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No dia em quem todas as crianças palestinas estiverem mortas

25 de julho de 2014

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Dia virá (não se apresse, já está chegando)

não falaremos mais das mortes de crianças,

aos nossos olhos, de Gaza.

Não choraremos o horror do genocídio

visto em rede de satélites online,

aos nossos olhos, ouvidos e estômagos,

das crianças de Gaza.

Não ficaremos estúpidos paralisados constrangidos

a observar o monstro-míssil sublimar em fumaça e sangue

tantas e tantas crianças de Gaza.

Não comentaremos, muito menos observaremos,

não teremos mais olhos.

De que havia crianças em Gaza.

Em um tempo quando corriam pelas ruas de areia

sem saber que seriam suas tumbas,

sem saber soletrar a palavra Hamas.

Em um tempo quando jogavam futebol em campinhos de areia

sem consciência de que cometiam o último gol,

pois não sabiam que era proibido

ser criança palestina em Gaza.

Ou nem corriam ainda,

nem tinham saido da barriga palestina, ainda

nem soletravam Tumba, ainda

(embora já fossem consideradas terroristas),

Ficaremos pisando pungentes

as lembranças de crianças-vísceras,

de crianças-ossos,

de crianças-sugadas.

Porque estarão mortas.

Serão História.

E poderemos, por fim, construir

lindos memoriais em sua homenagem,

escrever teses inteligentes sobre a estupidez da chacina,

exigir animadas resoluções internacionais ridículas

e suspiraremos aliviados por sabermos:

continuarão a ser animadas e ridículas,

nunca serão respeitadas, sequer ouvidas,

como nunca foram.

E deixaremos escorrer lágrimas de saudades

por aquelas que um dia foram

as crianças mortas de Gaza.

Pois afinal isso é absurdamente mais fácil,

mais bonito,

mais poético,

do que impedir que elas continuem sendo mortas

Agora.

claudinei vieira

 

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Poesia Exponencial

23 de julho de 2014

 

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Poesia é a busca permanente

da Dança Primordial,

não importa se versa sobre

a borra de café derramado na pia,

ou do brilho das asas do anjo celestial,

da ânsia do amor perene do dia-a-dia,

da porosidade dos grãos da manteiga de cacau,

ou da melosidade venenosa e enfadonha do seu frias.

 

Poesia pode ser sobre a camiseta verde,

ou sobre o próprio verde da camiseta,

ou sobre o verde deitado no cinza do palestino morto

enquanto procurava outros cadáveres nos escombros,

mais do que nunca seus parentes.

Pode ser do verde sobre rosa

da copa de árvores a encobrir nascer do sol.

 

Não se pode dizer, no entanto, que Poesia não mentiria.

Na verdade, é a Mentira Primordial,

em busca da Dança Suprema.

Enquanto estamos vivos, poetamos.

Você poeta enquanto lê, sonha e deseja.

Nós poetamos, sim, eu e você,

em uma cumplicidade sorrateira

que nem imaginava existir.

Estamos aqui, eu e você, queira ou não,

cúmplices de Vida,

cúmplices de Morte.

Acredite. Pois se é Poesia.

Portanto Mentira fundamental,

beleza existencial,

Dança exponencial.

 

  •  

     

    claudinei vieira



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    escuridão

    19 de julho de 2014

     

    Vou me vestir de escuridão.

    Tomarei do vento o peito.

    Conterei lágrima.

    Sulcarei a madeira com motivos lindos e vãos,

    com desenhos alongados e sutis,

    com letras alongadas e pontudas,

    e a deixarei de lado.

     

    Vou me vestir de escuridão e me refugiarei nas dobras

    de uma esquina de areia radioativa submersa.

    E beberei da areia.

    E cada grão queimará riscos,

    correrá do peito queimando riscos,

    um grão por um,

    um grão por um.

     

    Me tornarei quieto.

    Muito quieto.

     

    Me vestirei de escuridão. Me esconder da dor.

    Quem sabe, a dor

    esqueça meu nome.

     

     

    escuridão

    claudinei vieira

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    Tempo

    18 de julho de 2014

     

    Natural, vez por outra, tentarem agarrar o tempo

    (como se pudera encaixotar o Fluido).

    Isso já não é mais possível

    pois carrego eu o tempo,

    dentro de mim.

    Sopro-o pelas narinas e rugas.

    Ressuscito-o pelas retinas e rusgas,

    o tempo me come e regurgita-me todas as manhãs.

    Corta-me a carne, com olhares desconfiados;

    corta-me a carne, como velhos amigos que somos,

    ineludíveis um do outro, como sempre fomos.

     

    Natural, vez por outra, que ele pare. O tempo para,

    a sussurrar, ansioso:

    “Já não se foram todos os dias?

    Já não devemos arrotar os volumes de areia?

    Já não gozamos o puro e simples?

    E se andássemos?”

    assim meio acanhado, quase amedrontado.

    “E se andássemos?”

     

    Eu o carrego, como vêem.

    E, sim, quem sabe coubéssemos de andar,

    desencaixotássemos o fluido,

    desenrugássemos o ser.

     

    Haverá a hora, haverá a hora.

     

     

    TEMPO

    claudinei vieira

    foto: ‘The Old Man #5’ – Muhamad Saleh Dollah

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    azul nas calçadas do Rio

    16 de julho de 2014

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    Ainda há resquícios de azul

    nas calçadas do Rio de Janeiro.

    A fumaça azul das bombas de gás especiais

    metabolizou e se agarrou

    nas calçadas do Rio de Janeiro.

    O novo terror mudou de cor, agora é azul, e não larga

    das calçadas do Rio de Janeiro.

    O azul, dizem alguns passantes, está mais difícil de limpar

    do que o sangue vermelho de manifestantes,

    do que a consciência esbranquiçada de governantes,

    do que a falta de consciência dos policiais militares

    que chutam cabeças de jornalistas caídos

    nas calçadas do Rio de Janeiro.

     

    O azul é o sinal, a cor-símbolo dessa deliciosa nova democracia.

    É psicodélico, é moderno. É bonitinho.

     

    Por favor, não apaguem esse azul. Não lixem essa lembrança,

    pois nada mais foi deixado de lembrança,

    os carros estão circulando de novo,

    os passantes estão passando de novo,

    e o vermelho já foi lavado.

    Permitam que este seja o mais novo recordatório carioca,

    tal como um maracanã novinho, novinho,

    tal como um cristo redentor velhinho, velhinho

    (embora, emoldurado pelo sol de final de tarde vermelho-alaranjado).

    Mas estamos cansados de vermelhos-alaranjados.

    Vermelhos-alaranjados estão ultrapassados, são old style.

     

    No entanto, eu compreendo.

    Do azul das bombas de gás especiais

    das calçadas do Rio de Janeiro

    sobraram somente resquícios

    e algumas fotos.

    E, logo logo, até mesmo estes pequenos vestígios azuis

    acabarão encobertos e esquecidos.

     

    Até explodirem e azulejarem novas e fresquíssimas calçadas.

    Não faltarão calçadas.

    Nem azuis, nem laranjas, nem pretos cassetetes

    (os cassetetes são pretos?).

    Não faltarão calçadas.

     

    (claudinei vieira)

     

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    Medo e

    14 de julho de 2014

    Deixaremos desabar os cabelos e os sonhos?
    Por que não?
    Porque nada nos obriga a parar de flutuar, talvez.
    O medo de cair nos impede de flutuar, talvez.
    O medo de tocar seu beijo me nega de que te ame, talvez.
    E assim minhas únicas certezas são o medo
    e o talvez.


    claudinei vieira

     

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    Abstrair a trajetória da gota de água na espada do samurai

    11 de julho de 2014

    abstrair?

    observar,

    acompanhar a trajetória de uma gota de água

    no fio da navalha de uma espada samurai.

    gorgolejar?

    não resistir,

    sentir na pele das costas da mão

    o sopro gelado da brisa da primeira manhã.

    envolver?

    dançar,

    perceber que, por mais que o dia se esgote,

    ainda estarei pleno. Por você.

    claudinei vieira

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    Mergulhar

    7 de julho de 2014

     

    É como mergulhar,

    sondar no escuro, lembrar seus olhos,

    tatear suas coxas,

    lambuzar sua vagina,

    brincar seus seios,

    os bicos dos seios.

     

    É como se perder,

    rondar no escuro em caminhos torcidos,

    descobrir seu sono e sonhos somos irmãos,

    penetrar labirintos gozosos.

     

    É como. Amar.

     

     

    Claudinei Vieira

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    Somente

    7 de julho de 2014

    somos eu e você

    estamos eu e você

    exalamos no universo

    certas moléculas

    na fúria e no desassombro

    em estouradas mentes, em cálices geminados

    no sopro dos ares

    na garganta e nos estômagos

    nas xavascas úmidas e nas toras entumescidas

    somente

    absolutamente

    eu e você

    claudinei vieira

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    Cobrir

    7 de julho de 2014

    cobrir

     

     

     

    gostaria de lhe cobrir por inteiro

    assim como lhe cobre,

    nesta semi-luz,

    essa semi-escuridão.

     

    claudinei vieira

     

    Quedar-se

    28 de junho de 2014

    .

    ainda há muitas cicatrizes para serem feridas

    ainda para serem vividas

    tantos amores para serem sufocados

    sofreguidões a serem desbragadas

    lembranças magoadas

    cervejas bebidas

    torresminhos pururucas

    devidamente apreciados

    .

    No entanto

    por enquanto

    quedo-me aqui

    (Claudinei Vieira)

    quedar-se