Posted tagged ‘machismo’

“As leis são como as mulheres, estão aí para serem violadas”.

8 de outubro de 2012


Quem proferiu essa lapidar frase de sabedoria moderna (“Las leyes son como las mujeres, están para violarlas”) foi o espanhol José Manuel Castelao Bragaño, ex-presidente de um órgão consultivo para o governo ligado ao Ministério do Trabalho espanhol. Recém-empossado no cargo (havia sido no dia anterior, dia 05) para um mandato que seria de quatro anos, Bragaño falou isso durante uma reunião aborrecido (ou divertido) por conta de um problema burocrático para o fechamento de uma ata.

É, o inconsciente faz dessas coisas de vez em quando, imbecilidades irrompem inesperadamente, faz a pessoa escorregar, e dizer o que pensa, de verdade, no íntimo, agora escancarado.

A reação e o choque foram imediatos.

Pouco depois, Bragaño anunciou sua renúncia do cargo, mas disse que foi por motivos pessoais.

Ao todo, ficou quatro dias no cargo.

Ficou demais.
http://sociedad.elpais.com/sociedad/2012/10/05/actualidad/1349454276_520810.html

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Mulheres da Máfia

2 de outubro de 2012

Não existem mulheres na Máfia.

Era o que se dizia. Era o, digamos assim, puro senso comum.

O impressionante é que, até há muito pouco tempo, isso continuava sendo o senso comum.

De mulheres, haveria somente as esposas de mafiosos que, obedientes, fecham os olhos aos ‘negócios’ dos seus maridos, persignam-se e se calam, quando indagadas de alguma coisa. As mães dos mafiosos que suspiram pelos destinos dos seus filhos. As filhas que, juntamente com as mães e esposas, são protegidas pelo respeito milenar e não são tocadas nem manchadas em sua honra, nem mesmo nas piores guerras entre as famílias, pois caso contrário, se daria direito pleno à vendetta. Que mais? Obviamente, uma outra espécie de mulheres, estas sim perigosas e traiçoeiras: as amantes dos mafiosos que, além de solapar as tradicionais bases familiares, ainda podem carregar armas e praticam pequenos serviços aos seus homens. Destas, pode-se esperar tudo!

Com muito custo, aos poucos foi se percebendo o quanto há de balela nestes mitos tão trabalhados e requentados e tantas vezes propagados pelos meios de comunicação, sendo que o menor não é certamente o cinema de Hollywood. Clare Longrigg começou a partir do final da década de 1980 a pesquisar a participação das mulheres na Máfia ao acompanhar o movimento de várias viúvas de políticos, juizes e policiais vitimas de mafiosos. O movimento formara em 1982 a organização Associação de Mulheres Antimáfia que, corajosamente, exigia maiores atitudes de repressão, ao mesmo tempo em que conclamavam a que as esposas de mafiosos depusessem contra seus maridos.

Muito embora, na maioria das vezes, estes depoimentos fossem encarados com total ceticismo.

Segundo Longrigg, um juiz de Palermo teria declarado, por exemplo, em um despacho judicial que “mulheres não podiam ser culpadas por lavagem de dinheiro porque não possuem autonomia e, de qualquer maneira, são burras demais para tomarem parte no difícil mundo dos negócios’”. Não era, de forma alguma, uma opinião única: “Alguns magistrados ainda mantém a opinião de que as mulheres que tocam os negócios de seus maridos não estão cometendo crime – que a esposa de um mafioso não tem escolha e, portanto, não pode ser responsabilizada moralmente.”

Rita Atria

Com o aumento dos depoentes, principalmente a partir de 1991, e a constatação da profundidade de suas informações, é que se começou a ter uma visão aprimorada do montante de seu conhecimento.

Não só conhecimento as mulheres partilhavam, nem tampouco participação. Se por um lado, a expansão das atividades mafiosas dentro da Itália solapava as rígidas normas hierárquicas machistas ao exigir cada vez maior quantidade de mão de obra, incluindo-se mulheres e crianças, por outro, a intensa repressão e as constantes brigas entre as famiglias, acarretavam a morte, prisão ou a fuga de diversos destes ‘pais-de-família’, abrindo espaços e buracos de poder que precisavam ser preenchidos. E o eram. Pelas respectivas mulheres.Se, anteriormente, elas ‘auxiliavam’ dando os seus nomes para os registros bancários dos maridos (na Itália, não eram sequer investigadas), ou transportavam quantidades de drogas ou armas (não eram revistadas, sequer eram destacadas policiais femininas para isso), agora estavam tomando decisões, movimentando contas, manejando dinheiro, planejando assassinatos, repartindo poder. E também estavam começando a responder por isso.

Desta forma, na Itália “o número de mulheres acusadas de portar e traficar drogas cresceu de 37 em 1994 para 422 em 1995, enquanto o número de acusadas por lavagem de dinheiro aumentou de 15 para 106 e numero de mulheres presas por agiotagem subiu de 199 para 421”. Esta súbita e repentina aparição da importância feminina mafiosa indicava, na realidade, que as autoridades estavam a abrir afinal os olhos.

Tudo isso é até que muito interessante, mas na verdade fiquei até o momento somente no plano da introdução. Clare Longrigg foi bem mais longe. Além de agrupar todos os dados disponíveis minuciosa e cuidadosamente, ela foi atrás e conversou com muitas destas mulheres, tanto das pró quanto anti-máfia. Foi em casamentos, batizados, julgamentos, prisões, compilou as histórias, arrumou os arquivos fotográficos. São histórias tremendas, de mulheres poderosas, ousadas. Impossível não pensar, por exemplo, só para ficar em um único, em Ninetta Bagarella.

Antonieta, ‘Ninetta’, Bagarella era muito inteligente, bonita, consciente do poder da mídia, e era noiva de um aspirante a ‘chefão’, Salvatore Riina, quando, em 1971, foi presa e acusada de estar servindo como ligação clandestina entre vários chefes locais, transmitindo recados ou instruções. O noivo estava escondido e ela a primeira mulher a ser indiciada por ligações com a Máfia (e ela mesmo era filha de um chefe respeitado). Sua defesa foi exemplar. O eixo foi a dedicação que ela tinha ao marido: “Eu amo esse homem. Sou mulher, não sou? Não tenho direito de amar um homem, não é essa a lei da natureza? Vocês perguntam como eu poderia ter escolhido um homem como ele, de quem as pessoas dizem coisas horríveis. É contra a lei amar um homem como Salvatore Riina? Eu amo esse homem porque ele é inocente.

Longrigg conta que “Ela convenceu com sua imagem de sinceridade: ele

Ninetta Bagarella in una foto degli anni 70

estava escondido e ela fazia o papel da noiva saudosa que duvidava do afeto de seu amor.

– Há dois anos que não vejo Riina, nem sei mais se ele me ama.

A imprensa de Palermo apaixonou-se.”

Casaram-se em uma cerimônia secreta e tiveram quatro filhos, que tiveram de ser criados em casa pela própria mãe, que havia sido professora. Também estes entraram para a organização, a seu devido tempo, e sistematicamente receberam a ajuda de Ninetta, quando por sua vez, eram presos. Desta vez, como a Mãe que pedia a compreensão dos homens e o favor de Deus. Em 1996, ela mandava uma carta para imprensa: “Decidi abrir meu coração, o coração de uma mãe que está inchado e transbordando de dor pela prisão de meu filho..] Aos olhos do mundo, meus filhos já nasceram culpados. Ninguém se lembra que quando eles nasceram eu (la mamma) era uma cidadã livre e meu marido era apenas culpado de deixar de deixar de se apresentar durante a condicional. Criamos nossos filhos fazendo enormes sacrifícios, superando tremendas dificuldades, dando-lhes todo amor e apoio possíveis.”

E por ai vai, com muitos ´figlio’ e ´mamma’ espalhados pelo texto, além de respeito á família, ás tradições, etc e tal, só esquecendo de alguns detalhes, como a condenação à prisão perpetua do marido, os atos criminosos dos filhos, etc.

Ninetta Bagarella representa um ‘estilo’ de mafiosa que sabe muito bem aonde e como aplicar pré-conceitos, ilusões e mitos que a Máfia divulgou e difundiu. Outros ‘estilos’ mais diretos e objetivos, como Roseta Cutolo que escapou de mais de nove acusações de assassinato e cumpriu cinco anos de pena por ligação com a Máfia; Teresa Deviato, presa e indiciada por extorsão; Rita Atria, que se tornou colaboracionista da Justiça, não suportou a pressão e suicidou-se em 1992.

E várias outras. “Mulheres da Máfia” é um esplêndido livro-reportagem, de linguagem límpida e direta que nos ajuda a descortinar um pouco mais nossa costumeira realidade.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente no iGLer

“Estupro ‘legítimo’ não causa gravidez”

19 de agosto de 2012


A imbecilidade e a estupidez avançam. Todd Akin, candidato republicano ao Senado norte-americano é contra o Aborto. Em uma entrevista, instado a esclarecer melhor suas objeções, disse: “Antes de mais nada, do que eu entendo do que os médicos dizem, [gravidez como resultado de um estupro] é muito raro. Se for um estupro legítimo, o corpo feminino tem meios de tentar jogar a coisa inteira para fora”.

Isso é tão estúpido de tantas maneiras que é até difícil começar. No entanto, antes de tudo, o que é ‘Estupro Legítimo’?! É a forma impressionante de Akin dizer que, se a mulher ficou grávida, é porque não foi Estupro! Porque se ela tivesse sido estuprada Mesmo, de Verdade, Legitimamente, ora, não haveria consequencias. Através dessa misteriosa forma alquímica conhecida somente por ele, com seus profundos conhecimentos médicos, o corpo da mulher expeliria de forma natural o corpo estranho. Todd Akin deveria ser candidato não ao Senado mas ao Prêmio Nobel de alquimia.

Mas é claro que a entrevista não acaba aí e Akin continua. E nos (raros, segundo ele) casos de gestações que não teriam sido impedidos pelo organismo feminino nos ‘estupros legítimos’, mesmo assim ele seria contra o aborto?

Mas vamos presumir que isso talvez não funcione ou algo assim. Creio que deveria haveria alguma punição, mas a punição deve ser contra o estuprador e não contra a criança”.

Isto é, não importa. Todd Akin é contra qualquer forma de aborto, de qualquer modo, em qualquer circunstância, mesmo quando a mulher corre risco de morte, mesmo quando o estupro foi ‘legítimo’.

Obviamente, a repercussão foi enorme e Akin logo se apressou a dizer que tudo não passou de um mal-entendido, que houve uma confusão e a entrevista: “não reflete a profunda empatia que sinto pelas milhares de mulheres que são estupradas e abusadas a cada ano”.

Sabe, no entanto, o que é mais aterrorizante disso tudo? Não é somente a patética e abjeta posição de um político norte-americano que faz de tudo para ser eleito. É o fato de ter pessoas que concordam com ele e votam nele e o acompanham. Mesmo que não seja eleito (ele concorre pelo estado do Missouri contra a democrata Claire McCaskill cujo partido é forte na região, mas está passando por um desagradável momento de impopularidade por conta da gestão do Barack Obama) (embora, com candidatos como Akin, a coisa fique mais tranquila), o fato é que, em uma pesquisa eleitoral recente, ele teve 6% de intenções de votos. Há pessoas que consideram certo o que ele diz! Que realmente pensam que se a mulher ficou grávida foi porque quis e, portanto, dane-se!

Todd Akin pode ser estúpido e imbecil e seu pensamento profundamente desumano e misógino. O pior, mesmo, é que ele não está sozinho.

Missouri Republican: ‘Legitimate rape’ rarely causes pregnancy
Todd Akin on the The Jaco Report
August 19, 2012
By Michael O’Brien, NBC News

http://firstread.nbcnews.com/_news/2012/08/19/13365269-missouri-republican-legitimate-rape-rarely-causes-pregnancy?lite

Updated 5:18 p.m. — A Republican Senate nominee found himself in hot water on Sunday for suggesting that instances of “legitimate rape” rarely results in pregnancy.

Rep. Todd Akin, a Republican who’s locked in a hard-fought campaign in Missouri to unseat Democratic Sen. Claire McCaskill, was answering a question regarding his position on abortion rights in instances when a woman is a victim of rape.

“People always want to make it into one of those things — well, how do you slice this particularly tough ethical question,” Akin said in an interview on KTVI-TV, video of which was circulated by the Democratic super PAC American Bridge.

“First of all, from what I understand from doctors, [pregnancy from rape] is really rare. If it’s a legitimate rape, the female body has ways to try to shut that whole thing down,” Akin said.

Regarding his opinion on whether to allow for an abortion in such instances, Akin added: “But let’s assume that maybe that didn’t work or something. I think there should be some punishment, but the punishment ought to be on the rapist and not attacking the child.”

Akin’s comments had an almost immediate impact on Missouri’s Senate race. McCaskill wrote on Twitter:

Claire McCaskill@clairecmc
As a woman & former prosecutor who handled 100s of rape cases,I’m stunned by Rep Akin’s comments about victims this AM bit.ly/NahiHz

19 Aug 12
In a statement, Akin said that he had misspoken.

“In reviewing my off-the-cuff remarks, it’s clear that I misspoke in this interview and it does not reflect the deep empathy I hold for the thousands of women who are raped and abused every year,” he said.

Akin emerged earlier this month from a tough three-way primary in Missouri, where he rallied social conservatives behind his candidacy. Democrats actually spent during that primary to help Akin win, viewing the six-term congressman as a less formidable challenger in the general election.

McCaskill, who was first elected in 2006, has become a top target for Republicans this fall, given President Barack Obama’s unpopularity in the state and successive statewide victories for the GOP.

Republicans need a net gain of four seats this fall in order to take over the Senate in the next Congress, and Democrats must defend 23 seats this fall. But unexpected Republican retirements and races that have become more competitive than expected have boosted Democratic hopes of maintaining their majority.

 

 

 

 

Estuprar emagrece. Houve uma época, há muito tempo atrás, as propagandas eram muito machistas.

29 de julho de 2012

 

 
Você pode ser espancada.

Você pode ser estuprada.

Mas nunca passe pela vergonha de estar com os cabelos feios ou mal cuidados.

 

 

1960 / 1970

 

 

 

O mundo do futuro não precisa se preocupar.

As mulheres sempre estarão a postos para fazer faxina e deixar a Lua brilhando de limpeza.

 

 

1960 / 1970

 

 

 

 

Gisele Bundchen e a Hope ensinando as mulheres como devem argumentar com seus maridos.

 

2011

 

 

Dieta do Sexo:

tirar a roupa dela

com consentimento gasta 10 cal
sem o consentimento gasta 190 cal

conclusão:
estuprar emagrece.

2012

 

 

 

Olimpiadas e mulheres da Arábia Saudita

14 de julho de 2012

 

A noticia é até singela, de tão simples: Pela primeira vez, A Arábia Saudita vai mandar mulheres atletas para competir nas Olimpíadas. Duas. Wodjan Ali Seraj Abdulrahim, judoca, e Sarah Attar, corredora dos 800 metros. Naturalmente, nada é tão simples e singelo. Por isso, retomemos o fato em sua devida medida:

Pela primeira vez na história das Olimpíadas, a Arábia Saudita, país que proíbe aulas de educação física feminina nas escolas, onde as mulheres precisam da permissão dos homens (maridos ou filhos) para poder trabalhar ou abrir uma conta no banco, onde os líderes religiosos tinham receio de que jovens virgens rompessem o hímen se praticassem esporte e onde todas são proibidas de pratica-los em público, onde, enfim, nenhuma dessas atitudes mudou em nenhuma instância, este país anunciou a participação de duas (Duas!) atletas. Permissão ou condescendência?

Gostaria de pensar que foi resultado prático da pressão de grupos de direitos humanos que insistiam em pressionar o Comitê Olímpico para que não permitisse a participação da Arábia Saudita, caso não mudasse sua atitude. Gostaria de refletir o tom eufórico da reportagem da 6Cero (“Arabia Saudita, Brunei y Qatar enviarán mujeres deportistas,por primera vez, a Londres 2012“) (de onde tirei essas minhas considerações, assim como de inúmeras outras manifestações que acabei de conferir pela web) e de me emocionar com o fato igualmente inédito de que, desta vez, todos os países terão atletas de ambos os sexos. O ‘El Tiempo’ é ainda mais enfático: “La participación inédita de dos mujeres saudíes en los Juegos Olímpicos de Londres pone punto final a un tabú motivado por sectores religiosos conservadores.” (El Tiempo)

Tenho que reconhecer que qualquer passo, qualquer mudança, mesmo que tão minúscula desta forma, é estupidamente melhor do que nenhuma mudança. E que, mesmo sendo somente duas, só o fato de que elas participarão é, em si, uma notícia transbordante e dá espaço para que novas e mais profundas modificações aconteçam.

Mas devo ser um chato absurdo, meu sorriso fraco, meu entusiasmo é pífio. Não consigo tirar da cabeça o quanto é chocante vivermos em um mundo que precisamos comemorar a participação de duas mulheres (Duas!) em um país inteiro!

Duas!

A beleza de um machista acuado

31 de maio de 2012

Sensacional. O babaca machista e acéfalo começou a xingar e a ofender as mulheres justamente da Marcha das Vadias, em Brasília, justamente no evento em protesto contra o machismo e a violência contra as mulheres! Inclusive ameaçou tirar o pau, chegou a abrir a braguilha.  Quem sabe pensando que teria aval e apoio de outros homens. Com certeza, não esperava a reação que recebeu. Nessa hora, sua ‘dignidade’ machista foi pro espaço.

A coisa só não ficou mais séria porque foi preso pela polícia. Não sei quanto tempo ficou detido (duvido que tenha sido por muito). Mas sei que o machistão aqui passou por um belo aperto, o cu deve ter ficado bem pequenininho.