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Afinal, o Gigante acorda, indignado, revoltado contra a violência

4 de julho de 2014

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Não!! É agora que o Brasil se agoniza, se revolta, vai explodir! A violência atinge um nível inesperado. Você podia até pensar que poderia ser pelas várias e brutais repressões à toda e qualquer manifestação. Podia até ser no caso da garota desarmada e covardemente espancada pelo policial de tropa de choque. Podia até ser mesmo pela fraude das provas forjadas para prender pessoas inocentes e trancafiadas até agora. NÃO! O pior é que Neymar foi agredido! (e nem foi pela Polícia Militar, nem por bombas de gás, nem por balas de borracha que estão rodando à solta por este país tão democrático), e mais que pior, mais que horroroso, mais que terrível, treva das trevas (e nem estou falando da nova ditadura instaurada), o novo apocalipse:

NEYMAR ESTÁ FORA DA COPA!

O Horror! O Horror! O Horror!

E se o feicibuque, assim como todas as demais redes sociais, estavam insuportáveis, agora então…

e ah, obviamente, o mais novo vilão a ser execrado nacionalmente não será um policial militar psicopata, nem um governador ditadorial, nem mesmo presidentes nacionais impassíveis com a violência a rodo a sua volta, mas um jogador de futebol violento…

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Feche os olhos, vire o rosto, grite Gol

27 de junho de 2014

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Eles se manifestam, atrapalham o trânsito, você se irrita, a PM reprime. Eles se movimentam, atrapalham sua vida, você reclama, a PM bate, joga gás lacrimogêneo.

Eles protestam, fazem greve, fecham serviços, interrompem o seu dia comum e você reclama mais acidamente (afinal, te impedem de voltar para casa ou ir para o serviço, de resolver problemas no banco, de comparecer à consulta médica), a polícia prende arbitrariamente, forja artefatos, criminaliza todo o movimento de protesto, joga gás de efeito moral, espirra gás pimenta em rostos de manifestantes já imobilizados, arrasta manifestante nua, prende na calada da noite, impede manifestante de sequer sair do lugar.

Eles levantam a voz, você tapa os ouvidos, vai se divertir, olha para o gramado, o Choque desce porrada, a polícia tortura.

Eles perdem o emprego (quem mandou entrar em greve?), perdem a casa (quem mandou morar em áreas de construção de estádios modernos e bem equipados?), perdem a dignidade (quem mandou exigir uma?), perdem as leis (quem mandou acreditar que existe constituição?), perdem as terras (quem mandou ser índio?), perdem até a sarjeta (quem mandou ser morador de rua justamente aqui?!).

A Polícia? Mata. A Polícia Militar paulista mata mais do que todas as policias dos Estados Unidos juntas.

E você? Quando levanta a voz é para reclamar dos manifestantes ou para gritar gol.

Também está perdendo dignidade, voz, emprego, casa, terra, transporte, mas Pense. Adivinhe o que vai acontecer quando você quiser também protestar.

Vão te dizer que lugar de reclamar é nas urnas. Se tiver alguma implicância, espere, engula o choro, tampe o nariz, e de quatro em quatro anos, ou de dois em dois, siga a fila, e vote, se sinta todo poderoso, pensando que está realmente mudando alguma coisa (ou, talvez, nem isso, nem acredite mesmo em nada disso, talvez tenha consciência da farsa, e só esteja se divertindo com a farra).

Enquanto isso, feche os olhos, vire a cabeça, olhe para a televisão, e continue a xingar os manifestantes, ignore os presos políticos e o sangue espirrado exatamente aí do seu lado.

Só não esqueça um detalhe: mesmo a Copa das Copas tem data para acabar e, assim como os estádios vão se manter, assim permanecerão a Polícia Militar, as arbitrariedades, a repressão, a desinformação. O legado do mal-estar.

POLÍCIA SUFOCA ATO CONTRA PRISÕES ARBITRÁRIAS
Mais de 500 policiais, incluindo cavalaria, robocops e tropa de choque a postos, impedem neste momento que o ato saia sequer de sua concentração no Vão “Livre” do MASP. Governo de Geraldo Alckmin reafirma que sua postura é de criminalização e truculência contra a luta social.”

https://www.facebook.com/maes.demaio?ref=stream

PMs de SP mataram 10 mil pessoas em 19 anos”

http://ponte.org/policiais-de-sp-mataram-10-mil-desde/

 

Quantos índios nos estádios, hoje?

23 de junho de 2014

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Prevejo que hoje, dia de jogo do Brasil na Copa das Copas, um empate não seja muito bem-quisto; prevejo que seja um dia para ficar um pouco longe do Facebook, e do Twitter, e das demais esferas sociais, sites e blogs, pois serei um chato e não quero chatear amigos, e alguns muito bons amigos, e dizer do meu incômodo, portanto não incomodarei, não serei chato, não pedirei para contar quantos, e se haverá, índios brasileiros assistirão ao jogo hoje no estádio, ou se estarão ou poderão brincar de bola eles mesmos em alguma área por fim demarcada (cujos trabalhos já estão a ser exigidos há tanto tempo e, pasmem!, nunca tiveram a velocidade de resolução de construção dos Estádios desta Copa das Copas no Brasil). Muito menos (de forma alguma!) pedirei para pensar se índios estarão sendo reprimidos naquele exato momento por polícias militares (ou qualquer outra força de repressão) que, coitados!, estarão ocupados em reprimir ao invés de também se divertirem com o futebol.

E, fiquem à vontade!, enquanto estiverem discutindo sobre qual jogador foi o carrasco ou o traidor ou o fominha ou o salvador da partida ou o responsável filho da puta da derrota, gritando seu ufanismo-nacionalista-futebolístico-verde-amarelo-sou-brasileiro-com-muito-orgulho-somente-agora-e-os-outros-que-se-fodam-se-me-atrapalharem-meu-carro-de-novo-neste-trânsito, eu faço questão de não chateá-los.

Divirtam-se. Afinal, essa é a Copa das Copas. Tudo vai bem. Os aeroportos funcionam. As vendas dos ingressos funcionaram (e em todos os preços). E está havendo Copa. Os estrangeiros estão se divertindo. Vocês estão se divertindo. Talvez não os desalojados pelas expropriações, ou os manifestantes que não podem abrir sua boca. Ou os índios. Os eternos desmarcados.

Mas, se eu falasse nos índios agora, justamente agora, neste dia patriótico, estaria a chateá-los. E isso é a última coisa que desejo.

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COPA DAS TROPAS

18 de junho de 2014

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É isso.
No Cambuci, em São Paulo, famílias comemoravam o resultado do jogo do Brasil. Famílias faziam o que era comum acontecer em dia de jogo do Brasil, em qualquer campeonato, principalmente em Copa do Mundo. Festejavam. Se divertiam. Haviam pintado ruas, pendurado bandeirinhas.
Não pode mais. Não se deve mais. A não ser que a PM goste. E a PM não gosta. Não o povo.
Polícia Militar está gostando do clima. Agora não estão parando mais. É como vício. Precisa bater. Precisa reprimir. Aliás, como sempre foi. Como sempre fizeram. A diferença está sendo a ampla divulgação, a exposição. Não estão com vergonha de mostrar o que sempre cometeram.
No Cambuci, em São Paulo, não era manifestação, não era protesto, era festa.
“depois das 22h não tem festa, som aqui tá proibido”, disseram.
E contra som alto, como todo mundo sabe, como a PM sabe, a única atitude, a única providência, é bater, atirar balas de borracha, jogar bombas de gás.
É isso.
Copa das Copas.
Copa das Tropas.

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http://bit.ly/1uDBwt1

O verdadeiro legado da Copa

17 de junho de 2014

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Estado de exceção. De repente, ele chegou, se instalou, e está gostando da situação.

Não que nada disso tenha sido surpresa. Não, mesmo. Era o que todos esperávamos. Por conta de um importante evento esportivo, regras democráticas não estão mais valendo, deram um surto, estão dando um tempo.
Este está sendo, desde já, o maior legado dessa Copa. De repente, o que era realizado na surdina, onde todos sabiam o que acontecia mas tinham um certo ‘respeito’ ou simplesmente era abafado, agora está escancarado, aberto. Não para os olhos do mundo todo verem (oh, que vergonha), mas para nós mesmos, para aqui dentro.

Demissão sumária de grevistas, manifestante preso e torturado, jornalistas detidos ilegalmente e na calada da noite, artistas performáticos detidos por carregarem materiais para sua performance (latas de spray, arames; podiam ser perigosos manifestantes indo realizar sua perigosa manifestação); polícia federal realizando prisões ‘preventivas’ no Rio de Janeiro, no dia anterior da estreia da seleção brasileira, policiais não identificados disparando armas letais, ruas de Belo Horizonte tomadas e controladas pela Polícia Militar, não sei porque ainda não instauraram toque de recolher.

Não há inocentes nessa história. Não é uma questão de Aécio x Dilma. Não é um simplificação estúpida de coxinhas x petralhas. Os governos estaduais e municipais têm sua autonomia e estão fazendo sua parte direta na instituição do Estado de Exceção de fato, independente de qual partido responda, e o governo federal está aí para garantir que isso aconteça, jogando o exército na rua se tal for necessário, quem duvida disso?

Estado de Exceção.

Mas a Copa está bonita, os jogos estão bons, vários gols por partida, não é mesmo?

E o Chico, hein? 70 anos!

Acorda amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição
Era a dura, numa muito escura viatura
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão
Acorda amor
Não é mais pesadelo nada
Tem gente já no vão de escada
Fazendo confusão, que aflição
São os homens
E eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Chame, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão
Se eu demorar uns meses
Convém, às vezes, você sofrer
Mas depois de um ano eu não vindo
Ponha a roupa de domingo
E pode me esquecer
Acorda amor
Que o bicho é brabo e não sossega
Se você corre o bicho pega
Se fica não sei não
Atenção
Não demora
Dia desses chega a sua hora
Não discuta à toa não reclame
Clame, chame lá, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão
(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)