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A Love Supreme – A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane

11 de setembro de 2012

 

Em “Acknowledgement” John Coltrane pulsa rápido seu sax tenor e Elvin Jones retine o metal em uma introdução forte, simples e curta. É uma conclamação, um chamado. Um aviso. Saberemos logo em seguida o que significa. Enquanto o tema se impõe, Coltrane sola e aos poucos as quatro notas se repetem, falam a frase-título, ‘a-love-su-preme’, como um mantra, o reflilhão da liturgia jazzística que está a se impor. O som cala fundo. É, ao mesmo tempo, calmante, reflexivo, introspectivo, indagador, experimentador. Há controle e fuga, viagem e condução, reflexos da busca de Coltrane, que volta com o mantra, experimentando-o em diversos tons, fôlegos, aspirações, até mesmo com a voz, a de Coltrane e de mais alguém.

Em ‘Resolution’, o segundo movimento da suíte de Coltrane, há de novo outra conclamação no inicio, mas desta vez é uma verdadeira tomada de posição, é o próprio vigor da emoção dos músicos se manifestando. O que havia de discreto e simples no movimento anterior aqui explode. Para mim, é o momento mais fascinante, a ponto de me arrepiar o cabelo. Depois de muito tempo, aquela melodia ainda persegue a memória. MacCoy Tyner toma conta do tema com seu piano e logo volta à bola para o líder, que a retoma com mais emoção ainda.

Segundo nos mostra Ashley Kahn (“A Love Supreme – A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane“, editora Barracuda) ao ouvir as gravações originais dos takes de estúdio, houve normalmente algumas tentativas, voltas e retomadas, como era natural. Coltrane podia retornar várias vezes, como o fez nos dois primeiros movimentos (‘Resolution’ teve seis takes falhados ou imperfeitos, antes dele se contentar com o sétimo) (e é sempre interessante, quando ouvimos somente o resultado final, como poderia ser realmente diferente daquilo que foi; é claro, não poderia). ‘Pursuance’, o terceiro movimento, foi levado de uma só vez, um único take. Para mim (e isso está longe de ser uma avaliação fria e objetiva) é o momento mais nervoso, mais agitado, mais viajante. Sem dúvida, é a bateria de Elvin Jones e seu “estilo ‘bastante ativo”, e sua forma toda particular de misturar e trazer os ritmos “africanos e caribenhos para a bateria de jazz tradicional”, ao abrir o movimento, dá o tom geral. Pelo menos, é como aparece para mim. Jimmy Garrison com seu baixo dá um breque, puxa o tom para baixo, soa solene, profundo.

Quase não sentimos a transição para o quarto movimento, o ‘Psalm’, pois Coltrane pega o tom intimista de Garrison e o aprofunda ainda mais. E aqui é preciso respirar fundo. O sublime acontece. Coltrane se fecha, seu sax se aquieta, os sons se acalmam. Os demais músicos o acompanham, mas servem somente como pano de fundo. Pois Coltrane assume um tom de oração. Neste momento, através do Jazz, ele está orando, conversando com Deus.

“A Love Supreme” é uma composição, uma suíte jazzística, criada no apogeu da capacidade artística de John Coltrane e seus companheiros McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria), como uma elegia, uma canção de louvor ao Senhor. Não é blues (embora, uma ponta aqui e acolá apareçam por conta da extrema versatilidade das influências e do conhecimento de Coltrane), nem gospel (a inspiração existe, é claro, mas somente como inspiração). É jazz, no seu extremo. Feita para tocar o sentimentos humanos, beirando no sublime religioso.

Talvez, para quem me conhece, até estranhe minha referência e o meu fervor em uma composição que possui tal grau de dedicação religiosa. Fico sinceramente ofendido com este tipo de pensamento. É como se meu ateísmo me impedisse de reconhecer a beleza e a cultura dos que cultivaram sua veia religiosa e conseguiram expressá-la com fervor e arte (como quando um amigo, grande amigo aliás, ficou um tanto chocado ao saber que eu curtia e apreciava o ‘Messias’, de Haendel; até pensei em responder que o pensamento rasteiro e o preconceito estavam vindo dele e não de mim, mas deixei quieto).

Portanto, se como ateu posso me impressionar e me comover até ás lágrimas com um ‘Messias’ ou com ‘A Love Supreme’, mesmo sem compartilhar de suas convicções tão intimas (e, de certa forma, até devo fazê-lo, pois o que me pega é sua música, sua arte, tão genuinamente humanas e belamente realizadas), não se pode deixar isso de lado quando se pensa em sua formação, em sua construção, em seu objetivo. Claro, para um rapaz de poucos anos atrás que estava se iniciando em sua formação musical e havia se impressionado com o disco ‘Standards’, de Thelonious Monk (foram as primeiras notas de ‘Memories of You’, que me conquistaram definitivamente para o jazz), e com o ‘Pithecanthropus Erectus’, de Charles Mingus (e tinha acabado de assistir a biografia de Charlie Parker, ‘Bird’, do Clint Eastwood, e se encantado), demorei um bom tempo para conhecer e apreciar de verdade este trabalho de John Coltrane.

Me lembro vividamente até hoje o exato instante da coisa: havia decidido saber, afinal de contas, qual o grande X deste tal Amor Supremo, preparei meu lugar com cuidado, me fechei para o mundo, acionei o braço da agulha e a rotação do disco dando um ligeiro tranco para a direita, ligando assim o aparelho (no ‘toca-disco’, aquele aparelho ancestral e longínquo que tocava o long-play, a mídia da época, que até se parecia com um cd dos de hoje, só que preto e bem maior), sentei, relaxei, ouvi e fiquei estupefato com a minha própria estupidez em não tê-lo ouvido com a devida atenção há muito tempo atrás!

O impacto de “A Love Supreme” foi absurdamente tremendo na época do seu lançamento. Até hoje, é o disco de jazz mais popular de todos os tempos e um dos mais vendidos (mesmo levando-se em conta a péssima condição das estatísticas relativos ao mercado de jazz e o virtual desconhecimento de cifras e números que reflitam o montante real de suas vendas; o que se pode fazer é uma avaliação aproximada). Lançado em 1965, influenciou e foi reverenciado não só pelos músicos, mas, na prática, pelos movimentos sociais e políticos (década de sessenta, lembre-se, momento dos grandes movimentos de afirmação negra norte-americana e pelos direitos civis), religiosos, e no plano artístico em específico, deixou marcas profundas em todo o universo musical, e não somente jazzístico. Ashely Kahn ajuda a rastrear esse impacto e essa influência, neste livro que eu teria pago com um pedaço da minha existência para poder ter lido na mesma época que estava começando a ouvir jazz (e ao qual fiquei cobiçando desde o primeiro instante que soube que fora editado nos Estados Unidos; sentimentos que chegaram a uma verdadeira aflição quando soube seria editado aqui no Brasil pela Barracuda).

Ashley Kahn escreve sem frescuras, sem pedantismos, sem demonstrações de gíria de músico-escrevendo-para-músico, e ao mesmo tempo sem didatismos infantis dirigidos para um ‘grande público’, sobre como foi o nascimento desse disco, sua gênese e repercussões. Com estilo claro, simples, de um apaixonado pelo jazz, com farta documentação (entrevistou músicos ainda sobreviventes do grupo de Coltrane e pessoas ligadas ao redor, assim como à viúva do saxofonista e seu filho, também músico, Ravi Coltrane), com trechos de entrevistas ainda inéditas do próprio Coltrane (ele não era muito dado a dar entrevistas, acreditava que sua música falava por si mesma e por ele, portanto não falava muito; Kahn aproveita um pouco disso), e muito material fotográfico também inédito.

Portanto, essa edição da Barracuda é uma delicia de se ler, visualmente linda, informativamente embasada, serve tanto para os que já conhecem todos os detalhes (para renovar sua devoção) quanto para os calouros que estão chegando e ainda não sabem o tamanho desse universo.

Para esses, eu diria o seguinte: esqueça o jazz. É, simplesmente deixe de lado. Pegue esse livro e curta-o como um pequeno romance, um artigo de jornal (um ótimo artigo de jornal) um pouco maior do que o comum. Se você tiver o disco ou o cd à mão, ainda melhor, mas deixe-o somente como um pano de fundo, bem baixinho. Não preste atenção na música, neste primeiro momento, não tente entendê-la. (certa vez, Coltrane disse que bastava ouvir a música, não era necessário compreendê-la, não adiantava tentar explicar, o ‘sentir’ vinha primeiro e era mais importante). Portanto, deixe-a de fundo, não a ouça. O que estou tentando dizer, ao final, é: não force a percepção. Leia e deixe fluir.

Ao término da leitura, você pode ter sentido um êxtase religioso ou tomado um novo rumo em seus gostos musicais e ter decidido até se tornar um saxofonista. Ou não. Tenho certeza absoluta que terá tido, pelo menos, uma leitura extremamente agradável, eu garanto.

 

 

 

 

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Charles Mingus, Saindo da Sarjeta

27 de junho de 2012

 

A narrativa como Jazz.

Ralph Ellison, um dos mais importantes escritores norte-americanos (e é bom especificar: escritor negro norte-americano) disse certa vez que costumava encarar sua escrita como uma espécie de música: quando empacava, quando a história parecia que não queria andar, ele se soltava e deixava sua mão correr como um solo de jazz ou um improviso de blues. Ler seus livros traz mesmo essa sensação fluida, corrente, e ao mesmo tempo, densa, profunda. Vôo de imaginação com segurança e controle, liberdade e mestria. Jazz.

De outro grande autor negro norte-americano, Chester Himes, não cheguei a ler alguma declaração parecida, mas nem é necessário: suas histórias violentas, seus romances policiais passados no Harlem, seus personagens locais, estas figuras, os tiras e gangsters e viciados e prostitutas e empresários negros vítimas ou algozes de uma sociedade profundamente corrompida, alterada, racista, são todos regados a bebidas, drogas, sexo, discriminação e muita música, soul, blues, calipso. Jazz.

Creio que nenhum dos dois fosse músico ou tivesse alguma intimidade maior com instrumentos musicais (até onde sei). Sua arte era a escrita. Tão influenciada, regrada e convivida com o jazz até a medula. Eram considerações do tipo que remoíam minha mente ao começar a ler a autobiografia de Charles Mingus, obra quase tão famosa e mítica quanto o seu próprio trabalho musical. Bastam alguns parágrafos para perceber que uma acompanha a outra. Sua escrita é jazz.

Tanto que, na verdade, tentei uma certa experiência pessoal. Coloquei ‘Pithecanthropus Erectus’ no som e abri o livro.

Mesma cadência, mesma batida, o nervosismo sísmico, a experimentação, a busca, a descoberta de sonoridades tão inusitadas, a empolgação em cada nota e em cada letra. A música bate no coração, imprime uma profunda inquietação. ‘Pithecanthropus Erectus’ tem a capacidade de me deixar inquieto, sedento, desassossegado, jazz sempre fez isso comigo, e com Mingus atinge graus máximos de adrenalina. Nunca precisei realmente de drogas para viajar, me tirar do eixo. Livros faziam por. Música alucina.

Mingus poderia contar de sua vida e já seria algo de extraordinário, sua luta, dores e música são o suficiente para impressionar e fazer pensar. Ele vai além do que, simplesmente contar sua vida. Gosta de inventar, de buscar, tanto em um quanto em outro. Não basta simplesmente narrar. Ele ousa, plaina, voa, inventa, sola, deixa a mão correr. Para começar, o livro é em terceira pessoa.

Uma autobiografia! em terceira pessoa é, no mínimo, uma novidade. De imediato cria uma sensação de estranhamento e de reflexão. Mas é só o começo. Longos planos narrativos, monólogos e escrita quase automática (solos?) se alternam com momentos em que muitas vozes se acompanham e se interpenetram, em um jogo narrativo fascinante e palpitante.

Veja-se, por exemplo, o capítulo quando ele conhece o pianista Art Tatum: sem fazer nenhuma interrupção, cada parágrafo é um ‘diálogo’ com pessoas diferentes, que se substituem, criando um efeito de fluidez impressionante. A conversa com o pai (onde reafirma sua opinião de que existe sangue branco na família, eles seriam descendentes diretos de Lincoln!) ao desabafo com a mãe: voleios amplos, solos de um instrumento, de uma voz. O nascimento do primeiro filho, a rapidez das situações, pequenos trechos detonando e exibindo um virtuosismo pleno, e com poucas notas, frases, distinguindo nuances e insinuações; com poucas linhas, revela todo o fracasso de um relacionamento.

Cada capítulo, portanto, tem um movimento diferenciado, é uma experiência renovada, pois nunca se sabe não só o que será narrado, mas principalmente, o compasso. Mingus se revela um escritor extraordinário tanto quanto músico!

Minha experiência, no entanto, foi um fiasco. Frustrado, não conseguia ler seu livro enquanto ouvia sua música. Tentei outro disco, mas o resultado foi o mesmo. Não entendi. Ok. Deixei rolando uma rádio de jazz e a deixei de fundo. Concentrado na leitura, só depois de algum tempo percebi que a coisa fluía e, curioso, parei para prestar atenção no que estava tocando. Chet Baker. Chet Baker?! Entenda-se, nada contra Chet, mas nunca imaginaria que sua voz ‘aveludada’ pudesse ser um contraponto perfeito a Mingus.

Porém, pensando um pouco, até que faz um certo sentido. ‘Pithecanthropus Erectus’ mexe com as sensações e exige atenção, tornando impossível uma aproximação média. Tal qual sua obra musical em si (nem pensar em simplificações e deixar ‘Pithecanthropus Erectus’ como exemplo-mor e/ou único de sua mestria, como já vi alguns fazerem…), há um trânsito intenso e constante entre as raízes e as experimentações, resgatando a história e prenunciando um free jazz, por exemplo, compassando momentos até líricos com fervorosa e feroz plataforma política contra a discriminação e o racismo.

A primeira edição de ‘Beneath the Underdog’ (“SAINDO DA SARJETA” até que é uma boa solução para o título, mesmo que transversal) é de 1971, uma época relativamente calma em sua vida, depois do inferno pelo que passou na década de 60. Altos e baixos, interrupções na carreira, tratamentos médicos (inclusive psicanálise) e saltos de genialidade, foram sempre sua marca, nunca poderia ser ‘normal’ e foi assim até sua morte em 1979. ‘Saindo da Sarjeta’ é uma obra-prima literária escrita por um artista que não se conformaria em fazer por menos.

 

 

Sax Appeal para Hitchcock. Quando ainda não era Hitchcock.

24 de abril de 2012

 

Parece que está havendo uma onda interessante de projetos que envolvem o mestre do suspense. Já comentei de um filme em produção neste exato momento com o Anthony Hopkins no papel principal, o do próprio diretor. Agora soube de uma viagem bacana promovida por um jovem saxofonista inglês chamado Soweto Kinch, jazzista que está balançando o ritmo musical britânico com uma mistura inusitada de jazz e hip hop, com resultados muito inovadores e agradáveis. Kinch está montando um disco, compondo uma trilha sonora para o filme mudo de Alfred Hitchcock, THE RING, de sua fase inglesa em preto-e-branco, quando o diretor ainda não havia formatado sua identidade cinematográfica, e transitava entre comediazinhas e melodramas românticos.

Como é o caso aqui de The Ring, um drama de boxe que foca um triângulo amoroso. Mesmo tão cedo, podemos reconhecer no jovem Hitchcock muito dos maneirismos que lhe fariam a fama mais tarde, como os jogos de câmeras diferenciados, excelente trabalho de iluminação, roteiros instigantes. Não é exatamente um bom filme, mas já chamava a atenção, mesmo na época, o que lhe permitia fazer algumas experimentações até nesses filmes bobinhos e populares.

Soweto Kinch se diz bem consciente da distância entre um melodrama de 1927 de um diretor já talentoso mas ainda inexperiente, e o mundo do jazz mais-que-arquimoderno de 2012 e, no entanto, o projeto é ainda maior: ele convidou vários músicos para comporem trilhas para outros filmes do Hitch (segundo a reportagem da BBC News: Nitin Sawhney para The Lodger, de1926, Neil Brand para Blackmail 1929, o compositor de música eletrônica experimentalista Mira Calix para Champagne, de 1928, e um novato para o primeiro filme de Hitchcock, The Pleasure Gardenum, de 1926, Daniel Patrick Cohen).

O que vai sair disso, não faço a menor ideia. Pode dar em algo divertido e diferente, um tanto irreverente. Ou uma merda retumbante. Mas devo dizer que gostei dessa irreverência, da vontade de fazer coisas novas em cima de velhos trabalhos artísticos. Gosto da maneira respeitosa com que estão tratando esse material (ou, ao menos, pelo que transparece na reportagem, espero que seja assim). Pode resultar uma salada intragável, mas por conta dessa vontade de experimentar, pra mim já tá valendo.

http://www.bbc.co.uk/news/entertainment-arts-17769800