Posted tagged ‘Crônica’

Boca aberta.

10 de outubro de 2012

No ponto de ônibus.

O pai mandou o filho de colo fechar a boca. Uns instantes depois, repetiu a ordem. Observei, distraído, que o garoto realmente estava com a boca entreaberta, deixando à mostra a pontinha rosa da língua. Mas, embora a boca estivesse de fato aberta, os ouvidos pareciam fechados e ele não prestou atenção. O pai repetiu, agora com um tom de voz mais autoritário e firme e o garoto, afinal, ouviu e obedeceu.

Por dois milionésimos de segundos. Na primeiríssima distração, abriu novamente. Não que fizesse de propósito (pelo menos, não no começo), era pura preguiça de se concentrar em algo tão trivial. O pai ficou sem paciência, deu uma sacudida nele, e disse que se não fechasse a boca os mosquitos iam entrar e morder sua língua (alguma coisa no estilo, não vou lembrar direito a frase, o espírito foi esse).

Aí o garoto começou a argumentar.

– Pai, se eu fechar a bocar vou morrer sem ar! (eu não vou tentar reproduzir os trejeitos de fala de uma criança pequena, imaginem vocês aí)

– Oh, moleque bobo! (também não foi Exatamente essa a frase utilizada, mas espero que dê para entender). Você respira pelo nariz, não pela boca!

O menino parou para pensar, embora sua cara dissesse que estava duvidando explicitamente da informação recebida.

O pai resolveu demonstrar.

– Quer ver? vou fechar seu nariz e você vai perceber.

O pai encostou os dedos no nariz do moleque e ele começou a gritar!

– PARA! PARA! NÃO TÔ RESPIRANO! NÃO TÔ RESPIRANO!

Na hora, eu pensei que o gesto do pai tivesse durado, no máximo, uns dois segundos. Pensando mais tarde e rememorando a cena cheguei à conclusão que ele sequer tinha encostado no nariz.

O pai olhou para nós, o restante do ponto de ônibus, com receio que entendêssemos errado o grito do garoto (ele tinha gritado Realmente alto, eu garanto), mas todos tínhamos acompanhado a conversa.

O menino suspirou forte (livre das garras ameaçadoras de fechamento de narizes) e finalizou.

– Ufa! Como é bom respirar, né, papai?

– É, meu filho.

Logo em seguida, o ônibus deles chegou; infelizmente, não me servia, então não pude saber se a conversa sobre os benefícios da respiração continuaria. E de onde eu estava parado não pude olhar direito, mas tenho quase certeza absoluta de que, quando entraram no ônibus, a boca do garoto não estava aberta. Estava escancarada.

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O primeiro poema de amor foram vários

17 de agosto de 2012

 

Certa vez (não sei de onde tirei a coragem para vencer a timidez) cheguei perto da minha amiguinha de colégio (que, obviamente, era a minha paixão secreta e platônica) e disse que eu conseguia escrever um poema com seu nome. Ela ficou curiosa. Tínhamos tempo, estávamos no intervalo de aula, o professor da aula seguinte tinha faltado, então tínhamos que ficar fazendo hora de qualquer modo. Fiz uma cara de concentração e comecei (como se eu já não o tivesse escrito na noite anterior e praticamente decorado as palavras). Ela amou o resultado! (e até pensei que receberia um beijo, o que teria sido a glória!), mas ela fez questão de correr e mostrar para suas amigas o que eu havia acabado de produzir.

Foi uma sensação. De imediato, elas também quiseram os seus próprios, algumas até com um tom de dúvida na voz, ou quase certeza de que eu não conseguiria. Eu disse ‘claro!’ (ou seja lá qual foi a palavra que utilizei na época) e me dediquei. Para minha surpresa, a coisa fluiu com muito mais facilidade do que eu pensava: usava seus nomes ou as primeiras letras dos seus nomes, misturava com umas rimas, realmente fluiu. E elas adoraram! Realmente adoraram, e a coisa se espalhou. Quando percebi, todas as meninas da sala (e acho que até de outras salas) estavam ao meu redor, aguardando seus poemas ‘personalizados’ e gritando de prazer quando os recebia.

Ao final, exausto e já um pouco desesperado por encontrar mais rimas, a hora passou, o intervalo foi-se, o próximo professor chegou e voltei a ser um ser humano ‘normal’, ‘comum’, mais um colega de classe.

Claro que não prestei atenção em aula nenhuma. Minha cabeça fervia e comecei a sonhar com as possibilidades inauditas e infinitas que, de tão súbito, haviam se aberto para mim. Eu seria Poeta! Escreveria livros, seria famoso, teria as mulheres do meu lado. Pronto, decidido, seria poeta.

Creio que não preciso dizer que as coisas não aconteceram ‘exatamente’ desse jeito. A riqueza, a fama e as mulheres aos meus pés estão demorando um tanto para chegar…

No entanto, em verdade, não reclamo. O prazer, a volúpia e o encanto daquele dia me acompanham até hoje, é algo que carregarei comigo para a vida inteira. Do dia que meu primeiro poema de amor se transformou em algumas dezenas.

Ambiguidade

7 de julho de 2012

Hoje me deparei, por motivos e caminhos completamente independentes, com a palavra ‘ambiguidade’ e com essa foto. E fiquei a imaginar que esta palavra e a imagem podem nos fazer pensar alguns tipos de clichês que, nem por serem verdadeiros, deixam de ser clichês. Tal como o de que uma imagem vale por mil palavras.

Pois essa imagem conta uma história. Os dados, os personagens, a ambientação estão expostos. Mas quem constrói a história final não é o fotógrafo e principalmente: quem orienta a significação, quem determina o sentido, se esta é uma cena romântica, patética, saudosa, alegre, épica ou melancólica, também não caberá ao tal fotógrafo. E, sim, a você.

Minha Palma

20 de maio de 2012

 

Se os olhos são a janela da alma, a mão é a concretitude do corpo, a materialização, a objetivação.

Não sei se com todo mundo que se separa é assim, mas comigo a coisa mais complicada e angustiosa de quando me separei foi saber o que fazer com as mãos. De repente, de uma hora para outra, eu percebi que elas existiam. E ocupavam um espaço enorme, imenso, muito maior do que o seu diâmetro. Ficavam sobrando no braço, contidas para não fazer besteira. Quero dizer, a gente se cumprimenta, coloca a mão no ombro do outro quando fala, coloca a mão na cintura da menina quando vai beija-la e, conforme a situação e a pessoa permitam, até dá uma apertadinha de leve; para alguns desinibidos, é fácil e natural pousar a mão nos joelhos alheios. Mas, parou por aí. Em um segundo, percebi que anteriormente eu fazia coisas e usava as minhas mãos de um modo como nunca poderia normalmente com simples amigos e/ou (principalmente) amigas.

Mais do que isso, na verdade. Entre minha mulher e eu, havia um pacto, uma liberdade mútua consentida, trabalhada e tornada naturalizada com a realidade da convivência. Era legal. Fazia parte e aumentava o prazer da companhia. Com os demais, não existe este pacto, esta sofreguidão, este desejo consensualizado. (lógico que o desejo sempre existe, somos animais sexuais, mas nem sempre compactuais). Não tenho o direito de mexer e usar minhas mãos como antes. Foi bem difícil me acostumar.

Portanto, levei um bruta susto quando assisti pela primeira vez “O Homem que amava as mulheres”, do Truffaut. Quem assistiu, entenderá perfeitamente o que estou dizendo. Quando o personagem reencontra, por acaso, sua ex-mulher, ele expressa estas minhas mesmas atitudes! Reage da mesma forma como eu mesmo reagi. Fiquei um tanto assustado. Naquele exato momento, naquela cena, aquele cara era eu. Foi chocante, triste, engraçado, assustador e belo, tudo ao mesmo tempo. Que louco!

Em outros níveis, lembro que quando Romeu se encontrou pela primeira vez com Julieta na festa à fantasia na casa dos pais dela, ele tenta beija-la. Julieta brinca, recua, atiça e diz que só aceita ser beijada à moda dos peregrinos (que é a fantasia que Romeu está usando). E o beijo dos peregrinos é com as palmas das mãos! Romeu é inteligente, também brinca, tá no jogo, mas sua para conseguir beija-la de um modo menos santo… Do bardo, ainda lembro vividamente das mãos de Macbeth que não conseguia limpa-las do sangue do rei que acabara de matar e fica lavando, lavando. Em “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, o motivo da reunião de tantos padres naquele mosteiro era uma discussão sobre se Cristo ungia e abençoava com a mão ou somente com os dedos. E disso tiravam toda uma briga sobre a questão das riquezas da igreja!

E há também a terrível história sobre o poeta, músico e cantor chileno Victor Jara, um dos maiores símbolos da resistência à ditadura de Pinochet e de qualquer ditadura em geral. Foi uma das únicas pessoas de todos os tempos que conseguia mesclar de forma magistral mensagens socialistas, paixão, panfletagem, beleza e poesia. A lenda diz que quando foi preso junto com outras milhares de pessoas no nefasto Estádio Nacional, os torturadores cortaram suas duas mãos, colocaram um violão nos seus joelhos e gritaram: “Canta, agora!”

Isto é, a mão como forma concreta de relacionamento, afirmação, confirmação, negação, de barreira, de poder, abnegação.

 

LO ÚNICO QUE TENGO
Victor Jara

Quien me iba a decir a mí
Como me iba a imaginar
Si yo no tengo un lugar
Si yo no tengo lugar
Si yo no tengo un lugar en la tierra

Y mis manos son lo único que tengo
Y mis manos son mi amor y mi sustento
Y mis manos son lo único que tengo
Y mis manos son mi amor y mi sustento

No hay casa donde llegar
Ni paire ni maire estan
Mas lejos de este barriar
Mas lejos de este barriar
Mas lejos de este barriar
Que una estrella

Y mis manos son lo único que tengo
Y mis manos son mi amor y mi sustento
Y mis manos son lo único que tengo
Y mis manos son mi amor y mi sustento

Quien me iba a decir a mi
Que yo me iba a enamorar
Cuando no tengo un lugar
Cuando no tengo lugar
Cuando no tengo un lugar en la tierra

Y mis manos son lo único que tengo
Y mis manos son mi amor y mi sustento
Y mis manos son lo único que tengo
Y mis manos son mi amor y mi sustento

 

 

Novo português

1 de janeiro de 2009

conversa entreouvida no ponto de ônibus:

“então, essa nova gramática… por exemplo, Sônia agora ficou sem acento… microondas tem tracinho… É tudo coisa do Lula!”

Amigos pelas ruas de uma São Paulo em pé de frio.

14 de maio de 2008

Querida Li, como andas pela cidade de São Paulo? Claro, sabemos, percorremos essas ruas frias, de um gelo que ainda não esperávamos, quem sabe seria somente para o mês que vem, no entanto, nos pegou agora, desestrutura nossa rotina, torna ainda mais difícil a sempre extenuante tentativa de levantar a cabeça do travesseiro, com todos os tempos verbais possíveis ainda embaralhando o sono e o trânsito.

Li, como andas? Pois gostaria de dizer que as ruas, apesar dos agasalhos, estão fervendo, que cabeças estão fervendo, que amigos meus e nossos estão brigando para mostrar arte e talento, e sabemos bem que, ao lado dessa tal amizade estes caras e estas minas mandam muito e prezam demais continuar brincando com a bola para ‘desfrutar desse indescritível prazer que é chutá-la mais longe’.

Misto de admiração e espanto, penso neles. Em Fábio Brum, guitarrista do Bêbados Habilidosos, do Made in Brazil, faz arrepiar a alma com seus acordes, a ponto do mestre Chacal dizer que gostaria de fazer poesia como Fábio toca sua guitarra, e agora repassa sua experiência dando aulas. Não vou falar de sua excelência, basta tê-lo ouvido uma vez, ou aproveite-se um Tranqueiras Líricas, um Saco de Ratos Blues, um Melodrama Blues. Paulo Stocker é outro. Traços e linhas se aprendem e se aperfeiçoam.

Flavinho Vajman é outro. Conhecido até há pouco como Garoto-Enxaqueca, é preciso reconhecer o quanto ele é chato é com seu trabalho, com sua arte, com o modo como lida com o que sabe melhor fazer, sua música. Penso em sua apresentação com Fernanda D´Umbra no Bourbon Street, tocando com a boca machucada, para se perceber sua seriedade: tocando gaita. Penso em que o ponto na Frei Caneca, o famigerado Juke Joint, está para fechar (ao que tudo indica, realmente fecha agora) no dia 31de maio, fechando um ciclo em sua vida e na vida cultural dessa cidade. Flavinho com suas aulas de gaita pode até assustar, mas como o Mário Bortolotto já disse uma vez, ele só morde se você pedir. Penso no Paulo de Tharso, essa figura extraordinária, que exarceba em sua simples pessoa toda essa complexidade de um fazer / ser artista mandatário dessa tão antiga tradição de ser / fazer / ser humano. Carisma e talento se unem, músico e ator, cantor e poeta, escritor e professor de francês, com o qual fala um francês castiço e exuberante, baseando-se em peças de teatro ou obras literárias ou cinematográficas ou um falar simples e direto para necessidades imediatas, conforme desejar o aluno.

Querida Li, não sei bem o que dizer. Devíamos marcar uma ponta, tomar um café (isso é, você tomaria um café, eu ficaria com a minha cerveja, ou sempre podemos compartilhar um vinho), deixar passar o frio, o vapor de nossas bocas se confundiria com a fumaça dos carros congelados nessa São Paulo que ambos conhecemos, e eu diria da minha incapacidade de absorver o tamanho da bronca que poderíamos aguentar. e da impossibilidade de abarcar com a mente a quantidade de arte que nossos amigos conseguem produzir e com qual dimensão. Preciso te ouvir sobre suas aulas (imagino que ainda dê aula, em quatro ou cinco escolas diferentes por dia, como normalmente você fazia, além do doutorado na História) e retribuirei perguntando, com a minha costumeira ansiedade, sobre sua vida e acrescentarei, com um certo toque mínimo de malícia: Você conhece o trabalho do Edinho Kumasaka? Suas fotos causam um estranhamento instigante delicioso. Não são bonitas. São impactantes (veja a cara desse boneco!). Vai abrir exposição sua lá no B_Arco em Pinheiros (outra usina impressionante de talento). Precisamos assistir ao “Desatino” no Sesi da Avenida Paulista, é de quarta a domingo, é de graça e é com a Mariana Leme (o que por si valeria pagar qualquer ingresso, aliás), vai estrear nesta quinta, mesmo dia da abertura da exposição do Edinho no B_arco. Podemos nos jogar na exarcebação de um (anti-)Sade, no Anti-Justine, no Teatro X, da Rui Barbosa, suas sessões são às sextas-feiras, meia-noite (e, portanto, poderíamos, com justeza, passar pela Praça Roosevelt e nos dirigir para uma fogazza no Giannotti, como já combinamos e ainda não rolou); ou nos embebedar nas palavras de Dostoiévski, em “A Voz Subterrânea“, uma adaptação de “Memórias do Subsolo”, espetáculo que impressionou fortemente nosso caro Paulo de Tharso (veja aqui: http://paulodetharso.blog.uol.com.br/). Ou nos desbragarmos no nonsense hilário do Rolex – o antivelox, do Mário Bortolotto, no Teatro Ruth Scobar. Quero falar com mais vagar e falarei, em outro momento, do ‘Natimorto‘, no Parlapatões, e da “Festa da Abigaiu“, que retornou, dando mais uma chance aos incautos e desavisados (tipo um claudinei da vida) para não perderem infantilmente a oportunidade.

Podemos, é claro, querida Li, esquecermos todos esses amigos e sua arte e continuarmos com o café e a cerveja, passarmos pela casa da Tati Carlotti, e observarmos o frio caindo na paulistana Brigadeiro Luís Antônio, perceber o sentido do embaçamento acumulado na janela da sala e da fumaça do cigarro, ouvir um Chet Baker (que sempre cai bem), e podermos enfim conversar.