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escandalosas dançarinas do teatro burlesco dos anos 90

3 de novembro de 2012

dos anos 1890′ s

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Mulheres da Máfia

2 de outubro de 2012

Não existem mulheres na Máfia.

Era o que se dizia. Era o, digamos assim, puro senso comum.

O impressionante é que, até há muito pouco tempo, isso continuava sendo o senso comum.

De mulheres, haveria somente as esposas de mafiosos que, obedientes, fecham os olhos aos ‘negócios’ dos seus maridos, persignam-se e se calam, quando indagadas de alguma coisa. As mães dos mafiosos que suspiram pelos destinos dos seus filhos. As filhas que, juntamente com as mães e esposas, são protegidas pelo respeito milenar e não são tocadas nem manchadas em sua honra, nem mesmo nas piores guerras entre as famílias, pois caso contrário, se daria direito pleno à vendetta. Que mais? Obviamente, uma outra espécie de mulheres, estas sim perigosas e traiçoeiras: as amantes dos mafiosos que, além de solapar as tradicionais bases familiares, ainda podem carregar armas e praticam pequenos serviços aos seus homens. Destas, pode-se esperar tudo!

Com muito custo, aos poucos foi se percebendo o quanto há de balela nestes mitos tão trabalhados e requentados e tantas vezes propagados pelos meios de comunicação, sendo que o menor não é certamente o cinema de Hollywood. Clare Longrigg começou a partir do final da década de 1980 a pesquisar a participação das mulheres na Máfia ao acompanhar o movimento de várias viúvas de políticos, juizes e policiais vitimas de mafiosos. O movimento formara em 1982 a organização Associação de Mulheres Antimáfia que, corajosamente, exigia maiores atitudes de repressão, ao mesmo tempo em que conclamavam a que as esposas de mafiosos depusessem contra seus maridos.

Muito embora, na maioria das vezes, estes depoimentos fossem encarados com total ceticismo.

Segundo Longrigg, um juiz de Palermo teria declarado, por exemplo, em um despacho judicial que “mulheres não podiam ser culpadas por lavagem de dinheiro porque não possuem autonomia e, de qualquer maneira, são burras demais para tomarem parte no difícil mundo dos negócios’”. Não era, de forma alguma, uma opinião única: “Alguns magistrados ainda mantém a opinião de que as mulheres que tocam os negócios de seus maridos não estão cometendo crime – que a esposa de um mafioso não tem escolha e, portanto, não pode ser responsabilizada moralmente.”

Rita Atria

Com o aumento dos depoentes, principalmente a partir de 1991, e a constatação da profundidade de suas informações, é que se começou a ter uma visão aprimorada do montante de seu conhecimento.

Não só conhecimento as mulheres partilhavam, nem tampouco participação. Se por um lado, a expansão das atividades mafiosas dentro da Itália solapava as rígidas normas hierárquicas machistas ao exigir cada vez maior quantidade de mão de obra, incluindo-se mulheres e crianças, por outro, a intensa repressão e as constantes brigas entre as famiglias, acarretavam a morte, prisão ou a fuga de diversos destes ‘pais-de-família’, abrindo espaços e buracos de poder que precisavam ser preenchidos. E o eram. Pelas respectivas mulheres.Se, anteriormente, elas ‘auxiliavam’ dando os seus nomes para os registros bancários dos maridos (na Itália, não eram sequer investigadas), ou transportavam quantidades de drogas ou armas (não eram revistadas, sequer eram destacadas policiais femininas para isso), agora estavam tomando decisões, movimentando contas, manejando dinheiro, planejando assassinatos, repartindo poder. E também estavam começando a responder por isso.

Desta forma, na Itália “o número de mulheres acusadas de portar e traficar drogas cresceu de 37 em 1994 para 422 em 1995, enquanto o número de acusadas por lavagem de dinheiro aumentou de 15 para 106 e numero de mulheres presas por agiotagem subiu de 199 para 421”. Esta súbita e repentina aparição da importância feminina mafiosa indicava, na realidade, que as autoridades estavam a abrir afinal os olhos.

Tudo isso é até que muito interessante, mas na verdade fiquei até o momento somente no plano da introdução. Clare Longrigg foi bem mais longe. Além de agrupar todos os dados disponíveis minuciosa e cuidadosamente, ela foi atrás e conversou com muitas destas mulheres, tanto das pró quanto anti-máfia. Foi em casamentos, batizados, julgamentos, prisões, compilou as histórias, arrumou os arquivos fotográficos. São histórias tremendas, de mulheres poderosas, ousadas. Impossível não pensar, por exemplo, só para ficar em um único, em Ninetta Bagarella.

Antonieta, ‘Ninetta’, Bagarella era muito inteligente, bonita, consciente do poder da mídia, e era noiva de um aspirante a ‘chefão’, Salvatore Riina, quando, em 1971, foi presa e acusada de estar servindo como ligação clandestina entre vários chefes locais, transmitindo recados ou instruções. O noivo estava escondido e ela a primeira mulher a ser indiciada por ligações com a Máfia (e ela mesmo era filha de um chefe respeitado). Sua defesa foi exemplar. O eixo foi a dedicação que ela tinha ao marido: “Eu amo esse homem. Sou mulher, não sou? Não tenho direito de amar um homem, não é essa a lei da natureza? Vocês perguntam como eu poderia ter escolhido um homem como ele, de quem as pessoas dizem coisas horríveis. É contra a lei amar um homem como Salvatore Riina? Eu amo esse homem porque ele é inocente.

Longrigg conta que “Ela convenceu com sua imagem de sinceridade: ele

Ninetta Bagarella in una foto degli anni 70

estava escondido e ela fazia o papel da noiva saudosa que duvidava do afeto de seu amor.

– Há dois anos que não vejo Riina, nem sei mais se ele me ama.

A imprensa de Palermo apaixonou-se.”

Casaram-se em uma cerimônia secreta e tiveram quatro filhos, que tiveram de ser criados em casa pela própria mãe, que havia sido professora. Também estes entraram para a organização, a seu devido tempo, e sistematicamente receberam a ajuda de Ninetta, quando por sua vez, eram presos. Desta vez, como a Mãe que pedia a compreensão dos homens e o favor de Deus. Em 1996, ela mandava uma carta para imprensa: “Decidi abrir meu coração, o coração de uma mãe que está inchado e transbordando de dor pela prisão de meu filho..] Aos olhos do mundo, meus filhos já nasceram culpados. Ninguém se lembra que quando eles nasceram eu (la mamma) era uma cidadã livre e meu marido era apenas culpado de deixar de deixar de se apresentar durante a condicional. Criamos nossos filhos fazendo enormes sacrifícios, superando tremendas dificuldades, dando-lhes todo amor e apoio possíveis.”

E por ai vai, com muitos ´figlio’ e ´mamma’ espalhados pelo texto, além de respeito á família, ás tradições, etc e tal, só esquecendo de alguns detalhes, como a condenação à prisão perpetua do marido, os atos criminosos dos filhos, etc.

Ninetta Bagarella representa um ‘estilo’ de mafiosa que sabe muito bem aonde e como aplicar pré-conceitos, ilusões e mitos que a Máfia divulgou e difundiu. Outros ‘estilos’ mais diretos e objetivos, como Roseta Cutolo que escapou de mais de nove acusações de assassinato e cumpriu cinco anos de pena por ligação com a Máfia; Teresa Deviato, presa e indiciada por extorsão; Rita Atria, que se tornou colaboracionista da Justiça, não suportou a pressão e suicidou-se em 1992.

E várias outras. “Mulheres da Máfia” é um esplêndido livro-reportagem, de linguagem límpida e direta que nos ajuda a descortinar um pouco mais nossa costumeira realidade.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente no iGLer

“Estupro ‘legítimo’ não causa gravidez”

19 de agosto de 2012


A imbecilidade e a estupidez avançam. Todd Akin, candidato republicano ao Senado norte-americano é contra o Aborto. Em uma entrevista, instado a esclarecer melhor suas objeções, disse: “Antes de mais nada, do que eu entendo do que os médicos dizem, [gravidez como resultado de um estupro] é muito raro. Se for um estupro legítimo, o corpo feminino tem meios de tentar jogar a coisa inteira para fora”.

Isso é tão estúpido de tantas maneiras que é até difícil começar. No entanto, antes de tudo, o que é ‘Estupro Legítimo’?! É a forma impressionante de Akin dizer que, se a mulher ficou grávida, é porque não foi Estupro! Porque se ela tivesse sido estuprada Mesmo, de Verdade, Legitimamente, ora, não haveria consequencias. Através dessa misteriosa forma alquímica conhecida somente por ele, com seus profundos conhecimentos médicos, o corpo da mulher expeliria de forma natural o corpo estranho. Todd Akin deveria ser candidato não ao Senado mas ao Prêmio Nobel de alquimia.

Mas é claro que a entrevista não acaba aí e Akin continua. E nos (raros, segundo ele) casos de gestações que não teriam sido impedidos pelo organismo feminino nos ‘estupros legítimos’, mesmo assim ele seria contra o aborto?

Mas vamos presumir que isso talvez não funcione ou algo assim. Creio que deveria haveria alguma punição, mas a punição deve ser contra o estuprador e não contra a criança”.

Isto é, não importa. Todd Akin é contra qualquer forma de aborto, de qualquer modo, em qualquer circunstância, mesmo quando a mulher corre risco de morte, mesmo quando o estupro foi ‘legítimo’.

Obviamente, a repercussão foi enorme e Akin logo se apressou a dizer que tudo não passou de um mal-entendido, que houve uma confusão e a entrevista: “não reflete a profunda empatia que sinto pelas milhares de mulheres que são estupradas e abusadas a cada ano”.

Sabe, no entanto, o que é mais aterrorizante disso tudo? Não é somente a patética e abjeta posição de um político norte-americano que faz de tudo para ser eleito. É o fato de ter pessoas que concordam com ele e votam nele e o acompanham. Mesmo que não seja eleito (ele concorre pelo estado do Missouri contra a democrata Claire McCaskill cujo partido é forte na região, mas está passando por um desagradável momento de impopularidade por conta da gestão do Barack Obama) (embora, com candidatos como Akin, a coisa fique mais tranquila), o fato é que, em uma pesquisa eleitoral recente, ele teve 6% de intenções de votos. Há pessoas que consideram certo o que ele diz! Que realmente pensam que se a mulher ficou grávida foi porque quis e, portanto, dane-se!

Todd Akin pode ser estúpido e imbecil e seu pensamento profundamente desumano e misógino. O pior, mesmo, é que ele não está sozinho.

Missouri Republican: ‘Legitimate rape’ rarely causes pregnancy
Todd Akin on the The Jaco Report
August 19, 2012
By Michael O’Brien, NBC News

http://firstread.nbcnews.com/_news/2012/08/19/13365269-missouri-republican-legitimate-rape-rarely-causes-pregnancy?lite

Updated 5:18 p.m. — A Republican Senate nominee found himself in hot water on Sunday for suggesting that instances of “legitimate rape” rarely results in pregnancy.

Rep. Todd Akin, a Republican who’s locked in a hard-fought campaign in Missouri to unseat Democratic Sen. Claire McCaskill, was answering a question regarding his position on abortion rights in instances when a woman is a victim of rape.

“People always want to make it into one of those things — well, how do you slice this particularly tough ethical question,” Akin said in an interview on KTVI-TV, video of which was circulated by the Democratic super PAC American Bridge.

“First of all, from what I understand from doctors, [pregnancy from rape] is really rare. If it’s a legitimate rape, the female body has ways to try to shut that whole thing down,” Akin said.

Regarding his opinion on whether to allow for an abortion in such instances, Akin added: “But let’s assume that maybe that didn’t work or something. I think there should be some punishment, but the punishment ought to be on the rapist and not attacking the child.”

Akin’s comments had an almost immediate impact on Missouri’s Senate race. McCaskill wrote on Twitter:

Claire McCaskill@clairecmc
As a woman & former prosecutor who handled 100s of rape cases,I’m stunned by Rep Akin’s comments about victims this AM bit.ly/NahiHz

19 Aug 12
In a statement, Akin said that he had misspoken.

“In reviewing my off-the-cuff remarks, it’s clear that I misspoke in this interview and it does not reflect the deep empathy I hold for the thousands of women who are raped and abused every year,” he said.

Akin emerged earlier this month from a tough three-way primary in Missouri, where he rallied social conservatives behind his candidacy. Democrats actually spent during that primary to help Akin win, viewing the six-term congressman as a less formidable challenger in the general election.

McCaskill, who was first elected in 2006, has become a top target for Republicans this fall, given President Barack Obama’s unpopularity in the state and successive statewide victories for the GOP.

Republicans need a net gain of four seats this fall in order to take over the Senate in the next Congress, and Democrats must defend 23 seats this fall. But unexpected Republican retirements and races that have become more competitive than expected have boosted Democratic hopes of maintaining their majority.

 

 

 

 

Estuprar emagrece. Houve uma época, há muito tempo atrás, as propagandas eram muito machistas.

29 de julho de 2012

 

 
Você pode ser espancada.

Você pode ser estuprada.

Mas nunca passe pela vergonha de estar com os cabelos feios ou mal cuidados.

 

 

1960 / 1970

 

 

 

O mundo do futuro não precisa se preocupar.

As mulheres sempre estarão a postos para fazer faxina e deixar a Lua brilhando de limpeza.

 

 

1960 / 1970

 

 

 

 

Gisele Bundchen e a Hope ensinando as mulheres como devem argumentar com seus maridos.

 

2011

 

 

Dieta do Sexo:

tirar a roupa dela

com consentimento gasta 10 cal
sem o consentimento gasta 190 cal

conclusão:
estuprar emagrece.

2012

 

 

 

Olimpiadas e mulheres da Arábia Saudita

14 de julho de 2012

 

A noticia é até singela, de tão simples: Pela primeira vez, A Arábia Saudita vai mandar mulheres atletas para competir nas Olimpíadas. Duas. Wodjan Ali Seraj Abdulrahim, judoca, e Sarah Attar, corredora dos 800 metros. Naturalmente, nada é tão simples e singelo. Por isso, retomemos o fato em sua devida medida:

Pela primeira vez na história das Olimpíadas, a Arábia Saudita, país que proíbe aulas de educação física feminina nas escolas, onde as mulheres precisam da permissão dos homens (maridos ou filhos) para poder trabalhar ou abrir uma conta no banco, onde os líderes religiosos tinham receio de que jovens virgens rompessem o hímen se praticassem esporte e onde todas são proibidas de pratica-los em público, onde, enfim, nenhuma dessas atitudes mudou em nenhuma instância, este país anunciou a participação de duas (Duas!) atletas. Permissão ou condescendência?

Gostaria de pensar que foi resultado prático da pressão de grupos de direitos humanos que insistiam em pressionar o Comitê Olímpico para que não permitisse a participação da Arábia Saudita, caso não mudasse sua atitude. Gostaria de refletir o tom eufórico da reportagem da 6Cero (“Arabia Saudita, Brunei y Qatar enviarán mujeres deportistas,por primera vez, a Londres 2012“) (de onde tirei essas minhas considerações, assim como de inúmeras outras manifestações que acabei de conferir pela web) e de me emocionar com o fato igualmente inédito de que, desta vez, todos os países terão atletas de ambos os sexos. O ‘El Tiempo’ é ainda mais enfático: “La participación inédita de dos mujeres saudíes en los Juegos Olímpicos de Londres pone punto final a un tabú motivado por sectores religiosos conservadores.” (El Tiempo)

Tenho que reconhecer que qualquer passo, qualquer mudança, mesmo que tão minúscula desta forma, é estupidamente melhor do que nenhuma mudança. E que, mesmo sendo somente duas, só o fato de que elas participarão é, em si, uma notícia transbordante e dá espaço para que novas e mais profundas modificações aconteçam.

Mas devo ser um chato absurdo, meu sorriso fraco, meu entusiasmo é pífio. Não consigo tirar da cabeça o quanto é chocante vivermos em um mundo que precisamos comemorar a participação de duas mulheres (Duas!) em um país inteiro!

Duas!

Carmen Santos: atriz, diretora, produtora e musa de um cinema brasileiro em formação

13 de julho de 2012

 

A nossa proverbial memória curta nacional costuma nos pregar peças, ás vezes de muito mau-gosto. Falta de memória, aliás, aliada a muita falta de informação. Pouca gente sabe ainda, por exemplo, do pioneirismo do cinema brasileiro que andou quase no mesmo passo de sua própria invenção nas terras francesas, pelos irmãos Lumiére ou pelos norte-americanos.

Não se compara aqui, é obvio, as formidáveis diferenças de estrutura econômica e social. Enquanto em um caso, o cinema é tomado como uma indústria levada a sério e equiparada a uma questão de Estado, por aqui a produção cinematográfica foi sempre uma mescla de teatro mambembe com sacrifícios pessoais de indivíduos ou grupos abnegados. As poucas tentativas de se montar uma verdadeira industria cinematográfica nacional começaram sempre com muita expectativa e esperança, tropeçaram em obstáculos estruturais e acabaram de modo melancólico e lamentável.

O trabalho de mestrado de Ana Pessoa sobre Carmen Santos é uma forma de preencher uma dessas tantas lacunas de memória e conhecimento. Falar sobre sua vida é tratar diretamente sobre a formação, a complexidade, os avanços, e os vários problemas de querer se fazer cinema no Brasil. O título completo do livro “Carmen Santos – O Cinema dos Anos 20” (Aeroplano Editora) é objetivo e direto: impossível falar de um sem tratar do outro.

A portuguesa Maria do Carmo Gonçalves chegou no Brasil em 1912 aos oito anos de idade. Seu pai tinha vindo antes e trabalhava como marceneiro. Em 1919, Maria do Carmo era balconista de uma loja de roupas quando resolveu fazer, junto com dezenas de outras moças, um “test” para “posar” para um “film”. Tinha quatorze anos, era baixinha, magra, olhos grandes e penetrantes e já combinava todos os elementos para a mulher que estava se formando no começo do século. Ana Pessoa capta muito bem toda essa complexidade e contradições de uma menina-adolescente se transformando em adulta em um mundo repleto de profundas modificações:

A adolescente Carmen está construindo sua personalidade quando surge, no plano internacional, a imagem da ‘nova mulher’. A ascensão do modelo da jovem ousada e irreverente confronta o modelo da pureza católica; a expansão da economia de consumo enfatiza a gratificação material e questiona o tradicional ideal de altruísmo feminino; o desejo de ser membro independente e produtivo da sociedade contrapõe-se às restrições de papel de dona-de-casa. As mulheres alcançam, enfim, a esfera publica”.

Ana Pessoa vai construindo, assim, os vários roteiros que perpassam seu livro: a historia do cinema brasileiro na sua fase muda paralelamente à vida pessoal de Carmen e a da própria inserção da mulher na sociedade.

Maria do Carmo passa no teste, é escolhida como atriz principal, batizam seu nome artístico de Carmen Santos, tiram fotos promocionais, fazem uma grande divulgação. O filme acaba não sendo produzido, mas a figura de Carmen já começa a se propagar. Na verdade, ela se revela uma excelente propagandista de si mesma apesar da maior parte dos seus filmes ter fracassado ou nem mesmo ser concretizado. Ela reconhece o poder da mídia, sempre conseguia ser fotografada, entrevistada; a moda das starlets hollywoodianas já começava a pegar. Dessa forma, nos primeiros tempos de sua carreira, ela consegue o inusitado posto de musa do cinema brasileiro sem ter emplacado nenhum filme!

Por outro lado, e quase ao mesmo tempo em que começa no cinema, Carmen conhece Antonio Lartigau Seabra, um rico herdeiro de uma família portuguesa bem ciosa de suas prerrogativas de classe. O casamento está fora de cogitação mas, pelo que a autora transmite, eles parecem não ligar muito para isso. Sua relação dura praticamente a vida inteira (eles acabam casando, mas muito tempo depois) e é com o dinheiro dele que Carmen consegue extravasar toda sua ansiedade em participar do cinema. Inclusive pagando para isso.

Ela, no entanto, não se contenta com uma posição comodista. Dispondo de uma incomum tranqüilidade financeira, com um amante assumido e público e do qual, sem ser casada, tem dois filhos, ela avança: além de ser atriz, ela produzia, dirigia, financiava novos talentos, tentou construir um estúdio cinematográfico próprio, fez uma pequena participação no clássico, antológico e único filme de Mario Peixoto, “Limite”. Participou ativamente tanto na montagem e estruturação de uma mentalidade de cinema no Brasil, na época mudo, quanto foi decisiva na complicada transição para o cinema falado nacional.

Isso, no entanto, já é uma outra história. O mestrado de Ana Pessoa se restringe ao período do cinema mudo e é com pena que vemos o livro acabar abruptamente na metade da década de 30, justamente quando Carmen está se jogando para o seu novo desafio. Até sua morte em 1952, houve muitas outras batalhas.

Apesar dessa sensação frustrante no final, a pesquisa se mostra séria, bem documentada e é recheada de ilustrações, como deve ser qualquer obra que trate de algum tipo de arte visual. Percebe-se bem como deve ter sido difícil trabalhar com a falta de documentação e ausência ou perda de fotogramas, boa parte dos filmes só é conhecida ainda somente por causa das reportagens e entrevistas e uma ou outra fotografia.

É um pouco da nossa memória cultural sendo restaurada.

 

 

 

 

Ciência é coisa de menina?

24 de junho de 2012

Eles conseguem ultrapassar qualquer faixa de estupidez.

Veja bem, a intenção inicial até podia ser interessante: a União Europeia financiou uma campanha para atrair mulheres para a carreira científica. Ok, não vou dar palpites sobre a dificuldade de fazer as mulheres encararem, e gostarem, de uma carreira como cientista, não tenho dados sobre qual a taxa de cientistas mulheres em contraposição aos homens, nem tenho ideia de como reverter essa situação que, pelo visto, deve ser preocupante.

O problema é quando resolveram fazer um vídeo da campanha.

Camaradas, é de embasbacar: em que universo, em qual planeta, esse vídeo poderia ter sido considerado, em qualquer nível, de qualquer maneira, interessante para possíveis mulheres cientistas? Estou até agora tentando entender e absorver o fato de que houve pessoas (homens, eu imagino, embora com certeza deva ter alguma participação feminina em algum ponto) que se reuniram, pensaram em fazer algo divertido, pop, jovem, sexy, colorido, lúdico, quase inconsequente (isto é, ‘feminino’?), montaram uma ideia exdrúxula, filmaram, e outras pessoas, com poder de decisão, olharam, gostaram, acharam que atendia ao ideal de dizer que a ciência é legal, é divertida e charmosa, permitiram que fosse ao ar, e todos pensaram, ‘elas vão adorar!’

Bueno, não adoraram. Na verdade, é inacreditável conceber que pudesse ser diferente.

A resposta negativa foi tão grande que, quase imediatamente, tiraram-no do ar. Mas adivinha se não há quem fez questão de preservar esse momento de insanidade vergonhosa para a posteridade? Em outros tempos, estupidezas seriam facilmente escondidas para debaixo do tapete e convenientemente esquecida. A realidade moderna é bem outra.

O clipe começa com o rosto de um cientista ‘de verdade’, isto é, um homem. Sério, de óculos, trabalhando no microscópio. Até que três mulheres lindas, de salto alto, de roupas curtas, entram no laboratório e…

Por favor, dê uma olhada, é muito rápido, nem 1 minuto de duração, e tire suas próprias conclusôes.

 

 

Bombril retrata-se por imagem racista

14 de junho de 2012

Há poucos dias, uma intensa discussão nas redes sociais (embora menor do que eu esperava) repercutia a imagem utilizada como logo para uma campanha de publicidade de um programa de televisão chamado ‘Mulheres que brilham’. A imagem é tão ofensiva e, ao mesmo tempo, tão retrô, que remete a um tipo de publicidade e de racismo explícitos praticados anos atrás.

Na ocasião, escrevi no facebook:

E, de repente, somos jogados abruptamente para décadas atrás, para o tempo em que expectadoras de programas ao vivo eram chamadas de ‘macacas de auditório’, e onde palhas de aço, além de sua imediata utilização para as ‘donas-de-casa’ (as ‘rainhas do lar’) para a lavagem da louça na cozinha, também serviam como componente das antenas de televisão, E também servia como sinônimo de cabelo crespo, de ‘cabelo-ruim’, ‘cabelo-duro’, o cabelo das mulheres negras. 

Nem espanta o racismo escancarado (ou pensavam que o desenho colorido disfarçaria a conotação racista?). Só fico pensando em quem idealizou essa campanha de marketing e sugeriu essa imagem, o quanto tinha ciência do quanto é ofensiva, do quanto é humilhante, do quanto é, simplesmente, racista. Ou, quem sabe, fosse exatamente essa a ideia.

Estou até curioso para saber (essa minha curiosidade mórbida…) como se defende uma imagem dessas. Como dizer que isso não está carregado de racismo abjeto? Ou será que dizem que até existe um pouco, sim, mas que, na verdade, é uma ‘homenagem’ à beleza da mulher? E, afinal, o desenhinho é ou não é hipercolorido? E, então?”

 

– Bueno, apesar da discussão não ter sido tão acirrada como eu esperava, como disse acima, alguma coisa repercutiu (deve ter pego em algum ponto sensível do bolso…), já que a Bombril resolveu mudar o logo e emitiu um texto de retratação.

Atitudes, no mínimo, interessantes.

 

Texto de retratação da Bombril:

Recentemente, a Bombril recebeu em suas redes sociais, críticas referentes à associação de um de seus principais produtos, a lã de aço, à cabelos crespos. Devido ao logotipo do programa “Mulheres que Brilham”.

Com o objetivo de ter o melhor posicionamento possível diante dessas manifestações, a empresa realizou uma reunião, ontem, dia 11/06, com lideranças do site Mulher Negra e Cia, a fim de entender e buscar o melhor caminho para solucionar o mal entendido.

Juntos, decidimos alterar o logotipo do programa, demonstrando nosso pedido de desculpas a todas as mulheres que tenham se sentido ofendidas de alguma maneira.

A Bombril faz questão de ressaltar que não teve a intenção de realizar qualquer tipo de associação que não fosse referente à valorização e exaltação da beleza e diversidade da mulher brasileira.

Desta forma, informamos que o logo será substituído por sua segunda versão, conforme a imagem, no quadro do Programa Raul Gil. Isto ocorrerá até o dia 30/06, pois temos mais dois programas gravados, por isso não há como substituí-lo imediatamente.

Para as redes sociais e portal da marca: faremos a alteração até o dia 18/06, já que estas alterações demandam algum tempo devido programação.

Queremos enfatizar que em nenhum momento a Bombril teve a intenção de menosprezar ou ofender qualquer pessoa.

A Bombril deseja cada vez mais estar próxima da mulher brasileira e valorizar o protagonismo feminino, em todas as esferas, pois acredita no jeito feminino de construir o futuro de um Brasil plural e colorido.”

 

 

 

 

 

 

 

 

A beleza de um machista acuado

31 de maio de 2012

Sensacional. O babaca machista e acéfalo começou a xingar e a ofender as mulheres justamente da Marcha das Vadias, em Brasília, justamente no evento em protesto contra o machismo e a violência contra as mulheres! Inclusive ameaçou tirar o pau, chegou a abrir a braguilha.  Quem sabe pensando que teria aval e apoio de outros homens. Com certeza, não esperava a reação que recebeu. Nessa hora, sua ‘dignidade’ machista foi pro espaço.

A coisa só não ficou mais séria porque foi preso pela polícia. Não sei quanto tempo ficou detido (duvido que tenha sido por muito). Mas sei que o machistão aqui passou por um belo aperto, o cu deve ter ficado bem pequenininho.

 

 

 

 

Anorexia, baby!

4 de maio de 2012

 

Anorexia manda beijo. Até acho ela bonita. Tem alguma beleza. Mas não dá tesão. Esqueletos podem ser bonitos, mas não me excitam.

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Para evoluir e involuir

30 de abril de 2012

 

Interessante observar como em certos aspectos a humanidade consegue se desenvolver e se aperfeiçoar tanto, em especial na tecnologia e nas ciências em geral, enquanto que em outros continua exatamente a mesma.

 

 

 

Laxmi, ‘noiva’ desde quando tinha um ano de idade, anulou o casamento. Pela primeira vez na Índia!

26 de abril de 2012

 

Pela primeira vez! Estamos no século 21, ano 2012, e pela primeira vez, uma indiana anulou legalmente seu casamento arranjado pelos pais quando ela tinha 01 ano de idade. Legalmente, os casamentos forçados são proibidos na India moderna, mas na prática nunca deixaram de existir. Laxmi Sargara foi a primeira que, revoltada com a situação (ela soube do arranjo somente aos dezoito anos, quando os pais do ‘noivo’ quiseram valer o acordo), conseguiu ajuda de uma ONG e estabeleceu o cancelamento em cartório.

Na reportagem da BBC diz-se da esperança que outras mulheres sigam o seu exemplo e façam valer sua determinação. Também espero. Por outro lado, fiquei aqui pensando em um ângulo não abordado pela reportagem, o de que essa luta da Laxmi ainda não terminou. Agora ela vai ter que viver em uma sociedade, seus pais, os pais do ‘ex-marido” que a olharão com miradas esquisitas. Até onde irá a compreensão de que ela o fez assim para ser feliz? O quanto serão felizes por ela?

Legalmente, ela é livre. Espero, muito sinceramente, que na prática também.

 

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/04/120426_india_casamento_anulacao_cc.shtml

 

 

 

 

 

Sinead O’Connor e o Grammy

21 de março de 2012

 

Para quem viveu a cultura pop dos anos 80, o nome da cantora irlandesa Sinead O’Connor significa alguma coisa. Sinônimo de uma música diferenciada e fora dos padrões, voz cristalina e de muito fôlego, para um trabalho e performances de palco que beiravam o punk (pelo menos, era como parecia para mim, ignorante de música em geral), mas que vejo hoje possuía uma tremenda qualidade e competência musicais. Podia não curtir seu estilo, mas apreciava sua atitude, cheia de lances polêmicos e altivos.

O que mais me marcou de Sinead, porém, não foram esses lances polêmicos, como o gesto de rasgar a foto do papa na televisão, como protesto contra a pedofilia e os abusos sexuais praticados dentro da igreja católica (provocando uma reação indignada do público religioso contra ela tão grande que praticamente fez um breque na sua carreira, a qual nunca mais recuperou) ou as idas e vindas, subidas e descidas, de uma vida cheia de detalhes dramáticos (alguns até trágicos). Certamente, seu visual chamava a atenção: uma garota franzina, realmente muito magra e baixinha, com a cabeça raspada careca, com uma voz potente e roupas rasgadas, mas meu cinismo desconfiava do quanto isso seria sincero e marca de uma personalidade forte ou somente propaganda e marketing.

O que eu lembro perfeitamente foi de uma apresentação em um desses eventos de premiações transmitidos pela televisão que os norte-americanos adoram, creio que era um Grammy, embora nenhuma certeza se ela estava concorrendo em alguma categoria. Para mim, acostumado a assistir o Oscar, mas nenhuma vez tinha visto outra cerimônia do estilo, estava achando tudo um porre inominável, quando vejo Sinead entrar no palco e pensei que aquilo poderia ser interessante.

Ela está sozinha (no máximo, um ou dois músicos a acompanham), sem nenhuma parafernália eletrônica ou superprodução que as demais bandas faziam questão de trazer, e o palco vazio fica, portanto, enorme, destacando ainda mais a magreza, a estatura e a careca da cantora. Quando canta, a música explode. Ela não alivia na canção, ela é pesada, gritada e cantada com vigor. Ela mexe os braços e as pernas, embora sem sair do lugar.

O contraste daquela música daquela cantora naquele espaço tão formal e antiquado foi fenomenal.

Da platéia (disso eu me lembro muito bem!) não voltava nenhum pio, nenhuma resposta, nenhuma palma ou gritos, era uma onda de gelo silencioso, enfatizado pelo fato da câmera em nenhum momento mostrar qualquer rosto do público, ou algum tipo (qualquer tipo) de reação, focava somente na cantora.

Ela acaba a apresentação, agradece as palmas (não houve vaias, nem entusiasmo nas palmas, mas pelo menos foram educados) e sai. Ninguém emitiu algum grande suspiro de alívio (ao menos, não em voz alta), mas era tão presente que era quase palpável.

Não acompanhei sua carreira (não curtia sua música, como disse, e além do que, logo mais ela seria jogada no ostracismo). Mas amei sua impavidez, sua força, sua coragem até, seu formidável tapa musical naquela cerimônia quadrada, previsível e estupidamente aborrecida, típica dos norte-americanos e que não mudou nada até hoje.

Neste momento, nesta sua apresentação em específico, eu amei essa mulher.

 

 

Heroínas arregaçam as portas de Hollywood

20 de março de 2012

Com a próxima estréia de ‘Jogos Vorazes’ ainda essa semana, a atriz Jennifer Lawrence estará enfrentando um triplo desafio: vencer uma disputa mortal em um Estados Unidos distópico, autoritário e decadente, de futuro não muito distante; encabeçar uma nova franquia que garanta uma safra de novos filmes rentáveis dirigidos para uma faixa de público adolescente carente das finadas franquias do Harry Potter e Crepúsculo; e, por fim, dar a partida para uma nova geração de mulheres fortes e carismáticas que provem o quanto elas podem fazer sucesso como protagonistas de filmes de ação, em geral restritos e dirigidos para um público masculino.

Já comentei sobre o fato de haver um preconceito sobre mulheres protagonistas e o quanto é difícil e raro alguma conseguir furar a preponderância masculina. Em geral, a elas é destinado o papel das heroínas-cabide para, fundamentalmente, para embelezar o filme e servir de escada para uma maior masculinidade do personagem principal. Quando conquistam um pequeno espaço, a maioria termina em filmes porcamente realizados, o que só serve para alimentar o preconceito (para um monte de outros detalhes eletrizantes sobre as heroínas-cabide no cinema e nas histórias em quadrinhos, é só ler o texto completo: “Hollywood promove a nova onda das heroínas-cabides“).

Ao que parece, paira no ar a tremenda a vontade de mudar essa atitude, com produções de nível e financiamento decente, boas direções e enredos cuidadosos, calcados, quando possível, em séries literárias já comprovadas. Mesmo porque, Hollywood não é cega nem idiota de deixar de perceber o grande apelo e as possibilidades (além do aspecto lucrativo, é óbvio) que as franquias anteriores citadas demonstraram fartamente. Neste ano de 2012, pelo menos três filmes, completamente independentes um do outro, chamam a atenção para esse aspecto e assumem a responsabilidade, pois com certeza, muita coisa no universo hollywoodiano pode mudar, dependendo do resultado que eles tiverem:

‘Jogos Vorazes’ (The Hunger Games), baseado nos livros de Suzanne Collins; ‘Valente’ (Brave), a novíssima aposta da Pixar, muito para compensar o ridículo de ‘Carros 2’; e ‘Branca de Neve e o Caçador’ (Snow White and the Huntsman), com a mesma Kristen Stewart de ‘Crepúsculo’, que promete uma Branca de Neve guerreira e destemida, como nunca vista antes, nada tímida ou fraquinha, que picotaria Bella em um piscar de olhos (os trailers e imagens divulgados até agora não deixam dúvida dessa intenção, vejamos se será cumprida).

Não que as heroínas-cabide tenham saído de moda. Muito pelo contrário. Em ‘Os Vingadores’ (The Avengers), Scarlett Johansson briga (e discutiu muito) para que seu papel como Natasha Romanoff, a Viúva Negra, tenha uma relevância maior e esteja no mesmo patamar de importância que todos os demais superheróis-machos. Dificilmente conseguirá isso, mesmo com toda a estrela de Scarlett. Seu melhor resultado seria a realização de um filme-solo da personagem, como já foi cogitado, e isso sim seria sensacional!

Enquanto isso, no final da saga do Batman de Nolan (‘O Cavaleiro das Trevas Ressurge’, The Dark Knight Rises), a maior discussão sobre a participação de Anne Hathaway como a Mulher Gato era saber se sua máscara, afinal de contas, teria ou não orelhas de gato, ou qual seria o seu tamanho. São detalhes fundamentais assim que praticamente definem uma heroína-cabide.

o desenhista e cartunista norte-americano Kevin Bolk revela (desbunda) o grau de machismo em Hollywood ao mostrar graficamente como seriam retratados os heróis-machos se lhes fosse dado o mesmo tratamento que a Viúva Negra (Scarlett Johanson) recebe (clique na imagem para ampliar)

Em 2011, houve duas tentativas interessantes de se colocar mulheres fortes protagonistas em filmes de ação. Pela expectativa criada, foram duas profundas decepções.

Em ‘Hanna’, Saoirse Ronan é uma garota criada em um remoto e geladíssimo lugar afastado da civilização e treinada pelo próprio pai para ser uma assassina perfeita e matar Cate Blanchet, por razões obscuras que serão descobertas arduamente pela matadora adolescente. O diretor Joe Wright vem de densos e competentes dramas de época (‘Orgulho e Preconceito’, ‘Desejo e Reparação’, ‘O Solista’, e está acabando de filmar uma nova versão de ‘Anna Karenina’) e tentou criar um clima diferenciado para uma trama policial básica de assassinato e perseguição, enveredou para uma direção sóbria e introduziu toques de crítica social e personagens bizarros. Uma espécie de ‘Identidade Bourne’ feminino com levada de cinema indie. O resultado foi uma perda de identidade do próprio filme que não se assume como obra de entretenimento ou como reflexão, e nunca entusiasma de verdade.

Há boas caracterizações, Cate Blanchett está excelente como sempre, e Saoirse Ronan faz um ótimo trabalho (acreditamos realmente na ferocidade e sangue frio dessa assassina), mas sua performance é infelizmente prejudicada por um roteiro confuso e atrapalhado, se perdendo com piadinhas baratas e situações estranhas e sem sentido que não levam a lugar algum); e bons momentos como o treinamento na neve, a apresentação da garota, a fuga da instalação militar, fazem um ótimo começo, são instigantes e prometem uma boa continuidade, mas (de novo) tudo se perde com um roteiro falho, com furos feios, e uma direção relaxada. Uma pena.

Zoe Saldana está acostumada a ser heroína-cabide (‘Star Trek’, ‘Avatar’, ‘Os Perdedores’) e teve uma oportunidade de ser a protagonista, em ‘Em Busca de Vingança’ (Colombiana).

Em poucas palavras, o filme é um lixo.

Zoe é muito bonita e tem boa presença (embora seja do estilo esquelética magra-anoréxica, que definitivamente parece mais doença do que beleza), mas o filme é somente uma avalanche de clchês mal conduzidos e nem um pouco aproveitados, que descamba para um vale-tudo, uma salada com muito barulho e explosões e nenhuma substância. Apesar de movimentado, é apático, nulo de emoções, quase sonífero, uma pura perda de tempo.

Por outro lado, há o exemplo de duas franquias de relativo sucesso, com mulheres poderosas na liderança, que se fundamentam na força de suas atrizes e que provam (numa aparente contradição à primeira vista) a necessidade de uma urgente renovação: Kate Beckinsale tem se provado uma ótima atriz, que busca diversificar seus trabalhos alternando filmes sérios com outros de maior apelo popular (que, imagino, devem ser os que realmente pagam suas contas); a recepção morna da quarta edição da série ‘Anjos da Noite’, o ‘Despertar’ (Underworld: Awakening) sinaliza que a fórmula deve estar desgastada. O filme é fraco, percebe-se bem que não têm muita ideia de para onde realmente querem ir e acabam fazendo mais do mesmo, se apoiando integralmente no carisma e presença de Beckinsale. É sempre muito bom vê-la a qualquer momento, mas o filme é cansativo e um tanto irritante.

Com Milla Jovovich, é ao contrário. Ela está tão à vontade e até um tanto acomodada com a série ‘Resident Evil’ que parece não querer fazer outra coisa. Na verdade, a identificação de Milla com a série é tão grande que não nos damos conta de tudo o que ela realiza: somente ao conferir sua carreira no site IMDB foi que constatei que entre Resident 4, de 2010, e o próximo Resident 5 (Resident Evil: Retribution) marcado para estrear no Brasil em setembro, ela participou de 6 filmes! que não têm nada a ver com ficção científica, games, ou coisas do tipo, e já está trabalhando em mais dois.

Seja como for, eu gosto da série ‘Resident Evil’. Apesar de tão criticada pela sua distância cada vez maior do game original, isso nunca me incomodou; eu não jogo nenhum tipo de game eletrônico, portanto nunca passei pela pressão da comparação e pude assisti-la como são : passatempos ligeiros e divertidos, sem nenhum compromisso com realidade ou profundas reflexões, brincadeiras para relaxar e esquecer. Para mim, funcionam assim, nada menos, nada mais.

Com antecedentes tão precários, como se pode dizer que estes próximos filmes farão diferença e abrirão novas portas para filmes de ação firmando como prática contínua em Hollywood personagens femininos com real importância?

Bueno, nada garante isso. Os trailers podem ser enganosos e nos passar uma falsa impressão; os resultados podem ser desastrosos e confirmar a opinião generalizada do ‘verdadeiro’ lugar das mulheres no cinema. Acredito porém que os sinais são bem favoráveis. O cuidado e a atenção que ‘Jogos Vorazes’, ‘Valente’ e ‘Branca de Neve e o Caçador’ estão recebendo, o apuro visual, a diversificação de personagens e caracteres, as tramas diferenciadas, até o momento mostram-se extremamente positivos. Teremos que esperar para conferir.

Jennifer Lawrence, com ‘Jogos Vorazes’ logo logo nos cinemas, dá a partida.

Obscenidade

19 de março de 2012

obscena e indecente é a cabeça de pessoas que consideram obscenas imagens assim:

 

 

Deputado norte-americano propõe projeto de lei que obrigaria as mulheres a continuar a gravidez até o fim, mesmo se o feto estiver morto. E compara as mulheres a porcos, galinhas e vacas.

16 de março de 2012

 

O nobre deputado republicano Terry England, de Georgia, lembrou de seus tempos de fazenda, de quando teve diversas experiências de ajudar os pobres animais a conceberem seus filhotes, vivos ou mesmo mortos, e como dói no coração assistir seu sofrimento… E já que não era suficiente ‘sugerir que se uma vaca ou porca podem dar à luz filhotes mortos, então as mulheres deveriam fazer o mesmo’, England continua o discurso com uma piada que relaciona o aborto com galinhas e rinhas de galo.

Por mais bisonho e escandaloso que possa parecer, há pelo menos um mérito na lei e do discurso do nobre deputado norte-americano: o de deixar escancaradas, sem fachadas pseudogentís e hipócritas, quais as verdadeiras e últimas intenções de quem se coloca contra o aborto, sob quaisquers circunstâncias. O que England diz, é simplesmente, Você, Mulher, Não Pode Ter Controle Sobre Seu Corpo, você não pode decidir, você não tem autonomia sobre o seu mais íntimo, pois Sua Única Função É Procriar. Não interessa se o seu feto já está morto e apodrecendo no seu útero. Não interessa se é um feto anencéfalo ou foi resultado de um aborto. Não interessa se, por qualquer motivação de qualquer ordem, você prefere não dar continuidade à gravidez. Não interessa se você vai morrer ou corre grande risco disso acontecer. Na prática, não interessam as condições da gestação ou de sua vida ou da vida ou morte do feto! O que importa é que você complete a gravidez. E pronto.
Pois, se galinhas, vacas e porcas o fazem, por que você não faria, não é mesmo?

http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/03/16/more-reproductive-insanity-in-the-u-s/

 

 

 

Domitila

16 de março de 2012

“Recordo-me de uma assembléia de trabalhadores, nas minas da Bolívia, já faz um tempinho, mais de 30 anos: uma mulher lançou-se entre os homens e perguntou qual é nosso inimigo principal.

Escutaram-se vozes que respondiam: ‘o imperialismo’,‘a oligarquia’, ‘a burocracia’…

E ela, Domitila Chungara, esclareceu: ‘Não, companheiros. Nosso inimigo principal é o medo, e o levamos dentro de nós.’” Eduardo Galeano

Depois de tantas lutas atrozes, contra ditaduras, contra a ignorância, contra o medo, contra o câncer, contra as sequelas das torturas que sofreu, a boliviana Domitila Chungara, afinal descansa, aos 75 anos.

Pão e Rosas

8 de março de 2012

Há cem anos, precisamente em março de 1912, terminou a histórica luta das mulheres trabalhadoras da indústria têxtil em Lawrence, Massachussets. Durante três meses, elas haviam lutado por condições (menos)desumanas de trabalho, por leis de proteção à exploração do trabalho infantil (crianças começavam a trabalhar com doze, treze anos de idade, com a mesma carga horária dos adultos e muito menor remuneração), pela manutenção dos salários defasados e engolidos pela voragem capitalista. Reuniu milhares de trabalhadoras, de muitas nacionalidades (boa parte era de imigrantes, presas mais fáceis de maior exploração) (havia por volta de 25 nacionalidades diferentes que falavam mais de 40 línguas próprias) em uma explosiva demonstração vívida da capacidade de organização e resistências femininas.

Durante as manifestações, elas gritavam ‘Queremos Pães e Rosas’, uma referência a um poema em homenagem à luta e à vida das mulheres escrito por James Oppenheim. O poema tornou-se, assim, um símbolo das mulheres batalhadoras de Lawrence e por consequência das lutas das mulheres pelo globo. Musicado na década de 70, teve várias regravações ao longo dos anos.

 

Bread & Roses

As we go marching, marching
In the beauty of the day
A million darkened kitchens
A thousand mill lofts grey
Are touched with all the radiance
That a sudden sun discloses
For the people hear us singing
Bread and roses, bread and roses

As we go marching, marching
We battle too for men
For they are womens children
And we mother them again
Our lives shall not be sweetened
From birth until life closes
Hearts starve as well as bodies
Give us bread, but give us roses

As we go marching, marching
We bring the greater days
For the rising of the women
Means the rising of the race
No more the drudge and idler
Ten that toil where one reposes
But the sharing of lifes glories

http://www.lucyparsonsproject.org/iww/kornbluh_bread_roses.html

http://www.socialistworld.net/doc/293