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Monteiro Lobato: o racista

27 de setembro de 2012

Monteiro Lobato a Arthur Neiva, em carta enviada de Nova Iorque durante o tumultuado ano de 1928, criticando o Brasil: ”País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. (…) Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva.”

Monteiro Lobato a Renato Kehl: “Confesso-me envergonhado por só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante quanto o seu, voltado para tão nobres ideais e servido, na expressão do pensamento, por um estilo verdadeiramente “eugênico”, pela clareza, equilíbrio e rigor vernacular.”

“Renato, Tú és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque (“O Choque das raças ou o presidente negro, de 1926″), grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. […] Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade pecisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato.”

(Renato Kehl foi um dos principais expoentes da Eugenia no Brasil, que prega a purificação da raça branca através do acasalamento entre pessoas ‘saudáveis’, isto é, obviamente, as pessoas brancas, além da esterilização, segregação e subsequente extinção das pessoas negras)

Ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: “(…)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!…” (em “A barca de Gleyre”. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).

A Godofredo Rangel: “Meu romance não encontra editor. […]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri (obs: o ‘belo crime’ sugerido é a esterilização do povo negro). Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros.”

Trechos destacados por mim de dois belíssimos textos, os melhores sobre o assunto Monteiro Lobato e o racismo, ambos de Ana Maria Gonçalves: “Não é sobre você que devemos falar” e “Carta Aberta ao Ziraldo“.

Outro ótimo texto é o de Edson Lopes Cardoso, “A propósito de Caçadas de Pedrinho“, onde o autor demonstra como a negra Anastácia é colocada abaixo até dos animais do sítio.

E para desfazer o montante de bobagem falada sobre a suposta censura do CNE, este texto de Cesar Augusto Baldi (‘Monteiro Lobato, racismo e CNE‘, ) diz tudo.

(um adendo, depois de uma breve discussão no facebook)

Sabe, é muito chato ler documentos oficiais. Eu, pessoalmente, acho um porre. Mas não é possível tomar uma posição, emitir uma opinião, se não se souber exatamente o que foi dito. Para que não se diga bobagens. Para que se tenha os dados bem em mente de forma concreta (não ouvida ou avaliada por outras pessoas), para que se possa fazer sua própria avaliação e, principalmente, não cair em falsas discussões.

O tal Parecer CNE/CE nº 15/2010, o que deu início a tudo ao fazer suas considerações e recomendações em relação ao livro ‘Caçadas de Pedrinho’, está disponível na web e pode ser lido

(http://blog.centrodestudos.com.br/2010/11/03/cacadas-de-pedrinho-e-o-cne/).

Ele é chatinho de ler (detesto a linguagem empolada em que são escritos). Mas, sabe, ele Não propõe censura.

NÃO propõe que a obra de Monteiro Lobato seja queimada em praça pública.

NÃO propõe que seus livros sejam retirados de circulação.

NÃO propõe que suas obras deixem de ser lidas por alunos. NÃO propõe que sejam relegadas ao esquecimento.

Parece incrível, não é?, dizer isso depois de tanta celeuma e depois de tanta propagação da palavra CENSURA, CENSURA. Quando digo que não censura não há, nem pretensão disso.

Agora, não é necessário acreditar em mim ou na minha avaliação.

Que tal ler o texto original?

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