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‘Neonomicon’: o genial e o lixo de Alan Moore

18 de maio de 2013

 

‘Neonomicon’chega ao Brasil carregada de polêmicas, críticas, expectativas frustradas e considerações ácidas sobre uma suposta decadência criativa de Alan Moore. Mesmo os elogios e as críticas positivas são acompanhados por várias ressalvas e o entusiasmo nunca é muito profundo. O embaraço ficou um tantinho maior quando o próprio autor disse que escreveu ‘Neonomicon’pelo dinheiro, por conta de umas dívidas apertadas com o imposto de renda (e mesmo que ele enfatize que isso em nada influiu na seriedade de sua escrita e no seu compromisso de entregar um bom trabalho, em geral as pessoas só se lembram da primeira metade da frase).

A narrativa reta e direta pode fazer com que a história pareça simplificada em excesso (embora essa aparente simplicidade esconda subtextos e camadas de representações); a violência sexual explícita e escancarada pode parecer desnecessária e exagerada ou deslocada (o que ajudou a criar o clima de choque e o sentimento de repulsa de leitores norte-americanos); os elementos do universo do escritor H. P. Lovecraft podem ter sido desviados e apropriados de forma indevida ou, conforme o costume de Moore, livre e pessoalmente adaptados. Para variar, mesmo em suas obras menores, ele consegue causar sensação, e o repúdio ou admiração são tomados como paixões sem gradações.

Acontece que Alan Moore, mesmo quando erra, mesmo nos erros monumentais, ainda consegue ser o melhor escritor de quadrinhos da História.

Em 2003, a editora independente de quadrinhos Avatar Press, conhecida por sua produção alternativa de trabalhos que fogem do mainstream e por não impor nenhuma trava ou limites aos seus autores, adaptou um conto de Moore, “O Pátio”(“The Courtyard”) que fazia referência a personagens e ao clima das histórias de H.P. Lovecraft, ambientada nos dias atuais.

Cultos secretos, seres ancestrais e abomináveis, línguas desconhecidas, universos estranhos e psicodélicos, violência, medo, desconhecido, Cthulhu, Akla. Os temas lovecraftianos sempre estiveram presentes na obra de Moore e podem ser identificados ou citados em vários momentos, do ‘Monstro do Pântano’e Constantine a ‘Watchmen’e a ‘Liga Extraordinária’ e assim por diante. Em ‘O Pátio’ o agente federal Aldo Sax acredita que uns assassinos psicopatas e certos cultos satânicos antigos estão relacionados com o tráfico do que pensa ser uma nova e poderosa droga chamada Akla que está circulando em circuitos de bandas de punk rock. A adaptação escrita por Antony Johnston, tendo Moore como uma espécie de assessor literário, e ilustrada por Jacen Burrows, resulta em um quadrinho extremamente denso e pesado, uma curta história em duas partes que deixa o leitor sem fôlego pelos mistérios apresentados e a rapidez da solução. O suspense é construido com cuidado, pela apresentação de personagens estranhos ou diretamente desagradáveis (Aldo Sax é um agente muito inteligente, brilhante até, racista e arrogante) e pela estruturação de um ‘método’de investigação de crimes diversos, em especial aos mais hediondos que, à primeira vista, não parecem ter nenhuma ligação.

O método e a psicopatia sofrem uma brusca virada quando o caso se transforma, de meros assassinatos, para algo mais profundo e aterrorizador. As sutilezas do texto de Moore acompanhadas de perto pela imagem limpa e vibrante de Jacen Burrows funcionam com perfeição: a violência é tangencial, não gráfica, quase nada é mostrado com plenos detalhes, a não ser quando ocorre a explosão psicodélica. No entanto, o impacto é ainda maior por causa do tenebroso e sensacional final-porrada, onde se sabe tudo o que está acontecendo somente pela fala do personagem. De arrepiar, uma das melhores conclusões de narrativa que conheço.

Anos depois, a Avatar Press instiga o autor a retornar ao universo lovecraftiano com texto inédito, e Moore, como se disse, aceitou premido por problemas financeiros. Com o mesmo ilustrador Burrows, ‘Neonomicon’torna-se uma minissérie em quatro partes que se configura como uma continuação de ‘O Pátio’ embora sejam independentes e possam ser lidas muito bem em separado.

‘Neonomicon’retoma a história de ‘O Pátio’do ponto que havia terminado. O agente Aldo Sax agora está preso e internado no hospício, ele mesmo considerado um louco homicida psicopata que só se comunica com o mundo externo através de uma língua estranha que ninguém entende. Os agentes Gordon Lamper e Merril Brears assumem a investigação dos assassinatos anteriores, mas frustram-se com a impossibilidade de obter informações de Sax.

Merril, no entanto, tem uma pequena vantagem sobre os demais: ela conhece algo da obra de Lovecraft e percebe que há uma relação forte entre sua literatura, as mortes, a loucura de Sax e os cultos satânicos. Que não seriam satânicos, e sim lovecraftianos, isto é, reunindo fanáticos que acreditavam que seus contos de terror não eram fictícios, que os deuses e monstros primordiais e abomináveis são reais e estão para voltar. Tudo misturado com o clube de punk rock, alucinações, indústria de filmes pornográficos e rituais de orgias e sadomasoquismo. O que os leva a Salem, cidade natal de Lovecraft e palco da maioria absoluta dos seus escritos, e que pode ser o epicentro dos tais cultos.

Não há mais sutilezas aqui. Moore não está interessado, não tem tempo ou paciência para sutilezas e as manda para o espaço. O horror, as mortes, as vísceras, os monstros, estão expostos e escancarados. Tortura, orgias, bizarrice, sangue, estupro, com detalhes e cenas prolongadas. O ritmo e a velocidade da narrativa também estão mais rápidos, sem espaço para elucubrações psicológicas (como havia em ‘O Pátio’, o que pode levar a uma falsa percepção de que o enredo é raso e vazio, repleto de clichês. Os clichês estão presentes, claro, e em alguns pontos ele escorrega feio e emprega umas soluções bem pouco convincentes (como, por exemplo, Merril ser míope induz a algumas situações constrangedoras para o leitor, quando ela está sem as lentes de contato) (ou uma cena de masturbação que parece tirada de sitcom).

O roteiro tem problemas estruturais sérios. As diversas partes avançam aos pulos e o ritmo se quebra em momentos inadequados, em especial da terceira para a quarta parte, o que provoca um vácuo emocional (ainda mais considerando o peso da violência logo antes) transformando o final em um longo e incômodo anticlímax. Dessa forma, a construção dos personagens que havia sido primorosa até então (sentimos empatia e cortesia pelos personagens principais e sofremos por seus problemas, muito diferente do que fora com Aldo Sax: Merril acabou de passar por uma experiência traumática em uma missão anterior; Gordon está passando por um casamento morno e um tanto complicado), tudo torna ainda mais inconsistente (até incomprensível) a reação e o comportamento de Merril depois da cena mais chocante. Não que a tal reação fosse impossível (talvez ‘só’muitíssimo improvável), mas não há tempo (ou disposição) de Moore para torná-la crível.

Por outro lado,

se furos e problemas existem (como realmente concordo), não há como negar que trechos brilhantes também estão presentes e são excepcionais. Os diálogos tem naturalidade e fluência e são repletos de subtextos e camadas. Além do que, mesmo nesse enredo rápido, Moore desfila erudição e conhecimentos pop e de literatura de terror (em especial a de Lovecraft, claro), como de costume. Os personagens têm densidade e, como dito, são bem construídos, mesmo que não tão bem finalizados. O suspense é diluído e espalhado, há mais situações de estranheza e bizarrice do que de medo em si, até o momento quando o verdadeiro terror acontece e a violência irrompe.

Um grande momento (o melhor de ‘Neonomicon’e que por si vale toda a leitura da obra) é o da segunda descida ao corredor subterrâneo do culto em Salem. Aqui sim reconhecemos o Alan Moore escritor de alto quilate, com a escrita envolvente e poderosa, o suspense em alta tensão a ponto de fazer contrair os músculos do corpo. Na primeira descida, o enredo é linear e direto, acompanhamos a linha do percurso subterrâneo e as incertezas são óbvias: sabemos que, em algum ponto do caminho, as coisas ficarão feias e sairão do controle. Da segunda vez, o que poderia ser simples e repetitivo, torna-se tenso e inesperado, a cena é complexa e detalhada, fragmentada e dividida pela fala de Merril e nós mesmos nos espantamos com o espanto dos agentes federais, muito embora tal qual Merril, saibamos exatamente o que será encontrado, e mesmo assim somos afetados.

E é esta cena memorável, já na quarta parte, logo antes da conclusão geral chocha, sem força e anticlimática, que torna ‘Neocomicon’uma obra contraditória, irregular, cheia de falhas e ainda assim imprescindível da lavra de Alan Moore.

Um detalhe muito interessante da edição nacional da Panini, além da publicação integral sem cortes em um único volume, é o de terem colocado também ‘O Pátio’ que se tornou uma espécie de prólogo de luxo. Como disse, as duas obras são independentes e não impedem a compreensão se lidas em separado. Mas não deixa de ser um detalhe simpático.

texto publicado originalmente na revista eletrônica de literatura e artes, VERBO 21

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Verbo 21, Outubro, e Alan Moore

22 de outubro de 2012

 

opa, número novo da VERBO 21 e opa, texto meu, tinindo de novo, sobre ‘Neonomicon’, quadrinhos de terror, violência e suspense de Alan Moore, publicado no Brasil pela Panini. Cercado de polêmicas, discuto se esse recente trabalho mostra realmente sinais de decadência do melhor escritor de quadrinhos de todos os tempos.

Mas, obviamente, VERBO 21 traz muito mais do que um texto meu:

Ano 13, número 159, outubro 2012

Neonomicon: o genial e o lixo de Alan Moore – Claudinei Vieira
Tradução: Quatro poemas de Paul-Jean Toulet – João Filho
JOSÉ WEIS: NEM CINISMO, NEM DOCE-LIRISMO – Sidnei Schneider
Gente da Minha Terra – Maria Lucília Viveiros Araújo
Perdendo a noção: um intertexto que se cria – Juliana Assis
A ANTOLOGIA METAPOÉTICA DE ANDERSON BRAGA HORTA – Claudio Sousa Pereira
Foucault, as genealogias e os poderes – Tatiana Sena
SUTILEZAS DO EROTISMO EM ROLAND BARTHES- Rodrigo da Costa Araujo
O Poeta Utópico – Mariel Reis
Cinema na televisão: considerações sobre o telefilme – Leonardo Campos

conto de Dênisson Padilha Filho
COLUNAS:
Aguacesa
Bordado sem dedal
Daguerreótipos
Diálogos
Os Gallos
Vértebra

ENTREVISTAS:
David Léo Levisky
Salgado Maranhão

http://www.verbo21.com.br/

Mulheres Maravilhas

6 de outubro de 2012

Mulheres Ms

The Black Justice League

26 de setembro de 2012

Que tal uma visão um pouco diferente da tradicional Liga da Justiça?

‘O Fotógrafo’ revela o ser humano, além do Afeganistão, além de ‘aldeias globais’

27 de julho de 2012

 

Faz um tempo que não se ouve o termo ‘Aldeia Global’, tão repetido há poucos anos ao se referir à proliferação e à rapidez das informações mundiais proporcionadas pela sofisticação da tecnologia. As duas palavras exprimiam a surpresa, o espanto e até mesmo uma certa estranheza perante a imensa facilidade com que essa tal tecnologia nos permite acompanhar acontecimentos em tempo real de qualquer canto do planeta, e de conhecer povos e culturas inacessíveis na prática para a grande massa de pessoas. Hoje, basta um clique. Ou dois, conforme o link e o arquivo a serem acessados.

O termo caiu em desuso (quando dito, é quase sempre com um toque de ironia na voz ou na escrita), embora não somente pela intensa repetição que o esvaziou de toda a sua pretensa originalidade anterior (a ponto de torná-lo insuportável de ser ouvido), mas por conta de dois fatores fundamentais e impossíveis de serem previstos: por um lado, a realidade revelou-se ainda mais potente e as consequências das novas tecnologias mais impressionantes do que se poderia imaginar.

Estamos na fervura, no ponto limite entre transições, onde sabemos que nossa forma de pensar o mundo, nossa cultura, e nosso conhecimento, sofrerão (estão sofrendo) modificações com uma força tremenda e profunda, mas não há possibilidade (nem temos a capacidade) de sequer entender para onde iremos; isto será respondido somente por essa geração que está nascendo agora já com bits na cabeça e tablets na mão e com a naturalidade de quem cresce acessando internet e compartilhando redes sociais quase que ao mesmo tempo que está sendo alfabetizada. Nesse sentido, portanto, se ‘Aldeia global’ foi de alguma utilidade na época em que foi formulada, agora é de uma fraqueza e insuficiência vergonhosas.

Além do mais, o termo é um clichê, isto é, se enraizou em nossa mentalidade e é facilmente reconhecível, o que esconde seu aspecto mais complicado e nocivo: ele proporciona a sensação confortável, agradável, e falsa de que realmente conseguimos conhecer outros mundos. Podemos acompanhar uma partida de NBA nos Estados Unidos enquanto ouvimos notícias quentíssimas vinda de Tóquio ou sabemos da apuração dos votos para a presidência do Egito ou da França, e até aí tudo bem, pois as informações são necessárias e estabelece-se um vínculo entre o que somos com o que acontece a nossa volta.

O problema começa quando se relaxa para um tipo de sentimento de familiaridade rasa a partir de simplificações. Como se conhecêssemos a Antártida por um documentário do Discovery Channell. Como se conhecêssemos a disposição política dos imigrantes turcos pela Europa pelos noticiários da CNN. Como se a morte de Osama Bin Laden nos fornecesse a chave para o entendimento dos talibãs e dos movimentos islâmicos. Como se entendêssemos o que é ‘Afeganistâo’ pelo tanto de vezes que ouvimos a palavra ou vemos imagens esparsas de guerrilheiros com metralhadoras a tira-colo.

Além de todos os méritos e picos artísticos e estéticos que ‘O Fotógrafo’ possui, ainda há esse ponto, o de demonstrar que nós realmente não sabemos do nosso próximo. Que, por trás das fachadas das notícias e clichês veículados por bits de computador e ondas de televisão, o que existe é o Ser Humano. Com suas idiossincracias, defeitos e qualidades próprios, que nos podem estranhar ao primeiro contato. No entanto, em essência, Humano. Ao nos contar de um pedaço do planeta e de um período histórico tão falados e repercutidos, mas que se perdem no emaranhado de meias-verdades e mentiras-inteiras, nos apercebemos o quanto em verdade somos ignorantes.

Esqueça o que você pense saber e deixe de lado os estereótipos. Você não conhece o Afeganistão.

É sempre um prazer observar as expressões no rosto de uma pessoa que faz seu primeiro contato com ‘O Fotógrafo’. Tive a oportunidade de presenciá-lo umas três ou quatro vezes, seguem um mesmo padrão, e fico a imaginar que eu devo ter feito expressões idênticas. A princípio, há a surpresa por haver fotos em preto e branco ao lado e misturadas com as ilustrações coloridas e sóbrias; depois, o reconhecimento de como parece natural esse relacionamento (não se pensa a essa altura como deve ter sido trabalhoso chegar a esse nível de naturalidade), e logo então o deleite por percorrer as páginas e observar que o projeto gráfico se mantém com segurança e beleza.

Dependendo do tempo que se disponha nesta primeira aproximação, a atenção se foca para o texto, lê alguns trechos e (agora já sem uma grande surpresa, mais uma curiosidade atiçada) constata-se que o tom sóbrio e delicado da narrativa perfaz um conjunto perfeitamente harmônico e coerente. Em geral, até solta-se um suspiro de leve: é a afirmação para si mesmo de que se está diante de uma obra inusitada, particular e marcante. Somente bem mais tarde, ao término da leitura do último volume, confirma-se as impressões desse primeiro momento: ‘O Fotógrafo’ é uma obra-prima.

Em 1986, o fotógrafo Didier Lefèvre acompanha um grupo de Médicos Sem Fronteiras para atender regiões carentes de qualquer tipo de atendimento de saúde, em áreas de conflito bélico pesado. Eles carregam remédios, a extrema boa vontade de doutores abnegados e experientes em atendimento de risco, além da perseverança, paciência em percorrer caminhos isolados e sensibilidade para reconhecer situações delicadas. Lefèvre registra com suas lentes o trajeto, os passantes, os componentes da expedição que parte do Paquistão e adentra por um Afeganistão desconhecido, até então, pelo fotógrafo. A viagem rende dezenas de rolos de filmes, centenas, milhares de fotos, dos quais somente seis são publicadas e percorrem o mundo. A experiência foi tão marcante e ele ficou tão fascinado pelo país que retornou várias vezes (oito, ao total), e a frustração por tão pouco de suas andanças terem sido divulgadas que escreveu um livro onde pôde se expressar com mais detalhes. O jovem quadrinista Emmanuel Guibert também se empolgou pelas histórias de Lefèvre e durante anos os dois discutiram a forma de transformá-las em uma obra que pudesse aproveitar as imagens de tantas fotos desperdiçadas. Guibert escreve a adaptação, narra a primeira viagem de 1986 (que durou por volta de dois meses), e faz os desenhos e todas as ilustrações, e Fréderic Lemercier cuida das cores, diagrama a hq e cuida do projeto gráfico da obra como um todo.

Em 1986, o Afeganistão estava em pleno combate para expulsar os soviéticos de suas terras, com o auxílío (logístico e financeiro) dos Estados Unidos. (Portanto, o que virá depois, da derrota da União Soviética em manter suas tropas, a ascensão dos talibans, e o posterior, está fora do âmbito desta obra).

Na prática, esta é toda a conxtextualização histórica imprescindível para adentrar no universo de ‘O Fotógrafo’. Como Lefèvre é o novato da turma e o narrador da história, automaticamente é através dele que vamos entendendo os meandros e os detalhes desta realidade, deste ambiente estranho e, a principio frio, dos seus habitantes distantes, dos caminhos escondidos e das veredas solitárias. Os veteranos, os que já percorreram estas vias várias outras vezes e estão calejados com o trato dos passantes, dos ocasionais soldados, dos líderes locais das vielas passageiras, são os que lhes passam as informações (e, em consequência para nós) do indispensável para garantir a sobrevivência, se acostumar com os atalhos, identificar os elementos mais perigosos.

Aos poucos somos tomados (assim como Lefèvre) pela beleza daquela região árida, pela camaradagem com os demais europeus, pela observação das minúcias dos procedimentos dos médicos.

Apesar da situação de guerra, sua missão não é bélica, eles não se dirigem para zonas de combate, seu interesse são as vilas de interior, abandonadas sem socorro médico, sem sequer verem alguém com mínimo de conhecimento ou tomarem alguma medicação por meses, até anos. Os médicos chegam ao destino final, Zaragandara, abrem o ‘hospital’, um barracão aberto, e começam o atendimento. A guerra está onipresente e se apresenta de todas as formas, mas tangencialmente, pelos feridos não tratados, pelas doenças triviais e potencialmente mortais se não tiverem tratamento, por acidentes ‘típicos’ como ferimentos à bala pelo manuseio displicente das armas, pela miséria. Os Médicos Sem Fronteiras ficam até o limite de suas possibilidades, até o último frasco de remédio, quando inevitavelmente terão que partir, sair do Afeganistão, repor seus suprimentos e refazer o mesmo caminho para, quem sabe, conseguirem retornar no ano seguinte.

É o que nós, leitores, fazemos igualmente com a obra. Ao término do terceiro volume, somos obrigados a dar um tempo e reacondicionar nossos pensamentos, mas precisamos também retornar e ‘ouvir’ de novo essa voz que conduz por esses caminhos estreitos, voltar a prestar atenção no céu azul ao menor sinal de um helicóptero e nos escondermos de suas metralhadoras; olhar estes rostos sérios e sizudos que podem esconder tanto uma natureza calorosa e amigável quanto canalhas covardes, líderes carismáticos ou guias desonestos, doentes recuperados agradecidos ou crianças sem qualquer condição de cura.

A distância e o estranhamento continuarão, por certo. Ninguém terminará a leitura de ‘O Fotógrafo’ e sairá correndo para a compra de uma máquina. Muito menos, desejará se naturalizar afegão. Não é disso que se trata. É de sensibilidade e emoção plenas, guiados por uma emocionante e brilhante narrativa gráfica. De predisposição para ouvir e entender e enxergar a porção de humano que em todos nós há.. E podermos, assim, romper essa fachada bonitinha e mentirosa de supostas ‘aldeias globais’ ou seja lá qual for o mais novo termo high tech que inventem.

 

texto publicado originalmente na revista eletrônica de cultura e literatura Verbo 21

 

Serrinha, o Higienista

11 de julho de 2012

 

A maior novidade da campanha de José Serra para prefeito de São Paulo é uma história em quadrinhos. Agora José Serra é quadrinhos. Espetacular, não? Não digo que ele tenha ficado bonitinho (seria impossível) nem fofucho nem sequer engraçadinho (está mais para turma do Penadinho do que outra coisa). Nem mesmo suportável. Enfim, mais um lance ridículo do caro e eterno semi-prefeito, semi-governador, sempre candidato, direitista e higienista por inteiro.

Obviamente, a resposta não demoraria. As versões serrinhas estão bombando na internet. Acredito que esta foi a primeira que surgiu (pelo menos, foi a primeira que vi), e já tem várias outras (e já foi aberto um tumblr para reuni-las: http://souserrinha.tumblr.com/). Preparemo-nos, pois ao que tudo indica este próximo período de eleições será tremendo, repleto de baixarias e todo o arsenal reacionário à disposição. Mas, pelo visto, com muito espaço para o humor, de bom ou mau gosto, involuntário ou não.

 

 

As oito cenas de sexo mais estranhas dos quadrinhos

13 de junho de 2012

 

Você já viu o Homem-Aranha praticar a ‘Borboleta de Vênus’ em Mary Jane? Ou o SuperHomem protagonizando um filme pornô? Ou sabe como é que o Monstro do Pântano faz sexo? Se não, neste artigo do site Unreality Magazine, Remy Carreiro selecionou oito cenas das mais bizarras e estranhas cenas de sexo que já aconteceram no mundo dos quadrinhos (‘Eight Incredibly Strange Sex Scenes In Comics’). (veja bem: falo das publicações dos quadrinhos tradicionais, e não de suas ‘adaptações’ xxx de cinema).

Algumas são realmente estranhas e esquisitas; outras são simplesmente bobas. Todas são muito divertidas.

http://unrealitymag.com/index.php/2012/06/13/eight-incredibly-strange-sex-scenes-in-comics/

Milo Manara e o limite do erotismo: X-Men e Bórgias

5 de junho de 2012

 

Os personagens, mitos e personalidades envolvidos são públicos e muito bem conhecidos. Não há necessidade de se apresentar Milo Manara, mestre absoluto dos desenhos eróticos e dos traços da beleza feminina contemporânea.

A família Bórgia, o dissoluto, luxurioso, corrupto e assassino papa Rodrigo Bórgia, seu filho arrogante e assassino César, sua filha luxuriosa e assassina Lucrécia, entre outros parentes, estão mergulhados em histórias, mitos e lendas, quase tudo no modo mais negativo possível. Estão em alta novamente nos últimos tempos, retratados em filmes, seriados, documentários, estudos. Na verdade, mesmo quando não são citados diretamente, percebe-se a profundidade da influência do imaginário dessa família em produções que retratam a ligação do poder político com corrupção e luxúria, como os seriados de televisão ‘Roma’, ‘Spartacus’ ‘The Tudors’, ou filmes de cinema como ‘O Poderoso Chefão’ (em especial, a Parte III, mas toda a série de Coppola é banhada por reminiscências não-explícitas de uma herança borgiana). Os X-Men já sofreram bastante altos e baixos em sua carreira desde sua criação nos quadrinhos por Stan Lee na década de 60, e mesmo quando transpostos para adaptações cinematográficas, os resultados foram bem desiguais. No momento estão usufruindo do sucesso de “X-Men: Primeira Classe”, reconhecido não só como o melhor produto da franquia nos cinemas até agora, mas como um dos melhores dos filmes baseados em superheróis em geral.

Antes de entrarmos nas implicações e resultados meio que conflitantes (tanto para o bem quanto para o mal) provindos da miscelânea acima, creio que seria melhor deixar claro alguns pontos específicos, em especial sobre o próprio Manara. Alguns pontos não são exatamente ‘científicos’, são mais referências subjetivas (e eu assumo isso); acredito, porém que tenham sua validade. Ou servem, no mínimo, para adentrarmos na discussão.

– O estilo de desenho de Manara, de linhas claras e limpas, remetem diretamente para o tipo de ilustração naturalista europeu da década de 60, 70, anos de explosão criativa de jovens artistas no mundo inteiro, ansiosos para arrebentarem velhos padrões de comportamento e de arte. Manara, apesar do estilo clássico do seu trabalho, é igualmente fruto dessas inquietações e impulsões;

– A Beleza em Manara é feminina. Essa frase não é uma repetição da ideia de que ele consegue desenhar as mulheres mais bonitas e sensuais, e em todas as poses e trejeitos, com naturalidade e liberdade. É isso, mas não só. Quero remeter ao dado de que mesmo as figuras masculinas, quando bonitas, repetem o padrão de estética retratado nas mulheres: os traços finos, os corpos magros, os rostos quase idênticos. Quando Manara deseja retratar feiúra, ou expressar visualmente o caráter negativo ou nojento dos personagens, seu traço tende ao exagero, à minúcia do feio, às vezes à caricatura.

– Manara segue um ideal de Beleza padronizado, ao ponto de se perder as características individuais de cada mulher. Perceba-se como as fisionomias femininas são quase todas idênticas. Como bonecas em série, o que as diferencia são elementos acessórios, como a cor ou corte do cabelo, a roupa, tom de pele. Observe-se como esse detalhe é realizado de forma bem diferente com os personagens masculinos: cada um dos homens é completamente inconfundível com outro, todos possuem uma personalidade bem marcada e diversa, expressa no seu visual. As mulheres, no entanto, podem ser confundidas, e é possível até atrapalhar o leitor, que muitas vezes necessita lembrar que tal personagem é loira e a outra morena, por exemplo, para poder diferencia-las.

Em ‘Bórgia’, há exemplos destacados disso: quando membros da nobreza italiana (branca) interagem com as criadas / escravas negras, o contraste é óbvio e direto. Mas observe-se como há tão pouca diferença fisionômica entre as próprias mulheres negras, são quase indistinguíveis. Com as caucasianas, acontece o mesmo. Em outro momento, observe-se a personagem Lucrécia junto com sua prima e melhor amiga: o rosto é o mesmo, o ‘molde’ é único, alongado e magro. Sabemos quem é uma e quem é a outra pela história narrada logo antes, mas visualmente o contraste é estabelecido pelos cabelos;

– Isso nos permite, desde já tão cedo, uma primeira conclusão: a questão que coloco nos exemplos acima não é racial, é de gênero: para Manara, os homens são pessoas, têm personalidade definida, densidade, e inclusive variedade visual. As mulheres são ícones, são modelos de beleza idealizados, cuja principal função é o do prazer sensorial erótico, fachadas de aparência agradável para consumo imediato, estereótipos dirigidos para um universo de imaginário masculino. Nenhuma surpresa, por certo; nada que já não soubéssemos antes mesmo de se abrir um livro com suas ilustrações, pois sabemos o que nos espera e o que desejamos. Acontece que nem sempre a pretensão erótica funciona, e essa irregularidade transparece nos trabalhos que veremos;

– Por outro lado, o que produz de excelência como ilustração, é ruim como narrativa: Manara é um péssimo escritor. Quando decide escrever suas próprias histórias, o resultado é de uma nulidade e fraqueza impressionantes, com argumentos pífios e desenvolvimentos pior resolvidos. A história que une os volumes do seu maior sucesso popular, ‘O Clic’ (que, verdadeiramente fundamentou sua fama e o instituiu como célebre quadrinista erótico) nada fica a dever a qualquer argumento dos filmes de pornochanchada brasileiros. isso fica ainda mais claro quando se compara com sua adaptação cinematográfica (‘Le déclic’, de Jean-Louis Richard e Steve Barnett, 1985; e mais tarde em uma série de filmes para a televisão italiana) que segue bem de perto o roteiro do quadrinho original: a sensação final é de puro constrangimento, pois o que há de bom em ‘O Clic’ é, e sempre foi, exatamente a ilustração. A pornochanchada brasileira é bem melhor.

Em alguns casos, a situação ainda piora: sua versão de ‘As Viagens de Gulliver’, publicada no Brasil como ‘Gullivera’ poderia ser muito bem uma obra erótica e ao mesmo tempo, uma crítica social (da mesma forma como o livro é uma devastadora crítica política e social disfarçada de fábula cômica) e, no final das contas, sobra somente um desastre, recheada de boas ideias e sacadas visuais geniais (como a do exército de pequeninos que passa por baixo das pernas de uma Gullivera giganta e sem calcinha), mas que se perde nestas piadas safadinhas e sem mais nenhuma pretensão.

Ao se associar com escritores e roteiristas que realmente sabem escrever para quadrinhos, tal como o sensacional Hugo Pratt ou mesmo Fellini, e quando Manara se dedica ao que faz de melhor, desenhar, é que a beleza de sua arte sobressai com força invulgar.

Vejamos o que aconteceu com a associação da arte de Milo Manara com o texto de Chris Claremont, em ‘X-Men – Garotas em Fuga’, e Alejandro Jodorowsky, em ‘Borgia’.

O lançamento de ‘X-Men – Ragazze in Fuga’, o original italiano, foi cercado de natural ansiedade, que fora agravada pela demora do projeto (anunciado em 2003, foi publicado em 2009 na Itália e final de 2010 nos Estados Unidos; no Brasil, em 2011, não muito longe da norte-americana), muito por conta de alguns problemas de saúde de Chris Claremont. Na tentativa em formar ligações mais fortes com a comunidade européia e seu público exigente, a Marvel reeditou a iniciativa realizada anos atrás ao juntar o mundo superpop dos superheróis norte-americanos à elegância e profundidade de artistas europeus, que resultou no belo album ‘Surfista Prateado – Parábola’, de Stan Lee, ilustrado por Moebius. Tanto em um caso quanto no outro, as iniciativas não tiveram continuidade, embora por motivos diferentes.

Havia algumas dúvidas em relação ao trabalho que Claremont poderia desenvolver com Manara. Apesar de tantos anos escrevendo histórias dos X-Men, responsável por algumas das fases mais importantes dos mutantes nos quadrinhos, além de ter participado da criação das várias personagens femininas de grande força no universo x-men, mesmo assim havia um clima de ceticismo, de se saber se o seu tempo de escritor já não teria passado (ou, pelo menos, era assim como este jovem brasileiro aqui sentia as coisas, um tanto afastado do calor central da discussão). Ainda havia o inusitado do projeto, pois bem diferente do realizado por Stan Lee e Moebius: o personagem Surfista Prateado já possuía um perfil melancólico e até um tanto filosófico que se encaixava muito bem, desde o início, com o estilo lânguido e solene de Moebius, nunca houve nenhum questionamento sobre a validade da ideia. Com Manara, como não poderia deixar de ser, a expectativa era outra: era saber se a Marvel relaxaria, poria o moralismo norte-americano tacanho um pouco de lado, e o deixaria trabalhar com as heroínas x-women com todo o seu toque erótico característico. Pois, caso contrário, qual seria o sentido de se contratar Milo Manara?

(No meio do caminho, Manara ainda fez algumas provocações ao dizer em uma entrevista que haveria cenas de bastante erotismo e chegaria a desnudar algumas das x-women. Apavorados, os executivos se apressaram a desmentir, afirmando que o erotismo teria que ser contido, já que os quadrinhos eram dirigidos para um público muito mais amplo)

‘X-Men – Garotas em Fuga’ é um engodo.

E o principal problema é justo a narrativa. Chris Claremont conseguiu a proeza de escrever uma das aventuras mais aborrecidas e menos empolgante de um poderoso grupo de superheroínas. E, para começar, elas já não são superheroínas! Talvez para poupar o desenhista europeu, nada acostumado com superaventuras, com cenários ilógicos e seres superhumanos, em um universo de mutantes superdesenvolvidas? Manara se cansaria em desenhar mulheres voando, dando golpes demolidores e soltando raios cósmicos, convocando tempestades e destruíndo exércitos? Tudo com as poses e trejeitos, caras e bocas, e supercorpos femininos em movimento e em ângulos que somente ele poderia imaginar? A revista até que começa exatamente com isso, com o grupo das mutantes em conjunto terminando uma missão, com uma batalha interessante. Que dura três ou quatro páginas. A partir daí, as mutantes tiram férias e o roteirista também.

Vampira recebe uma herança inesperada, uma ilha paradisíaca na Grécia, e convida Psylocke, Kitty Pride, Tempestade e Rachel Summers para se divertirem e darem um tempo em sua dura vida de mutantes. No meio da diversão, a ilha é atacada e destruída, os habitantes se salvam por pouco, e Rachel Summers é sequestrada. Quando partem para o resgate, no entanto, elas se deparam com um inimigo misterioso ou sofrem o efeito de uma superarma que nunca tinham ouvido falar que, simplesmente, anula os seus poderes!

Portanto, não são mais X-Women. São mulheres comuns, que um dia (há pouco tempo) tiveram poderes especiais, mas que agora precisam enfrentar seus problemas e resgatar a amiga, contando somente com habilidades físicas normais e humanas simples. Desculpe pela repetição, mas não são X-Women! e perde-se, então, todo o sentido inicial de termos penetrado neste universo em específico. Não é a aventura fantástica de mutantes contra supervilões; de personagens consagradas, mas com uma visão especial proporcionada pelo mestre do desenho erótico; é uma história de ação com mulheres destemidas e corajosas, além de muito bonitas.

Claremont declarou em entrevistas posteriores que sua pretensão era fazer uma história com ‘estilo europeu’ (o mais provável era que tentasse deixar Manara mais à vontade, já que este não sabia nada de quadrinhos norte-americanos, muito menos de superheróis, o que dirá de x-women…). Por conta disso, o roteirista desprezou todo seu conhecimento minucioso e experiência com estas personagens, jogou fora todo um fundo de histórias e caracterizações riquíssimas, e colocou no lugar … o quê? Há que se pensar que, apesar de uma premissa decepcionante, o desenvolvimento poderia ter melhorado uma história a princípio desastrosa. A frustração poderia ter sido só minha, uma birra de fã por causa de um começo ruim que poderia render algo positivo.

Não. O roteiro é um lixo. Não porque (como eu li em algumas críticas) dá vazão a que as heroínas fiquem seminuas durante 90% da revista (é Manara, pô; o que esperavam?). Mas simples e diretamente porque é ruim. É mal escrito. É confuso, mal planejado, com tremendos furos na narrativa, sem emoção, sem suspense, sem construção de personagens, sem uma linha narrativa trabalhada. Diálogos ridículos, frases bobas, cenas soltas, conclusões apressadas, nenhuma amarração. Em suma, um lixo. Este é o ‘estilo europeu’ de Chris Claremont.

Não há nudez. Nenhuma X-Women ou outra personagem feminina tira a roupa por completo. Não deixa de haver muita pele à vista, muitos ângulos desconcertantes, muita roupa diminuta ou meros pedaços de pano. O que, por um lado, é uma pena (muito marmanjo sonhava em ver a Ororo nua em pelo), por outro, revelou-se não fazer falta para provocar o imenso prazer sensorial provocado pelo ‘estilo erótico’ de Manara.

Com o que foi exposto até agora, é possível fazer um pequeno exercício de olhar, com a seguinte página:

Este é um dos melhores trechos do roteiro de Claremont. Seria inevitável um momento em que Vampira sentiria prazer em conseguir tocar outras pessoas sem machucá-las, ficar um tempo livre do seu poder que é também sua maldição. A cena traduz um esforço (tem essa intenção) em colocar um quadro com um pouco de delicadeza. É piegas, as frases são fracas, e tem pouquíssima duração (não haverá espaço para outras pieguices), mas repito: é um dos melhores trechos; o resto vai ladeira abaixo.

Quanto ao desenho, veja-se a naturalidade dos corpos à vontade, em um momento de respiro entre ações. Perceba-se também que é muito fácil distinguir os diversos personagens femininos: as diferenças étnicas tomam conta disso, todas são bem demarcadas: a negra, a ruiva, a loira, a nipônica. Em ‘X-Men – Garotas em Fuga’ não há perigo de se confundir entre Kitty Pride, Emma Frost ou Rachel Summers. E mesmo assim… Preste-se atenção no quadro em que Vampira toca de Ororo: entre as diferenças explícitas (além dos cabelos!), o molde dos rostos é o mesmo: alongado e magro.

Com a publicação (afinal!) do quarto e último volume de ‘Bórgia’ fecha-se outro ciclo da carreira de Milo Manara. Pode-se dizer que esta obra sintetiza o apogeu de um artista em sua plena forma e expressão. E a razão para que isso acontecesse é Alejandro Jodorowsky, o genial chileno maluco, vanguardista total, escritor, poeta, dramaturgo, cineasta, músico, ator, e por aí vai, sempre em constante agitação, sempre em experimentação.

Neste caso, quando se pensa em um trabalho conjunto entre Manara e Jodorowsky focando o período de absolutos extremos, de devassidão e beleza, de mortes e arte, do Papa Bórgia e família, nunca houve nenhuma dúvida do quanto era apropriado. O roteiro seguro e firme, denso e enxuto, a narrativa coerente e soberbamente construída. A arte exuberante, os desenhos detalhados e delicados, a beleza feminina no alto do ideal. Na Itália do século 15 de Manara não há prostitutas feias ou desdentadas ou menstruadas (a não ser que isso seja um fetiche a mais para os personagens) e quando descabeladas é um acréscimo de charme ou sinal de que está prestes a transar ou acabou de. Ou, quando a figura feminina é feia, não é somente feia: é uma bruxa horrorosa e horripilante. Não há receio de escancarar e narrar a podridão humana à beleza física transcendente, portanto o leitor também deve estar preparado para ver, sem pruridos, à devassidão total dos sentidos: do sangue, dos excrementos e dos corpos rasgados, dos fanatismos assassinos, da moral estuprada, do sexo voraz e doentio, da sede inesgotável do poder e das manipulações políticas, dos conluios, das mortes, pestes, torturas e membros arrancados, dos ódios arraigados e o amor..

Desta modo, o primeiro volume da série, ‘Sangue para o Papa’, é de arrebentar o coração e a consciências, com cenas e temas que perdurarão na mente do leitor durante muito tempo.

O que, de certa forma, prejudica um pouco a apreciação dos demais volumes. É preciso fôlego e um tempo para continuar a leitura, pois o choque produzido por ‘Sangue para o Papa’ tende a se diluir em ‘O Poder E O Incesto’ (Volume 2) e ‘As Chamas da Vingança’ (Volume 3). Mas é impressão. Jodorowsky mantém estrito controle da narrativa, não tem pressa em descrever as maquinações internas e as manifestações populares (de apoio e repúdio), as perversões cotidianas, os casamentos de Lucrécia Bórgia como moeda de troca para pactos políticos do papado, o remanejamento de familiares para postos estratégicos dentro da Igreja e do Exército (dos exércitos, formados por mercenários, já que cada cidade-estado na Itália era independente e em guerra permanente com os demais Estados).

No quarto volume, ‘Tudo é Vaidade’, porém, acontece uma quebra abrupta. Era de estranhar, na verdade, como poderia toda a história dos Bórgias (ao estilo Jodorowsky) ser contida em somente quatro volumes, enquanto o ritmo dos três anteriores era pausado, deixando possibilidades para vários outros livros (é de se considerar, além do mais, que aqui não há uma preocupação em extrema fidelização histórica, não é uma obra acadêmica, e há muita liberdade cronológica e bastante mistura dos personagens fictícios com os históricos reais). O mesmo ritmo é mantido até um pouco mais da metade de ‘Tudo é Vaidade’, quando se atinge um ápice em uma espécie de glória da família, com César à frente. O que poderia ser, então, a partir daí a narração da decadência e queda dos Bórgias, sofre um corte severo e o livro entra em modo de epílogo. Os últimos anos e as tragédias que acossam a família são descritos por um narrador interno (recurso que não havia sido utilizado até o momento em nenhum volume), o que imprime uma maior velocidade à trama e a finaliza.

A impressão que me ficou é de que teria havido planejamento para mais livros (pelo menos, mais um volume) e tal planejamento foi interrompido por alguma razão. Prefiro pensar isso do que acreditar que esse fraco epílogo apressado e estranho fazia parte das previsões de Jodorowsky e que ele realmente gostou deste final. Do modo como está, até parece que foi escrito pelo próprio Manara.

Não pretendo tirar nenhuma conclusão definitiva das considerações acima que são, como disse, pontos para levantar a discussão. Talvez a maior relevância seja a de que Milo Manara continua sendo, com toda justiça, o mais espetacular desenhista, ilustrador e quadrinista erótico da atualidade e cada traço seu merece ser enquadrado e emoldurado. Para a construção de uma obra erótica, no entanto, não basta o desenho (muito bem) feito, e quando ele se associa com artistas que compreendem o potencial narrativo que seus desenhos proporcionam, o resultado só pode ser uma explosão de arte criativa.

Com esse epílogo apressado e rasteiro, com essa pérola-clichê, desejo-lhes boas leituras.

Abraços

texto publicado originalmente na revista eletrônica VERBO 21

KICK-ASS 2, confirmado. Enquanto não chega: Kick-Ass 1. Filme péssimo (com detalhes interessantes). Quadrinhos excelente (com problemas)

19 de maio de 2012

 

O retumbante sucesso do filme dos Vingadores (conscientemente preparado e construído, com certeza, mas duvido que até mesmo os produtores imaginassem que a resposta seria tão espetacular e lucrativa em tão pouco tempo) faz com que os superheróis entrem em definitivo na agenda das maiores produtoras de Hollywood e aticem a sanha por manter esse clima. Assim, além de garantir a continuidade dos filmes-solos dos principais personagens, como Thor, Capitão América e Homem de Ferro,  e a retomada do seriado do Hulk na televisão, há a ânsia por apresentar novos heróis que também caiam no gosto popular.

(O que não dá para entender é por que ainda não fecharam um filme só da Viúva Negra, heroína que já foi devidamente apresentada e repercutiu bem, com a superestrela Scarlett Johansson superdisposta e animada com a ideia, enquanto parecem estar adiantadas as negociações para um filme do Homem-Formiga!, personagem importante, sem dúvida, nos quadrinhos e para os Vingadores, mas uma nulidade total para quem não é acostumado a ler gibis).

Outra consequencia importante é a revitalização de personagens que haviam sido deixados de lado no cinema, como é o caso exato de Kick-Ass. O primeiro filme, produzido enquanto os quadrinhos originais ainda estavam sendo escritos e publicados, teve uma recepção bem morna (mal e mal se pagou; não foi um fracasso vergonhoso, mas não impactou) e, na prática, enterrou a possibilidade de continuações, apesar do esforço e desejo do do autor Mark Millar (que prosseguiu com Kick-Ass nos quadrinhos, sempre com vistas para uma futura adaptação) e o diretor Matthew Vaughn. ‘Os Vingadores’ mudou essa perspectiva, e Kick-Ass 2 será, afinal, realizado.

Vai levar um tempo para isso acontecer. Só para conciliar as agendas dos atores principais será um trabalho danado, já que todos cresceram bastante, em idade, tamanho e importância (e consequente remuneração). Chloë Moretz, peça fundamental na receptividade que o primeiro Kick-Ass recebeu, está demonstrando boa cabeça e independência na escolha dos trabalhos, alternando filmes de temáticas fortes com outros mais leves e de grande público, fundamentando uma carreira sólida.

Enquanto isso, pensemos exatamente qual foi o resultado do primeiro filme.

KICK-ASS. Filme: Péssimo (com detalhes interessantes). Quadrinhos: Excelente (com problemas)

Eu consegui me conter e segurar a leitura da obra original antes de assistir sua adaptação cinematográfica. Na verdade, já havia lido algumas páginas, mesmo porque não tinha a menor intenção de assistir ao filme, quando dois lances me fizeram pensar. Primeiro, de repente do meio da história surge uma menina (menininha, de dez, onze anos) que salta, corre, pula e mata bandidões de gangue. Não só mata, como espanca, baleia, esfaqueia, retalha e depois, calmamente, limpa a espada do sangue, guarda a pistola no coldre e vai se embora pela janela. O segundo lance foi ter assistido, espantado, o trailer do filme e ver essa mesma cena reconstituida com pormenores, inclusive com o sangue espirrando, as espadas revoluteando, a menina (menininha), a responsável. Não acreditei que aquilo pudesse ser possível.

E pensei lá com meus botões e teclas de computador: se eu continuar lendo, por melhor que seja o filme, e por mais fiel que consiga reproduzir o teor da novela gráfica, com certeza sempre terei uma pontada de decepção, pois ‘sempre poderia ser melhor’ ou ‘ainda mais fiel’, nunca será o que se poderia alcançar dentro da minha cabeça. Deixei de lado a revista, esperei pelo filme, para assisti-lo mais ‘puro’, com menos influência da obra, pois quero nesse texto acompanhar, na medida do possível, em primeiro lugar as pessoas que só foram ao cinema (já que ninguém é obrigado a gostar de ler revista em quadrinhos) e não leram ou nem lerão o gibi. Sobre a revista, farei um comentário no final.

O filme, então.

Para nos localizarmos com as pessoas que ainda não sabem do que se trata a história, um brevíssimo resumo. Dave Lizewski é um garoto médio. Adolescente médio, estudante médio, de classe média. Não é rico nem miserável, não é um cdf nem faz parte da turma do fundão, não é bagunceiro nem carola, e assim são também seus amigos mais chegados. Está apaixonado, obviamente, pela menina mais bonita da escola, que mais obviamente ainda, nem sabe que ele existe. Dave só sabe fazer bem duas coisas: se masturbar com sites pornográficos e ler revistas em quadrinhos de superheróis. É quando pensa que ele poderia ser um superherói. Porque ninguém pensou nisso antes? É só vestir um uniforme com máscara e sair por aí zoando bandidos. ‘

Superheróis têm superpoderes, idiota’, dizem seus amigos. ‘o Batman não tem superpoderes’, rebate. E afinal resolve seguir sua idéia. Pela internet, compra uma roupa superdiferente, faz uns malabarismos em frente ao espelho e, após uns poucos e porcos exercícios físicos, se sente preparado. Não tem habilidade alguma, nenhum tipo de treinamento, mas acha que pode enfrentar uns ladrões do bairro. Dave, aliás, não está nem um pouco preocupado com injustiças sociais ou em ajudar os fracos e oprimidos, o que ele quer é usar o uniforme e ver as pessoas apontando o dedo, admirados, dizendo ‘olha lá um superherói’. Bueno, em sua primeira ‘missão’, o que consegue é ser espancado, esfaqueado, abandonado à míngua e, para terminar, é atropelado.

Não morre, passa vários meses no hospital se recuperando, tem um monte de ossos substituídos por pinos de metal, o que diminui consideravelmente sua sensibilidade à dor (o que não deixa de ser, portanto, uma espécie de ‘superpoder’!). Sai do hospital, veste de novo o uniforme (o garoto está realmente obcecado) e ajuda um rapaz que está apanhando de uma multidão. Leva de novo uma surra, mas como não está sentindo dor, consegue ficar de pé. Essa luta é gravada por celulares por uma multidão que observava, curiosa, vai parar em blogs e sites e, de repente, KICK-ASS se torna uma sensação mundial. Era tudo o que Dave queria.

No entanto, o que ele não queria, nem sequer sabia, é que há vilões de verdade na área, como o chefe da máfia local, e há superheróis de verdade, que realizam seu trabalho na surdina e não fazem questão nenhuma de serem reconhecidos e famosos. A história segue, portanto, na linha de que todas essas vertentes vão se cruzar e fazer parte de uma grande confusão final.

ok. Até aí, segue realmente a história da revista até a parte onde eu havia lido, acrescentando ainda a apresentação da menina que está sendo treinada pelo seu próprio pai para ser uma superheroina, ela a Hit Girl, ele o Big Daddy.

Bueno, o filme consegue criar uma certa expectativa para o que vai acontecer. Os diálogos são ótimos, certeiros e divertidos, recheados de piadas que funcionam; a ambientação e a cenografia é calcada para criar uma sensação de naturalismo e realismo, e até um certo ponto, consegue isso. Os personagens são caricatos e rasos, não podemos nos identificar em nenhum momento com o personagem principal que é bobalhão demais, não conseguimos nem sentir pena dele, e ainda por cima, é pessimamente interpretado por Aaron Johnson, inexpressivo e sem graça.

Tudo melhora e a voltagem satírica do filme atinge picos tremendos quando aparece a dupla mais nonsense da face da terra. Chloe Moretz dá um show de carisma e versatilidade como Mindy, a Hit Girl, e o que ela faz em cena é de tirar o fôlego. Seu pai, o Big Daddy é feito pelo Nicolas Cage que nunca antes, eu simplesmente não lembro, esteve tão engraçado e simpático, enquanto ‘educa’ sua filha para suportar um tiro no colete à prova de balas ou usar canivetes incrementados ou experimentar pistolas de cano longo, e por aí vai. O filme vale por cada segundo em que um ou outro está presente. Por eles, o ingresso do cinema já está justificado.

E o filme não funciona.

Momentos engraçados por aqui; cenas de violência de mentirinha por ali; uma história chapada, entupida de clichês; roteiro que se anuncia como inovador ou até crítico no começo, mas que conforme avança se rende aos artificialismos mais rasteiros. E o final, ah, o final. Tão previsível e repetitivo, tão incolor… Claro, não vou dizer aqui, mas pelo meio do filme já se sabe como tudo vai terminar, que um personagem importante vai morrer e que isso vai servir para um crescimento mental e amadurecimento do herói, que o eixo do universo vai ser realinhado, que os bandidos são bandidos, e a coragem e a valentia serão recompensadas.

Acabei de assistir e fiquei matutando ‘Como é possível?’ e confesso que demorei a responder a mim mesmo. A história era a mesma (com as devidas e necessárias adaptações para servir como um produto cinematográfico, muitas das quais realmente indispensáveis); os personagens estavam plenamente caracterizados, a violência explícita presente…

Falemos dessa tal violência explícita, ‘excessiva’ como li em vários textos de críticos horrorizados com a brutalidade e o jorro de sangue e a falta de ‘moralidade’ (é verdade, alguém falou essa exata palavra). Eu li isso e tive que repensar o que acabei de assistir e me certificar de que estávamos a falar do mesmo filme. Se num primeiro momento as cenas de morte e tiroteio e luta até podem impressionar, basta relaxar um segundo e lembrar que há coisas muito piores (ou melhores, conforme o ponto de vista): somos contemporâneos do cinema de Quentin Tarantino, pombas! O melhor filme do ano passado foi ‘Bastardos Inglórios’ onde os ‘mocinhos’ escalpelavam e marcavam a testa dos nazistas. A violência e a morte e o sangue em Kick-Ass tem o mesmo peso e relevância do ‘Kill Bill’. Encenadas e coreografadas no estilo de ‘Matrix’. Com pausas e pedaços em câmera lenta, igualzinho do ‘300’, assim como teve em ‘Watchmen’ (e em vários outros).

Em suma, o problema de Kick-Ass não é o da violência em si, ou do sangue derramado, já que existe sim em quantidade, mas é sangue-de-massa-de-tomate e com a mesma dramaticidade. O que deve incomodar é justamente o ponto mais alto de todo o filme: o fato de que essa tal violência é executada, em sua grande maioria, por uma menina de 11 anos. Esse é o único ponto relevante, sua única ‘originalidade’. Chloe Moretz atira, soca, e fatia, com galhardia, destreza, carisma e um charme absolutos. Fora isso, o resto é inodoro, insosso, sem consequência ou importância, não deixa marcas (em determinada cena, Hit Girl também leva uma surra e quase morre; quando a cena acaba, ela tira a máscara, mostra o rosto e não existe um único hematoma!). Tire-se esse ‘detalhe’ da idade, maneire-se um pouquinho a linguagem, alivie-se uma ou outra cena um pouco mais forte, e Kick-Ass vira um mero filme de aventura meio cômico e até chatinho. E acabaria-se também qualquer necessidade de se assistir a ele. ‘Robocop’, de Paul Verhoeven, é um filme de 1987, passa na Sessão na Tarde, e continua infinitamente mais violento, forte, impactante e tão importante para a história do cinema agora como foi no lançamento. Kick-Ass, puff…

Ao nos voltarmos para a novela gráfica escrita por Mark Millar e desenhada por John Romita Jr, devemos fazer um giro mental de 180° e percebermos que aqui, sim, a violência tem um sentido e uma força. Sentido objetivo, claro, narrativo, gráfico.

Há dois níveis que precisam ser considerados: o do cotidiano besta, simplório, chato e plano. Da realidade da qual Dave anseia se libertar e a qual podemos inclusive identificar como igual a nossa e fazermos uma conexão com o personagem. Podemos assim até entender sua atitude e saber que ele vai se ferrar, pois somos assim e se estivessemos em seu lugar, nos ferraríamos da mesmíssima forma. É que, em geral, possuímos um certo senso de simancol do qual o personagem parece não sobrar nada e não vestiremos uma fantasia qualquer para caçar bandido no meio da noite, pois sabemos muito bem o que vai nos acontecer. Quando se formaliza esse grau de aproximação entre o leitor e o personagem, quando sabemos da idêntica impossibilidade de mudar uma realidade pesada e dura, é aí que se torna tão chocante e inacreditável o aparecimento de Hit Girl e Big Daddy. Quando se estabelece que, afinal humanos somos e não existem superheróis, eis que eles aparecem!

Esta sensação insofismável da presença bruta da dupla é tão forte que uma das minhas cenas preferidas é quando eles aparecem subitamente no quarto de Dave, logo depois da chacina dos traficantes de droga da região. Ele, sentado na beira da cama, desconsolado, ciente de que é, afinal, um merda e que nunca, nunca!, havia cogitado em matar alguém e já pensando em aposentar o seu bobo Kick-Ass e contente de que nunca mais veria aquela menina mortal e o grandalhão que a acompanhava… A cara dele ao ver Hit Girl e Big Daddy no seu próprio quarto é demais!

A violência é brusca, visual, gráfica, potente. O trabalho de Romita é insuperável, sentimos o sangue espirrar no nosso rosto, ele tem peso, sentimos sua presença. Ao executar uma vítima, o bandido encosta o revólver na nuca e dispara, e o momento da explosão preenche metade da página. Mas a morte (e sua visualização extrema) não é gratuita, tem a ver com a importância da personagem que está morrendo e sua relação com Kick-Ass e com o leitor. Ao ser capturado e torturado pelo chefão da máfia, no filme, Kick-Ass é espancado. Na HQ, é eletrocutado, com o fio preso no saco.

Claro, para poder produzir até mesmo esse produto pausteurizado, o diretor do filme Matthew Vaughn teve que pastar muito, não conseguiu apoio de nenhuma grande produtora (com medo de tocarem nessa história ‘complicada’) e foi obrigado a por dinheiro do próprio bolso. No entanto, não estou sugerindo que ele pudesse transcrever diretamente o quadrinho da novela gráfica (embora, na minha opinião, ele devesse pelo menos tentar). A questão não é somente visual, é de conceito. Vaughn pretendeu, e foi o que realizou, um produto pop, levemente mais violento do que a média dos filmes, que fizesse sucesso na garotada norte-americana. Millar e Romita provaram, ao contrário, que era possível fazer uma história de teor cínico e niilista, bem montada e narrada, e sem concessões.

A novela gráfica, no entanto, não está privada de defeitos. A premissa é bacana e muito interessante, a construção dos personagens é irretocável (como o filme nem chegou perto de fazer) e as cenas são tremendamente bem feitas. O roteiro é um problema. Pela metade da história, a impressão que passa é que Millar estava meio perdido com o encaminhamento da ótima premissa apresentada e não sabia saber exatamente o que fazer com ela. Correu uma história na época quando os volumes da HQ estavam sendo lançados de que Millar, em verdade, estava demorando muito para entregar o texto e que teria havido um considerável atraso por conta disso. Inclusive, o final parece-me que foi o mais demorado a ser publicado. Não sei. Perdi a referência de onde li isso, portanto, não sei se é verdade ou se estou somente repassando uma fofoca, mas para ser sincero não me admiraria. Um detalhe concreto é o fato de que, quando o filme começou a ser rodado, o último volume da série ainda não havia sido publicado. O que faz com que os respectivos finais e conclusões sejam responsabilidade direta de cada um e completamente independente um do outro. E o final da HQ, ah, o final…

Se ele, o final, realmente demorou a ser publicado, se o meio da série é meio complicado, não importa. A conclusão de Millar é primorosa, e profundamente coerente com a premissa e a idéia original da história como um todo. Um belo final para um ótimo trabalho.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente em meu antigo site

Moebius e o choque do atordoamento

10 de março de 2012

Moebius não era, nunca foi, um dos meus artistas preferidos, alguém que me tocasse e me fizesse emergir em sua obra.

No entanto, o que mais conseguia era tirar-me do sério, provocar-me, sair do lugar comum, desacomodar-me. Em momento algum oferecia respostas fáceis, simples, bonitinhas. Em momento algum sabia-se onde acabariam suas histórias, aonde nos levariam seus desenhos, em qual nova loucura de descobertas seríamos levados.

E ainda hoje lembro do choque, do verdadeiro atordoamento que tive ao final das poucas páginas de ‘Os Olhos do Gato’ e sentir que algo aparentemente tão simples poderia ser tão estonteante.

Esse choque fará falta.

 

 

 

O mundo de Garfield. Sem Garfield.

18 de fevereiro de 2012

A tese do cartunista Dan Walsh é que, sem Garfield, seu dono Jon é uma pessoa fracassada profundamente deprimida. Para demonstrar seu pensamento, ele se dedica a apagar o desenho do gato todas as vezes em que seu dono aparece (como diz a chamada do site: “Garfield Minus Garfield é um site dedicado a remover Garfield de suas tirinhas no propósito de revelar a angústia existencialista de um certo jovem Jon Arbuckle. É uma profunda jornada para dentro da mente de um jovem solitário que luta uma batalha perdida contra a solidão e a depressão em um calmo bairro norte-americano”).

Parece uma tese boba, pois todos sabemos da fraqueza (ou simples timidez) dos seres humanos à volta de Garfield, principalmente de Jon, muito por conta da expansiva e dominadora personalidade do gato. A impressão, portanto, é que tirando a presença gatuna tudo ficaria realmente sem graça. E daí?

No entanto, o resultado final chega a ser chocante de tão forte. As tiras ficam mesmo com um tom de pessimismo existencialista bergmaniano que nunca imaginaríamos antes. Pelo menos, eu nunca havia pensado nestes termos.

‘Garfield Minus Garfield’ não é recomendável para quem queira somente uma diversão ligeira ou esteja passando por um período de depressão.

http://garfieldminusgarfield.net/

Hector Camillo, o filósofo urbano, acorda cedo.

28 de janeiro de 2012

conheça AQUI as aventuras filosóficas de Hector Camillo

A Queda de Murdock

4 de outubro de 2011

Estamos em uma época em que, infelizmente, assistimos à queda, a pura decadência ou simples e pura demência, de um grande artista. É um espetáculo humilhante, embora impressionante, de total vergonha alheia. Dá até um certo medo, inclusive, de que toda uma nova geração de leitores vá conhecê-lo somente pelos seus últimos e ridículos trabalhos e simplesmente descarte o que foi feito antes. Já percebi pelos fóruns e discussões pela net o quanto seu nome está sendo execrado e colocada em questão sua suposta qualidade de narrador e quadrinista.

Não é para menos e, na verdade, nem mesmo condeno quem tenha dúvidas: é muito difícil, por exemplo, assistir a versão cinematográfica de ‘Spirit’ e acreditar que esse diretor foi o responsável por um terremoto na cultura popular na década de 80 e que revirou os conceitos de histórias de super-heróis, tornando-os mais brutos, mais sensacionais e emocionantes, através de uma narrativa firme e pulsante, repleta de ideias novas e bem articuladas, misturadas com toda sorte de influências e fontes, inclusive orientais. Boa parte de tudo o que está acontecendo atualmente de bom (e do pior, por certo) em cinema, quadrinhos, literatura e televisão, é por conta dos caminhos que Frank Miller divisou e começou a trilhar.

De todos os grandes artistas de HQs da atualidade, de Stan Lee a Alan Moore, de Neil Gaiman a Art Spiegelman, entre vários outros, Miller é o que melhor sabia mesclar suas propostas criativas e inovadoras, aliadas a uma técnica refinada (tanto no desenho quanto na escrita), travestidas e misturadas com o apelo comercial e com as necessidades de uma indústria de massas. Parece, no entanto, que nem ele mais acredita de que foi capaz de realizar aquilo; hoje em dia o que produz é de uma mediocridade absurda. Ou puro lixo.

O que torna, portanto, ainda mais importante e muito bem-vinda a recente publicação pela Panini em edição de luxo d’A Queda de Murdock, reconhecida como a melhor história já realizada sobre o Demolidor, uma das mais clássicas HQs de todos os tempos e, na minha opinião, a obra-prima de Frank Miller.

É preciso contextualizar a frase, claro. Para o mundo dos quadrinhos e pela força do impacto e de suas conseqüências, o seu trabalho mais importante e marcante é, sem dúvida, o ‘Cavaleiro das Trevas’ que (junto com seu ´Batman Ano 1’, publicado em seguida, e ‘Piada Mortal’ e ‘Watchmen’, de Alan Moore), explodiu, chacoalhou, balançou, desestruturou e redefiniu para sempre o universo dos quadrinhos, provando que era possível construir histórias potencialmente fortes, profundas e com enorme conteúdo narrativo e artístico a partir dos mesmos personagens superdotados e sobre-humanos, antes considerados infantis e rasos, destinados a uma massa de público amorfo e acrítico. Não mais, não depois de ‘Cavaleiro das Trevas’. Batman, manchado por anos como piada infame por culpa daquele seriado de tv dos anos 60, voltou a ser o personagem sombrio e melancólico, psicótico e violento, inteligente e brutal de suas origens, dentro de um contexto no qual Frank Miller se aproveita e faz uma sátira corrosiva, genial e ácida contra a sociedade, a mídia, a guerra, a violência desmedida, a juventude, a política, a corrupção, além de reinventar e recriar velhos personagens, com um viés muito mais adulto. De uma certa forma, Miller ‘humaniza’ (com muitas aspas nesta palavra) os super-heróis. Ou, talvez seja melhor dizer que ele traz os personagens inatingíveis para uma realidade próxima (ou ao menos factível) ao leitor. Torna-os, não reais ou possíveis, mas coerentes.

A narrativa é primorosa: fragmentada, nervosa, pulsante, irônica, pontuada e comentada o tempo todo por inserções de notícias televisivas (a sátira é poderosa e nada sutil), as páginas pulsam emoção. Mesmo em cenas de pouco ou nenhum movimento, há uma vibração, há sempre ‘algo’ acontecendo, a tensão é constante e onipresente.

Se ‘Cavaleiro das Trevas’ é um petardo, um chute histórico no estômago da mídia cultural e na forma como construímos e absorvemos os super-heróis, Alan Moore foi por outro lado com ‘Piada Mortal’, revelando, num corte preciso e fino, a íntima ligação entre as loucuras do Batman e do Curinga, e o quanto uma depende da outra. Com ‘Batman Ano 1’, Miller muda completamente o foco e o estilo em outro belo exercício de narrativa, ao recontar a origem do Morcegão com uma narrativa enxutíssima e naturalista, quase documentarista, demonstrando como seria possível a existência e a origem desse herói dentro de uma realidade prosaica. A aproximação e a identificação do leitor com a história atingem aqui o ponto máximo. E, por fim, para fechar o arco do que eu chamo ‘os anos de trovão’ dos quadrinhos (a grosso modo, a segunda metade da década de 80), aconteceu ‘Watchmen’, onde Alan Moore chuta todos os baldes, revira todas as ordens, realiza a sátira absoluta e, alegremente, liquida esse universo, brinca e reinventa todos os clichês, criando a obra definitiva.

‘A Queda de Murdock’ é praticamente da mesma época dos anos de trovão, embora não carregue o mesmo sentido histórico dessas obras citadas. Sua importância, no entanto, vai além de simplesmente trazer em seu bojo todos os elementos que apareceriam posteriormente e de sedimentar as bases para os petardos seguintes. Como escritor, Miller realiza aqui sua obra mais bem acabada, sem os excessos histriônicos / farsescos e lúdicos do ‘Cavaleiro das Trevas’ ou os exageros minimalistas, sem nenhuma contenção, de ‘Sin City’. A narrativa naturalista, direta e linear é ao estilo do que seria o ‘Batman Ano 1’, mas enquanto esta é uma história de fantasia e aventura, em ‘Murdock’ é um drama / thriller de suspense psicológico denso e complexo. E, ao mesmo tempo, divertido!

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Pode parecer engraçado, mas nunca considerei o Demolidor como um ‘deficiente físico’. A primeira vez que pensei nestes termos foi com a propaganda do execrável filme baseado no personagem (“o primeiro super-herói deficiente físico da história, um cego”). Claro, Matthew Murdock ficou cego na adolescência por conta de um acidente com um caminhão que carregava lixo radioativo. A cegueira, no entanto, foi acompanhada por um superdesenvolvimento dos demais sentidos (no gibi, eram descritos com riqueza de detalhes em várias páginas cada um dos acréscimos de sua sensibilidade superaguçada) a ponto de poder lutar, vingar-se dos assassinos do seu pai e combater o crime pelas ruas de Nova Iorque. Além do que, era bonitão (sua figura era calcada no Robert Redford), inteligentíssimo (formou-se advogado com brilhantismo), era cobiçado por todas as mocinhas (e catou várias), era respeitado pela população e pelos outros super-heróis, e sua alcunha era o ‘Homem sem medo’. Quando eu era criança, babava por ser um ‘deficiente’ assim! Obviamente, eu não era o Kick Ass, não me joguei em frente a nenhum caminhão de lixo atômico, mas tive muita vontade disso, pode ter certeza! (embora eu não tenha procurado; penso agora que foi bom nunca ter passado por um caminhão desse tipo na época…)

O Demolidor foi criado por Stan Lee em 1964 e chamou bastante atenção, mas apesar do inegável carisma do personagem e da ótima premissa nunca chegou a ser um herói de primeira linha e, depois de um certo tempo, ficou meio sumido, praticamente um coadjuvante de outros personagens mais importantes, como o Homem-Aranha. No começo da década de 80 chega Frank Miller, primeiro como desenhista e depois, como escritor, e o revigora de tal forma que não só alavancou o personagem como a sua própria carreira. As premissas básicas criadas por Lee com a origem, a história pessoal de Murdock, os poderes específicos, a atuação como advogado a par de sua luta como herói e, detalhe muito importante!, a estreita ligação com a cidade de Nova Iorque e mais especificamente com a região mais barra pesada do Hell´s Kitchen foram mantidas. Miller aprofunda essas características, imprime um ritmo e uma densidade às histórias de um modo como ainda não tinha sido visto, redimensiona outros personagens secundários e os eleva a patamares muito mais elevados (Fisk, o Rei do Crime; o Mercenário), fortalece a relação do Demolidor com as faixas mais miseráveis e violentas da população e do bairro, e a criminalidade do submundo. E cria a mais perfeita assassina, a grega Elektra Natchios, o que por si só já valeria para Frank Miller qualquer tributo de genialidade!

Em 1986, após um tempo afastado da Marvel (quando produziu, pela DC, o magnífico ‘Ronin’), retoma o Demolidor, e decide arregaçar de vez: escreve a ‘Queda de Murdock’.

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Karen Page trabalhou como secretária do escritório de advocacia de Matt Murdock e teve um caso com o advogado cego. Largou o emprego e o namoro (não lembro agora em qual ordem), tornou-se uma estrela de filmes pornôs, ganhou muito dinheiro, afundou nas drogas e perdeu tudo. Jogada num canto qualquer do México, para tentar manter seu vício não consegue nem se prostituir, pois está tão destruída que não arranja clientes. De tudo na vida, possui somente uma única coisa de valor, além das lembranças do homem que amou: um segredo. Um nome. Karen vende a identidade do Demolidor, o Homem sem medo, em troca de heroína.

A partir daí, os acontecimentos se sucedem de forma inexorável. Pois o segredo acaba parando aos ouvidos da pior pessoa possível: Wilson Fisk, um rico empresário que, atrás de uma fachada de honestidade e abnegação, na verdade controla boa parte dos negócios sujos da cidade, e que vai aproveitar bem dessa informação privilegiada para se vingar daquele que insiste em atrapalhar suas atividades ilegais. Para Fisk, o Demolidor não é exatamente um grande problema, nada que ameace de verdade o seu poder, é mais um incômodo, um aborrecimento, uma chatice.

O que importa aqui é o modo como Fisk, conhecido nas baixas rodas como o Rei do Crime, realiza sua vingança mesquinha: ele não ataca o Demolidor (que agora sabe ser o advogado Matthew Murdock) diretamente, abertamente. Ao contrário. Sem que Matt desconfie, as bases de sua vida vão sendo minadas: seu trabalho é posto em xeque quando o acusam de comprar o voto de um jurado; sua licença é revogada, perde o escritório e fica desempregado; seus cartões de crédito e sua conta no banco são bloqueados; os amigos e clientes se afastam; sua casa, seu único refúgio de tranquilidade e sossego, é destruída, e é obrigado a alugar quartos de motel com os últimos trocados que lhe restam no bolso.

Fisk percebe, deliciado, que Matt, ao não conseguir entender como tantos infortúnios acontecem em seguida, começa a perder não só sua base material, como também seu equilíbrio mental. A paranóia se instala, sente que todos (o universo inteiro) estão em uma grande conspiração contra ele. Sem poder identificar qual o verdadeiro responsável, seus sentidos superdesenvolvidos de nada lhe valem. Matt soçobra e o ‘Demolidor’ é de uma completa inutilidade.

Frank Miller, como em nenhum outro momento de sua carreira, escreve um roteiro primoroso. A lenta destruição da sanidade mental de Matthew Murdock é descrita com minúcias, acompanhamos os pensamentos e os sentimentos cada vez mais confusos e deprimentes, a sensação de acuamento, a solidão, a paranóia (ou psicose?; nunca sei o termo técnico correto), o sufocamento, a indecisão, a impotência. A maior luta, a mais renhida e sofrida, não é com nenhum supervilão ou planos mirabolantes, é consigo próprio, sua capacidade ou não de se manter são. Miller nos faz penetrar na mente atormentada de Murdock com tal maestria que participamos e sofremos juntos, percebemos o desconforto dos lençóis ásperos, sentimos os cheiros de mijo e sexo ao redor do quarto de motel ou das latas de lixo, nossos ouvidos são penetrados pelo chiado do rádio em má sintonia.

‘A Queda de Murdock’ é a descida ao inferno de uma pessoa outrora forte e centrada, firme e determinada, ao mais baixo que um ser humano pode alcançar.  Ou quase. O limite é a morte. E, é claro, óbvio e natural, que Miller também tratará da redenção, da recuperação, da superação. O Demolidor voltará, sem dúvida, com a força renovada, ‘nascido novamente’, como diz o título original.

Ao lado do grande painel da história completa, Miller também é um especialista (pelo menos, era) em nos proporcionar momentos específicos especiais, de absoluto impacto emocional. Para cada um, existe o seu. Em ‘Cavaleiro das Trevas’, quando Bruce Wayne, velho, amargo e desgastado, resolve vestir outra vez o velho uniforme aposentado, e sente-se reviver ao vento da noite e à pulsação das veias e se pergunta espantado para onde foram as dores, o desânimo e a fraqueza… Aquilo é genial! Em ‘Batman Ano 1’, meu momento preferido é a cena quando Gordon está sentado ao pé da cama, no meio da noite, ao lado da esposa grávida adormecida, sente o peso do revolver na mão e se pergunta se vale a pena lutar sozinho para mudar a situação de crimes de sua cidade. Em ‘Martha Washington’, quando a personagem principal se revolta e decide que não vai, de forma alguma, morrer abandonada no meio da floresta.

Quando Wilson Fisk decide acabar com a brincadeira, o pobre Demolidor leva uma surra homérica, é colocado dentro de um carro, encharcado de álcool e jogado para dentro do rio. Com tranquilidade, Fisk espera o carro ser descoberto e a morte do advogado ser considerada consequência natural dos acessos de delírios e depressão que todo mundo já tinha presenciado e lamentado. No entanto, quando três dias depois o carro é afinal resgatado, não há nenhum cadáver. Esta cena, estas duas páginas do prenúncio da virada, em que o Rei do Crime começa a sentir a pontada de uma coisa que nunca tivera antes, medo, estas duas páginas são as mais emocionantes que já li na vida.

Devo dizer que estou até arrepiado neste momento em que escrevo estas linhas.

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Não é possível saber se um dia o próprio Frank Miller também vai conseguir a redenção e a recuperação proporcionada a Matt Murdock, o advogado sem medo. Ele é muito novo ainda, tem pouco mais de cinquenta anos, há tempo para se recuperar. Porém, tem cometido uns pecados tão graves que fazem duvidar dessa possibilidade. Demorou muito, por exemplo, para concordar em fazer uma continuação de sua obra mais popular, justamente o ‘Cavaleiro das Trevas’, uma idéia por si só absurda. É provável que a pressão das editoras tenha sido tanta quanto ao tentar novas histórias com a personagem Elektra, mesmo depois de sua morte, um marco na história do Demolidor e das HQs. Creio que devia ser inimaginável para os executivos deixar de utilizar uma personagem que foi crescendo de importância e popularidade. Miller resistiu até um certo ponto, até que produziu ‘Elektra Vive’, um álbum com uma história frouxa e sem força mas graficamente muito bonito. Ao menos, Miller fez valer sua vontade e manteve Elektra morta.

Com o ‘Cavaleiro das Trevas’ a pressão deve ter sido muito maior! Quando afinal Miller sucumbiu, a esperança era que seguisse a linha da Elektra: sem pretensão de alcançar a qualidade da história original, mas pelo menos mantivesse a dignidade e a integridade do personagem e do autor. Nada, nada! A merda produzida em ‘Cavaleiro das Trevas 2’ é tão retumbante, a história tão idiota, a arte tão coloridamente fake (e mais não falo, para manter um certo decoro neste texto), que custa a acreditar que o 1 e o 2 foram feitos pela mesma pessoa.

Agora

Porém

Elektra é uma criação de Miller. Ele não criou o Batman, mas sua reinvenção com o ‘Cavaleiro das Trevas’ é tão forte que forçou uma espécie de co-criação, digamos assim. Se ele quer estragar ou destruir seu próprio trabalho, o único que podemos fazer é entristecer e lamentar sua falta de senso.

No entanto, com ‘Spirit’, a coisa é completamente diferente. O que Frank Miller fez com a criação do mestre Will Eisner é de um absurdo escroto. E indigno, porque realizado por um quadrinista!, que sabe bem o que significa trabalhar com quadrinhos e o quanto é difícil passar por cima dos preconceitos estabelecidos há tantos anos.

Ou, talvez, não saiba. Quem sabe, Miller tenha se tornado somente um bobo alegre perpetuamente deslumbrado com as imagens da magnífica versão cinematográfica de ‘Sin City’ e do meia-boca ‘300’, e fique perseguindo essa ‘glória’ de ser cineasta. Enquanto esquece o que é ser escritor e quadrinista.
Como disse acima, Miller ainda é muito jovem. Dá tempo de fazer muita besteira. Ao leitor, a besteira seria deixar de conhecer (ou reler, sempre) e degustar o que ele soube fazer de melhor: ‘Ronin’, ‘Cavaleiro das Trevas’, ‘Batman Ano 1’, ‘Martha Washington’, ‘Hard Boiled’, (nem tudo, mas boa parte de) ‘Sin City’.

E, naturalmente, ‘A Queda de Murdock’.

texto publicado originalmente no site VERBO 21

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