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Minha Palma

20 de maio de 2012

 

Se os olhos são a janela da alma, a mão é a concretitude do corpo, a materialização, a objetivação.

Não sei se com todo mundo que se separa é assim, mas comigo a coisa mais complicada e angustiosa de quando me separei foi saber o que fazer com as mãos. De repente, de uma hora para outra, eu percebi que elas existiam. E ocupavam um espaço enorme, imenso, muito maior do que o seu diâmetro. Ficavam sobrando no braço, contidas para não fazer besteira. Quero dizer, a gente se cumprimenta, coloca a mão no ombro do outro quando fala, coloca a mão na cintura da menina quando vai beija-la e, conforme a situação e a pessoa permitam, até dá uma apertadinha de leve; para alguns desinibidos, é fácil e natural pousar a mão nos joelhos alheios. Mas, parou por aí. Em um segundo, percebi que anteriormente eu fazia coisas e usava as minhas mãos de um modo como nunca poderia normalmente com simples amigos e/ou (principalmente) amigas.

Mais do que isso, na verdade. Entre minha mulher e eu, havia um pacto, uma liberdade mútua consentida, trabalhada e tornada naturalizada com a realidade da convivência. Era legal. Fazia parte e aumentava o prazer da companhia. Com os demais, não existe este pacto, esta sofreguidão, este desejo consensualizado. (lógico que o desejo sempre existe, somos animais sexuais, mas nem sempre compactuais). Não tenho o direito de mexer e usar minhas mãos como antes. Foi bem difícil me acostumar.

Portanto, levei um bruta susto quando assisti pela primeira vez “O Homem que amava as mulheres”, do Truffaut. Quem assistiu, entenderá perfeitamente o que estou dizendo. Quando o personagem reencontra, por acaso, sua ex-mulher, ele expressa estas minhas mesmas atitudes! Reage da mesma forma como eu mesmo reagi. Fiquei um tanto assustado. Naquele exato momento, naquela cena, aquele cara era eu. Foi chocante, triste, engraçado, assustador e belo, tudo ao mesmo tempo. Que louco!

Em outros níveis, lembro que quando Romeu se encontrou pela primeira vez com Julieta na festa à fantasia na casa dos pais dela, ele tenta beija-la. Julieta brinca, recua, atiça e diz que só aceita ser beijada à moda dos peregrinos (que é a fantasia que Romeu está usando). E o beijo dos peregrinos é com as palmas das mãos! Romeu é inteligente, também brinca, tá no jogo, mas sua para conseguir beija-la de um modo menos santo… Do bardo, ainda lembro vividamente das mãos de Macbeth que não conseguia limpa-las do sangue do rei que acabara de matar e fica lavando, lavando. Em “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, o motivo da reunião de tantos padres naquele mosteiro era uma discussão sobre se Cristo ungia e abençoava com a mão ou somente com os dedos. E disso tiravam toda uma briga sobre a questão das riquezas da igreja!

E há também a terrível história sobre o poeta, músico e cantor chileno Victor Jara, um dos maiores símbolos da resistência à ditadura de Pinochet e de qualquer ditadura em geral. Foi uma das únicas pessoas de todos os tempos que conseguia mesclar de forma magistral mensagens socialistas, paixão, panfletagem, beleza e poesia. A lenda diz que quando foi preso junto com outras milhares de pessoas no nefasto Estádio Nacional, os torturadores cortaram suas duas mãos, colocaram um violão nos seus joelhos e gritaram: “Canta, agora!”

Isto é, a mão como forma concreta de relacionamento, afirmação, confirmação, negação, de barreira, de poder, abnegação.

 

LO ÚNICO QUE TENGO
Victor Jara

Quien me iba a decir a mí
Como me iba a imaginar
Si yo no tengo un lugar
Si yo no tengo lugar
Si yo no tengo un lugar en la tierra

Y mis manos son lo único que tengo
Y mis manos son mi amor y mi sustento
Y mis manos son lo único que tengo
Y mis manos son mi amor y mi sustento

No hay casa donde llegar
Ni paire ni maire estan
Mas lejos de este barriar
Mas lejos de este barriar
Mas lejos de este barriar
Que una estrella

Y mis manos son lo único que tengo
Y mis manos son mi amor y mi sustento
Y mis manos son lo único que tengo
Y mis manos son mi amor y mi sustento

Quien me iba a decir a mi
Que yo me iba a enamorar
Cuando no tengo un lugar
Cuando no tengo lugar
Cuando no tengo un lugar en la tierra

Y mis manos son lo único que tengo
Y mis manos son mi amor y mi sustento
Y mis manos son lo único que tengo
Y mis manos son mi amor y mi sustento

 

 

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