Posted tagged ‘Racismo’

As camisetas pedófilas de Luciano Huck fazem parte da naturalização da violência contra a mulher e as crianças

4 de março de 2015

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Pessoas, não há algum nível, alguma linha absoluta, algum limite que está sendo ultrapassado? Menosprezado, amesquinhado?

De um lado, um ignominável Alexandre Frota declara em um programa de televisão (do igualmente desprezível Rafinha Bastos) que estuprou uma mâe-de-santo enquanto fazia uma matéria para a Rede Globo, assumindo de uma só tacada os crimes do estupro, de racismo e de preconceito religioso. E é aplaudido e ovacionado pela platéia. E continua sendo aplaudido e ovacionado.

Do outro lado, um assim-chamado apresentador de televisão, sempre cegado pela absoluta necessidade de ideias idiotas, racistas e preconceituosas, para ganhar dinheiro, sempre com uma fachada bonitinha, divertidinha e boçal, conseguiu extrapolar,  e inventou uma camiseta para ser usado por crianças que, na prática e objetivamente, é um convite para pedofilia (mas, olha, tá em letras coloridas!) (além, de camisetas femininas nojentamente misóginas, que depreciam, rebaixam as mulheres que porventura usem tais camisetas divertidinhas, e algumas incentivam o assédio sexual).

Quem irá nos salvar? O Exército Evangélico da$ Força$ Infernai$ do seu Macedo?, doidos para baixar borracha (eita) nos pecadores (isto é, homossexuais, mulheres que fizeram ou pretendem fazer um aborto, mulheres que pensam que podem pensar, pobres que não sejam evangélicos, isto é, pobres de qualquer outra religião e por aí vai…).

Entre a naturalização da violência contra a mulher e as crianças, e o aumento vertiginoso da intolerância política, social, religiosa (que tal o cara que subiu no apartamento de duas senhoras para arrancar as bandeiras vermelhas que elas haviam hasteado?), do acúmulo de tensões ideológicas ao massacre cotidiano, recorrente, da população negra, PESSOAS, a linha está sendo ultrapassada, pode não haver volta.

Falta saber se já não ultrapassamos.

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“Negra, cubra seus cabelos!”

5 de fevereiro de 2015

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No Alabama, Estados Unidos, houve a época em que as escravas foram obrigadas (por lei, além de sacramentado pela conduta diária da repressão) a cobrir seus cabelos, no que foi conhecido como ‘Tignon Law’. A razão é que seus cabelos eram bonitos demais, excitantes demais, provocantes demais, desdenhavam, rebaixavam, humilhavam, da tal dita beleza das mulheres brancas donas de escravas.

Além de, no mínimo, ser uma forma simples, eficiente, direta e pública de identidade cultural.

As escravas cobriram os cabelos. E o fizeram com tanta criatividade e esforço, dedicação e vontade, que transformaram a proibição em arte. E o que não era para chamar atenção, seus turbantes coloridos, montados e recriados, continuaram a chamar atenção, a provocar, e marcar sua identidade.

 

http://blackgirllonghair.com/2014/07/shocking-history-why-women-of-color-in-the-1800s-were-banned-from-wearing-their-hair-in-public/

 

Pelo menos desta vez, negros não foram presos, mortos ou desaparecidos por terem tido a ‘ousadia’ de comprarem um tênis

3 de setembro de 2014

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Imagem emocionante. Resultado de uma história horrorosa. Tanto mais horrível quanto comum, cotidiana, corriqueira. Não corriqueira foi a reação:
Pai está comprando tênis com seus dois filhos. São enquadrados por policiais militares que receberam, segundo dizem, uma denúncia de roubo. O pai se revolta, contesta, protege os filhos com os braços, o policiais militares avançam com o conhecido modo ‘gentil e delicado’ de tratar cidadãos que são ‘suspeitos’ a priori por serem negros, ameaçam prendê-lo por desacato. Forma-se uma multidão ao redor que rapidamente compreende o que está acontecendo e se revolta, apoiando os cidadãos e esculachando os policiais.

A imagem mostra o momento (separado por mim do vídeo postado pelo Nicolas Faria (http://on.fb.me/1A1npQQ, espalhado pelo facebook) em que o pai brande no ar o recibo da compra dos tênis. Observem o momento de triunfo, de desafogo. Observem os policiais tensos, assustados até (inclusive, um deles está com a mão na arma, preparado para … o que? atirar na multidão?). E a multidão (que não é pequena, conforme se vê no vídeo) grita ‘Preconceito!’ ‘Preconceito!’

E se não houvesse testemunhas? E se não fosse pelo apoio da multidão? E se os celulares não estivessem gravando a cena? E se não tivessem entregue ao pai o recibo da compra dos tênis naquele exato momento? Como bem disse Ana Maria Gonçalves em seu perfil no facebook: “É bem provável que os três seriam apenas estatísticas, vítimas de mais um auto de resistência, se a abordagem tivesse sido feita sem testemunhas.”

A imagem me é emocionante. É triste, revoltante. Mas, pelo menos desta vez, três cidadãos brasileiros não foram presos, mortos ou desaparecidos, pelo crime de serem negros e cometerem a ‘ousadia’ de comprarem tênis.

 

a racista e os babacas misóginos

1 de setembro de 2014

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aos babacas escrotos que xingaram e xingam a racista filha-da-puta inundando as redes sociais com suas imundícies nojentas, gritando que ela deveria ser linchada, currada, estuprada, e misturam assim suas próprias safadezas e imoralidades pessoais com a justa indignação dos que lutam contra o racismo e todas as formas de discriminação:

caras, vocês são tão filhos-da-puta quanto ela.

a grande diferença é que o racismo institucional tomou um rosto fácil de ser reconhecido e agredido, enquanto que vocês vomitam suas obscenidades misóginas escondidos covardes atrás do seu anonimato internético, pretensamente protegidos pelos bits anônimos de computador.

babacas é o que são; e deveriam igualmente ser presos, julgados e condenados.

Revisitando ‘Histórias Cruzadas’: uma mentira bonitinha e hipócrita

8 de março de 2014

Estamos em tempos de ’12 anos de escravidão’, um filme com uma história pungente e real, dirigido e protagonizados por negros norte-americanos, ganhar Oscar de Melhor Filme, Atriz Coadjuvante e Roteiro Adaptado. Não o de Melhor Direção, o que pode parecer uma contradição bizarra, mas se pensarmos bem, é típica do Oscar: afinal, como Melhor Filme, o prêmio vai para os produtores, entre os quais Brad Pitt, sem cuja 12yearsaslave1participação o filme não teria sido realizado (ou, se produzido, não teria tido o mesmo espaço e consideração). De qualquer forma, o impacto de ’12 anos de escravidão’ foi de tal forma, que agora a obra original e o próprio filme serão distribuídos pelos Estados Unidos como material didático (e essa decisão foi tomada antes da distribuição dos prêmios, o que tornou impossível a Academia de Artes e Cinema ignorá-lo).

Há muito tempo atrás, em 2012!, estávamos na época de ‘Histórias Cruzadas’ (The Help). O meu texto enfatizava a minha falta de paciência com mais um exemplar de filme realizado por brancos com pretensas simpatias pelo sofrimento e angústias dos negros e a a minha ainda maior estupefação por ver a quantidade de pessoas que caíam nessa armadilha e realmente consideravam que o filme era anti-racista. Acredito que meus argumentos ainda são válidos e pertinentes (pelo menos, eu ainda os mantenho), e podem ajudar a compreender o que acontece atualmente,  mas a discussão ficou mais rica com as discordâncias nos comentários,  a ponto de ‘Mayara Norberto’ sugerir que ela poderia ser incorporada ao próprio texto.

Interessante. Entre ‘Histórias Cruzadas’ e ’12 anos de escravidão’ há um pulo impressionante, de concepção e de recepção, em muito pouco tempo.  No entanto, talvez não estejam assim tão distantes, tão opostos, tão diferentes. No mínimo, vale a discussão. Por isso, segui a sugestão de Mayara, incorporei os comentários e minha resposta (mantendo os textos exatamente como foram escritos).

‘Histórias Cruzadas’: uma mentira bonitinha e hipócrita

Não estava com nenhum ânimo para discutir um filme que, apesar de sua pretensa imagem de crítica social e de denúncia do racismo norte-americano, em sua essência é na verdade tão racista e preconceituoso quanto o que diz revelar. Racismo liberal, condescendente, pretensioso, só que revestido e embrulhado em um pacote brilhante, lírico e quase infantil, de um tipo que Hollywood gosta muito de fazer vez em quando, pois ajuda a passar um talco cheirosinho, aplicar um verniz de civilidade em uma sociedade profundamente doente, moralista e hipócrita. E o público norte-americano adora, pois faz com que se sinta ‘crítico’ por meio de narrativas tolas, falsas e sem substância.

As histórias em si, obviamente, são reais, doloridas e sofridas; o substrato em que o filme se baseia é concreto. No entanto, o modo como isso é apresentado e como as situações são ‘resolvidas’ servem como forma de purgar o espectador de suas culpas e aliviar sua consciência: na prática, o resultado final (buscado e conquistado) é o de fazê-lo crer o quanto os ‘outros’ são malvados e preconceituosos e o quanto pode se identificar com os bonzinhos.

Eu estava para deixar passar. Mas então li há pouco um texto de quem gostou do filme (e até aí nada demais, cada um fique com seus próprios gostos) e fez uma defesa entusiasmada (igualmente, cada um é livre para se expressar) e levantou o pensamento de que ‘Histórias Cruzadas’ bem poderia passar em eventos do movimento negro, até mesmo na Semana da Consciência Negra, e aí se mostra que essa tal pessoa realmente não entendeu nada. Foi iludida pelo papel colorido do embrulho.

Vou destacar somente alguns poucos pontos, entre o que o filme mostra e pretende dizer, e o que realmente diz.

Sinopse rápida: Skeeter Phelan (Emma Stone) é uma jovem sulista que acaba a faculdade de jornalismo no meio da década de 60, no Mississipi, Estados Unidos, decidida a se tornar escritora. Volta para casa e começa a recolher histórias pessoais das empregadas (inevitavelmente negras e pobres) que são tão importantes na manutenção das casas e das famílias brancas de classe média e alta, da qual a própria Skeeter faz parte. Relutantes a princípio, as empregadas começam a se abrir, o que desencadeia uma série de eventos e mudanças na cidade e na mentalidade das pessoas.

Aparência 1: É um filme de mulheres, que discute suas condições na sociedade, brancas de um lado, negras do outro.

Não, não é. Não há mulheres de verdade aqui, somente estereótipos, personagens caricatos, bonecas sem profundidade. Tem a branca malvada, racista, preconceituosa, prepotente, ridícula e fútil. Tem a branca bonzinha, ingênua e bobinha, que um dia também foi fútil, mas agora deseja ampliar seus horizontes pessoais, que inicia um processo do qual não tinha consciência de sua amplitude e consequências, e vai se tornar uma pessoa ainda melhor. Tem a negra vivida, esperta e sólida, retraída e fechada, que possui a sabedoria do gueto e do racismo onipresente, e que dará lições de vida e moral para a branca inicialmente ingênua. Tem a negra burra e palhaça, encarregada das tiradas cômicas, que também sofre com o marido abusivo.

Aparência 2: É um filme que denuncia o racismo.

Não, não é. O que ele faz é, acima de tudo, ‘denunciar’ um racismo passado, histórico, que já aconteceu um dia. O espectador pode ficar tranquilo, pois todos esses horrores e iniquidades estão para se acabar, os movimentos dos direitos civis estão logo ali, os negros terão sua vez. E, de qualquer forma, o grande, o máximo, problema não é exatamente o Racismo institucional, mas os brancos (as mulheres brancas, no caso) malvados e diabólicos, que adoram pisar nas outras pessoas, principalmente se forem negras, pobres e analfabetas. As demais mulheres brancas racistas assim o são ou por ingenuidade (no fundo, têm bom coração que não podem expressar por conta das imposições da sociedade) ou ignorância (não sabem o quanto as negras são pessoas boas, em especial se forem Viola Davis), ou porque são fúteis.

E veja-se como acontece: é uma mulher branca que vai iniciar todo processo de conscientização geral; é a patroa branca que vai incentivar a empregada negra a peitar seu marido abusivo; é o ponto de vista feminino branco que vai nortear as principais linhas narrativas do filme, são suas histórias as mais importantes.

Aparência 3: É um filme corajoso, mesmo que simples, que provoca reflexão.

Não, não é. É uma fábula simplista, moralista e maniqueista onde as brancas malvadas são pessoas infelizes e limitadas (é o seu ‘castigo’, portanto) e as negras violas davis, através do seu sofrimento, serão recompensadas mais tarde, quando o racismo estiver ‘amainado’.

Aparência 4: as atrizes dão um show de interpretação e mereceram ser indicadas para Melhor Atriz, Viola Davis, e duas indicações para Melhor Atriz Coadjuvante: Jessica Chastain e Octavia Spencer.

Sim, é verdade. Viola está esplêndida, mesmo que não tenha nenhuma chance de ganhar em um ano carregado de interpretações maravilhosas. Em geral, o elenco está mesmo muito bom, até as mais caricatas, como Octavia Spencer (que falta somente revirar os olhos estilo Louis Armstrong para emular as caracterizações de personagens negras do começo do século passado), ou Bryce Dallas Howard, a vilã-mor, que faz caretas sensacionais. Emma Stone é bonitinha, não realiza nenhuma grande atuação, mas também não atrapalha.

A produção está muito boa, o cuidado com o figurino e a direção de arte é extremamente bem realizada (os detalhes com objetos de cena têm uns achados bem colocados, como garrafas de coca-cola, revistas da época). Fotografia simples, bem feita. A direção tem o mérito mínimo de manter o tom baixo, de narrativa contida (caso contrário, desbancaria fácil para um melodrama  mexicano de telenovela).

Aparência 5: vai ganhar o Oscar de Melhor Filme (mesmo porque foi um tremendo sucesso de bilheteria nos Estados Unidos)

Eu espero que não.

‘babi’ diz:

particularmente, gostei muito do filme e discordei de muitos pontos da tua análise. não sou do tipo que tem paciência pra polêmicas na internet, mas senti muita vontade de contar o que acho.

discordo da idéia de que o filme seja racista. assisti-lhe apenas uma vez e imagino que para fazer uma boa análise teria que fazer isso pelo menos mais umas duas vezes. não é a história de grandes líderes ou de grandes movimentos. é a história de uma moça que escreve um livro com a ajuda de duas empregadas domésticas sobre a situação delas e de outras no estado do mississipi, numa época em que a kkk assassinava negros, martin luther king embrenhava-se na luta pelos direitos civis, em que o presidente estadunidense sofria ofensas por ter posicionamentos contra o racismo. essas coisas são mencionadas no filme, mas não são o cerne dele. não é por isso, no entanto, que ele seria racista. pelo contrário, acha que a abordagem de mostrar de dentro da casa a perspectiva das empregadas não diz que o racismo foi superado, que está em tempos remotos. o tom pastel ameniza a estética, mas não ameniza o discurso. (ainda mais se pensarmos como esta estética é recorrente: se vemos coleções de grandes grifes, percebemos como parte das moças de hoje se vestem de florzinha, apelam para uma feminilidade e, sim, destratam outros seres humanos independentemente da ternura que suas aparências tentam traduzir)
também acho complicado dizer que o filme não é de mulheres e sim de caricaturas. a tinta carregada está em toda narrativa que opõe bem e mal e nem por isso achamos que as personagens não são minimamente verossímeis. não acho que nas escolhas da direção a personagem da emma stone se sobressaia. ela é a heroína, sem dúvida, no papel clássico de quem ultrapassará barreiras e será vitoriosa. chavão de cinema clássico. mas a sua história pessoal de superação está muito aquém das que relatam as empregadas domésticas. é igualmente difícil dizer que o filme não leva à reflexão; isso só se contássemos com reflexômetros no fim de cada sessão (ou pelo menos de suficiente para termos material de amostragem suficiente). não acho a personagem de octavia spencer o estereótipo de negra burra. pelo contrário, acho-a a mais espontânea e por isso a mais cativante. o tempo todo é destacado seu talento na cozinha e o que sofre dentro de casa. se sua filha sai da escola, não é porque a mãe subestima a educação; é para perpetuar a profissão que cabia àquelas mulheres. o paralelo com a escravidão é claro e destacado na fala de outra personagem.

o cinema hollywoodiano não foi feito para ser revolucionário, mas não é só de “eu, um negro” que se cria condições para reflexão numa sala de exibição. é preciso pensar que o movimento negro americano, por exemplo, hoje em dia é composto por indivíduos que estão mais próximos do modelo de “histórias cruzadas” do que talvez “malcolm x”, do spyke lee. se apropriar de histórias como as retratadas no primeiro filme talvez diga mais à constituição do movimento do que o filme de um grande líder.

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Babi, sou como tu, não curto muito bater boca na internet, portanto não quero te responder em tom de polêmica simplista, mesmo porque seu tom foi tão educado que me sinto à vontade para bater um papo. Respeito sua posição e sua reação ao filme, vc gostou muito e eu entendo isso, e eu detestei, isso é claro, mas não quero ficar nesse plano imediato do gosto: há algumas observações suas que precisam ser melhor definidas. Como quando eu digo que os personagens são caricatos, essa não foi uma observação de gosto, mas uma constatação. Pode-se gostar ou não do resultado (não há nada de errado com Caricatura em si, ela pode ser mal ou bem realizada, pode ser uma crítica ou um comentário ácido, pode ser engraçada ou debochada, e em geral é utilizada na Comédia, por seu caráter exagerado), a questão é se a caricaturização foi proposital, e nesse caso, o filme vem com uma fachada de retrato da sociedade, isto é, tem pretensão de ser uma visão realista (mesmo que colorida) de uma história de racismo. Bom, a caricatura acontece porque o filme não é uma representação da realidade. Ele é maniqueísta, simplista e esquemático: ou o personagem é a vilã absoluta, o diabo na terra ou é a coitada abusada ou é a ingênua idealista ou é a racista maquiavélica ou é a racista condescendente. São estereótipos: A Babá Negra, A Jornalista jovem, bonita, e idealista. A Dona de Casa de Classe Média Alta. As Brancas Malvadas.

O entorno que existe ao redor delas é real e pontilhado por dados e momentos históricos verdadeiros, como você pontuou bem. A produção aqui é muito bem realizada, com excelente reconstituição de época, e umas sacadas bacanas (como as notícias na televisão ou em jornais entrevistos, garrafas de coca-cola, o figurino, os carros típicos). Não só foi bem realizado, como tem um propósito muito bem definido: ele passa uma carga de ‘realidade’, uma base para se pensar que o enredo principal tem relevância e substância. É um quadro gigante ‘realístico’ onde se inserem os personagens e a trama unidimensionais.

O esquema do filme é o do melodrama, a história exagerada, os dramas pungentes, o esforço em fazer o espectador chorar, se comover, e se a-cabana-do-pai-thomasredimir. Funcionou contigo, comigo não. De novo, não é uma questão de gosto: há melodramas bem feitos e assim assumidos e que considero interessantes. Aqui a intenção de comover, fazer debulhar em lágrimas, se condoer pelas pobres negras coitadas e abusadas que não tem sua importância reconhecida, é tão escancarada essa intenção, que me provoca o sentimento contrário, de irritação. Esse melodrama de cunho pretensamente crítico e de fachada anti-racista é muito típico da cultura norte-americana, com uma tremenda quantidade de filmes, livros, e começou bem cedo, no século 19, com um livrinho chamado ‘A Cabana do Pai Tomás’ e foi repetido, imitado, filmado e refilmado, inúmeras vezes. Se vc o pegar algum dia, vai constatar como o esquema é exatamente o mesmo: parte de uma indignação verdadeira (contra a escravidão ou os efeitos dela na sociedade), toma um personagem negro sofrido carismático e ‘de bom coração’ (no caso, é um negro bem idoso perseguido), com um final edificante que ‘prova’ que as coisas podem mudar.

A personagem branca que assume o posto de narradora ou deflagradora das iniciativas que vão fazer com que os próprios negros se conscientizem de sua força e acabem lutando contra sua posição rebaixada, essa personagem é uma verdadeira instituição no cinema norte-americano. Tem duas funções primordiais: uma ideológica (é sempre o branco que toma a verdadeira iniciativa, são sempre os negros que acompanham ou começam a lutar, depois); a outra é formal: simplesmente para que o público norte-americano se identifique com a personagem e compre sua história. Porque INVICTUS_KEYARTsabem que se o personagem principal (e incentivador principal) for um negro, as chances do filme ser renegado são muito maiores. Porque sabem que o público em si é predominantemente racista e preconceituoso, mas que ao contrário dos ‘racistas kkk’ tem uma certa vergonha de assumir isso, e que, portanto, fica contente de chorar durante uma hora e meia sobre a pobre viola davis e se sente redimido por isso. Já fez ‘sua parte’. Mas é fundamental que quem inicie o processo seja a branca, magra e bonita Emma Stone. Posso citar dezenas de exemplos relacionados, como o mesmo período em que se passa Histórias Cruzadas é o mesmo retratado em ‘Mississipi em Chamas’, onde dois agentes brancos do FBI resolvem um caso de morte de 3 militantes dos direitos humanos (dois negros e um branco), os agentes são feitos por Gene Hackman e Willem Dafoe. Para retratar a vida de um importante militante negro, Steve Biko, contra o Apartheid na África do Sul, em ‘Um Grito de Liberdade’ é partir da história de um jornalista branco que era inconsciente das mazelas raciais que aconteciam em seu país. (Aliás, falar da África do Sul e o apartheid em Hollywood é quase exclusivamente pelo ponto de vista branco: são os jornalistas do ‘Bang Bang Club’ que fotografam os últimos dias do apartheid; é o jogador branco ídolo dos brancos da áfrica do sul vivido por Matt Damon que se aproxima de Mandela, em ‘Invictus’, dirigido pelo Clint Eastwood). Para mostrar os horrores da Guerra do Camboja, em ‘Gritos do Silêncio’ conta-se as desventuras de um jornalista branco norte-americano que tenta encontrar seu amigo cambojano no meio da guerra. E por aí vai. cito esses de cabeça, mas poderia continuar.

Tudo isso, repito, no meu desejo de demonstrar que não estou considerando a questão do gosto pessoal. Agora,Babi, heheh, perdão, mas considero incompreensível ter gostado da atuação da Octavia Spencer. Sério mesmo? Ela está tão caricatural (aqui, no pior sentido), tão exagerada, tão desproposital, os olhos se arregalam, os quadris requebram, Tou falando sério, pareceu-me tão próximo do Zorra Total ou A Praça é Nossa, me incomodou tanto. A Viola Davis está tão maravilhosa, atuação tão sublime (pena que stava concorrendo com a Meryl Streep este ano, não tinha como ganhar), a Emma Stone está bem (não atrapalha, pelo menos) e a vilã Bryce Dallas Howard está tão maquiavélica que realmente sentimos raiva dela. Mas Octavia Spencer, não, não, não, essa pra mim está ruim demais, demais.

E pra terminar (peço perdão por me alongar tanto!), o cinema norte-americano não precisa ser ‘revolucionário’, de forma alguma (e não o são, mesmo!). Mas, eles conseguem (quando estão a fim) fazer reflexões sérias e até profundas, smesmo com seus esquemas simplistas, mesmo seguindo a receitinha, mesmo sendo melodramas. Propõem discussão sem descuidar do princípio fundamental do cinema, que é o Espetáculo, o prazer. Os filmes que citei acima são todos eles seguidores do esquema básico do The Help e, como disse, estão repletos de problemas análogos, assim como seu racismo não assumido, mas compartilham mais uma coisa em comum: são todos 1000% melhores do que ‘Histórias Cruzadas’.

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Monteiro Lobato: o racista

27 de setembro de 2012

Monteiro Lobato a Arthur Neiva, em carta enviada de Nova Iorque durante o tumultuado ano de 1928, criticando o Brasil: ”País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. (…) Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva.”

Monteiro Lobato a Renato Kehl: “Confesso-me envergonhado por só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante quanto o seu, voltado para tão nobres ideais e servido, na expressão do pensamento, por um estilo verdadeiramente “eugênico”, pela clareza, equilíbrio e rigor vernacular.”

“Renato, Tú és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque (“O Choque das raças ou o presidente negro, de 1926″), grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. […] Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade pecisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato.”

(Renato Kehl foi um dos principais expoentes da Eugenia no Brasil, que prega a purificação da raça branca através do acasalamento entre pessoas ‘saudáveis’, isto é, obviamente, as pessoas brancas, além da esterilização, segregação e subsequente extinção das pessoas negras)

Ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: “(…)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!…” (em “A barca de Gleyre”. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).

A Godofredo Rangel: “Meu romance não encontra editor. […]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri (obs: o ‘belo crime’ sugerido é a esterilização do povo negro). Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros.”

Trechos destacados por mim de dois belíssimos textos, os melhores sobre o assunto Monteiro Lobato e o racismo, ambos de Ana Maria Gonçalves: “Não é sobre você que devemos falar” e “Carta Aberta ao Ziraldo“.

Outro ótimo texto é o de Edson Lopes Cardoso, “A propósito de Caçadas de Pedrinho“, onde o autor demonstra como a negra Anastácia é colocada abaixo até dos animais do sítio.

E para desfazer o montante de bobagem falada sobre a suposta censura do CNE, este texto de Cesar Augusto Baldi (‘Monteiro Lobato, racismo e CNE‘, ) diz tudo.

(um adendo, depois de uma breve discussão no facebook)

Sabe, é muito chato ler documentos oficiais. Eu, pessoalmente, acho um porre. Mas não é possível tomar uma posição, emitir uma opinião, se não se souber exatamente o que foi dito. Para que não se diga bobagens. Para que se tenha os dados bem em mente de forma concreta (não ouvida ou avaliada por outras pessoas), para que se possa fazer sua própria avaliação e, principalmente, não cair em falsas discussões.

O tal Parecer CNE/CE nº 15/2010, o que deu início a tudo ao fazer suas considerações e recomendações em relação ao livro ‘Caçadas de Pedrinho’, está disponível na web e pode ser lido

(http://blog.centrodestudos.com.br/2010/11/03/cacadas-de-pedrinho-e-o-cne/).

Ele é chatinho de ler (detesto a linguagem empolada em que são escritos). Mas, sabe, ele Não propõe censura.

NÃO propõe que a obra de Monteiro Lobato seja queimada em praça pública.

NÃO propõe que seus livros sejam retirados de circulação.

NÃO propõe que suas obras deixem de ser lidas por alunos. NÃO propõe que sejam relegadas ao esquecimento.

Parece incrível, não é?, dizer isso depois de tanta celeuma e depois de tanta propagação da palavra CENSURA, CENSURA. Quando digo que não censura não há, nem pretensão disso.

Agora, não é necessário acreditar em mim ou na minha avaliação.

Que tal ler o texto original?

The Black Justice League

26 de setembro de 2012

Que tal uma visão um pouco diferente da tradicional Liga da Justiça?

A guerra contra os fracos – a Eugenia e a campanha norte-americana para criar uma raça superior

4 de julho de 2012

 

Eugenia.

Prática pseudo-científica para a constituição de uma raça superior sem defeitos genéticos, através do cruzamento constante entre seres humanos de antecedentes mentais, físicos e sociais de nível elevado. Cruzamento rigidamente controlado, é obvio, impedindo que indivíduos que possuam o mínimo de mancha em sua carga genética possam participar: negros, índios, ciganos, pobres, débeis mentais, defeituosos físicos. Portanto, é uma atividade cara, que pressupõe ações de largo alcance tanto pelo lado do espaço geográfico quanto da duração, em processos que podem durar gerações, já que a constituição física do ser humano leva algum tempo para incorporar os experimentos químicos que porventura se tornem necessários.

Quando os nazistas tomaram o poder, começaram a guerra mundial e tiveram a sua disposição um enorme contingente de cobaias humanas para incrementar suas pesquisas com total liberdade de manipulação, sem restrições moralistas e éticas, e com o total auxilio do Estado, todo este processo foi grandemente acelerado e o que durava alguns décadas pôde ser realizado em poucos anos.

No entanto, a eugenia não foi criada por Hitler, nem pelos nazistas, nem inclusive nasceu na Alemanha. Foi criada nos Estados Unidos da América do Norte, no começo do século XX, apoiada por magnatas ianques como Rockefeller ou Andrew Carnegie que sustentaram financeiramente estas pesquisas por décadas, através da criação de instituições espalhadas pelo país, publicações de revistas, livros, relatórios estatísticos constantemente atualizados que provavam a inferioridade racial, genética e humana da maior parte da população. Centenas de campanhas de esterilização foram levadas a cabo, milhares de norte-americanos foram esterilizados em movimentos de ‘prevenção da varíola’ ou ‘contra a cegueira hereditária’. Era uma prática reconhecida pela alta corte do governo federal, casamentos eram proibidos ou até mesmo desmanchados apoiados em leis promulgadas em vinte e sete dos Estados.

Edwin Black contou com uma equipe de pelo menos cinqüenta pessoas que se espalharam durante anos em quinze paises, recolhendo documentos, verificando depoimentos, comprovando os dados. Black topou com o material sobre a eugenia quando estava fazendo pesquisas para o livro “IBM e o Holocausto” (onde provava a enorme acolhida que cientistas nazistas obtiveram da instituição norte-americana logo após a Segunda Guerra). Quando se voltou para o assunto, centrou o foco onde seria mais óbvio, na Alemanha, mas percebeu o intenso contato que ideólogos haviam tido com ´cientistas´ dos Estados Unidos e a fraternal discussão que mantiveram durante tanto tempo (mesmo, inclusive, depois de começada a guerra).

Voltando no tempo, percebeu que esta ligação era muito maior, envolvia muito mais pessoas, recursos humanos e financeiros do que se poderia pensar.

Em 28 de janeiro de 1902 foi criada a CARNEGIE INSTITUTION, dedicada ao estudo de tal ‘ciência’, com um fundo de caixa inicial de dez milhões de dólares doado por Andrew Carnegie, ao qual logo se somariam diversas outras contribuições, que totalizariam outros mais dez milhões. Entre os vinte e quatro curadores, estavam nomes da mais alta ‘estirpe’ financeira, científica e governamental do país, como John Billings, co-fundador da National Library of Medicine, o Secretário da Guerra, Elihu Root, o filantropo Cleveland Dodge; e nomeado como o primeiro presidente da instituição, o paleontólogo John C. Merrian. Isto só para começar, mas foi a tônica dominante durante décadas.

Edwin Black disseca todos os documentos, ano a ano, declaração por declaração, resultados ´científicos’ um a um. O teste de QI, por exemplo, foi um ´desenvolvimento’ dos testes de inteligência monitorado por eminentes eugenistas durante o começo da Primeira Guerra Mundial para separar os débeis mentais dos ‘mentalmente sãos’ e aptos para lutar. A proverbial incapacidade e brutalidade dos negros foram provadas e provadas diversas vezes. Só para dar um exemplo: na década de vinte, um estudo estatístico descobriu que menos de doze por cento das
canções dos negros eram em tom menor. “Isso tende a justificar a impressão geral de que o negro, é por temperamento, risonho, alegre, otimista”, reportou a publicação EUGENICAL News. Como tal, o estudo fornecia a evidencia científica de que, enquanto “as canções dos escravos… referem-se a duros sofrimentos e a atribulações”, a constituição genética dos negros sob o apartheid americano demonstra, apesar disso, “uma disposição de animo dominante… de jubilo…”. (a mesma revista trazia outro estudo ‘interessante’: “os eugenistas começaram a compilar longas listas de capitães de navios e sua origem, para identificar um traço genético inventado chamado TALASSOFILIA, ou seja, um amor herdado pelo mar. A EUGENICAL NEWS listou vários capitães que morreram ou ficaram feridos em naufrágios. ´esses bravos marinheiros não merecem nossa solidariedade, declarou a revista, eles estavam seguindo seus instintos”).

Tudo isso, é obvio, justificava o corte de verbas para a educação de classes mais baixas, controle sistemático de natalidade, proibição de casamento inter-racial, a ‘eliminação’ das raças impuras, com extensas camadas da população servindo como ‘cobaias’ humanas. “Os eugenistas procuraram exterminar, metodicamente, todos os grupos sociais de que não gostavam ou que temiam. Foi uma campanha legalizada nos Estados Unidos para criar uma raça superior – não uma super-raça qualquer. Os eugenistas queriam criar uma super-raça puramente germânica ou nórdica, que tivesse o domínio biológico sobre todas as outras”.

A eugenia só começou a perder força quando começaram a ser revelados os horrores do Holocausto e as experiências ‘científicas’ de pessoas como Mengele foram expostas e os julgamentos de Nuremberg decretaram que as esterilizações coercitivas eram crimes contra a humanidade. Mesmo assim, em voz baixa e com menor arrogância, continuou ainda por décadas. Ou, simplesmente mudaram de nome, como diz Black, despojaram o manto da eugenia e estão agora no campo da Genética ou Engenharia Humana?
Mais atual do que nunca, o que Black faz é perguntar como impedir que novamente os poderosos invistam contra os mais fracos, em nome de suas paranóias racistas, travestidos com uma pretensa imunidade cientifica.

“Estas saudáveis crianças nasceram de pais saudáveis e normais. Pais doentes e fracos produzem filhos doentes e fracos’ – Propaganda eugenista – EUA

 

 

Bombril retrata-se por imagem racista

14 de junho de 2012

Há poucos dias, uma intensa discussão nas redes sociais (embora menor do que eu esperava) repercutia a imagem utilizada como logo para uma campanha de publicidade de um programa de televisão chamado ‘Mulheres que brilham’. A imagem é tão ofensiva e, ao mesmo tempo, tão retrô, que remete a um tipo de publicidade e de racismo explícitos praticados anos atrás.

Na ocasião, escrevi no facebook:

E, de repente, somos jogados abruptamente para décadas atrás, para o tempo em que expectadoras de programas ao vivo eram chamadas de ‘macacas de auditório’, e onde palhas de aço, além de sua imediata utilização para as ‘donas-de-casa’ (as ‘rainhas do lar’) para a lavagem da louça na cozinha, também serviam como componente das antenas de televisão, E também servia como sinônimo de cabelo crespo, de ‘cabelo-ruim’, ‘cabelo-duro’, o cabelo das mulheres negras. 

Nem espanta o racismo escancarado (ou pensavam que o desenho colorido disfarçaria a conotação racista?). Só fico pensando em quem idealizou essa campanha de marketing e sugeriu essa imagem, o quanto tinha ciência do quanto é ofensiva, do quanto é humilhante, do quanto é, simplesmente, racista. Ou, quem sabe, fosse exatamente essa a ideia.

Estou até curioso para saber (essa minha curiosidade mórbida…) como se defende uma imagem dessas. Como dizer que isso não está carregado de racismo abjeto? Ou será que dizem que até existe um pouco, sim, mas que, na verdade, é uma ‘homenagem’ à beleza da mulher? E, afinal, o desenhinho é ou não é hipercolorido? E, então?”

 

– Bueno, apesar da discussão não ter sido tão acirrada como eu esperava, como disse acima, alguma coisa repercutiu (deve ter pego em algum ponto sensível do bolso…), já que a Bombril resolveu mudar o logo e emitiu um texto de retratação.

Atitudes, no mínimo, interessantes.

 

Texto de retratação da Bombril:

Recentemente, a Bombril recebeu em suas redes sociais, críticas referentes à associação de um de seus principais produtos, a lã de aço, à cabelos crespos. Devido ao logotipo do programa “Mulheres que Brilham”.

Com o objetivo de ter o melhor posicionamento possível diante dessas manifestações, a empresa realizou uma reunião, ontem, dia 11/06, com lideranças do site Mulher Negra e Cia, a fim de entender e buscar o melhor caminho para solucionar o mal entendido.

Juntos, decidimos alterar o logotipo do programa, demonstrando nosso pedido de desculpas a todas as mulheres que tenham se sentido ofendidas de alguma maneira.

A Bombril faz questão de ressaltar que não teve a intenção de realizar qualquer tipo de associação que não fosse referente à valorização e exaltação da beleza e diversidade da mulher brasileira.

Desta forma, informamos que o logo será substituído por sua segunda versão, conforme a imagem, no quadro do Programa Raul Gil. Isto ocorrerá até o dia 30/06, pois temos mais dois programas gravados, por isso não há como substituí-lo imediatamente.

Para as redes sociais e portal da marca: faremos a alteração até o dia 18/06, já que estas alterações demandam algum tempo devido programação.

Queremos enfatizar que em nenhum momento a Bombril teve a intenção de menosprezar ou ofender qualquer pessoa.

A Bombril deseja cada vez mais estar próxima da mulher brasileira e valorizar o protagonismo feminino, em todas as esferas, pois acredita no jeito feminino de construir o futuro de um Brasil plural e colorido.”

 

 

 

 

 

 

 

 

Obama, Uhura, e o beijo interracial galáctico

10 de abril de 2012

 

Nichelle Nichols, a Tenente Uhura da clássica série de ficção científica, Jornada nas Estrelas, sendo recebida na Casa Branca pelo único presidente negro da história de um dos países mais preconceituosos e intolerantes do mundo, ambos  fazendo a saudação vulcana, o famoso gesto-símbolo do seriado. No entanto, o que deveria ser uma cena épica, carregada de um simbolismo tremendo, quem sabe até mesmo altamente contestador, tornou-se… vazia. Em outros tempos, talvez causasse impacto; hoje em dia, porém, provoca uma sensação fria de indiferença.

Nichelle já contou dos perrengues que sofreu e dos problemas que passou na época da série, que começou em 1966 e durou três anos (com muito esforço e apesar da aflitiva mesquinharia gananciosa dos produtores, nada interessados na importância histórica ou artística de um programa que não lhes dava o retorno financeiro pretendido): a pouca importância que seu personagem tinha nos enredos, quase sempre se limitando a uma frase ou duas no episódio inteiro; as crises de estrelismo de William Shatner, o capitão Kirk, que sempre queria tomar mais e mais espaço e não se incomodava de tentar diminuir a participação dos demais atores; as longas jornadas de trabalho e a precária preparação (todos tinham que correr e fazer o máximo no menor tempo possível para diminuir os custos e escapar do fantasma do cancelamento que  sempre os assombrava e os ameaçava a cada final de temporada), além dos contínuos problemas de produção, cortes de despesas, falta de pessoal, etc.

‘Jornada nas Estrelas’ era o projeto pessoal de Gene Roddenberry que acreditava ser possível fazer discussões profundas através de um produto eminentemente de entretenimento, mesmo na televisão, mesmo na década de 60 nos Estados Unidos. Sua primeira tentativa de realizar suas pretensões deixou os produtores perplexos: no episódio de apresentação, o personagem principal, Capitão Christopher Pike, era um caucasiano corajoso, inteligente e destemido, feito pelo branquíssimo Jeffrey Hunter, e até aí, tudo bacana. O problema começava pelos personagens coadjuvantes imediatos: na ausência do capitão, quem tomava conta da nave era uma mulher! eficiente e também muito destemida; outro personagem muito importante era um ‘marciano’ com aparência de diabo, orelhas pontudas e sobrancelhas finas arqueadas; e era uma sociedade igualitária, onde os humanos eram somente parte de uma federação que englobava várias raças diferentes. Para dourar a perplexidade, as missões daquela tripulação tinham um cunho de pesquisa científica  e levavam uma mensagem de paz para o universo. Sem guerras interplanetárias, sem aliens malvados e sedentos de invasão da Terra, sem a propagação da ‘natural’ superioridade humana (branca e norte-americana) por outros mundos.

A rejeição dos produtores foi imediata, e o episódio foi arquivado imediatamente, mas alguma coisa deve ter tocado suas mentes (e seus bolsos) pois permitiram que Roddenberry tivesse mais uma chance, Desde Que tirasse aquela mulher do comando (mulheres deveriam ser bonitinhas, insossas e servir como interesse romântico do capitão), esquecesse aquele ‘marciano’ esquisito, e agilisasse a história. Roddenberry disse ‘sim’ para tudo, sacrificou a personagem feminina, e manteve quase todo o resto exatamente como pensava antes. Em alguns pontos, até radicalizou: não só manteve o alienígena de orelhas pontudas, como o promoveu a Segundo em comando; mudou o ator principal; e, principalmente, aumentou a diversidade racial e intergaláctica da tripulação, colocando como auxiliares diretos um nipônico, um russo (em plena Guerra Fria) e uma mulher negra, Nichelle Nichols, como Tenente e Chefe das comunicações da nave Enterprise.

Nichelle sempre teve muita consciência do imenso valor simbólico de sua presença em uma mídia tão importante, principalmente na época do fervor dos movimentos de direitos civis, da contracultura e dos grupos negros de contestação, o que não relaxava a pressão que sentia e a deixava exasperada. Mas a coisa realmente piorou com o episódio do mítico Beijo Interracial Intergaláctido. Que não aconteceu.

Roddenberry sabia bem que pisava em terreno ultradelicado quando cogitou a idéia de uma história onde o Capitão Kirk beijava a Tenente Uhura, uma cena que seria histórica na televisão mundial (seria o primeiro beijo interracial em transmissão nacional), portanto preparou-a com bastante cuidado: escreveu um enredo com sentido e onde o beijo não seria gratuito, avisou os atores com bastante antecedência (até mesmo perguntaram para William Shatner se ele se ‘importaria’ de fazer a tal cena, e ele respondeu ‘Vocês estão me “pedindo” para beijar a Nichelle? E ainda vão me pagar?”). Nichelle ficou eufórica: além de sua participação no episódio ser bem maior do que o normal, o simples fato de existir aquela cena era do tipo de marcar a carreira de qualquer ator ou atriz. A série e seus participantes atingiriam de imediato outro patamar de importância.

Os produtores não entenderam desse jeito. Na verdade, ficaram horrorizados. Brigaram e tentaram retirar a cena. Roddenberry bateu pé e insistiu com veemência, mas foi obrigado a amenizar o máximo que pôde: o capitão estava sendo forçado a beijar a tenente, por conta do poder mental de alienigenas despóticos! (Shatner disse que até faria uma careta para enfatizar que o capitão estava sendo ‘forçado’ a isso). Não adiantou. No final das contas, o beijo ficou somente na simulação: quando o capitão se aproxima, a câmera se afasta e se fixa em suas costas durante todo o tempo em que dura o ‘ato’ e só se aproxima de novo quando os corpos se afastam. Shatner descreveu o momento patético ou simplesmente ridículo: os produtores fizeram questão de assistir a filmagem e ficaram ao redor, bem de perto, para se certificarem que os lábios dos dois nunca se tocariam de verdade…

O desânimo de Nichelle foi imenso, naturalmente. Para um seriado que se passava em uma avançada sociedade do século 23, o racismo era ainda muito próprio do mero século 20.

O cansaço e a irritação foram minando as resistências de Nichelle que pensou em desistir e teria até mesmo pedido demissão a Roddenberry. Na mesma época, durante um evento do movimento negro no qual participava, vieram lhe chamar e disseram que um grande fã seu queria lhe conhecer. Curiosa pelo tom de voz de quem lhe falou ‘um grande fã’, ela foi até a mesa e se viu sentada ao lado de Martin Luther King!, que lhe professou uma genuína admiração. Conforme a conversa evoluiu, ela acabou se soltando e desabafou os problemas da série e de sua vontade de se demitir. Depois de ouvi-la com atenção, King respondeu:

“- Não faça isso, Nichelle, você não pode fazer isso. Você não percebe que o mundo, pela primeira vez, está começando a nos ver como iguais? Seu personagem partiu para o espaço numa missão de cinco anos. Ela é inteligente, forte, capaz e um modelo maravilhoso de papel, não apenas para o povo negro, mas para todas as pessoas. O que você está fazendo é muito, muito importante, e eu odiaria ver você simplesmente abandonar tão nobre tarefa.” (‘Jornada nas Estrelas – Memórias’, William Shatner e Crhris Kreski, ed. Nova Fronteira)

Receber um pedido de uma figura de tal porte fez Nichelle Nichols recuperar o fôlego e continuar sua jornada. Por onde se vê o quanto Martin Luther King influenciou até mesmo a cultura pop do seu país!

Quase quarenta anos depois da estréia do primeiro episódio de ‘Jornada nas Estrelas’ na televisão, ainda é complicado avaliar os tremendos avanços dos movimentos negros norte-americanos na sua luta contra o racismo e pela plena inserção da população negra na vida orgânica do país, ao lado da manutenção das imensas desigualdades ainda vigentes. O que, em última instância, foram o que garantiram a posse de um homem negro na presidência dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que ele mantém, com todo garbo, carisma e elegância, a mesmíssima política (econômica e social, militar e civil) de todos os demais branquíssimos presidentes anteriores. Se não se pode concordar com todas as linhas com um cartum publicado logo no primeiro ano da gestão de Obama que o representava como somente um Bush com pele e traços afro-americanos, não se pode igualmente deixar de reconhecer que ele nunca se elegeria se não tivesse sido bancado, financiado e apoiado por boa parte da elite branca burguesa, cuja única preocupação é a manutenção eterna de seus privilégios.

Ainda hoje, beijos, sexo e relacionamentos interraciais, embora bem mais comuns, não são plenamente aceitos e respeitados, mesmo que não produzam escândalos violentos (pelo menos, publicamente).

Por conta de tudo isso, a simpática foto de Barack Obama ao lado de Nichelle Nichols é repleta de contradições, ironias e significações. É reconhecida e divulgada a ‘nerdice’ do presidente, que adora cultura pop, cinema, traquinarias eletrônicas e quadrinhos, e já foi retratado e reverenciado na companhia de vários superheróis. Ele, o primeiro presidente negro. Ela, a primeira tenente e chefe de comunicações negra da Frota Estelar, que pôde levar uma mensagem de paz e igualdade para além de universos conhecidos, embora não tenha podido beijar seu comandante branco. Seria demais esperar, seria ingenuidade-monstro da minha parte, acreditar que tal encontro deveria significar mais e ter um significado muito maior do que uma simples pose bonitinha?

Eu não esperaria nada de bombástico ou estratosférico. Com certeza, não aconteceria o fim do preconceito racial, uma tempestade protônica galáctica, a invenção do holodeck, muito menos a mudança radical nos rumos políticos e econômicos do presidente democrata. Mas, com certeza, Nichelle Nichols merece mais, muito mais do que um simples aperto de mão ou saudação vulcana, mesmo que de um ‘irmão negro’ tão poderoso.

Quem está sobrando nessa foto é Barack Obama.

 

 

 

 

Jogos Vorazes: fãs racistas e decepcionados

28 de março de 2012

 

Fãs racistas do livro ‘Jogos Vorazes’ (The Hunger Games, de Suzanne Collins) ficaram decepcionados, revoltados até, que importante personagem tenha sido representada na adaptação para o filme por uma atriz negra.

Parece até brincadeira internética, eu sei, mas o negócio é sério, como os twitts e mensagens recolhidas por estes sites que indico abaixo demonstram à farta, tais como “por que a (personagem) Rue tinha que ser negra? Arruinaram o filme!” “desde quando a Rue é uma pr*** “. E não foram poucas mensagens, isso realmente agitou a internet.

Até então, antes da estréia, as maiores discussões versavam sobre a capacidade do filme em garantir a continuidade da série no cinema (e o fato de bater recordes de bilheteria, ficando em terceiro lugar no posto de estréia mais lucrativa da história, com certeza garantiu isso) e se, afinal de contas, era ou não uma espécie de cópia ou spin off de Battle Royale (uma bobagem sem maiores danos). Para mim, ainda havia a questão de se Jennifer Lawrence lideraria ou inauguraria uma nova leva de personagens femininos de grande poder em filmes de ação (isso vamos ver mais para frente, quando contabilizarmos as consequências e influências posteriores; no mínimo, foi um excelente pontapé). E agora vem essa coisa dos racistas.

Só que, para ‘melhorar’ a situação, para embasbacar o bom senso, para dourar a estupidez, a personagem original do livro É negra! Um reles detalhe que os racistas simplesmente sublimam, esquecem, deixam de lado, e quando assistem o filme… ficam chocados.

Para Dodai Stewart, do site Jezebel, a própria personagem principal, Katniss vivida por Jennifer Lawrence, é descrita no livro com tendo traços de indígena nativa (ou, no mínimo, digo eu, com fortes possbilidades de ascendência indígena), descrição que não provocou reações, óbvio, pois Lawrence não acentua esses traços (assim como outros personagens).

Dessa forma, o racismo continua de mãos dadas apertadas com a estupidez e a ignorância. E agora com o analfabetismo.

 

http://www.iwatchstuff.com/2012/03/racist-hunger-games-fans-very-upset-movi.php

http://jezebel.com/5896408/racist-hunger-games-fans-dont-care-how-much-money-the-movie-made

 

 

Notas de um brasil racista: evolução étnica

9 de fevereiro de 2012

Em 1972, começou a circular a cédula de 500 cruzeiros, com o tema ‘integração nacional’, comemorativa da independência brasileira. De um lado, a integração geográfica e histórica, com pequenos quadros ilustrativos que começam pela ‘descoberta’, o comércio (com os índios derrubando árvores, imagino que pau-brasil; o interessante aqui é terem deixado de lado o comércio de escravos), passam pela colonização, independência e por final a tal integração.

O outro lado da cédula retrata a integração racial. Rostos perfilados, recortados, partem do perfil de um negro, e terminam com um caucasiano, de frente, franco, e por completo, ocupando o maior espaço. Os rostos não são exemplos da população brasileira: é uma tese. Demonstra o desenvolvimento da ‘raça’ brasileira, o seu ‘futuro’, o refinamento. A evolução racial.

A denominação oficial da cédula : do verso, dos quadros históricos, “Sequência de cartas geográficas históricas do Brasil”. Da frente, dos rostos: “Evolução da Etnia Brasileira”

No país do racismo ‘cordial’ e velado, não lembro de uma tomada de posição pelo governo de uma eugenia  tão explicita e assumida, mesmo durante a ditadura.

A cédula ficou em circulação durante quinze anos.

 

 

 

 

Miss Angola, Miss Universo e Miss Preconceito

14 de setembro de 2011

Leila Lopes, angolana e negra, conseguiu na noite de última segunda-feira, dia 12, o título de Miss Universo e o universo racista se revoltou.

Não gosto desse concurso, não assisto nem acompanho. Além de ser uma óbvia objetificação da mulher ao seu nível mais rasteiro, ainda é um show chato de doer. O fato de a nova miss ser uma negra africana me chamou um pouco a atenção, registrei o fato em minha mente e deixei passar. No mesmo dia, as manifestações racistas começaram a aparecer e confesso que fiquei espantando com a violência gritante. Não com o racismo em si, mas sua profundidade e ódio.

Logo, a blogueira Mariafrô divulgou a imagem mandada por uma leitora de um comentário postado no facebook de um racista carioca (Miss Leila Lopes e o racismo no facebook). E em São Paulo um site neonazista abria um fórum com opiniões do tipo “Angolana? Depois falam que não é resultado arranjado, é pura cota, podia por uma macaca para competir que ganharia também, foi totalmente aleatório mas tinha que ser uma das pretinhas, pela mor… Alguém assistiu essa porcaria? Serio?” ou ainda “Outro membro escreveu em inglês “monkey in a dress? absolutely revolting” (macaco em um vestido? absolutamente revoltante)“. (G1: Miss Universo 2011 sofre racismo em site que ostenta suástica nazista)


No facebook, comecei uma conversa interessante com minha amiga Camila Rodrigues e os comentários me ajudaram a organizar meus pensamentos e minhas idéias sobre isso. Transcrevo aqui, com a permissão da Camila, o que discutimos:

(pequenidades) Desabafei no facebook sobre esta reportagem, que achei ser duas vezes lamentável!

Sinceramente, eu lamento que em 2011 ainda exista uma coisa deprimente como concurso de miss universo, que coloca as mulheres como bonecas disputando pra saber qual é a mais “bonita”, sendo que todos sabemos que as mulheres ocupam (e muito bem) outros papéis na sociedade real : muitas sustentam família, exercem profissões que até há pouco eram só domínio masculino, ocupam cargos importantes…aqui no Brasi,nas últimas eleições, como eu li em um excelente artigo escrito na época pela minha amiga Lidiane, vimos aflorar tão claramente o preconceito contra a mulher como nunca pois tivemos duas mulheres candidatas a presidência! Uma delas ganhou a disputa (que não era por beleza, não) mas até hoje sofre com comentários insinuando que ela não possui atributos que caracterizariam uma mulher (como beleza, delicadeza, etc). Como esquecer que a mulher mais comentada na posse de Dilma foi a esposa do Michel Temer ( aquela que o Zé Simão chamou de Paquita)… que mundo machista nós vivemos, né? Eu, como mulher negra, infelizmente, também não me surpreendi nada com os ataques racistas, afinal parece tratar-se de uma africana, não é isso? E é o seu corpo negro (como os corpos dos afro descendentes em todos lugares) que é tomado como a única coisa a ser levada em consideração, afinal ela é negra, o que mais ela tem para oferecer?! Infeliizmente eu aposto que o UNIVERSO do qual esta moça é “miss” não a aceitará assim tão facilmente neste lugar, e muito menos permitirá que ela venha a ocupar um outro papel. É uma pena!”

Camila, eu não tenho discordância em nenhuma vírgula que você colocou. O concurso foi mesmo constituido para colocar a mulher sendo julgada somente pela sua aparência e atributos físicos, sem nenhuma relação com personalidade e capacidade. As mulheres estão lá para serem ‘bonitas e burras’, e a prova disso é o momento das perguntas e das respostas sem noção das misses, deprimente ‘comprovação’ de sua beleza e burrices (e, por extensão, de todas as mulheres).

Por outro lado, sempre considerei um absurdo e uma tremenda falta de lógica tentar encontrar uma ‘beleza’ que seja considerada a ‘melhor’ e ‘superior’ universalmente. Mesmo quando mais jovem, eu ficava espantado como as mulheres neste show eram e ainda são tratadas como pedaços de carne, onde só faltam aqueles ganchos de açougue para lembrar de vez uma exposição de carne bovina pronta para churrasco. E também não me conformava com um ‘espetáculo’ que é tudo menos divertido, nem mesmo meus anseios masculinos e machistas eram satisfeitos, pois a apresentação de tudo é pesadamente assexuada. E, além do mais, além da questão ideológica e social, pelo ponto de vista do ‘entretenimento’ a coisa toda é de uma breguice e de uma chatice absurdas, nunca consegui assistir a coisa até o final.

Este ano, eu só fiquei sabendo que o concurso havia acontecido porque alguns amigos assistiram e postaram aqui pelo facebook e pelo twitter, comemorando que a miss escolhida foi uma negra de Angola. O fato de que em tantos anos de concurso de miss universo, essa angolana foi somente a terceira (ou quarta) mulher negra a ganhar o concurso já diz tudo sobre a concepção sobre ele.

Ok, isso acima foi para dizer que concordo contigo. A questão, Camila, é que eu não estava me referindo ao concurso em si. O ataque e a misoginia homicida racistas não ferem nem se referem somente às participantes do concurso, mas todas as mulheres. O que surpreende não é o racismo acéfalo em si, óbvio, o que me chocou foi o tamanho e a profundidade da virulência e a raiva (canina) demonstrados. E a apatia e as reações mornas. Não me conformo que se diga que as atitudes racistas eram ‘esperadas’ e ‘inevitáveis’.

Também não se trata aqui de se defender um concurso imbecilizante e misógino (e igualmente racista em sua essência). Estou me lixando para o concurso de miss universo, acho que esse universo respiraria mais livremente se ele fosse extinto (o que está bem longe de acontecer). O problema não é uma Miss Universo de origem angolana negra ter sido atacada por racistas. É de uma Mulher Negra ser atacada, rebaixada e ameaçada de tal forma. E para responder a isso não basta dizer que era inevitável ou que não vale a pena por conta de ser um concurso de beleza: tem que ser tratado como tal, como crime, e seus autores devem ser presos e condenados e lançados para a vergonha universal.

Menos que isso é complacência.