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Votação em Tiririca, Maluf, Feliciano, e Alckmin, demonstra o quanto os paulistanos são coerentes

18 de setembro de 2014

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Pois então, assim como muitos, também fiquei espantando, aturdido até, quando fomos informados do páreo dos deputados com maior intenção de voto em São Paulo: em primeiro lugar, Tiririca. Em seguida vem Celso Russomano, Paulo Maluf, Baleia Rossi, e Marco Feliciano.

Surpreso? Não exatamente. É mais como um gosto amargo do que sabíamos estar podre e, mesmo assim, temos esperança de que a podridão não fosse tanta, tão mal cheirosa, tão encardida. Mas, no final, sim, está tão podre quanto temíamos.

Um comentário em um post alheio me fez pensar (peço desculpas ao comentarista, não guardei o nome) de que uma coisa que, na verdade, não se pode culpar os paulistanos é que não sejam coerentes. E ele tem toda razão.

Os que vão votar em Feliciano, Paulo Maluf, Tiririca, são os mesmos que aplaudem a repressão às manifestações de rua, são os mesmos que chama de vagabundos os sem-tetos que foram enxotados para a rua de prédios que ficarão vazios para especulação, são os mesmos que apoiaram a ação da Polícia Militar em Pinheirinho e não vê realmente grandes problemas na mortandade de jovens negros e pede, quase com desespero, que a idade para penalidade criminal seja diminuída (e, ao mesmo tempo, não se indigna que um criminoso internacional reconhecido pela Interpol e que não pode por os pés fora do país concorra e possa ganhar novamente um cargo político). São os mesmos que não se importam com ataques a homossexuais, e acreditam que incriminar pessoas por racismo é um exagero.

Não só isso. São também os mesmos que sofrem exatamente todas essas ignominias e segue impávido, como se nada disso fosse com ele. Sofrem com a repressão, com a violência, com o descalabro dos transportes, com o racismo, da mesmíssima forma que todos os outros. Vai morrer de sede como todos os outros. Mas é paulistano. Isso acontece com os outros, não consigo, não com seus familiares. “Aquele bicha merecia morrer, mesmo; eu não tenho filho gay”, e se tiver “a igreja pode curar”. “A falta de água é porque não tá chovendo”, “é porque o povo joga lixo na rua”. Os corruptos são sempre os outros. Os racistas são sempre os outros.

O modo como uma população pode assistir o colapso de um sistema de fornecimento de uma das maiores cidades do planeta e, mesmo assim, vai eleger exatamente o responsável por isso acontecer (“A falta de água é porque não tá chovendo”) é uma das incógnitas maiores do universo e não tenho a menor pretensão de realmente entendê-la. Há várias respostas sendo oferecidas, e quem souber a resposta ganha um copo de água. Ou de lodo, a preferir.

Sadomasoquistas? Proto-fascistas? Ignorantes? Um pouco de tudo e tudo ao mesmo tempo.

Seja o que for, não se diga que não são coerentes. São.

ps. uma nota especial em relação ao Tiririca:

Não tenho exatamente grandes críticas a ele , não. E também achei um absurdo a forma vergonhosa, preconceituosa, de tentarem lhe negar o direito de concorrer. Sempre tive certeza absoluta que ele, como político, seria exatamente como foi: presença constante no trabalho (acredito que seja o político com menos falta de todo o país), embora irrelevante como força política. Anódino. O meu post foi sobre os eleitores. Quem o coloca como primeiro das intenções de voto não se diferencia ideologicamente em nada dos que também votam nos outros quatro colocados e no Alckimin para governador. Sua eleição (e, pelo visto, sua reeleição) nunca foi um voto de protesto; evidenciou muito mais o vazio (psicológico, social, político) dessa direita reacionária paulistana niilista que, quando é ‘séria’, ‘assumida’, vota nos malufs, felicianos e etc.

 

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Auxílio-moradia para Juízes Federais? Em São Paulo, para sem-tetos, o ‘auxílio-moradia’ é Rua.

17 de setembro de 2014

Ministro do Supremo concede auxílio-moradia para todos os juízes federais.

Desculpe, peço licença para repetir isso para, quem sabe, absorver a notícia:

AUXÍLIO-MORADIA PARA OS JUÍZES FEDERAIS! TODOS OS JUÍZES!

Porque, segundo o Ministro do Supremo, “não é ‘justo’ que apenas uma parcela dos magistrados brasileiros receba os recursos. De acordo com a Associação dos Juízes Federais (Ajufe), atualmente o auxílio é pago a juízes estaduais de 20 estados e varia de R$ 2 mil a R$ 4 mil.”

Enquanto isso, em São Paulo, 200 famílias, por volta de 800 pessoas foram despejadas para que especuladores continuem a especular com os prédios vazios! 200 famílias vão buscar auxílio-moradia na rua essa noite. E pelo resto de suas vidas, se depender da Justiça brasileira.

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os despejados de São Paulo e a lógica capitalista da felicidade

17 de setembro de 2014

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A lógica capitalista é simples, nem precisa muita matemática:

– prédio parado, abandonado há dez anos, no centro de uma das cidades mais caras do mundo, é ótimo para especulação, dinheiro para o dono;

– oitocentas pessoas morando neste prédio não proporciona o lucro para o dono do prédio;

– oitocentas pessoas precisam ser despejadas;

– o poder judiciário se rende à essa simples equação;

– o poder militar age para garantir essa equação;

– o dono fica feliz;

– as pessoas que ocupavam o prédio e que não terão nenhum lugar para ficar (a não ser ao ar livre) não ficarão felizes (mas isso não interessa ao poder judiciário, ao poder militar, ao poder do capital;

– perfeito, o prédio está pronto para ficar mais dez, vinte anos, parado, abandonado, rendendo lucro na especulação financeira imobiliária capitalista

e há os que aplaudem, delirantes de alegria com a eficiência do capitalismo paulistano

Eles riem. De nossa cara, de nossa pretensa democracia, de comissões de verdades. E continuarão rindo.

7 de setembro de 2014

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Eles riem dessa tal ‘democracia’, riem de nossa cara, riem.

Quando o Coronel Wilson Machado foi chamado para depor na Comissão da Verdade, esse grupo de pesquisas escolares sobre um período chamado de Ditadura Militar, ele protagonizou a reação perfeita, demonstrou a face da verdadeira relação de poder desta nossa assim chamada Democracia: ele riu.

Ele e o sargento Guilherme do Rosário iriam explodir uma bomba em um show de música popular em 1981, no Rio de Janeiro. A bomba explodiu no colo do sargento, que morreu, e o Coronel, então capitão, sobreviveu com ferimentos. Agora é Coronel. E a coitada da Comissão da Verdade quis que ele testemunhasse. Ele riu.

Riem. E continuam matando, perseguindo, torturando, escondendo provas, camuflando documentos. A estrutura da policia militar continua exatamente a mesma, suas práticas continuam as mesmas, o tratamento político e o desprezo às instituições civis continuam as mesmas. E os governos (todos os que vieram após a restauração das ditas ‘estruturas democráticas’ de direito que são tão constantemente desrespeitadas) todos assumem a característica de se abster e de não se aventurar em mexer em vespeiro. Todos tiveram e todos têm medo. E não há perspectiva nenhuma de que isso mude com quaisquer outros que estão por vir.

Porque o riso e o escárnio não precisam ser demonstrados somente por gargalhada ou pela face despreocupada do Coronel Wilson Machado. O riso e o escárnio rolam fácil, direto e reto nas periferias brasileiras, nas mortes diárias de pessoas colocadas à margem da sociedade, na postura racista e prepotente (reflexo de nossa sociedade racista, prepotente), nas salas de tortura das delegacias, na repressão às manifestações de rua, na criminalização das manifestações de rua, no desprezo de comissões de debate que penam buscar a tal Verdade (acredito na sinceridade dos membros dessa comissão, mas duvido que eles mesmos acreditem que alguma coisa será mudada; eles continuam e merecem nosso respeito; gostaria de acreditar que algo acontecerá por conta disso).

Enquanto isso, comemoremos nossa Independência, é isso?

Enquanto isso, façamos nosso dever cívico e marquemos cruzinhas, ou apertemos botôes em urnas, e satisfaçamos a fachada democrática é isso? E fiquemos satisfeitos, pelo menos até a próxima eleição, não é mesmo? Pois exercemos nosso dever.

Enquanto isso eles continuam rindo.

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,ministro-da-defesa-defende-comandante-do-exercito,1553811

 

Privataria Tucana em vídeo. Próxima CPI?

17 de outubro de 2012

 

Resumo em vídeo das ideias principais do livro “A Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Jr.. o vídeo é curto, mas deixa entrever a profundidade e a densidade do livro, uma grande lição de história recente.

O livro faz muito mais do que apontar imoralidades: mostra a montanha de dinheiro que foi literalmente roubada dos cofres públicos através das privatizações da época de Fernando Henrique Cardoso, com o auxílio luxuoso de José Serra, mostra quem são os mandantes (os criminosos) e os caminhos dos roubos (os crimes sendo praticados), tudo embasado, demonstrado e provado por documentos.

No entanto, para os meus olhos leigos, talvez não seja a melhor pessoa para avaliar a autenticidade de suas provas. Não sou policial, nem advogado, muito menos juiz (aliás, não sou nem mesmo petista). O que eu quero (e exijo) é que os policiais, os advogados e os juizes façam o seu trabalho, como foram louvados no caso do mensalão.

Agora, a minha grande dúvida ainda é sobre um tal cpi da privataria. Gostaria muito de saber se haveria a mesma diligência, a mesma sofreguidão, o mesmo empenho demonstrados no mensalão petista.

Gostaria de saber se ocorreria igualmente nos momentos finais ou exatamente em período de eleição.

Gostaria de saber se mandantes criminosos de alta categoria, de cúpula de partidos nacionais, também seriam indiciados (e não somente alguns gatos pingados, só para dar o tom de que a tal cpi seria imparcial).

pô, CPI da Privataria Tucana.

Confesso que eu acharia interessante.

“As leis são como as mulheres, estão aí para serem violadas”.

8 de outubro de 2012


Quem proferiu essa lapidar frase de sabedoria moderna (“Las leyes son como las mujeres, están para violarlas”) foi o espanhol José Manuel Castelao Bragaño, ex-presidente de um órgão consultivo para o governo ligado ao Ministério do Trabalho espanhol. Recém-empossado no cargo (havia sido no dia anterior, dia 05) para um mandato que seria de quatro anos, Bragaño falou isso durante uma reunião aborrecido (ou divertido) por conta de um problema burocrático para o fechamento de uma ata.

É, o inconsciente faz dessas coisas de vez em quando, imbecilidades irrompem inesperadamente, faz a pessoa escorregar, e dizer o que pensa, de verdade, no íntimo, agora escancarado.

A reação e o choque foram imediatos.

Pouco depois, Bragaño anunciou sua renúncia do cargo, mas disse que foi por motivos pessoais.

Ao todo, ficou quatro dias no cargo.

Ficou demais.
http://sociedad.elpais.com/sociedad/2012/10/05/actualidad/1349454276_520810.html

Circo de uma Justiça

5 de outubro de 2012

 

Eu não nutro a menor simpatia pelo político José Dirceu. Tenho restrições a sua tal trajetória; tenho dúvidas sobre seus projetos pessoais e históricos. Acredito que, em um julgamento verdadeiramente íntegro e consistente sobre sua atuação e manutenção do poder, algumas lições importantes de moral poderiam ser aprendidas, algumas ações sérias poderiam ser tomadas, medidas históricas poderiam ter sido encaminhadas.

Mas esse circo do STF nunca foi um julgamento de verdade, não é mesmo? Nunca houve a intenção de possibilidades alternativas, não é? Nunca deixou de ser somente e absolutamente um reles instrumento de politicalha baixa e rasteira.

Fico pensando em quanto tempo demorará para que se perceba o tamanho das forçações de barra, das bizarrices jurídicas, dos absurdos de lógica. E não nos enganemos: a porteira foi aberta, a hipocrisia ficou escancarada.

Daqui pra frente, a tendência é de queda livre. Pois, o salto foi dado.

“Estupro ‘legítimo’ não causa gravidez”

19 de agosto de 2012


A imbecilidade e a estupidez avançam. Todd Akin, candidato republicano ao Senado norte-americano é contra o Aborto. Em uma entrevista, instado a esclarecer melhor suas objeções, disse: “Antes de mais nada, do que eu entendo do que os médicos dizem, [gravidez como resultado de um estupro] é muito raro. Se for um estupro legítimo, o corpo feminino tem meios de tentar jogar a coisa inteira para fora”.

Isso é tão estúpido de tantas maneiras que é até difícil começar. No entanto, antes de tudo, o que é ‘Estupro Legítimo’?! É a forma impressionante de Akin dizer que, se a mulher ficou grávida, é porque não foi Estupro! Porque se ela tivesse sido estuprada Mesmo, de Verdade, Legitimamente, ora, não haveria consequencias. Através dessa misteriosa forma alquímica conhecida somente por ele, com seus profundos conhecimentos médicos, o corpo da mulher expeliria de forma natural o corpo estranho. Todd Akin deveria ser candidato não ao Senado mas ao Prêmio Nobel de alquimia.

Mas é claro que a entrevista não acaba aí e Akin continua. E nos (raros, segundo ele) casos de gestações que não teriam sido impedidos pelo organismo feminino nos ‘estupros legítimos’, mesmo assim ele seria contra o aborto?

Mas vamos presumir que isso talvez não funcione ou algo assim. Creio que deveria haveria alguma punição, mas a punição deve ser contra o estuprador e não contra a criança”.

Isto é, não importa. Todd Akin é contra qualquer forma de aborto, de qualquer modo, em qualquer circunstância, mesmo quando a mulher corre risco de morte, mesmo quando o estupro foi ‘legítimo’.

Obviamente, a repercussão foi enorme e Akin logo se apressou a dizer que tudo não passou de um mal-entendido, que houve uma confusão e a entrevista: “não reflete a profunda empatia que sinto pelas milhares de mulheres que são estupradas e abusadas a cada ano”.

Sabe, no entanto, o que é mais aterrorizante disso tudo? Não é somente a patética e abjeta posição de um político norte-americano que faz de tudo para ser eleito. É o fato de ter pessoas que concordam com ele e votam nele e o acompanham. Mesmo que não seja eleito (ele concorre pelo estado do Missouri contra a democrata Claire McCaskill cujo partido é forte na região, mas está passando por um desagradável momento de impopularidade por conta da gestão do Barack Obama) (embora, com candidatos como Akin, a coisa fique mais tranquila), o fato é que, em uma pesquisa eleitoral recente, ele teve 6% de intenções de votos. Há pessoas que consideram certo o que ele diz! Que realmente pensam que se a mulher ficou grávida foi porque quis e, portanto, dane-se!

Todd Akin pode ser estúpido e imbecil e seu pensamento profundamente desumano e misógino. O pior, mesmo, é que ele não está sozinho.

Missouri Republican: ‘Legitimate rape’ rarely causes pregnancy
Todd Akin on the The Jaco Report
August 19, 2012
By Michael O’Brien, NBC News

http://firstread.nbcnews.com/_news/2012/08/19/13365269-missouri-republican-legitimate-rape-rarely-causes-pregnancy?lite

Updated 5:18 p.m. — A Republican Senate nominee found himself in hot water on Sunday for suggesting that instances of “legitimate rape” rarely results in pregnancy.

Rep. Todd Akin, a Republican who’s locked in a hard-fought campaign in Missouri to unseat Democratic Sen. Claire McCaskill, was answering a question regarding his position on abortion rights in instances when a woman is a victim of rape.

“People always want to make it into one of those things — well, how do you slice this particularly tough ethical question,” Akin said in an interview on KTVI-TV, video of which was circulated by the Democratic super PAC American Bridge.

“First of all, from what I understand from doctors, [pregnancy from rape] is really rare. If it’s a legitimate rape, the female body has ways to try to shut that whole thing down,” Akin said.

Regarding his opinion on whether to allow for an abortion in such instances, Akin added: “But let’s assume that maybe that didn’t work or something. I think there should be some punishment, but the punishment ought to be on the rapist and not attacking the child.”

Akin’s comments had an almost immediate impact on Missouri’s Senate race. McCaskill wrote on Twitter:

Claire McCaskill@clairecmc
As a woman & former prosecutor who handled 100s of rape cases,I’m stunned by Rep Akin’s comments about victims this AM bit.ly/NahiHz

19 Aug 12
In a statement, Akin said that he had misspoken.

“In reviewing my off-the-cuff remarks, it’s clear that I misspoke in this interview and it does not reflect the deep empathy I hold for the thousands of women who are raped and abused every year,” he said.

Akin emerged earlier this month from a tough three-way primary in Missouri, where he rallied social conservatives behind his candidacy. Democrats actually spent during that primary to help Akin win, viewing the six-term congressman as a less formidable challenger in the general election.

McCaskill, who was first elected in 2006, has become a top target for Republicans this fall, given President Barack Obama’s unpopularity in the state and successive statewide victories for the GOP.

Republicans need a net gain of four seats this fall in order to take over the Senate in the next Congress, and Democrats must defend 23 seats this fall. But unexpected Republican retirements and races that have become more competitive than expected have boosted Democratic hopes of maintaining their majority.

 

 

 

 

A velha amiga senil britânica não deseja que Assange parta

16 de agosto de 2012

 

Ah, a mesma velha, imponente e senil nação britânica, com suas chuvinhas eternas, sua sensibilidade servil e ignóbil aos desejos e pruridos norte-americanos, sua arrogância para com países de terceiro mundo e ou ‘em desenvolvimento’ (aliás, qual é o mais recente eufemismo para países não-europeus?), doida para invadir a embaixada oficial de uma nação soberana que, corajosamente, concedeu asilo político para Julian Assange.

Ah, a gloriosa e vetusta nação britânica que concedeu visto de saída para Augusto Pinochet e não quer conceder o mesmo para o criador do veículo que ousou, deliberadamente!, contar verdades e podreiras das tais potências mundiais.

Equador, dando lição de moral, um banho de democracia e respeito humano para a velha, venerável e decadente bruaca britânica.

E a ‘Justiça’ dorme! Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa dormem!

7 de agosto de 2012

 

No Brasil, a JuJus-tiça não só é cega, como também se permite dormir durante as sessões, numa boa, sem constrangimento. Não parece roncar, nem babar. Pelo menos, não em plenário.

Ao contrário, porém, da reação de diversão e de piadinhas que encontrei em vários comentários pela web, não considero isso nada engraçado. Não é divertido observar Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa se lixando para participar ou sequer tentar disfarçar que presta atenção (algum mínimo grama de atenção) nesta farta palhaçada institucional. O desrespeito e a falta de dignidade não diz somente aos demais ‘adevogados’, ministros e ‘caros colegas’ de farra judiciária: é a mim, a você, vocês, a nós!

Se eles abaixassem as calças e mostrassem a bunda em rede nacional, o desrespeito e a falta de vergonha seriam exatamente o mesmo.

 

 

 

 

Serrinha, o Higienista

11 de julho de 2012

 

A maior novidade da campanha de José Serra para prefeito de São Paulo é uma história em quadrinhos. Agora José Serra é quadrinhos. Espetacular, não? Não digo que ele tenha ficado bonitinho (seria impossível) nem fofucho nem sequer engraçadinho (está mais para turma do Penadinho do que outra coisa). Nem mesmo suportável. Enfim, mais um lance ridículo do caro e eterno semi-prefeito, semi-governador, sempre candidato, direitista e higienista por inteiro.

Obviamente, a resposta não demoraria. As versões serrinhas estão bombando na internet. Acredito que esta foi a primeira que surgiu (pelo menos, foi a primeira que vi), e já tem várias outras (e já foi aberto um tumblr para reuni-las: http://souserrinha.tumblr.com/). Preparemo-nos, pois ao que tudo indica este próximo período de eleições será tremendo, repleto de baixarias e todo o arsenal reacionário à disposição. Mas, pelo visto, com muito espaço para o humor, de bom ou mau gosto, involuntário ou não.

 

 

Golpe de Estado no Paraguai. E Fernando Lugo com o rabo entre as pernas.

23 de junho de 2012

 

Liso. Plano. Direto. Objetivo. Ao vivo. À cores! Plugado e antenado. Golpe de Estado, deposição pura de um presidente legalmente eleito. Um escarro de desprezo na boca do povo paraguaio, do latino-americano, e em toda e qualquer dita ‘democracia’.

Paraguai. América Latina. Século 21!

E o sangue agora correrá.

Ou não?

Fernando Lugo diz que ‘democracia paraguaia foi agredida’. Sério?! Isso lá são horas de se usar eufemismos? Agressão? Foi um golpe de estado escancarado, desavergonhado, o processo de impeachment foi uma farsa grotesca, direito de defesa pisoteado a nível nacional e continental. Não foi uma mera agressão.

O fato é que Lugo está realmente saindo, aceitou seu fardo, e com o rabo entre as pernas, o que lança uma tremenda ducha de água fria nos movimentos em sua defesa.

Outro fato, no entanto, é que a defesa não deve ser feita para a pessoa ‘Fernando Lugo’ e, sim, para a instituição dita democrática de direito. Se para a pessoa Fernando Lugo o rumo mostrou tão ruim, para o país e para o continente, o abalo nas instituições (que se revelam tão frágeis, tão facilmente ‘agredidas’) é desastroso e dá margem, e esperança, para que mais agressões aconteçam.

Vamos a ver como se comportarão as demais instituições democráticas latino-americanas. Vamos a ver se medidas concretas serão realizadas. Espero que, pelo menos, não comecem a dizer que tudo não passou nem de golpe nem mesmo agressão, mas no máximo um ‘incômodo’.

 

 

Habitante Irreal, de Paulo Scott, uma jornada ética, um livro absurdamente necessário

29 de março de 2012

 

Acabei de ler, emocionado e contente ( e finalmente, pois o livro foi lançado ano passado) a última obra do contista, romancista e poeta, Paulo Scott, o ‘Habitante Irreal’.

Que belíssimo livro, que literatura sofisticada, que trabalho maduro, tão bem construído (apesar de algumas imperfeições), fluido e agradável de ler (uma leitura extremamente prazerosa) com uma narrativa de aparência simples, à primeira vista, e com um universo de intenções e interpretações possíveis como embasamento. Embora inicie-se como uma reflexão política, através da trajetória de um militante desiludido, a obra não finaliza como um manifesto e sim como uma reflexão profunda sobre escolhas éticas (ou falta de) e de suas consequências (embora imprevisíveis, inexoráveis, algumas trágicas).

Durante esse tempo desde seu lançamento no ano passado, me abstive de ler críticas ou comentários afora, minha pretensão era de chegar ‘puro’ à obra, sem intermediações de pensamentos alheios. Não foi uma pretensão muito bem realizada, acabei vendo alguma coisa ou outra, embora tenha realmente tentado me desligar de outras opiniões. A minha expectativa era grande, por motivos intelectuais, literários e pessoais, e tinha receio de ser novamente decepcionado, como aconteceu algumas vezes (e há pouco tempo). Portanto, neste primeiro parágrafo, antes de prosseguir eu gostaria de deixar claro dois pontos primordiais, duas recomendações: não leia este meu texto. Não neste momento, pelo menos. Não forme preconceitos; vá de cabeça limpa, esqueça esse pobre resenhista. Pois minha segunda recomendação é Leia o livro Agora, de Imediato, pois é dos mais importantes que apareceu na literatura brasileira nos últimos anos.

Dito isso, também devo enfatizar que posso cair em uma apreciação não muito isenta. Há muitas questões externas a uma análise de pretensa objtetividade que podem comprometer meu pensamento, o que  reconheço desde logo ser uma lástima. Tentarei deixa-las todas claras à medida que ocorrerem. Ao menos, prezarei a sinceridade.

Para uma primeira aproximação, o básico: a linha narrativa e a construção formal da linguagem. O enredo é simples. Paulo é um militante do PT no final da década de 80 (o livro começa bem especificamente, em 1989), desiludido e desanimado com os caminhos de acomodação política e de disputa de poder que o partido está tomando, mesmo que saiba ser o rumo óbvio de um grupo que, afinal, está conquistando seu espaço. Paulo sabe, também, que seria fácil seguir os mesmos passos, montar as peças de uma carreira, e se destacar; tem cacife, anos de militância e um certo reconhecimento. Porém, percebe que isso o deixa completamente apático, não possui essas ambições, e vê-se, assim, desprovido de perspectivas. A mudança abrupta em sua vida acontece quando conhece uma índia adolescente, Maina, parada ao lado de uma estrada, a quem oferece uma carona. A carona evoluirá para um relacionamento e para acontecimentos que remodelaração suas existências e não necessariamente para o melhor. Por mais previsível que seja, porém, a tragédia não deixa de ser inevitável. Os caminhos se bifurcam, as rotas pessoais se dividem, Maina engravida, Paulo se muda para Londres, outros personagens e outras histórias aparecem e tomam conta da narrativa, e mesmo Paulo retoma, sua importância é relativizada, outras são as preocupações, assomando-se assim uma primeira grande questão: Quem é, de fato, o personagem principal, e para onde ele, e o romance, nos levam.

Não é uma falsa questão. Quando, ao acabar a minha leitura, fui colher curioso o que outros teriam dito e como foi a reação geral, percebi que há uma grande confusão, mesmos entre aqueles que elogiaram a obra. Constatei, divertido, a irritação de quem pensou que o livro não leva a lugar algum. São os que interrompem sua interpretação somente por meio da história, e perdem suas inferências. Mais para frente, digo qual a minha resposta e porque a considero tão fundamental.

Formalmente, ‘Habitante Irreal’ é uma surpresa, considerando-se os trabalhos anteriores de Scott. Muito diferente de suas experimentações linguísticas de seus poemas e inclusive de sua prosa: seu livro de contos, ‘Ainda Orangotangos’, exibia uma volúpia luxuriosa e libertária, mesmo que tensa e pesada em alguns momentos, além de trazer um cd no encarte com músicas para serem lidas durante a leitura de cada um dos contos. Seu romante anterior, ‘Voláteis’ aumenta a intensidade, mesmo que adote uma linha mais ‘psicologizante’, o que me fez esperar que ‘Habitante Irreal’ as experimentações fossem aumentar.

Ao contrário. A prosa agora é contida, simples, quase melancólica, mesmo em momentos de crise ou violência, nunca, porém, ‘devagar’ ou parada, pois sempre fluente, sempre em movimento, o que às vezes provoca um belo contraste entre a contenção da palavra e a aspereza violenta da ação narrada. Esse movimento constante da ação está presente o tempo todo, mesmo quando não existe, na verdade, uma ‘ação’ propriamente dita, quando penetramos em seus pensamentos e elucubrações íntimas. Boa parte da narrativa é conduzida assim, aliás, e o fato de sermos tomados e não despegarmos os olhos das páginas é mérito total do controle criativo de Paulo Scott.

Há falhas, no entanto; esse controle é perdido, algumas vezes. Por exemplo, instantes onde se instala uma espécie de ‘didatismo’ (não gostei muito dessa palavra, mas parece expressar o que estou sentindo, por enquanto) quando o narrador paralisa a ação ou insere uma fala que explica em demasia, focaliza um ponto sem necessidade, ou começa a enumerar ítens, um recurso interessante quando bem utilizado, mas que aqui parece tímido, sem que sua potencialidade plena seja atingida, como em uma cena de sexo, quando o personagem começa a citar para si e para o leitor os acontecimentos políticos importantes que o rodeavam naquele exato momento e que deveriam chamar sua atenção. Como painel explicativo da época, o didatismo quase infantil apresentado é flagrante; como recurso estilístico, é fraco e insuficiente.

Para explicar melhor, penso em obras como ‘Quarup’, de Antônio Callado, engajadamente política e militante, que conta a transformação de um padre em guerrilheiro contra a ditadura, quando ao abrir um capítulo, deparamo-nos com a descrição de  uma farmácia da época, com a enumeração de cada um dos itens das prateleiras; minuciosa e exaustiva (até demais) a descrição leva bem umas três ou quatro páginas!, o que tem sua intenção dentro do romance. Outra obra (muito menos importante) que faz isso e possui também um impacto é ‘Viva o Povo Brasileiro’, de João Ubaldo Ribeiro (neste caso, o impacto é negativo, o recurso é em latim, uma bobagem longa, exaustiva e pedante). Na obra de Scott, não é pedante, mas é tímido, sem vigor, sem plena utilidade.

O ‘didatismo’ não me refiro somente aos momentos diretamente políticos. Uma cena que me irritou em particular é quando, em uma conversa sobre trotskismo e de sua vida como militante, Paulo fala de sua existência vazia: “Às vezes tenho a impressão de que só comecei a militar porque queria ser diferente, precisava aparecer, precisava chamar a atenção. Sou um cara vazio, Rener, um cara oco.” Poucas páginas depois, Paulo telefona para seus pais no Brasil (ele está em Londres) e deixa um recado na secretária eletrônica. Frases soltas e clichês, tentativa infrutífera de expressar uma emoção ou um sentimento verdadeiro. É somente um parágrafo, mas a sensação final é de uma pungência pesada e melancólica, que nos diz muito mais sobre o vazio e o oco do personagem do que em todo o diálogo explícito anterior.

O que há de forte, bonito e bem construído nesta obra compensam, de longe, as deficiências fortuitas. O escritor nos conduz aonde quer, domina nossas emoções, nos obriga, de puro prazer, a continuar a leitura. A construção dos personagens é primorosa: entendemos, nos identificamos, nos importamos, ficamos apreensivos com o futuro de Paulo, Maina, Donato, Luisa, Catarina, eles possuem ossos e carne e personalidades, inclusive os personagens passageiros, ‘coadjuvantes’, são marcantes e fazem presença, Rener, Henrique, Passo Fundo, o Espectro, são pessoas. Como seria fácil cair nos estereótipos!, o militante frustrado, a índia nativa, o índio aculturado, o policial estúpido… Eles são isso, só que muito mais, são concretos.

E há trechos poderosos, belos: o final da primeira parte (todo o capítulo ‘desenhos romanos’), a educação de Donato, a consulta de Maina durante a gravidez, a luta com os libaneses. Preciso especificar uma cena: a conversa com a velha senhora, à noite, em uma esquina antes da invasão da casa abandonada: a profunda sensação de estranheza e a bizarrice daquele diálogo, o desconforto quase pânico de Paulo, criam um clima de filme noir ou de literatura fantástica… amei essa cena e, desde já, é um dos trechos preferidos de tudo o que já li.

‘Habitante Irreal’ preenche, ou se pretende, uma falta que a moderna literatura brasileira não se engaja, nem encara: a da feição do Brasil presente como derivado da ditadura militar. Interessante observar como possuímos uma portentosa arte de resistência que, mesmo quando não-explícita (por censura ou auto-contenção), era consciente plena de sua postura. Esse fervor e urgência foram diluindo com os anos, com uma ‘redemocratização’ e uma certa ‘acomodação’ de alívio. Para a geração que nasceu no final da década de 60 e, portanto, passou sua infância e começo de adolescência inconscientes justamente na instalação e maior vigor da ditadura militar, a situação ideológica é muito confusa: somos depositários da mentalidade das grandes utopias do século e participamos do (ou assistimos o) final de uma ditadura dentro um contexto mundial político e econômico completamente diferentes do que nos era posto durante nossa formação pessoal e intelectual, ao mesmo tempo que presenciamos impotentes a derrocada das respostas totalizantes (ou de ‘ilusões prepotentes’, conforme seu foco). A reação geral foi de distanciamento, de não comprometimento, eu diria até mesmo de fuga. Atitude de diametral diferença às adotadas por outros países com históricos semelhantes (veja-se como é absurdamente difícil impor uma agenda de discussão e responsabilização pelos terrores da ditadura e compare-se o que já foi feito nesse sentido em países como Chile e Argentina; compare-se com o que as respectivas literaturas e as artes igualmente refletem). Essa percepção, essa ‘desacomodação’, esse conflito interno, é quase inexistente no Brasil, aparece esporadicamente em pontos esparsos. Só por esse motivo, só por provar que é possível fazer essa discussão no universo artístico, no universo literário, e, mais do que isso, realiza-la de modo tão bem e belamente construída, já valeria um posto único para ‘Habitante Irreal’.

Mas, isso é insuficiente.

Ao término da minha leitura, apesar do meu entusiasmo, estava incomodado. Senti que faltava alguma coisa e fiquei em dúvida se era uma falta de percepção minha ou se havia uma nota discrepante no trabalho de Scott. Demorei um pouco para descobrir que havia caído na mesma armadilha de alguns outros críticos (tanto os favoráveis quanto os discordantes) e ficado satisfeito e paralisado na primeira e superficial apreciação da história e esta, no final das contas, por mais surpreendente que seja, não é o mais importante! Permita-me explicar:

Os grandes saltos temporais, as mudanças geográficas, os pequenos painéis históricos, as mudanças dos personagens principais que se alternam entre Paulo, Maina, Luisa e Donato (os principais, mesmo que não ameacem a preponderância de Paulo, ainda que ele não esteja presente em metade do livro), podem nos fazer pensar em que tudo termine em uma espécie de beco sem saída (literário, o de Scott, e narrativo, dos personagens). Pois há uma pergunta que eu nem imaginava fosse tão importante e se revelou fundamental: quem é o personagem principal? É um desses citados? É o Brasil, como um todo? (Por um momento, pensei que fosse o filho de Maina, Donato, o verdadeiro responsável, e Paulo como um introdutor) Ou talvez uma idéia mais abstrata, a Política? Ideologia?

Creio que quem chega mais perto de uma boa resposta é Carlos André Moreira. Eu fiquei muito feliz de ler seu texto ‘Brincadeira de Forte Apache’ (Zero Hora), principalmente no trecho “O trajeto romanesco de Habitante Irreal é, assim, também um trajeto ético, uma vez que cada decisão parece gerar mais dúvidas e provocar consequências contrárias às intenções que as balizavam na origem.” É esse o principal!

É o que perpassa e fundamenta todo o romance de Paulo Scott e que, afinal, constitui sua real importância e nos explica seus personagens. São estas escolhas, suas consequências, suas aspirações e seus resultados, enfim seus posicionamentos éticos determinam (ou induzem) suas respostas e o que sofrerão de volta. O retorno da realidade é o fruto de suas ações (ou a falta de). A incapacidade congênita de Paulo, ou sua perene falta de coragem, a busca de identidade de Donato, a militância pseudo-anarquista de Rener, impoem, ou ao menos tentam impor, sua marca na vida, em sua existência, mesmo quando se deixam simplesmente levar pelos acontecimentos. Mesmo o ato final de Maina transcende sua pessoa, pois resvala inexoravelmente em outros. São todos responsáveis, todos os personagens, mesmo que as respostas recebidas sejam quase todas dolorosas (o Brasil é um dos personagens, realizar eleições e disputar poder são suas atitudes, o Brasil moderno, seja qual for, é sua resposta). Somos todos responsáveis, mesmo que inconscientes ou inconsistentes, inclusive o autor. Inclusive o leitor.

‘Habitante Irreal’ é um manifesto, sim, mas não político (pelo menos, não somente político). É uma bela obra que levanta a questão do ser humano como ente ético e suas tremendas consequências, até mesmo a morte, que o acompanham.

 

 

O ridículo surreal do PT de Minas

26 de março de 2012

 

caras, eu sei que em São Paulo tem que se viver com a nata da PSDB e todos os seus descaminhos; sei também que aqui se decidirá muito (talvez o principal) do que acontecerá no plano nacional para os próximos anos.

Mas, o que está acontecendo em Belo Horizonte não está chegando aos absurdos do surrealismo? Ter um prefeito do PSB, apoiado pelo PT e pelo PSDB, já foi de lascar, e criou um clima de crise profundamente amoral, e em nome de quê? De uma ‘governabilidade’? De acordos ‘supranacionais’? Vale qualquer coisa? Vale passar por cima de todo e qualquer princípio?

E agora vai começar tudo de novo! O pt já havia decidido semana passada que não teria candidatura própria, apoiará o recandidatura do pessebista Márcio Lacerda, mas não quer mais o psdb no mesmo palanque. Por isso ‘impôs’ uma data, até 15 de abril, para Lacerda decidir sobre o apoio do psdb. Ora, o cara já disse e repetiu várias vezes que não mudaria nada em sua relação com os pessedebistas. Então, tudo isso se resume … a que? A uma pantomima? Um teatro de bonecos, com fantoches tristes e sem graça? Pois o que o pt fará quando chegar o tal dia 15, ou qualquer outra data vazia, e o prefeito reiterar sua posição? Qual o tamanho de sua ‘ameaça’?

E pensar que em São Paulo só não teremos o Kassab como aliado porque o próprio decidiu voltar, por sua conta, para o ninho serrista.

É uma competição para decidir qual pt estadual é mais ridículo?

 

 

Veja arrogante, Dilma deslumbrada

25 de março de 2012

 

Peço licença para fazer uma coisa que, normalmente, me reviraria o estômago: comentar uma capa da Veja. Em geral, deixo isso para pessoas que conseguem tampar o nariz, revolver o lixo, e ainda fazer considerações bacanas sobre política, mídia de massa, e o que mais vem. Neste caso, com a presença de Dilma Roussef na revista, minha curiosidade mórbida foi muito grande, dei uma olhada no texto de abertura, e devo dizer que fui recompensado com uma das peças de maior humor dos últimos tempos. É muito divertido! Rolei de rir com a suteliza elefantísica do texto, com a ironia escancarada, com a ‘chamada de atenção’ condescendente e, além de tudo, acho que descobri afinal o porque da atitude de babação eterna que Dilma nutre por estes veículos encarquilhados, porque não responde às provocações da mídia, porque não luta por um tratamento jurídico realístico (moral e legal) dessas grandes corporações: ela é uma Deslumbrada.

A ex-guerrilheira torturada, a ex-ministra de força de Lula, a primeira presidenta do Brasil, se derrete toda por uma participação no Jornal Nacional e no Fantástico, por participar em homenagem à Folha de São Paulo, por uma entrevista na Veja. Não creio que sejam gestos políticos. Como Chefe de Estado (em um Estado dito democrático), claro que ela precisa ser aberta e responder à população e conceder entrevistas como parte do trabalho, mas não creio que seja isso o que a faça sentir um glamour todo especial quando bate papo no meio de uma receita com a Ana Maria Braga. Ela gosta. Ser ‘homenageada’ na valadeesgoto/Veja, deve ter um gostinho de ‘revanche’ ou algo equivalente. Só isso para explicar como ela aceita ser insultada, ironizada, caluniada, durante tanto tempo e não fazer nenhum gesto de resposta à altura.

O pior de tudo é acreditar (ou tentar fazer acreditar) que a tal revista tenha tido alguma outra intenção que não fosse a de diminuir a Dilma. Que ela pudesse fazer de verdade uma matéria ou uma entrevista isenta, honesta. Ou, ainda mais ridículo, que ela tivesse se ‘rendido’ à Dilma! Dedicar tantas páginas para ela significa somente que a valadeesgoto/Veja sabe que vai vender bastante revista dessa vez! Portanto, os habituais leitores e comentaristas da valadeesgoto podem ficar sossegados, a revista não se rendeu à Dilma, não virou comunista, muito menos se filiou ao Pt.

É sério! Acompanhe o texto comigo, vou inserir os meus comentários entre parênteses, tenho certeza que concordará o quanto tudo é imensamente engraçado.

Começando pela capa. Admito que realizaram um bom trabalho que, a princípio, pode induzir à confusão e fazer duvidar de que a revista possa ter mudado sua atitude. Afinal, não fizeram tenebrosos efeitos de phoshop na imagem e Dilma aparece confiante, forte, bonita. No site, a pose é ainda mais alegre, com o sorriso escancarado. É uma capa muito bem feita, finamente montada, a ironia é expressa pela frase “Aplaudam, amigos, a comédia terminou”, e consegue confundir, fica-se dividido, pois se mistura à morte do Chico. Já vi gente dizer pela net que essa frase não tem nada a ver, que encontrar crítica ou ironia aqui chega a ser pananóia. Certo. Então, o paranóico Claudinei Vieira pergunta: não havia nenhuma outra frase cabível, de qualquer pessoa, que citasse a morte do Chico e não tornasse ambígua a imagem clara e favorável da Dilma Roussef? Quer dizer que foi uma ‘coincidência’? Talvez, uma ‘terrível coincidência’? Um erro do diagramador? Um lapso do editor? Ora, por favor, pensem um pouco.

Mas digamos que eu seja mesmo paranóico e passemos em frente, pois a diversão começa é no texto (meus comentários entre parênteses):

“Aos olhos de muita gente, a presidente Dilma Rousseff deveria estar uma pilha de nervos na semana passada (problemas, problemas). Ela vinha de uma viagem à Alemanha, onde pareceu, inadequadamente, dar lições de governança à chanceler Angela Merkel. (adorei a palavra ‘pareceu’!, é óbvio que a Dilma não faria isso, nunca teria capacidade ou a cara de pau de tentar dar lições para uma verdadeira, poderosa e inatingível líder européia, Dilma não teria esse descaramento). Na reunião que teria com os maiores empresários brasileiros, ela lhes daria “um puxão de orelha”, (as aspas servem para garantir o tom de ironia, certo?, ao mesmo tempo que faz uma referência velada à falta de seriedade da própria presidenta) e, para completar o quadro recente de tensão (problemas, mais problemas), a base aliada do seu governo no Congresso estava em franca rebelião, contrariando seguidas iniciativas do Palácio do Planalto nas votações. Como pano de fundo da semana caótica (caótica, caos, desastre, crise, são palavras completamente óbvias e previsíveis, pensei que uma era delas viria na primeira frase, mas não, colocaram na terceira), havia o fato de Dilma ainda não ter convencido a opinião pública de ser a grande gestora que o eleitorado escolheu para governar o Brasil em 2010 (isso quando ela acaba de conseguir taxas de popularidade recordes! O importante nesta frase, porém, é como a revista distingue e contrapõe os termos ‘opinião pública’ e ‘eleitorado’. O ‘eleitorado’ não pensa, não reflete, não tem opinião, ele só vota, foi quem colocou Dilma no poder; ´opinião pública’ é diferente, é importante, pensa e muda o mundo. Isto é, ‘opinião pública’ é a Veja. Mais pra frente deve ter alguém que ratifique esse pensamento) Como escreve nesta edição J.R. Guzzo, colunista de VEJA, capturando uma sensação mais ampla, “a maior parte das atividades do governo brasileiro hoje em dia poderia ser descrita como ficção” (HA!) (a Veja diz, a Veja prova, citando um colunista da própria revista…). Mas Dilma não estava nem um pouco tensa quando recebeu a equipe de VEJA (Eurípedes Alcântara, diretor de redação, e os redatores-chefes Lauro Jardim, Policarpo Junior e Thaís Oyama) na tarde de quinta-feira passada para uma conversa de duas horas em uma sala contígua a seu gabinete de trabalho no Palácio do Planalto, em Brasília.

(uma pausa e pensemos nessa Dilma descrita agora, depois da enumeração dos desastres, do clima de caos, da rebelião das bases, do não-convencimento da ‘opinião pública’: ou ela é uma boa atriz, que esconde todos sentimentos de terror em uma fachada de simplória tranquilidade, ou então ela realmente está convencida de que está tudo bem, e portanto, é uma inconsequente, ignorante da gravidade da situação a sua volta).

Dilma vinha de encerrar a reunião com os empresários, em que, disciplinadamente, cada um dos 28 presentes teve cinco minutos para falar, e não pareceu ter dado — ou levado — metafóricos puxões de orelha. “Tivemos uma conversa séria. Coisa de país que sabe onde está no mundo e aonde quer chegar”, disse ela. “Ficamos todos de acordo que os impostos têm de cair, os investimentos privados e estatais têm de aumentar e o que precisar ser feito para elevar a produtividade da economia brasileira e sua competitividade externa será feito.” Para quem vinha tendo os ouvidos atacados pelo buzinaço estéril da “guerra cambial” contra o Brasil — expressão que, como mostra a entrevista, ela não acha própria —, a frase de Dilma, mesmo sem a sonoridade do português castiço, soa como música (podemos todos ficar aliviados, pois Dilma está finalmente dando ouvidos à ‘opinião pública’)

É saudável quando o governante não põe em inimigos externos toda a culpa por coisas que não funcionam. Melhor ainda quando reconhece que seu próprio campo, além de não ter soluções para tudo, é também parte do problema. (Sinceramente, não há necessidade de comentários a isso; é impossível ser mais claro e objetivo. O que dá para destacar é o tom condescendente, paternal, do tipo ´é verdade, você está crescendo, está reconhecendo seus erros’. O que não é dito, mas está completamente implícito é a frase ‘viu como nós estávamos certos?’)“Não dá para consertar a máquina administrativa federal de uma vez, sem correr o risco de um colapso. Nem na iniciativa privada isso é possível. No tempo que terei na Presidência vou fazer a minha parte, que é dotar o estado de processos transparentes em que as melhores práticas sejam identificadas, premiadas e adotadas mais amplamente. Esse será meu legado. Nosso compromisso é com a eficiência, a meritocracia e o profissionalismo.”

“Eu disse aos empresários que seremos aliados nas iniciativas para aumentar a taxa de investimento da economia — e não mais apenas o crédito para o consumo”, contou ela. Suas propostas lembram o gato do chinês Deng Xiaoping. Não importa a cor. O que interessa é que ele cace ratos. (Dilma está sendo pragmática, está mostrando vantagens, a Veja ‘reconhece’ isso. Mas, o reconhecimento é só porque existe um Porém) Dilma Rousseff, porém, continua sendo a Dilma da lenda da mulher durona, de coração nacionalista (pois é, a lenda criada, divulgada e amplamente espalhada pela própria Veja, um mero detalhe). Confrontada com as críticas de que a Petrobras não pode ser um braço de política industrial do governo, ela reagiu: “A Petrobras tem de saber que o petróleo é do Brasil e não dela”. Felizmente (Felizmente!), Dilma admite que a extração do petróleo do pré-sal tem prioridade até sobre a sacrossanta exigência de 65% na taxa de nacionalização dos equipamentos (‘sacrossanta’, isto é, ‘absurda’. Por que uma empresa brasileira que dá lucro tem que continuar sendo brasileira?) — o que inviabiliza ou encarece muitas operações. Ela não verbaliza que a taxa pode ser reduzida, mas diz que, entre a manutenção do patamar de nacionalização e a garantia de produção dos campos do pré-sal, fica com a produção (Felizmente, a Dilma, no fundo, no fundo, mesmo que não verbalize, sabe que a Veja, isto é, a opinião pública, está com a razão, sempre esteve com a razão, e quem sabe, acabe não caindo nessa balela do nacionalismo).

(A valadeesgoto/Veja dá assim o seu recado. Independente do que a própria Dilma fale com suas palavras no desenrolar das páginas, é essa apresentação que conta: é a Veja, que adora escarnecer de uma presidente ‘em crise’ ‘caótica’, que condescende em abrir suas páginas, em dar lições de moral e até reconhecer que Dilma pode fazer alguma coisa de útil desde que deixe de lado a sua ‘lendária’ figura de ‘mulher durona’. Não deixa de ser importante, também, o dado de que essa edição vai vender bastante.

E se a Dilma for convidada novamente, sem dúvida, vai aceitar.

É ou não é mortalmente hilariante?!)

 

 

 

Grafite que Gilberto Kassab não mandou apagar

22 de março de 2012

Em um muro velho, no centro da cidade.

Claro que é na Place Pigalle, em Paris. Se fosse em São Paulo, o Kassab já teria mandado derrubar o muro. Ou apagar primeiro, para depois derrubar o muro. Para ter certeza absoluta de que o grafite desapareceria por completo, nenhum sinal da arte.

Pelo menos, o Kassab ainda não mandou fazer isso com os próprios artistas. Por enquanto.

 

 

Domitila

16 de março de 2012

“Recordo-me de uma assembléia de trabalhadores, nas minas da Bolívia, já faz um tempinho, mais de 30 anos: uma mulher lançou-se entre os homens e perguntou qual é nosso inimigo principal.

Escutaram-se vozes que respondiam: ‘o imperialismo’,‘a oligarquia’, ‘a burocracia’…

E ela, Domitila Chungara, esclareceu: ‘Não, companheiros. Nosso inimigo principal é o medo, e o levamos dentro de nós.’” Eduardo Galeano

Depois de tantas lutas atrozes, contra ditaduras, contra a ignorância, contra o medo, contra o câncer, contra as sequelas das torturas que sofreu, a boliviana Domitila Chungara, afinal descansa, aos 75 anos.

“Eu agradeço a Deus por não ter tido nenhuma baixa. Isso me tranquilizou muito.”

29 de janeiro de 2012

Festival de frases ridículas, imbecis e ou diretamente hipócritas. Gosto dessa frases, pelo que elas são reveladoras do verdadeiro caráter de quem as profere. Frases de morrer de rir, de morrer de vergonha, de revolta, de ridículo. De morrer. E matar.

Como sempre fizeram e disseram, por certo. Acontece que agora está mais fácil de rebater e recomentar. Como, por exemplo:

“Eu agradeço a Deus por não ter tido nenhuma baixa. Isso me tranquilizou muito.
Juíza Márcia Loureiro, a que assinou a reintegração de posse do Pinheirinho, solidarizando-se com os pmzinhos que, graças!, não sairam machucados (embora alguns policiais usassem luvas; os mais cínicos diriam que seria para não pegarem resquícios de pólvora de seus revólveres; outros podem dizer que era somente para não ficarem resfriados por terem de trabalhar de madrugada, coitados)

Era um momento de festa para a cidade, (…) jamais esperava que politizassem o evento e não há como encarar o que ocorreu de outra forma: foram atos de truculência
Andrea Matarazzo, secretário da Cultura de São Paulo e virtual candidato do psdb, indicando quem são os verdadeiros truculentos e destruidores da democracia brasileira: os manifestantes

Those are criminals taking advantage of the situation, not just ordinary people defendind their land” (Esses são criminosos tirando vantagem da situação, não pessoas pobres defendendo suas terras)
Soninha Francine, no Twitter, referindo-se a Pinheirinho. Ela está em queda livre moral faz um bom tempo, mas sempre surpreende.

Em 25 de agosto de 1961, o presidente Jânio da Silva Quadros renunciou a seu mandato. Em 31 de março de 1964 iniciou-se a Revolução, desencadeada para combater a política sindicalista de João Goulart. Força Pública e Guarda Civil puseram-se solidárias às autoridades e ao povo
Site da Secretaria da Segurança de SP chama golpe militar de 1964 de ‘Revolução de Março’. Neste ponto, foram covardes: assumiram, mas não mantiveram: a página sobre a ‘revolução’ não ficou no ar nem um dia.

O que aconteceu em Pinheirinho foi ‘barbárie
comentário de Dilma Rousseff, em relação à ação da pmzinha em Pinheirinho. Certo. Legal. Bacana saber. Os desabrigados devem ter ficado devidamente sensibilizados em conhecer a opinião de Dilma. Pena que ainda estejam esperando uma ação equivalente.

Andrea Matarazzo - Esse está pretendendo ser o próximo prefeito de São Paulo

Andrea Matarazzo - Esse está pretendendo ser o próximo prefeito de São Paulo

 

 

 

No surprise: Estados Unidos mijam para o resto do mundo e dão risadinha

12 de janeiro de 2012

Soldados norte-americanos flagrados em pleno ato de descarregar suas bixigas em cadáveres de guerrilheiros talibãs.

A absoluta tranquilidade dos tais soldados ao se saberem filmados dá a justa medida de sua ‘preocupação’.

Ao absoluto desprezo e inconsciência norte-americana a valores de vida e morte fora de seu país (e mesmo dentro, dependendo de qual faixa salarial e qual poder econômico o seu cidadão realmente disponha), qual é exatamente o grau de novidade ou de considerações diferentes que podem ser feitas diante de tal cena?

Sem surpresas. Indignação, revolta, melancolia. Motivo para mais um detalhe para a decadência de um império tão arrogante e soberbo.

Guantánamo continua de pé, sem sinal de qualquer desativação próxima. O exército sai, a contragosto e obrigado, de uma guerra, mas se preparam alegremente para outra (quanto tempo até invadirem o Irã? Ainda no governo Obama?), e soldados já foram flagrados outras vezes (fotografados e divulgados), sem pudor, em torturar e humilhar prisioneiros, em atirar em civis, em apoiar chacinas.

Nenhuma surpresa.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=DmWDDPsA6c0

 

 

 

A ‘providencial’ ignorância imbecil de Kassab, Alckmin e Polícia Militar

7 de janeiro de 2012

a higienização após o 'sofrimento e a dor'

Nem Kassab nem Alckmin nem o comando da PM sabiam de nada?? Foi tudo culpa da afoiteza e irresponsabilidade de subordinados??

É terrível e verdadeiramente aterrorizante a imbecilidade em relação à ação na cracolândia. A imbecilidade ‘deles’ e a que nos tentam impingir. O que deveria ser para eles a glorificação do aumento cada vez mais avassalador da truculência policial em São Paulo (a ferro e fogo, com sofrimento e dor!), de repente transforma-se em um show de palhaçadas e desculpas forjadas com rapidez e sem vergonhice. O ‘natural’ é que a classe média protofacista paulistana apoiasse com todo seu fervor característico a ação policial, mas o que não previram foi que o pavor fosse muito maior. Pavor pelos ‘viciados’, pelos ‘drogados’, pela cracolândia ‘expandida’ e espalhada pela cidade.

Para o jornal ‘O Estado de São Paulo’ “Alckmin, Kassab e comando da PM não sabiam de início de ação na cracolândia”. A ‘reportagem’ do Estadão tem passagens preciossíssimas:

“O governador Geraldo Alckmin (PSDB), o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e as cúpulas da Segurança Pública, Assistência Social e Saúde das duas esferas de governo estavam acertando tudo para que o trabalho começasse em fevereiro, depois da abertura de um centro de atendimento com capacidade para 1,2 mil usuários de drogas na Rua Prates, no Bom Retiro. Eles queriam evitar, por exemplo, que os dependentes se espalhassem pela cidade depois do cerco à cracolândia. Outro objetivo era evitar que a operação focasse apenas políticas de segurança pública, ampliando-a para as pastas sociais.”

Não é comovente essa tal ‘ampliação para as pastas sociais’? Não é terrível que, por conta de subordinados atrapalhados, essa preocupação tremenda pelos usuários de drogas (que durante décadas ficou um tanto escondida, confessemos) tenha se desfacelado?

Mas, não se preocupem! Eles não estão brigados entre si, Kassab, Alckmin e a cúpula da Polícia Militar continuam amigos e vão passar por cima dessa ‘rusga’, digamos assim (“No governo, há a tentativa de afinar o discurso de que, independentemente do que ocorreu, o que importa é que daqui para frente todos trabalharão juntos”)

O Jornal da Globo indica, de verdade, qual é a real preocupação (‘deles’): “Cracolândia, a terra do crack, mudou. Não tem mais território fixo, mas os habitantes ainda estão todos por aí. Como farrapos humanos desalojados, perambulando.” Esse é o cenário, acrescento eu, de Walking Dead: zumbis (feios, sujos e malcheirosos) que, pior do que tudo!, agora estão mais visíveis e espalhados do que antes.

Pois o que as ‘pessoas-de-bem’ menos desejam é sentir justamente a proximidade e a visibilidade das doenças sociais, feias, sujas e malcheirosas.

 

 

http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,alckmin-kassab-e-comando-da-pm-nao-sabiam-de-inicio-de-acao-na-cracolandia,819527,0.htm

http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2012/01/acao-na-cracolandia-em-sp-da-poucos-resultados-concretos.html

 

 

Comunidade gay pede ‘desculpas’ pelo adultério de senadora cristã norte-americana

24 de dezembro de 2011

A senadora cristã Amy Koch, de Minnesota, EUA, uma das mais ardorosas defensoras de ‘valores familiares cristãos’ e líder anti-casamento gay no seu Estado (chegou a propor um projeto de lei para a constituição do seu Estado de que somente o casamento entre um homem e uma mulher poderia ser validado e reconhecido) está passando por uns problemas ‘domésticos’, digamos assim: pega no flagra tendo um caso com um funcionário subalterno, também casado, ela se retirou do cargo de líder da casa e já garantiu que não concorrerá à reeleição.

Inclusive houve uns boatos de que teria havido um ingrediente de assédio moral e sexual, por parte dela.

Isso por si só já seria o suficiente para uma boa discussão sobre o nojento falso moralismo destes ditos ‘valores cristãos’ que grassam pelo mundo, particularmente virulentos em terras norte-americanas. No entanto, eu não estava em verdade interessado em repisar em mais um exemplo de hipocrisia moral institucional de que os Estados Unidos são fartos, nem sinto vontade em me divertir sadicamente em espezinhar o inferno doméstico que a dita cuja senadora deve estar passando.

O melhor de tudo mesmo foi a carta aberta endereçada à senadora escrita por um membro da comunidade gay local. John Medeiros escreveu um hilariante ‘pedido de desculpas’ em nome dos gays de Minnesota por ter contribuído para a crise dos casamentos ‘tradicionais’:

“Estamos envergonhados por termos causado isso que a mídia está se referindo como ‘relacionamento ilícito’ com o seu empregado, o qual também estendemos a ele e a sua esposa nossas mais profundas desculpas. Estes recentes eventos deixaram muito claro que as nossas táticas gays e lésbicas foram longe demais, afetando inclusive as pessoas mais respeitáveis de nossa sociedade.”

Esse trecho é sensacional: “Perdoe-nos. Como você sabe, nós não somos
pessoas-de-Igreja, então não estamos aptos a compreender completamente o quanto o ‘casamento gay’ é incompatível com os valores cristãos, apesar do fato destes valores carregarem uma tradição bíblica de adultério, assim como o seu. Felicitamos-lhe por continuar mantendo essa tradição”

E aí por diante. Para os que porventura pensem que a carta é um puro exercício de crueldade pelos problemas da senadora, há outro trecho (talvez o melhor) que discute a questão do casamento ser de foro íntimo ou público, mas não quero que dependam da minha tradução capenga, reproduzo a carta original abaixo. A ironia fina, mesmo que acompanhado pelo sarcasmo pesado, trata de assunto profundo de forma bem séria, no final das contas, e faz desse texto um dos melhores que já li.

Dear Ms. Koch,

On behalf of all gays and lesbians living in Minnesota, I would like to wholeheartedly apologize for our community’s successful efforts to threaten your traditional marriage. We are ashamed of ourselves for causing you to have what the media refers to as an “illicit affair” with your staffer, and we also extend our deepest apologies to him and to his wife. These recent events have made it quite clear that our gay and lesbian tactics have gone too far, affecting even the most respectful of our society.

We apologize that our selfish requests to marry those we love has cheapened and degraded traditional marriage so much that we caused you to stray from your own holy union for something more cheap and tawdry. And we are doubly remorseful in knowing that many will see this as a form of sexual harassment of a subordinate.

It is now clear to us that if we were not so self-focused and myopic, we would have been able to see that the time you wasted diligently writing legislation that would forever seal the definition of marriage as being between one man and one woman, could have been more usefully spent reshaping the legal definition of “adultery.”

Forgive us. As you know, we are not church-going people, so we are unable to fully appreciate that “gay marriage” is incompatible with Christian values, despite the fact that those values carry a biblical tradition of adultery such as yours. We applaud you for keeping that tradition going.

And finally, shame on us for thinking that marriage is a private affair, and that our marriage would have little impact on anyone’s family. We now see that marriage is more than that. It is an agreement with society. We should listen to the Minnesota Family Council when it tells us that marriage is about being public, which explains why marriages are public ceremonies. Never did we realize that it is exactly because of this societal agreement that the entire world is looking at you in shame and disappointment instead of minding its own business.

From the bottom of our hearts, we ask that you please accept our apology.

Thank you.
John Medeiros
Minneapolis MN

– http://www.lgbtqnation.com/2011/12/minnesota-gay-community-apologizes-to-gop-adulteress-for-ruining-her-marriage/

– http://www.inquisitr.com/171645/amy-koch-gay-marriage-opponent-gets-apology-letter-from-lgbt-org-after-her-affair/

A posição da mulher judaica no ônibus de Israel

19 de dezembro de 2011

Mulher israelense provoca comoção social por se recusar a sentar na parte de trás do ônibus. Judeus ultraortodoxos se indignaram pela sua falta de vergonha (em hebraico castiço devem tê-la chamado de ‘puta’ pra baixo) já que a posição da mulher deve ser sempre atrás do homem. São os judeus ultraortodoxos que tomam conta da ‘moral e bons costumes’ de Israel, mas há um sentimento cada vez maior de cansaço e irritação contra seu reacionarismo ultrareligioso, que se reflete em um crescente movimento feminista e de protestos por direitos humanos melhor contemplados.

A comparação com Rosa Parks é direta e inevitável. Parks foi o estopim e o centro dos movimentos negros norte-americanos na década de sessenta por ter se sentado no ônibus em um banco destinado somente para brancos. Se o gesto de Tanya Rosenblit vai ter a mesma repercussão ainda é cedo para se dizer. Mas com certeza a discussão está fervendo na terra dos “ayatollahs” judeus.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/12/111218_israel_mulher_onibus_gf.shtml

Christopher Hitchens morre. A polêmica Christopher Hitchens continua.

16 de dezembro de 2011

Morre o fervoroso polemista Christopher Hitchens. Poço de polêmicas e contradições, brilhante defensor do ateísmo, crítico ácido da política norte-americana, excelente escritor (seus livros, além de tudo, são bons de serem lidos). E defensor da invasão ao Iraque… Independente de suas posições e pensamentos (e de nossa relação ao que ele pensava e escrevia) o que mais fará falta será sua capacidade de agitar e chacoalhar com inteligência e ironia as mentes assossegadas. Aqui no Desconcertos, no post abaixo, relembro um de seus melhores livros, O Julgamento de Kissinger

 

 

Christopher Hitchens e o Julgamento de Kissinger

16 de dezembro de 2011


Henry Kissinger, prêmio Nobel da Paz em 1973, secretário de Estado dos EUA durante os governos de Nixon e Gerald Ford, atual consultor político internacional, empresário muito bem-sucedido e escritor com artigos publicados em revistas e jornais do mundo inteiro, já passou por alguns apertos. A cada dia, novos e esclarecedores documentos estão sendo levantados e mais países estão contestando sua antiga e poderosa atividade como secretário de Estado.

Na apresentação d´O Julgamento de Kissinger, de Christopher Hitchens, publicado no Brasil pela Boitempo, Giancarlo Summa lembra que, em maio de 2001, enquanto passava pela França, Kissinger foi abordado pela policia francesa para prestar esclarecimento sobre a morte de cinco franceses durante a ditadura de Pinochet no Chile. A resposta de Kissinger foi sair do país no mesmo dia.

Um juiz argentino intimou-o a discutir sua participação na tristemente famosa Operação Condor; tribunais chilenos, sobre a morte do jornalista norte-americano Charles Horman (cujo seqüestro e assassinato formaram o assunto de um dos mais contundentes filmes políticos de todos os tempos, “Missing” de Costa-Gavras); o jornalista e professor Emir Sader comentou que “a própria Corte Federal dos EUA acusa Kissinger pela´execução´ sumária do general chileno René Schneider”.

Acusações sérias? Bom, ainda não chegam perto das que Christopher Hitchens realiza neste livro. Para o autor, Kissinger deveria estar sentado ao lado de Pinochet, o sanguinário ditador chileno, e junto com o ditador sérvio Milosevic, respondendo por crimes contra a humanidade da mesma forma como os nazistas julgados pelos tribunais internacionais.

Kissinger nunca primou pela delicadeza em relação ao comportamento norte-americano em sua luta contra os “inimigos”, fossem eles quais fossem, embora sempre houvesse uma “predileção” pelos comunistas. Sua famosa frase “Não vejo porque temos que ficar parados enquanto um país se torna comunista em razão da irresponsabilidade de seu povo”, define toda sua personalidade e sua atuação como político. Foi gestor consciente da “realpolitik”, onde não há muitas considerações sobre a ética e a moralidade, principalmente quando elas atrapalham os interesses norte-americanos.

Mas não é contra isso que Hitchens se levanta. Ele não está contestando as possíveis atitudes dúbias de algum estadista que acaba tendo que tomar decisões moralmente complicadas por conta de algum interesse nacional maior.  Hitchens não está fazendo nenhuma discussão filosófica ou de oposição política. Ele é direto e objetivo: Kissinger é um criminoso, mesmo que bancado pela mais poderosa nação do planeta e, dessa forma, deve ser julgado. Este livro foi escrito, portanto, como uma peça dessa acusação.

Hitchens assume uma postura clara desde o prefácio: ele é adversário político de Kissinger, sim, mas está se restringindo a fatos e atitudes que sejam criminalmente caracterizados. Quanto a sua posição, não há duvidas. Comentando sobre os resultados da guerra do Vietnã, ele diz:

“Isso é o que custou promover Henry Kissinger da condição de acadêmico medíocre e oportunista a potentado internacional. As marcas estavam lá desde o momento inaugural: a adulação e a duplicidade; a adoração pelo poder e a ausência de escrúpulos”, “e os efeitos distintos também estavam presentes: os incontáveis mortos; as mentiras oficiais e oficiosas sobre o custo; a pesada e pomposa pseudo-indignação diante de perguntas indesejáveis”.

Hitchens não se importava com a possível ridicularização de sua obra. Ele encara de frente: “Eu já posso ouvir os guardiões do consenso tentando classificar isso como uma ‘teoria da conspiração’. Aceito o desafio, com prazer”, para, logo em seguida, desfilar uma avalanche de documentação, citações, testemunhos, notas, transcrições de gravações, etc.

Quais são, então, as acusações? Ele define seis:

– genocídio deliberado de civis na Indochina;

– conluio deliberado no genocídio e em posteriores assassinatos em Bangladesh;

–  suborno e planejamento de assassinato de um oficial graduado numa nação democrática – o Chile – com a qual os Estados Unidos não estavam em guerra;

– envolvimento pessoal para assassinar o chefe de Estado numa nação democrática – Chipre;

– promoção e facilitação de genocídio no Timor Leste;

– envolvimento pessoal em um plano para seqüestrar e assassinar um jornalista residente em Washington.

Nenhuma dessas acusações é novidade. Kissinger já está respondendo ou fugindo dessas questões há algum tempo. O mérito de Hitchens é o de aproveitar todo um material novo, como a documentação liberada em 2000 pelo FBI, por exemplo, e de conseguir apresentá-lo de uma forma direta e limpa, “traduzindo” para a linguagem comum o pesado jargão jurídico e burocrático. Além de revisar todo o material antigo já existente.

Não são afirmações levianas, portanto. Jornalista acostumado com a polêmica, disse que desde que se radicou nos Estados Unidos na década de 80 (ele é britânico, nascido em 1957), se sentia obrigado a dizer a verdade sobre essa sinistra figura. Foi-se armando, coligindo dados e informações até escrever dois artigos que formaram a base deste livro. (Antes disso, já havia criado uma enorme polêmica quando “ousou” investir contra uma pessoa que ninguém julgaria passível de recriminação: Madre Teresa de Calcutá. Bateu forte, realizando uma profunda desmistificação da vida e da obra dela e demonstrando o quanto suas pretensas “santidade” e caridade foram conscientemente construídas. Qual será a editora brasileira que traduzirá e publicará este livro, afinal?)

Quais são as possibilidades, porém, de que Kissinger venha a ser seriamente questionado e tenha que responder pelos seus atos e, quem sabe, sentar em qualquer tipo de banco de tribunal? Hitchens acredita que está mudando a atitude internacional perante as “grandes figuras políticas”; está se perdendo o respeito irrestrito a sua impunidade parlamentar. Ele cita o caso justamente dos agravos de Pinochet e Milosevic.

Acrescenta que o próprio Kissinger reconhece o perigo por que está passando. Não foi à toa que escreveu um livro em que discute justamente a questão da “doutrina universal”, cujo titulo “Does America Need a Foreign Policy?” (A América precisa de uma política externa?) já diz tudo. Por outro lado, ele até hoje não devolveu cerca de cinco mil páginas de material secreto que retirou das gavetas do governo quando deixou seu cargo de secretário de Estado, em 1977, ignorando solenemente todas as instâncias jurídicas.

Tenho minhas dúvidas se algum dia Kissinger possa ser efetivamente condenado (ou, sequer, julgado). Sua conduta está tão imbricada na razão de ser do império norte-americano, sua arrogância e prepotência representam tão bem a própria arrogância e prepotência desse país, que julgar Kissinger é o mesmo que julgar o próprio imperialismo. Na época do lançamento desse livro, o jornal A Folha de São Paulo, por exemplo, publicou um artigo seu (“Intervir no Iraque surge como imperativo”, 11 de agosto de 2002) que demonstra o quanto ele está sintonizado com o público norte-americano.

O livro de Hitchens é uma bela tentativa no sentido de ajustar as contas. Forte, poderoso, instigante. É um ataque apaixonado, decidido, mas ao mesmo tempo, lúcido e equilibrado. Indispensável para qualquer pessoa com um mínimo de coerência política e interessada na justiça.

 

obs – texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer (se não me engano) e republicado agora por conta da morte de Hitchens, cujas polêmicas farão imensa falta

obs2 – a pergunta que eu fiz no texto ainda continua válida: agora com a morte de Hitchens, alguma possibilidade de, afinal de contas, publicarem seu livro sobre Madre Tereza??