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DUAS VIAS, de Yara Camillo

3 de julho de 2012


Ele abriu a porta do carro para que ela entrasse.
– A velhice dando passagem à juventude?
– Não: a sabedoria dando vez à pretensão.
Riram. Era uma brincadeira antiga, da época em que se conheceram: ela, preparando a tese. Ele, o orientador que não chegou a sê-lo… A relação aconteceu e, de comum acordo, decidiram que ela procuraria outro professor. Nem por isso a pressão foi menor. Em muitos olhares, o imediatismo rotulava, sem sursis: veterano-estende-as-asas-sobre-a-novata. E poderia ter sido pior; tivesse a “vítima” alguns anos a menos e o crime estaria consumado, não se podia brincar com essas coisas.
– A maré do politicamente correto extrapolou, afrontando os limites do bom senso – dizia ele. – Facilite… E até Lolita e Morte em Veneza acabarão queimados em praça pública.
– Não exagere – dizia ela.
Ele ria:
– E a lei contra os Adônis que enfeitiçam os velhinhos? Deveria existir uma, não?
Ela ria:
– E qual seria o nome desse crime… Gerofilia?
– Sim… Muito próprio. – E ele improvisava a premissa: – Não gerofile, para não ser pedofilado.
– Proponha esta na próxima reunião e estaremos condenados em duas vias, sem direito a habeas corpus.
– Falando em habeas…
– Falando em corpus…
A brincadeira se repetiu ao longo dos anos, mesmo depois de perder a graça; ela, mais que ele, chamava o riso como tábua de salvação, como refúgio das crises que também se repetiam, indefinidamente.
Passado o espanto geral, que de roldão consumira também certos encantos, as coisas começaram a se acomodar. Ninguém mais estranhava a parceria, nem a ironia que permeava o enredo natural daquele amor: ela, já não bastasse os muitos anos a menos, aparentava ser tão menina… Para entrar no cinema, só mostrando Identidade que provasse ao menos dezoito, dos vinte e três já completos. Ele, em contrapartida, já aos dezesseis se passava por “maior”, nos bailes e cinemas da cidade interiorana onde nascera. Cabelos precocemente grisalhos e o sagrado costume da cerveja completavam o quadro, adiantavam o tempo e, aos olhares alheios, alongavam mais ainda a distância entre os dois.
O tempo. O curso. Da universidade e das coisas. E a tese, que não saía nunca.
– Se você não pode ser meu orientador, então não quero mais ninguém – ela dizia. E se por algum tempo esse argumento surtiu efeito, foi também se desgastando, como tudo, como um todo.
– Não era isso – ela confessou, numa das raras noites de cerveja que conseguiram a sós, porque a universidade era um mundo que se estendia para além do campus, até o bar, até a casa, até os amigos e tantas horas compartilhadas. – A Dança seria o princípio e, a Geografia, o meio… Sabe? O meio pelo qual a Dança viria a acontecer, sem as amarras das concessões profissionais necessárias à sobrevivência. Mas tudo virou do avesso, a Geografia se espalha e não faço outra coisa a não ser projetos.
– Não há lugar para dois, com a Geografia. Ou é ela ou é ela, se é que você me entende, e eu às vezes acho que não.
– Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no tempo e no espaço? Nunca, dirá você.
– Nunca, tu o disseste.
– “Salvo quando se amam”, disse o poeta. E se essa verdade não pode harmonizar a Dança e a Geografia, então quero nascer de novo.
– Você já nasceu tantas vezes, lembra… Ou não, não mais?
Ela fechou os olhos, fazia isso quando sentia dor ou acusava o golpe, claro, quantas vezes não dissera “acho que nasci de novo”, depois do amor?
Foi naquele amanhecer que os dois se descobriram de partida, ele para o campus, de corpo e alma, porque aquela era mesmo sua vida, sua escolha, desde antes dela e, com um pouco de sorte, também depois dela – embora no momento ele não soubesse, não tivesse a menor ideia de como faria para sobreviver àquela ausência. E ela enfim para a dança, habeas corpus, habeas anima. Ele, que não acreditava em deuses, acabou maldizendo os desígnios que deram a ela uma bolsa, no ano seguinte, para um estágio fora do país.
Encontraram-se uma vez, na Europa, mas aquela não valeu: ela estava embriagada demais com a liberdade e ele embriagado demais com a alegria de revê-la.
Agora, anos depois, um novo reencontro: ele gostou de achá-la, ainda, bela. Gostou de gostar de vê-la, embora a dor.
– Você ficou bem famoso – ela brincou, recurso que sempre usava para driblar o embaraço. – Ouvi falar, por aí.
– E você?
– Como? Você não ouviu falar de mim?
Ele ficou sério, um segundo antes do riso. Ela riu, também, e tudo foi como antes, por um instante.
– Você está dançando?
– Às vezes.
– O que houve?
– O de sempre. Não sou articulada, não me relaciono com as pessoas “certas”, não me enquadro muito nas coisas. – E imitou o tom de voz que ele usava, quando queria ser categórico: – Se é que você me entende, e eu acho que não.
Ele riu, de novo, agora sem muita vontade. Ela continuou:
– Mas eu tinha que ver, não é? Eu precisava ir. E fui bem, por uns tempos… E “ir bem”, ainda que por uns tempos, deixa um gosto de “sempre”, quando se trata de Arte.
– Isso me lembra aquela sua velha máxima: “A Arte acima de tudo.”
– Não – ela responde. E ele vê nisso algo de novo. – Não existe acima, nem medida alguma, nesses casos. Só uma sensação de que as coisas têm um sentido.
– Isso você podia ter…
– Você podia. Não eu.
– Então, perdemos uma geógrafa brilhante… para uma bailarina…
– Apenas razoável?
– Eu não disse isso.
– Claro que disse. Mas não faz mal.
– Escute, ainda dá tempo.
– Tempo do que, meu amor?
– Esse “meu amor” me pegou de surpresa.
– O que prova que você continua o mesmo… Surpreendendo-se com o óbvio e olhando com cara de velho para o que é realmente novo. Agora me leve daqui para um lugar mais decente, onde se possa tomar um bom vinho.
– Você também não mudou. E isso, não sei por que, me faz bem.
– Não era o que você dizia.
– Não era o que você pedia.
Ele abre a porta do carro, ela sorri:
– A velhice dando vez à juventude?
– Não, o cansaço dando lugar a algo que não quero definir agora.
– E quem disse que é preciso definir?
– Temes definhar ao definir?
– Idiota! – Ela ri. – O fim vai chegar, para nós. Para todos nós. Mas não hoje.
– Você não vai acreditar, mas isso, para mim, já é alguma coisa.
“Acredito”, ela quis dizer, mas achou que não seria preciso.

Yara Camillo

 

 

[orgulho e prazer de publicar aqui em terras desconcérteis um texto tão lindo e sedutor da querida e magnífica escritora Yara Camillo]

 

 

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Paulo de Tharso, Poesia. Visceral, atordoante, rasgante. Poesia.

11 de maio de 2012

 

Desalento

Eu deixei meu coração em tuas mãos
E isso não se faz
Eu estraguei minha juventude
Em noites vazias, cheias de argônio
E sonhos delirantes
Eu bebi todo o mar
Na esperança de aproximar os continentes
Fui devorado pelos percevejos
Enquanto fugia dos tubarões
Desafiei os deuses pagãos
Que foram os primeiros cristãos convertidos
Resmunguei canções populares
E blasfemei orações nas calçadas
Fazendo o sinal da cruz
Convivi com sugadores de sangue
E falsificadores de idéias
Que usavam máscaras douradas
Da razão pura, para enganar trabalhadores.
Muito ler os olhos cansa
Não fiz economias para os piores dias
A guerra é demasiado cara
Mas a América não se importa
Se há crianças em minas de carvão
Atrofiando sua musculatura
O belo tempo da infância não dura
E definitivamente, não é com bombas
Que um menino cresce.

 

 

(sem título)
Fiz todas as paciências, vomitei o Kirsch todo, empilhei todos os meus escritos no fogão, amei todas as mulheres até que tudo cheirasse mal. Em breve minha orelha cairá de tão podre que está em ouvir tanta barbaridade. Por que não há paz? Por que tanta gente no meio das ruas sem fazer nada a não ser produzir lixo e gritar e nas praças, tem a policia atirando contra a freguesia… Quem quer que procurem, sei que não sou eu que procuram, e no entanto, me encontram. Com as tábuas das leis acabaram-se os sonhos. Tudo são vícios, tudo é politikamente errado…fazer versos é coisa por demais comum. O pior, é que o diabo não vem mais buskar os melhores fregueses.

 

 

Tradução.

Meu trabalho de ocasião
Meu problema? Metalinguagem.
Do significado para o significante
Do texto para o contexto.
Passar do sema para o lexema
Do semema para o classema
Do léxico pra a sintaxe
( nego essas traduções digitais)
A tradução automática, mostra claramente a desimportância
do léxico.

Por isso fico com as alegrias não medidas
E com as peles não extorquidas
Ontem, conversando com meu amigo provocador Mário Bortolotto
E minha perseverante mulher Adriana Brunstein
Concluímos que as melhores Histórias
São as ininteligíveis.
E que os melhores conselhos, são os inexeqüíveis.
Artes, as não rendáveis.
Críticos, os enterráveis.

Antes dessa conversa
Em outra mesa, num outro sonho,
Com outro amigo não menos provocador, Marcelo Mirisola
Afirmamos que os melhores inimigos são os sensíveis
E que os únicos amigos são os incorruptíveis.
Por isso, decadentes louvaminheiros;
Deixem as mensagens para os mensageiros.

 

 

1º de Maio

É bonito usar da palavra na luta de classes
Klamar alto e bom som pela luta das massas
Levantar bandeiras vermelhas ao som da Internacional
É bonito a propaganda: Brasil, um país de todos!
É bonito flanar em plena terça-feira
E não pensar que a puta da direita espreita, de mãos dadas
com a esquerda vendida.
É bonito pensar que a vida é a propaganda da Petrobrás
E que tudo está na paz de Deus.
É bonito dizer que não há nacionalidade
no espaço mental, quando Glauber Rocha
gritava Terra em Transe.
É bonito esquecer o sangue derramado
para que existisse o 1º de Maio.
Quem ousará o distanciamento Brechtiniano
Quando todos querem um pedaço da Rede Globo?
É feio citar revoluções e flores pisoteadas por canhões.
É feio cantar Mrs. Robinson sem nenhuma emoção.
É feio comemorar o dia do trabalho sem a liberdade
de um cigarro que a gente, sem gravata, não fuma mais sob a sombra
demokrátika.

É estranho rezar o pai nosso sem o pão na mesa.
É bizarro não saber mais em que ano estamos depois de 1984.
É bonito falar em Estado de direito, quando só resta o Estado
policialesco.
Parabéns trabalhadores! Escravos do Estado sem nenhum direito.
Que dia glorioso!
Viva Getulio Vargas e o teu salário mínimo!

Bonito mesmo são os olhos desse menino
querendo ser Villa Lobos.

 

 

Cantor, músico, ator, poeta, prosador, o que busca Paulo de Tharso, o que move sua existência, suas vísceras? Sua voz, seus gestos e pensamentos ecoam pelas ruas e pelas noites de São Paulo e fazem vibrar a consciência. Em certo momento, falando de suas letras de músicas, ele diz “São canções que buscam a verdade, ou perto disso”, o que está bem próximo também de sua arte e de sua vida. 

 

(comentário sobre ‘1° de maio’)

Nessa madrugada escrevi um texto – prosa sobre 1º de maio. Foi bem compartilhado, mas isso não importa. Acredito até, que a foto do menino (de quem desconheço o nome do autor, e foi o que mais tocou os corações), tenha movimentado as almas. Mas o que eu pretendi dizer com o texto, é que todos nós temos uma responsabilidade com a porra dessa vida, que é uma incógnita geral. O quid eterno do homem que se pergunta o tempo todo de onde veio, para que veio e para que lugar irá, quando tudo akabar. A imobilidade incomoda o século. Temos em nossas mãos um instrumento poderoso e o que fazemos com ele? Nada! É um fricoti-fricota, brigas sem sentido, sorrisos de bokas desdentadas por qualquer piada sem graça. Um tal de kkkk, rsrsrsrs, ops… Escuta pois kamarada maldito, kamarada miséria; O teu silêncio não é ouro. Aqui é crime! Miséria é o nome da minha kadela que só tem três patas. Nessa madrugada, percebi kamaradas tranqüilos e prósperos transcrevendo o que eu disse. Mas eu pergunto; o que foi que eu disse? O que foi que eu escrevi que não era sentido ou conhecido por todos? Troco o logos de Éfeso, o da posteridade pelo da prosperidade geral sem pestanejar. Eu desejei falar daquele que construiu Tebas, a das sete portas. Desejei mostrar que nos livros vem o nome dos reis. Mas foram os reis que transportaram as pedras? Atrás destes teclados todos tem coragem. Mas contra quem? Não negam o que disseram, mas o que disseram? Tem sua opinião? Mas que opinião, se na manhã seguinte, por meio de kanetadas obscuras, tiram o teu direito de ir e vir? Do que vale a porra da tua opinião se ela não vai para as ruas, se empacotar na desordem das massas? Não sou dono da verdade, ninguém é! Então por que balançam verdades todos os dias, com o dedo em riste em propagandas orgânicas? Foge da sombra por um momento e te arrisca na tempestade da crítica, do ridículo e por um momento, um só momento te afasta do medo e busca a glória da luta pelo próspero alheio, mesmo que te pareça inglória a tua luta.

É verdade, meus inimigos dizem que sou um bêbado sem futuro, um perdedor __como me alcunham alguns funcionários públicos que falam das canções que nunka escreveram e dos romances que jamais leram __, mas que adoram freqüentar as mesas dos notáveis. Mas é verdade também, que aqueles que me conhecem, sabem bem que sou um animal provokador, com um enorme coração pronto a chafurdar na merda por qualquer hum que precise de uma voz. E a minha é boa. É forte, apesar de rouca. Sou um purista e não me envergonho disso. Enfim, se você teve a paciência de me ler até aqui, já percebeu que não existe mais nada! Mas eu não vou me assumir numa líquida senescência. Sou um negro branco que come merda todo santo dia porque sou negro e me chamam de branco sujo. Obrigado pela atenção.

Paulo de Tharso

 

Dia 26 de maio, o impacto da voz profunda de Paulo de Tharso, junto com Diego Basanelli e Marcelo Watanabe, poderá ser apreciada ao vivo em sua apresentação no espaço Estação Caneca (Rua Frei Caneca, 384 – Consolação). Sua voz continua presente e poderosa em outros espaços:

https://www.facebook.com/pdetharso

Lenta Senectude
http://salvemofelix2.blog.uol.com.br/

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Ivana Pansera, um textinho ‘antropológico’

21 de fevereiro de 2012

Ela já é uma escritora. Esta é a certeza de quem tem lido os seus textos (ainda poucos) em espaços como o Facebook, ou teve o privilégio de conhecer o seu trabalho de mestrado sobre história da África, tão bem pesquisado e ainda mais belamente escrito (em uma futura publicação, todos poderão comprovar isso). Ela está se soltando, se sentindo cada vez mais segura em sua escrita, e isso está sendo muito bonito de acompanhar.

Pedi à Ivana um texto para este meu cantinho desconcertábil, com um tema específico e me foi prometido daqui a algum tempo. Este aqui, no entanto, chegou primeiro, foi posto no ‘feici’ descompromissadamente e percebi, desde a primeira leitura, que eu Precisava publicá-lo aqui. Precisava ter essa honra. E assim está.

(a única observação que faço é que, de modo algum!, isso implica em promessa cumprida: em breve, espero o texto combinado)

 

de Ivana Pansera:

“O negócio é fingir que pegou fogo. Se a humanidade seguiu adiante sem a biblioteca de Alexandria, acho que sobrevivo temporariamente sem alguns volumes. Finjo que pegou fogo. Faço uma lista, em ordem de prioridades, e vou comprando na feira da EACH. Ou passo a lista numa corrente de e-mails, pros amigos me darem de presente de aniversário.

O que demora pra por em ordem são os pensamentos. Recomeçar é como caminhar em terreno movediço, desconhecido e muitas vezes doloroso.

Outro dia li que as águias – as aves que possuem a maior longevidade da espécie – precisam dar uma paradinha quando chegam aos 40 anos.

Nessa idade elas estão com as unhas compridas e flexíveis e, portanto, não conseguem mais agarrar as presas para se alimentar. As penas grossas deixam as asas pesadas e dificultam o voo. O bico também não está melhor: alongado e pontiagudo, se curva em direção ao peito.

Diante do fim inexorável, cada uma delas ainda têm uma alternativa: retirar-se no alto de uma montanha e construir um ninho próximo a um paredão, contra o qual baterá o bico até conseguir arrancá-lo. Pacientemente, a águia solitária esperará nascer um bico novinho em folha e, com ele, vai arrancar as unhas, uma por uma. Mais uma vez, com paciência e extrema tolerância à dor, ela vai esperar crescerem as unhas e, com elas, passará a arrancar as velhas penas. Passados cinco meses desse processo de renovação, cada águia está finalmente pronta para viver plenamente outros 30 anos.

E eu que sempre achei que a capacidade de se reinventar fosse justamente o traço mais marcante que nos difere dos animais! Pelo visto a gente divide essa dor com outras espécies. O que talvez a gente não consiga medir é se dói tanto para elas quanto para nós. Porque a gente reflete sobre o processo, a gente antecipa a dor, sente, pensa, tem consciência da dor e formula teorias sobre ela. E a revive em livros, em filmes, em canções.

E nessa hora chega a dar raiva do polegar opositor e dos alimentos cozidos. Ódio mortal da primeira criatura que pegou barro e pintou paredes de cavernas e daquele bendito raio que mostrou pros hominídeos as possibilidades do fogo!

Eu, pobre mortal, criatura insignificante nesse caminhar da humanidade em direção à cultura, antevejo a dor, sinto a dor, reflito sobre a dor, escrevo sobre a dor. Revivo a dor. Pensando bem, não dá pra fingir que pegou fogo. Afinal, não são só livros…”

 

 

 

Dois textos contra o abismo

2 de novembro de 2011

Há uma frase muito otimista e bem conhecida, propagada e clichêzada, embora talvez não tão bem compreendida, que diz, mais ou menos, de que deve-se tomar cuidado ao contemplar o abismo, pois o abismo bem pode contemplar a você. O otimismo parte da premissa (ou da esperança) de que há momentos em que o abismo não está fazendo exatamente isso o tempo todo.

Não consigo compartilhar desse otimismo. O abismo faz parte de nossa existência; vivemos, toda a humanidade, sempre nas bordas do buraco negro, caminhamos na fina linha da navalha, suando para que não cortemos os pés durante a caminhada. É frequente, e natural, fecharmos os olhos para fingir que a imensa feiura não existe (em modo 1 de proteção, de tentativa de sobrevivência), mas quase sempre o abismo escancara-se, deixando-nos boquiabertos com sua profundidade, da qual nunca, nunca, vemos o limite.

O esgoto jorrado por ações e palavras por uma juventude protofascista paulistana; os ataques homofóbicos desferidos por tristes criaturas vazias (que não têm noção de que sua raiva por homossexuais é uma forma de recalque de sua própria não-assumida homossexualidade); os covardes machistas e misóginos que descarregam suas frustrações em pessoas (por enquanto) mais fragilizadas; a repressão às vezes encolhida, desesperada para se manifestar e que, quando explode, expõe a surpreendente finura de uma fachada dita democrática; a onipresente manipulação midiática e a obscena margem de lucros dos banqueiros; a repugnante hipocrisia de uma sociedade que se diz a favor ‘da vida’ e contra o aborto quando, na prática e de verdade, é conivente com uma situação de assassinato em massa de mulheres que se entregam, e morrem, nas mãos de açougueiros… todos estão interligados; nada disso surgiu de um instante, ou de um ano, ou de dez anos, para o outro, nem com a eleição da Dilma para a presidência, nem com a divulgação da doença do Lula.
Portanto, a resistência (qualquer tipo de resistência) não é para cobrir o abismo (posto que impossível), mas sim de tentar manter a sanidade. O equilíbrio no fio da navalha.

Nos últimos dias, com o lamaçal levantado pela enxurrada de ódios, amarguras, e agressividades, e a quantidade portentosa de besteiras e bobagens ditas (e escritas e televisionadas e twitadas e facebookadas) por todos os lados, estava meio díficil saber se já não havíamos caído direto no abismo, em queda livre. Neste torvelinho dos assuntos que mais foram discutidos, incompreendidos, agredidos e rebatidos dos últimos tempos, dois textos, dois testemunhos, surgiram, impactaram e me desconcertaram. Emocionam e fazem pensar. Provam que ainda é possível, sim, encarar o abismo, com lucidez, com coragem, convicção e beleza. Merecem ser lidos, como há muito tempo eu não pensava que aconteceria mais.

Acredite em mim: não é fácil me desconcertar.

A minha doença não me define, porque eu não deixo. Ela gostaria muitíssimo de fazê-lo, mas eu não deixo. Fiz um combinado comigo mesma: essa merda vai ter 30% da atenção que ela demanda. Não mais do que isso. E segue o baile. Mas segue diferente, confesso. Segue com menos energia e mais remédios. Segue com dias bons e dias ruins – e inescapáveis internações hospitalares.”

Nina Crintzs – “Eu, o SUS, a ironia e o mau gosto


Noutro sentido, a Cidade Universitária é parte da cidade de São Paulo, onde todos podem circular, inclusive PM’s e bandidos. Não é, por definição, uma bolha, isolada do resto da sociedade, embora as políticas de fechamento do campus à comunidade aos finais de semana e feriados e a cegueira de muitos de seus centros de pesquisa em relação à sociedade que a sustenta, têm levado a isso. Assim, a polícia pode e deve fazer policiamento, como deveria fazer na cidade inteira, para evitar roubos, mortes e estupros, infelizmente cada vez mais comuns no campus Butantã. Isso não está sendo proibido, nem questionado, até porque seria inconstitucional. A questão é, quando se instalam efetivos permanentes no campus, a população local, em vez de protegida, passa a ser vigiada e seus atos, criminosos ou não, passam a ser suspeitos.”

Fernanda Sposito “Porque sou contra a presença da PM do Campus da USP (e de qualquer outra universidade)

Na sala dos passos perdidos de Lilian Aquino

17 de setembro de 2011

“Convém que você conserve a pele grudada, cobrindo os ossos. É preciso – cada vez mais e mais – esconder o esqueleto. Na madrugada, os ossos ficam querendo se descobrir, se mostrar. Mas mantenha-os quentes. Só o pensamento sangra.”

 

A sala dos passos perdidos de Lilian Aquino está aberta. Ela nos convida a sentar e apreciar. Fique à vontade, parece dizer. E eu fiquei.

 

Último botão
para Diego Jock

Esperava
sacudida por soluços
mas não adiantava nenhuma
simpatia ou tomar água,
nada.

Na sala dos passos perdidos
eram renovadas, a todo momento,
as pessoas em volta
: um breve roçar de saias
e os sapatos conhecendo
aquele não-lugar,
um ar em redemoinho
impossível pegar com
as mãos.

Já ele inventava essências
nos corredores curtos, mas largos
só tentando não bater as pernas
E do seu casaco aberto apenas
no último botão tira um punhado de
folhas, atravessa até ela e diz:

– Alfazema, toma. Coloca no bolso.

 

Lilian: “(este poema faz parte do meu livro inédito Pequenos afazeres domésticos, que vai ser publicado este ano pela Patuá)”

 

Na sala aqui

 

tempo instável, watchmen, de modo geral, e outras notas desconcertantes por aí

13 de janeiro de 2009

 

Editora Record entra na dança dos quadrinhos

Quem dá o toque é Odair Braz Jr. no seu blog V-oitão. A Record, que até hoje publicou pouquíssimo coisa de quadrinhos e de forma esporádica (dá para lembrar do Asterix, claro, do Artemis Fowl) resolveu investir mais fundo na área de quadrinhos e vai começar a trazer algumas coisas interessantes.  Por enquanto, bem devagar e muito timidamente, meio que sondando o terreno, me parece.  Entre algumas novidades, Odair cita: 

“-Adaptações para o mangá da obra da escritora Meg Cabot (inclui as continuações de Avalon High e Sorte ou Azar?)

-Adaptação para os quadrinhos da série Jovem James Bond. O primeiro volume será Missão Silverfin. Arte de Kev Walker.

-Graphic Novel da história de (baseado na história da artista Alice Prin, que recebeu o apelido de Kiki de Montparnasse e conviveu com diversos artistas na França dos anos 20).

   kiki  kikicomics

-Série de mangás adaptando a obra de Shakespeare. Começa com Hamlet (que sai na Bienal 2009) e haverá ainda Sonhos de Uma Noite de Verão e Romeu e Julieta. Mais para o fim do ano sai Ricardo III e A Tempestade.

-Prince of Persia, que é a adaptação para as HQs da série de games com o mesmo nome. Sai junto com o filme, no início de 2010.

Ainda há outros títulos em processo de assinatura de contrato.”

Como disse, timidamente, e muito longe do peso que a Companhia das Letras anunciou para esse ano. Mas é um começo. Só esperemos que eles se entusiasmem e tragam logo obras mais densas (os quais espero que estejam entres títulos em aberto). Possibilidades não faltam.

NINJA ASSASSIN

Filme que está sendo filmado agora, badalado e bastante comentado, significando que o departamento de marketing de Hollywood continua a toda. Neste caso, nada disso havia me influenciado. Não vou falar da história, pois realmente não interessa, coleção de clichês de filmes de kung-fu, máfias chinesas, vinganças e tudo o mais. Tem o fato de estar sendo dirigido por James McTeigue e produzido pelos Irmãos Wachowski, a mesmíssima equipe do ‘V de Vingança’, o que para alguns pode até servir como incentivo, mas para mim só piora a situação (já disse por aqui o que penso do tal filme do ‘V’). 

Portanto, foi com certo desprezo que acabei vendo este vídeo, que mostra as sessões de treinamento das lutas, e a coreografia dos dublês. Não faço a menor ideia do que vai acontecer no filme quando for lançado (ainda sem data marcada, sabe-se somente que vai ser para este ano), mas este vídeo é uma pequena joia. Muito bem montado e editado, ótima trilha musical, passa muito bem a noção de que aqueles movimentos (ainda sendo moldados e experimentados), serão parte de cenas editadas e produzidas de um filme pronto. Pela coreografia vemos como algumas lutas, socos, pontapés, brigas de espadas são realizados com os atores bem distantes entre si, mas nunca perdemos a ilusão. Inclusive, alguns momentos são tão bem sincronizados que, apesar de sabermos que é tudo ensaio, nos espantamos que alguns rostos, costas e pernas não sejam completamente quebrados.

Vale a pena ver. De repente, pode ser a melhor coisa do filme todo. 

– Trailer japonês de WATCHMEN

Este é outro filme cuja ansiedade em assistir está deixando muita gente de cabelo branco antes do tempo. E aí as apostas estão altíssimas, e não há meio-termos: ou será um filme do século ou Roubada Descomunal. Tudo o que está sendo veiculado e divulgado aponta tanto para um lado para o outro. As cenas vistas são de espantar os olhos e impressionar fortemente. Por outro lado, os problemas com a produção (com os produtores, mais especificamente) sempre deixa a sensação incômoda de querer saber o quanto o diretor Zack Snyder teve que ceder ao moralismo e à covardia hollywoodiana (as questões sobre o final da lula gigante já são famosas, até meio batidas). 

Seja lá como for, o resultado um dia veremos. Por enquanto, tem esse trailer japonês que já está circulando há algum tempo e é simplesmente o melhor trailer de Watchmen já produzido até e um dos melhores que eu já assisti. Emocionante e instigante. 

tempoinstavell

tempo-instavelÉ hoje, o esperado lançamento do ‘Tempo Instável‘. Já falei desse cd por aqui, não vou ficar me repetindo. O que fica repetindo em meu computador é o próprio, devo ter enchido o saco da minha família, pois de vez em quando não aguento e tenho que colocá-lo no volume máximo. Eles até que são tolerantes, mas concordo que ouvir as mesmas músicas em altíssimo som pela trigésima em um mesmo dia pode irritar um pouco. A eles, quero dizer.

Hoje, não vai ter problema com a altura do som. Nem com a qualidade da música, com a perfomance dos músicos, com o show em si. É só preciso prestar atenção neste detalhe fundamental: como o Mário Bortolotto justificadamente lembra é sempre muito difícil reunir todos os integrantes dessa banda, pois todos possuem seus próprios trabalhos individuais e stão sempre correndo de um lado para o outro.

Em outras, e claríssimas, palavras: não haverá outra apresentação desse banda, pelo menos nada em vista. Portanto, se perder hoje, perdeu.

A banda ‘Tempo Instável’ é Mário Bortolotto (vocal), Marcello Amalfi (guitarra e trompete), Fernando Miranda (piano e teclados), Caçarola (baixo), Conrado Maia (bateria).

Hoje, terça-feira, 20h30

Lançamento do CD “Tempo Instável”

Sesc Vila Mariana – Auditório, Rua Pelotas, 141 –

R$ 12,00 – Inteira / R$ 6,00 – estudante, usuário matriculado no SESC e dependentes / R$ 3,00 – trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes

——

e-flyer-geralAmanhã, no Rio de Janeiro, acontece o ‘DE MODO GERAL‘. E quem convida é o caríssimo Paulo Scott. Fala Scott:

“Caros, prezados, queridos amigos, aviso em cima da hora porque a vida tem sido um trânsito só, este é o DE MODO GERAL (Cinematheque, Botafogo, Rio de Janeiro, Brasil), invenção articulada em outubro do ano passado (e anunciada no início de dezembro); claro, o objetivo é a diversão, mas também evidenciar as coisas mais legais que vem acontecendo no Brasil (e no mundo) e, no final de cada noite, já que é verão na cidade maravilhosa, dançar sob trilhas de primeira. Apareçam, divulguem. 

Bom 2009. 

Paulo Scott. 

Aí, então: 

>>>> DE MODO GERAL : REVISTA AO VIVO DE COMPORTAMENTO BRASILEIRO <<<< 

Crônicas sem rodeio sobre LITERATURA, MÚSICA, HQ E CINEMA, entrevistas, discotecagem lado A e lado B, opiniões, twitter, vídeos inusitados. Tudo isso num clima de sala de redação, com os colunistas Rodrigo Penna, Flu, João Paulo Cuenca, Allan Sieber, Paulo Scott e Arthur Dapieve (que passará a integrar o cast a partir de fevereiro), percorrendo, quinzenalmente, as atualidades e idiossincrasias do cenário cultural (e antropológico) brasileiro com humor e ironia. E ainda: show com bandas brasileiras, performances-relâmpagos e, depois de tudo, festa sob a regência sonora dos seis colunistas. 

Os convidados desta primeira noite, dia 14 de janeiro, serão: 

Banda LEME

Fausto Fawcett

Márcio André (e suas polifonias para violino e processamento eletrônico)

Rogerio Skylab (entrevista)

Mr. Baratos da Ribeiro Maurício Gouveia (mostrando os dez melhores vinis dançantes da sua coleção)

SERVIÇO

Quando : 14/01

Onde : Cinemathéque

Horário : a partir das 20h30

Ingressos : 20 reais

Lista amiga : 15 reais

demodogeral@gmail.com

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Marcelo Montenegro dá todas as notas

16 de dezembro de 2008

Na rua, debaixo de chuva paulistana, sem condições de escrever o que deveria, dar os avisos que deveria. Marcelo Montenegro, no entanto, já dá todos os toques necessários:

“Último dia do Poesia no Jardim da Filosofia, no CCBB, com curadoria e apresentação da Viviane Mosé. Os convidados são a Negra Li e meu amigo Sergio Mello, substituindo a Bruna Beber que foi pro Rio buscar seu prêmio de revelação literária do ano dado pela revista Quem. Quem também encerra temporada é o Terça Teatrale, do Walter Batata Figueiredo, no Restaurante Mamarana, e a peça Uma pilha de Pratos na Cozinha, no Satyros 1, ambos às 21h. Sem contar que mais cedo, às 19h, o mito Diniz Gonçalves Junior lança seu livro, Decalques, na Casa das Rosas. Não importa aonde vá, feche o dia com a Saco de Ratos (Mário Bortolotto, Fábio Brum, Marcelo Watanabe, Fábio Pagotto e Rick Vechione) no Teatro X a partir das 22h (maiores infos aqui). “Como já cantou Bruce Springsteen, basta virar à direita ao ver a luz, seguir até o cair da noite, e então, rapazes, vocês estão por conta própria” (Robert Greenfield, in Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones – Exile on main St.).”

Há mais considerações em seu ORFANATO PORTÁTIL (http://marcelomontenegro.blog.uol.com.br/).

Bettie Page morreu.

12 de dezembro de 2008

Claro, quem morreu ontem, dia 11 de dezembro de 2008, já não era mais a BETTIE PAGE, mas um senhora de 85 anos que se mantinha sozinha e afastada das atenções desde a época do seu auge de atriz e modelo máximo do imaginário masculino, a representante máxima, a criadora total das pin-ups modernas na década de cinquenta, quando então provocou verdadeiros terremotos, quebrou tradições, arregaçou morais, inventou (ou foi inventada por) novos caminhos. 

Ao que sei, era uma senhora simples e simpática que não se recusava a dar entrevistas, mas desde que não se tirasse fotos. Sempre consciente da força de sua imagem, não queria que ela se quebrasse por conta de sua idade. E, portanto, mesmo não sendo A Bettie Page dos anos 50, continuou pin-up até o fim.

bettie-page

O bumbum mais bonito do mundo é de brasileira.

5 de dezembro de 2008

Ao que entendi, uma marca de lingerie promoveu um concurso mundial para escolher o bumbum mais bonito do mundo. A votação foi através da internet e pelo voto de modelos. Tudo bem, não acompanhei nada disso, mas nem me preocupo. Fico sabendo agora.

A ganhadora foi Melanie Nunes Fronckowiak. Viva!

Bunda perfeita? Sei lá. O que importa é que encontrei umas fotos sem retoques que mostram umas marquinhas (pequenininhas) de imperfeições e até uma espinhazinha. Para mim são detalhes muitíssimos mais eróticos e excitantes do que se se mostrasse uma bunda lisa de bola de bilhar passada pelo photoshop.

Melanie Nunes Fronckowiak, senhores:

melanie-nunes-fronckowiak

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melanie-fronckowiak-costas

A grama do vizinho da Fabiana

13 de novembro de 2008

fabianaFabiana Vajman não vale muita coisa, ama de loucura, odeia com paixão, sente felicidades absolutas e sofrimentos universais. Ou vice-versa.

O que sei é que, de qualquer modo, não há como ignorar Fabiana Vajman, apesar do seu tamanho gnominal. Pois ela não chama a atenção. Ela agarra a atenção, sacode-a, pisa em cima, dá um peteleco. Ela carrega uma energia tão forte, tão vibrante e explosiva, que de repente, caso não se esteja preparado (ou for um ‘uspiano’) pode se machucar.

Eu acho sensacional, me faz bem, me sinto tomado pela força e a beleza dessa mulher, e todas as vezes que nos encontramos ou a vejo atuar ou estamos a beber em algum bar das redondezas rodeados de amigos, ou ouço esta sua risada fenomenal ou a vejo brincar com a filha da Luana se reconhecendo como sua ‘irmã gêmea’, bueno, realmente sinto que isso me faz muito bem.

Talvez a conheça há pouco tempo demais. Talvez não tenha reconhecido ou visto momentos de depressão e tristeza explícitas e isso me assuste quando acontecer. Seria simplesmente muita bobagem minha, ela não esconde este seu lado, ao contrário, ela faz a prática do escancaramento, do jogar-para-fora, não se aguentar e não comer-palavras.

Ela não come as palavras em seu blog (http://agramadovizinho.zip.net/) (um dos blogs que preciso, necessito, visitar todo dia), em tudo e por tudo, a plena materialização por escrito da pessoa que conhecemos ao vivo. De vez em quando, ela solta umas verdadeiras granadas-de-mão de puro humor cáustico e sarcástico; em outros momentos, desabafos profundos. Há alguns posts, inclusive, que acredito poderiam até ser trabalhados e desenvolvidos e funcionariam muito bem para sair do formato de blog.

Este post aqui, por exemplo, do dia 12 (de nov/08) eu li tantas vezes que eu precisei, necessitei, colocar aqui. Apesar da minha condição de uspiano-ffelechiano-de-carteirinha pleno que sou, creio que entendo muito bem o tipo de pessoa a que se refere.

Independente de qualquer coisa, isso aqui é muito! engraçado, convenhamos. E humor, por mais desbragado que seja, não quer dizer que não seja sério.

As organizações Pega Aqui e Balança têm o orgulho de apresentar a cartilha

Para Entender Fabiana Vajman

É assim: você está na sua, não pediu nada pra ninguém, só quer sossego lá no seu cantinho, quando chega um gnomo meio estranho, que fala meio alto demais bobagens demais. O que fazer?

Bom, isso vai depender de como você se sente com a chegada desse ser. Se você se acha culto demais, inteligente demais e se faz blasè demais o tempo todo para dar atenção às bobagens desse microorganismo, é melhor ignorar a presença do Playmobil saltitante. Não tenha a péssima idéia de justificar a sua cara de cu com explicações do tipo: “Nós, Uspianos não gostamos muito desse tipo de assunto.” O Playmobil é meio burrinho, gente, a despeito das tiradas espirituosas que faz (que aliás são meramente intuitivas, jamais foram raciocinadas). Com certeza, a um argumento desses o chaveirinho lhe perguntará: “O que é Uspiano? Só conheço os piano, moça”. Pior pra você suspirar e olhar do alto nessa hora. Aquela porrinha fez uma pergunta sincera: como ela iria saber que alguém teria o mau gosto de justificar seu mal humor alegando que estudou na USP? Melhor abrir o coração e contar que não trepa faz tempo por pura falta de candidatos, que aquela alegria sem fundamento incomoda e que gente estridente enche o saco. Garanto pra você que assim obterá muito mais respeito do pequeno roedor que se retirará em seguida lhe deixando sozinho com seus complicados pensamentos.

Ficar alfinetando com classe também não resolve, pelo mesmo motivo: a pintora de rodapés é meio burrinha e jamais vai entender suas lantejoulas. E se resolver ser mais direto e provocar até que surja uma reação violenta do tal Gremlin, tome cuidado: Ice Pop não puxa cabelo. Ice Pop soca. Ice Pop segura pela nuca e bate a testa do catucador na mesinha mais próxima. Ice Pop é pequena mas não tem senso de noção.

Repito, Uspianos: saiam de perto dessa filha pródiga de Lilliput. Fiquem na sua, olhando de longe com ar de desprezo, que ela os deixará em paz.

Porém, se a chegada dessa merdinha alegra de alguma maneira o seu coração, seja porque ela te faz rir da cara dela o tempo todo, seja porque ela te faz esquecer de se levar à sério, seja porque você acha que ela tem belos peitinhos, seja porque ela sempre tem na bolsa alguma coisa bacana pra compartilhar com você, ou simplesmente porque você vai com a cara dela e pra essas coisas não há explicação, então apenas lhe dê um sorriso aberto e um abraço apertado. Tome uma cerveja com ela. Fale de banalidades, ria de suas bobagens, tente achar alguma coisa pra elogiar e o faça. Em Lilliput se come elogios, são vitais para mini pessoas. Porém, não a leve à sério porque essa imbecilzinha fala as coisas sem pensar. Se ao perguntar “Tem fogo?”, ela usar sua voz mais sensual (ou o que ela considera sensual, o que pode ser ri-dí-cu-lo) e responder: “Eu sempre tenho fogo, garotão”, não vá achando que ela quer dar pra você. Ela pode até querer, mas não será assim que ela o demonstrará. E, se ao se animar e chegar junto ouvir um “ih, mizinfio, nem vai dar, vou dar pra você, não”, pode acreditar que é de coração que ela o falou. Mas não é nada pessoal e por favor não se ofenda. Ria e tome mais um gole com ela e tá tudo certo.

Fabiana Vajman é um ser simples e sem requintes. Não vale muita coisa, ama com loucura e odeia com convicção. Não tem muito talento, não se iludam com seu sobrenome, ela foi adotada, sua mãe não é sérvia. Ou talvez seja. Não sabe muita coisa e desistiu da maioria dos livros que começou a ler depois de terminar a “Coleção Vaga Lume”, porque acha tudo muito complicado e jamais teria a pretensão de ser uma Uspiana. Tem grandes mágoas, muitas dores e um filho que é seu elo com o mínimo de sanidade que consegue manter em meio a tantas tribulações. Ainda espera encontrar um grande amor, embora morra de vergonha de assumir isso. Então passeia pelos lugares errados, onde essa chance é nula, pagando mico e dando vexame. E conquistando grandes amigos.

(Se não te interessa entender Fabiana Vajman, eu é que não entendo por que você leu até aqui. Você também é Uspiano?)”