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Pão e Rosas

8 de março de 2012

Há cem anos, precisamente em março de 1912, terminou a histórica luta das mulheres trabalhadoras da indústria têxtil em Lawrence, Massachussets. Durante três meses, elas haviam lutado por condições (menos)desumanas de trabalho, por leis de proteção à exploração do trabalho infantil (crianças começavam a trabalhar com doze, treze anos de idade, com a mesma carga horária dos adultos e muito menor remuneração), pela manutenção dos salários defasados e engolidos pela voragem capitalista. Reuniu milhares de trabalhadoras, de muitas nacionalidades (boa parte era de imigrantes, presas mais fáceis de maior exploração) (havia por volta de 25 nacionalidades diferentes que falavam mais de 40 línguas próprias) em uma explosiva demonstração vívida da capacidade de organização e resistências femininas.

Durante as manifestações, elas gritavam ‘Queremos Pães e Rosas’, uma referência a um poema em homenagem à luta e à vida das mulheres escrito por James Oppenheim. O poema tornou-se, assim, um símbolo das mulheres batalhadoras de Lawrence e por consequência das lutas das mulheres pelo globo. Musicado na década de 70, teve várias regravações ao longo dos anos.

 

Bread & Roses

As we go marching, marching
In the beauty of the day
A million darkened kitchens
A thousand mill lofts grey
Are touched with all the radiance
That a sudden sun discloses
For the people hear us singing
Bread and roses, bread and roses

As we go marching, marching
We battle too for men
For they are womens children
And we mother them again
Our lives shall not be sweetened
From birth until life closes
Hearts starve as well as bodies
Give us bread, but give us roses

As we go marching, marching
We bring the greater days
For the rising of the women
Means the rising of the race
No more the drudge and idler
Ten that toil where one reposes
But the sharing of lifes glories

http://www.lucyparsonsproject.org/iww/kornbluh_bread_roses.html

http://www.socialistworld.net/doc/293

 

 

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Nuestra America: entre Bruce Lee e Atahualpa Yupanqui

20 de outubro de 2011

Foi o pessoal da Amauta, uma pequena editora paulistana dedicada a publicar autores hispano-americanos importantes, mas que nunca foram lançados no Brasil, quem teve a sacada: há um verdadeiro Muro de Tordesilhas que separa o nosso país da hispano-América. A idéia em si talvez não seja exatamente original, mas a expressão é mais do que uma simples frase de efeito. Retrata uma situação de fato, concreta e óbvia, patente a todos os olhos e ainda faz referência às raízes de explicações, e diferenças, históricas, culturais e políticas. Há muito tempo que o Muro existe e, apesar de tímidas tentativas aqui e ali de desmonta-lo, ele resiste, bravo e forte.

Mas, já que falei de obviedades, ninguém morrerá se eu disser mais uma: há muita gente escrevendo por estas américas todas, indo além e independente das sombras dos fodões-maiores, os eternos Garcia Márquez e Vargas Llosa e companhia. Mais do que isso: muita gente Boa escrevendo Bem! Isso deve parecer um contra-senso para aqueles fundamentalistas literários que adoram se ajoelhar em milho e se chicotear enquanto choram “Machado de Assis morreu! Machado de Assis morreu!” (a tradução em termos continentais creio que ficaria algo do tipo: “Borges ha muerto! Borges ha muerto!”)…

No fundamental e necessário site de literatura (infelizmente extinto) PARALELOS, organizei certa ocasião, junto com o camarada Marcelo Barbão, um especial de autores latino-americanos contemporâneos (no qual este texto serviu como introdução).  O site nunca levou a sério limitações bestas, de tal forma se dedicou a mostrar e a publicar e a integrar estes autores que trabalham e jorram sua escrita sem se preocupar com o que pode dizer aquela tal crítica rançosa. O especial foi um sucesso, pois estava mais do que na hora dos novos latino-americanos serem representados e divulgados. Assim, pudemos ter uma idéia (mesmo que mínima) do que está acontecendo agora, neste momento, com nossos vizinhos e o que eles estão aprontando.

ATAHUALPA YUPANQUI e BRUCE LEE

Foi uma tentativa também para começarmos a entender o por quê, afinal de contas, chegamos a esta situação. Pois devo dizer que esta não foi eternamente fixada por nenhum poder divino, nem inclusive existe há tanto tempo como se pode imaginar.

Lembro, por exemplo, que sou do tempo em que os cinemas no Brasil eram obrigados a exibir produção brasileira, uma porcentagem em relação a filmes estrangeiros. Tenho a impressão de que essa lei ainda existe (ou estão tentando que volte). Na época, cumpriam. Qualquer coisa, desde que fosse brasileiro. O normal eram programas de noticiário, principalmente sobre futebol, e curta-metragens. Assim, acabávamos assistindo a muitos filmes brasileiros, sem querer. Isso é para explicar porque, em um certo dia da minha adolescência, eu fui assistir um filme de kung-fu no centro da cidade (é, também sou do tempo que existiam vários cinemas no centro de São Paulo) (e é, adoro filmes de kung-fu, bruce lee e etc) e acabei vendo um documentário sobre a América Latina.

Era um curta que exibia o trabalho de um fotógrafo brasileiro que durante muitos anos percorreu a América de ponta a ponta. Não havia narração, só uma música. Não precisava narrador, as fotos (e a música, mesmo que não entendesse sua letra) eram o suficiente. Para mim, foi um impacto. Foi a primeira vez que tomei consciência real de um mundo fora da minha cidade (eu era pré-adolescente). Pela primeira vez, vi a miséria com outras roupagens, fome com outras línguas. E havia, ao mesmo tempo, um clima de dignidade, de força impressionantes. Aquilo era muito novo para mim, não entendia. E aquela música me tirava do sério. Posso dizer, sem sombra de dúvida, que naquele exato momento me tornei um ser político. Não lembro de nenhuma cena do filme que fui assistir, nem lembro aliás qual era. Mas saí do cinema decidido a conhecer e entender melhor o que havia visto. Precisava saber de quem era a musica e do que falava.

E conheci. E me deixei tragar por uma cultura tão vasta quanto poderosa, com uma historia de revoltas e lideres magníficos, de lutas mortais, de sofrimentos atrozes e belezas inenarráveis. Conheci a história de Jose Martí, de Bolívar, San Martin. Das revoltas indígenas no Peru, dos mineiros da Bolívia, do ditador paraguaio. Li AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA, de Eduardo Galeano e BOM DIA PARA OS DEFUNTOS, de Manuel Scorza, CANTO GERAL, de Neruda, quase que em seguida. Nessa época conheci os tais Gabriel Garcia Márquez, Ernesto Sabato, Mario Vargas Llosa, e tantos outros. Conheci o cinema do cubano Gutierrez Alea e do argentino Fernando Solanas. Ouvi a voz portentosa de Mercedes Sosa, Violeta Parra, Victor Jara, que derramavam poesia, amor, paixão, e política militante contra suas ditaduras.

Conheci a América Latina quando era pré-adolescente, viciei-me e nunca mais me curei.

MAS HAVIA UMA EFERVESCÊNCIA GERAL E COMPARTILHADA

Isto é, estava no ar. Havia programas de rádio dedicados à música latino-americana; programa de tv, na rede Globo!, apresentado por Chico Buarque e Caetano Veloso cantando junto com Mercedes Sosa; e os tais Garcia Márquez e companhia já eram os fodões, sem dúvida, mas ainda não estandardizados como agora.

Então, o que houve? Como o Muro de Tordesilhas pôde ser construído de tal modo que hoje em dia não se conhece, nem se deseja conhecer, uma produção literária caudalosa como a da Argentina, por exemplo?, pela qual seria possível mostrar um especial do Paralelos só de argentinos.

Em uma conversa com Ricardo Lísias (um camarada interessante: com trinta anos, já tem três livros publicados, “Duas Praças”, “Cobertor de Estrelas”, “Dos Nervos”, e um pós-doutorado em Literatura Latino-americana, após um mestrado e um doutorado em literatura brasileira), foi possível vislumbrar um encaminhamento. Sua Pós trata mais especificamente da literatura de repressão chilena, argentina e brasileira. Uma primeira constatação é a desta anterior cumplicidade política da resistência às ditaduras e que foi diluindo à medida que os movimentos sociais se agitavam e terminavam suas respectivas. Enquanto os processos de derrubada das ditaduras seguiram formas muito diferenciadas (na Argentina e Chile mais violentas e objetivas do que no Brasil, mais ‘negociada’), a literatura (e a cultura) pós – ditatorial segue igualmente uma maior diferenciação. Isto é, há uma espécie de profunda necessidade para os argentinos e chilenos de repensarem e discutirem e reimaginarem seus países e seus respectivos períodos repressionais e sua relação com a atualidade (veja-se a literatura do jovem argentino Martin Kohan, por exemplo) (veja-se os apuros de um Pinochet que, antes de morrer, teve problemas para se manter a salvo no Chile, outro exemplo) enquanto que no Brasil parece existir uma necessidade contrária e absoluta de se esquecer, de deixar de lado, de não ser ‘político’, em trabalhar somente no lado de experimentação simbólica e de linguagem. Há um verdadeiro horror nas palavras Política, Partido, Ideologia, e uma terrível confusão entre os termos que se confundem com os problemas de governo (que não deixam de ser desestimulantes, por certo).

Uma outra obviedade (mais uma!) é o do nosso absurdo desconhecimento. Naquela mesa com Ricardo Lísias fizemos um pequeno teste a nós mesmos e nos perguntamos qual seria um puta autor da Bolívia. Ficamos nos olhando, refletindo sobre nossa bruta ignorância. Mais tarde, entrando na internet busquei os sites sobre a literatura boliviana e encontrei vários. Nunca duvidei que eles escrevessem; devem existir inclusive escritores extraordinários. Mas naquela noite no computador havia para mim somente nomes e nomes que não me diziam nada.

Pois bem, um dos principais objetivos do especial foi buscar estreitar a distância, acompanhar o movimento, diminuir a ignorância. Minha sim, minha assumida ignorância, e a de tantos outros, nem tão assumida.

Trabalho e projeto que não teriam vingado não fosse o empenho do Marcelo Barbão e o incentivo de Augusto Sales e a existência do próprio site PARALELOS e o auxílio de tantos outros como Marcelino Freire (que intermediou alguns contatos) e dos próprios autores participantes. Uma tentativa tímida, mas contribuimos para a derrubada do Muro. Como agora. Neste exato instante.

– (A música que ouvi naquele dia naquele cinema era YO TENGO TANTOS HERMANOS, de Atahualpa Yupanqui. Naquela época, sempre havia quem gritasse ” Toca GRACIAS A LA VIDA” (de Violeta Parra) da mesma forma e na proporção de “Toca Raúl”  Não mais. Com sua morte, Mercedes Sosa levantou um enorme eco, sinalizando sua ainda enorme popularidade em terras brasileiras. Mas um Victor Jara, ou um Atahualpa Yupanqui ou uma Violeta Parra continuam na pior espécie de ostracismo, o do esquecimento.

Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar.
En el valle, la montaña, en la pampa y en el mar.
Cada cual con sus trabajos, con sus sueños, cada cual
Con la ezperánza adelante, con los recuerdos detrás.
Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar.

Gente de mano calliente por eso de la amistad.
Con un lloro pa llorarlo, con un rezo pa rezar.
Con un horizonte abierto que siempre está más allá.
Y esa fuerza pa buscarlo con tesón y voluntad.
Cuando parece más cerca es cuando se aleja más.
Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar.

Y así seguimos andando, curtidos de soledad.
Nos perdemos por el mundo, nos volvemos á encontrar.
Y así nos reconocemos, por el lejano mirar,
Por la copla que mordemos, semilla de immensidad.
Y así seguimos andandos, curtidos de soledad.
Y en nosotros nuestros muertos pa que nadie quede atrás.
Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar,
Y una novia muy hermosa que se llama Libertad !

– republicar este texto agora, revisado e atualizado, é uma forma de retomar e me reaproximar da minha metade latino-americana que andava esquecida ultimamente; repensar, ressignificar, requalificar uma espécie de ethos latina (sempre em formação, sempre em mutação) fez parte inidistinguível de minha formação intelectual, vale a pena reconquistá-lo.

– além do mais, dois pontos recentes reviveram o fogo: o movimento dos estudantes chilenos francamente trouxe um entusiasmo que eu julgava estar meio perdido; e o conhecimento de um trabalho muito bacana (dica e sugestão da minha amiga Fernanda Sposito) realizado por Caio Romero, cujo estudo universitário se sintetizou em uma série de aulas sobre as ditaduras latino-americanas e no seu blog, Descremar. cuja página ‘Ditaduras na América Latina – século XX‘  merece muito ser vista.

11 de setembro: La Moneda

10 de setembro de 2011

“Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição.”

O ÚLTIMO DISCURSO DE SALVADOR ALLENDE
Discurso do Presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, dia do golpe de Estado que derrubou o governo da Unidade Popular e implantou a sanguinária ditadura militar comandada pelo general Pinochet

opa, Prestenção: semana agitada

9 de junho de 2008

Na Mercearia São Pedro, hoje, lançamento dos livros de Joca Terron e Xico Sá pela Dulcinéia Catadora. O ‘Dulcinéia’, para quem ainda não conhece, é um trabalho muitíssimo interessante que envolve literatura, arte e projeto social: os livros são impressos simples, artesanais, e as capas são feitas com papelão recolhidos por catadores de papel de rua. O lance começou em Buenos Aires, chama-se lá ‘Eloísa Cartonera’ e está criando uma onda pela América Latina bem bacana: tem na Bolívia, ‘Yerba Mala Cartonera’, no Peru, ‘Sarita Cartonera’, no México, ‘Lupita Cartonera’, e no Chile, o ‘Animita Cartonera’. As edições são limitadas, claro, e costumam esgotar muito rápido, portanto, prestenção e não marque bobeira. Na Mercearia, Rua Rodésia, 34, Vila Madalena.

Opa, também hoje, este as 13 hs: a escritora Marcia Bechara vai participar do programa ‘Ida e Volta’ da Rádio Mix, batendo um papo com a apresentadora Ida Feldman e discotecando um pouco das músicas que curte. Òtima oportunidade de conhecer um pouco mais (pelo menos, ouvir), uma das minhas convidadas para o Desconcertos na Paulista, na Casa das Rosas, deste sábado, dia 14, junto com a Cidinha da Silva e a Sabina Anzuetegui. Tem mais informações lá no blog da Márcia. http://www.marciabechara.blogspot.com/.

Na quarta-feira, a editora Amauta lança mais petardo de língua espanhola aqui em nossas tão ‘longínquas’ terras brasilis: “GREGUERÍAS”, de Ramón Gómez de la Serna, abrindo também uma exposição, com debates e leituras. Este vai ser na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37, ao lado do metrô Brigadeiro. Sobre a Amauta, reproduzo abaixo no post anterior, o texto que escrevi para o lançamento do primeiro livro da editora: ‘Crimes Exemplares, de Max Aug: para mim, um marco na história editorial deste país. Veja lá o que escrevi e entenda porquê.

Sobre Ramón não poderei comentar agora, ainda não o li. Mas, lerei, conhecerei e comentarei. Por enquanto, pesquei pela Internet esse breve sumário: “Ramón Gómez de la Serna, ou simplesmente Ramón, como toda a Europa e América Latina artísticas o conheceram nos anos 20 ou 30, nasceu em Madrid em 1888. Aos vinte anos dirige uma revista literária (Prometeo) que durou até 1912. Interessado por tudo o que é moderno, funda, em 1915, na Calle de Carretas, não muito longe da Puerta del Sol, a tertúlia do “Café del Pombo” por onde irá passar toda a ‘intelligentsia’ espanhola, e não só, atraída pela sua fama de grande mestre do humor e da vanguarda. Tentou criar em Madrid um ambiente cosmopolita e verdadeiramente moderno. Viajou muito — viveu em Paris, Nápoles, Genebra, construiu uma moradia no Estoril onde passou largas temporadas, mas é sobretudo Madrid que palpita na sua obra. Obra imensa — de todos os géneros que existiam e que não existiam: romances (La Viuda Blanca y Negra, La Quinta de Palmyra, Seis Falsas Novelas, La Nardo, La Mujer de Âmbar), crónicas (El Rastro, Toda la História de Puerta del Sol, La Proclama del Pombo…), biografias (Lope Viviente, Ramón del Valle Inclán, Goya, Oscar Wilde, Velásquez…), ensaios (El Circo, Senos…), autobiografia (El Libro Mudo, Secretos, Automoribundia…) numa lista de duzentos títulos. Foi traduzido por toda a Europa. Com Chaplin e Pitigrilli, foi o único estrangeiro admitido na Academia de Humor Francesa. E Valéry Larbaud, que poucas vezes se enganou, dele disse “Com Proust e Joyce é um dos maiores escritores do século XX”. Em 1936, com o deflagrar da Guerra Civil, parte para Buenos Aires onde conhecera Luisa Sofovitch, que o acompanhou até à morte em 1963.” (Jorge Silva Melo in http://www.assirio.com/autor.php?vw_getArtigosOrder=sPreco&vw_getArtigosDir=ASC&id=1406&i=R)

“ARTCULTURA 14 : Já está à disposição dos interessados a ArtCultura: Revista de História, Cultura e Arte, n. 14, do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia, vinculada ao Programa de Pós-graduação em História. Seu lançamento ocorreu, dias atrás,  em New Orleans, durante o IX Congresso Internacional da Brasa (Brazilian Studies Association). Publicação classificada como “A Nacional” em História, Artes (Cênicas e Visuais)/Música e na área Multidisciplinar, na avaliação do Qualis/Capes, ela passa agora a contar com a chancela da Edufu, da Capes e do CNPq. Ao longo de suas 270 páginas, em tamanho duplo, se distribuem dois dossiês (com 13 textos no total, dois deles traduzidos para o português), mais 2 artigos, 2 resenhas, uma palestra e, na seção Tradução,  figura um trabalho de autoria de Marshall Berman. A capa da ArtCultura 14, os resumos e abstracts podem ser acessados através do site http://www.artcultura.inhis.ufu.br, do Portal de Periódicos da Capes, http://www.periodicos.capes.gov.br,  e do Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER/Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia), http://www.ibict.br,  que também disponibilizam alguns textos deste número. A revista é vendida ao preço de R$ 15,00. Quem desejar assiná-la, mediante o pagamento de R$ 20,00, adquirirá  o direito ao recebimento das edições n. 14 e 15. Esta terá, entre outras atrações, um artigo do historiador Carlo Ginzburg e três dossiês: História & Teatro, História & Riso e Os 30 Anos de “O Queijo e os Vermes”. Para tanto, basta entrar em contato conosco via e-mail artcultura@inhis.ufu.br.”

Entre os vários artigos interessantes que compõem este número 14, gostaria de destacar alguns que me chamaram bastante a atenção: “Preconceitos nas charges de O Pasquim: mulheres e a luta pelo controle do corpo”, da Rachel Soihet; “O cinema mudo em São Paulo: experiências de italianos e italianas, práticas urbanas e códigos sexuados”, de Mônica Raisa Schpun; e “O corpo inacessível: as mulheres e o ensino artístico nas academias do século XIX”, de Ana Paula Cavalcanti Simioni.

E o camaradinha Hellboy está chegando! O primeiro filme foi bem simpático, divertido e interessante. Nenhuma maravilha espetacular, simplesmente um divertimento bem conduzido. O segundo parece que está indo pela mesma leva. O trailer está bem instigante, embora não se possa julgar o filme por isso: os hollywoodianos são ratos especialistas em marketing e vários trailers são, muitas vezes, até melhores, ou até bem melhores, do que os filmes. No entanto, a expectativa é boa.

Para quem quiser ter uma boa noção sobre a história, origens e desenvolvimento do Batman, um texto muito bom publicado na internet nos últimos dias está no blog Os Melhores do Mundo, escrito por Richard Matis. Além de ser bem informativo, com vários pormenores relevantes e boa argumentação (Richard consegue colocar algumas questões polêmicas, sem baixar a discussão, bem realizado isso), há ainda uns detalhes que contribuiram para enriquecer esse post: o nível dos comentários e das respostas foi bem alto, foi bom de acompanhar a conversa, ajudaram a preencher alguns buracos e algumas imperfeições do texto, isso foi muito bacana! Pena que acabou descambando para uma conversa de tema único, batido e meio sem volta, embora até mesmo isso tenha sido válido. Dá para perceber como certas pessoas recebem (e hostilizam) certas idéias, e tentam a todo custo manter a pose de que ‘não tou nem aí, sou inteligente e sem preconceitos, mas isso não!’. No geral, foi até engraçado.

Por outro lado, o próximo filme está aí prestes a aparecer. E, na minha modestíssima opinião, tem tudo para poder provocar um terremoto na indústria cinematográfica dedicada às adaptações de quadrinhos de superheróis. Tem a capacidade e a oportunidade (que vão bem além de simplesmente possuir os meios técnicos para a feitura de efeitos especiais) e, ao que tudo está me indicando, as coisas estão caminhando para isso. Será? Será? Esse papo, porém, é mais longo e quero desenvolve-lo melhor, aprofundar a discussão. Por enquanto, fica essa dica aí desse link: clica AQUI para ler o texto.

E, é claro, se você quiser saber Tudo sobre como foram a formação não só do Batman, não só dos super-heróis, mas também de toda a indústria e ideologia das revistas em quadrinhos, seu apogeu, auge, e subsequente queda, ataques moralistas e o que mais, nos Estados Unidos, dirija-se direto ao livro “Homens do Amanhã – geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis”, de Gerard Jones, da editora Conrad. Ali tem tudo.

Better dead than red

8 de junho de 2008

GUERRAS FRIAS E QUENTES

Não é nada fácil hoje em dia imaginar como foi a época e o clima pesado da Guerra Fria. Se as crianças de hoje já estão crescendo e saindo das escolas sem nem ter idéia de que existiu uma Ditadura no Brasil (como me contou horrorizada uma amiga professora), o que se dirá da política de opressão, propaganda e verdadeira lavagem cerebral da luta entre “capitalistas” e “comunistas”. E se de um lado tivemos o estalinismo soviético e sua poderosa máquina de triturar oponentes e apagar, deturpar e destruir a história, do outro, não menos filhos da puta foram os norte-americanos. Estamos vendo agora, neste momento, como eles conseguem na maior cara de pau distorcer todos os fatos que lhe são negativos. O negócio é tão descarado, basta ler qualquer obra de Noam Chomsky para perceber isso… E eles pensam realmente que estão enganando o planeta inteiro.

Quem é minimamente informado, sabe que houve uma época nos Estados Unidos chamada de Mcarthismo, uma caça às bruxas realizada um pouco depois da Segunda Guerra, em busca dos traidores e espiões escondidos no país e que estariam fazendo propaganda pró-comunista em todos os tipos de meios de comunicação. Isto é, eles realmente acreditavam que Hollywood era um viveiro de norte-americanos loucos para acabar com o capitalismo e provocar uma revolução. Era uma paranóia um pouco diferente do que o que estamos vendo agora, pois no caso da Guerra contra O Mal Muçulmano E Terrorista entra um fortíssimo componente de racismo e preconceito (além da óbvia e absoluta ignorância de quaisquer detalhes dos movimentos religiosos em questão). No caso do macartismo, era voltado para os seus próprios habitantes, os brancos, os bem nascidos, etc e tal (embora, a quantidade de judeus perseguidos seja um tanto ou quanto “suspeita”, digamos assim).

Estou comentando isso e talvez repetindo coisas que todos já sabem porque lembro de quando acabei de ler um livro emprestado da Marcela Tavares chamado BETTER DEAD THAN RED. É um resgate do que foi aquele período, repleto de exemplos, fotos, cenas de filme, trechos de livros, etc. O subtítulo é mais ou menos o seguinte: Uma Visão Nostálgica dos Anos Dourados da Russofobia, da Batalha contra os Vermelhos e Outras Loucuras Comunas. Extremamente bem humorado, divertido e colorido, mas tão sério que assusta. Pois o livro demonstra como eles acreditavam em cada palavra, em cada sentença, em cada imagem montada. Cara, o negócio foi além de qualquer imaginação! Se não fosse tudo absolutamente verdadeiro, poderia até ser engraçado.

Era tudo: seriados, filmes, gibis, desenhos animados, álbum de figurinhas!, montados e criados para preparar os cidadãos contra a ameaça vermelha por dentro. O filme MY SON, JOHN conta a história de uma mãe que descobre que seu filho, o tal John, é comunista e o faz confessar seu pecado com a mão encima da bíblia. Caso contrário, ela mesma o entregaria ao FBI. Ele mente (claro), mas se arrepende e quando está se dirigindo para se entregar é morto pelos antigos companheiros. A mãe vê o tiro, chora (claro), mas fica contente de saber que ele havia se arrependido. E liga ela mesma para o FBI e entrega todo mundo, vão todos presos. Os Estados Unidos estarão salvos enquanto existirem mães como ela.

Há histórias surrealistas: Matt Cvetic, por exemplo, era um caça-comunista voluntário e, por conta própria entrou para o partido comunista em Pittsburgh para zoar. Cvetic era alcóolatra, mentiroso compulsivo e violento, e certa vez fora preso por bater em sua irmã a ponto de manda-la para o hospital. Pois bem, depois de um tempo, saiu do partido e vendeu sua história para um jornal sob o título: EU FUI COMUNISTA PELO FBI. A reportagem faz um bruto sucesso, vira livro, novela de rádio, e depois um filme. Sendo que no filme, Cvetic acaba, desbarata, destrói o partido comunista em Pittsburgh. O detalhe mais delicioso é que o filme foi indicado ao Oscar do ano. De Melhor Documentário.

O melhor de tudo são as dicas de “Como Identificar Um Comunista Americano”: presta atenção, de repente isso pode te ajudar:

se o seu amigo, vizinho, irmão 1) acredita que a Segunda Guerra Mundial foi uma guerra imperialista, antes da Rússia entrar nos combates 2) concorda que política externa da União Soviética é correta mesmo que ela viva mudando 3) costuma criticar a política americana, britânica e chinesa e nunca a soviética 4) recebe continuamente panfletos e materiais do partido comunista, mesmo que legalizados 4) costuma participar de atividades de grupos com tendências comunistas, como o Comitê pela Paz, o Congresso dos Direitos Civis, o Congresso Nacional Negro 5) fica declarando que a democracia americana é decadente Só por que acontecem algumas injustiças… Bom, CUIDADO! O seu amigo, vizinho, irmão tem tudo para ser um perigoso e sanguinário COMUNA!

Bem, talvez no final das contas, não seja tão difícil imaginar assim como foi essa clima. Troque-se as palavras, mude-se uns termos e atualize-se as informações. Hoje em dia, o problema é ser MUÇULMANO já que, obviamente todos os árabes são naturalmente muçulmanos e, mais naturalmente ainda, são todos um bando de Terroristas. E assim caminha a humanidade.