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PINTURAS DE GUERRA

14 de fevereiro de 2017

Angel de la Calle. É um nome de uma pessoa, por mais improvável que pareça. Na verdade, é o nome de um dos autores de quadrinhos, novelas gráficas, mais importantes da atualidade. Escreveu uma impressionante biografia , em novela gráfica, um verdadeiro clássico, s

obre Tina Modotti, uma figura fascinante, uma grande fotógrafa, militante comunista, modelo, cineasta, da metade do século 20. Angel, igualmente militante, igualmente impactante, escreveu (entre vários trabalhos) os Diários, uma série de livros gráficos autobiográficos que tem como eixo o igualmente impressionante Festival de Gijon, festival de literatura policial, quadrinhos, cultura pop e alternativa de qualidade, do qual é diretor e principal organizador há vários anos. Eu escrevi sobre essas obras há alguns anos e tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente quando ele participou do lançamento, em uma Bienal do Livro em São Paulo, de ‘Modotti – uma mulher do século XX’ – publicado aqui no Brasil pela editora Conrad.

Angel de la Calle está com um novo petardo: PINTURAS DE GUERRA. E só pelo tema já dá para ter uma ideia do impacto: as ‘Guerras’, no caso, são as ditaduras latino-americanas, e através da mistura de personagens reais e fictícias, de técnicas de desenho aparentemente simples, não deixa de passar todo o impacto de sua verve, e a história tão complicada, tão dolorida. A obra repensa, rememora, discute e narra sobre as vítimas, os desaparecidos, os torturados, os mortos, os exilados, destas ditaduras. E que, inclusive, mais apropriado do que nunca, essa obra mais apropriada do que nunca, já de tanta nova onda de reacionarismo e volta de regimes de exceção saudosas das velhas formas de dominação ditadoriais parecem estar plenamente em vigor.

Tendo lançado em final do ano passado esta sua mais nova e contundente obra, Angel estará participando justamente hoje em um evento em Cuba, na Feira Internacional do Livro em Havana. PINTURAS DE GUERRA. Sem dúvida, o meu mais novo desejo de consumo.

tem um poco mais de informação aqui: http://www.sinembargo.mx/22-10-2016/3105978

e um ótima entrevista ao vivo no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=gf6Qlzuohn8

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Verbo 21, Outubro, e Alan Moore

22 de outubro de 2012

 

opa, número novo da VERBO 21 e opa, texto meu, tinindo de novo, sobre ‘Neonomicon’, quadrinhos de terror, violência e suspense de Alan Moore, publicado no Brasil pela Panini. Cercado de polêmicas, discuto se esse recente trabalho mostra realmente sinais de decadência do melhor escritor de quadrinhos de todos os tempos.

Mas, obviamente, VERBO 21 traz muito mais do que um texto meu:

Ano 13, número 159, outubro 2012

Neonomicon: o genial e o lixo de Alan Moore – Claudinei Vieira
Tradução: Quatro poemas de Paul-Jean Toulet – João Filho
JOSÉ WEIS: NEM CINISMO, NEM DOCE-LIRISMO – Sidnei Schneider
Gente da Minha Terra – Maria Lucília Viveiros Araújo
Perdendo a noção: um intertexto que se cria – Juliana Assis
A ANTOLOGIA METAPOÉTICA DE ANDERSON BRAGA HORTA – Claudio Sousa Pereira
Foucault, as genealogias e os poderes – Tatiana Sena
SUTILEZAS DO EROTISMO EM ROLAND BARTHES- Rodrigo da Costa Araujo
O Poeta Utópico – Mariel Reis
Cinema na televisão: considerações sobre o telefilme – Leonardo Campos

conto de Dênisson Padilha Filho
COLUNAS:
Aguacesa
Bordado sem dedal
Daguerreótipos
Diálogos
Os Gallos
Vértebra

ENTREVISTAS:
David Léo Levisky
Salgado Maranhão

http://www.verbo21.com.br/

Poderosa Miss Marvel

12 de agosto de 2012

 

Conversar com amigo nerd às vezes é engraçado.

Olhei para a ilustração e disse:

– Hum… Poderosa!

ele me responde:

– Não, é a Miss Marvel.

ok, pensei.

– Sim, sim, eu sei que é a Miss Marvel, só tô dizendo que a Miss Marvel é poderosa.

Uns segundos de silêncio. Ele volta, com bastante didatismo

– Claudinei, para ser autêntico, a Poderosa tem a ver com o Superhomem e a Miss Marvel com o capitão Marvel. Se você vai escrever sobre comics precisa citar os nomes direito.

Até pensei em provocar mais até ele entender que eu não estava falando sobre dados quadrinísticos, mas achei melhor mudar de assunto. Mas bem que eu poderia ter dito (pena que só pensei nisso depois):

– E a Mulher Gato? Ela também é Poderosa, não é?

 

 

 

Joaquín Salvador Lavado, aos 80 anos, é bem mais do que o Quino da Mafalda

17 de julho de 2012

 

Dono de uma vasta e clássica produção, ele já escrevia e desenhava bem antes de criar a admirável menina. Enquanto a fama de Mafalda corria mundo e firmava o nome do seu criador como um dos maiores chargistas da humanidade, ele nunca deixou de trabalhar em outras frentes, criando novos picos de qualidade. Chegou um momento quando Quino se sentiu sufocado pela predominância da turminha da Mafalda e, em uma decisão que abalou o mundo, decidiu nunca mais escrever nenhuma historinha com ela. Diferente de outro grande escritor que se sentiu tragado pela sua criação (Arthur Conan Doyle chegou a “matar” o seu detetive, o famosíssimo Sherlock Holmes, pois ninguém aceitava que ele escrevesse qualquer outra coisa; diante da pressão, voltou atrás e foi praticamente obrigado a “ressuscitar” seu personagem e reiniciar novas aventuras), Quino manteve sua posição e nunca mais a menina teve outra chance de aparecer.

Nisso, já lá se vão várias décadas. Se, por um lado, ficamos tristes com isso e só podemos lamentar a ausência de novas aparições da menina, por outro lado, podemos admirar e nos deliciar com todo esse mundo alternativo que o Quino nos mostra. Não à toa, um dos seus albuns possui o nome de “Mundo Quino”. Mesmo porque (e nisso também bem diferente de Conan Doyle) essa produção mantem um nível de qualidade e profundidade espantosos que nada ficam a dever ao seu personagem mais famoso.

Os albuns da Martins Fontes há muito tempo estavam fora de catálogo e alguns eram realmente inéditos, que só circularam pelo Brasil por edições portuguesas. Isso significa que havia pelo menos uma ou duas gerações que nem sequer sabia que existe um Quino “Não-Mafaldense”. De certa forma, são uns felizardos já que puderam ser apresentados, com toda a pureza e surpresa do primeiro contato, ao Mestre.

O humor de Quino não é aquele de despreocupação e desprendimento pelo qual possamos dar risada e esquece-lo logo depois. Muito pelo contrário. Ele deita um olhar crítico e meio que sem esperança sobre a humanidade. Sua melancolia é poderosa. Pode-se rir, sim, mas é sempre meio amargo, sempre desconfiado. Percebe-se o quanto tudo aquilo é real e verdadeiro. A maestria de Quino vem de sua habilidade de lançar olhares sobre o insuspeito lugar comum e cotidiano, banal até, e conseguir levantar ãngulos escondidos. E podemos quebrar a cabeça e pensar como não havíamos visto aquilo antes.
Ou então reconhecemos (e nos reconhecemos) aquelas situações, somos aqueles personagens, passamos por aqueles mesmíssimos eventos, ouvimos as mesmas palavras. O que, no caso de Quino, de forma alguma significa refrigério ou alívio.

Sem ser panfletário, sem carregar bandeiras nem virar para um partido, Quino pode ser considerado como político, na significação mais profunda do termo, talvez em sua verdadeira significação. Cada charge, cada tira, cada página carrega uma mensagem, ou melhor, explode um sentido. O riso pode vir fácil, os desenhos podem ser simples e diretos (“bonitinhos”), mas, quase sem percebermos, o impacto permanece em nossa mente.

Apesar de algumas atualizações, tais como a presença do celular ou o aparecimento da Aids, os temas de Quino são eternos: o amor, o sexo, a corrupção, morte, vidas vazias, exploração econômica, religião, dietas, velhice e juventude, educação, casamento, adultério e por aí vai.

Quando do lançamento de “Quinoterapia”, “Quanta Bondade!”, “Bem, obrigado. E você?”, Álvaro Moya esteve na Bienal do Livro de São Paulo 2007 para falar de Quino e prestigiar o lançamento destes livros. Combinação perfeita. Além de ser um dos nossos decanos quadrinistas nacionais, é um teórico e historiador da arte das histórias em quadrinhos. E conhece Quino pessoalmente (e uma miríade de ícones da cultura mundial, mas vamos nos ater ao assunto). Moya é um grande comunicador, muito bem humorado, brilhante, simpático e repleto de informações, a tal ponto que era difícil manter o foco de sua curta palestra no salão da Bienal. Discutiu as diferenças e suas respectivas origens históricas entre Charge e Cartum, para concluir o quanto em sua opinião Quino é muito melhor cartunista e chargista (o melhor em atividade no planeta) do que quadrinista, em uma clara referencia à ascendência e popularidade de sua personagem-mor, a Mafalda (O próprio Quino refere-se a si mesmo como um cartunista que, por conta de algumas circunstancias, acabou se tornando quadrinista).

As diferenças entre Charge e Cartum não nos interessam tanto aqui, estou considerando os dois termos quase como que sinônimos, basta dizer que naquela existe mais marcada um teor e motivo políticos e neste, o sentido é mais pela critica de costumes, pois Quino transita de uma para o outro com a mesma força e impacto.

O Cartum expõe toda a carga de sua mensagem em pouquíssimos quadros,em geral somente, embora isso não seja de forma alguma uma regra. Exige-se, portanto, do cartunista precisão, concisão, objetividade, inteligência. É lógico que o traço, o ‘estilo’ do desenho interessa, mas o fator mais importante é o modo como os elementos desta ‘história’ são mostrados, dimensionados e inter-relacionados. Texto, quando aparece, serve como mais um elemento gráfico, a dar sustentação ao que a imagem está mostrando.

Ou então o texto é contraste, comentário irônico, bate de frente com a imagem. Um dos trabalhos mais poderosos de Quino e da literatura mundial estão no álbum “Quanta Bondade”: uma mesma imagem tratada como se fosse uma fotografia de jornal é repetida seis vezes na página: em um cenário de guerra, que transmite de imediato a sensação de um lugar devastado, um soldado está entregando ou recebendo um objeto não identificável de uma mulher acompanhada de uma criança abraçada com uma boneca. Tanto a mulher quanto a criança estendem os braços para o soldado. As legendas para cada uma das imagens são as seguintes:

“BROGOVO: Um soldado do exército que apóia o presidente democrata Mazevich dá chocolate a uma mãe e sua filhinha entre as ruínas de sua casa destruída por guerrilheiros”.

“SAN JUAN DE TALUGAR: Um agente do corpo antinarcóticos controla os documentos de uma camponesa. Muitas delas usam os filhos para passar droga escondida entre os brinquedos”.

“MAHILI: Para comemorar o dia do exército as mulheres deste pequeno país seguem a antiga tradição de presentear os soldados com barras de kahoê, um doce típico feito com sementes de puah”.

“GENEBRA: Um informe da UNICEF revela que no mundo todo cresce o numero de crianças vitimas de abuso sexual. Na foto, uma mãe oferece sua filhinha a um soldado desconhecido em troca de chocolate.”

“KÁFARA: uma pequena kafarita oferece a um integrante da milícia vingadores da paz um poema de agradecimento por ter matado as crianças malufitas que roubaram sua boneca.”

“BOGROVO: Um guerrilheiro da frente patriótica dá chocolate a uma mãe e sua filhinha entre as ruínas de sua casa destruída pelo exército que apóia o sanguinário presidente Mazevich.”

Aliás, em comparação com os demais álbuns, este “Quanta Bondade!” é o mais ‘falado’, contendo grande quantidade de textos. Em contraste, “Quinoterapia” é quase sempre ‘mudo’. O que não muda nada no seu impacto.

Determinados quadros trazem uma espécie de economia espartana no desenho, com poucos detalhes, uma simplicidade absoluta, quase uma secura; em outros, há uma luxuria de traços, uma verdadeira floresta de detalhes, uma composição barroca acachapante. Tanto em um caso quanto no outro, batemos o olho e sabemos desde o primeiro momento: nada está fora do lugar, nada está sobrando, ou é de menos, tudo se encaixa e possui um função precisa. Perfeita. Como ‘deveria’ ser.

Álvaro Moya certa vez perguntou a Quino sobre seu processo de criação e a resposta foi muito elucidativa: entre a concepção de uma idéia e sua concretização como Cartum há um longo processo de experimentação, maturação. A idéia pode ficar martelando em sua mente durante anos!, até encontrar seu corpo ideal. Não é à toa, portanto, que o resultado nos parece sempre tão fechado e acabado. Realmente, não poderia ser de outra forma.

Coisa de mestre.

(texto revisado e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer, transposto aqui por conta da efeméride)

 

 

As vidas e os tempos de Martha Washington e Frank Miller no século 21

8 de novembro de 2011


É difícil entender onde foi que Frank Miller virou a esquina e começou a descer a ladeira. Na década de 80 foi um dos responsáveis por virar de cabeça para baixo a história dos quadrinhos e provou que essa indústria de massa não precisava ser idiotizante e que, mesmo utilizando elementos e personagens superheróis norteamericanos, era possivel trazer inteligência, vitalidade, sangue vivo, renovação. Revitalizou e, na prática recriou um personagem secundário e o alçou à primeira linha, com roteiros exatos e instigantes com o Demolidor (um dos meus personagens preferidos de todos os tempos), criou a bela e impiedosa assassina grega Elektra e escreveu uma das mais belas histórias que conheço, ‘A Queda de Murdock’. Em 1986 lançou o definitivo e retumbante ‘Cavaleiro das Trevas’, redefinindo daí para frente tudo e qualquer coisa que fosse relacionado ao universo dos superheróis, influenciando não só o mundo dos quadrinhos mas todas as artes integradas, em principal o cinema, que desembocaria atualmente nessa atual nova levada à sério (muito à sério) (mas não vou discutir aqui o impacto e os resultados dessas adaptações).

(Do outro lado do oceano, na Inglaterra, outro mestre, o mago Alan Moore também desferia chutes nos bagos, com o ‘Marvelman’, com o ‘Monstro do Pântano’, ‘V de Vingança’, e a melhor história em quadrinhos de toda a história, ‘Watchmen’, publicada exatamente na mesma época de ‘Cavaleiro das Trevas’).

Aos poucos, Miller foi perdendo o fôlego. ‘Hard Boiled’ é genial, ‘Sin City’ (apesar da premissa sensacional) é extremamente irregular, ‘300’ é ruim e chato. Embora nada pudesse prever o lixo inominável que foi a continuação de ‘Cavaleiros das Trevas’, projeto que recusou durante mais de vinte anos, apesar da pressão da editora, e que acabou fazendo (a pressão ou o dinheiro oferecido devem ter sido demais…). Do ‘Cavaleiro das Trevas 2’ nada mais falo além de Lixo, Lixo, lixo nos desenhos, na história, nas idéias. Um trabalho vergonhoso e indigno para quem já tinha feito tanto. (e sua carreira conseguiu piorar ainda mais, de modo inacreditável, quando resolveu realizar o filme do ‘Spirit’! Como é possível que um quadrinista, alguém que sabe tão bem o que significa escrever um trabalho memorável, tome um personagem tão fundamental e tão completo e rico e jogue na sarjeta tão estupidamente?).

No começo da década de 90, Miller saiu das grandes editoras, deu um tempo com superheróis e se dedicou a projetos mais pessoais e densos. Sem dúvida, sua fama e preeminência (e, com certeza, uma boa situação financeira) lhe permitia realizar outros experimentos. Daqui surgiram ‘Hard Boiled’ e a série Martha Washington (e, mais tarde, ‘Sin City’, claro). Miller estava no auge, estava animado, e isso se reflete na sua escrita. Interessado mais em escrever do que desenhar aqui, ele fez parceria com  Geof Darrow, para ‘Boiled’, e com Dave Gibbons (o consagrado desenhista e co-criador de ‘Watchmen’) para ‘GIVE ME LIBERTY’, a primeira minissérie da saga de Martha Washington.

‘Give me liberty’ é ambientada em um futuro próximo e mostra um mundo dominado pelas grandes corporações e um Estados Unidos controlado por um presidente popular e proto-fascista que conseguiu manipular as instituições e reformular a Constituição, o que lhe permitiu reeleições sem limite, e desembocar em um Estado totalitário. Os grandes bolsões de miséria aumentam a instabilidade política e provocam manifestações que são violentamente reprimidas. Martha Washington (que, não por acaso, é o mesmo nome da esposa de George Washington, o primeiro presidente norte-americano) nasce e cresce em um mesmo e único bairro fechado e inacessível, na verdade um dos enormes guetos destinados à população negra do país.

Testemunha do brutal assassinato de um professor liberal, Martha é recolhida e passa alguns anos em um instituto para doentes mentais, do qual finalmente consegue fugir para se alistar na PAX, forças militares internacionais cuja principal missão é defender a Amazônia dos interesses capitalistas não-norte-americanos. Encarando o exército unicamente como uma forma de sobrevivência e de salário, além de um modo de colocar um pouco de equilíbrio e disciplina no caos de sua vida, ela no entanto começa a perceber as entranhas da corrupção e da violência em que se movimenta. Até o momento da ruptura e, aí sim, da verdadeira liberdade.

Frank Miller estava empolgado, entusiasmado mesmo. Sua cabeça fervia de idéias, montava dezenas de histórias, misturava-as, empolgava-se, deixava-se levar pela animação. ‘Give me Liberty’ mostra a formação de Martha, a criação de sua consciência, seu fortalecimento, e sua afirmação como pessoa independente e digna. O enredo se levantava, corria, mudava, de forma meio atabalhoada, exagerada até, o que era um tanto contrabalanceado pela arte clean, séria e sisuda (até um tanto careta) de Gibbons.

Ao furacão narrativo faltou um pouco de equilíbrio artístico, o que faz com que o resultado final da série não constitua uma das obras-primas de Frank Miller, mas empolga e emociona. Martha Washington é um personagem sólido e magistralmente construído e um dos pontos altos de toda a carreira do quadrinista. Mesmo quando a história se enreda em uns exagerados labirintos fantásticos, sua persona, suas reações e seu crescimento são coerentes e coesos. Além do fato de ser uma grande personagem feminina negra com papel principal (posto do qual não me recordo de outros exemplos; pelo menos, não com essa importância).

E assim continua, com as demais séries e edições especiais (as quais, a maioria não foi publicada no Brasil) até a morte de Martha Washington, com 100 anos de idade.

Se comecei acima com tom amargo, lembrando das merdas que Miller tem feito ultimamente, é com entusiasmo agora que quero me referir ao ponto principal, que é afinal o verdadeiro motivo de ter escrito esse texto: ‘The Life and Times of Martha Washington in the Twenty-First Century‘, a publicação integral das histórias em um único volume pela editora Dark Horse. Edição soberba, de luxo, com capa dura, embutida em estojo, com 600 páginas, todas as séries incluídas, do nascimento à morte de Martha, com depoimentos de Miller e Gibbons e páginas com a arte conceitual, que nos permite ‘ver’ a criação de Martha. Opa, o que posso dizer? Eu quero, oras. Pode ser a edição menos suntuosa, sem capa dura.

Aliás, quando esse box foi lançado esteve custando $99,95 pela Amazon. Logo após o preço despencou (também, com esse preço, as vendas devem ter sido mínimas…). Atualmente, o preço ainda está salgado, mas bem abaixo da época do lançamento. Opa, então quero dois. Um para ler, mexer, manusear (quem sabe, até emprestar para amigos especiais). O outro para permanecer guardado, lacrado, mantido como um tesouro, como verdadeiramente é. Um testemunho de que Frank Miller sabia, realmente, de verdade, fazer quadrinhos.

 

* texto revisto e atualizado, publicado originalmente e resgatado do meu extinto site anterior

 

A Queda de Murdock

4 de outubro de 2011

Estamos em uma época em que, infelizmente, assistimos à queda, a pura decadência ou simples e pura demência, de um grande artista. É um espetáculo humilhante, embora impressionante, de total vergonha alheia. Dá até um certo medo, inclusive, de que toda uma nova geração de leitores vá conhecê-lo somente pelos seus últimos e ridículos trabalhos e simplesmente descarte o que foi feito antes. Já percebi pelos fóruns e discussões pela net o quanto seu nome está sendo execrado e colocada em questão sua suposta qualidade de narrador e quadrinista.

Não é para menos e, na verdade, nem mesmo condeno quem tenha dúvidas: é muito difícil, por exemplo, assistir a versão cinematográfica de ‘Spirit’ e acreditar que esse diretor foi o responsável por um terremoto na cultura popular na década de 80 e que revirou os conceitos de histórias de super-heróis, tornando-os mais brutos, mais sensacionais e emocionantes, através de uma narrativa firme e pulsante, repleta de ideias novas e bem articuladas, misturadas com toda sorte de influências e fontes, inclusive orientais. Boa parte de tudo o que está acontecendo atualmente de bom (e do pior, por certo) em cinema, quadrinhos, literatura e televisão, é por conta dos caminhos que Frank Miller divisou e começou a trilhar.

De todos os grandes artistas de HQs da atualidade, de Stan Lee a Alan Moore, de Neil Gaiman a Art Spiegelman, entre vários outros, Miller é o que melhor sabia mesclar suas propostas criativas e inovadoras, aliadas a uma técnica refinada (tanto no desenho quanto na escrita), travestidas e misturadas com o apelo comercial e com as necessidades de uma indústria de massas. Parece, no entanto, que nem ele mais acredita de que foi capaz de realizar aquilo; hoje em dia o que produz é de uma mediocridade absurda. Ou puro lixo.

O que torna, portanto, ainda mais importante e muito bem-vinda a recente publicação pela Panini em edição de luxo d’A Queda de Murdock, reconhecida como a melhor história já realizada sobre o Demolidor, uma das mais clássicas HQs de todos os tempos e, na minha opinião, a obra-prima de Frank Miller.

É preciso contextualizar a frase, claro. Para o mundo dos quadrinhos e pela força do impacto e de suas conseqüências, o seu trabalho mais importante e marcante é, sem dúvida, o ‘Cavaleiro das Trevas’ que (junto com seu ´Batman Ano 1’, publicado em seguida, e ‘Piada Mortal’ e ‘Watchmen’, de Alan Moore), explodiu, chacoalhou, balançou, desestruturou e redefiniu para sempre o universo dos quadrinhos, provando que era possível construir histórias potencialmente fortes, profundas e com enorme conteúdo narrativo e artístico a partir dos mesmos personagens superdotados e sobre-humanos, antes considerados infantis e rasos, destinados a uma massa de público amorfo e acrítico. Não mais, não depois de ‘Cavaleiro das Trevas’. Batman, manchado por anos como piada infame por culpa daquele seriado de tv dos anos 60, voltou a ser o personagem sombrio e melancólico, psicótico e violento, inteligente e brutal de suas origens, dentro de um contexto no qual Frank Miller se aproveita e faz uma sátira corrosiva, genial e ácida contra a sociedade, a mídia, a guerra, a violência desmedida, a juventude, a política, a corrupção, além de reinventar e recriar velhos personagens, com um viés muito mais adulto. De uma certa forma, Miller ‘humaniza’ (com muitas aspas nesta palavra) os super-heróis. Ou, talvez seja melhor dizer que ele traz os personagens inatingíveis para uma realidade próxima (ou ao menos factível) ao leitor. Torna-os, não reais ou possíveis, mas coerentes.

A narrativa é primorosa: fragmentada, nervosa, pulsante, irônica, pontuada e comentada o tempo todo por inserções de notícias televisivas (a sátira é poderosa e nada sutil), as páginas pulsam emoção. Mesmo em cenas de pouco ou nenhum movimento, há uma vibração, há sempre ‘algo’ acontecendo, a tensão é constante e onipresente.

Se ‘Cavaleiro das Trevas’ é um petardo, um chute histórico no estômago da mídia cultural e na forma como construímos e absorvemos os super-heróis, Alan Moore foi por outro lado com ‘Piada Mortal’, revelando, num corte preciso e fino, a íntima ligação entre as loucuras do Batman e do Curinga, e o quanto uma depende da outra. Com ‘Batman Ano 1’, Miller muda completamente o foco e o estilo em outro belo exercício de narrativa, ao recontar a origem do Morcegão com uma narrativa enxutíssima e naturalista, quase documentarista, demonstrando como seria possível a existência e a origem desse herói dentro de uma realidade prosaica. A aproximação e a identificação do leitor com a história atingem aqui o ponto máximo. E, por fim, para fechar o arco do que eu chamo ‘os anos de trovão’ dos quadrinhos (a grosso modo, a segunda metade da década de 80), aconteceu ‘Watchmen’, onde Alan Moore chuta todos os baldes, revira todas as ordens, realiza a sátira absoluta e, alegremente, liquida esse universo, brinca e reinventa todos os clichês, criando a obra definitiva.

‘A Queda de Murdock’ é praticamente da mesma época dos anos de trovão, embora não carregue o mesmo sentido histórico dessas obras citadas. Sua importância, no entanto, vai além de simplesmente trazer em seu bojo todos os elementos que apareceriam posteriormente e de sedimentar as bases para os petardos seguintes. Como escritor, Miller realiza aqui sua obra mais bem acabada, sem os excessos histriônicos / farsescos e lúdicos do ‘Cavaleiro das Trevas’ ou os exageros minimalistas, sem nenhuma contenção, de ‘Sin City’. A narrativa naturalista, direta e linear é ao estilo do que seria o ‘Batman Ano 1’, mas enquanto esta é uma história de fantasia e aventura, em ‘Murdock’ é um drama / thriller de suspense psicológico denso e complexo. E, ao mesmo tempo, divertido!

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Pode parecer engraçado, mas nunca considerei o Demolidor como um ‘deficiente físico’. A primeira vez que pensei nestes termos foi com a propaganda do execrável filme baseado no personagem (“o primeiro super-herói deficiente físico da história, um cego”). Claro, Matthew Murdock ficou cego na adolescência por conta de um acidente com um caminhão que carregava lixo radioativo. A cegueira, no entanto, foi acompanhada por um superdesenvolvimento dos demais sentidos (no gibi, eram descritos com riqueza de detalhes em várias páginas cada um dos acréscimos de sua sensibilidade superaguçada) a ponto de poder lutar, vingar-se dos assassinos do seu pai e combater o crime pelas ruas de Nova Iorque. Além do que, era bonitão (sua figura era calcada no Robert Redford), inteligentíssimo (formou-se advogado com brilhantismo), era cobiçado por todas as mocinhas (e catou várias), era respeitado pela população e pelos outros super-heróis, e sua alcunha era o ‘Homem sem medo’. Quando eu era criança, babava por ser um ‘deficiente’ assim! Obviamente, eu não era o Kick Ass, não me joguei em frente a nenhum caminhão de lixo atômico, mas tive muita vontade disso, pode ter certeza! (embora eu não tenha procurado; penso agora que foi bom nunca ter passado por um caminhão desse tipo na época…)

O Demolidor foi criado por Stan Lee em 1964 e chamou bastante atenção, mas apesar do inegável carisma do personagem e da ótima premissa nunca chegou a ser um herói de primeira linha e, depois de um certo tempo, ficou meio sumido, praticamente um coadjuvante de outros personagens mais importantes, como o Homem-Aranha. No começo da década de 80 chega Frank Miller, primeiro como desenhista e depois, como escritor, e o revigora de tal forma que não só alavancou o personagem como a sua própria carreira. As premissas básicas criadas por Lee com a origem, a história pessoal de Murdock, os poderes específicos, a atuação como advogado a par de sua luta como herói e, detalhe muito importante!, a estreita ligação com a cidade de Nova Iorque e mais especificamente com a região mais barra pesada do Hell´s Kitchen foram mantidas. Miller aprofunda essas características, imprime um ritmo e uma densidade às histórias de um modo como ainda não tinha sido visto, redimensiona outros personagens secundários e os eleva a patamares muito mais elevados (Fisk, o Rei do Crime; o Mercenário), fortalece a relação do Demolidor com as faixas mais miseráveis e violentas da população e do bairro, e a criminalidade do submundo. E cria a mais perfeita assassina, a grega Elektra Natchios, o que por si só já valeria para Frank Miller qualquer tributo de genialidade!

Em 1986, após um tempo afastado da Marvel (quando produziu, pela DC, o magnífico ‘Ronin’), retoma o Demolidor, e decide arregaçar de vez: escreve a ‘Queda de Murdock’.

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Karen Page trabalhou como secretária do escritório de advocacia de Matt Murdock e teve um caso com o advogado cego. Largou o emprego e o namoro (não lembro agora em qual ordem), tornou-se uma estrela de filmes pornôs, ganhou muito dinheiro, afundou nas drogas e perdeu tudo. Jogada num canto qualquer do México, para tentar manter seu vício não consegue nem se prostituir, pois está tão destruída que não arranja clientes. De tudo na vida, possui somente uma única coisa de valor, além das lembranças do homem que amou: um segredo. Um nome. Karen vende a identidade do Demolidor, o Homem sem medo, em troca de heroína.

A partir daí, os acontecimentos se sucedem de forma inexorável. Pois o segredo acaba parando aos ouvidos da pior pessoa possível: Wilson Fisk, um rico empresário que, atrás de uma fachada de honestidade e abnegação, na verdade controla boa parte dos negócios sujos da cidade, e que vai aproveitar bem dessa informação privilegiada para se vingar daquele que insiste em atrapalhar suas atividades ilegais. Para Fisk, o Demolidor não é exatamente um grande problema, nada que ameace de verdade o seu poder, é mais um incômodo, um aborrecimento, uma chatice.

O que importa aqui é o modo como Fisk, conhecido nas baixas rodas como o Rei do Crime, realiza sua vingança mesquinha: ele não ataca o Demolidor (que agora sabe ser o advogado Matthew Murdock) diretamente, abertamente. Ao contrário. Sem que Matt desconfie, as bases de sua vida vão sendo minadas: seu trabalho é posto em xeque quando o acusam de comprar o voto de um jurado; sua licença é revogada, perde o escritório e fica desempregado; seus cartões de crédito e sua conta no banco são bloqueados; os amigos e clientes se afastam; sua casa, seu único refúgio de tranquilidade e sossego, é destruída, e é obrigado a alugar quartos de motel com os últimos trocados que lhe restam no bolso.

Fisk percebe, deliciado, que Matt, ao não conseguir entender como tantos infortúnios acontecem em seguida, começa a perder não só sua base material, como também seu equilíbrio mental. A paranóia se instala, sente que todos (o universo inteiro) estão em uma grande conspiração contra ele. Sem poder identificar qual o verdadeiro responsável, seus sentidos superdesenvolvidos de nada lhe valem. Matt soçobra e o ‘Demolidor’ é de uma completa inutilidade.

Frank Miller, como em nenhum outro momento de sua carreira, escreve um roteiro primoroso. A lenta destruição da sanidade mental de Matthew Murdock é descrita com minúcias, acompanhamos os pensamentos e os sentimentos cada vez mais confusos e deprimentes, a sensação de acuamento, a solidão, a paranóia (ou psicose?; nunca sei o termo técnico correto), o sufocamento, a indecisão, a impotência. A maior luta, a mais renhida e sofrida, não é com nenhum supervilão ou planos mirabolantes, é consigo próprio, sua capacidade ou não de se manter são. Miller nos faz penetrar na mente atormentada de Murdock com tal maestria que participamos e sofremos juntos, percebemos o desconforto dos lençóis ásperos, sentimos os cheiros de mijo e sexo ao redor do quarto de motel ou das latas de lixo, nossos ouvidos são penetrados pelo chiado do rádio em má sintonia.

‘A Queda de Murdock’ é a descida ao inferno de uma pessoa outrora forte e centrada, firme e determinada, ao mais baixo que um ser humano pode alcançar.  Ou quase. O limite é a morte. E, é claro, óbvio e natural, que Miller também tratará da redenção, da recuperação, da superação. O Demolidor voltará, sem dúvida, com a força renovada, ‘nascido novamente’, como diz o título original.

Ao lado do grande painel da história completa, Miller também é um especialista (pelo menos, era) em nos proporcionar momentos específicos especiais, de absoluto impacto emocional. Para cada um, existe o seu. Em ‘Cavaleiro das Trevas’, quando Bruce Wayne, velho, amargo e desgastado, resolve vestir outra vez o velho uniforme aposentado, e sente-se reviver ao vento da noite e à pulsação das veias e se pergunta espantado para onde foram as dores, o desânimo e a fraqueza… Aquilo é genial! Em ‘Batman Ano 1’, meu momento preferido é a cena quando Gordon está sentado ao pé da cama, no meio da noite, ao lado da esposa grávida adormecida, sente o peso do revolver na mão e se pergunta se vale a pena lutar sozinho para mudar a situação de crimes de sua cidade. Em ‘Martha Washington’, quando a personagem principal se revolta e decide que não vai, de forma alguma, morrer abandonada no meio da floresta.

Quando Wilson Fisk decide acabar com a brincadeira, o pobre Demolidor leva uma surra homérica, é colocado dentro de um carro, encharcado de álcool e jogado para dentro do rio. Com tranquilidade, Fisk espera o carro ser descoberto e a morte do advogado ser considerada consequência natural dos acessos de delírios e depressão que todo mundo já tinha presenciado e lamentado. No entanto, quando três dias depois o carro é afinal resgatado, não há nenhum cadáver. Esta cena, estas duas páginas do prenúncio da virada, em que o Rei do Crime começa a sentir a pontada de uma coisa que nunca tivera antes, medo, estas duas páginas são as mais emocionantes que já li na vida.

Devo dizer que estou até arrepiado neste momento em que escrevo estas linhas.

– – – – – – – –

Não é possível saber se um dia o próprio Frank Miller também vai conseguir a redenção e a recuperação proporcionada a Matt Murdock, o advogado sem medo. Ele é muito novo ainda, tem pouco mais de cinquenta anos, há tempo para se recuperar. Porém, tem cometido uns pecados tão graves que fazem duvidar dessa possibilidade. Demorou muito, por exemplo, para concordar em fazer uma continuação de sua obra mais popular, justamente o ‘Cavaleiro das Trevas’, uma idéia por si só absurda. É provável que a pressão das editoras tenha sido tanta quanto ao tentar novas histórias com a personagem Elektra, mesmo depois de sua morte, um marco na história do Demolidor e das HQs. Creio que devia ser inimaginável para os executivos deixar de utilizar uma personagem que foi crescendo de importância e popularidade. Miller resistiu até um certo ponto, até que produziu ‘Elektra Vive’, um álbum com uma história frouxa e sem força mas graficamente muito bonito. Ao menos, Miller fez valer sua vontade e manteve Elektra morta.

Com o ‘Cavaleiro das Trevas’ a pressão deve ter sido muito maior! Quando afinal Miller sucumbiu, a esperança era que seguisse a linha da Elektra: sem pretensão de alcançar a qualidade da história original, mas pelo menos mantivesse a dignidade e a integridade do personagem e do autor. Nada, nada! A merda produzida em ‘Cavaleiro das Trevas 2’ é tão retumbante, a história tão idiota, a arte tão coloridamente fake (e mais não falo, para manter um certo decoro neste texto), que custa a acreditar que o 1 e o 2 foram feitos pela mesma pessoa.

Agora

Porém

Elektra é uma criação de Miller. Ele não criou o Batman, mas sua reinvenção com o ‘Cavaleiro das Trevas’ é tão forte que forçou uma espécie de co-criação, digamos assim. Se ele quer estragar ou destruir seu próprio trabalho, o único que podemos fazer é entristecer e lamentar sua falta de senso.

No entanto, com ‘Spirit’, a coisa é completamente diferente. O que Frank Miller fez com a criação do mestre Will Eisner é de um absurdo escroto. E indigno, porque realizado por um quadrinista!, que sabe bem o que significa trabalhar com quadrinhos e o quanto é difícil passar por cima dos preconceitos estabelecidos há tantos anos.

Ou, talvez, não saiba. Quem sabe, Miller tenha se tornado somente um bobo alegre perpetuamente deslumbrado com as imagens da magnífica versão cinematográfica de ‘Sin City’ e do meia-boca ‘300’, e fique perseguindo essa ‘glória’ de ser cineasta. Enquanto esquece o que é ser escritor e quadrinista.
Como disse acima, Miller ainda é muito jovem. Dá tempo de fazer muita besteira. Ao leitor, a besteira seria deixar de conhecer (ou reler, sempre) e degustar o que ele soube fazer de melhor: ‘Ronin’, ‘Cavaleiro das Trevas’, ‘Batman Ano 1’, ‘Martha Washington’, ‘Hard Boiled’, (nem tudo, mas boa parte de) ‘Sin City’.

E, naturalmente, ‘A Queda de Murdock’.

texto publicado originalmente no site VERBO 21

5 quadrinistas ilustram São Paulo

16 de setembro de 2011

 

É isso que dá ter uma boa idéia e reunir cinco artistas fodidaços (Spacca, Gustavo Duarte, Kitagawa, Danilo Beyruth, Marcatti): uma rica matéria linda e um caderno cultural de classe.  Cinco quadrinistas ilustram e dão dicas de seus pontos preferidos da cidade de São Paulo. No Estadão.

Aqui eu destaco o trabalho do André Kitagawa, que ilustra o Biros Grill.

E ainda tem uma entrevista com Fábio Moon e Gabriel Bá, autores de ‘Daytripper’, ‘um dos mais premiados quadrinhos brasileiros da história’, que se passa justamente em São Paulo e serviu como inspiração para esse caderno.

Hollywood promove a nova onda das heroínas-cabides.

5 de setembro de 2011

Elas são os apêndices românticos do personagem principal e servem explicitamente para garantir e manter a heterossexualidade do dominante, como fazem Blake Lively (como Carol Ferris, no ‘Lanterna Verde’), Hayley Atwell (Peggy Carter, ‘Capitão América – O Primeiro Vingador’), Gwyneth Paltrow (Pepper Potts, ‘Homem de Ferro’), Natalie Portman (Jane Foster, em ‘Thor’). Sua função é mostrar-se como bonito objeto de desejo sexualmente ativo, dedicar-se à admiração (mesmo que constrangida, às vezes) e o culto ao herói, manter o herói e o público atiçados, revelar um lado mais humano ou simples do companheiro, e colocar-se, de quando em quando, em perigo iminente de morte, prestes a ser salva.

A rigor, nunca estiveram de fora. Praticamente, todo o cinema de ação e aventura de Hollywood se guia, desde sua fundação, pela presença da mulher como ser frágil e que precisa ser protegido. Quando fortes, determinadas e independentes, são tratadas e reconhecidas como seres estranhos e bizarros, coisas do demo, provavelmente, que precisam ser ‘reconduzidas’ ao seu estado natural de ‘mulheres’ ou ‘rebaixadas’ para vilãs (é a própria gênese e característica da espécie ‘femme fatale’, as belas e perigosas mulheres que, entre as décadas de 30 e 50 usavam sua malícia e sua força sexual para atacar o centro do poder masculino, seduzi-lo e convencê-lo a fazer o que ela quisesse, para depois massacrar seu coração, roubar todo seu dinheiro e, quem sabe, matá-lo) (e, em geral, elas morriam no final do filme).

No mundo dos quadrinhos de super-heróis não é diferente. A criação do Super Homem no final da década de 30 presupunha seguir a lógica e o sentimento da época (na verdade, nem mesmo se colocava isso em questão) e Lois Lane era a própria lógica em ação: bonita e atrevida, em sua ânsia de se valorizar como jornalista (portanto, passando por cima do status quo masculino) acabava por atrapalhar o trabalho do super e se tornava o alvo do vilão; ser salva completava sua missão na história. Nunca, em momento algum, nem nos quadrinhos ou nos filmes, esse sistema será quebrado, mesmo que seja temporariamente ameaçado, por conta do suspense do enredo.

Dirigido para uma massa selvagem de adolescentes masculinos norte-americanos sedentos de fantasia, esse mercado de hqs não abria espaço para superheroínas. Quando surgiram, eram somente reflexos do heroi-mor (portanto, em posição subalterna) como Batgirl, Supergirl, ou então meros coadjuvantes. Em outros tempos, Lois Lane no auge de sua popularidade (e na rabeira do sucesso do  Azulão, claro) chegou a ter sua própria revista em quadrinhos, com seu nome em maiúsculas (e em mínúsculas ‘a namorada do superhomem!’) onde seu maior objetivo era descobrir a verdadeira identidade do Super. E casar com ele.

A lenta e sofrida ascensão sócio-econômica das mulheres cobra um pouco de atenção, e o imenso acúmulo de histórias e experiências narrativas ao longo desses mais de oitenta anos de super-revistas possibilita a inserção cada vez maior de personagens femininas fortes que se descolam de seus pares machos. O mercado, obviamente, continuava a ser dirigido por homens e consumido por homens adolescentes, sem a menor idéia de como se dirigir a um público feminino ou sequer como criar esse tal público. Uma experiência interessante foi um período da revista da Mulher Maravilha em que ela abandonou sua fantasia vermelhoazulada de pseudoamazona grega e deixou de caçar superbandidos para tentar uma vida de humana comum na cidade grande. Ela não deixou os superpoderes, mas usava-os para ultrapassar os problemas do cotidiano e discutir questões do dia a dia das mulheres contemporâneas. Interessante. Foi um fracasso, essa tentativa de ‘diálogo’ durou poucos números e logo ela voltou a usar os shorts curtos estrelados e o corpete vermelho.

Para Mulher Maravilha, é necessária uma discussão mais ampla do que cabe nesse texto. No entanto, é preciso deixar demarcado que, apesar da importância adquirida pela personagem até hoje, pela sua força e inserção no masculino universo superheróico e pela visibilidade conquistada como ‘representante’ feminina (ou até mesmo feminista), ela continua sendo regida pelas mesmas regras e lógica anteriores. Não se pode perder isso de vista sob o perigo de pensar que houve, em algum momento, alguma ruptura ou até mesmo quebra do pensamento hegemônico. Não, não houve. Dito isso, é fácil de perceber que há uma diferença abismal entre o tratamento adotado hoje em dia em relação a personagens femininos do que há décadas atrás. Nenhuma revolução, mas avanços.

Enquanto isso,

em Hollywood existe uma espécie de consenso (ou uma concepçao pré estabelecida) de que mulheres não funcionam para liderar filmes de ação. Seriam fracassos garantidos. As mulheres não se identificariam e os homens não assistiriam. Elas podem ser muito importantes, ou até mesmo fundamentais para a história, mas nunca como personagens principais. Angelina Jolie é tratada como exceção, como realmente é. E ela pode socar os produtores com o dinheiro arrecadado …  essa concepção não muda. Para se ter uma idéia em números: até janeiro deste ano, 2011, Angelina foi responsável pela arrecadação de 479 milhões de dólares por ‘Sr. e Sra. Smith’, 340 milhões por ‘O Procurado’, quase trezentos milhões com ‘Salt’, 280 milhões com ‘Tom Raider’, 160 milhões com ‘O Turista’. Digamos que números nada desprezíveis.

Mas por que Angelina Jolie é uma exceção tão luxuosa? Por que as mulheres no comando, em geral, são ‘garantia de fracasso’? Quantas outras atrizes são capazes de chegar perto do que Angelina faz?

A resposta chega a ser singela de tão simples. A acomodação e a covardia tipicamente hollywoodianas. Impede-se novos filmes com apostas altas em mulheres como principais, portanto há menos visibilidade; e quando produzem é de modo tão covarde e recalcado que o resultado, no mais das vezes, é desastroso. O desconforto em ferir quaisquer átomos de sensibilidade masculina acaba sendo, por mais irônico que pareça, castrador.

Dessa forma, a covardia e o desconforto hollywoodianos podem produzir um filme bem aceito como ‘Tomb Raider’ e, mais tarde, uma merda fumegante como ‘Elektra’ (que descaracteriza e aniquila um dos personagens mais fascinantes e complexos já criados na cultura pop). A covardia e o desconforto masculino também são responsáveis por uma parte do fracasso em retomar o personagem da Mulher Maravilha, tanto na televisão quanto no cinema. O episódio piloto do seriado cancelado (facilmente baixável em qualquer lojinha torrent a sua disposição) é mais do que nunca a prova cabal da completa incapacidade de se compreender uma personagem com tal estatura ou, ao menos, de se respeitar (ou prestar atenção em) décadas de construção e narrativas já prontas e testadas anos a fio. O péssimo roteiro, a produção pobre, o argumento fraco, a descaracterização do personagem, os atores inadequados, também ajudam, claro, mas a má vontade já é de antes e possibilita todo o resto.

Com a nova onda de superheróis, as mulheres-cabides, as personagens-apêndices, as atrizes coadjuvantes preocupadas em se manterem bonitas e responsáveis em fazer brilhar ainda mais o poder macho, estão igualmente em voga. Elas não são frágeis nem submissas (a maioria), não esperam para serem salvas ou resgatadas, tomam posição ativa de comando e brigam tanto quanto. Mas são sempre secundárias.

Héctor Camillo e a filosofia das novelas

19 de agosto de 2011

O Filósofo e as Novelas – 1

O Filósofo e as Novelas – 2

O Filósofo e as Novelas – 3


Conheça Héctor Camillo

Héctor Camillo cutuca a filosofia, a palestina, a morte…

9 de agosto de 2011

Conheça o filósofo urbano Héctor Camillo

Apresentando Héctor Camillo!

Héctor Camillo indica a direção

Héctor Camillo e a Crise Econômica

Héctor Camillo e as Musas de Cinema

Em que pensa o filósofo urbano Héctor Camillo?

Héctor Camillo explica Amy Winehouse

Héctor Camillo explica Amy Winehouse

8 de agosto de 2011

 

Conheça o filósofo urbano Héctor Camillo:

Apresentando Héctor Camillo!

Héctor Camillo indica a direção

Héctor Camillo e a Crise Econômica

Héctor Camillo e as Musas de Cinema

Em que pensa o filósofo urbano Héctor Camillo?

Em que pensa o filósofo urbano Héctor Camillo?

7 de agosto de 2011

(opa, resgatando post do Héctor que já foi publicado em outro site, mas não aqui, e prestenção, a pedido de milhares, novas aventuras filosóficas já a partir de amanhâ)

Conheça o filósofo urbano Héctor Camillo:

Apresentando Héctor Camillo!
Héctor Camillo indica a direção
Héctor Camillo e a Crise Econômica
Héctor Camillo e as Musas de Cinema

 

New York Comic Con Meet-up

4 de fevereiro de 2009

Nesta sexta-feira, dia 7 de fevereiro, começa a mais badalada convenção de fans de histórias em quadrinhos, a Comic Con de Nova York, reunindo produtores, leitores, desenhistas, artistas em geral, nerds, geeks, interneteiros e todo o universo que transita pelos comics-gibis! Vamos?

Pena que justamente neste dia terei um compromisso inadiável ali por perto, em Pindamonhangaba… Mas não deixo de registrar, faço questão de destacar, a beleza desse convite! Tentei encontrar o artista responsável, porém não encontrei seu nome (tá, tudo bem, também não fiz assim um Enorme trabalho para encontrá-lo, mas pô eu acho que tinha de estar em destaque fácil).

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Hosted by iFanboy, ROFLThing, 1UP and Popgun Who: Internet superstars and hosts of Revision3’s weekly comic book show iFanboy: Conor Kilpatrick, Ron Richards, and Josh Flanagan; Tim Hwang, founder of ROFLCon, the world’s greatest Internet culture conferences, Garnett Lee, editor of 1UP and Mark Andrew Smith & Joe Keatinge, editors of the Harvey Award Winning Popgun Anthology published by Image Comics. Featured attendees also include: Christian Beranek, writer, Disney’s Kingdom Comics; Paul Cornell, writer, Marvel Comics’ Captain Britain & MI13 and television writer, Dr. Who and Robin Hood; Mike Norton, artist, Green Arrow & Black Canary and Trinity; Tom Katers, co-host, Around Comics and host, Tom vs. The Flash; Meredith Gran, writer, Octopus Pie; Jonathan Rosenburg, creator, Goats; Scott Kurtz, creator, PvP; Brad Guigar, creator, Evil Inc; Robert Khoo, business manager, Penny Arcade; Neil Kleid, cartoonist, RANT Comics, Action Ohio, The Chemistry Set; Wes and Tony, Amazing Superpowers; Scott Ramsoomair, cartoonist, VG Cats; Johnny Johnny, Tiki Bar TV; and more to be announced! What: Meet-up with iFanboy, ROFLThing, 1UP and Popgun during New York Comic Con! You’re invited to mix and mingle with Comic Book creators, fans and Internet celebrities as they experience Comic Con. Find out the latest happenings from the Con and all things entertainment—and share a beer with the hosts and creators, too. When: Saturday, February 7 7:00 p.m. – 10:00 p.m. Where: Stitch Bar & Lounge 247 West 37th Street Between 7th and 8th Avenue New York City

Héctor Camillo e as Musas de Cinema (hc – 4)

24 de janeiro de 2009

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criação e texto: claudinei vieira

(conheça mais do Héctor AQUI)

Héctor Camillo e a Crise Econômica (hc – 3)

18 de janeiro de 2009

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criação e textos de Claudinei Vieira

tempo instável, watchmen, de modo geral, e outras notas desconcertantes por aí

13 de janeiro de 2009

 

Editora Record entra na dança dos quadrinhos

Quem dá o toque é Odair Braz Jr. no seu blog V-oitão. A Record, que até hoje publicou pouquíssimo coisa de quadrinhos e de forma esporádica (dá para lembrar do Asterix, claro, do Artemis Fowl) resolveu investir mais fundo na área de quadrinhos e vai começar a trazer algumas coisas interessantes.  Por enquanto, bem devagar e muito timidamente, meio que sondando o terreno, me parece.  Entre algumas novidades, Odair cita: 

“-Adaptações para o mangá da obra da escritora Meg Cabot (inclui as continuações de Avalon High e Sorte ou Azar?)

-Adaptação para os quadrinhos da série Jovem James Bond. O primeiro volume será Missão Silverfin. Arte de Kev Walker.

-Graphic Novel da história de (baseado na história da artista Alice Prin, que recebeu o apelido de Kiki de Montparnasse e conviveu com diversos artistas na França dos anos 20).

   kiki  kikicomics

-Série de mangás adaptando a obra de Shakespeare. Começa com Hamlet (que sai na Bienal 2009) e haverá ainda Sonhos de Uma Noite de Verão e Romeu e Julieta. Mais para o fim do ano sai Ricardo III e A Tempestade.

-Prince of Persia, que é a adaptação para as HQs da série de games com o mesmo nome. Sai junto com o filme, no início de 2010.

Ainda há outros títulos em processo de assinatura de contrato.”

Como disse, timidamente, e muito longe do peso que a Companhia das Letras anunciou para esse ano. Mas é um começo. Só esperemos que eles se entusiasmem e tragam logo obras mais densas (os quais espero que estejam entres títulos em aberto). Possibilidades não faltam.

NINJA ASSASSIN

Filme que está sendo filmado agora, badalado e bastante comentado, significando que o departamento de marketing de Hollywood continua a toda. Neste caso, nada disso havia me influenciado. Não vou falar da história, pois realmente não interessa, coleção de clichês de filmes de kung-fu, máfias chinesas, vinganças e tudo o mais. Tem o fato de estar sendo dirigido por James McTeigue e produzido pelos Irmãos Wachowski, a mesmíssima equipe do ‘V de Vingança’, o que para alguns pode até servir como incentivo, mas para mim só piora a situação (já disse por aqui o que penso do tal filme do ‘V’). 

Portanto, foi com certo desprezo que acabei vendo este vídeo, que mostra as sessões de treinamento das lutas, e a coreografia dos dublês. Não faço a menor ideia do que vai acontecer no filme quando for lançado (ainda sem data marcada, sabe-se somente que vai ser para este ano), mas este vídeo é uma pequena joia. Muito bem montado e editado, ótima trilha musical, passa muito bem a noção de que aqueles movimentos (ainda sendo moldados e experimentados), serão parte de cenas editadas e produzidas de um filme pronto. Pela coreografia vemos como algumas lutas, socos, pontapés, brigas de espadas são realizados com os atores bem distantes entre si, mas nunca perdemos a ilusão. Inclusive, alguns momentos são tão bem sincronizados que, apesar de sabermos que é tudo ensaio, nos espantamos que alguns rostos, costas e pernas não sejam completamente quebrados.

Vale a pena ver. De repente, pode ser a melhor coisa do filme todo. 

– Trailer japonês de WATCHMEN

Este é outro filme cuja ansiedade em assistir está deixando muita gente de cabelo branco antes do tempo. E aí as apostas estão altíssimas, e não há meio-termos: ou será um filme do século ou Roubada Descomunal. Tudo o que está sendo veiculado e divulgado aponta tanto para um lado para o outro. As cenas vistas são de espantar os olhos e impressionar fortemente. Por outro lado, os problemas com a produção (com os produtores, mais especificamente) sempre deixa a sensação incômoda de querer saber o quanto o diretor Zack Snyder teve que ceder ao moralismo e à covardia hollywoodiana (as questões sobre o final da lula gigante já são famosas, até meio batidas). 

Seja lá como for, o resultado um dia veremos. Por enquanto, tem esse trailer japonês que já está circulando há algum tempo e é simplesmente o melhor trailer de Watchmen já produzido até e um dos melhores que eu já assisti. Emocionante e instigante. 

tempoinstavell

tempo-instavelÉ hoje, o esperado lançamento do ‘Tempo Instável‘. Já falei desse cd por aqui, não vou ficar me repetindo. O que fica repetindo em meu computador é o próprio, devo ter enchido o saco da minha família, pois de vez em quando não aguento e tenho que colocá-lo no volume máximo. Eles até que são tolerantes, mas concordo que ouvir as mesmas músicas em altíssimo som pela trigésima em um mesmo dia pode irritar um pouco. A eles, quero dizer.

Hoje, não vai ter problema com a altura do som. Nem com a qualidade da música, com a perfomance dos músicos, com o show em si. É só preciso prestar atenção neste detalhe fundamental: como o Mário Bortolotto justificadamente lembra é sempre muito difícil reunir todos os integrantes dessa banda, pois todos possuem seus próprios trabalhos individuais e stão sempre correndo de um lado para o outro.

Em outras, e claríssimas, palavras: não haverá outra apresentação desse banda, pelo menos nada em vista. Portanto, se perder hoje, perdeu.

A banda ‘Tempo Instável’ é Mário Bortolotto (vocal), Marcello Amalfi (guitarra e trompete), Fernando Miranda (piano e teclados), Caçarola (baixo), Conrado Maia (bateria).

Hoje, terça-feira, 20h30

Lançamento do CD “Tempo Instável”

Sesc Vila Mariana – Auditório, Rua Pelotas, 141 –

R$ 12,00 – Inteira / R$ 6,00 – estudante, usuário matriculado no SESC e dependentes / R$ 3,00 – trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes

——

e-flyer-geralAmanhã, no Rio de Janeiro, acontece o ‘DE MODO GERAL‘. E quem convida é o caríssimo Paulo Scott. Fala Scott:

“Caros, prezados, queridos amigos, aviso em cima da hora porque a vida tem sido um trânsito só, este é o DE MODO GERAL (Cinematheque, Botafogo, Rio de Janeiro, Brasil), invenção articulada em outubro do ano passado (e anunciada no início de dezembro); claro, o objetivo é a diversão, mas também evidenciar as coisas mais legais que vem acontecendo no Brasil (e no mundo) e, no final de cada noite, já que é verão na cidade maravilhosa, dançar sob trilhas de primeira. Apareçam, divulguem. 

Bom 2009. 

Paulo Scott. 

Aí, então: 

>>>> DE MODO GERAL : REVISTA AO VIVO DE COMPORTAMENTO BRASILEIRO <<<< 

Crônicas sem rodeio sobre LITERATURA, MÚSICA, HQ E CINEMA, entrevistas, discotecagem lado A e lado B, opiniões, twitter, vídeos inusitados. Tudo isso num clima de sala de redação, com os colunistas Rodrigo Penna, Flu, João Paulo Cuenca, Allan Sieber, Paulo Scott e Arthur Dapieve (que passará a integrar o cast a partir de fevereiro), percorrendo, quinzenalmente, as atualidades e idiossincrasias do cenário cultural (e antropológico) brasileiro com humor e ironia. E ainda: show com bandas brasileiras, performances-relâmpagos e, depois de tudo, festa sob a regência sonora dos seis colunistas. 

Os convidados desta primeira noite, dia 14 de janeiro, serão: 

Banda LEME

Fausto Fawcett

Márcio André (e suas polifonias para violino e processamento eletrônico)

Rogerio Skylab (entrevista)

Mr. Baratos da Ribeiro Maurício Gouveia (mostrando os dez melhores vinis dançantes da sua coleção)

SERVIÇO

Quando : 14/01

Onde : Cinemathéque

Horário : a partir das 20h30

Ingressos : 20 reais

Lista amiga : 15 reais

demodogeral@gmail.com

pscott@terra.com.br

http://pauloscott.wordpress.com”tempos

Héctor Camillo indica a direção (hc2)

9 de janeiro de 2009

q12q21q3criação e texto: claudinei vieira (conheça Héctor Camillo: 01 )

A dança dos quadrinhos no Brasil, parte 2: A Companhia das Letras entra na dança

8 de janeiro de 2009

cwpop

Caso minhas expectativas estejam corretas, a formação de um selo dedicado  exclusivamente para quadrinhos por parte da Companhia das Letras pode significar muito mais do que à primeira vista pode parecer. Através de um pragmatismo pleno que foi se maturando ao longo dos anos (além das obras que já citei anteriormente, não nos esqueçamos das obras de Eisner!, por exemplo!) e trazendo a carga de seriedade que a editora carrega, há possibilidade de, afinal, no Brasil se formatar o pensamento das novelas gráficas como obras de arte, Desde que como projeto editorial consumado. 

Isto é, não somente como obras únicas e independentes. Não somente como exceções. Não somente como opções interessantes (ou até muito interessantes), e que se colocavam como representantes de um ramo um tanto ou quanto bizarro (quadrinhos!), embora não ‘sérias’. Novelas gráficas encaradas como uma verdadeira linha editorial e colocadas no mesmo patamar de obras de literatura (as tais realmente ‘sérias’!). Ter um selo desses, proveniente de uma editora do porte da Companhia das Letras tem o mesmo valor e o mesmo peso, em termos nacionais (e guardadas as devidas proporções, por favor) de obras de novelas gráficas nos Estados Unidos ganharem prêmios literários como o Guardian First Book Award ou até de jornalismo como o Pulitzer.

Isso é um começo (um mero início) de que pode-se mudar o conceito e a recepção das obras de novelas gráficas, como nunca antes. Não acontece de forma casual. Não houve uma iluminação zen-budista nos editores da Companhia. Tudo isso faz parte do mesmo movimento e de uma intensíssima agitação em terras brasileiras. A Opera Graphic deixar de funcionar também faz parte da equação. Talvez se preocupar menos com o elevado e desproporcional luxo das edições em um país onde a quantidade de leitores é irrisória e a porcentagem dos que se dedicam a separar uma parte de seu dinheiro para novelas gráficas é ainda menor, quem sabe seja somente uma questão de bom senso.

Espero não dar a impressão de detestar livros e edições luxuosamente encadernados e com primorosa (e custosas) publicações. Não sou nada contra. É maravilho tê-los em mãos. Eu só gostaria de maiores oportunidades de conseguir alguns.

Claro que questão do preço também se relaciona com o respeito com os leitores (e com a possibilidade de se vender os exemplares, oras…). No ano passado, logo após o anúncio da criação do selo Quadrinhos na Companhia, o blog especializado em quadrinhos Gibizada perguntou a André Conti, editor responsável pelo Quadrinhos na Companhia, exatamente sobre isso:

Blankets” e “Jimmy Corrigan” (e “American Born Chinese”) serão publicados em edições únicas? Será possível publicar “Blankets” em uma edição não muito cara, já que o livro tem 600 páginas

André Conti: Os três livros serão publicados em volume único, e não devem passar dos R$ 50, o preço médio de um romance grande. Esses valores ainda não estão fechados, mas estamos trabalhando com essa margem.”

Claro, cinquenta reais (caso seja mantida essa média) não é um preço barato, mas ainda assim está-se bem longe do que era praticado pela Opera Graphic. No entanto, o que mais gostei foi a comparação com ‘romances’, usado como exemplo para a avaliação.

E, claro também, há que se pensar como isso vai realmente vai se efetivar, o que vai acontecer na prática. Quem viver, verá. E lerá.

A dança das editoras de quadrinhos no Brasil

7 de janeiro de 2009

Quem não acompanhou as notícias dos últimos meses do mercado editorial de quadrinhos no Brasil está perdendo uma história emocionante, com vários lances de suspense, reviravoltas, esperanças frustradas, esperanças renovadas, quedas e novidades. O tom das notícias em sua maioria é de desânimo e ceticismo, não se enxerga futuro promissor. Eu não sei. É até engraçado eu dizer isso, pois meu normal é de ceticismo tremendo (em geral e com tudo). No entanto, apesar das expectativas ainda serem vagas e nebulosas, penso que o que está se abrindo são possibilidades interessantes que, se aproveitadas e melhor pensadas e trabalhadas, talvez signifiquem uma real mudança em nossa relação com os quadrinhos neste país. No mínimo, a consciência da necessidade (vou repetir, com maiúscula e aspas: “Necessidade”) dessa mudança. Ou, quem sabe, estas possibilidades não existam e eu esteja somente entusiasmado (ansioso, afobado, quase desesperado com a espera) com algumas publicações prometidas para daqui a pouco.

Como disse, as notícias não são novas, mas só para situar a conversa: da Pixel saiu no final do ano passado um editor-chefe, Cassius Medauar, sob cuja gestão houve vários lançamentos importantes, a venda da editora para a Ediouro, e a conquista do prêmio HQMix, o ‘Nobel’ dos quadrinhos no Brasil, de Melhor Editora do ano passado. A saída foi confusa, e em sua carta de despedida publicada no blog da editora, anunciava discordâncias com uma suposta mudança de pensamento editorial. Apesar do desconforto, Medauar continuaria trabalhando com a Pixel, agora como uma espécie de assessor. A editora soltou um comunicado pela sua comunidade do orkut, dizendo que não haverá mudanças significativas (só teriam acontecido algumas “ações administrativas”), os lançamentos serão mantidos, e a linha de  qualidade garantida. Apesar da tentativa de acalmar os ânimos, a carta é vaga, não confirma datas nem especifica os lançamentos para os próximos dias, e como bem enfatiza Paulo Ramos, em seu Blog dos Quadrinhos não foi publicada ainda nem no “site da editora nem no blog da Pixel, canais oficiais de divulgação da empresa na internet“. E o “Fábulas Pixel”, uma de suas revistas mensais, não saiu em dezembro“…

A Conrad, que lançou ano passado dois portentos poderosos, ‘Chibata! – João Candido e a Revolta Que Abalou o Brasil’, de Hemeteiro e Olinto Gadelha, e o clássico finalmente editado no Brasil ‘Che – Os Últimos Dias de um Herói’, do escritor Oesterheldde e dos desenhistas Alberto e Enrique Breccia, vem diminuindo paulatinamente o ritmo de suas edições (várias estão atrasadas), está há meses negociando sua venda para alguma editora grande para mitigar um tanto de seus problemas financeiros. As conversas com a Ediouro não deram certo, agora estão tentando com a Companhia Editora Nacional. Por enquanto, ninguém diz como estão as negociações, o que só aumenta as incertezas. Vamos ver o que acontece.

E a Opera Graphica fechou oficialmente suas portas. Para marcar sua saída do mercado, lançou no finalzinho de 2008, seu último álbum de luxo, do Príncipe Valente. Para mim, sentimentos contraditórios com este acontecimento. Pois meus sentimentos sempre foram muito contraditórios em relação à própria editora. Pois Opera Graphica era famosa por lançar obras estonteamente belas e importantes, regalos deliciosos para o olhar, o tato, e a inteligência dos leitores. E famosa também pelos preços serem tão absurdos e astronômicos que impossibilitavam que esse conteúdo pudesse ser distribuído e apreciado por muito mais pessoas. Sempre penei e sofri com a minha admiração pelos seus livros, e a raiva por não poder compra-los. Imagino bem o quanto mais gente passava por esta situação.

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Isso é um lado. Por outro, a Companhia das Letras assumiu um selo dedicado aos quadrinhos. É uma grande notícia, por certo! Assumem uma tendência que a editora já vinha tomando há algum tempo quando publicou, de forma esparsa, algumas obras fundamentais e belíssimas, como ‘Maus’ e ‘Persépolis’, mais recentemente a coleção completa do ‘Tintim’. O novo selo, Quadrinhos na Cia, apesar no nome bobo, publicará também autores nacionais, com alguns projetos muitíssimo interessantes (a ideia é de fomentar trabalhos com duplas nacionais, em parceria com a RT/Features; o primeiro já está definido: ‘Cachalote’, do escritor Daniel Galera e o desenhista Rafael Coutinho), e encaminhou uma lista de lançamentos importantes para este ano, como ‘Bottomless Belly Button’, de Dash Shaw;  ‘Jimmy Corrigan: the smartest kid on Earth’, de Chris Ware, e este aqui, uma das obras mais espetaculares dos últimos tempos, um romance gráfico magnifico, poético e surpreendente, ‘Blankets’, de Craig Thompson (o qual falarei com prazer e mais detalhes, mais pra frente).

Absolute Watchmen

Absolute Watchmen

A Panini não diminuiu seu ritmo, está lançando o primordial ‘A Piada Mortal’, de Alan Moore, em edição de luxo, com capa dura e recolorização do desenhista Brian Bolland. ‘A piada mortal’ é a obra que deu um chacoalhão na história e na psique do Batman, tornando-o mais sombrio e insano e aproximando-o ao sombrio e insano Coringa, que teve aqui sua reformulação plena, uma origem coerente e triste, e uma personalidade profunda e complexa. Esse eu não perco de forma alguma. Pela Panini igualmente sairá a edição definitiva de ‘Watchmen’, em março para pegar o lançamento, claro, do filme (esperemos que essa data seja mantida, pois as datas do filme não estão cem por cento seguras, por conta de uma tremenda briga judicial entre produtora e distribuidora em Hollywood, que pode levar a um adiamento indefinível do seu lançamento). A edição norte-americana saiu em março passado, é de babar os olhos e roer-se de prazer, com capa dura, quase quatrocentas e setenta páginas, cinquenta das quais de extras, com exemplos do roteiro do Alan Moore, estudos de desenhos, as capas originais, está esgotadíssima nos Estados Unidos e a DC Comics planeja publicar (segundo o HQNews), um milhão de exemplares, para acompanhar também o lançamento do filme, já que não são bestas. Falta saber aqui se a Panini vai manter todos esses extras (seria sacanagem não fazer isso!) e o quanto vai custar (um ‘simples detalhe’, eu sei…).

E com tudo isso, não custa lembrar a avalanche de lançamentos de fanzines de quadrinhos, de projetos alternativos, com belos resultados e qualidade tremenda. E sem falar da internet…

CARAMBA, a minha intenção inicial era escrever duas ou três linhas sobre o assunto, só para dar um toque aos desavisados e lembrar aos que já estão por dentro, para então fazer a verdadeira discussão a que me propus acima, sobre os rumos do mercado editorial no Brasil. Para não alongar ainda mais este post, façamos o seguinte: dou um breque aqui e amanhã retomo a conversa, em uma segunda parte.

– Eu só não quero deixar de mandar um abraço ao camarada Wilson Vieira,tex_wilson_vieira_editorial_02 quadrinista tremendo (que se revelou uma superfigura, pessoa simpaticíssima e belo profissional, ao conhecê-lo quando participou de um dos meus eventos na Casa das Rosas). Wilson foi entrevistado junto com o desenhista Fred Macedo pela revista portuguesa dedicada a quadrinhos a BDJornal em suas edições 23 e 24 (onde publicou as histórias “Evolution” e “Kwi-Utena”), e foi citado em um texto do Sergio Bonelli, no editorial de ‘Tex Nuova Ristampa’!, referente aos 60 anos do BDJornal. Parabéns, Wilson e Fred, é sempre muito bom ver um trabalho de qualidade ser reconhecido e aplaudido, vocês merecem isso. (dá para ler o texto do editorial traduzido no Impulso HQ)

Apresentando Héctor Camillo!

5 de janeiro de 2009

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criação e texto: claudinei vieira

de desconcertos, mulheres à beira de um ataque de risos, e as falsas palavras chinesas

15 de novembro de 2008

dia-15Gosto disso. Dessas pessoas que juntam o esforço do seu trabalho artístico, praticam e mostram seu capacidade, são talentosíssimos no que se propõem a fazer e compartilham isso com seus amigos e pessoais tais que também fazem parte desse universo de divertidores, ou pura e simplesmente se comprazem no prazer. O camarada Paulo Scott, escritor, poeta, agitador, agora carioca, teve toda a razão ao dizer que não admito o fazer literatura (e arte em geral) sem o gosto e o prazer da diversão. Este sábado, hoje, dia 15, está pleno disso. Quem não desejou encarar as filas multiquilométricas de fuga de São Paulo, vai perceber totalmente.

Foi realizado um Desconcertos na Roosevelt há pouco tempo, não era para fazermos (eu e o Bac, vulgo Anselmo Luis, ou Don Bactone) outro tão logo em seguida. Mas não podíamos deixar de aproveitar a presença do querido Márcio Américo, autor de ‘Meninos de Kichute’, antes dele voltar para Londrina. E ainda mais se juntaram ao dia estes rapazes do quilate do Arroba, do Guizé, do Ruy, o Gabriel, o Régis. Não é possível ficar indiferente. Vai rolar literatura, poesia, música e arte dramática, acompanhadas de nossas devidas cervejas. Belo sábado.falsas

– Também estou tremendamente entusiasmado e curioso com o lançamento do zine ‘Falsas Palavras Chinesas’, ali do lado do Sebo do Bac, na HQMIX Livraria. Os organizadores conseguiram juntar toda a vivacidade e vigor dos velhos fanzines (a idéia nasceu de um conversa de bar…), bolaram um tema maluco (“é assim que o biscoito quebra”), foram convidando ilustradores, escritores, fotógrafos, desenhistas, misturaram com a mais moderna tecnologia (conseguiram colaboradores do mundo inteiro, dos quatro cantos do planeta, e para isso serviram todos os e-mails, blogs, sites, e afins) e publicaram a revista na raça, sem nenhuma espécie de patrocínio. O resultado vamos ver hoje, ali na Praça Rooscartaz_mulheresevelt, mais à noite, a partir das 19:30. Quem vier para o Desconcertos já pode ficar e aproveitar a festa também.

– E estreou ontem a peça das mulheres! Isso deve estar muito maluco! “Mulheres, besteiras e um ataque de risos“, com Fernanda Gama, Fabiana Vajman e Mariana Clara, no Ruth Scobar, de sexta a domingo. Não fui ontem, tou morto de curiosidade; quando assistir, comentarei com toda certeza. Eu só sei que, com a pequena canja que elas deram, quando leram um pedacinho da peça lá no lançamento do meu livro, dá para perceber o quanto elas se esbaldam. 

– Já falei que meu livro está à venda no Sebo do Bac?

Mike Draw

31 de agosto de 2008

 

Prestenção. Descobri somente há pouco tempo (e, além do mais, o cara também posta pouco, mas seu humor acidérrimo e pesado sempre me impressiona. Tem uma sobre o papa, magnífica. Coloco esta aqui pois é muito representativa do que ele faz. Tem mais no seu blog: http://seemikedraw.wordpress.com/

COUPLE 04

18 de agosto de 2008

ilustrações: Wilson Neves    Texto: Claudinei Vieira

Couple 03

21 de julho de 2008

COUPLE

ilustrações: Wilson Neves  Texto: Claudinei Vieira

Couple 01 (clique aqui)  Couple 02 (clique aqui)