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Aos cultores do Ódio: a morte de um garoto de 14 anos adotado por um casal gay é um assassinato. E a culpa é sua.

10 de março de 2015

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Aos cultores do Ódio: a morte de um garoto de 14 anos adotado por um casal gay é um assassinato. E a culpa é sua.

Claudinei Vieira

Aos cultores do ódio (sob a fachada pretensiosa do amor ‘universal’);

Aos cultores do preconceito e do ódio (sob a desculpa pretensamente brilhante de um livro ou outro supostamente divino, interpretado sempre conforme as conveniências do tal cultor);

Aos cultores da violência e da morte, da humilhação, da prepotência, e do ódio (enquanto fingem pregar a paz e a tolerância) (enquanto tal tolerância for permitida para seu próprio culto);

Aos cultores de uma Moral (enquanto enchem seus próprios bolsos de ouro dos incautos inocentes, enquanto tomam banho em banheiras de ouro forradas do sangue do tais inocentes, enquanto corrompem, adulam, e compram quantas moralidades quiserem);

PARABÉNS!

Vocês mataram mais um.

Devem estar se dando tapinhas nas costas uns dos outros, comemorando. Ou, pensando agora, não devem nem estar sabendo do assassinato que cometeram. Ou, caso saibam, nem se importem.

Não foram suas mãos que sufocaram a vida de Peterson Ricardo de Oliveira. Não foram seus pés que chutaram as costelas de Peterson Ricardo de Oliveira. Não foram suas bocas que tornaram a vida de Peterson Ricardo de Oliveira mais difícil pelo fato de ter como pais um casal gay. Não foram seus ataques físicos que feriram Peterson Ricardo de Oliveira, o deixaram em coma, e afinal morreu.

Mas vocês são tão assassinos quanto.

Vocês são tão psicopatas quanto.

Vocês são tão indiferentes à verdadeira vida ou ao Amor autêntico quanto os criminosos que infernizaram o cotidiano de Peterson Ricardo de Oliveira.

Não lhes importa que um garoto de 14 anos teve a sorte (que quantos mais não possuem) de seres humanos se importarem tanto com ele, de terem tanto amor dentro de si, a ponto de adotá-lo, de formar uma família, de tentar lhe garantir um futuro. Não lhes importa que esse futuro tenha sido destroçado, morto, assassinado.

O que lhes importa é que os pais de Peterson Ricardo de Oliveira são um casa gay e , aos seus olhos, eles não são humanos. Ou, pior, vivem em pecado. Pior, não fazem parte do seu culto.

As exatas condições da violência que matou este garoto ainda precisam ser esclarecidas. Mas Peterson é somente um dos assassinatos cometidos pelo seu Ódio. Sua baba está em cada um dos ataques que homossexuais vêm sofrendo neste país, em cada tentativa frustrada de casais gays adotarem crianças que, de outro modo, não teriam absolutamente nenhuma família ou amor ou futuro (mas, isso não é responsabilidade sua, não é?, crianças sem amor, futuro ou família não lhes importa, não pagam dízimos). Sua baba escorre de prazer quando atacam terreiros de umbanda ou tentam impedir seus cultos. Sua baba banha seus queixos de prazer quando realizam cultos (os seus cultos!) em locais políticos públicos que, pretensamente, deveriam ser laicos.

Portanto, mais uma vez, Parabéns! O seu ódio (em nome do amor, de deus, da pátria, seja lá qual a desculpa) matou mais um ser humano. Desta vez, um garoto de 14 anos que havia encontrado o amor que vocês lhe negaram.

 

claudinei vieira

 

a racista e os babacas misóginos

1 de setembro de 2014

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aos babacas escrotos que xingaram e xingam a racista filha-da-puta inundando as redes sociais com suas imundícies nojentas, gritando que ela deveria ser linchada, currada, estuprada, e misturam assim suas próprias safadezas e imoralidades pessoais com a justa indignação dos que lutam contra o racismo e todas as formas de discriminação:

caras, vocês são tão filhos-da-puta quanto ela.

a grande diferença é que o racismo institucional tomou um rosto fácil de ser reconhecido e agredido, enquanto que vocês vomitam suas obscenidades misóginas escondidos covardes atrás do seu anonimato internético, pretensamente protegidos pelos bits anônimos de computador.

babacas é o que são; e deveriam igualmente ser presos, julgados e condenados.

E o pastor diz: Os culpados pelo furacão Sandy? Os Gays, claro!

31 de outubro de 2012

 

Até que demorou: pastor norte-americano descobre e anuncia quem são os verdadeiros culpados pelo furacão Sandy: os gays!

Os Estados Unidos é um país onde pululam e se multiplicam os Malafaias (com muito maior poder econômico e de divulgação em rádios e tvs). Assim como no Katryna e nos mais diversos tipos de desastres e tragédias naturais que acontecem pelos Estados Unidos, as vertentes fanáticas religiosas fundamentalistas norte-americanas são pródigas em apontar que estes são verdadeiros castigos divinos pelos pecados cometidos.

Talvez a única diferenciação no que o pastor John McTernan diz é o fato de ser tão específico: ele já vinha ‘alertando’ dos perigos que a campanha eleitoral presidencial e advertia os candidatos, tanto Obama quanto Romney, de estarem se aproximando demais dos movimentos gays, portanto vide os furações Isaac e Katryna e agora o Sandy: “Deus está sistematicamente destruindo os Estados Unidos”. O fato dessa ‘tempestade monstruosa ter alcançado os Estados Unidos e estar prestes a inflingir sérios danos durante a semana de eleições não é uma coincidência.”

Outro fato que também não é coincidência (e esse aponto eu) é que, impressionantemente, fanatismo, estupidez e preconceito sempre andam juntos. Independente de tempestades e furacões.

 

http://www.salon.com/2012/10/29/pastor_blame_gays_for_hurricane_sandy/

 

 

 

 

Os motivos porque Henri Cartier-Bressson tem que ser banido do Facebook ou A diferença entre Arte e Imoralidade, segundo o Facebook

21 de julho de 2012

 

E o Facebook, este singelo recanto de encontro virtual criado por um estudante universitário norte-americano virgem que tinha raiva de sexo porque sua namorada não queria dar para ele, continua sua cruzada contra a imoralidade e a falta de decência, combatendo e censurando os usuários que ousam postar imagens mais ‘atrevidas’, independente de suas ‘pretensas’ intenções artísticas.

Dessa forma, não importando se a imagem é uma foto da playboy norte-americana ou um quadro renascentista ou uma instalação de arte plástica ou mães dando de mamar para seus bebês, desde que mostre Peitos (femininos, of course), é imoral, é feio, é provocativo, e deve ser extirpado, os usuários ameaçados ou castigados, e suas contas canceladas. O mais novo exemplo de que soube foi de minha amiga Célia Musilli, uma recalcitrante que insiste em suas tentativas de impor suas manias de arte e beleza com nus, desta vez com uma imagem do consagrado fotógrafo Henri Cartier-Bresson.

(esses meus amigos, aliás, são todos uns imorais, todos!)

Na tentativa, pois, de ajudar a entender a lógica da cruzada moralista do Facebook, Desconcertos montou esta simples, mínima e didática cartilha usando imagens do próprio Cartier-Bresson, para separar, de uma vez por todas, o que é Arte e Pornografia:

Momento tocante de um casal de idosos: Arte

Marilyn Monroe por Cartier- Bresson? É sempre Artístico! (desde que ela não esteja nua, obviamente)

Motivo simples, minimalista, quase abstrato, sem um sentido objetivo aparente: praticamente a definição de Arte ‘Artística’, com A maiúsculo.

Aqui começa a apelar para o erotismo e motivação sexual. Não é artístico Artístico, com A Maiúsculo. Mas, pelo menos, é discreto.
Por enquanto, passa.

Corpos nus e à vontade, transmitindo calma e tranquilidade? Seios, coxas e pentelhos à mostra? Imoralidade e Devassidão, sem-vergonhice pura e simplesmente. Henri Cartier-Bresson era só um velho safado e quem ajuda a divulgar essas imagens deve ser banido do Feicibuque, jogado no fogo do Inferno e condenado a comer amendoim mofado pelo resto da eternidade!

Obama, Uhura, e o beijo interracial galáctico

10 de abril de 2012

 

Nichelle Nichols, a Tenente Uhura da clássica série de ficção científica, Jornada nas Estrelas, sendo recebida na Casa Branca pelo único presidente negro da história de um dos países mais preconceituosos e intolerantes do mundo, ambos  fazendo a saudação vulcana, o famoso gesto-símbolo do seriado. No entanto, o que deveria ser uma cena épica, carregada de um simbolismo tremendo, quem sabe até mesmo altamente contestador, tornou-se… vazia. Em outros tempos, talvez causasse impacto; hoje em dia, porém, provoca uma sensação fria de indiferença.

Nichelle já contou dos perrengues que sofreu e dos problemas que passou na época da série, que começou em 1966 e durou três anos (com muito esforço e apesar da aflitiva mesquinharia gananciosa dos produtores, nada interessados na importância histórica ou artística de um programa que não lhes dava o retorno financeiro pretendido): a pouca importância que seu personagem tinha nos enredos, quase sempre se limitando a uma frase ou duas no episódio inteiro; as crises de estrelismo de William Shatner, o capitão Kirk, que sempre queria tomar mais e mais espaço e não se incomodava de tentar diminuir a participação dos demais atores; as longas jornadas de trabalho e a precária preparação (todos tinham que correr e fazer o máximo no menor tempo possível para diminuir os custos e escapar do fantasma do cancelamento que  sempre os assombrava e os ameaçava a cada final de temporada), além dos contínuos problemas de produção, cortes de despesas, falta de pessoal, etc.

‘Jornada nas Estrelas’ era o projeto pessoal de Gene Roddenberry que acreditava ser possível fazer discussões profundas através de um produto eminentemente de entretenimento, mesmo na televisão, mesmo na década de 60 nos Estados Unidos. Sua primeira tentativa de realizar suas pretensões deixou os produtores perplexos: no episódio de apresentação, o personagem principal, Capitão Christopher Pike, era um caucasiano corajoso, inteligente e destemido, feito pelo branquíssimo Jeffrey Hunter, e até aí, tudo bacana. O problema começava pelos personagens coadjuvantes imediatos: na ausência do capitão, quem tomava conta da nave era uma mulher! eficiente e também muito destemida; outro personagem muito importante era um ‘marciano’ com aparência de diabo, orelhas pontudas e sobrancelhas finas arqueadas; e era uma sociedade igualitária, onde os humanos eram somente parte de uma federação que englobava várias raças diferentes. Para dourar a perplexidade, as missões daquela tripulação tinham um cunho de pesquisa científica  e levavam uma mensagem de paz para o universo. Sem guerras interplanetárias, sem aliens malvados e sedentos de invasão da Terra, sem a propagação da ‘natural’ superioridade humana (branca e norte-americana) por outros mundos.

A rejeição dos produtores foi imediata, e o episódio foi arquivado imediatamente, mas alguma coisa deve ter tocado suas mentes (e seus bolsos) pois permitiram que Roddenberry tivesse mais uma chance, Desde Que tirasse aquela mulher do comando (mulheres deveriam ser bonitinhas, insossas e servir como interesse romântico do capitão), esquecesse aquele ‘marciano’ esquisito, e agilisasse a história. Roddenberry disse ‘sim’ para tudo, sacrificou a personagem feminina, e manteve quase todo o resto exatamente como pensava antes. Em alguns pontos, até radicalizou: não só manteve o alienígena de orelhas pontudas, como o promoveu a Segundo em comando; mudou o ator principal; e, principalmente, aumentou a diversidade racial e intergaláctica da tripulação, colocando como auxiliares diretos um nipônico, um russo (em plena Guerra Fria) e uma mulher negra, Nichelle Nichols, como Tenente e Chefe das comunicações da nave Enterprise.

Nichelle sempre teve muita consciência do imenso valor simbólico de sua presença em uma mídia tão importante, principalmente na época do fervor dos movimentos de direitos civis, da contracultura e dos grupos negros de contestação, o que não relaxava a pressão que sentia e a deixava exasperada. Mas a coisa realmente piorou com o episódio do mítico Beijo Interracial Intergaláctido. Que não aconteceu.

Roddenberry sabia bem que pisava em terreno ultradelicado quando cogitou a idéia de uma história onde o Capitão Kirk beijava a Tenente Uhura, uma cena que seria histórica na televisão mundial (seria o primeiro beijo interracial em transmissão nacional), portanto preparou-a com bastante cuidado: escreveu um enredo com sentido e onde o beijo não seria gratuito, avisou os atores com bastante antecedência (até mesmo perguntaram para William Shatner se ele se ‘importaria’ de fazer a tal cena, e ele respondeu ‘Vocês estão me “pedindo” para beijar a Nichelle? E ainda vão me pagar?”). Nichelle ficou eufórica: além de sua participação no episódio ser bem maior do que o normal, o simples fato de existir aquela cena era do tipo de marcar a carreira de qualquer ator ou atriz. A série e seus participantes atingiriam de imediato outro patamar de importância.

Os produtores não entenderam desse jeito. Na verdade, ficaram horrorizados. Brigaram e tentaram retirar a cena. Roddenberry bateu pé e insistiu com veemência, mas foi obrigado a amenizar o máximo que pôde: o capitão estava sendo forçado a beijar a tenente, por conta do poder mental de alienigenas despóticos! (Shatner disse que até faria uma careta para enfatizar que o capitão estava sendo ‘forçado’ a isso). Não adiantou. No final das contas, o beijo ficou somente na simulação: quando o capitão se aproxima, a câmera se afasta e se fixa em suas costas durante todo o tempo em que dura o ‘ato’ e só se aproxima de novo quando os corpos se afastam. Shatner descreveu o momento patético ou simplesmente ridículo: os produtores fizeram questão de assistir a filmagem e ficaram ao redor, bem de perto, para se certificarem que os lábios dos dois nunca se tocariam de verdade…

O desânimo de Nichelle foi imenso, naturalmente. Para um seriado que se passava em uma avançada sociedade do século 23, o racismo era ainda muito próprio do mero século 20.

O cansaço e a irritação foram minando as resistências de Nichelle que pensou em desistir e teria até mesmo pedido demissão a Roddenberry. Na mesma época, durante um evento do movimento negro no qual participava, vieram lhe chamar e disseram que um grande fã seu queria lhe conhecer. Curiosa pelo tom de voz de quem lhe falou ‘um grande fã’, ela foi até a mesa e se viu sentada ao lado de Martin Luther King!, que lhe professou uma genuína admiração. Conforme a conversa evoluiu, ela acabou se soltando e desabafou os problemas da série e de sua vontade de se demitir. Depois de ouvi-la com atenção, King respondeu:

“- Não faça isso, Nichelle, você não pode fazer isso. Você não percebe que o mundo, pela primeira vez, está começando a nos ver como iguais? Seu personagem partiu para o espaço numa missão de cinco anos. Ela é inteligente, forte, capaz e um modelo maravilhoso de papel, não apenas para o povo negro, mas para todas as pessoas. O que você está fazendo é muito, muito importante, e eu odiaria ver você simplesmente abandonar tão nobre tarefa.” (‘Jornada nas Estrelas – Memórias’, William Shatner e Crhris Kreski, ed. Nova Fronteira)

Receber um pedido de uma figura de tal porte fez Nichelle Nichols recuperar o fôlego e continuar sua jornada. Por onde se vê o quanto Martin Luther King influenciou até mesmo a cultura pop do seu país!

Quase quarenta anos depois da estréia do primeiro episódio de ‘Jornada nas Estrelas’ na televisão, ainda é complicado avaliar os tremendos avanços dos movimentos negros norte-americanos na sua luta contra o racismo e pela plena inserção da população negra na vida orgânica do país, ao lado da manutenção das imensas desigualdades ainda vigentes. O que, em última instância, foram o que garantiram a posse de um homem negro na presidência dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que ele mantém, com todo garbo, carisma e elegância, a mesmíssima política (econômica e social, militar e civil) de todos os demais branquíssimos presidentes anteriores. Se não se pode concordar com todas as linhas com um cartum publicado logo no primeiro ano da gestão de Obama que o representava como somente um Bush com pele e traços afro-americanos, não se pode igualmente deixar de reconhecer que ele nunca se elegeria se não tivesse sido bancado, financiado e apoiado por boa parte da elite branca burguesa, cuja única preocupação é a manutenção eterna de seus privilégios.

Ainda hoje, beijos, sexo e relacionamentos interraciais, embora bem mais comuns, não são plenamente aceitos e respeitados, mesmo que não produzam escândalos violentos (pelo menos, publicamente).

Por conta de tudo isso, a simpática foto de Barack Obama ao lado de Nichelle Nichols é repleta de contradições, ironias e significações. É reconhecida e divulgada a ‘nerdice’ do presidente, que adora cultura pop, cinema, traquinarias eletrônicas e quadrinhos, e já foi retratado e reverenciado na companhia de vários superheróis. Ele, o primeiro presidente negro. Ela, a primeira tenente e chefe de comunicações negra da Frota Estelar, que pôde levar uma mensagem de paz e igualdade para além de universos conhecidos, embora não tenha podido beijar seu comandante branco. Seria demais esperar, seria ingenuidade-monstro da minha parte, acreditar que tal encontro deveria significar mais e ter um significado muito maior do que uma simples pose bonitinha?

Eu não esperaria nada de bombástico ou estratosférico. Com certeza, não aconteceria o fim do preconceito racial, uma tempestade protônica galáctica, a invenção do holodeck, muito menos a mudança radical nos rumos políticos e econômicos do presidente democrata. Mas, com certeza, Nichelle Nichols merece mais, muito mais do que um simples aperto de mão ou saudação vulcana, mesmo que de um ‘irmão negro’ tão poderoso.

Quem está sobrando nessa foto é Barack Obama.

 

 

 

 

Jogos Vorazes: fãs racistas e decepcionados

28 de março de 2012

 

Fãs racistas do livro ‘Jogos Vorazes’ (The Hunger Games, de Suzanne Collins) ficaram decepcionados, revoltados até, que importante personagem tenha sido representada na adaptação para o filme por uma atriz negra.

Parece até brincadeira internética, eu sei, mas o negócio é sério, como os twitts e mensagens recolhidas por estes sites que indico abaixo demonstram à farta, tais como “por que a (personagem) Rue tinha que ser negra? Arruinaram o filme!” “desde quando a Rue é uma pr*** “. E não foram poucas mensagens, isso realmente agitou a internet.

Até então, antes da estréia, as maiores discussões versavam sobre a capacidade do filme em garantir a continuidade da série no cinema (e o fato de bater recordes de bilheteria, ficando em terceiro lugar no posto de estréia mais lucrativa da história, com certeza garantiu isso) e se, afinal de contas, era ou não uma espécie de cópia ou spin off de Battle Royale (uma bobagem sem maiores danos). Para mim, ainda havia a questão de se Jennifer Lawrence lideraria ou inauguraria uma nova leva de personagens femininos de grande poder em filmes de ação (isso vamos ver mais para frente, quando contabilizarmos as consequências e influências posteriores; no mínimo, foi um excelente pontapé). E agora vem essa coisa dos racistas.

Só que, para ‘melhorar’ a situação, para embasbacar o bom senso, para dourar a estupidez, a personagem original do livro É negra! Um reles detalhe que os racistas simplesmente sublimam, esquecem, deixam de lado, e quando assistem o filme… ficam chocados.

Para Dodai Stewart, do site Jezebel, a própria personagem principal, Katniss vivida por Jennifer Lawrence, é descrita no livro com tendo traços de indígena nativa (ou, no mínimo, digo eu, com fortes possbilidades de ascendência indígena), descrição que não provocou reações, óbvio, pois Lawrence não acentua esses traços (assim como outros personagens).

Dessa forma, o racismo continua de mãos dadas apertadas com a estupidez e a ignorância. E agora com o analfabetismo.

 

http://www.iwatchstuff.com/2012/03/racist-hunger-games-fans-very-upset-movi.php

http://jezebel.com/5896408/racist-hunger-games-fans-dont-care-how-much-money-the-movie-made

 

 

Proíba-se Dante Alighieri.

15 de março de 2012

Puxa, eu gostaria de começar o dia com uma nota mais animada (e, na verdade, até estou com uma engatilhada, mas vou ter que deixar um pouco mais tarde). É que abro o computador e topo com essa: uma ONG italiana de defesa dos direitos humanos considera que a obra ‘A Divina Comédia’, de Dante Alighieri, é ofensiva, discriminatória, racista, homofóbica, islamofóbica, e deveria ser retirada do currículo escolar. Segundo a reportagem publicada no ‘The Guardian’, para Valentina Sereni, presidente do grupo Gherush92, ‘A Arte não deve ficar acima da crítica’. Como é natural, houve de imediato uma onda de indignação contra essa postura e de defesa de Dante e, de tudo, de tudo!, é justamente dessa defesa o que mais tenho receio.

Porque concordo que a Arte não é anódina e superficial. Ela reflete (mesmo que inconscientemente, mesmo sem vontade) seu tempo, as pessoas, suas ilusões, seus pensamentos, seus preconceitos e visões de mundo. Dante não escapa a isso, é claro que não. Todas as críticas acima são reais e podem ser apontadas e encontradas, uma a uma. Dizer que Dante faz parte do seu tempo não torna seu preconceito mais aceitável. Pior ainda (muito pior) é dizer que a ‘Divina Comédia’ é uma obra-prima absoluta da literatura mundial (o que é verdade) e por isso é inatacável (o que é uma estupidez).

O problema é o que fazer com essa equação Valor Literário versus Ideologia Preconceituosa. E a resposta mais idiota e imbecil é querer proibir sua circulação e tentar negar sua importância. O único caminho é fazer valer ainda mais sua importância artística, embutir essa discussão no próprio currículo, e abrir caminho para que os jovens leitores entendam todos os pontos problemáticos e aprendam a discernir, a separar as questões e colocá-las nos seus devidos contextos. Enfim, que pensem! Atitude que os adultos estão tomando cada vez menos.

– Conforme o pensamento dessa ONG, quem sabe seja essa a lista das próximas obras que deveriam ser proibidas conforme seu conteúdo preconceituoso: ‘Ilíada’, ‘Odisséia’, ‘Dom Quixote’, Os Lusíadas’, todas as peças de Shakespeare.

– Eu ia colocar uma imagem mais neutra, o de Beatriz ciceroneando o poeta pelo Inferno, mas não sei porque considerei essa figura de um homem sem cabeça mais apropriada para a ocasião.

quilombolas, pinheirinhos, cracolândias, montes belos: as queimas de ‘mendigos’ institucionalizadas

5 de março de 2012


As distâncias são muitas: na geografia, no discurso, nos partidos. No entanto, é a mesma base que possibilita tanto ações isoladas de indívíduos criminosos, quanto de órgãos e representantes legais de maiores vultos. O fundamento se apoia em dois pontos principais: o primeiro é a famosa certeza da impunidade (os adolescentes que mataram o indio pataxó estão bem, livres, leves e soltos; o empresário fraudador cultiva as amizades ‘certas’ e mesmo condenado, mesmo com empresa em estado de massa falida, não recusa uma certa reintegração de posse de terra). O outro ponto é a Prioridade Maior, o Bem Maior, que permite e justifica passar o trator (figurativa e literalmente) por cima de quem for necessário. Desse modo, a partir de reais necessidades econômicas e sociais, vale a pena deslocar (quem sabe, extinguir) vidas de pequenos (minúsculos) agrupamentos humanos que, por não serem ‘úteis’, tornam-se portanto entraves, empecilhos descartáveis. Em boa parte das vezes, algumas ‘necessidades’ não podem ser escancaradas francamente, precisam ser ancoradas por uma fachada de respeitabilidade. Tal como o processo de higienização étnico-social que está sendo levado a cabo neste pequeno (no sentido moral) Estado proto-fascista de São Paulo, em nome de uma ‘Revitalização do Centro’. Em outros casos, a hipocrisia chega ao cúmulo do bizarro e da cara de pau: chamar os quilombolas de Rio dos Macacos de ‘invasores de terra’ não é atingir um ponto máximo de saturação do ridículo?

Pensei em acrescentar um outro ponto, o da Facilidade, mas percebi que isso deriva dos pontos anteriores. É fácil matar índios, mendigos e drogados, e sair impune. Às vezes, os índios, mendigos e os drogados resistem, e aí é necessário um pouco mais de força e a contínua propaganda do Bem Maior (ou qualquer outro termo que caiba nesse conceito; antigamente, falava-se em ‘Futuro’ e no ‘Progresso’ e nos sacríficios indispensáveis para que mais tarde o Bolo da Prosperidade pudesse afinal ser repartido para todos: exatamente a mesma coisa). Tanto faz: nem o indivíduo que possui as amizades ‘certas’ ou está na classe social ‘correta’ (ou tem o dinheiro necessário, o que dá quase no mesmo) ou o Estado (em qualquer nível) é punido ou responsabilizado (de vez em quando, alguém é sacrificado, mas não em sua justa medida, somente como um ‘exemplo’ e nunca como uma real mudança de atitude).

Ìndios podem ser deslocados, removidos, e até mortos, ao sabor dos interesses de mineradoras, madeireiras, e usinas hidrelétricas (e se suicidam bastante, embora não com a rapidez e quantidade tão desejada, uma boa parte ainda se agarra à vida e as suas terras; enfim, só ‘atrapalham’). Famílias pobres podem ser desalojadas e jogadas na rua, desde que não impeçam especulações imobiliárias nem as revitalizações do centro ( e se se tornarem mendigos e drogados basta chamar a Polícia Militar de São Paulo ou adolescentes burgueses piromaníacos). Quilombolas podem ser desalojados e jogados na rua, pois estão na área de interesse da gloriosa Marinha brasileira (e que não tentem vir para São Paulo!).

Até os métodos são idênticos!, não se faz questão nenhuma de variar: demonstrações de força e ameaças constantes, clima de terror e intimidação, negociações prolongadas e infrutíferas (se é que em algum momento realmente havia vontade de se chegar a um acordo), ataques de madrugada, em fins de semana ou feriado.

Talvez a única grande diferença seja a dor e a duração da morte: para o índio / mendigo o sofrimento foi o tempo da queima do seu corpo e o sufocamento do seu pulmão e o esquecimento nos B.O.s policiais. Para maiores grupos de pessoas, faz-se necessário mais tempo e maior repressão: a queima e o sufocamento são lentos e graduais. Mas tudo acaba em fumaça, lares destruídos, culturas exterminadas, morte. E o esquecimento nos B.O.s policiais.

 

imagem: Exposição Afrofilisminogravura de Ayam U’Brais. Imagem partilhada pela Secretaria da Cultura do Estado da Bahia no Flickr (CC BY-NC-SA 2.0)
http://www.defender.org.br/brasil-quilombo-rio-dos-macacos-em-vias-de-expulsao/

 

 

Racismo e Redes Sociais

2 de março de 2012

O instituto mexicano Memória e Tolerância realizou um experimento interessantíssimo (e, ao mesmo tempo, muito simples!) para se ter uma noção de como age o preconceito nas redes sociais (tipo assim, feicibuque): criou quatro perfis, duas mulheres, dois rapazes, com o detalhe de que as duas mulheres na verdade eram a mesma pessoa e os rapazes, idem. Todas as informações e dados dos perfis tanto ‘delas’ quanto ‘deles’ eram idênticos, inclusive as fotos, com uma única diferença: em um dos perfis, a imagem era modificada digitalmente e o tom de pele, escurecido. E começaram a mandar os convites para verificar a reação.

Tenho certeza absoluta de que mesmo antes de saber o que aconteceu, qualquer um pode imaginar como foi o resultado. Não será surpresa nenhuma constatar que os perfis ‘brancos’ fizeram muito mais sucesso e retorno e ‘amizades’ do que os ‘negros’. Mas duvido que tenham uma idéia do quão grande foi a diferença. Eu não tinha.

Foi estarrecedor.

http://revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_noticia.php?codNoticia=9743%2Fteste-de-preconceito-nas-redes-sociais

 

 

Houaiss, o dicionário racista?

28 de fevereiro de 2012

A princípio, pensei tratar-se de uma estupidez. Certo, as palavras têm poder, machucam, podem destruir, propagam e destilam preconceitos, racismos, ódios. Certo, os ciganos são perseguidos e discriminados, e boa parte da perseguição acontece justamente através da linguagem. Portanto, para se diminuir a carga do preconceito há que se pensar não somente em medidas concretas de ação diária, mas igualmente tentar diminuir a pressão da carga negativa da linguagem, o que só vai acontecer se mudarem a atitude e o pensamento originais que deram vazão para a mentalidade preconceituosa.

O Ministério Público Federal (MPF) em Uberlândia ajuizou ação civil pública contra a Editora Objetiva e o Instituto Antônio Houaiss, para a imediata retirada de circulação, suspensão de tiragem, venda e distribuição das edições do Dicionário Houaiss que contêm expressões pejorativas e preconceituosas relativas aos ciganos. Os réus também deverão recolher todos os exemplares disponíveis em estoque que estejam na mesma situação. O objetivo é obrigá-los judicialmente a suprimir do dicionário quaisquer referências preconceituosas contra uma minoria étnica, que, no Brasil, possui atualmente mais de 600 mil pessoas.“(http://www.prmg.mpf.gov.br/imprensa/noticias/direitos-do-cidadao/mpf-vai-a-justica-para-mudar-verbete-do-dicionario-houaiss)

No entanto, a função do dicionário é resgatar, definir e elucidar os significados das palavras correntes de um povo. Ou não é isso? Não foram os dicionários que inventaram o uso preconceituoso das palavras ou sua utilização para rebaixar a moral e a auto-estima de qualquer parcela da humanidade. Na verdade, é mais do que isso: os dicionários têm OBRIGAÇÃO de registrar esse uso. Se alguém tem que mudar são as pessoas que inventaram ou tornaram a palavra racista. Retirar, pura e simplesmente, o termo pejorativo no livro, além de não ajudar em absolutamente nada em lutar contra o preconceito, fere a razão de existência do próprio dicionário!

Qual é, no final, a mensagem que a MPF está passando? Que os dicionários devem, a partir de agora, se abster de realizar seu trabalho de resgate científico das palavras, porque ao se registrar uma palavra racista o dicionário se torna, então, automaticamente racista? Os dicionários terão que fazer uma limpeza geral e irrestrita em suas páginas e retirar os significados chulos e preconceituosos? É desse modo que sociedade será ‘limpada’? É com isso que os ciganos passarão a ser respeitados? Como os negros, mulheres, índios, idosos, e minorias em geral? Os dicionários têm obrigação, portanto, de serem Politicamente Corretos?

Continuo considerando uma estupidez.

E sabem o que é ainda pior? As próprias editoras não se defendem, estão assumindo que são realmente racistas. As editoras Globo e Melhoramentos ficaram de bico calado e retiraram prontamente os termos pejorativos de seus dicionários relativos aos ciganos. E a única coisa que a Objetiva diz é que ‘seu dicionário é editado pelo Instituto Houaiss, sendo apenas detentora exclusiva dos direitos de edição.’ Isto é, em outras palavras, ‘o responsável é o Instituto, nós não temos nada a ver com isso, nós só publicamos, vão falar com eles‘…

Há alguma coisa de profundo equívoco em tudo isso.

 

 

Comunidade gay pede ‘desculpas’ pelo adultério de senadora cristã norte-americana

24 de dezembro de 2011

A senadora cristã Amy Koch, de Minnesota, EUA, uma das mais ardorosas defensoras de ‘valores familiares cristãos’ e líder anti-casamento gay no seu Estado (chegou a propor um projeto de lei para a constituição do seu Estado de que somente o casamento entre um homem e uma mulher poderia ser validado e reconhecido) está passando por uns problemas ‘domésticos’, digamos assim: pega no flagra tendo um caso com um funcionário subalterno, também casado, ela se retirou do cargo de líder da casa e já garantiu que não concorrerá à reeleição.

Inclusive houve uns boatos de que teria havido um ingrediente de assédio moral e sexual, por parte dela.

Isso por si só já seria o suficiente para uma boa discussão sobre o nojento falso moralismo destes ditos ‘valores cristãos’ que grassam pelo mundo, particularmente virulentos em terras norte-americanas. No entanto, eu não estava em verdade interessado em repisar em mais um exemplo de hipocrisia moral institucional de que os Estados Unidos são fartos, nem sinto vontade em me divertir sadicamente em espezinhar o inferno doméstico que a dita cuja senadora deve estar passando.

O melhor de tudo mesmo foi a carta aberta endereçada à senadora escrita por um membro da comunidade gay local. John Medeiros escreveu um hilariante ‘pedido de desculpas’ em nome dos gays de Minnesota por ter contribuído para a crise dos casamentos ‘tradicionais’:

“Estamos envergonhados por termos causado isso que a mídia está se referindo como ‘relacionamento ilícito’ com o seu empregado, o qual também estendemos a ele e a sua esposa nossas mais profundas desculpas. Estes recentes eventos deixaram muito claro que as nossas táticas gays e lésbicas foram longe demais, afetando inclusive as pessoas mais respeitáveis de nossa sociedade.”

Esse trecho é sensacional: “Perdoe-nos. Como você sabe, nós não somos
pessoas-de-Igreja, então não estamos aptos a compreender completamente o quanto o ‘casamento gay’ é incompatível com os valores cristãos, apesar do fato destes valores carregarem uma tradição bíblica de adultério, assim como o seu. Felicitamos-lhe por continuar mantendo essa tradição”

E aí por diante. Para os que porventura pensem que a carta é um puro exercício de crueldade pelos problemas da senadora, há outro trecho (talvez o melhor) que discute a questão do casamento ser de foro íntimo ou público, mas não quero que dependam da minha tradução capenga, reproduzo a carta original abaixo. A ironia fina, mesmo que acompanhado pelo sarcasmo pesado, trata de assunto profundo de forma bem séria, no final das contas, e faz desse texto um dos melhores que já li.

Dear Ms. Koch,

On behalf of all gays and lesbians living in Minnesota, I would like to wholeheartedly apologize for our community’s successful efforts to threaten your traditional marriage. We are ashamed of ourselves for causing you to have what the media refers to as an “illicit affair” with your staffer, and we also extend our deepest apologies to him and to his wife. These recent events have made it quite clear that our gay and lesbian tactics have gone too far, affecting even the most respectful of our society.

We apologize that our selfish requests to marry those we love has cheapened and degraded traditional marriage so much that we caused you to stray from your own holy union for something more cheap and tawdry. And we are doubly remorseful in knowing that many will see this as a form of sexual harassment of a subordinate.

It is now clear to us that if we were not so self-focused and myopic, we would have been able to see that the time you wasted diligently writing legislation that would forever seal the definition of marriage as being between one man and one woman, could have been more usefully spent reshaping the legal definition of “adultery.”

Forgive us. As you know, we are not church-going people, so we are unable to fully appreciate that “gay marriage” is incompatible with Christian values, despite the fact that those values carry a biblical tradition of adultery such as yours. We applaud you for keeping that tradition going.

And finally, shame on us for thinking that marriage is a private affair, and that our marriage would have little impact on anyone’s family. We now see that marriage is more than that. It is an agreement with society. We should listen to the Minnesota Family Council when it tells us that marriage is about being public, which explains why marriages are public ceremonies. Never did we realize that it is exactly because of this societal agreement that the entire world is looking at you in shame and disappointment instead of minding its own business.

From the bottom of our hearts, we ask that you please accept our apology.

Thank you.
John Medeiros
Minneapolis MN

– http://www.lgbtqnation.com/2011/12/minnesota-gay-community-apologizes-to-gop-adulteress-for-ruining-her-marriage/

– http://www.inquisitr.com/171645/amy-koch-gay-marriage-opponent-gets-apology-letter-from-lgbt-org-after-her-affair/

A posição da mulher judaica no ônibus de Israel

19 de dezembro de 2011

Mulher israelense provoca comoção social por se recusar a sentar na parte de trás do ônibus. Judeus ultraortodoxos se indignaram pela sua falta de vergonha (em hebraico castiço devem tê-la chamado de ‘puta’ pra baixo) já que a posição da mulher deve ser sempre atrás do homem. São os judeus ultraortodoxos que tomam conta da ‘moral e bons costumes’ de Israel, mas há um sentimento cada vez maior de cansaço e irritação contra seu reacionarismo ultrareligioso, que se reflete em um crescente movimento feminista e de protestos por direitos humanos melhor contemplados.

A comparação com Rosa Parks é direta e inevitável. Parks foi o estopim e o centro dos movimentos negros norte-americanos na década de sessenta por ter se sentado no ônibus em um banco destinado somente para brancos. Se o gesto de Tanya Rosenblit vai ter a mesma repercussão ainda é cedo para se dizer. Mas com certeza a discussão está fervendo na terra dos “ayatollahs” judeus.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/12/111218_israel_mulher_onibus_gf.shtml

Miss Angola, Miss Universo e Miss Preconceito

14 de setembro de 2011

Leila Lopes, angolana e negra, conseguiu na noite de última segunda-feira, dia 12, o título de Miss Universo e o universo racista se revoltou.

Não gosto desse concurso, não assisto nem acompanho. Além de ser uma óbvia objetificação da mulher ao seu nível mais rasteiro, ainda é um show chato de doer. O fato de a nova miss ser uma negra africana me chamou um pouco a atenção, registrei o fato em minha mente e deixei passar. No mesmo dia, as manifestações racistas começaram a aparecer e confesso que fiquei espantando com a violência gritante. Não com o racismo em si, mas sua profundidade e ódio.

Logo, a blogueira Mariafrô divulgou a imagem mandada por uma leitora de um comentário postado no facebook de um racista carioca (Miss Leila Lopes e o racismo no facebook). E em São Paulo um site neonazista abria um fórum com opiniões do tipo “Angolana? Depois falam que não é resultado arranjado, é pura cota, podia por uma macaca para competir que ganharia também, foi totalmente aleatório mas tinha que ser uma das pretinhas, pela mor… Alguém assistiu essa porcaria? Serio?” ou ainda “Outro membro escreveu em inglês “monkey in a dress? absolutely revolting” (macaco em um vestido? absolutamente revoltante)“. (G1: Miss Universo 2011 sofre racismo em site que ostenta suástica nazista)


No facebook, comecei uma conversa interessante com minha amiga Camila Rodrigues e os comentários me ajudaram a organizar meus pensamentos e minhas idéias sobre isso. Transcrevo aqui, com a permissão da Camila, o que discutimos:

(pequenidades) Desabafei no facebook sobre esta reportagem, que achei ser duas vezes lamentável!

Sinceramente, eu lamento que em 2011 ainda exista uma coisa deprimente como concurso de miss universo, que coloca as mulheres como bonecas disputando pra saber qual é a mais “bonita”, sendo que todos sabemos que as mulheres ocupam (e muito bem) outros papéis na sociedade real : muitas sustentam família, exercem profissões que até há pouco eram só domínio masculino, ocupam cargos importantes…aqui no Brasi,nas últimas eleições, como eu li em um excelente artigo escrito na época pela minha amiga Lidiane, vimos aflorar tão claramente o preconceito contra a mulher como nunca pois tivemos duas mulheres candidatas a presidência! Uma delas ganhou a disputa (que não era por beleza, não) mas até hoje sofre com comentários insinuando que ela não possui atributos que caracterizariam uma mulher (como beleza, delicadeza, etc). Como esquecer que a mulher mais comentada na posse de Dilma foi a esposa do Michel Temer ( aquela que o Zé Simão chamou de Paquita)… que mundo machista nós vivemos, né? Eu, como mulher negra, infelizmente, também não me surpreendi nada com os ataques racistas, afinal parece tratar-se de uma africana, não é isso? E é o seu corpo negro (como os corpos dos afro descendentes em todos lugares) que é tomado como a única coisa a ser levada em consideração, afinal ela é negra, o que mais ela tem para oferecer?! Infeliizmente eu aposto que o UNIVERSO do qual esta moça é “miss” não a aceitará assim tão facilmente neste lugar, e muito menos permitirá que ela venha a ocupar um outro papel. É uma pena!”

Camila, eu não tenho discordância em nenhuma vírgula que você colocou. O concurso foi mesmo constituido para colocar a mulher sendo julgada somente pela sua aparência e atributos físicos, sem nenhuma relação com personalidade e capacidade. As mulheres estão lá para serem ‘bonitas e burras’, e a prova disso é o momento das perguntas e das respostas sem noção das misses, deprimente ‘comprovação’ de sua beleza e burrices (e, por extensão, de todas as mulheres).

Por outro lado, sempre considerei um absurdo e uma tremenda falta de lógica tentar encontrar uma ‘beleza’ que seja considerada a ‘melhor’ e ‘superior’ universalmente. Mesmo quando mais jovem, eu ficava espantado como as mulheres neste show eram e ainda são tratadas como pedaços de carne, onde só faltam aqueles ganchos de açougue para lembrar de vez uma exposição de carne bovina pronta para churrasco. E também não me conformava com um ‘espetáculo’ que é tudo menos divertido, nem mesmo meus anseios masculinos e machistas eram satisfeitos, pois a apresentação de tudo é pesadamente assexuada. E, além do mais, além da questão ideológica e social, pelo ponto de vista do ‘entretenimento’ a coisa toda é de uma breguice e de uma chatice absurdas, nunca consegui assistir a coisa até o final.

Este ano, eu só fiquei sabendo que o concurso havia acontecido porque alguns amigos assistiram e postaram aqui pelo facebook e pelo twitter, comemorando que a miss escolhida foi uma negra de Angola. O fato de que em tantos anos de concurso de miss universo, essa angolana foi somente a terceira (ou quarta) mulher negra a ganhar o concurso já diz tudo sobre a concepção sobre ele.

Ok, isso acima foi para dizer que concordo contigo. A questão, Camila, é que eu não estava me referindo ao concurso em si. O ataque e a misoginia homicida racistas não ferem nem se referem somente às participantes do concurso, mas todas as mulheres. O que surpreende não é o racismo acéfalo em si, óbvio, o que me chocou foi o tamanho e a profundidade da virulência e a raiva (canina) demonstrados. E a apatia e as reações mornas. Não me conformo que se diga que as atitudes racistas eram ‘esperadas’ e ‘inevitáveis’.

Também não se trata aqui de se defender um concurso imbecilizante e misógino (e igualmente racista em sua essência). Estou me lixando para o concurso de miss universo, acho que esse universo respiraria mais livremente se ele fosse extinto (o que está bem longe de acontecer). O problema não é uma Miss Universo de origem angolana negra ter sido atacada por racistas. É de uma Mulher Negra ser atacada, rebaixada e ameaçada de tal forma. E para responder a isso não basta dizer que era inevitável ou que não vale a pena por conta de ser um concurso de beleza: tem que ser tratado como tal, como crime, e seus autores devem ser presos e condenados e lançados para a vergonha universal.

Menos que isso é complacência.