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Globo julga e condena os novos ‘subversivos; ‘Esquerda’ comemora

23 de julho de 2014

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Vozes de esquerda que usam reportagens da Globo, Veja, Folha de São Paulo, para atacar os manifestantes presos, e desta forma, referendar a forma de sua prisão e a criminalização, não, a Demonização, dos movimentos de liberdade de expressão. Gravações eletrônicas de conversas telefônicas liberadas a bel prazer para o Jornal Nacional!, e tomadas como provas de que Sininho, Eloisa e os demais fazem parte de uma verdadeira organização terrorista. Foi dito na Globo. Portanto, deve ser verdade, certo?

As mesmas vozes que são tão críticas e lúcidas, que pregam a desconfiança e o mínimo de ‘pé atrás’ quando se trata desses veículos de ‘informação’ e, realmente, no geral, conseguem separar o quanto há informação ‘séria’ e o quanto de grosseira manipulação de dados descolados de contexto e ideologicamente recortados. Sininho, Eloisa e os demais só não foram comparados à Osama Bin Laden porque ninguém pensou nisso, ainda. Ou, talvez, Bin Laden já esteja demodè, ultrapassado, uma velharia. A novidade talvez seja os Novos Terroristas Brasileiros e quaisquer semelhanças com o modo como agiam os órgãos de repressão e de ‘informação’ de tempos ditatoriais, são (muito convenientemente) esquecidas e deixadas de lado.

Decepção? Não, exatamente. Dizer ‘decepção’ implicaria que, em algum momento, eu teria pensando que poderiam agir e pensar diferente. Nesse sentido, não estou ‘decepcionado’. Mas, confesso um certo grau de … frustração. Poderiam ser mais contidos, poderiam ser mais circunspectos, poderiam baixar o tom de comemoração com que ‘os terroristas’, os ‘iludidos’, os ‘subversivos’ estão sendo punidos.

Punidos! Porque a Globo, afinal de contas, já decidiu que eles são culpados. Na verdade, porque perder tempo em prendê-los ‘preventivamente’, depois recusar habeas corpus, e depois só depois julgá-los, passar Todo o tempo de julgamento, apresentação de ‘provas’, argumentos e contraargumentos, se o Jornal Nacional (e as tais vozes de esquerda) já decretaram que são culpados, de que organizaram a explosão do maracanã, a morte de milhares de palestinos e a queda do avião da Malásia?

Não acho que Elisa Quadros seja uma santa ou uma completa inocente ingênua, e não sei se ela é uma subversiva proto-terrorista internacional. Eu tendo a crer que não, mas isso é puramente um pensamento meu, à espera de que ela, Elisa e todos os demais tenham um Julgamento, e daí uma resposta jurídica legal. E não um linchamento midiático comandado pelo William Bonner e seguido por vozes outrora inteligentes e críticas, outrora de esquerda.

O texto de Mônica Mourão é um excelente material de reflexão e serve muito bem como aporte para discussão. Para os que ainda possuêm a pretensão de montar um pensamento independente.

http://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/culpados-ate-que-se-prove-o-contrario-2643.html

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O Pêndulo de Frankfurt na Folha

27 de fevereiro de 2014

frank

 

Eu não leio mais a Folha de São Paulo, veículo que desconsidero há muito tempo como fonte de informação ou opinião. Às vezes, dou uma olhada na segunda página da ilustríssima (nome de caderno pomposo e arrogante que me afasta ainda mais) pra ver se há algum lançamento que me interesse e que eu ainda não tenha visto em outros meios. Portanto, quando vi o foco do caderno de cultura deste último domingo ser literatura brasileira contemporânea, minha reação foi mais de medo do que curiosidade. Não consegui passar da leitura do box ‘resumo’ do primeiro artigo (que não abre discussão nenhuma, é só mais um lamento sobre o ‘problema’ de nossa literatura ter um eixo subjetivista e autorreferencial). Somente com uma bola levantada pelo escritor Lima Trindade no Facebook e pelos comentários em seu post tive coragem de voltar e ler os textos. A sensação ruim se concretizou, mas me animo a levantar uns pontos (se isso ficar muito longo, culpem o Lima, ele que provocou…)

1) Ao que me parece, todo o caderno foi montado como uma espécie de avaliação das consequências da Feira de Frankfurt. À primeira vista, o caderno parece-me esquizofrênico, e não somente por ser escrito por vários autores com suas respectivas opiniões.

O texto do Marco Rodrigo é o mais complicado, pior escrito e tendenciosamente dirigido: o problema da moderna literatura é sua Subjetividade assumida pelos autores nos últimos anos. Mesmo quando ele cita opiniões contrárias, logo depois faz uma afirmação peremptória e fecha a conversa. Ele diz “embora o domínio do texto autorreferencial seja tido como um fato“, logo antes de citar Luiz Costa Lima que é radicalmente contra essa idéia. Diz “decorrência natural da subjetivação, segundo os críticos, seria a ausência de um sentido político em parte significativa da prosa brasileira”. Não ‘alguns críticos’. Os críticos. O que não bate com Manuel da Costa Pinto, mas até aí, ‘os críticos’ já tinham dado sua palavra. E por aí vai. Em suma, a conclusão é: literatura subjetiva, sem senso político, sem encaixe social, pobre literatura moderna brasileira.

2) Beatriz Resende é mais aberta e ampla e preocupada em destacar o que está acontecendo de concreto em termos de novos autores e faz um resumo de tendências. Com os poucos autores citados como referências, o clima aqui é completamente diferente: há autores, há literatura de qualidade sendo produzida, há produção e busca de novas formas de escrever, há coisa boa sendo feita. Mesmo que (ainda mais, depois da melancolia morna e depressiva do Rodrigo Almeida), Beatriz advirta para o perigo de obras serem escritas ou publicadas tendo em vista o interesse imediato em traduções e vendas para o mercado externo, ainda assim demonstra que existe, sim, uma produção de qualidade que vem aumentando, marcada pela “pluralidade“, pela “forte ruptura com formas desgastadas e conservadoras e com resquícios nacionalistas, regionalistas e similares”. Mesmo quando ela fala da literatura ‘autorreferencial’, lembra que se aposta na “desestabilização da narrativa“: “a autoficção, a temática memorialista… o questionamento de identidades vêm, nos melhores casos, atravessados por intervenções formais de alterações no discurso narrativo a intervenções gráficas“. O clima geral é animador.

3) Raquel Cozer fala de mercado editorial. Volta a melancolia. Brasileiro vende mal. Brasileiro mal aqui dentro e pior ainda lá fora. Alguns poucos vendem bem, mas na maioria por razões extraliterárias, como a atriz Fernanda Torres, ou de exceção de gêneros, como a “ficção pop nacional”. A questão aqui não é de qualidade literária, mas da preocupação com a baixa qualidade de vendagem. Perspectivas? O subtítulo do texto diz tudo: “A ficção nacional avança, mas para”.

4) O texto da Luciana Villas-Boas é muito mais completo e interesssante, porque, diferente do Marco Rodrigo Almeida, é muito melhor escrito (e o maior espaço também possibilita desenvolver os argumentos). No entanto, com melhor embasamento e referências bem construídas, Luciana recolhe o que foi dito antes e amplia e, com argumentos diferentes, investe na mesma linha do Marco Rodrigo.

Começa por caracterizar o escritor brasileiro como ávido por ser transportado, lançado e propagado por traduções estrangeiras. Não importa o quanto venda aqui dentro, se vender. O deslumbre é por ser editado em algum país estrangeiro, qualquer país estrangeiro. Ela se cansou de ver autores ávidos pelo glamour de uma edição estrangeira, mesmo que a tiragem dos seus livros aqui dentro seja miserável (ainda mais pelos padrões internacionais). O problema é que o grande “obstáculo para a internacionalização da ficcão brasileira” é que “nossa literatura não anda com as próprias pernas em seu país. Precisa das muletas de outro veículo ou forma de comunicação. Não temos volume ou variedade” (imagino que ela esteja se referindo à volume e variedade traduzidos, já que como vimos com Beatriz Resende, aqui há sim volume e variedade sendo produzidos). Então, qual é o momento em que o escritor brasileiro se descola de sua própria realidade, quando foi a hora da separação, por que o brasileiro não faz tanta questão de fincar sua força em suas raízes, quando aconteceu o “divórcio da literatura e sociedade no Brasil”? Devo pular várias considerações de permeio, plenamente válidas, como a época de respeito pela literatura nas décadas de 60, 70, e na própria infância de Luciana, até chegar nas décadas perdidas de 80 e 90, e me centrar no que considero o centro de sua questão, quando diz “A ditadura começou solapando o sistema de ensino e a rede escolar; desvalorizando a crítica, o saber humanístico, o hábito de leitura e agigantando a TV Globo”, o que ao meu ver já explica muita coisa.

Lima Trindade comentou que Luciana apenas resvala na questão da Educação, e eu digo mais, muito mais, ela pulou longe. Pois para Luciana Villas-Boas não foi esse o ponto mais importante. “O fator determinante foi a inflação”. Os editores não tiveram dinheiro para investir nos autores. Quando puderam, perderam o bonde. Ou não mais se interessaram, preferindo apostar nos autores estrangeiros. E os autores, agora deslumbrados com possibilidades (ou sonhos) internacionais, se perdem, esquecem seu público local, esquecem de verificar se sua obra realmente é boa. Qual sua tarefa, então, escritor?, pergunta.

Ok, já avisei que fiz um apanhado geral, ela disse muito mais coisa, e o texto vale a pena ser lido com mais atenção.

Não sei como foi pensado ou formatado o caderno. Percebi que a minha primeira impressão de esquizofrenia não se revelou real. Há um sentido aqui, com um quase movimento de pêndulo. De primeiro, a sensação de desolação pelo umbiguismo do escritor nacional e sua falta de compromisso social, literariamente falando, bem entendido. O pêndulo vai e vemos que há sim mais coisas acontecendo e coisas boas e interessantes. O pêndulo volta e somos confrontados com a dura realidade de que o mercado nacional é uma catástrofe (o que, convenhamos, não é exatamente uma novidade). Aí, o pêndulo para. E a conclusão do texto de Luciana na verdade serve como conclusão de todo o caderno, pondo o escritor, com suas falhas e ansiedades vãs, como o eixo central.


(E a Katia Borges , muito oportunamente, cita um texto do Globo, sobre a saída de Villas-Boas da editora Record. Impressiona como o tom total das palavras muda radicalmente, as conclusões são outras, as descrições entusiásticas, uau. link.)


Eu gostaria de devolver o pêndulo e, na verdade, colocá-lo de cabeça para baixo, voltando para o comentário do Lima (que considerei excelente e se ele me permitir vou reproduzir aqui no corpo do texto) e focar no que concordo ser a questão essencial para reverter todo esse quadro e, sem a qual, nada disso se resolverá, o mercado nacional não vai se estabelecer, os autores não se revelarão reais bons autores, alguns poucos seres iluminados serão traduzidos e festejados: a formação de Leitores. Há sim escritores ótimos e em ação neste exato momento no Brasil (quem o nega, deveria simplesmente retirar a venda dos olhos, acabar com a cegueira intencional, e prestar atenção ao que ocorre à volta). Há uma indústria editorial miserável se em comparação com termos internacionais, mas ela existe, é mínima mas com alguma presença (ainda mais com essa coisa estranha que está próxima a nós, tão estranha, tão longínqua, tão estapafúrdia e bizarra que ninguém, nem os gringos, compreendeu ainda ou sabe explicar, que é a Internet e os meios digitais virtuais espaciais…).

Só que não há Leitores. Não há Cultura Literária no Brasil. Não há Hábito Literário no Brasil. Ao contrário, existe uma ojeriza, um repúdio, pior, um aborrecimento em relação à Leitura no Brasil. Isso não é devido às supostas falhas umbiguistas dos nossos autores (que, no entanto, bem pode ser um seu reflexo inconsciente). Como diz o Lima (volto a ele), “devemos lembrar que não se trata apenas de números de venda, pois livro comprado não significa livro lido” . O ponto não é a concorrência por, ou construção de, consumidores ou compradores de objetos. É de formação de Leitores. Não existirá indústria ou cultura se essa questão não for resolvida. É o que fundamenta, o que sedimenta, a existência dessa indústria em qualquer lugar, nos Estados Unidos, na Europa, na Argentina.

E não é responsabilidade ou culpa de escritores que ralam para colocar palavras em papel (ou tablets ou telas de pc ou em papiro, que seja). Essa falta de Cultura Literária não foi responsabilidade justamente dos mais interessados, não foi à toa. E não é segredo. Ela foi destruída, estigmatizada, enterrada, em projeto consciente de imbecilização intelectual, que tomou forma e prática durante a ditadura e continua presente pois nem esse projeto, nem essa prática, deixaram um minuto de existir. Até hoje. Não há leitores. Não há projetos para Leitores. Há projetos para Consumidores, para Compradores.

A ditadura começou solapando o sistema de ensino e a rede escolar; desvalorizando a crítica, o saber humanístico, o hábito de leitura e agigantando a TV Globo”.

Não! Sinto muito, mas isso não é somente o ‘começo’. É toda a questão!