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‘Metropolis’, de Fritz Lang: uma velha e uma nova lição de intolerância

30 de junho de 2012

 

A primeira vez que assisti ‘Metropolis’, de Fritz Lang, eu ainda era muito jovem, criança, e mesmo assim impressionei-me com a beleza plástica do filme, os cenários deslumbrantes e a pujante e belíssima direção de arte (claro, na época não tinha menor ideia do que fosse ‘direção de arte’; pude compreender o que eu sentia e apreciava somente muito mais tarde). A longa duração e o ritmo lento, quase solene, no entanto, me afastaram, me aborreceram (nem lembro de ter assistido até o final), apesar de ter sido fisgado pela história:

Em um futuro distante, a alta tecnologia proporciona uma vida luxuosa e folgada para a população privilegiada que mora na cidade suspensa. Essa boa vida, porém, é garantida por conta da intensa exploração da classe operária que vive abaixo da cidade suspensa que, cansada da situação, se movimenta para tomar
atitudes mais violentas. A insatisfação é um tanto contida por uma mulher carismática, Maria, que prega a paz e profetiza a vinda de um Mediador que trará o equilíbrio geral. Do outro lado, Joh Fredersen, o poderoso chefão da cidade Metropolis, ao saber dos ânimos exaltados, procura a ajuda de um cientista (o perfeito protótipo do que hoje conhecemos como o ‘cientista louco’ megalomaníaco e arrogante, misto de Dr. Frankenstein com a cara do Dr. Brown, de ‘De Volta para o Futuro’) que lhe oferece sua mais recente e brilhante criação: um robô que tomará a forma, e o lugar, de Maria para, aproveitando-se de sua influência, insuflar as massas e justificar, assim, uma repressão para colocar os operários em seu devido lugar. Os planos do Cientista Louco, que também não nutre maiores simpatias por Metropolis, são mais maquiavélicos do que Fredersen previa e desejava, a Maria-Robô começa a interferir igualmente na própria cidade suspensa, para que ao final tudo levasse ao conflito pleno e ao caos.

A segunda vez que assisti ‘Metropolis’ já era bem mais velho, pude apreciar com mais justeza a proposta estética de Lang e do cinema expressionista alemão. Nesse momento, já tinha visto e me impactado e obrigado a reconhecer que o cinema mudo poderia proporcionar altas doses de suspense e terror, com ‘Nosferatu’ e ‘O Gabinete do Dr. Caligari’, erotismo e sexualidade em alto grau com ‘A Caixa de Pandora’, fazer uma profunda discussão social em ‘A Última Gargalhada’ (e continuo re-assistindo-os, pois mantém essa mesma força e impacto). A majestosa imponência da visão futurista de Fritz Lang reforça algumas características do Expressionismo ao mesmo tempo que se afasta um outro tanto da estética geral proposta pelo movimento e, dessa forma, ‘Metropolis’ atinge um ápice, fechando o ciclo e definindo o término dessa linha cinematográfica.

Continuei achando o filme meio chatinho (até hoje, sem retirar em nada suas óbvias e pungentes qualidades, não é dos meus filmes de ficção científica preferidos), mas pude entender melhor sua importância para a história do cinema. Pode-se perceber sua influência e permanência no cinema atual em muitos sentidos, refletindo-se, como é natural, com mais ênfase em filmes de ficção científica (de ‘Star Wars’ a ‘Solaris’, percebe-se os ecos de ‘Metropolis’), além do Cinema como um todo.

Nesta ocasião, sei bem que assisti até o final, pois fiquei revoltado com a resolução da trama: o Mediador realmente aparece e acontece de ser o filho do poderoso Fredersen que havia se apaixonado por Maria, conhecera as dores das classes mais baixas, e serviu para o estabelecimento da paz, fazendo com que o líder dos operários e seu pai, o líder da cidade, se dessem as mãos, reconhecendo seus respectivos erros. O Cientista Louco é reconhecido como o verdadeiro vilão da história e devidamente castigado. Para mim, um adolescente com sentimentos de crítica e revolta pelas injustiças sociais, já com um acúmulo de leitura de obras socialistas, era um final por demais piegas e de um anticlímax brochante.

Mas Todavia Porém No entanto

foi somente na terceira vez que assisti que constatei horrorizado o símbolo do Cientista Louco. Fiquei chocado, com o filme e comigo!, não só por entender afinal seu significado pleno, mas, pura e simplesmente, por não tê-lo visto antes, apesar de estar tão presente, tão exposto.

Em um filme (e para um diretor) carregado de simbologias e alegorias, não há espaço para sutilezas, em verdade, nem meios-termos (o exagero, o choque visual violento, as medidas extremas, são próprios do expressionismo). Maria transpira amor e piedade pela humanidade, tem um comportamento pudico e recatado, e em vários momentos está rodeada de cruzes. A Maria-Robô é agitada, sarcástica e irônica para com os operários; na cidade, é lasciva e age atiçando os instintos sexuais dos burgueses almofadinhas. Amor Piedoso em face do Pecado destruidor. O Mal absoluto é representado pelo Cientista louco, responsável pelo mau uso da Tecnologia que mantém a cidade, pela criação da máquina diabólica, o robô, pelo sequestro de Maria e sua substituição pelo autômato, e pela possível destruição e o caos. E enquanto a Maria humana é marcada, e definida, pelas cruzes, ele o é pelo pentagrama. Marcado e carimbado, portanto.

Há poucos meses, eu comentei uma bizarra ação de uma ONG italiana que reinvidicou a proibição da obra máxima de Dante Alighieri, por considerar que ‘A Divina Comédia’ estava tão carregada de preconceitos que deveria ser tirada de circulação e inclusive sair do currículo escolar. Considerei a proposta um absurdo e, até onde sei, não foi levada adiante (Proíba-se Dante Alighieri‘). Considero absurdo o simples fato de ter sido levado em consideração. Pois retira a possibilidade da discussão. Não avança no entendimento, impede a compreensão.

Por outro lado, também não adianta o único argumento de que, por se tratar de uma obra-prima, possua uma espécie de vale-conduto artístico, e questões históricas ou morais sejam pequenas ou, no máximo, complementares, como o de reconhecer de que há problemas de preconceito e racismo, mas que fazem parte inerente do contexto da época e da sociedade de quando a obra foi realizada. O que, a rigor, é verdade, mas não responde nada.

Tanto de um lado quanto de outro, as duas posturas partem do mesmo critério e método de pensamento, isto é, o pensamento ossificado, nulo e inflexível. Infelizmente, vemos cada vez mais atitudes sendo tomadas neste sentido, como em ridicularidades (no filme ‘Coco antes de Chanel’, protagonizado por Audrey Tautou biografia da famosa estilista, mudaram o poster de divulgação que havia sido inspirado em uma imagem icônica, Chanel com um cigarro aceso entre os dedos, substituído por uma caneta…) até mais sérias e profundamente complicadas, como a de proibir obras (por melhor que sejam as intenções de seus propositores, a proibição, a censura, o abafamento, são sempre, Sempre, os piores caminhos), quando não descambar para agressão para o próprio artista.

Isso porque, para mim, não existem saídas fáceis para a presença do pentagrama (e do que se impregna, sua função dentro do filme) (e, tudo bem, não é diretamente uma estrela de Davi, mas possui a mesma origem hebraica) em ‘Metropolis’. O contexto histórico, moral e preconceituoso da sociedade alemã do final da década de 1920, explica, sem dúvida. De modo algum, justifica. E, alem do mais, não é o suficiente.

Hitler amou ‘Metropolis’, amou o trabalho de Fritz Lang, e considerou que ele possuía o estofo e a genialidade precisa e necessária para o crescimento da ideologia fascista e o convidou para dirigir esse movimento pelo lado do cinema. Quando se fala da relação cinema / nazismo, a lembrança imediata, e natural, é de Leni Riefenstahl e seu ‘O Triunfo da Vontade’, o arquetípico monumento cinematográfico à glória nazista, que nem por ser assumida e orgulhosamente fascista, deixa de ser magnífica obra de arte.

Fritz Lang não quis ser uma outra Leni Riefenstahl, saiu da Alemanha o mais rápido que pôde, foi fazer cinema em outras paragens e realizou outros excelentes filmes, inclusive alguns de propaganda anti-nazista. Nem por isso ‘Metropolis’ deixará de estampar o pentagrama como símbolo de um Mal absoluto. Nem deixará de ser uma obra máxima da história do Cinema mundial. Este conflito, essa dicotomia, essa confluência de opostos ou consequências, também fazem parte da beleza do pensamento, da inquietação da arte.

Em outra ocasião, tive a oportunidade de eu mesmo exibir ‘Metropolis’ dentro da programação do cineclube montado na universidade, para um público adulto que, majoritariamente, nunca o tinha visto antes. Logo após a sessão, um dos presentes veio conversar comigo e me perguntou exatamente sobre o símbolo do pentagrama despudoramente marcando o cientista louco. Tentei dizer alguma coisa no estilo de que ‘pentagrama não é o mesmo de uma estrela de Davi, embora a proximidade seja o bastante para incomodar’ e que eu também sentia o mesmo incômodo. No final das contas, me esquivei porque, na prática, não sabia responder.

Percebo que este texto é uma comprovação de que eu ainda não sei a resposta.

 

 

 

 

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Obama, Uhura, e o beijo interracial galáctico

10 de abril de 2012

 

Nichelle Nichols, a Tenente Uhura da clássica série de ficção científica, Jornada nas Estrelas, sendo recebida na Casa Branca pelo único presidente negro da história de um dos países mais preconceituosos e intolerantes do mundo, ambos  fazendo a saudação vulcana, o famoso gesto-símbolo do seriado. No entanto, o que deveria ser uma cena épica, carregada de um simbolismo tremendo, quem sabe até mesmo altamente contestador, tornou-se… vazia. Em outros tempos, talvez causasse impacto; hoje em dia, porém, provoca uma sensação fria de indiferença.

Nichelle já contou dos perrengues que sofreu e dos problemas que passou na época da série, que começou em 1966 e durou três anos (com muito esforço e apesar da aflitiva mesquinharia gananciosa dos produtores, nada interessados na importância histórica ou artística de um programa que não lhes dava o retorno financeiro pretendido): a pouca importância que seu personagem tinha nos enredos, quase sempre se limitando a uma frase ou duas no episódio inteiro; as crises de estrelismo de William Shatner, o capitão Kirk, que sempre queria tomar mais e mais espaço e não se incomodava de tentar diminuir a participação dos demais atores; as longas jornadas de trabalho e a precária preparação (todos tinham que correr e fazer o máximo no menor tempo possível para diminuir os custos e escapar do fantasma do cancelamento que  sempre os assombrava e os ameaçava a cada final de temporada), além dos contínuos problemas de produção, cortes de despesas, falta de pessoal, etc.

‘Jornada nas Estrelas’ era o projeto pessoal de Gene Roddenberry que acreditava ser possível fazer discussões profundas através de um produto eminentemente de entretenimento, mesmo na televisão, mesmo na década de 60 nos Estados Unidos. Sua primeira tentativa de realizar suas pretensões deixou os produtores perplexos: no episódio de apresentação, o personagem principal, Capitão Christopher Pike, era um caucasiano corajoso, inteligente e destemido, feito pelo branquíssimo Jeffrey Hunter, e até aí, tudo bacana. O problema começava pelos personagens coadjuvantes imediatos: na ausência do capitão, quem tomava conta da nave era uma mulher! eficiente e também muito destemida; outro personagem muito importante era um ‘marciano’ com aparência de diabo, orelhas pontudas e sobrancelhas finas arqueadas; e era uma sociedade igualitária, onde os humanos eram somente parte de uma federação que englobava várias raças diferentes. Para dourar a perplexidade, as missões daquela tripulação tinham um cunho de pesquisa científica  e levavam uma mensagem de paz para o universo. Sem guerras interplanetárias, sem aliens malvados e sedentos de invasão da Terra, sem a propagação da ‘natural’ superioridade humana (branca e norte-americana) por outros mundos.

A rejeição dos produtores foi imediata, e o episódio foi arquivado imediatamente, mas alguma coisa deve ter tocado suas mentes (e seus bolsos) pois permitiram que Roddenberry tivesse mais uma chance, Desde Que tirasse aquela mulher do comando (mulheres deveriam ser bonitinhas, insossas e servir como interesse romântico do capitão), esquecesse aquele ‘marciano’ esquisito, e agilisasse a história. Roddenberry disse ‘sim’ para tudo, sacrificou a personagem feminina, e manteve quase todo o resto exatamente como pensava antes. Em alguns pontos, até radicalizou: não só manteve o alienígena de orelhas pontudas, como o promoveu a Segundo em comando; mudou o ator principal; e, principalmente, aumentou a diversidade racial e intergaláctica da tripulação, colocando como auxiliares diretos um nipônico, um russo (em plena Guerra Fria) e uma mulher negra, Nichelle Nichols, como Tenente e Chefe das comunicações da nave Enterprise.

Nichelle sempre teve muita consciência do imenso valor simbólico de sua presença em uma mídia tão importante, principalmente na época do fervor dos movimentos de direitos civis, da contracultura e dos grupos negros de contestação, o que não relaxava a pressão que sentia e a deixava exasperada. Mas a coisa realmente piorou com o episódio do mítico Beijo Interracial Intergaláctido. Que não aconteceu.

Roddenberry sabia bem que pisava em terreno ultradelicado quando cogitou a idéia de uma história onde o Capitão Kirk beijava a Tenente Uhura, uma cena que seria histórica na televisão mundial (seria o primeiro beijo interracial em transmissão nacional), portanto preparou-a com bastante cuidado: escreveu um enredo com sentido e onde o beijo não seria gratuito, avisou os atores com bastante antecedência (até mesmo perguntaram para William Shatner se ele se ‘importaria’ de fazer a tal cena, e ele respondeu ‘Vocês estão me “pedindo” para beijar a Nichelle? E ainda vão me pagar?”). Nichelle ficou eufórica: além de sua participação no episódio ser bem maior do que o normal, o simples fato de existir aquela cena era do tipo de marcar a carreira de qualquer ator ou atriz. A série e seus participantes atingiriam de imediato outro patamar de importância.

Os produtores não entenderam desse jeito. Na verdade, ficaram horrorizados. Brigaram e tentaram retirar a cena. Roddenberry bateu pé e insistiu com veemência, mas foi obrigado a amenizar o máximo que pôde: o capitão estava sendo forçado a beijar a tenente, por conta do poder mental de alienigenas despóticos! (Shatner disse que até faria uma careta para enfatizar que o capitão estava sendo ‘forçado’ a isso). Não adiantou. No final das contas, o beijo ficou somente na simulação: quando o capitão se aproxima, a câmera se afasta e se fixa em suas costas durante todo o tempo em que dura o ‘ato’ e só se aproxima de novo quando os corpos se afastam. Shatner descreveu o momento patético ou simplesmente ridículo: os produtores fizeram questão de assistir a filmagem e ficaram ao redor, bem de perto, para se certificarem que os lábios dos dois nunca se tocariam de verdade…

O desânimo de Nichelle foi imenso, naturalmente. Para um seriado que se passava em uma avançada sociedade do século 23, o racismo era ainda muito próprio do mero século 20.

O cansaço e a irritação foram minando as resistências de Nichelle que pensou em desistir e teria até mesmo pedido demissão a Roddenberry. Na mesma época, durante um evento do movimento negro no qual participava, vieram lhe chamar e disseram que um grande fã seu queria lhe conhecer. Curiosa pelo tom de voz de quem lhe falou ‘um grande fã’, ela foi até a mesa e se viu sentada ao lado de Martin Luther King!, que lhe professou uma genuína admiração. Conforme a conversa evoluiu, ela acabou se soltando e desabafou os problemas da série e de sua vontade de se demitir. Depois de ouvi-la com atenção, King respondeu:

“- Não faça isso, Nichelle, você não pode fazer isso. Você não percebe que o mundo, pela primeira vez, está começando a nos ver como iguais? Seu personagem partiu para o espaço numa missão de cinco anos. Ela é inteligente, forte, capaz e um modelo maravilhoso de papel, não apenas para o povo negro, mas para todas as pessoas. O que você está fazendo é muito, muito importante, e eu odiaria ver você simplesmente abandonar tão nobre tarefa.” (‘Jornada nas Estrelas – Memórias’, William Shatner e Crhris Kreski, ed. Nova Fronteira)

Receber um pedido de uma figura de tal porte fez Nichelle Nichols recuperar o fôlego e continuar sua jornada. Por onde se vê o quanto Martin Luther King influenciou até mesmo a cultura pop do seu país!

Quase quarenta anos depois da estréia do primeiro episódio de ‘Jornada nas Estrelas’ na televisão, ainda é complicado avaliar os tremendos avanços dos movimentos negros norte-americanos na sua luta contra o racismo e pela plena inserção da população negra na vida orgânica do país, ao lado da manutenção das imensas desigualdades ainda vigentes. O que, em última instância, foram o que garantiram a posse de um homem negro na presidência dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que ele mantém, com todo garbo, carisma e elegância, a mesmíssima política (econômica e social, militar e civil) de todos os demais branquíssimos presidentes anteriores. Se não se pode concordar com todas as linhas com um cartum publicado logo no primeiro ano da gestão de Obama que o representava como somente um Bush com pele e traços afro-americanos, não se pode igualmente deixar de reconhecer que ele nunca se elegeria se não tivesse sido bancado, financiado e apoiado por boa parte da elite branca burguesa, cuja única preocupação é a manutenção eterna de seus privilégios.

Ainda hoje, beijos, sexo e relacionamentos interraciais, embora bem mais comuns, não são plenamente aceitos e respeitados, mesmo que não produzam escândalos violentos (pelo menos, publicamente).

Por conta de tudo isso, a simpática foto de Barack Obama ao lado de Nichelle Nichols é repleta de contradições, ironias e significações. É reconhecida e divulgada a ‘nerdice’ do presidente, que adora cultura pop, cinema, traquinarias eletrônicas e quadrinhos, e já foi retratado e reverenciado na companhia de vários superheróis. Ele, o primeiro presidente negro. Ela, a primeira tenente e chefe de comunicações negra da Frota Estelar, que pôde levar uma mensagem de paz e igualdade para além de universos conhecidos, embora não tenha podido beijar seu comandante branco. Seria demais esperar, seria ingenuidade-monstro da minha parte, acreditar que tal encontro deveria significar mais e ter um significado muito maior do que uma simples pose bonitinha?

Eu não esperaria nada de bombástico ou estratosférico. Com certeza, não aconteceria o fim do preconceito racial, uma tempestade protônica galáctica, a invenção do holodeck, muito menos a mudança radical nos rumos políticos e econômicos do presidente democrata. Mas, com certeza, Nichelle Nichols merece mais, muito mais do que um simples aperto de mão ou saudação vulcana, mesmo que de um ‘irmão negro’ tão poderoso.

Quem está sobrando nessa foto é Barack Obama.

 

 

 

 

FUNDAÇÃO, de Isaac Asimov. Bela edição da Aleph

30 de agosto de 2011

Hari Seldon

Daqui a muitos milhões de anos, a humanidade está espalhada por milhares de sistemas solares e organizada por um centralizado Império Galáctico cuja capital é Trantor. É um império pacífico e bem cuidado. A paz e prosperidade garantidas por tanto tempo está, no entanto, prestes a desabar.

Um cientista, um matemático chamado Hari Seldon previu a queda do Império usando uma ciência nova que ele próprio havia criado, a PsicoHistória: a ciência utilizava o rigor matemático na previsão dos movimentos da humanidade: o ser humano em si continuava a ser instável e imprevísivel, mas a enorme massa populacional da época cria uma inércia imensa que poderia ser quantificada e traduzida por números. E, por mais tristes que pudessem ser, os cálculos levavam a única conclusão: além da queda, haveria um novo Império, mais forte e equilibrado do que nunca, mas entre estes dois extremos, dez milhões de anos de sofrimentos, guerras, morte e destruição. Assim, dizia a psicohistória.

Tratado como traidor pelo Império e mal compreendido pelos seus próprios companheiros, Seldon concebeu o seguinte plano: não poderia deter a queda, mas poderia diminuir o tempo do interregno. Cuidadosamente, matematicamente, criou duas instituições científicas, com alguns poucos milhares de integrantes e seus familiares, e as colocou em pontos extremos do universo, em localizações estrategicamente escolhidas e determinantes para que os eventos históricos, políticos e econômicos as levassem a se tornar o núcleo do futuro império e diminuir a duração do caos de dez milhõer para um milhão de anos, e aliviar um pouco o sofrimento da humanidade.

A cada capítulo dessa saga somos apresentados a um problema central, uma crise (prevista e planejada) política, social, econômica, que leva a uma encruzilhada a qual cada geração de fundacionista precisa resolver e ultrapassar para que o grande plano inicial possa ser cumprido.

Este é o enredo principal da série de contos FUNDAÇÃO, de Isaac Asimov, publicados em revistas na década de 50 nos Estados Unidos, a época de ouro da Ficção Científica. Mais tarde, os contos foram publicados em livros, formando uma trilogia (Fundação, Fundação e Império, Segunda Fundação); no Brasil, durante décadas, a única publicação disponível foi da editora Hemus, em um volume único, pessimamente editado.

Asimov faz parte da trinca dourada dos maiores autores de ficção científicas norte-americana. Os outros dois são Ray Bradbury e Arthur C. Clarke, cada um com seus estilos narrativos, preocupações e qualidades específicas, cada um com pelo menos dois ou três clássicos, por baixo. Sempre tive uma “queda” maior por Asimov. Bradbury talvez seja melhor escritor e Clarke possui umas sacadas verdadeiramente geniais, mas Asimov é de longe o mais simpático e divertido. Sua escrita leve, agitada e lúdica fez a minha alegria por muitos anos. Ainda faz. Era um escritor extraordinário, não só em sua especificidade, mas também em quantidade. Químico por formação acadêmica, escreveu por volta de quatrocentas obras, sendo que só metade disso é de ficção. Ele escreveu de tudo e sobre tudo! De Física Nuclear popular a Shakespeare; de divulgação científica à Bíblia; de Nostradamus a Einstein. Escrevia de puro prazer, por necessidade de escrita e esta alegria perpasIsaac Asimovsa por todos os seus livros. Além da série Fundação, há também a célebre série dos Robôs Positrônicos (ele, inclusive, é o inventor da palavra Robótica).

Asimov foi maltratado pelo cinema. Ele não teve a sorte de Arthur C. Clarke, que teve um conto filmado por Stanley Kubrick e resultou no 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Ou de Philip K. Dick, outro mestre no gênero, cujo romance “Do Androids dream of eletric sheep” foi transformado por Ridley Scott no cult “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (Dick, aliás, é um querido em Hollywood, com muitas obras adaptadas; de boa qualidade, em geral). Baseado em Asimov, há um filme muito bom, chamado Viagem Fantástica, de 1966, onde um grupo de cientistas é miniaturizado e faz uma viagem por dentro do corpo de um famoso cientista para tentar remover um tumor que o está matando. Teve uma refilmagem interessante e original, em tom de comédia. Houve uma versão (terrível) de um conto clássico, “O Homem Bicentenário”, onde um robô tem o sonho de se tornar humano. Só posso dizer que o filme estraga, acaba, destrói uma verdadeira peça literária de alta qualidade. Em 2004 teve a frustrante versão de outra obra clássica, também de robôs, o seminal “Eu, Robot”, produzido e estrelado por Will Smith. Outra obra destruída.

De vez em quando, cogita-se em Hollywood de se produzir ‘Fundação’, o que provoca um misto profundo de esperança e medo. Em Fundação não há guerras interplanetárias (as batalhas espaciais, quando ocorrem, são somente citadas), não há monstros gosmentos nem Ets, o universo é habitado somente por seres humanos (uma espécie de “invenção” do Asimov, em um universo literário e cinematográfico onde a constante é a presença e ou invasão de monstros galácticos). Isto é, tem história, enredo. Será que isso é suficiente para Hollywood? Por certo, as dimensões do enredo, seus fantásticos cenários e ambientações, e as várias mudanças de foco e objetivos, devem assustar os produtores com seus prováveis altos custos. Algum dia, no entanto, isso vai se concretizar, alguém mais afoito vai filmar. O resultado disso nem mesmo a psicohistória de Hari Seldon pode prever.

ALEPH

No Brasil, o fato da Hemus publicar os três livros de Fundação em um único volume fazia a felicidade dos fãs de ficção científica. Infelizmente, esse era o único ponto positivo, de resto essa edição era um desastre absoluto. A tradução era um absurdo, a diagramação horrível, a fonte péssima; nunca, em momento algum, houve um revisor para acertar os erros de tradução ou de português. Outras obras de Asimov, editadas igualmente pela Hemus, foram muito melhor cuidadas e respeitadas; o que fizeram com Fundação, portanto, chega a ser incompreensível.

Finalmente, em 2010 a editora Aleph, dentro de sua excepcional linha editorial de ficção científica, resgata a trilogia, e nos proporciona uma publicação à altura da importância da obra. Belíssima edição, com lindo projeto gráfico, tradução nova e esmerada de Fábio Fernandes (viva!). Mantendo a divisão dos três livros (uma pena, mas inevitável), o único grande senão que posso colocar é o preço, ainda um pouco salgado para os meus padrões. A obra-prima de Isaac Asimov, no entanto, bem vale o esforço.