Posted tagged ‘Poesia’

Patuá: 6 anos!

16 de fevereiro de 2017

6 anos de existência da editora Patuá!

Eu poderia falar da importância histórica que essa data comporta. Afinal, como o próprio editor – guerrilheiro Eduardo Lacerda diz, já são quase 500 títulos publicados, centenas de autores, alguns já consagrados, outros tantos descobertos e lançados pela editora, e estão se consagrando. É um painel vasto e poderoso do que está rolando em nossa moderna literatura brasileira. E só por conta disso já dá para se ter uma certa dimensão do que um editor (na exatíssima concepção da palavra) com um sonho tremendo no coração e amor pelas letras pode alcançar. Não sou dos que dizem que a a figura do editor (naquela exatíssima concepção da palavra de outrora) tenha desaparecido, basta se ver a quantidade de pequenas editoras e grupos editoriais aguerridos e combativos que estão surgindo há tanto. Mas , com certeza, são poucos. Eduardo Lacerda, igualmente com certeza, é um destes. E dos grandes. Daqueles que estão marcando definitivamente a nossa identidade. Nacional, literária, emocionalmente.

Pode-se falar em identidade e não se pode deixar de citar esse artista, tão magnífico, tão estupendo, tão impressionante: Leonardo Leonardo MAthias. Coloque-se as capas dos livros da Patuá e haverá esse sentimento de unidade, de concepção (você sabe simplesmente sabe que é um trabalho de Leonardo, simplesmente) e não dá para não se deixar tragar por essa beleza, por esse carinho, por essa arte.

Poderia falar em termos pessoais, também. Não faço a menor ideia de quais caminhos eu poderia ter tomado ou por onde teria enveredado. Não há como saber. Só sei que, no meio do caminho de se me firmar e me assumir como poeta (e não somente como um prosador que tentava escrever poesia), topei com Eduardo e Patuá, e lancei o ‘Yũrei, Caberê’! Definitivamente, impossível saber como seriam os meus passos. Sei lá, podia ter desistido e abandonado a letra. Podia ter encontrado outras alternativas (ou não, patinado por mais tantos anos, vá saber) No entanto, há esse fato incontestável, inamovível. Sou poeta, me assumo como poeta, e sei agora o quanto me dedicarei à Poesia pelo resto da minha vida, por conta do lançamento de ‘Yũrei, Caberê’. Por causa da Patuá. Por causa de Eduardo Lacerda.


Mas , não vou falar nada disso. Vou dizer da festa. São seis anos. E todos e cada um dos que já participaram de uma festa da Patuá (eu estive em duas) sabe perfeitamente (e pode confirmar com toda vontade) que o mais rola é a emoção. O Leo lançará seu novo livro. O Edu sempre realiza um saldão com muitos livros a preços muito baratos (assim, dá para se dar uma boa renovada sua biblioteca patuana, com muito tranquilidade). Haverá cerveja gelada. Mas tudo isso são os entornos. É o cenário. E todos sabem dos perrengues de saúde que o Eduardo passou (e dos quais não está plenamente recuperado, preste-se atenção) (e dos quais sempre que terá de prestar atenção e cuidado, todos sabemos). Então , isso acrescenta-se ao verdadeiro pivô dessa festa. Emoção. Amor. Poesia, em sua justíssima concepção da palavra, exatíssima. Ou podemos usar como pleno sinônimo: Patuá.

Dia 18, sábado. No Patuscada. Rua Luis Murat, 40. A partir das 16:00 e a se acabar, sei lá se acaba.

Festa de aniversário de 06 anos da Patuá. Poesia.

https://www.facebook.com/events/172265546575823/

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Yürei, Caberê

15 de setembro de 2015

Yürei, Caberê

de Claudinei Vieira

ed. Patuá

 

em Outubro

capa yurei

 

 

 

banquete

8 de setembro de 2014

Formigarei por sua pele,
comerei suas pétalas,
me banquetearei de suas ventanias,
suas florestas, seu âmago.
Trocaremos sumos úmidos alongados,
deslocaremos puros murmúrios anoitados,
dormiremos com a janela em túnel escancarada
e esgotaremos todos os pecados,
nos fartaremos de todos novos pecados,
esqueceremos a sobriedade e os sonhos lá fora,
mesmo os mais sensatos.
Tomará minha mão.
Abrirá meus olhos.
Tocará meu sossego.
Um sussurro no meu ouvido.
Formigas pelo meu ouvido.
Comerá minhas pétalas,
e se apossará de minhas ventanias,
todas, todas as minhas ventanias.


banquete
claudinei vieira

 

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amores centrais

17 de agosto de 2014

o amor se perde nas voltas de umas vielinhas

do centro de São Paulo, encarquilhado,

sorumbático pedinte de sentimentos alheios,

solitárias transversais.

 

os amores se viram e descem as ruas augustas

do centro de São Paulo, indistinguíveis atores mutantes,

correntes de subterrâneas amargas emoções transfiguradas

insinceras e universais.

 

os grandes amores se curam e se encontram em praças roosevelts

do centro de São Paulo, quando não são detidos por policiais montados,

também buscadores dos seus próprios grandes amores refugiados,

quando se permitem sair de suas cascas uniformes de metais.

 

somente eu sei que o verdadeiro amor é você,

solta pelas ébrias gélidas ruas chuvosas

do centro de São Paulo,

e quando o encontrar,

acredite-me,

São Paulo nunca mais será a mesma.

claudinei vieira

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saberá da morte

5 de agosto de 2014

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saberá o dia em que morra?

saberá o instante-zunido em que fumaça por fumaça

pesará por sobre almas

para sujar sua incontinência?

desejará o dia em que morra?

em que sangue por sangue, detrito por detrito,

aluviarão os corpos inconsistentes,

as consciências deformadas,

os párias acostumados?

suportará o dia das perguntas?

sufocará o enredo das desditas?

se enforcará com o tecido das mentiras?

desprezará a marca de ser humano,

a inconformidade de que, apesar de tudo, é ser humano,

a necessidade de, com tudo, menosprezará ser humano?

jogará com o revide?,

com a chuva ácida, com a luz demonha?

chorará, sim, chorará, pelo menos uma vez,

uma solitária vez?

acompanhará seu dever cumprido e dormirá

em seu travesseiro de pedra e metal?

 

claudinei vieira

 

poema urbano para aquecer chuva

3 de agosto de 2014

 

Quero lhe dizer

não, Preciso lhe dizer

– cuidado, deixa o carro passar -,

não pretendo lhe atrasar mais,

porém, é muito importante

– cuidado, deixa a moto passar,

deixa o sinal abrir,

cuidado, deixa meu coração transbordar -,

o pingo da chuva gelada

não acalenta seu rosto:

 

Gostaria de lhe dedicar um poema urbano,

uma trilha de palavras paulistanas

que lhe ajudem a atravessar o dia,

a secar o pingo gelado na testa,

a pisar pelas listras molhadas da faixa de pedestre.

 

Quero que sinta este poema

como o primeiro gole do café da padaria,

como a primeira onda do cheiro da manteiga

do pãozinho na chapa,

como a primeira lembrança morna

de nossos corpos ávidos de calor noturno.

 

E lembre que o primeiro sorriso que lhe acordou

nesta madrugada aturdida de frio paulistano,

o sorriso de uma boca torta ainda sonolenta

já saudosa dos agasalhos insuficientes,

este sorriso que lhe aquecerá durante este dia inteiro

mais do que aqueles agasalhos insuficientes,

aquele meu sorriso, ainda que torto, ainda que meio-frio,

foi a primeira letra do primeiro verso

deste poema urbano que lhe dedico.

 

claudinei vieira


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descongelar ruas

3 de agosto de 2014

 

 

o frio envelhece as ruas de São Paulo,

já encarquilhadas de ventos gelados passados

incrustados nas torrentes de mendigos descobertos

por folhas de linho desbotadas.

 

falta poesia em São Paulo, talvez?

não

falta poesia em São Paulo

talvez

 

A meteorologia diz

neste ano, passamos pela tarde mais fria

A meterologia não diz

que assim esteve congelada a poesia

e pessoas de rua.

Tecnicamente falando,

a meteorologia esqueceu das pessoas de rua,

ela sempre esquece.

Assim como São Paulo.

 

A poesia, porém, não aquece as avenidas e praças, sinto dizer.

Podemos, deveríamos, saltar por prédios.

Podemos, deveríamos, plantar montanhas.

Podemos, deveríamos, descongelar ruas.

Inclusive, o poeta.

 

claudinei vieira

essa pequena ferida

30 de julho de 2014

 

Tenho essa pequena ferida em mim, sabe não?

Incomoda, persiste, enfurinha.

Começa na nuca, dor fina, continua na costela,

perfura minha alma, machuca meu dedão do pé.

É constante, mais do que alguns amores que tive

ou que proporcionei.

 

Ninguém enxerga essa minha ferida, sabe?

Dizem que sou chato, inconveniente, impertinente,

e, quando querem me magoar de verdade:

que sou repetitivo. Clichê.

Não me importo.

Não me interesso.

Não quero, inclusive, que a ferida se vá.

Ela, percebi há tempos, me instiga, me força.

Dói. Define minha humanidade.

 

Os que não compartilham dessa ferida

(ou pensam não possuir)

(ou entopem-na de pomadas odoríferas),

estes, coitados, só andam, coluna empertigada,

obesos ocos orgulhosos arrogantes

de sua insignificância,

e pensam que vivem.

 

 

claudinei vieira

No dia em quem todas as crianças palestinas estiverem mortas

25 de julho de 2014

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Dia virá (não se apresse, já está chegando)

não falaremos mais das mortes de crianças,

aos nossos olhos, de Gaza.

Não choraremos o horror do genocídio

visto em rede de satélites online,

aos nossos olhos, ouvidos e estômagos,

das crianças de Gaza.

Não ficaremos estúpidos paralisados constrangidos

a observar o monstro-míssil sublimar em fumaça e sangue

tantas e tantas crianças de Gaza.

Não comentaremos, muito menos observaremos,

não teremos mais olhos.

De que havia crianças em Gaza.

Em um tempo quando corriam pelas ruas de areia

sem saber que seriam suas tumbas,

sem saber soletrar a palavra Hamas.

Em um tempo quando jogavam futebol em campinhos de areia

sem consciência de que cometiam o último gol,

pois não sabiam que era proibido

ser criança palestina em Gaza.

Ou nem corriam ainda,

nem tinham saido da barriga palestina, ainda

nem soletravam Tumba, ainda

(embora já fossem consideradas terroristas),

Ficaremos pisando pungentes

as lembranças de crianças-vísceras,

de crianças-ossos,

de crianças-sugadas.

Porque estarão mortas.

Serão História.

E poderemos, por fim, construir

lindos memoriais em sua homenagem,

escrever teses inteligentes sobre a estupidez da chacina,

exigir animadas resoluções internacionais ridículas

e suspiraremos aliviados por sabermos:

continuarão a ser animadas e ridículas,

nunca serão respeitadas, sequer ouvidas,

como nunca foram.

E deixaremos escorrer lágrimas de saudades

por aquelas que um dia foram

as crianças mortas de Gaza.

Pois afinal isso é absurdamente mais fácil,

mais bonito,

mais poético,

do que impedir que elas continuem sendo mortas

Agora.

claudinei vieira

 

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Poesia Exponencial

23 de julho de 2014

 

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Poesia é a busca permanente

da Dança Primordial,

não importa se versa sobre

a borra de café derramado na pia,

ou do brilho das asas do anjo celestial,

da ânsia do amor perene do dia-a-dia,

da porosidade dos grãos da manteiga de cacau,

ou da melosidade venenosa e enfadonha do seu frias.

 

Poesia pode ser sobre a camiseta verde,

ou sobre o próprio verde da camiseta,

ou sobre o verde deitado no cinza do palestino morto

enquanto procurava outros cadáveres nos escombros,

mais do que nunca seus parentes.

Pode ser do verde sobre rosa

da copa de árvores a encobrir nascer do sol.

 

Não se pode dizer, no entanto, que Poesia não mentiria.

Na verdade, é a Mentira Primordial,

em busca da Dança Suprema.

Enquanto estamos vivos, poetamos.

Você poeta enquanto lê, sonha e deseja.

Nós poetamos, sim, eu e você,

em uma cumplicidade sorrateira

que nem imaginava existir.

Estamos aqui, eu e você, queira ou não,

cúmplices de Vida,

cúmplices de Morte.

Acredite. Pois se é Poesia.

Portanto Mentira fundamental,

beleza existencial,

Dança exponencial.

 

  •  

     

    claudinei vieira



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    Pele em sépia

    14 de setembro de 2012

    em antes
    a foto não resvala
    mas as peles já sentiam

    OPACO VAZIO

    18 de agosto de 2012

     

    A dor do vazio é opaco.

    O silêncio do desespero rima com sutil. O nome é de algum momento cruzado com distância, povoado de reminiscências suadas colhidas por tempestades tropicais no meio do caminho. Estendo a mão, talvez por puro hábito, e recolho. Reconheço a chuva no cabelo que nunca limpa meu peito e deixo de sentir o carinho da pessoa meio querida, talvez e justamente, adverbialmente, por falta de hábito. Resmungo e continuo caminhando como uma simples metáfora, não mais.

    A cor do meu vazio é você.

     

     

     

     

    O primeiro poema de amor foram vários

    17 de agosto de 2012

     

    Certa vez (não sei de onde tirei a coragem para vencer a timidez) cheguei perto da minha amiguinha de colégio (que, obviamente, era a minha paixão secreta e platônica) e disse que eu conseguia escrever um poema com seu nome. Ela ficou curiosa. Tínhamos tempo, estávamos no intervalo de aula, o professor da aula seguinte tinha faltado, então tínhamos que ficar fazendo hora de qualquer modo. Fiz uma cara de concentração e comecei (como se eu já não o tivesse escrito na noite anterior e praticamente decorado as palavras). Ela amou o resultado! (e até pensei que receberia um beijo, o que teria sido a glória!), mas ela fez questão de correr e mostrar para suas amigas o que eu havia acabado de produzir.

    Foi uma sensação. De imediato, elas também quiseram os seus próprios, algumas até com um tom de dúvida na voz, ou quase certeza de que eu não conseguiria. Eu disse ‘claro!’ (ou seja lá qual foi a palavra que utilizei na época) e me dediquei. Para minha surpresa, a coisa fluiu com muito mais facilidade do que eu pensava: usava seus nomes ou as primeiras letras dos seus nomes, misturava com umas rimas, realmente fluiu. E elas adoraram! Realmente adoraram, e a coisa se espalhou. Quando percebi, todas as meninas da sala (e acho que até de outras salas) estavam ao meu redor, aguardando seus poemas ‘personalizados’ e gritando de prazer quando os recebia.

    Ao final, exausto e já um pouco desesperado por encontrar mais rimas, a hora passou, o intervalo foi-se, o próximo professor chegou e voltei a ser um ser humano ‘normal’, ‘comum’, mais um colega de classe.

    Claro que não prestei atenção em aula nenhuma. Minha cabeça fervia e comecei a sonhar com as possibilidades inauditas e infinitas que, de tão súbito, haviam se aberto para mim. Eu seria Poeta! Escreveria livros, seria famoso, teria as mulheres do meu lado. Pronto, decidido, seria poeta.

    Creio que não preciso dizer que as coisas não aconteceram ‘exatamente’ desse jeito. A riqueza, a fama e as mulheres aos meus pés estão demorando um tanto para chegar…

    No entanto, em verdade, não reclamo. O prazer, a volúpia e o encanto daquele dia me acompanham até hoje, é algo que carregarei comigo para a vida inteira. Do dia que meu primeiro poema de amor se transformou em algumas dezenas.

    Detalhe Carmim

    16 de agosto de 2012

    não nos esqueçamos dos detalhes,
    eles podem ser mínimos
    e absolutamente indispensáveis

    não nos esqueçamos dos detalhes
    que demonstram o infinito
    e um pouco mais

    um carmim de detalhe

    Poesia Como Arte Aberta

    13 de agosto de 2012

    Poesia como forma escancarada

    Como palavra descondida

    desavergonhada

    Poesia como palavra

    /como arte/

    aberta

    Eu e Ele, Ainda Vivos

    26 de julho de 2012

     

    Descemos a Augusta, nem bêbados
    Eu e Ele
    Ríamos de piadas velhas,
    cochichávamos segredos falsos,
    mijávamos em esquinas escuras,
    xingávamos quem nos proibia de fumar em bares
    (cá sabemos bem o tipo).
    Suspirávamos e lembrávamos de amigos passados
    que já não desciam a Augusta
    e de Maria Auxiliadora que nunca teve pena de nós
    e não satisfez nossa libido juvenil
    na época quando ainda tínhamos libido
    e bebíamos Sangue de Boi tinto doce em garrafões de cinco litros.

    Eu e Ele trocamos um abraço, satisfeitos com uma noite
    que poderia ser pior
    Estávamos vivos
    Podia ser pior

    Observei-o se afastar pela madrugada,
    com a perna meio ruim mancando-o de leve.
    Teve tempo de se virar, soltar um Cuide-se e dar uma risada sem fôlego,
    antes de voltar para não sei onde.

     

     

     

     

    Desconcertos de Poesia de Julho no Caneca.

    8 de julho de 2012

    (opa, PRESTENÇÃO: Evento cancelado, infelizmente)

     

    Desconcertos de Poesia. Letras jovens e poderosas, letras fortes e consagradas, vozes e sons, o novíssimo e os clássicos, música e poemas, amizades, bate-papo, e cerveja. Como sempre, Desconcertos em busca de sua vocação de reunir o que há de mais quente e belo, real e profundo, vivo e pulsante na Poesia que está acontecendo exatamente agora, neste mesmíssimo instante. Nunca é demais lembrar que, para o universo desconcertábil, Poesia não se restringe somente a um único modo de dispor as palavras. Tem relação com o prazer e a alegria da beleza e do compartilhamento intenso que este encontro consegue proporcionar. Quem já participou, pode testemunhar. Quem ainda não conhece, perceberá o toque. Quem vier, verá, e conosco poetisará.

    Nesta edição, tenho o imenso orgulho de convidar velhos companheiros, alguns veteranos de Desconcertos, dos quais sei bem quanto é forte o impacto que causam, e jovens poetas desconcertantes:

    As vozes e as letras de Luiz Roberto Guedes, Douglas Diegues, Mariana Leme, Eduardo Lacerda, Juliana Bernardo, Nelson Peres, Pierre Masato, a presença poética de Wislawa Szymborska, as vozes, os sons e a música de Flávio Vajman

    Desconcertemos, pois.

    Garagem Lírica. Orfanato Portátil. Marcelo Montenegro.

    11 de junho de 2012

     

    Eu caminhava desavisado pela vida, ignorando os sinais, desprezando os movimentos à minha volta, desacreditando que pudesse haver alguma coisa de qualidade e substância nessa massa subjetiva que pode-se chamar de poesia moderna. De uma certa forma, compreendo as pessoas que pensam que poesia, qualquer poesia, é necessariamente chata por definição, pois eu mesmo participei dessa ignorância.

    ok. Aí me deparei com um livrinho chamado ‘Orfanato Portátil’. ‘Hum. Poesia’, pensei antes de abrir o volume. O choque que senti foi tremendo. Tive que revisar e repensar tudo o que eu conhecia e sentia antes. Intrigado, tentei entender como era possível uma junção tão potente entre uma simplicidade de forma, sem palavreado esquizofrênico ou castiço, e sua mensagem forte, afiada, urbana e deliciosamente bela. A utilização das imagens do cotidiano comum, a linguagem prosaica e popular conduzindo a momentos de epifania explosiva.

    Ainda não é isso. Tou aqui sentado em frente ao computador tentando reproduzir minhas sensações e, no entanto, consigo somente reduzi-las, pois a minha própria escrita é insuficiente. Creio que pego, um certo, fio da meada quando ele diz das coisas aparentemente simples, a ‘simplicidade sofisticada’, e percebo que é bem por aí.

    Sei que, depois do ‘Orfanato’ conheci o ‘Tranqueiras Líricas’, o hiperdimensionamento de sua poesia com a música, o espetáculo poético sensorial produzido com a lírica e o som da guitarra magistral de Fábio Brum, e só posso dizer que é necessário tê-lo assisitido para saber que se cumpriu uma etapa fundamental na mentalidade e sensibilidade de qualquer pessoa. E há o ‘Melodrama Blues’, especificamente, a espantosa síntese de um estado de espírito, a descrição e a definição de um grupo de companheiros que podem não ser exatamente gentís com o mundo, mas possuêm uma prática e uma relação entre si e com sua arte, literatura, música, teatro, cinema, desenho, o que for, que ultrapassam as regras puerís e limitadoras do ‘bom tom’. ‘Melodrama Blues’ precisa de uma aprofundamento maior do que estes pensamentos soltos. Quem sabe mais pra frente. E se descubra assim o quanto este poema é um verdadeiro marco.

    Ainda continuo intrigado. No mais positivo sentido possível.

    Durante um bom tempo, ‘Orfanato Portátil’ esteve esgotado, com circulação restrita aos poucos donos felizes de um exemplar. Durante um outro (bastante) tempo, seu livro seguinte, ‘Garagem Lírica’, já está pronto, guardado e ansioso para ser lançado, mas Marcelo Montenegro não via sentido publicá-lo se não houvesse uma reedição de ‘Orfanato…’. A editora Annablume comprou a ideia e, afinal, o universo está se alinhando no caminho certo.


    Marcelo, estamos vivendo em tempos estranhos. Sem dúvida que o moralismo hipócrita, o cerceamento do pensamento, a falta de oportunidades ao artista, a vigilância do comportamento, a violência e a ignorância sempre estiveram presentes em nossa vida cotidiana, em maiores ou menores graus, conforme a ocasião. Tenho a impressão, no entanto, de que estamos atingindo níveis impressionantes. Concorda com isso ou acha que estou exagerando? Como a poesia se relaciona com essa realidade premente, hoje em dia? Há espaço para um ‘fazer’ poético que surja naturalmente deste nosso cotidiano? Ou é necessário construir uma ‘forma’ poética completamente nova?

    Uma vez perguntaram ao Robert Creeley se “havia futuro para a poesia num mundo mercantilizado”. E ele respondeu: “Tanto quanto existirem pessoas nele”. Concordo contigo, o nível tá impressionante mesmo – sem falar na miséria indecente, nesse açougue que é a prostituição da intimidade de celebridades e sub-celebridades e mais uma porção de etcs. De outro lado, porém, a gente não pode subestimar o fato de que em qualquer período da história da humanidade, em qualquer biboca do planeta, sempre teve e continuará tendo pessoas que, mesmo que poucas, mesmo que anônimas, reagem a tudo isso. Que não se subordinam a leis e a modelos de comportamento imbecis, os inadequados. O Leminski, se não me engano, dizia que a poesia é uma espécie de reserva ecológica da linguagem. E eu acho que todos aqueles que não se conformam são um pouco isso também. Uma espécie de reserva humana. Os “que deitaram fora a máscara” do Fernando Pessoa, os “tristes homens azuis” do Marcos Prado, os “que estão loucos pra viver e jamais dizem coisas comuns” do Kerouac, os “imaturos” do Gombrowicz.

    Quanto à poesia nisso tudo, todos que trabalham com ela, ou qualquer outro tipo de criação, estão metidos até o talo, são produtos inevitáveis desse tempo. Aí cada escritor lida com isso de um jeito. Tem um historiador, por exemplo, que diz que toda história é contemporânea. Se alguém escreve, agora, sobre os hititas, fatalmente está falando algo dos dias de hoje. O que eu quero dizer é que você não precisa citar, sei lá, terroristas árabes ou o desabamento das Torres Gêmeas. Se tem a ver com o texto, ótimo. Mas isso, por si só, não quer dizer nada. Numa outra chave, não precisa repetir – no sentido dos quinhentos quilos nas costas – os procedimentos de linguagem dos chamados inventores. O Bruce Springsteen tem um lance genial. Ele fala que o que todas as grandes obras fazem é te oferecer “pontos de partida” para a sua própria. Só isso. E tudo isso! Cada um faça o que tiver a fim de fazer, mas me incomoda quando algo soa forçadamente contemporâneo, enganosamente moderno, sabe?

    Lógico. Tem o lance de que a maioria tende a ver “mais contemporaneidade” nos rebuscamentos do que na simplicidade, por exemplo. E não é difícil entender isso. Nas coisas aparentemente simples – o que eu costumo chamar de “simplicidade sofisticada” – os, digamos, componentes de atualidade, o engenho literário, a recusa ao fácil, são mais sutis, menos evidentes. Eu sempre penso que enquanto o Godard radicalizava cada vez mais, e corajosamente, suas idéias do cinema como anti-espetáculo, o Truffaut fez, também corajosamente – esse é o ponto – “Noite Americana”. Que o Domingos Oliveira fez “Todas as Mulheres do Mundo” em pleno domínio do Cinema Novo. Que no auge dos anos de chumbo, poucos soltaram berros como os de Roberto e Erasmo em “Se você Pensa” ou “Sua Estupidez”. Então, como brinca meu amigo Mario Bortolotto, “existem mil maneiras de se preparar Neston”.

     

    – Influências, influências. Você já se referiu à admiração e o respeito que possui em relação à poesia de João Cabral de Melo Neto. Embora formalmente seus trabalhos sejam distintos, há uma forte relação de companheirismo, de emoção, de paixão. Isso acaba influindo no seu texto?

    O que mais me encanta no João Cabral de Melo Neto é como as palavras se relacionam dentro de cada poema. Há um contato – seja por atrito ou combinação inesperada – geométrico e apaixonante entre elas. O Augusto de Campos, no Poesia da Recusa, diz que o que caracteriza a condição do poeta moderno “não é tanto a objetividade exteriorizante ou a introspecção lírica, mas a autonomia do discurso poético”. E cada poema do João Cabral é exatamente isso: um organismo autônomo, e vivo. Não há nada que sobre ou falte. É um bloco. Ético e estético. Como um filme do Clint Eastwood.

    Guardadas todas as óbvias proporções, tento sempre construir, do meu jeito, esses organismos autônomos. Tem também um verso inesquecível no poema que o Cabral dedica ao Vinícius (“Camarada Diamante”): “de quem por incapaz do vago/ quer de toda forma evitá-lo”. Sem falar na “mão contida e extrema”, que tem a ver com o Yeats, outro poeta que gosto muito: “todas as revisões que fiz foram no sentido de deixar meus poemas menos poéticos”. Enfim. Eu sempre digo que meus textos são um misto de João Cabral e Jerry Seinfeld.

     

    – Literatura, cinema, música, cotidiano, tudo se amalgama e se transforma em sua escrita, no qual um exemplo maravilhoso foi o lance que surgiu de um papo com o Ademir Assunção e da noite que ele ficou assistindo Hitchock. Como foi isso?

    A gente tava bebendo e conversando nos Parlapatões, na Praça Roosevelt. Uma hora um amigo nosso, o Cassiano, liga chamando o Ademir Assunção pra vir tomar uma com a gente. E o Ademir disse que tava mais a fim de ficar em casa aquela noite, já tinha até separado um filme do Hitchcock pra rever. Algo assim. Eu tava do outro lado da mesa e não ouvi o papo. Aí o Mario Bortolotto – que estava sentado ao lado do Cassiano – fala pra mim: “Aí Marcelão, ó o programão do Ademir pra hoje à noite. Vai ficar em casa revendo um Hitchcock”. Rimos, lógico. É o tempo todo um rindo e alugando o outro. Na verdade, a maioria dos meus amigos mora naquela categoria inclassificável de inadequados que tentei esboçar, meio romanticamente, até, na sua primeira pergunta. E esse convívio é uma influência por si só. Falei pro Marião: “pô, isso dá uma música hein? Revendo Hitchcock”. E ele, “pode crer”. E um segundo depois já emendou o que viria a ser o refrão: “Eu tô de bode/ Revendo Hitchcock”. No dia seguinte esbocei uma letra e mandei por email pro Mario e pro Ademir (que nem sabia direito da história ainda). A idéia era que os dois a melhorassem. Mas o maluco do Mario musicou a letra, do jeito que eu mandei, naquela tarde mesmo. Ficou do caralho. Um rockzinho swingado, contagiante.

     

    Postal

    Daqui a 30 anos, digamos,
    que alguém leia este poema.
    Todos os pequenos laços
    que o ligam ao mundo
    fora dele e à vida de um
    poeta fudido entre milhões
    de pessoas lugares motivos não estarão
    mais aqui para socorrê-lo.
    Daqui a 30 anos a coisa
    será somente a coisa mesmo.
    Uma cápsula amputada do tempo,
    um bife arrancado do amor.

    (in Garagem Lírica)

     

    Mapas

    Mapas malucos em muros úmidos.
    Bolhas num adesivo.
    Dedo cortado por uma página.
    O espanto é um bairro
    no olhar do meu filho.

    “Não se salva um navio
    não o construindo.”
    Cicatrizes mudas
    no braile do carinho.

    As janelas dos carros
    fatiando meu reflexo.
    Um esguicho de música
    no cofre do ouvido.

    (in Garagem Lírica)

     

    Robert Creeley Band

    Monga, a mulher-gorila:
    na dúvida, rindo da vida;
    aqui, grudada no corpo,
    como uma calça jeans
    encharcada de chuva –
    a preparação do salto
    na cabeça do cervo morto.

    A musa fatiada na véspera
    do mágico. E o jeito encantador
    com que a executiva
    mexe o canudo
    no copo de suco.

    Na quermesse dos sentidos,
    onde a noite troca de pele
    com o dia – O céu esfolado,
    anjos em velocípedes –
    A esfiha que sobra
    na lanchonete que fecha –
    Onde o espanto
    lustra seus rifles.

    (in Garagem Lírica)


     

    Sinopse

    Canetas que falham ao lado do telefone.
    O baque das havaianas na escadaria.
    O labor sigiloso de um poema.
    Um gemido de geladeira
    nalgum ponto perdido do dia.

    Um copo que nosso brusco
    e cômico malabarismo
    evitou que se quebrasse.

    (in Orfanato Portátil)


     

    Matinê

    Às vezes saio do cinema
    E me ponho a andar
    Cartografias pessoas
    Apenas olhar
    Ter a leve impressão
    De que a cidade está grávida
    De um outro lugar

    (in Orfanato Portátil)


     

    Exile on Main Street

    O balde azul claro. O velho quintal.
    O cabeçote sujo da memória.
    Um filme que se soletra, a tacape, desde o fim.
    Forte apache. Benflogin. A lisura do serviço.
    Que ser moderno, meu bem, dá nisso.
    Poemas sóbrios, beges, concisos.
    E evitar no poema palavras como: Bugiganga.
    220 volts. Rick Wakeman é o Olavo Bilac do rock.
    Nem todo perna de pau tem seu dia de craque.
    Estelionato. Western Spaguetti. Birra de criança.
    Charme incerto de forasteiro, baby.
    Que o cachê cobre a fiança.

    (in Orfanato Portátil)

     

    entrevista resgatada, por estar perdida no meu antigo site, para comemorar o lançamento e re-lança dos livros de Montenegro; os poemas e mais informações no seu blog http://tranqueirasliricas.wordpress.com

    Lata Vazia

    8 de junho de 2012

     

    Você tem uma lata de cerveja vazia
    no lugar do coraçao.

    Vistosa
    Brilhante
    a melhor e mais gostosa
    cerveja de produçao limitada alemã
    ou polonesa

    De que adianta?
    Se não oferece nem mais um gole
    a este pobre bêbado, romântico, sedento?

    Um gole
    Somente mais um gole

    Não adianta

    Vazia.

    Seca.

    Oh. Oh.

    Vazia.

     

    A Poesia como fratura

    8 de junho de 2012

    A palavra deve cortar
    fazer chorar ou sentir o sorriso
    da tremedeira do nervo vermelho
    iludir com a dor autêntica
    Caso contrário, não é Poesia

    Mero jogo de misturamento de vocábulos
    Tal como este.

    Nenhum problema com brincadeiras de vocábulos
    Elas podem ser divertidas
    e sabemos o quanto precisamos
    de diversão e alegrias
    Podem ser tristes
    e nos fazer enxergar nossa solidão
    Podem ser humildes,
    inflando nosso ego
    Podem ser candentes,
    embora nesse caso os fogos
    sejam somente de artifício
    e, portanto, novamente brincadeiras
    sem sal

    A Poesia tem sal
    persiste
    machuca
    mesmo que sorria
    mesmo que lúdica

    Poesia é a fratura exposta que faz cócegas no seu ouvido.

    Respiro de Ana Cecília

    29 de maio de 2012


    Ana Cecília assobiava o corpo
    balançava os cachos
    sorria a rua

    Ana Cecília saboreava madrugadas
    mordiscava pescoços
    sorria a rua

    Ana Cecília estupidificava o cinza
    zombava de mesquinhez
    sonhava de mares e trovões coloridos
    pensava em desejos tantos transcorridos
    enquanto dava o sinal para o ônibus do trabalho
    e
    ninguém dava sinal para o ônibus como Ana Cecília

    Soltava o peito, gritava vida, trepava fogo
    tomava meu corpo como seu, dona de dentro
    e brincávamos até latejarmos vulcões ardentes em uníssono
    e perdermos a respiração em uníssono
    para nossas peles nunca mais desgrudarmos, nunca, nunca mais, até o fim dos tempos

    Deliciava-se Ana Cecília de recuperar o fôlego lentamente
    pausadamente
    Fazia parte do seu sentido
    Pois, dizia, fumegantes vulcões ardentes
    demoram a recuperar o fôlego

    E eu, o idiota, eu, o imbecil, a deixei partir
    Demorei a compreender que aquele respirar
    o esfriamento e o fôlego
    o aquietamento
    também faziam parte da comunhão

    Ana Cecília assobiava e balançava
    sorria a rua
    Ah, mas faz muito tempo.

    clique na imagem para ampliar

    Poema Branco

    27 de maio de 2012

    Deixe-me fazer esta canção,
    preciso lembrar de ti.

    Deixe-me estrangular-te, sufocar-te,
    jogar-te na horizontalidade fria
    desta página para que eu possa,
    de alguma forma, dizer que vivo.

    Deixe-me recordar tua voz através
    destas letras mudas, sofrer teu
    coração despedaçado, tocar teu
    gesto aéreo.

    (a memória é este pedaço podre
    de cérebro, caco de espelhos partidos
    a refletir sombras queimadas,
    gastas e destruídas)

    Tu permanecerás morta aqui,
    mesmo que vivas lá; o lá, por ser tão longe,
    não importa, não existe!
    Interessam este segundos, estes riscos brancos,
    que também não existem
    e por isso são fundamentais.

    E, se tu tiveres existido algum dia,
    então viverás para sempre, morta e marcada
    por este punho vacilante
    e pelo meu cérebro
    carregado
    entupido
    de vidro moído.

    Deixe-me fazer esta canção como
    uma tentativa besta
    de alguma coisa.

    Paulo de Tharso, Poesia. Visceral, atordoante, rasgante. Poesia.

    11 de maio de 2012

     

    Desalento

    Eu deixei meu coração em tuas mãos
    E isso não se faz
    Eu estraguei minha juventude
    Em noites vazias, cheias de argônio
    E sonhos delirantes
    Eu bebi todo o mar
    Na esperança de aproximar os continentes
    Fui devorado pelos percevejos
    Enquanto fugia dos tubarões
    Desafiei os deuses pagãos
    Que foram os primeiros cristãos convertidos
    Resmunguei canções populares
    E blasfemei orações nas calçadas
    Fazendo o sinal da cruz
    Convivi com sugadores de sangue
    E falsificadores de idéias
    Que usavam máscaras douradas
    Da razão pura, para enganar trabalhadores.
    Muito ler os olhos cansa
    Não fiz economias para os piores dias
    A guerra é demasiado cara
    Mas a América não se importa
    Se há crianças em minas de carvão
    Atrofiando sua musculatura
    O belo tempo da infância não dura
    E definitivamente, não é com bombas
    Que um menino cresce.

     

     

    (sem título)
    Fiz todas as paciências, vomitei o Kirsch todo, empilhei todos os meus escritos no fogão, amei todas as mulheres até que tudo cheirasse mal. Em breve minha orelha cairá de tão podre que está em ouvir tanta barbaridade. Por que não há paz? Por que tanta gente no meio das ruas sem fazer nada a não ser produzir lixo e gritar e nas praças, tem a policia atirando contra a freguesia… Quem quer que procurem, sei que não sou eu que procuram, e no entanto, me encontram. Com as tábuas das leis acabaram-se os sonhos. Tudo são vícios, tudo é politikamente errado…fazer versos é coisa por demais comum. O pior, é que o diabo não vem mais buskar os melhores fregueses.

     

     

    Tradução.

    Meu trabalho de ocasião
    Meu problema? Metalinguagem.
    Do significado para o significante
    Do texto para o contexto.
    Passar do sema para o lexema
    Do semema para o classema
    Do léxico pra a sintaxe
    ( nego essas traduções digitais)
    A tradução automática, mostra claramente a desimportância
    do léxico.

    Por isso fico com as alegrias não medidas
    E com as peles não extorquidas
    Ontem, conversando com meu amigo provocador Mário Bortolotto
    E minha perseverante mulher Adriana Brunstein
    Concluímos que as melhores Histórias
    São as ininteligíveis.
    E que os melhores conselhos, são os inexeqüíveis.
    Artes, as não rendáveis.
    Críticos, os enterráveis.

    Antes dessa conversa
    Em outra mesa, num outro sonho,
    Com outro amigo não menos provocador, Marcelo Mirisola
    Afirmamos que os melhores inimigos são os sensíveis
    E que os únicos amigos são os incorruptíveis.
    Por isso, decadentes louvaminheiros;
    Deixem as mensagens para os mensageiros.

     

     

    1º de Maio

    É bonito usar da palavra na luta de classes
    Klamar alto e bom som pela luta das massas
    Levantar bandeiras vermelhas ao som da Internacional
    É bonito a propaganda: Brasil, um país de todos!
    É bonito flanar em plena terça-feira
    E não pensar que a puta da direita espreita, de mãos dadas
    com a esquerda vendida.
    É bonito pensar que a vida é a propaganda da Petrobrás
    E que tudo está na paz de Deus.
    É bonito dizer que não há nacionalidade
    no espaço mental, quando Glauber Rocha
    gritava Terra em Transe.
    É bonito esquecer o sangue derramado
    para que existisse o 1º de Maio.
    Quem ousará o distanciamento Brechtiniano
    Quando todos querem um pedaço da Rede Globo?
    É feio citar revoluções e flores pisoteadas por canhões.
    É feio cantar Mrs. Robinson sem nenhuma emoção.
    É feio comemorar o dia do trabalho sem a liberdade
    de um cigarro que a gente, sem gravata, não fuma mais sob a sombra
    demokrátika.

    É estranho rezar o pai nosso sem o pão na mesa.
    É bizarro não saber mais em que ano estamos depois de 1984.
    É bonito falar em Estado de direito, quando só resta o Estado
    policialesco.
    Parabéns trabalhadores! Escravos do Estado sem nenhum direito.
    Que dia glorioso!
    Viva Getulio Vargas e o teu salário mínimo!

    Bonito mesmo são os olhos desse menino
    querendo ser Villa Lobos.

     

     

    Cantor, músico, ator, poeta, prosador, o que busca Paulo de Tharso, o que move sua existência, suas vísceras? Sua voz, seus gestos e pensamentos ecoam pelas ruas e pelas noites de São Paulo e fazem vibrar a consciência. Em certo momento, falando de suas letras de músicas, ele diz “São canções que buscam a verdade, ou perto disso”, o que está bem próximo também de sua arte e de sua vida. 

     

    (comentário sobre ‘1° de maio’)

    Nessa madrugada escrevi um texto – prosa sobre 1º de maio. Foi bem compartilhado, mas isso não importa. Acredito até, que a foto do menino (de quem desconheço o nome do autor, e foi o que mais tocou os corações), tenha movimentado as almas. Mas o que eu pretendi dizer com o texto, é que todos nós temos uma responsabilidade com a porra dessa vida, que é uma incógnita geral. O quid eterno do homem que se pergunta o tempo todo de onde veio, para que veio e para que lugar irá, quando tudo akabar. A imobilidade incomoda o século. Temos em nossas mãos um instrumento poderoso e o que fazemos com ele? Nada! É um fricoti-fricota, brigas sem sentido, sorrisos de bokas desdentadas por qualquer piada sem graça. Um tal de kkkk, rsrsrsrs, ops… Escuta pois kamarada maldito, kamarada miséria; O teu silêncio não é ouro. Aqui é crime! Miséria é o nome da minha kadela que só tem três patas. Nessa madrugada, percebi kamaradas tranqüilos e prósperos transcrevendo o que eu disse. Mas eu pergunto; o que foi que eu disse? O que foi que eu escrevi que não era sentido ou conhecido por todos? Troco o logos de Éfeso, o da posteridade pelo da prosperidade geral sem pestanejar. Eu desejei falar daquele que construiu Tebas, a das sete portas. Desejei mostrar que nos livros vem o nome dos reis. Mas foram os reis que transportaram as pedras? Atrás destes teclados todos tem coragem. Mas contra quem? Não negam o que disseram, mas o que disseram? Tem sua opinião? Mas que opinião, se na manhã seguinte, por meio de kanetadas obscuras, tiram o teu direito de ir e vir? Do que vale a porra da tua opinião se ela não vai para as ruas, se empacotar na desordem das massas? Não sou dono da verdade, ninguém é! Então por que balançam verdades todos os dias, com o dedo em riste em propagandas orgânicas? Foge da sombra por um momento e te arrisca na tempestade da crítica, do ridículo e por um momento, um só momento te afasta do medo e busca a glória da luta pelo próspero alheio, mesmo que te pareça inglória a tua luta.

    É verdade, meus inimigos dizem que sou um bêbado sem futuro, um perdedor __como me alcunham alguns funcionários públicos que falam das canções que nunka escreveram e dos romances que jamais leram __, mas que adoram freqüentar as mesas dos notáveis. Mas é verdade também, que aqueles que me conhecem, sabem bem que sou um animal provokador, com um enorme coração pronto a chafurdar na merda por qualquer hum que precise de uma voz. E a minha é boa. É forte, apesar de rouca. Sou um purista e não me envergonho disso. Enfim, se você teve a paciência de me ler até aqui, já percebeu que não existe mais nada! Mas eu não vou me assumir numa líquida senescência. Sou um negro branco que come merda todo santo dia porque sou negro e me chamam de branco sujo. Obrigado pela atenção.

    Paulo de Tharso

     

    Dia 26 de maio, o impacto da voz profunda de Paulo de Tharso, junto com Diego Basanelli e Marcelo Watanabe, poderá ser apreciada ao vivo em sua apresentação no espaço Estação Caneca (Rua Frei Caneca, 384 – Consolação). Sua voz continua presente e poderosa em outros espaços:

    https://www.facebook.com/pdetharso

    Lenta Senectude
    http://salvemofelix2.blog.uol.com.br/

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    Para desconcertar Segunda-Feira, Desconcertos de Poesia

    7 de maio de 2012

    Os Desconcertos de Poesia acontecem há alguns anos, em espaços charmosos e importantes da cidade de São Paulo, como na Praça Roosevelt, junto com o Sebo do Bac, na Casa das Rosas na Avenida Paulista, na Coletivo Galeria, em Pinheiros, onde eu, Claudinei Vieira (escritor) tive a honra e o enorme prazer de convidar e conviver e compartilhar o melhor e a mais vibrante literatura contemporânea brasileira. Muitos autores, de prosa e poesia, muita música, bastante cerveja, muita energia e beleza correu e aconteceu pelos Desconcertos.

    Estivemos tranquilos, eu e meus desconcertos, durante um tempo. Nem por isso a Poesia deixou de acontecer, nem os artistas, músicos e poetas deixaram de fluir seu trabalho. Pelo estímulo de vários e talentosíssimos amigos e escritores, e para acompanhar o que está acontecendo de mais estimulante neste exato momento, bem a nossa volta, os Desconcertos estão voltando.

    Para hoje, 07 de maio, segunda-feira, os desconcertamentos serão com poetas Marcelo Montenegro, Paula Klaus, Adriana Brunstein, Luana Vignon, Ana Rüsche, Lilian Aquino, mais a presença da banda ‘Fábrica de Animais’, mais a acolhida sempre cálida e meiga do pessoal e da Luciana, da Coletivo Galeria.

    Cerveja, poesia, música, energia, amigos. Desconcertos de Poesia.

    Eu costumo dizer que os Desconcertos não são um evento, e sim uma experiência. Pode ser pretensão minha, embora também pretenda que vários dos que participaram concordem comigo. De qualquer forma, não é necessário acreditar em mim, a priori. O convite é para que venha vivenciar conosco essa experiência de Poesia e comprovem essa impressionante troca de energia.

    DESCONCERTOS DE POESIA NA GALERIA

    Dia 07 de Maio, 20:00 hs
    Coletivo Galeria
    Rua dos Pinheiros, 493, São Paulo