Posted tagged ‘Palestina’

saberá da morte

5 de agosto de 2014

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saberá o dia em que morra?

saberá o instante-zunido em que fumaça por fumaça

pesará por sobre almas

para sujar sua incontinência?

desejará o dia em que morra?

em que sangue por sangue, detrito por detrito,

aluviarão os corpos inconsistentes,

as consciências deformadas,

os párias acostumados?

suportará o dia das perguntas?

sufocará o enredo das desditas?

se enforcará com o tecido das mentiras?

desprezará a marca de ser humano,

a inconformidade de que, apesar de tudo, é ser humano,

a necessidade de, com tudo, menosprezará ser humano?

jogará com o revide?,

com a chuva ácida, com a luz demonha?

chorará, sim, chorará, pelo menos uma vez,

uma solitária vez?

acompanhará seu dever cumprido e dormirá

em seu travesseiro de pedra e metal?

 

claudinei vieira

 

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Hipocrisia assassina

3 de agosto de 2014

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Ok. Vamos deixar de hipocrisia e falta de vontade em enxergar o óbvio estridente, que, nesse caso, significam descaso desumano e fúria assassina mal disfarçada?

Isso não é (nunca foi) autodefesa. Isso não é (nunca foi) retaliação por alguns israelenses mortos. Isso não é (nunca foi) resposta a ataques de um grupo pífio de extremistas, o Hamas.

Isso é (sempre foi) mais uma etapa do processo de extermínio de um povo. Isso é (sempre foi) mais uma etapa para o assassinato coletivo de uma população, a consecução de um processo de limpeza étnica. Isso é (sempre foi) o desbastamento de terras ‘desocupadas’. Isso é (sempre foi) pura e simplesmente conquista de território. E o povo desse território que se dane.

Isso é, sempre foi, está sendo, a consumação de Genocídio, Holocausto, levado a cabo com fria determinação. E só vai acabar quando o povo palestino tiver sido dizimado.

 

“Bombardeio israelense destrói única usina de energia da Faixa de Gaza”

CIDADE DE GAZA (Reuters) – Disparos de um tanque israelense atingiram nesta terça-feira o depósito de combustível da única usina de energia da Faixa de Gaza, interrompendo o suprimento de eletricidade para a Cidade de Gaza e várias outras partes do enclave palestino de 1,8 milhão de habitantes.

 

https://br.noticias.yahoo.com/bombardeio-israelense-destrói-única-usina-energia-da-faixa-102648150.html

 

uma fábula de passarinho

30 de julho de 2014

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Os avôs permitirão que os netos

durmam naquela cama naquela casa.

Os netos, jovens cavoucadores,

descobrirão, vez por outra, pedacinhos de ossos,

nos fundos, no chão, nas bases, daquela casa,

e os avôs suspirarão, revirarão os olhos,

“ossos de passarinhos” “estão por toda parte”.

Os netos, porém, têm a tendencia de crescerem,

e de tanto dormirem naquelas camas daquelas casas

perceberão que os ossos não são de passarinho,

lembrarão de conversas de adultos,

murmúrios sobre uma espécie esquisita

(uma espécie antiga, extinta, exterminada)

de seres humanos chamados ‘crianças palestinas’,

outrora teriam dormido naquelas mesmas camas,

daquelas mesmas casas,

recolhendo seus próprios ossos.

Os avôs suspirarão de impaciência,

revirarão os olhos pela impertinência

“ossos de passarinho”

“ossos de crianças terroristas malignas”

“ossos de bebês terroristas malignos”

“ossos de filhos de mães terroristas malignas”

“ossos de passarinho terrorista”

“qual a diferença?”

“continuemos a dormir nesta cama desta casa”

 

claudinei vieira

 

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brown pigeon Cream-coloured Courser (Cursorius cursor) – pássaro palestino

No dia em quem todas as crianças palestinas estiverem mortas

25 de julho de 2014

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Dia virá (não se apresse, já está chegando)

não falaremos mais das mortes de crianças,

aos nossos olhos, de Gaza.

Não choraremos o horror do genocídio

visto em rede de satélites online,

aos nossos olhos, ouvidos e estômagos,

das crianças de Gaza.

Não ficaremos estúpidos paralisados constrangidos

a observar o monstro-míssil sublimar em fumaça e sangue

tantas e tantas crianças de Gaza.

Não comentaremos, muito menos observaremos,

não teremos mais olhos.

De que havia crianças em Gaza.

Em um tempo quando corriam pelas ruas de areia

sem saber que seriam suas tumbas,

sem saber soletrar a palavra Hamas.

Em um tempo quando jogavam futebol em campinhos de areia

sem consciência de que cometiam o último gol,

pois não sabiam que era proibido

ser criança palestina em Gaza.

Ou nem corriam ainda,

nem tinham saido da barriga palestina, ainda

nem soletravam Tumba, ainda

(embora já fossem consideradas terroristas),

Ficaremos pisando pungentes

as lembranças de crianças-vísceras,

de crianças-ossos,

de crianças-sugadas.

Porque estarão mortas.

Serão História.

E poderemos, por fim, construir

lindos memoriais em sua homenagem,

escrever teses inteligentes sobre a estupidez da chacina,

exigir animadas resoluções internacionais ridículas

e suspiraremos aliviados por sabermos:

continuarão a ser animadas e ridículas,

nunca serão respeitadas, sequer ouvidas,

como nunca foram.

E deixaremos escorrer lágrimas de saudades

por aquelas que um dia foram

as crianças mortas de Gaza.

Pois afinal isso é absurdamente mais fácil,

mais bonito,

mais poético,

do que impedir que elas continuem sendo mortas

Agora.

claudinei vieira

 

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Usar as palavras corretas. GENOCÍDIO PALESTINO.

21 de julho de 2014

 

Usar as palavras corretamente ajuda a definir o que você realmente pensa. Não há um ‘Conflito Israel-Palestina’. Não é uma ‘guerra’ Não há um ‘avanço’ . É um massacre. Limpeza étnica. Destruição e morte um povo inteiro.

É GENOCÍDIO.

Também conhecido como HOLOCAUSTO.

Veja como todas as outras considerações desparecerem ou se tornam pífias quando os termos são colocados em seu devido lugar.

GENOCÍDIO PALESTINO. Diante dos seus olhos. Em tempo real e à cores. Para o mundo todo assistir.

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A verdadeira Lei Divina de Israel: Genocídio Palestino

9 de julho de 2014

Privilégios do Século 21: assistir ao vivo e à cores, em todos os satélites e ondas internéticas, em tempo real, o GENOCÍDIO de um povo.

Israel só vai parar quando o solo de Gaza já tiver secado do sangue dos palestinos, dos homens, mulheres, crianças, cultura e história palestinos. Pois a verdadeira Lei Divina seguida por Israel é a do massacre.

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As lindas luzinhas da morte em Gaza

28 de dezembro de 2011

Uma pergunta que me martela a mente: o que é necessário, quais os requisitos legais (e morais e constitucionais e etc) para que o ocorrido na Faixa de Gaza seja considerado como ‘genocídio’ pela ONU, pelos demais países do mundo e ou qualquer outro órgão político internacional? Não é uma pergunta retórica; eu realmente gostaria de saber.

– Três  anos do odioso massacre na Faixa de Gaza promovido por Israel. O site ‘Palestine Youth Voice’ publica uma lista completa das vítimas, com nomes, idades, causa da morte.

Para mim, o que mais salta aos olhos é a quantidade de ‘extremistas’ palestinos mortos com idade entre 0 e 03 anos.

http://palestineyouthvoice.wordpress.com/2011/12/27/victims-of-the-aggression-on-gaza-dec-27-08-jan-18-09/

 

 

Os fatos sobre o Hamas e os ataques a Gaza

15 de janeiro de 2009

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por Norman Finkelstein, no Counterpunch / 13 de janeiro

traduzido por Caia Fittipaldi –  15–01–2009 

Os registros existem e são muito claros. Qualquer pessoa encontra na internet, na página do governo de Israel e, também, na página do seu ministério das Relações Exteriores. Israel desrespeitou o cessar-fogo, invadiu Gaza e matou seis ou sete (há controvérsia quanto ao número de assassinados, não quanto ao crime de assassinato) militantes palestinos, dia 4/11. Depois, o Hamas respondeu ou, como se lê nas páginas do governo de Israel, “o Hamas retaliou contra Israel e lançou mísseis.” Quanto aos motivos, os documentos oficiais também são claros. O jornal Haaretz já informou que Barak, ministro da Defesa de Israel, começou a planejar o massacre de Gaza muito antes, até, de haver acordo de cessar-fogo. De fato, conforme o Haaretz do dia 12, a chacina de Gaza começou a ser planejada em março de 2008. Quanto às principais razões do massacre, acho, há duas. Número um: restaurar o que Israel chama de “capacidade de contenção do exército”, o que, em linguagem de leigo, significa a capacidade de Israel para semear pânico e morte em toda a região e submetê-la mediante a pressão das armas, da chantagem, do medo. Depois de ter sido derrotado no Líbano em julho de 2006, o exército de Israel entendeu que seria importante comunicar ao mundo que Israel ainda é capaz de assassinar, matar, mutilar e aterrorizar quem se atreva a desafiar seu poder pressuposto absoluto, acima de qualquer lei. A segunda razão pela qual Israel atacou Gaza é culpa do Hamas: o Hamas começou a dar sinais muito claros de que deseja construir um novo acordo diplomático a respeito das fronteiras demarcadas desde junho de 1967 e jamais respeitadas por Israel. Em outras palavras, o Hamas sinalizou que está interessado em fazer respeitar exatamente os mesmos termos e conceitos que toda a comunidade internacional respeita e que, em vez de resolver os problemas a canhão e com campanhas de mentiras por jornais e televisão, estaria interessado em construir um acordo diplomático. Aconteceu aí o que Israel poderia designar como “uma ameaçadora ofensiva de paz chefiada pelos palestinos”. Imediatamente, para destroçar a ofensiva de paz, o governo e o exército de Israel desencadearam campanha furiosa para destroçar o Hamas. A revista Vanity Fair publicou, em abril de 2008, em artigo assinado por David Rose, baseado por sua vez em documentos internos dos EUA, que os EUA estavam em contato estreito com a Autoridade Palestina e o governo de Israel, organizando um golpe para derrubar o governo eleito do Hamas, e que o Hamas conseguira abortar o golpe. Isso não é objeto de discussão: esse fato é estabelecido, documentado e há provas. A questão passou a ser, então, impedir o Hamas de governar, e ninguém governa sob bloqueio absoluto, bloqueio que desmantelou toda a atividade econômica em Gaza. Ah!, vale lembrar: o bloqueio começou antes de o Hamas chegar ao poder (eleito!). O bloqueio nada tem ou jamais teve a ver com o Hamas. Quanto ao bloqueio, os EUA despacharam gente para lá, James Wolfensohn especificamente, para tentar pôr um fim nele, depois de Israel ter invadido Gaza. O xis da questão é que Israel não quer que Gaza progrida, sequer quer que viva, e não quer ver nenhum conflito encaminhado por vias diplomáticas, que tanto os líderes do Hamas em Damasco, quanto os líderes do Hamas em Gaza têm repetidas vezes declarado que buscam, sempre com vistas a resolver o conflito relacionado às fronteiras demarcadas em 1967, fronteiras que Israel jamais respeitou. Tudo, até aí, são fatos registrados e comprovados. Não há qualquer ambigüidade: tudo é bem claro. Todos os anos, a Assembléia da ONU vota uma resolução intitulada “Solução pacífica para a questão da Palestina”. E todos os anos o resultado é o mesmo: o mundo inteiro de um lado; Israel, EUA, alguns atóis dos mares do sul e a Austrália, no lado oposto. Ano passado, o resultado da votação foi 164 a 7. Todos os anos, desde 1989 (em 1989, o resultado foi 151 a 3), é sempre a mesma coisa: o mundo a favor de uma solução pacífica para a questão da Palestina; e EUA, Israel e a ilha-Estado de Dominica, contra. A Liga Árabe, todos os 22 Estados-membros da Liga Árabe, são favoráveis a uma chamada “Solução dos Dois Estados”, com as fronteiras determinadas em junho de 1967. A Autoridade Palestina é favorável à mesma “Solução dos Dois Estados” e às mesmas fronteiras determinadas em junho de 1967. E o Hamas também é favorável à mesma “Solução dos Dois Estados” e às mesmas fronteiras demarcadas em junho de 1967. O problema é Israel, patrocinado pelos EUA. Esse é o problema. Bem… Há provas de que o Hamas desejava manter o cessar-fogo; exigiu, como única condição, que Israel levantasse o bloqueio de Gaza. Muito antes de começarem os rojões do Hamas, os palestinos já enfrentavam terrível crise humanitária, por causa do bloqueio. A ex-Alta Comissária para Direitos Humanos da ONU, Mary Robinson, descreveu o cenário que testemunhou em Gaza como “destruição de uma civilização”. Isso, durante o cessar-fogo. O que se vê nos fatos? Os fatos mostram que nos últimos mais de vinte e tantos anos, toda a comunidade internacional procura um modo de resolver o conflito das fronteiras de 1967, com solução justa para a questão dos refugiados. Será que 164 Estados-membros da ONU estão sempre errados, e certos e pacifistas seriam só EUA, Israel, Nauru, Palau, Micronésia, as ilhas Marshall e a Austrália? Quem é pacifista? Quem trabalha contra a paz? Há registros e documentos que comprovam que, em todas as questões cruciais discutidas em Camp David; depois, nos parâmetros de Clinton; depois, em Taba, em cada ponto discutido, os palestinos sempre fizeram concessões. Israel jamais concedeu qualquer coisa. Nada. Os palestinos repetidas vezes manifestaram decisão de superar a questão das fronteiras de 1967 em estrito respeito à lei internacional. A lei também é claríssima. Em julho de 2004, a Corte Internacional de Justiça, órgão máximo da ONU para questões de direito internacional, declarou que Israel não tem direito de ocupar nem um metro quadrado da Cisjordânia, nem um metro quadrado de Gaza. Israel tampouco tem qualquer direito sobre Jerusalém. O setor Leste de Jerusalém, os bairros árabes, nos termos da decisão da mais alta corte de justiça do planeta, são território da Palestina ocupado ilegalmente por Israel. Também nos termos de decisão da mais alta corte de justiça do planeta, nos termos da lei internacional, todas as colônias de judeus que há na Cisjordânia são ilegais. O ponto mais importante de tudo isso é que, em todas as ocasiões em que se discutiram essas questões, os palestinos sempre aceitaram fazer concessões. Fizeram todas as concessões. Israel jamais fez qualquer concessão. O que tem de acontecer é bem claro. Número um, EUA e Israel têm de se aproximar do consenso da comunidade internacional e têm de respeitar a lei internacional. Não me parece que trivializar a lei internacional seja pequeno crime ou pequeno problema. Se Israel contraria o que dispõe a lei internacional, Israel tem de ser acusada, processada e julgada em tribunais competentes, como qualquer outro Estado no mundo. O presidente Obama tem de considerar o que pensa o povo dos EUA. Tem de ser capaz de dizer, com todas as letras, onde está o principal obstáculo para que se chegue a uma solução para a questão da Palestina. O obstáculo não são os palestinos. O obstáculo é Israel, sempre apoiada pelo governo dos EUA, que, ambos, desrespeitam a lei internacional e contrariam o voto de toda a comunidade internacional. Hoje, o principal desafio que todos os estadunidenses temos de superar é conseguir ver a verdade por trás das mentiras. * Norman Finkelstein é autor de cinco livros, entre os quais A indústria do Holocausto: Reflexões sobre a exploração do sofrimento dos judeus (Record, 2001). Tradução do artigo: Caia Fittipaldi.

http://www.amalgama.blog.br/01/2009/os-fatos-sobre-o-hamas-e-os-ataques-a-gaza/

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Tempo dos virtuosos

9 de janeiro de 2009

Glossário macabro da ocupação, 2: “equilíbrio”, “ponderação”, “ver os dois lados”

de Idelber Avelar, do O Biscoito Fino e a Massa

Qualquer bom profissional da área de Letras, com um mínimo de formação em retórica, poderá lhe explicar, caro leitor, como seria relativamente simples escrever um panfleto racista que parecesse “ponderado”, uma monstruosidade pró-Apartheid que soasse “equilibrada”, uma justificativa do colonialismo mais bárbaro que parecesse estar “vendo os dois lados”. Basta ir fazendo um pingue-pongue pretensamente neutro entre verdugo e vítima, e você engana os incautos.

No caso das discussões acerca da catástrofe que assola o povo palestino desde 1948 e, muito especialmente, desde 1967, esses termos, “ponderação”, “equilíbrio”, constituem a faceta mais perversa do glossário macabro. O nosso jornalista “ponderado” dirá: sim, é verdade que Israel usa força desproporcional, mas o Hamas provocou com os foguetes, omitindo que a “trégua” — e eu já expliquei aqui e aqui porque uso aspas nesse termo – foi rompida no dia 04 de novembro por Israel, com uma invasão seguida de sete assassinatos. O jornalista “equilibrado” dirá: sim, é verdade que os israelenses estão bombardeando Gaza por motivos eleitorais, mas o Hamas não é muito melhor, omitindo o fato de que quando a liderança inconteste dos palestinos era a secular OLP de Arafat, a política de extermínio e desumanização de Israel era absolutamente a mesma. Ou seja, como já explicou a especialista Jenniffer Loewenstein, o Hamas não tem nada a ver com o bombardeio a Gaza. Qualquer liderança que os palestinos construíssem, e que não compactuasse com sua escravização, estaria sofrendo o mesmíssimo massacre.

Nada tenho contra quem escreve sobre o tema com temperatura menos fervente que a minha. Mas não é essa temperatura que determina a forma como avalio o texto. Julgo-o, principalmente, por sua determinação em buscar a verdade. E o filistinismo da “ponderação” muitas vezes não está nem um pouco interessado na verdade, e sim em parecer “equânime” e bonitinho.

Há muita gente bem intencionada que acredita nessa história de “ver os dois lados”. Em qualquer conversa minimamente civilizada, alguém que se propusesse a estudar o nazismo ou o Apartheid “vendo os dois lados” seria ridicularizado. Mas ante a catástrofe palestina, esse filistinismo pretensamente neutro tem ampla circulação. Há jornalistas que, presenciando o nosso horror ante a chacina em Gaza, falam de “indignação seletiva”. Ora, o que teríamos que fazer para que nossa indignação não fosse “seletiva”? Chorar pelos soldados israelenses que estão com as unhas encravadas?

Uma vez, convidei um defensor das chacinas israelenses a uma conversa sobre o monumental trabalho historiográfico de Ilan Pappé, que demonstra a expulsão, o confisco e a política explícita de limpeza étnica contra os palestinos, tudo exaustivamente documentado. A resposta dele foi que leria o livro de Pappé tendo ao lado um texto de Alan Dershowitz. Em qualquer Faculdade de História minimamente séria, tal justaposição seria motivo de gargalhada ou ridicularização. Você não justapõe o trabalho de um historiador que passou anos desenterrando os fatos aos escritos raivosos de um ideólogo pró-Ocupação. Se você nunca leu Pappé ou Dershowitz, imagine que um historiador brasileiro propusesse um curso sobre a ditadura militar, utilizando as pesquisas de Elio Gaspari e Jacob Gorender, e alguém dissesse que para que o curso fosse “equilibrado”, seria necessário incluir o Manual de OSPB da ditadura militar.

É esse filistinismo pretensamente neutro que grassa sobre o sangue do povo palestino.

Por isso, o Biscoito Fino e a Massa trabalha com um axioma bastante simples: ante a barbárie inominável, ante o crime contra a humanidade, qualquer “ponderação” entendida nos termos acima é um gesto de cumplicidade com o verdugo. Por isso, aqui no Biscoito não há “ponderação”. Por isso, aqui não há “dois lados” porra nenhuma. Nós temos um lado: a busca da verdade. E em épocas de bárbarie, a verdade costuma estar do lado das vítimas.

in O Biscoito Fino e a Massa

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TEMPO DOS VIRTUOSOS

9–01–2009

Gideon Levy, no Haaretz (Tel Aviv, 9 de janeiro)

Essa guerra, talvez mais que as anteriores, está expondo as veias profundas da sociedade de Israel. Racismo e ódio erguem a cabeça, a sede de vingança e de sangue. A “tendência do comando” no exército de Israel hoje é matar, “matar o mais possível”, nas palavras dos porta-vozes militares na televisão. E ainda que falassem dos combatentes do Hamas, ainda assim essa disposição seria sempre horrenda.

A fúria sem rédeas, a brutalidade é chamada de “exercitar a cautela”: o apavorante balanço do sangue derramado – 100 palestinos mortos para cada israelense morto é um fato que não está levantando qualquer discussão, como se Israel tivesse decidido que o sangue dos palestinos valesse 100 vezes menos que o sangue dos israelenses, o que manifesta o inerente racismo da sociedade de Israel.

Direitistas, nacionalistas, chauvinistas e militaristas são o bom-tom da hora. Ninguém fale de humanidade e compaixão. Só na periferia ouvem-se vozes de protesto – desautorizadas, descartadas, em ostracismo e ignoradas pela imprensa -, vozes de um pequeno e bravo grupo de judeus e árabes.

Além disso tudo, soa também outra voz, a pior de todas. A voz dos cínicos e dos hipócritas. Meu colega Ari Shavit parece ser o seu mais eloquente porta-voz. Essa semana, Shavit escreveu neste jornal (”Israel deve dobrar, triplicar, quadruplicar a assistência médica em Gaza” – Haaretz, 7/1): “A ofensiva israelense em Gaza é justa (…). Só uma iniciativa imediata e generosa de socorro humanitário provará que, apesar da guerra brutal que nos foi imposta, nos lembramos de que há seres humanos do outro lado.”

Para Shavit, que defendeu a justeza dessa guerra e insistiu que Israel não poderia deixar-se derrotar, o custo moral não conta, como não conta o fato de que não há vitória possível em guerras injustas como essa. E, na mesma frase, atreve-se a falar dos “seres humanos do outro lado”.

Shavit pretende que Israel mate e mate e, depois, construa hospitais de campanha e mande remédios para os feridos? Ele sabe que uma guerra contra civis desarmados, talvez os seres mais desamparados do mundo, que não têm para onde fugir, é e sempre será vergonhosa. Mas essa gente sempre quer aparecer bem. Israel bombardeará prédios residenciais e depois tratará os feridos e mutilados em Ichilov; Israel meterá uns poucos refugiados nas escolas da ONU e depois tratará os aleijados em Beit Lewinstein. Israel assassinará e depois chorará no funeral. Israel cortará ao meio mulheres e crianças, como máquina automática de matar e, ao mesmo tempo, falará de dignidade.

O problema é que nada disso jamais dará certo. Tudo isso é hipocrisia ultrajante, vergonhoso cinismo. Os que convocam em tom inflamado para mais e mais violência, sem considerar as consequências, são, de fato, os que mais se auto-enganam e os que mais traem Israel.

Não se pode ser bom e mau ao mesmo tempo. A única “pureza” de que cogitam é “matar terroristas para purificar Israel”, o que significa, apenas, semear tragédias cada vez maiores. O que está sendo feito em Gaza não é desastre natural, terremoto, inundação, calamidades em que Israel teria o dever e o direito de estender a mão aos flagelados, mandar equipes de resgate, como tanto gostamos de fazer. Toda a desgraça, todo o horror que há hoje em Gaza foi feito por mãos humanas – as mãos de Israel. Quem tem mãos sujas de sangue não pode oferecer ajuda. Nenhuma compaixão nasce da brutalidade.

Pois ainda há quem pretenda enganar todos todo o tempo. Matar e destruir indiscriminadamente e, ao mesmo tempo, fazer-se de bom, de justo, de homem de consciência limpa. Prosseguir na prática de crimes de guerra, sem a culpa que os acompanha sempre. É preciso ter sangue frio.

Quem justifica essa guerra justifica todos os crimes. Quem prega mais guerra e crê que haja justiça em assassinatos em massa perde o direito de falar de moralidade e humanidade. Não existe qualquer possibilidade de, ao mesmo tempo, assassinar e reabilitar aleijados. Esse tipo de atitude é a perfeita representação das duas caras de Israel, sempre alertas: praticar qualquer crime, mas, ao mesmo tempo, auto-absolver-se, sentir-se imaculado aos próprios olhos. Matar, demolir, espalhar fome e sangue, aprisionar, humilhar… e sentir-se bom, sentir-se justo (sem falar em não se sentir cínico). Dessa vez, os senhores da guerra não conseguirão dar-se esses luxos.

Quem justifica essa guerra justifica todos os crimes. Quem diz que se trata de guerra de defesa, prepare-se para suportar toda a responsabilidade moral pelas consequências do que faz e diz. Quem empurra os políticos e os militares para ainda mais guerra, saiba que carregará a marca de Cain estampada na testa, para sempre. Os que apóiam essa guerra, apóiam o horror.

* tradução: Caia Fittipald

in AMALGAMA

Como vivem os palestinos em Gaza

9 de janeiro de 2009

de RS URGENTE (http://www.rsurgente.net/)

Natalie Abou Shakra: They wait for people to gather at the bomb site…then they bomb again

Monday January 5, 2009

11a.m.

Sitt Wafaa tells me that every time Abdel Aziz is on vacation “something” happens (a “celebration” from the Zionists). We listen that in the ‘Abasan area, central Gaza Strip, they bombed a secluded area. The reporter on the radio said a donkey died! (again, pigeons, donkeys, kousa farms… they are all targeted by the Zionist death machine of war and terror… oh, and the most important thing: Mickey Mouse lunchboxes… remember the first day when they murdered the children coming back from school? Are you noting this down for war crimes tribunal?)

Then he, the reporter, says: we shall never leave our land. Sitt Wafaa replies back to the radio: where can we go you idiot?! (remember the Gaza Strip is an enclosed space, prison-like, reminiscent of the Nazi concentration camps; it actually transferred from a collective prison during the siege, and now it is a concentration camp). 

They bombed quite close to us. No one is sleeping at my home. I am the only one sleeping these days- I have gotten used to it. No more fear for my life. A sublimation to another stage of existence for me.

I spoke to comrade Layla this morning, asking her how her ambulance helping experience was. She told me she couldn’t even write. That she couldn’t do anything but hear people screaming.

Beit Hanoun is now under Zionist occupation. Layla told me they couldn’t get through it.

de Moments of Gaza (http://gaza08.blogspot.com/)

esqueça-se, simplesmente deixe de lado a ‘cobertura jornalística dos jornalões, que o mais das vezes repetem somente os mesmos textos e mesmas imagens das distribuidoras internacionais de ‘notícias’. Neste sentido, a internet tem imprescindível para burlar os grandes esquemas fechados multinacionais. ‘Moments of Gaza’ traz depoimentos, visões, e notícias diretamente do centro do furacão.

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– E reforço aqui o toque Luis Carlos fez aqui no comments: para se ter uma ideia realmente aproximada do inferno que está acontecendo, o ‘Mania de História‘ traz imagens que os grandes meios de comunicação não tem a menor coragem de chegar perto. Só é preciso levar em conta o aviso do site: as imagens são fortes!

no http://maniadehistoria.ning.com/

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Objeção de consciência de jovens de israel

8 de janeiro de 2009

Coisas assim me fazem acreditar na possibilidade de uma juventude melhor, consciente, lutadora. Meu ceticismo e pessimismo ficam um tanto amenizados.

Não consigo nem imaginar o tamanho da pressão (física, psicológica, social, familiar) que eles devem estar sofrendo. O mínimo de decência que se pode fazer frente à firmeza desses jovens é mandar-lhes seu apoio:  www.december18th.org

 

Israel não tem nenhuma intenção de admitir um estado palestino: Se o Hamas não existisse

por Jennifer Loewenstein

(a princípio eu iria fazer somente a chamada e colocar o link para este texto que li no blog do Idelber Avelar, o Biscoito Fino e a Massa, mas o considero tão importante, pela sua objetividade, clareza, simplicidade e contundência, que faço questão de postá-lo por completo. claudinei vieira)

Deixemos uma coisa perfeitamente clara. Se a degradação e a mutilação por atacado da Faixa de Gaza for continuar; se a vontade de Israel é uma com a dos Estados Unidos; se a União Européia, a Rússia, as Nações Unidas e todas as organizações e agências legais internacionais espalhadas pelo globo vão continuar sentadas como manequins ocos sem fazer nada a não ser os repetidos “chamados” por um “cessar-fogo” de “ambos os lados”; se os covardes, obsequiosos e supinos Estados Árabes vão continuar de braços cruzados vendo seus irmãos serem trucidados de hora em hora enquanto a Super-Potência valentona do mundo olha-os ameaçadoramente de Washington, no caso de que digam qualquer coisinha que a desgoste; então vamos pelo menos dizer a verdade sobre por que está tendo lugar este inferno na terra.

O terror de estado disparado neste momento dos céus e do chão contra a Faixa de Gaza não tem nada a ver com o Hamas. Não tem nada a ver com o “Terror”. Não tem nada a ver com a “segurança” a longo prazo do Estado Judeu ou com o Hezbolá, a Síria ou o Irã, exceto na medida em que agrava as condições que levaram até a crise de hoje. Não tem nada a ver com alguma conjurada “guerra” — um eufemismo cínico e gasto que não representa mais que a escravização por atacado de qualquer nação que ouse reclamar seus direitos soberanos; que ouse afirmar que seus recursos são seus; que não queira uma das obscenas bases militares do Império assentada em suas queridas terras.

Esta crise não tem nada a ver com liberdade, democracia, justiça ou paz. Não é sobre Mahmoud Zahhar ou Khalid Mash’al ou Ismail Haniyeh. Não é sobre Hassan Nasrallah ou Mahmoud Ahmadinejad. Eles são todos peças circunstanciais que ganharam um papel na tempestade atual só agora, depois de que se permitiu por 61 anos que a situação se desenvolvesse até a catástrofe que é hoje. O fator islamista coloriu e continuará a colorir a atmosfera da crise; ele alistou líderes atuais e mobilizou amplos setores da população do mundo. Os símbolos fundamentais hoje são islâmicos – as mesquitas, o Alcorão, as referências ao profeta Maomé ou à Jihad. Mas esses símbolos poderiam desaparecer e o impasse continuaria. 

Houve uma época em que o Fatah e a FPLP eram a bola da vez, quando poucos palestinos queriam ter qualquer coisa que ver com políticas ou medidas islamistas. Esta política não tem nada a ver com foguetes primitivos sendo lançados do outro lado da fronteira ou com túneis de contrabando ou com o mercado negro de armas, assim como o Fatah de Arafat tinha pouco que ver com as pedras e os atentados suicidas a bomba. As associações são contingentes; criações de um dado ambiente político. Elas são o resultado de algo completamente diferente do que os políticos mentirosos e seus analistas estão lhe dizendo. Elas se tornaram parte da paisagem dos acontecimentos humanos no Oriente Médio de hoje; mas incidências tão letais, ou tão recalcitrantes, mortais, enraivecidas ou incorrigíveis poderiam muito bem ter estado em seus lugares.

Descasque os clichês e o blá-blá-blá estridente e vazio da mídia servil e de seu patético corpo de servidores estatais voluntários no mundo ocidental e o que você encontrará é o desejo nu de hegemonia, de poder sobre os fracos e de domínio sobre a riqueza do mundo. Pior ainda, você encontrará o egocentrismo, o ódio e a indiferença, o racismo e a intimidação, o egoísmo e o hedonismo que tentamos tanto mascarar com nosso jargão sofisticado, nossas teorias e modelos acadêmicos refinados, que na verdade ajudam a guiar nossos desejos mais feios e baixos. A insensibilidade com que nos rendemos a eles já é endêmica à nossa cultura; nela floresce como moscas sobre um cadáver.

Descasque os atuais símbolos e linguagem das vítimas dos nossos caprichos egoístas e devastadores e você encontrará os gritos desafetados, simples e cheios de paixão dos pisoteados; dos “condenados da terra” implorando para que você cesse sua agressão fria contra suas crianças e seus lares; suas famílias e seus vilarejos; implorando que os deixe em paz para que tenham seu peixe e seu pão, suas laranjas, suas olivas e seu tomilho; pedindo primeiro educadamente e depois com crescente descrença no porquê de você não poder deixá-los viver sem serem incomodados nas terras de seus ancestrais, sem serem explorados, livres do medo de serem expulsos, violados ou devastados; livres dos carimbos e dos bloqueios de estrada e dos postos policiais de controle e cruzamentos; dos monstruosos muros de concreto, torres de guarda, bunkers de concreto e arame farpado; dos tanques, das prisões, da tortura e da morte. Por que é impossível a vida sem essas políticas e instrumentos do inferno?

A resposta é: porque Israel não tem qualquer intenção de permitir um estado palestino viável e soberano ao lado de suas fronteiras. Não tinha qualquer intenção de permiti-lo em 1948, quando arrancou 24% mais terra do que havia sido legal, ainda que injustamente, alocado pela Resolução 181 das Nações Unidas. Não tinha qualquer intenção de permiti-lo ao longo dos massacres e complôs dos anos 1950. Não tinha qualquer intenção de permitir dois estados quando conquistou os 22% que restavam da Palestina histórica em 1967 e reinterpretou a Resolução 248 do Conselho de Segurança da ONU a seu bel prazer, apesar do esmagador consenso internacional que estabelecia que Israel receberia completo reconhecimento internacional dentro de fronteiras reconhecidas e seguras se recuasse das terras que havia recentemente ocupado.

Não tinha qualquer intenção de reconhecer direitos nacionais palestinos nas Nações Unidas em 1974, quando – sozinho com os Estados Unidos – votou contra uma solução biestatal. Não tinha qualquer intenção de permitir um acordo de paz completo quando o Egito estava pronto para realizar, mas só recebeu, e obedientemente aceitou, uma paz separada que excluía os direitos dos palestinos e dos outros povos da região. Não tinha nenhuma intenção de trabalhar na direção de uma solução biestatal justa em 1978 ou em 1982, quando invadiu, bombardeou, esmigalhou e demoliu Beirute para que pudesse anexar a Cisjordânia sem ser incomodado. Não tinha qualquer intenção de admitir um estado palestino em 1987, quando a primeira Intifada se espalhou pela Palestina Ocupada, na Diáspora e nos espíritos dos despossuídos do mundo, ou quando Israel deliberadamente auxiliou o nascente movimento Hamas, como forma de implodir a força das facções mais seculares-nacionalistas.

Israel não tinha qualquer intenção de admitir um estado palestino em Madrid ou em Oslo, quando a OLP foi superada pela trêmula e titubeante Autoridade Palestina, muitos de cujos chapas perceberam a riqueza e o prestígio que ela lhes dava, às custas dos seus. Enquanto Israel alardeava nos microfones e satélites do mundo o seu desejo de paz e de uma solução biestatal, ele mais que duplicava os assentamentos colonizadores judeus, ilegais, nas terras da Cisjordânia e em volta de Jerusalém Oriental, anexando-as na medida em que construía e continua a construir uma superestrutura de estradas e autopistas sobre as cidades e vilarejos sobreviventes, picotados da Palestina. Anexou o Vale do Jordão, a fronteira internacional da Jordânia, expulsando quaisquer dos “nativos” que habitassem a terra. Fala com uma língua de víbora sobre os múltiplos amputados da Palestina, cujas cabeças serão logo arrancadas do corpo em nome da justiça, da paz e da segurança. 

Através das demolições de casas, dos ataques à sociedade civil que tentavam lançar a cultura e a história palestinas num abismo de esquecimento; através da indizível destruição dos cercos aos campos de refugiados e dos bombardeios à infraestrutura na Segunda Intifada, através dos assassinatos e das execuções sumárias, pela grandiosa farsa do desengajamento até a nulificação das eleições livres, democráticas e justas da Palestina, Israel já nos fez saber qual é a sua visão, uma e outra vez, na linguagem mais forte possível, a línguagem do poder militar, das ameaças, das intimidações, do acosso, da difamação e da degradação.

Israel, com o apoio aprovador e incondicional dos Estados Unidos, já deixou dramaticamente claro ao mundo todo, várias vezes, repetindo em ação atrás de ação que não aceitará um estado palestino viável ao lado de suas fronteiras. O que mais é preciso para que escutemos? O que será necessário para terminar com o silêncio criminoso da “comunidade internacional”? O que será preciso para ver mais além das mentiras e da doutrinação acerca do que tem lugar diante de nós, dia após dia, claramente, no raio de visão dos olhos do mundo? Quanto mais horrorosas as ações no terreno, mais insistentes são as palavras de paz. Ouvir e assistir sem escutar nem ver permite que a indiferença, a ignorância e a cumplicidade continuem e aprofundem, a cada túmulo, a nossa vergonha coletiva.

A destruição de Gaza não tem nada a ver com o Hamas. Israel não aceitará qualquer autoridade nos territórios palestinos que ele, em última instância, não controle. Qualquer indivíduo, líder, facção ou movimento que não aceda às exigências de Israel ou que busque genuína soberania e igualdade de todas as nações da região; qualquer governo ou movimento popular que exija a aplicabilidade da lei humanitária internacional e a declaração universal dos direitos humanos para seu próprio povo será inaceitável para o Estado Judeu. Aqueles que sonham com um estado devem ser forçados a perguntarem-se: o que Israel fará com uma população de 4 milhões de palestinos dentro de suas fronteiras, quando comete crimes diários, se não a cada hora, contra a humanidade coletiva deles enquanto eles vivem ao lado de suas fronteiras? O que fará mudar de repente a razão de ser, o autoproclamado objetivo e razão de existência de Israel se os territórios palestinos forem anexados a ele totalmente?

O sangue de vida do Movimento Nacional Palestino jorra hoje pelas ruas de Gaza. Cada gota que cai rega a terra da vingança, do ressentimento e do ódio não só na Palestina, mas em todo o Oriente Médio e em boa parte do mundo. Nós temos uma escolha sobre se isso deverá continuar ou não. Agora é a hora de escolher.

tradução de Idelber Avelar. Jennifer Loewenstein é Diretora Associada do Centro de Estudos do Oriente Médio de uma das principais universidades públicas norte-americanas, a de Wisconsin em Madison. Ela trabalhou durante meses, em 2002, no Centro Al Mezan de Direitos Humanos, em Gaza. Retornou a Gaza várias vezes desde então.

Notas de um genocídio

7 de janeiro de 2009

gaza – Palestinos no Facebook

de Idelber Avelar: “Já há alguns meses, recolho quase diariamente, via Facebook, relatos de palestinos vivendo sob o horror da ocupação colonial ou no desterro dos campos de refugiados. Se você é membro da comunidade do Biscoito no Facebook, e não está listado como meu amigo, fique à vontade para enviar uma solicitação (uma linha de auto-apresentação ajuda)”.  in O BISCOITO FINO E A MASSA

Why do they hate the West so much 

“So once again, Israel has opened the gates of hell to the Palestinians. Forty civilian refugees dead in a United Nations school, three more in another. Not bad for a night’s work in Gaza by the army that believes in “purity of arms”. But why should we be surprised? Have we forgotten the 17,500 dead – almost all civilians, most of them children and women – in Israel’s 1982 invasion of Lebanon; the 1,700 Palestinian civilian dead in the Sabra-Chatila massacre; the 1996 Qana massacre of 106 Lebanese civilian refugees, more than half of them children, at a UN base; the massacre of the Marwahin refugees who were ordered from their homes by the Israelis in 2006 then slaughtered by an Israeli helicopter crew; the 1,000 dead of that same 2006 bombardment and Lebanese invasion, almost all of them civilians?” – in THE INDEPENDENT

– Notícias do genocídio

89 crianças e 30 mulheres entre os mortos confirmados em Gaza até o dia 5

A defesa de Israelgaza3

Há uma diferença, nos dizem, entre as matanças perpetradas pelos grupos islâmicos e aquelas por Israel…

A “força” do inimigo de Israel

O início dos ataques israelenses na Faixa de Gaza não é uma simples reação aos foguetes do Hamas…

A contradição de Israel

Entrevista com Amira Hass, correspondente do jornal Haaretz nos territórios ocupados

A “transferência compulsória” palestina

O bombardeio israelense é apenas mais uma etapa da limpeza étnica empreendida pelo Estado de Israel desde 1948…

Israel, Barack Obama, ‘Progresso’ no Oriente Médio: José Saramago e Robert Fisk

31 de dezembro de 2008

Israel

Dezembro 31, 2008 by José Saramago

Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a “relação especial” que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos.

Os cadáveres de cinco irmãs palestinas de 4 a 17 anos mortas no bombardeamento nocturno israelita a uma mesquita do campo de refugiados de Yabalia jazem na morgue de um hospital

Os cadáveres de cinco irmãs palestinas de 4 a 17 anos mortas no bombardeamento nocturno israelita a uma mesquita do campo de refugiados de Yabalia jazem na morgue de um hospital

Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: “Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime”.

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Robert Fisk, The Independent: “How can anyone believe there is ‘progress’ in the Middle East?

A test of Obama’s gumption will come scarcely three months after his inauguration

Saturday, 27 December 2008 If reporting is, as I suspect, a record of mankind’s folly, then the end of 2008 is proving my point.

Let’s kick off with the man who is not going to change the Middle East, Barack Obama, who last week, with infinite predictability, became Time’s “person of the year”. But buried in a long and immensely tedious interview inside the magazine, Obama devotes just one sentence to the Arab-Israeli conflict: “And seeing if we can build on some of the progress, at least in conversation, that’s been made around the Israeli-Palestinian conflict will be a priority.”

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What is this man talking about? “Building on progress?” What progress? On the verge of another civil war between Hamas and the Palestinian Authority, with Benjamin Netanyahu a contender for Israeli prime minister, with Israel’s monstrous wall and its Jewish colonies still taking more Arab land, and Palestinians still firing rockets at Sderot, and Obama thinks there’s “progress” to build on?

I suspect this nonsensical language comes from the mental mists of his future Secretary of State. “At least in conversation” is pure Hillary Clinton – its meaning totally eludes me – and the giveaway phrase about progress being made “around” the Israeli-Palestinian conflict is even weirder. Of course if Obama had talked about an end to Jewish settlement building on Arab land – the only actual “building” that is going on in the conflict – relations with Hamas as well as the Palestinian Authority, justice for both sides in the conflict, along with security for Palestinians as well as Israelis, then he might actually effect a little change.

An interesting test of Obama’s gumption is going to come scarcely three months after his inauguration when he will have a little promise to honour. Yup, it’s that dratted 24 April commemoration of the Armenian genocide when Armenians remember the 1.5 million of their countrymen – citizens of the Ottoman empire slaughtered by the Turks – on the anniversary of the day in 1915 when the first Armenian professors, artists and others were taken off to execution by the Ottoman authorities.

Bill Clinton promised Armenians he’d call it a “genocide” if they helped to elect him to office. George Bush did the same. So did Obama. The first two broke their word and resorted to “tragedy” rather than “genocide” once they’d got the votes, because they were frightened of all those bellowing Turkish generals, not to mention – in Bush’s case – the US military supply routes through Turkey, the “roads and so on” as Robert Gates called them in one of history’s more gripping ironies, these being the same “roads and so on” upon which the Armenians were sent on their death marches in 1915. And Mr Gates will be there to remind Obama of this. So I bet you – I absolutely bet on the family cat – that Obama is going to find that “genocide” is “tragedy” by 24 April.

By chance, I browsed through Turkish Airlines’ in-flight magazine while cruising into Istanbul earlier this month and found an article on the historical Turkish region of Harput. “Asia’s natural garden”, “a popular holiday resort”, the article calls Harput, “where churches dedicated to the Virgin Mary rise next to tombs of the ancestors of Mehmet the Conqueror”.

Odd, all those churches, isn’t it? And you have to shake your head to remember that Harput was the centre of the Christian Armenian genocide, the city from which Leslie Davis, the brave American consul in Harput, sent back his devastating eyewitness dispatches of the thousands of butchered Armenian men and women whose corpses he saw with his own eyes. But I guess that all would spoil the “natural garden” effect. It’s a bit like inviting tourists to the Polish town of Oswiecim – without mentioning that its German name is Auschwitz.

 But these days, we can all rewrite history. Take Nicolas Sarkozy, France’s cuddliest ever president, who not only toadies up to Bashar al-Assad of Syria but is now buttering up the sick and awful Algerian head of state Abdelaziz Bouteflika who’s just been “modifying” the Algerian constitution to give himself a third term in office.

 There was no parliamentary debate, just a show of hands – 500 out of 529 – and what was Sarko’s response? “Better Bouteflika than the Taliban!” I always thought the Taliban operated a bit more to the east – in Afghanistan, where Sarko’s lads are busy fighting them – but you never can tell. Not least when exiled former Algerian army officers revealed that undercover soldiers as well as the Algerian Islamists (Sarko’s “Taliban”) were involved in the brutal village massacres of the 1990s.

Talking of “undercover”, I was amazed to learn of the training system adopted by the Met lads who put Jean Charles de Menezes to death on the Tube. According to former police commander Brian Paddick, the Met’s secret rules for “dealing” with suicide bombers were drawn up “with the help of Israeli experts”. What? Who were these so-called “experts” advising British policemen how to shoot civilians on the streets of London? The same men who assassinate wanted Palestinians in the West Bank and Gaza and brazenly kill Palestinian civilians at the same time? The same people who outrageously talk about “targeted killings” when they murder their opponents? Were these the thugs who were advising Lady Cressida Dick and her boys?

Not that our brave peace envoy, Lord Blair, would have much to say about it. He’s the man, remember, whose only proposed trip to Gaza was called off when yet more “Israeli experts” advised him that his life might be in danger. Anyway, he’d still rather be president of Europe, something Sarko wants to award him. That, I suppose, is why Blair wrote such a fawning article in the same issue of Time which made Obama “person” of the year. “There are times when Nicolas Sarkozy resembles a force of nature,” Blair grovels. It’s all first names, of course. “Nicolas has the hallmark of any true leader”; “Nicolas has adopted…”; “Nicolas recognises”; “Nicolas reaching out…”. In all, 15 “Nicolases”. Is that the price of the Euro presidency? Or will Blair now tell us he’s going to be involved in those “conversations” with Obama to “build on some of the progress” in the Middle East?

in

http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fiskrsquos-world-how-can-anyone-believe-there-is-progress-in-the-middle-east-1212434.html