, mas que por ser orgânica e ter uma ligação tão íntima com o ser humano, cria um sentimento de expectativa medrosa. Afinal, tudo pode ser pior, não? Não para James Ellroy que parece escrever, fria e costumeiramente, de dentro do próprio inferno. Seus livros são como facas que se enterram em nossa mente: ele se compraz em revirar muitas vezes na ferida ao mesmo tempo em que diria: não há alternativas, não há saídas.

É por este mesmo motivo que os finais de seus livros são relativamente fracos em relação a todo o corpo da história. Ellroy se atem as regras do bom romance policial e se obriga a fechar e proporcionar as soluções para um universo que em si não proporciona soluções.

E, é lógico, conduzindo tudo isso, sangue, morte, tiros, mentes perturbadas, situações de pavor e suspense, recriados por uma mão absolutamente segura do que está fazendo.

É inevitável referir-se ao próprio Ellroy e a sua mãe para explicar sua literatura, mesmo porque ele é o primeiro a retornar ao assunto, várias e várias vezes, ao longo dos seus livros, entrevistas ou palestras.

Quando seus pais se separaram, Ellroy ficou com a mãe. Alcoólatra, neurótica, violenta e promíscua. Certa vez, perguntou ao filho se ele preferia ficar com ela ou com o pai; respondeu que com o pai e recebeu um tapa na cara. Ellroy estava com dez anos quando sua mãe foi encontrada em um terreno baldio, barbaramente trucidada, um crime nunca solucionado, os assassinos nunca foram encontrados.

A roda-viva de Ellroy foi alucinante: instituições para crianças com problemas mentais, drogas, pequenos roubos e furtos, alcoolismo precoce. Até chegar um momento em que esteve praticamente prestes a morrer de tanto beber. Recuperou-se, começou a escrever e pode-se perceber o quanto os fantasmas de sua existência são passados para suas obras. A maioria dos seus livros gira em torno de serial killers que matam mulheres, com descrições explícitas de seus crimes. A grande diferença para a vida “real” é que estes criminosos são pegos. Com “Tablóide Americano” iniciou uma nova fase, saiu do eixo dos serial killers e começou a montar um enorme painel histórico-político dos Estados Unidos começando a partir do assassinato de Kennedy e se estendendo por mais dois livros.

Antes de escrever a segunda parte desta trilogia, no entanto (“6 Mil em Espécie”, editado também pela Record), Ellroy retornou, literalmente, ao cenário da morte de sua mãe e começou a fazer suas próprias investigações. O resultado deste trabalho foi “Meus lugares Escuros”.

“Sangue na Lua” é o seu terceiro romance e foi escrito antes de estourar com “Los Angeles – Cidade Proibida”. Representa plenamente todos os aspectos de suas neuroses íntimas. Primeiro de uma trilogia com o Sargento “Crazy” Lloyd Hopkins, um policial com um QI extraordinário e a melhor folha de crimes solucionados da história da corporação. Genial, impulsivo, determinado, fascista, carregando complexos profundos em sua psique. Difícil diferencia-los dos “bandidos”, na verdade. Em “Sangue na Lua”, Hopkins se depara com um serial killer de mulheres quase tão inteligente quanto ele e, para captura-lo, destrói sua vida familiar, acaba com as (poucas) amizades que possui e sacrifica até sua própria posição na polícia.

“Tablóide Americano” e “Los Angeles – Cidade Proibida” registraram o respeito e o sucesso de público e crítica, definindo-o como um dos melhores escritores da moderna literatura norte-americana. Mas, como podemos percebemos com “Sangue na Lua”, ele já era dinamite pura bem antes disso.

 

Wallander

1 de novembro de 2011

Nunca pude entender direito como os livros policiais do sueco Henning Mankell podem fazer tanto sucesso.

E olha que fazem. Traduzido em várias línguas, também publicado aqui no Brasil, onde me parece que provoca sensação igual.

Decepção pessoal inesperada, pois há alguns detalhes que me chamam atenção, favoravelmente.

Gosto, por exemplo, do fato de seus livros serem baseados na Suécia; é sempre muito interessante observarmos lados e ângulos inesperados em países que, em geral, somos acostumados a considerar muito distantes de nossa realidade e que posam como uma espécie de refúgio capitalista quase paradisíaco. O romance policial é pródigo em nos proporcionar autores que revelam uma face mais dura, mais chocante, desses recantos. Lembro de uma Marselha descrita por Jean-Claude Izzo que, tudo bem, já se apresentava como uma cidade violenta e tempestuosa, mas cujo autor conseguia descer ainda mais em suas entranhas. Outro autor clássico é Jan Willem Vand De Wetering e seus livros mostravam uma Holanda bem inusitada (uma pena, suas obras há muito estão esgotadas no Brasil e não parece haver interesse algum em retomá-las, uma injustiça).

A questão aqui não é exatamente mostrar lances geniais de originalidade. Se isso já é uma impossibilidade humana em qualquer arte, no romance policial é ainda mais. Os policiais transitam e lidam com os clichês, utilizam-nos. O que vale, no mais de tudo, é a forma como eles são tratados, montados, escritos, apresentados. Nos dois exemplos citados acima, o que conta é a forma seca e ao mesmo tempo um tanto poética como Izzo escreve, em um contraponto bem curioso com a facilidade e uma certa ‘doçura’, raiando a ingenuidade mas com narrativa primorosa de De Wetering.

Henning Mankell não apresenta nada disso. Se os clichês são aceitáveis e inevitáveis, ele no entanto os usa e abusa, sem render mais nada. Sua escrita é fraca, os personagens rasos e caricatos, os argumentos partem de um terra-chão do dia-a-dia de uma realidade sueca, e rápido perdem o desejo de simplicidade fazendo com que as histórias sejam uma colcha de retalhos entre o registro policial, espionagem internacional, beirando a fantasia e a chacota. Li dois livros de Mankell, tentei um terceiro, desisti e deixei de lado.

Quando soube que tinham criado uma série televisiva baseada nos romances de Mankell, minha primeira reação foi de ceticismo e desconfiança. Meu preconceito contra o autor já estava arraigado e não me preocupei em alivia-lo. Aos poucos, fui conhecendo detalhes que conseguiram atiçar minha curiosidade. Quem protagoniza o detetive principal é Kenneth Branagah, um ator que respeito tremendamente (isto é, ele é capaz de interpretações fantásticas e outras ridículas e canastronas; depende do seu estado de espírito na época que estiver filmando, imagino). As histórias respeitavam as locações originais, proporcionado pela co-produção inglesa e sueca, fazendo com que os episódios fossem filmados realmente na Suécia. Portanto, boa produção, bom ator, as críticas foram muito favoráveis, Kenneth Branagh chegou a ser indicado para vários prêmios, ok, a coisa até parecia bem encaminhada. Resolvi dar uma chance.

‘Wallander’ foi concebido para ser uma mini-série fechada, com três episódios independentes (baseados em três obras diferentes) e únicos. A ótima repercussão dos episódios fez com que se assumissem como série com continuidade, e realizaram uma segunda temporada, com mais três episódios. Branagah deu um tempo para se dedicar a outros projetos (o principal, a direção do filme do ‘Thor’, que pode não ter sido um fracasso, mas ficou bem longe das expectativas dos produtores e do público) e uma terceira temporada para 2012 garantida.

Uma grande vantagem de não ter lido os livros é o alívio de poder assistir os episódios sem a necessidade (compulsão) de ficar comparando o tempo todo com a obra original. Tem-se assim a ambientação, reconhece-se os personagens, com liberdade e sem (muitos) pré-julgamentos. A primeira impressão do primeiro episódio, ‘Sidetrack’, é o impacto da música solene, séria, tensa, que já predispõe para o clima de suspense e agitação que virá (de um modo como Mankell gostaria, ou pensa que faz, em seus livros). A segunda impressão é a perfeita caracterização de Kenneth Branagh como o detetive Kurt Wallander: barba mal-feita, movimentos desleixados e desanimados, visão cínica da vida, e um sotaque carregadíssimo (com um inglês ‘suecado’ digamos assim) que funciona muito bem.

A premissa da história é boa: uma jovem se mata tacando fogo em si mesma enquanto uma série de assassinatos estranhos vitima personalidades importantes da cidade; um e outro fato estão interligados, o que levará à descoberta de uma rede de pedofilia e abuso infantil. O desenvolvimento dessa história, no entanto, já é outra coisa. Tenho a impressão de que devem ter seguido fielmente o livro em que foi baseado, pois os pontos ridículos da trama (o assassino arranca escalpo das vítimas, um estilo nativo-indígena-norte-americano, sem propósito ou explicação convincente) e, principalmente, o final péssimo, tudo lembra muito o estilo dos livros que li.

O que mais me incomodou, no entanto, foi a própria caracterização de Branagh. O problema é que ele não consegue manter o mesmo ritmo e a mesma figura no filme inteiro. Aliás, falando em clichês, o detetive Kurt Wallander é recheado. Policial de meia-idade, obsessivo com a profissão, desiludido com a vida, problemas com o pai distante e adoentado, em vias de separação da mulher, com relacionamento conflituoso com a filha única (que tentara suicídio aos quinze anos), a minha única surpresa foi ele não ser alcóolatra, para completar o personagem arquetípico.

Em alguns momentos de alívio na trama, quando cabe um sorriso ou até mesmo uma risada dos personagens, Wallander acaba sorrindo. Até aí, no problem. Até os durões riem. Até Clint Eastwood ri. (Tenho certeza que já vi até mesmo Chuck Norris rir!) A questão é que o que aparece é o sorriso de Branagh. Isto é, franco, caloroso, simpático. Não é o sorriso de um policial fodido e ferrado que ri a contragosto, sem vontade. Nestes segundos, a persona de Wallander é abandonada e tudo o mais fica falso.

Com tudo isso, a minha vontade de assistir os outros dois episódios da primeira temporada era quase nula. Mas havia pontos positivos no primeiro. Arrisquei ver pelo menos mais um. A insistência valeu a pena. Há uma melhora progressiva e muito maior segurança em toda a produção, inclusive nos roteiros e até os atores. Eu não sei se foram filmados na mesma ordem de sua exibição, a impressão é essa.

‘Firewall’, começa com uma adolescente que confessa e assume o assassinato de um motorista de táxi para roubar uns trocados. A investigação, porém faz crer que suas motivações são bem mais profundas (mais até do que o fato de ter sido estuprada por este homem, anos antes!). Branagah, agora sim, mantém Wallander o tempo todo, o enredo no geral é muito melhor, os personagens não estão caricatos. Uma pena (uma grande pena!) que a finalização seja péssima, a solução da história ridícula e ainda por cima mal realizada. Ponto feio para um episódio que vinha tão bem.

Em ‘One Step Behind’, uma turma de adolescentes é assassinada quando realizam um piquenique. E um colega policial de Wallander parece estar muito mais envolvido do que aparenta à primeira vista.A partir daí, a investigação segue duas trilhas paralelas, por um lado os assassinatos; por outro, a descoberta de que aquele policial tinha uma vida completamente insuspeitada para aqueles que pensavam que o conheciam intimamente. De novo, fico pensando se as exibições seguiram a ordem de quando foram filmados. Pois aqui, está tudo tão bem equilibrado, os maneirismos estão contidos, os atores parecem estar muito mais à vontade consigo mesmos e com os demais, a história tá bem contada. Até mesmo o final ruim e previsível (ao que se indica, isso deve ser uma característica fixa do Mankell…) não compromete o resultado final, que é mais do que digno.

O amadurecimento dos personagens e da produção em geral e o aprofundamento das boas atuações aumentam na segunda temporada. O estilo do enredos, inclusive com seus péssimos finais, continuam. Não vou comentar os outros três episódios um por um, como fiz acima.  Basta dizer que, no cômputo geral, ‘Wallander’ é agradável, dá para assistir numa boa, o saldo é muito positivo. Não me fez querer ler os livros de Mankell (na verdade, só reforçou a impressão negativa que tenho dele como escritor), mas vou aguardar os próximos episódios, se não com extrema ansiedade, pelo menos com bastante curiosidade.

 

– obs1 – texto corrigido e atualizado, publicado no meu site anterior; como o dito site anterior não existe mais, de vez em quando vou fazer como fiz agora e realizar alguns resgates de textos que, na minha humilde opinião, ainda possam causar interesse em pessoas que ainda não os tenham lido;

 

– obs2 – por outro lado, há uma outra razão para que seja esse texto em particular, pois fiquei devendo uma resposta a um comentário naquele site; o comentarista havia me criticado e, sendo fã dos livros do Mankell, havia discordado das minhas opiniões sobre o autor; não lembro agora se ele citou o seriado, mas em relação às obras escritas, foi bem enfático, pondo em questão meu suposto conhecimento de romances policiais e duvidando inclusive que eu tivesse realmente lido os livros do inspetor Wallander;

– quis escrever uma resposta arrasadora na época, não pelas suas opiniões contrárias (pensamentos discordantes são ótimos para atiçar a discussão) nem mesmo por me chamar de ‘ignorante’ (não usou essa palavra, mas o sentido foi esse), ele tinha todo o direito de duvidar das minhas ‘credenciais’, digamos assim; o que me aborreceu foi o tom e as palavras utilizadas, de uma agressividade desnecessária; e contrapoducente, já que fiquei sem vontade de entrar em uma discussão estéril, ainda mais desanimador por ser com uma pessoa que compartilhava de gostos literários comigo, uma pena.

vejo hoje que foi bom não respondido na lata, pois não sei se eu teria sido bem educado.

Pois bem, posso ser educado hoje e responder algumas coisas: em primeiro lugar, meu caro comentarista, eu já li livros policiais (romances, contos, ensaios, livros teóricos) pra caralho! É o meu gênero literário preferido (junto com ficção científica) e não posso passar muito tempo enfiado com os meus outros interesses (literatura clássica, histórica, literatura latino-americana, russa, francesa e um tanto da brasileira, atuais, contemporâneos ou antigos) sem que precise dar um tempo nestes e ler algum bom policial que, como toda boa literatura, de qualquer gênero, sempre ultrapassa os limites desse mesmo gênero. Parafraseando desavergonhadamente Oscar Wilde, não existem bons ou maus livros policiais, o que existe são livros bem ou mal escritos. Para mim (sempre na minha humildíssima opinião) Henning Mankell é um péssimo escritor policial (e longe de ser literatura ‘bem escrita’) que calhou de servir de base para um bom seriado de televisão.

Quanto às obras do Mankell, fui conferir nos meus arquivos quantos foram de verdade, para não falar besteira, encontrei a resenha do primeiro livro dele que eu li, ‘Os cães de Riga’ (que fiz questão de re-publicar no post anterior); além deste, também li ‘O homem que sorria’ e ‘A leoa branca’ (‘os cães de riga’ segue sendo o pior de todos, o que não ajuda em nada na qualidade dos outros). Realmente, são fracos demais. MESMO ASSIM, ainda tentei ler ‘Assassinos sem rosto’  e, mais recentemente, ‘O guerreiro solitário’, este com uma expectativa em especial, já que foi a base para um dos episódios que mais gostei no seriado. E não consegui.

Creio que isso dá uma boa base para definir minha opinião (e o meu desgosto) por Mankell. Ainda não consigo entender sua popularidade, mas cada um é cada um. E ficarei por aqui, porque não lerei outros livros desse autor.

Os Cães de Riga

1 de novembro de 2011

Um bote é encontrado vagando pelo mar, nas costas de uma pequena cidade da Suécia, com uma carga macabra: dois homens mortos. A primeira constatação é de que não são náufragos de algum acidente marítimo: estão bem vestidos, com ternos caros, tiveram portanto uma boa vida. Foram baleados, assassinados, jogados no bote e abandonados. A segunda constatação: antes de morrerem, também foram barbaramente torturados. A terceira e não menos surpreendente constatação: são russos ou pelo menos de algum país da extinta cortina de ferro. Difícil calcular de onde vieram, pois os descobridores dos corpos não quiseram se identificar; afinal, eram contrabandistas e sua relação com a lei era um tanto ou quanto ‘delicada’. O crime agita a vida da cidade, faz a sensação do noticiário, mobiliza a Divisão de Crimes Violentos, a de Entorpecentes e o próprio Ministério do Interior, além de complicar a rotina do inspetor Kurt Wallander.

A princípio, tudo pareceu estar se encaminhando para uma solução rápida quando a identidade dos mortos é feita: eram bandidos, membros da máfia russa que agia na Letônia. Nada mais fácil, então: um policial letão vem, ajuda um certo tempo na investigação e leva os cadáveres. E tudo terminaria aqui para os suecos se esse mesmo policial, logo ao chegar em sua terra natal não tivesse sido assassinado. Assim, o inspetor Wallander é convocado para cooperar Em Riga, na própria Letônia!

Política, intriga internacional, espionagem, lugares ‘exóticos’ e enredo de romance policial são elementos para bons livros, sendo que um de seus mestres foi Eric Ambler. Países estrangeiros dos quais pouco conhecemos e cuja realidade pode ser entrevista através deste gênero estão cada dia mais populares e constantes, perfeitamente ‘globalizados’, mas já tínhamos há algum tempo atrás um Jan Willem Van de Wetering cujas aventuras se passavam em uma incomum e desconhecida Holanda. Aliás, são dois autores há muito fora de catálogo e bem que poderiam ser lembrados e reeditados.

Ambler e Van de Wetering são referências e lembranças obrigatórias ao se ler este livro de Henning Mankell. E a comparação não é nada favorável para Mankell. Apesar de mexer com tantos elementos estimulantes e instigantes, o resultado é quase nulo. O que poderia ser uma ótima oportunidade para se aproveitar de uma complexa situação política, rica em eventos e desdobramentos e virtualmente desconhecida para os estrangeiros, como o caso da Letônia, vira um pastiche insosso e inverossímil, recheada de clichês e lugares-comuns, quase infantis mesmo. A impressão é que Mankell deve ter feito pesquisas históricas em reportagens da CNN. O que não teria feito Eric Ambler com tal material!

No entanto, independente de qualquer comparação ou generalização, é a própria escrita de Mankell o que mais compromete. A narrativa frouxa, sem vigor, impossibilita que criemos uma verdadeira empatia com o personagem ou que nos emocionemos com suas peripécias, pecado mortal para uma obra que depende justamente das diversas reviravoltas da trama.

Considerando-se somente este “Os Cães de Riga”, fica difícil entender como Mankell faz tanto sucesso em vários países. Talvez só a globalização explique.

 

texto originalmente publicado pelo iG