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Revisitando ‘Histórias Cruzadas’: uma mentira bonitinha e hipócrita

8 de março de 2014

Estamos em tempos de ’12 anos de escravidão’, um filme com uma história pungente e real, dirigido e protagonizados por negros norte-americanos, ganhar Oscar de Melhor Filme, Atriz Coadjuvante e Roteiro Adaptado. Não o de Melhor Direção, o que pode parecer uma contradição bizarra, mas se pensarmos bem, é típica do Oscar: afinal, como Melhor Filme, o prêmio vai para os produtores, entre os quais Brad Pitt, sem cuja 12yearsaslave1participação o filme não teria sido realizado (ou, se produzido, não teria tido o mesmo espaço e consideração). De qualquer forma, o impacto de ’12 anos de escravidão’ foi de tal forma, que agora a obra original e o próprio filme serão distribuídos pelos Estados Unidos como material didático (e essa decisão foi tomada antes da distribuição dos prêmios, o que tornou impossível a Academia de Artes e Cinema ignorá-lo).

Há muito tempo atrás, em 2012!, estávamos na época de ‘Histórias Cruzadas’ (The Help). O meu texto enfatizava a minha falta de paciência com mais um exemplar de filme realizado por brancos com pretensas simpatias pelo sofrimento e angústias dos negros e a a minha ainda maior estupefação por ver a quantidade de pessoas que caíam nessa armadilha e realmente consideravam que o filme era anti-racista. Acredito que meus argumentos ainda são válidos e pertinentes (pelo menos, eu ainda os mantenho), e podem ajudar a compreender o que acontece atualmente,  mas a discussão ficou mais rica com as discordâncias nos comentários,  a ponto de ‘Mayara Norberto’ sugerir que ela poderia ser incorporada ao próprio texto.

Interessante. Entre ‘Histórias Cruzadas’ e ’12 anos de escravidão’ há um pulo impressionante, de concepção e de recepção, em muito pouco tempo.  No entanto, talvez não estejam assim tão distantes, tão opostos, tão diferentes. No mínimo, vale a discussão. Por isso, segui a sugestão de Mayara, incorporei os comentários e minha resposta (mantendo os textos exatamente como foram escritos).

‘Histórias Cruzadas’: uma mentira bonitinha e hipócrita

Não estava com nenhum ânimo para discutir um filme que, apesar de sua pretensa imagem de crítica social e de denúncia do racismo norte-americano, em sua essência é na verdade tão racista e preconceituoso quanto o que diz revelar. Racismo liberal, condescendente, pretensioso, só que revestido e embrulhado em um pacote brilhante, lírico e quase infantil, de um tipo que Hollywood gosta muito de fazer vez em quando, pois ajuda a passar um talco cheirosinho, aplicar um verniz de civilidade em uma sociedade profundamente doente, moralista e hipócrita. E o público norte-americano adora, pois faz com que se sinta ‘crítico’ por meio de narrativas tolas, falsas e sem substância.

As histórias em si, obviamente, são reais, doloridas e sofridas; o substrato em que o filme se baseia é concreto. No entanto, o modo como isso é apresentado e como as situações são ‘resolvidas’ servem como forma de purgar o espectador de suas culpas e aliviar sua consciência: na prática, o resultado final (buscado e conquistado) é o de fazê-lo crer o quanto os ‘outros’ são malvados e preconceituosos e o quanto pode se identificar com os bonzinhos.

Eu estava para deixar passar. Mas então li há pouco um texto de quem gostou do filme (e até aí nada demais, cada um fique com seus próprios gostos) e fez uma defesa entusiasmada (igualmente, cada um é livre para se expressar) e levantou o pensamento de que ‘Histórias Cruzadas’ bem poderia passar em eventos do movimento negro, até mesmo na Semana da Consciência Negra, e aí se mostra que essa tal pessoa realmente não entendeu nada. Foi iludida pelo papel colorido do embrulho.

Vou destacar somente alguns poucos pontos, entre o que o filme mostra e pretende dizer, e o que realmente diz.

Sinopse rápida: Skeeter Phelan (Emma Stone) é uma jovem sulista que acaba a faculdade de jornalismo no meio da década de 60, no Mississipi, Estados Unidos, decidida a se tornar escritora. Volta para casa e começa a recolher histórias pessoais das empregadas (inevitavelmente negras e pobres) que são tão importantes na manutenção das casas e das famílias brancas de classe média e alta, da qual a própria Skeeter faz parte. Relutantes a princípio, as empregadas começam a se abrir, o que desencadeia uma série de eventos e mudanças na cidade e na mentalidade das pessoas.

Aparência 1: É um filme de mulheres, que discute suas condições na sociedade, brancas de um lado, negras do outro.

Não, não é. Não há mulheres de verdade aqui, somente estereótipos, personagens caricatos, bonecas sem profundidade. Tem a branca malvada, racista, preconceituosa, prepotente, ridícula e fútil. Tem a branca bonzinha, ingênua e bobinha, que um dia também foi fútil, mas agora deseja ampliar seus horizontes pessoais, que inicia um processo do qual não tinha consciência de sua amplitude e consequências, e vai se tornar uma pessoa ainda melhor. Tem a negra vivida, esperta e sólida, retraída e fechada, que possui a sabedoria do gueto e do racismo onipresente, e que dará lições de vida e moral para a branca inicialmente ingênua. Tem a negra burra e palhaça, encarregada das tiradas cômicas, que também sofre com o marido abusivo.

Aparência 2: É um filme que denuncia o racismo.

Não, não é. O que ele faz é, acima de tudo, ‘denunciar’ um racismo passado, histórico, que já aconteceu um dia. O espectador pode ficar tranquilo, pois todos esses horrores e iniquidades estão para se acabar, os movimentos dos direitos civis estão logo ali, os negros terão sua vez. E, de qualquer forma, o grande, o máximo, problema não é exatamente o Racismo institucional, mas os brancos (as mulheres brancas, no caso) malvados e diabólicos, que adoram pisar nas outras pessoas, principalmente se forem negras, pobres e analfabetas. As demais mulheres brancas racistas assim o são ou por ingenuidade (no fundo, têm bom coração que não podem expressar por conta das imposições da sociedade) ou ignorância (não sabem o quanto as negras são pessoas boas, em especial se forem Viola Davis), ou porque são fúteis.

E veja-se como acontece: é uma mulher branca que vai iniciar todo processo de conscientização geral; é a patroa branca que vai incentivar a empregada negra a peitar seu marido abusivo; é o ponto de vista feminino branco que vai nortear as principais linhas narrativas do filme, são suas histórias as mais importantes.

Aparência 3: É um filme corajoso, mesmo que simples, que provoca reflexão.

Não, não é. É uma fábula simplista, moralista e maniqueista onde as brancas malvadas são pessoas infelizes e limitadas (é o seu ‘castigo’, portanto) e as negras violas davis, através do seu sofrimento, serão recompensadas mais tarde, quando o racismo estiver ‘amainado’.

Aparência 4: as atrizes dão um show de interpretação e mereceram ser indicadas para Melhor Atriz, Viola Davis, e duas indicações para Melhor Atriz Coadjuvante: Jessica Chastain e Octavia Spencer.

Sim, é verdade. Viola está esplêndida, mesmo que não tenha nenhuma chance de ganhar em um ano carregado de interpretações maravilhosas. Em geral, o elenco está mesmo muito bom, até as mais caricatas, como Octavia Spencer (que falta somente revirar os olhos estilo Louis Armstrong para emular as caracterizações de personagens negras do começo do século passado), ou Bryce Dallas Howard, a vilã-mor, que faz caretas sensacionais. Emma Stone é bonitinha, não realiza nenhuma grande atuação, mas também não atrapalha.

A produção está muito boa, o cuidado com o figurino e a direção de arte é extremamente bem realizada (os detalhes com objetos de cena têm uns achados bem colocados, como garrafas de coca-cola, revistas da época). Fotografia simples, bem feita. A direção tem o mérito mínimo de manter o tom baixo, de narrativa contida (caso contrário, desbancaria fácil para um melodrama  mexicano de telenovela).

Aparência 5: vai ganhar o Oscar de Melhor Filme (mesmo porque foi um tremendo sucesso de bilheteria nos Estados Unidos)

Eu espero que não.

‘babi’ diz:

particularmente, gostei muito do filme e discordei de muitos pontos da tua análise. não sou do tipo que tem paciência pra polêmicas na internet, mas senti muita vontade de contar o que acho.

discordo da idéia de que o filme seja racista. assisti-lhe apenas uma vez e imagino que para fazer uma boa análise teria que fazer isso pelo menos mais umas duas vezes. não é a história de grandes líderes ou de grandes movimentos. é a história de uma moça que escreve um livro com a ajuda de duas empregadas domésticas sobre a situação delas e de outras no estado do mississipi, numa época em que a kkk assassinava negros, martin luther king embrenhava-se na luta pelos direitos civis, em que o presidente estadunidense sofria ofensas por ter posicionamentos contra o racismo. essas coisas são mencionadas no filme, mas não são o cerne dele. não é por isso, no entanto, que ele seria racista. pelo contrário, acha que a abordagem de mostrar de dentro da casa a perspectiva das empregadas não diz que o racismo foi superado, que está em tempos remotos. o tom pastel ameniza a estética, mas não ameniza o discurso. (ainda mais se pensarmos como esta estética é recorrente: se vemos coleções de grandes grifes, percebemos como parte das moças de hoje se vestem de florzinha, apelam para uma feminilidade e, sim, destratam outros seres humanos independentemente da ternura que suas aparências tentam traduzir)
também acho complicado dizer que o filme não é de mulheres e sim de caricaturas. a tinta carregada está em toda narrativa que opõe bem e mal e nem por isso achamos que as personagens não são minimamente verossímeis. não acho que nas escolhas da direção a personagem da emma stone se sobressaia. ela é a heroína, sem dúvida, no papel clássico de quem ultrapassará barreiras e será vitoriosa. chavão de cinema clássico. mas a sua história pessoal de superação está muito aquém das que relatam as empregadas domésticas. é igualmente difícil dizer que o filme não leva à reflexão; isso só se contássemos com reflexômetros no fim de cada sessão (ou pelo menos de suficiente para termos material de amostragem suficiente). não acho a personagem de octavia spencer o estereótipo de negra burra. pelo contrário, acho-a a mais espontânea e por isso a mais cativante. o tempo todo é destacado seu talento na cozinha e o que sofre dentro de casa. se sua filha sai da escola, não é porque a mãe subestima a educação; é para perpetuar a profissão que cabia àquelas mulheres. o paralelo com a escravidão é claro e destacado na fala de outra personagem.

o cinema hollywoodiano não foi feito para ser revolucionário, mas não é só de “eu, um negro” que se cria condições para reflexão numa sala de exibição. é preciso pensar que o movimento negro americano, por exemplo, hoje em dia é composto por indivíduos que estão mais próximos do modelo de “histórias cruzadas” do que talvez “malcolm x”, do spyke lee. se apropriar de histórias como as retratadas no primeiro filme talvez diga mais à constituição do movimento do que o filme de um grande líder.

claudinei responde

Babi, sou como tu, não curto muito bater boca na internet, portanto não quero te responder em tom de polêmica simplista, mesmo porque seu tom foi tão educado que me sinto à vontade para bater um papo. Respeito sua posição e sua reação ao filme, vc gostou muito e eu entendo isso, e eu detestei, isso é claro, mas não quero ficar nesse plano imediato do gosto: há algumas observações suas que precisam ser melhor definidas. Como quando eu digo que os personagens são caricatos, essa não foi uma observação de gosto, mas uma constatação. Pode-se gostar ou não do resultado (não há nada de errado com Caricatura em si, ela pode ser mal ou bem realizada, pode ser uma crítica ou um comentário ácido, pode ser engraçada ou debochada, e em geral é utilizada na Comédia, por seu caráter exagerado), a questão é se a caricaturização foi proposital, e nesse caso, o filme vem com uma fachada de retrato da sociedade, isto é, tem pretensão de ser uma visão realista (mesmo que colorida) de uma história de racismo. Bom, a caricatura acontece porque o filme não é uma representação da realidade. Ele é maniqueísta, simplista e esquemático: ou o personagem é a vilã absoluta, o diabo na terra ou é a coitada abusada ou é a ingênua idealista ou é a racista maquiavélica ou é a racista condescendente. São estereótipos: A Babá Negra, A Jornalista jovem, bonita, e idealista. A Dona de Casa de Classe Média Alta. As Brancas Malvadas.

O entorno que existe ao redor delas é real e pontilhado por dados e momentos históricos verdadeiros, como você pontuou bem. A produção aqui é muito bem realizada, com excelente reconstituição de época, e umas sacadas bacanas (como as notícias na televisão ou em jornais entrevistos, garrafas de coca-cola, o figurino, os carros típicos). Não só foi bem realizado, como tem um propósito muito bem definido: ele passa uma carga de ‘realidade’, uma base para se pensar que o enredo principal tem relevância e substância. É um quadro gigante ‘realístico’ onde se inserem os personagens e a trama unidimensionais.

O esquema do filme é o do melodrama, a história exagerada, os dramas pungentes, o esforço em fazer o espectador chorar, se comover, e se a-cabana-do-pai-thomasredimir. Funcionou contigo, comigo não. De novo, não é uma questão de gosto: há melodramas bem feitos e assim assumidos e que considero interessantes. Aqui a intenção de comover, fazer debulhar em lágrimas, se condoer pelas pobres negras coitadas e abusadas que não tem sua importância reconhecida, é tão escancarada essa intenção, que me provoca o sentimento contrário, de irritação. Esse melodrama de cunho pretensamente crítico e de fachada anti-racista é muito típico da cultura norte-americana, com uma tremenda quantidade de filmes, livros, e começou bem cedo, no século 19, com um livrinho chamado ‘A Cabana do Pai Tomás’ e foi repetido, imitado, filmado e refilmado, inúmeras vezes. Se vc o pegar algum dia, vai constatar como o esquema é exatamente o mesmo: parte de uma indignação verdadeira (contra a escravidão ou os efeitos dela na sociedade), toma um personagem negro sofrido carismático e ‘de bom coração’ (no caso, é um negro bem idoso perseguido), com um final edificante que ‘prova’ que as coisas podem mudar.

A personagem branca que assume o posto de narradora ou deflagradora das iniciativas que vão fazer com que os próprios negros se conscientizem de sua força e acabem lutando contra sua posição rebaixada, essa personagem é uma verdadeira instituição no cinema norte-americano. Tem duas funções primordiais: uma ideológica (é sempre o branco que toma a verdadeira iniciativa, são sempre os negros que acompanham ou começam a lutar, depois); a outra é formal: simplesmente para que o público norte-americano se identifique com a personagem e compre sua história. Porque INVICTUS_KEYARTsabem que se o personagem principal (e incentivador principal) for um negro, as chances do filme ser renegado são muito maiores. Porque sabem que o público em si é predominantemente racista e preconceituoso, mas que ao contrário dos ‘racistas kkk’ tem uma certa vergonha de assumir isso, e que, portanto, fica contente de chorar durante uma hora e meia sobre a pobre viola davis e se sente redimido por isso. Já fez ‘sua parte’. Mas é fundamental que quem inicie o processo seja a branca, magra e bonita Emma Stone. Posso citar dezenas de exemplos relacionados, como o mesmo período em que se passa Histórias Cruzadas é o mesmo retratado em ‘Mississipi em Chamas’, onde dois agentes brancos do FBI resolvem um caso de morte de 3 militantes dos direitos humanos (dois negros e um branco), os agentes são feitos por Gene Hackman e Willem Dafoe. Para retratar a vida de um importante militante negro, Steve Biko, contra o Apartheid na África do Sul, em ‘Um Grito de Liberdade’ é partir da história de um jornalista branco que era inconsciente das mazelas raciais que aconteciam em seu país. (Aliás, falar da África do Sul e o apartheid em Hollywood é quase exclusivamente pelo ponto de vista branco: são os jornalistas do ‘Bang Bang Club’ que fotografam os últimos dias do apartheid; é o jogador branco ídolo dos brancos da áfrica do sul vivido por Matt Damon que se aproxima de Mandela, em ‘Invictus’, dirigido pelo Clint Eastwood). Para mostrar os horrores da Guerra do Camboja, em ‘Gritos do Silêncio’ conta-se as desventuras de um jornalista branco norte-americano que tenta encontrar seu amigo cambojano no meio da guerra. E por aí vai. cito esses de cabeça, mas poderia continuar.

Tudo isso, repito, no meu desejo de demonstrar que não estou considerando a questão do gosto pessoal. Agora,Babi, heheh, perdão, mas considero incompreensível ter gostado da atuação da Octavia Spencer. Sério mesmo? Ela está tão caricatural (aqui, no pior sentido), tão exagerada, tão desproposital, os olhos se arregalam, os quadris requebram, Tou falando sério, pareceu-me tão próximo do Zorra Total ou A Praça é Nossa, me incomodou tanto. A Viola Davis está tão maravilhosa, atuação tão sublime (pena que stava concorrendo com a Meryl Streep este ano, não tinha como ganhar), a Emma Stone está bem (não atrapalha, pelo menos) e a vilã Bryce Dallas Howard está tão maquiavélica que realmente sentimos raiva dela. Mas Octavia Spencer, não, não, não, essa pra mim está ruim demais, demais.

E pra terminar (peço perdão por me alongar tanto!), o cinema norte-americano não precisa ser ‘revolucionário’, de forma alguma (e não o são, mesmo!). Mas, eles conseguem (quando estão a fim) fazer reflexões sérias e até profundas, smesmo com seus esquemas simplistas, mesmo seguindo a receitinha, mesmo sendo melodramas. Propõem discussão sem descuidar do princípio fundamental do cinema, que é o Espetáculo, o prazer. Os filmes que citei acima são todos eles seguidores do esquema básico do The Help e, como disse, estão repletos de problemas análogos, assim como seu racismo não assumido, mas compartilham mais uma coisa em comum: são todos 1000% melhores do que ‘Histórias Cruzadas’.

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O digno ‘O Palhaço’ é o candidato brasileiro ao Oscar

20 de setembro de 2012

 

Bom filme. Boa escolha. De um ano produtivo do cinema nacional que, entre várias porcarias, conhecidas e já discutidas, teve sim boas produções muito interessantes. Dentre os 16 filmes considerados para essa escolha, eu havia sentido falta do ótimo “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de  Beto Brant e Renato Ciasca, que me surpreendeu muito positivamente e deveria ter sido colocado na roda. No entanto, a decisão final foi bem acertada.

‘O Palhaço’ é um filme digno. Longe de ser um clássico da cinematografia brasileira. Mas também longe de ser um produto ingente derivado de telenovelas globais ou zorras boçais.

O bacana é acompanhar Selton Mello e ver seu crescimento como cineasta, como criador, cada vez mais maduro, independente e consistente. E ‘O Palhaço’ traz, como sua maior pérola, a atuação de Paulo José em estado de graça, o que  já faz valer o trabalho por inteiro e a ida ao cinema.

Se este é O filme que vai fazer os gringos finalmente reconhecerem o Brasil como ‘digno’ de receber seu afago e reconhecimento e estatueta, não me interessa. É uma preocupação que nunca tive. Não carrego esse sentimento de vira-lata nacional que vive lambendo as feridas e choramingando por nunca termos recebido um tal prêmio norte-americano. O fato de ‘O Palhaço’ ter sido bem recebido e com ótima bilheteria dentro dos nossos próprios cinemas, já é o maior valor adquirido.

‘O Artista’ é uma falsa homenagem ao cinema mudo

13 de fevereiro de 2012

Interessante como uma paixão desmedida, uma intenção demoradamente perseguida e afinal concretizada, pode tornar esta intenção inicial em seu oposto e acarretar um resultado diferente do que à primeira vista pode parecer.

Não tenho dúvidas de que o propósito primeiro da paixão do diretor francês Michel Hazanavicius fosse a de oferecer uma visão singela e nostálgica de um antigo cinema cujas qualidades de emoção e divertimento se perderam com o tempo por conta de imposições técnicas e mercadológicas.

Realmente, ‘O Artista’ em um primeiro momento presta essa tal homenagem e o faz de um modo inteligente, lúdico e diferenciado. No entanto, o propósito se fecha logo quando o filme se encerra: bom de ser visto, um tanto divertido por uma hora e meia, e esquecível dias depois. Não deixará marcas, nem de desgosto ou admiração, e fico pensando se esse não é o pior destino para uma obra de arte.

Michel Hazanavicius correu durante bastante tempo para poder realizar esse projeto, bateu na porta de muitas produtoras céticas, foi persistente e agora recolhe o fruto de sua teimosia, ganhando prêmios pelo mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos, onde existe até a impressionante possibilidade de ganhar um Oscar de Melhor Filme, o que quebraria todos os paradigmas da constituição orgulhosa da Academia de Hollywood. Não acredito nessa possibilidade (Oscar foi feito para glorificar o cinema norte-americano e se auto-congratularem; seria a maior das contradições outorgar seu prêmio máximo para um filme estrangeiro, mesmo que bajulador deste mesmo cinema hollywoodiano), mas só de se cogitar isso já indica um feito tremendo.

Por trás da aparente leveza de ‘O Artista’ existe uma carga de crítica e de ironia ao cinema moderno que talvez explique essa repercussão geral, muito mais do que a obra em si. Provavelmente porque expresse um cansaço do público com as fórmulas quadradas e constantemente repetidas pelo maior centro cinematográfico do mundo. No entanto, Hazanavicius também não oferece alguma outra alternativa, não fornece base para uma continuidade, não constrói nada. Nesse sentido, muito mais do que as peripécias da decadência do personagem central, o filme é de uma profunda melancolia.

Comédia romântica, com toques de drama, ‘O Artista’ acompanha a trajetória de George Valentin (Jean Dujardin) (referência ao astro do cinema mudo, Rodolfo Valentino) que tem sua carreira eclipsada por conta da extrema novidade tecnológica, o Som nos filmes, ao mesmo tempo que vê o crescente sucesso de uma jovem atriz apadrinhada por ele (e aí as referências mais que óbvias e reconhecíveis são ‘Cantando na Chuva’ e ‘Nasce uma estrela’). Esse fio de história é tão magrinho e pífio que não se pode considerar esse seja o verdadeiro pilar do filme. Na verdade, pode ser o seu aspecto mais negativo e prejudicial: ao fazer imaginar que, em geral, Cinema mudo significaria exatamente isso: falta de som, fotografia em preto e branco, e histórias fracas.

Ser indicado como ‘Melhor Roteiro Original’ é outra de suas grandes ironias e mostra como essa fraqueza, sua maior fraqueza por sinal, foi negligenciada ou sequer percebida. Os outros aspectos possuem suas qualidades, os atores podem ser ótimos, a fotografia linda, inclusive a montagem muito bem realizada para tirar o máximo do roteiro, e algumas cenas têm sacadas geniais. Mas a história é uma droga e não tem nada, de nada, original.

Apesar de tudo, duas cenas são particularmente interessantes ao meu ver e me entusiasmaram (já foram bastante comentadas em muitos textos que li, mas faço questão de fazer o meu destaque): o do pesadelo de Valentin, assaltado pelos terríveis Sons, e a graciosa pequena dança de Peppy Miller (Bérénice Bejo) com o manequim. Além da cena final, quando Hazanavicius assume que seu filme é realmente moderno e revela que o perfeito e elegante herói norte-americano e a linda heroína norte-americanos são, de verdade, franceses… chega a ser de uma ironia cáustica!

Portanto, de homenagem sincera à crítica profunda, de cinema moderno que utiliza de clichês consagrados à obra fraquinha e ingênua que cai nesses mesmos clichês, ‘O Artista’ vacila e o máximo que consegue é ser uma diversão boba, bonitinha e descartável.

– Quanto aos Oscars, está recheado de indicações e deve ganhar a maioria delas, como a de Fotografia, Direção de Arte, Figurino. Em Montagem, vai bater de frente com ‘‘A Invenção de Hugo Cabret’, do Scorcese (muito melhor), mas acho que vai levar, mesmo que por pouco.

Se ganhar Roteiro Original em ano que tem ‘Meia-Noite em Paris’, um dos melhores Woody Allen de muitos anos, vai ser sacanagem. Infelizmente, creio que Hollywood vai cair nessa. Tem Trilha Sonora, muito elogiada, contra Jonh Williams, em dois filmes ao mesmo tempo, ‘Tintim’ e ‘Cavalo de Guerra’, embora sejam trabalhos menores do mestre que demonstra cansaço e perda do seu antigo brilho. Berenice Bejo (que é argentina de nascimento, foi para França aos três anos de idade) tornou-se queridinha fulgurante, deve levar o de Atriz Coadjuvante. Jean Dujardin até há pouco estava imbatível para ganhar o prêmio de Melhor Ator, apesar de competir com os fortíssimos George Clooney e Brad Pitt. Porém, seu último filme na França levantou uma enorme polêmica e discussão (do tipo que Hollywood não gosta de jeito nenhum), não somente sobre sua atuação (os cartazes de ‘L´Infidele’ levantaram uma onda de indignação por serem machistas e de muito mau-gosto) mas também sobre seu próprio caráter e comportamento (pelo que entendi, parece que ele não é uma pessoa que se possa chamar de ‘simpática’…). Se isso vai ser suficiente para tirar o brilho do seu trabalho em ‘O Artista’, só saberemos no dia.

E tem o de Melhor Filme e Diretor. Como disse acima, seria uma tremenda contradição para Hollywood que ‘O Artista’ ganhe. Seria admitir que uma produção francesa, de cineasta francês e com atores franceses (mesmo que se passe nos Estados Unidos, com personagens norte-americanos, recheado de atores norte-americanos reconhecidos, e se refira à própria Hollywood) seja muito melhor do que seus próprios filmes e cineastas nativos. E, mais do que isso, seria como dizer: sim, concordamos que estamos decadentes, e mais preocupados com câmeras 3D e firulas tecnológicas do que em encontrar boas histórias, singelas e emocionantes, como na época do cinema mudo.

Será que vão reconhecer isso, em sua própria festa, e para o mundo todo?

Duvido.

Oscar de Animação: o ano da mediocridade

1 de fevereiro de 2012

Para não acirrar ânimos mais do que o necessário, ‘medíocre’ aqui está sendo utilizado no seu sentido mais literal: de médio, de comum, do que não é extraordinário ou sensacional nem desce a lixo inominável. Não entusiasma nem repugna. Esta é a média dos filmes indicados para o Oscar de 2012 em todas as categorias, de um cinema que pode ser assistido e passa batido e não deixará lembranças, que não marcará. Não ficamos extasiados (não é um clássico nem um ‘cult’) nem revoltados (do tipo: ‘por que? por que? OH, POR QUE?! perdi meu tempo assistindo isso?!?’). Em 2011, até mesmo os blockbusters mais fúteis, por serem tão ruins, acabavam por ficar divertidos em sua proposta de passatempo fácil (penso em um ‘Os Mercenários’, por exemplo). Em Animação, acontece exatamente o mesmo. Quando se pensa que, ano passado, teve o explode-corações ‘Toy Story 3’ e depois a Pixar apresentou ‘Carros 2’ (o ponto mais baixo da empresa), a coisa fica meio desanimadora (estou apostando muito no próximo da Pixar, ‘Valente’; mais do que aposta, é um fervoroso desejo e esperança).

Antes de fazer alguns breves comentários sobre os desenhos animados que foram indicados, já parto da constatação de que este Oscar está sendo marcado justamente pelos que Não foram indicados, ‘Rio’ e ‘As aventuras de Tintim’. Mais do que injustas, estas faltas são na verdade incompreensíveis.

Não posso falar de ‘Rio’, que não assisti e não tive vontade. Muitos falaram bem, outros tantos falaram mal. As críticas negativas condiziam com a minha própria expectativa, o que diminuiu ainda mais minha vontade em assistir; e as críticas positivas não me entusiasmaram em nada, deixei passar. No entanto, um pensamento não me sai da cabeça: ‘Rio’ teria que ser muito ruim, especialmente ruim, para ser pior do que ‘Gato de Botas’. Este ‘Gato’ é para mim, o limite da Ruindade deste ano: Nada pode ser pior. Bom, talvez ‘Gnomeu e Julieta’ (por muito pouco). De qualquer forma, dizer que não se foi indicado, enquanto um destes dois está lá concorrendo… É estilo ‘vergonha alheia’ forte.

No entanto, o máximo da complexidade incompreensível é mesmo ‘Tintim’.

Deixemos de lado a espantosa obtusidade da Academia de Hollywood em considerar que a técnica de captura de movimentos não pode ser considerada como desenho animado e, por conta disso, ‘Tintim’ era inelegível (acompanhada por uma incoerência burra, pois Tintim estava no meio da lista dos pré-indicados…; eles não se decidem!) (para quem quiser ter uma idéia de outros possíveis motivos para sua não-indicação, recomendo o ótimo texto do site ‘O Judão’, ‘TOP8! Motivos que fizeram As Aventuras de Tintim ficar fora do Oscar’, que vão desde o preconceito de Hollywood contra ruivos até o fato de Meryl Streep não participar de ‘Tintim’).

Fora isso, é inegável que este projeto de Spielberg se ressente de alguns problemas sérios que o impossibilitam de ser uma grande obra. Divertida, agitada, animada, colorida, assístivel. E esquecível. O que aconteceu?

Duas coisas: A técnica utilizada é espetacular para recriar os movimentos humanos e torná-los críveis, em um patamar inimaginável. Os objetos, os cenários, e os corpos humanos interagem harmonicamente e o 3D foi muito bem utilizado (ao que parece, demonstrando afinal um amadurecimento neste sentido, saindo do êxtase babão do início do ‘Avatar’). No entanto, ainda está muito longe de conseguir retratar de forma confortável as feições humanas. Os personagens continuam parecendo bonecos infláveis de péssima qualidade. Piora quando tentam expressar emoções, pois precisam compensar essa deficiência com exageros faciais e o que funcionava muito bem nos desenhos cartunescos originais de Hergé aqui fica insuficiente e frustrante. E feio. O resultado é esquisito. Tintim fica esquisito. O capitão Haddock está muito feio e bem esquisito. Os agentes Dupont e Dupond, o vilão Rackham, todos os coadjuvantes. O melhor de todos, a melhor ‘caracterização’, fica sendo do cachorrinho Milou, por motivos óbvios.

No entanto, não é esse o maior entrave. O problema maior é mesmo Spielberg.

Ao se concentrar na ação e na aventura desenfreada, ao não permitir que haja respiros maiores entre as cenas (muito bem executadas, coreografadas e desenhadas), o roteiro e a direção não permitem uma maior aproximação com os personagens. Não há uma construção efetiva de suas personalidades, eles acabam por se tornar vazios e desinteressantes. Enquanto os desenhos, o visual por completo, forçam o tempo todo uma maior naturalização dos traços como uma tentativa (fracassada) de recriar o Real, a narrativa se fixa, por ironia, no cartunesco mais raso. O maior trunfo de Hergé, o criador de Tintim, ao lado de sua bela qualidade de ótimo contador de histórias, era a empatia absoluta que ele conseguia criar com personagens a princípio unidimensionais e caricatos. ‘Tintim’ é um tremendo personagem, porque Hergé fazia com que realmente nos importássemos com ele.

Por tudo isso, Steven Spielberg era, em definitivo, o diretor que possuía as melhores qualidades para realizar essa adaptação. No mínimo, por já ter feito uma espécie de ‘transposição’ do ‘espirito’ de Tintim para o cinema que foi ‘Indiana Jones’. Em ‘Indiana’ há de tudo o melhor dos filmes de ação em seu ponto máximo: a aventura desenfreada, narrativa clássica e brilhante, cenas marcantes e inesquecíveis, e um personagem carismático, clássico desde o princípio. Em ‘Tintim’, infelizmente, Spielberg perde a mão, carrega por um lado, esquece do outro, e realiza um filme (um longa de Animação, Hollywood!) tecnicamente bonito e impecável, mas sem real emoção.

Rango

Western. O gênero reconhecido como o mais norte-americano de todos, praticamente uma fundação de sua cinematografia, já foi consagrado, reverenciado, ridicularizado, destruído, reconstruído, psicologizado, abandonado, retomado, esquecido. Vez em quando, Hollywood insiste em retomá-lo, em uma não muito sutil esperança de que volte a ter a importância que possuiu um dia.

Desnecessário nomear aqui todas as referências de westerns e faroestes que ‘Rango’ faz, dos filmes do Clint Eastwood, Sergio Leoni, os westerns-spaghetis, e por ai vai. Quem cresceu vivenciando essa época que atingia todas a mídias, do cinema à televisão, de publicidade e marketing à revistas em quadrinhos, vai reconhecê-las todas e pode se divertir contando-as. Quem não viveu e não faz a menor idéia de quais filmes ‘Rango’ está falando, também pode passar um tempinho agradável, observando o urbano e solitário camaleão que sempre viveu na cidade grande e tem pretensões de ser ator, que de repente se vê jogado em um vilarejo no meio do deserto, castigada pela seca, por políticos corruptos e vilões malvados. Acaba se tornando um herói por acaso, assume o lugar de xerife, e afinal vai ter que enfrentar perigos mortais de verdade e abandonar seu fingimento.

O outro lado é, para os que sabem das referências, fica cansativo reconhecê-las (são realmente muitas) e, na prática, acaba com o suspense da narrativa, pois se sabe exatamente para onde a história vai encaminhar, quais personagens vão surgir, quais as reviravoltas, e como vai terminar tudo. O que é um tanto brochante.

Para os novatos em westerns, tenho minhas dúvidas se agradará o ritmo meio irregular, que transita entre as caracterizações um tanto duras e psicológicas, em especial no começo do filme, e as repentinas tomadas de ação e comédia, sem serem empolgantes em nenhuma. Um outro desenho animado, quase com a mesma história, conseguiu fazer muito melhor, o ‘Vida de Inseto’.

Sem muito entusiasmo, imagino que seja ‘Rango’ quem vai ganhar o Oscar.

Ao contrário de ‘Tintim’, ‘Kung Fu Panda 2’ investe pesado no carisma e na simpatia dos personagens. O que torna esse filme, simpático. Jack Black, Angelina Jolie, Jackie Chan e todos os demais voltam com suas vozes e personas, agora também com Gary Oldman e um bando de gente (incluindo aí uma participação rápida de Jean-Claude Van Damme), e garantem acima de tudo a leveza e (tenho que repetir, perdão) simpatia geral.

A questão é que toda a jornada do herói, sua luta, afirmação, ascensão e redenção, já foi contada (e bem) no primeiro filme. Assim, nesta segunda parte, não é possível deixar de ter a sensação onipresente de uma forçação de barra na história para justificar uma série, como se assistíssemos um episódio de televisão. Para isso, um novo vilão maquiavélico e uma revelação bombástica na vida de Po, o Panda, são interessantes e fazem avançar a trama.

Mas faz falta, e nunca houve a intenção, é verdade, de uma ambição maior, de ser realmente grande, de explodir cabeças. A ambição mor parece a de colecionar um monte de vozes de atores famosos para os coadjuvantes que, por sinal, ficam na maior parte do tempo boiando, à espera de uma contribuição real.

Bueno. Simpático.

Se houve alguma utilidade real nesta edição do Oscar 2012 para Animação, foi a de que colocar em relevo algumas obras estrangeiras (isto é, não-norte-americanas) que, em caso contrário, ficariam esquecidas, mesmo que já lançadas há um certo tempo.. Bom, na prática, continuarão de escanteio, mas pelo menos alguma atenção lhes foi dada. Mesmo porque, nenhuma delas atinge a força de anos anteriores como fizeram ‘Persépolis’, ‘Valsa com Bashir’ ou ‘O Mágico’.

De qualquer forma, vale a pena entrar em contato com ‘Um Gato em Paris’ e ‘Chico e Rita’.

O gato, no caso, se chama Dino: ele é parisiense e tem uma  vida bem agitada: de dia, vive na casa da menina Zoe e de sua mãe, Jeanne. A casa está em um período de luto: o pai de Zoe morreu, assassinado por um mafioso local, e sua mãe é a policial que está tentando prendê-lo. De noite, Dino é parceiro de um profissional ladrão de jóias, Nico, um bandido dedicado, mas de bom coração. Um gato e um verdadeiro gatuno (um jogo de palavras clichê que não contive, fiquei esperando o texto todo para poder fazê-lo). É óbvio que, mais cedo ou mais tarde, todas essas vidas irão se chocar e suas vidas mudarão.

Com roteiro mínimo, e história idem, o melhor de ‘Um Gato em Paris’ é sua arte, de certa forma também minimalista, bonitinha e simples. Não dói assistir, nem empolga, mas tem a relativa vantagem de ser curtinho e rápido de assistir…

‘Chico e Rita’ é uma história de amor, simples, direta, romântica, que se passa em Cuba pré-revolução, com uma trilha sonora primorosa e envolvente, que inclui ritmos latinos, como rumba e bolero, com muito jazz, principalmente bebop, e um pouquinho de blues.

Chico e Rita são músicos, ela cantora, ele pianista, que se juntam e se apresentam, se apaixonam e brigam, e cujas carreiras e idiossincracias os levarão para caminhos muito diferentes.

Romance, muita música boa, sexo e nudez com cenas calientes (o clichê latino, por excelência), arte com desenho de estilo naturalista muito bem produzido (que me lembrou um tanto o que fazia Ralph Bakshi na década de 70, sem a preocupação excessiva com os detalhes dos personagens em si).

O ritmo é lento, no entanto, sem preocupação de um melhor desenvolvimento de personagens, contentando-se com sua unidimensionalidade, o que prejudica sua fluição plena. É uma pena, embora pareça corresponder às aspirações dos autores (entre vários roteiristas e diretores, Fernando Trueba). Mesmo assim, na minha opinião, o melhor longa de animação dentro dessa turma.

Havia, na primeira lista de pré-indicados, uma animação cujo trailer me chamou muito a atenção. Uma produção tcheca chamada ‘Alois Nebel’ baseada em uma graphic novel respeitada, cujo plot fala de um homem estranho e mudo que se envolve (ou é envolvido) em um crime de morte no meio de um inverno polonês (pelo menos, foi o que entendi). O estilo do desenho me remetia a ‘Valsa com Bashir’, aqui em um bonito preto-e-branco, e prometia um resultado sensacional. Ou uma chatice tremenda. Como não foi indicado, está sendo esquecido e não mais encontro referência, para poder assisti-lo de alguma forma.

E, entre os indicados, há um chamado ‘Gato de Botas’ que é, no mínimo, No Mínimo, uma perda de tempo.

Para ‘Tintim’ e ‘Rio’ sobraram indicações somente na área musical: para o primeiro, como Melhor Trilha Sonora (chega a ser uma brincadeira triste, pois John Wiliams não está em sua melhor forma); para o segundo, como Melhor Canção, onde concorre única e exclusivamente com ‘Os Muppets’ (outra brincadeira? somente duas canções foram boas este ano? então, é uma verdadeira catástrofe musical?)

Minha aposta para esse ano fica assim:

Para Desconcertos, Melhor Longa de Animação é ‘Chico e Rita’.
Quem vai levar o Oscar: ‘Rango

Cuba em ‘Chico e Rita’