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LUMINÁRIA AMARELA

8 de julho de 2014

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Você já estava nua quando cheguei na porta do quarto. Atravessei o quarto, entrei no banheirinho, olhei para o espelho e para minha cara larga e as olheiras e a papada e a calvície pronunciada, desviei o olhar, não precisava ficar sofrendo, cutuquei minha barriga dos lados e pela frente, um leve incômodo costumeiro no lado esquerdo logo acima da cintura, abri a boca e escancarei a língua, tentei olhar para a língua e não para o espelho, meus olhos devem ter ficado vesgos, senti ânsia de vômito, fechei a boca, suspirei, tirei a camisa, meu peito continua peludo, talvez tanto quanto na minha época de garoto quando meus amigos diziam que eu tinha um colete-à-prova-de-balas (há-há-há) (curiosamente, meus braços sempre foram quase pelados), talvez um pouco mais de pêlos brancos, só isso, sentei na privada, fiquei com vontade de fumar, esqueci os cigarros na sala, comprimi a vontade, levantei, usei o papel higiênico à toa, garanto: nem ficou sujo, descalcei os chinelos, coloquei-os no canto, apesar do uso ainda firmes, tirei lentamente a meia esquerda, senti frio, coloquei de novo, abaixei a calça de pijama, fiquei de cuecas e meias, portanto; olhei para o bidê, queria lavar meus pés, mas para isso teria que tirar as meias. Atravessei o quarto, fui para a cozinha, abri o armário, lembrei que havia um resto de bolachas, estavam moles e quase mofadas, mas embora o verdinho provavelmente dê um gostinho a mais abri a gaveta, tirei uma faca, raspei o verdinho, engoli a bolacha, quase ia saindo até me dar conta de que havia jogado displicente as raspas encima da pia, peguei um clinex, abri a torneira, dei uma molhada, passei pelo mármore, abri a tampa do lixinho, joguei as raspas; quase ia saindo, já estava apagando as luzes, lembrei da faca, voltei, abri a gaveta, guardei-a, fui saindo, aí apaguei, aí resolvi, e pensei A faca deve estar suja do verdinho, ah que merda, pensei Foda-se, voltei para o quarto e aí lembrei que não tinha fechado direito a torneira do banheirinho. Fechei a torneira. Interrompi o fluxo de água inutilizada. Suspirei. Deitei na cama, não olhei para sua cara, tirei a cueca, o pau demorou a subir, o pau demorou muito a subir, eu sei que existe um viagra em algum canto dessa casa, levantei, abri a gaveta do criado-mudo, suspirei, fui até o escritório, por que diabos haveria um comprimido de viagra na mesa do escritório?, voltei, deitei, fiquei de costas por pelo menos uns dez minutos, quinze minutos, quase meia-hora, virei, fiquei por cima de você, fiz algum tipo de carícia no qual já estávamos até desacostumados, até ficamos meio surpresos, meu pau afinal ficou duro o mínimo suficiente para conseguir penetrar, mexi a bunda e a cintura o suficiente para tentar penetrar, você parecia nem querer perceber minha existência, não faço idéia se o que resultou foi uma gozada, mas afinal parei dei um tempo para ver se haveria prosseguimento, saí de cima, fiquei deitado, de esguelha percebi que seu rosto estava meio molhado, levantei, fui para o criado-mudo do seu lado da cama, encontrei um lenço de papel perfumado (tinha três caixas desse lenço, aliás!), estendi um pra você, não houve reação, acabei passando eu mesmo um pelo seu rosto. Suspirei, voltei a deitar, não quis apagar a luz da luminária japonesa.

 

 

 

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DIA DE FÚRIA

23 de setembro de 2012

 

A questão é que, de repente, a porra explode, a merda acontece. Assim. (se este texto for conectado com link interativo, você estará ouvindo agora um estalar de dedos).

Sem filosofias, sem falatório, nem sequer uma única razão, alguma desculpa. Somos feitos da mesma matéria que constitui os sonhos, com a mesma etereidade, o mesmo vácuo, idêntica subtaneidade. Culpa de ninguém, é simplesmente isso.

Douglas não pensa em nada disso (na verdade, ele nem pensa), mas explode. Sai do carro parado no trânsito de horário de rush na Avenida Rebouças de onde não se mexera dez metros na última meia-hora, piorada em cem vezes por conta do calor desgraçado; o suor escorre, empapa a camisa, o terno, nunca teve dinheiro pra carro com frescuras indispensáveis, como um ar-condicionado, teto-solar, barzinho com gelo. Antes de prosseguir, no entanto, é preciso esclarecer que Douglas não tem caráter violento, não provoca problemas, foge de brigas, nunca teve passagem na polícia; as pessoas, aliás, não percebem que ele existe. Portanto, se algum conhecido de Douglas (“amigo” talvez seja uma palavra muito forte) estivesse presente naquele momento e o observasse sair do carro, começar a uivar e gritar, a dar chutes, uma, duas, dez vezes na porta, pegar uma pedra do chão e estilhaçar o para-brisa, arrancar o espelho retrovisor esquerdo e pisar até pulverizá-lo,… bom, o mais provável é que este conhecido ficasse um tanto surpreso com a cena. Um pouco espantado também e, talvez, meio indignado: certas pessoas deveriam se ater a sua posição e não sair destruindo seus próprios carros desse jeito.

Digamos, portanto, que Douglas não esteja muito interessado em respeitar convenções sociais. O que ele quer é pegar sua pasta executiva no banco de trás, aproveitar para dar mais um chute, e lembrar de dar um sorriso cínico para o conhecido ausente.

Agora, preste atenção, pois não vou repetir a seqüência. Neste caso, é uma confluência de três elementos, além deste nosso personagem nervosinho: dois ladrões e um policial se aproximam. Os três tinham assistido a saída dele do carro, mas nenhum deles tinha se visto. Entende a situação? O instante em que o moleque de quatorze anos e o de quinze se chegaram pro baixinho, achando moleza pegar o dinheiro, o relógio e o terno daquele maluco, se trombaram e começaram a brigar entre si, foi o MESMO instante em que o Dinerval apareceu, empunhou o revólver, gritou ‘Polícia’ e os enquadrou, no ato em flagrante. Todo contente, à noite, depois de comer a namorada e jantar na casa dos pais, deitar satisfeito com a vida e com o dia, só então Dinerval lembrou do babaca estranho que fugiu no meio do engarrafamento.

A briga teve o dom de assustar Douglas que até pensou em voltar para o carro. Sua mente teve a meia-volta interrompida ao perceber que um deles tinha deixado cair um canivete. Desse modo, o mesmo Douglas que nunca teve coragem sequer de dar um chute naquele gato chato da vizinha que insistia em mijar todo dia no canto do seu quarto, agora estava armado. Ele podia se defender. Ele podia até atacar. Podia, quem sabe, matar o gato. Ou a vizinha.

ATENÇÃO!

ATENÇÃO!, pois este é o busílis em si, toda a merda cósmica em pura ação, como já disse um Sir Howard-Thomas Spencer em tempos idos. Pois na próxima esquina Douglas vai conseguir, da mesma forma inconsistente, um revólver 38 niquelado de coleção particular e não vai saber o que fazer com ele, sem balas. Uma hora mais tarde, vai sobrar uma escopeta militar com cano serrado e uma Mauser israelense com pouquíssimo uso. Vai terminar a noite com mais uma metralhadora e mais dois 38. Não terá matado ninguém, não terá destruído qualquer propriedade, não terá magoado nenhum membro do Exército da Salvação. Nada, nada.

Vai se humilhar para conseguir o carro de volta, continuará a ser maltratado pelos colegas de serviço, esnobado pela Darlene, chateado e mijado pelo gato da vizinha, mas estará armado! Impressionantemente armado.

Pra você ver como são as coisas.

“Desconcerto”

contos de Claudinei Vieira

editora Demônio Negro

DUAS VIAS, de Yara Camillo

3 de julho de 2012


Ele abriu a porta do carro para que ela entrasse.
– A velhice dando passagem à juventude?
– Não: a sabedoria dando vez à pretensão.
Riram. Era uma brincadeira antiga, da época em que se conheceram: ela, preparando a tese. Ele, o orientador que não chegou a sê-lo… A relação aconteceu e, de comum acordo, decidiram que ela procuraria outro professor. Nem por isso a pressão foi menor. Em muitos olhares, o imediatismo rotulava, sem sursis: veterano-estende-as-asas-sobre-a-novata. E poderia ter sido pior; tivesse a “vítima” alguns anos a menos e o crime estaria consumado, não se podia brincar com essas coisas.
– A maré do politicamente correto extrapolou, afrontando os limites do bom senso – dizia ele. – Facilite… E até Lolita e Morte em Veneza acabarão queimados em praça pública.
– Não exagere – dizia ela.
Ele ria:
– E a lei contra os Adônis que enfeitiçam os velhinhos? Deveria existir uma, não?
Ela ria:
– E qual seria o nome desse crime… Gerofilia?
– Sim… Muito próprio. – E ele improvisava a premissa: – Não gerofile, para não ser pedofilado.
– Proponha esta na próxima reunião e estaremos condenados em duas vias, sem direito a habeas corpus.
– Falando em habeas…
– Falando em corpus…
A brincadeira se repetiu ao longo dos anos, mesmo depois de perder a graça; ela, mais que ele, chamava o riso como tábua de salvação, como refúgio das crises que também se repetiam, indefinidamente.
Passado o espanto geral, que de roldão consumira também certos encantos, as coisas começaram a se acomodar. Ninguém mais estranhava a parceria, nem a ironia que permeava o enredo natural daquele amor: ela, já não bastasse os muitos anos a menos, aparentava ser tão menina… Para entrar no cinema, só mostrando Identidade que provasse ao menos dezoito, dos vinte e três já completos. Ele, em contrapartida, já aos dezesseis se passava por “maior”, nos bailes e cinemas da cidade interiorana onde nascera. Cabelos precocemente grisalhos e o sagrado costume da cerveja completavam o quadro, adiantavam o tempo e, aos olhares alheios, alongavam mais ainda a distância entre os dois.
O tempo. O curso. Da universidade e das coisas. E a tese, que não saía nunca.
– Se você não pode ser meu orientador, então não quero mais ninguém – ela dizia. E se por algum tempo esse argumento surtiu efeito, foi também se desgastando, como tudo, como um todo.
– Não era isso – ela confessou, numa das raras noites de cerveja que conseguiram a sós, porque a universidade era um mundo que se estendia para além do campus, até o bar, até a casa, até os amigos e tantas horas compartilhadas. – A Dança seria o princípio e, a Geografia, o meio… Sabe? O meio pelo qual a Dança viria a acontecer, sem as amarras das concessões profissionais necessárias à sobrevivência. Mas tudo virou do avesso, a Geografia se espalha e não faço outra coisa a não ser projetos.
– Não há lugar para dois, com a Geografia. Ou é ela ou é ela, se é que você me entende, e eu às vezes acho que não.
– Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no tempo e no espaço? Nunca, dirá você.
– Nunca, tu o disseste.
– “Salvo quando se amam”, disse o poeta. E se essa verdade não pode harmonizar a Dança e a Geografia, então quero nascer de novo.
– Você já nasceu tantas vezes, lembra… Ou não, não mais?
Ela fechou os olhos, fazia isso quando sentia dor ou acusava o golpe, claro, quantas vezes não dissera “acho que nasci de novo”, depois do amor?
Foi naquele amanhecer que os dois se descobriram de partida, ele para o campus, de corpo e alma, porque aquela era mesmo sua vida, sua escolha, desde antes dela e, com um pouco de sorte, também depois dela – embora no momento ele não soubesse, não tivesse a menor ideia de como faria para sobreviver àquela ausência. E ela enfim para a dança, habeas corpus, habeas anima. Ele, que não acreditava em deuses, acabou maldizendo os desígnios que deram a ela uma bolsa, no ano seguinte, para um estágio fora do país.
Encontraram-se uma vez, na Europa, mas aquela não valeu: ela estava embriagada demais com a liberdade e ele embriagado demais com a alegria de revê-la.
Agora, anos depois, um novo reencontro: ele gostou de achá-la, ainda, bela. Gostou de gostar de vê-la, embora a dor.
– Você ficou bem famoso – ela brincou, recurso que sempre usava para driblar o embaraço. – Ouvi falar, por aí.
– E você?
– Como? Você não ouviu falar de mim?
Ele ficou sério, um segundo antes do riso. Ela riu, também, e tudo foi como antes, por um instante.
– Você está dançando?
– Às vezes.
– O que houve?
– O de sempre. Não sou articulada, não me relaciono com as pessoas “certas”, não me enquadro muito nas coisas. – E imitou o tom de voz que ele usava, quando queria ser categórico: – Se é que você me entende, e eu acho que não.
Ele riu, de novo, agora sem muita vontade. Ela continuou:
– Mas eu tinha que ver, não é? Eu precisava ir. E fui bem, por uns tempos… E “ir bem”, ainda que por uns tempos, deixa um gosto de “sempre”, quando se trata de Arte.
– Isso me lembra aquela sua velha máxima: “A Arte acima de tudo.”
– Não – ela responde. E ele vê nisso algo de novo. – Não existe acima, nem medida alguma, nesses casos. Só uma sensação de que as coisas têm um sentido.
– Isso você podia ter…
– Você podia. Não eu.
– Então, perdemos uma geógrafa brilhante… para uma bailarina…
– Apenas razoável?
– Eu não disse isso.
– Claro que disse. Mas não faz mal.
– Escute, ainda dá tempo.
– Tempo do que, meu amor?
– Esse “meu amor” me pegou de surpresa.
– O que prova que você continua o mesmo… Surpreendendo-se com o óbvio e olhando com cara de velho para o que é realmente novo. Agora me leve daqui para um lugar mais decente, onde se possa tomar um bom vinho.
– Você também não mudou. E isso, não sei por que, me faz bem.
– Não era o que você dizia.
– Não era o que você pedia.
Ele abre a porta do carro, ela sorri:
– A velhice dando vez à juventude?
– Não, o cansaço dando lugar a algo que não quero definir agora.
– E quem disse que é preciso definir?
– Temes definhar ao definir?
– Idiota! – Ela ri. – O fim vai chegar, para nós. Para todos nós. Mas não hoje.
– Você não vai acreditar, mas isso, para mim, já é alguma coisa.
“Acredito”, ela quis dizer, mas achou que não seria preciso.

Yara Camillo

 

 

[orgulho e prazer de publicar aqui em terras desconcérteis um texto tão lindo e sedutor da querida e magnífica escritora Yara Camillo]

 

 

A litle thing called love

25 de abril de 2012

 

Até que foi interessante. Tava de bobeira na vida, ela chegou, passo duro, cabelo sobre os olhos, bafo de vodca barata, puxou-me pelo colarinho e disse: – vá se foder. Foi lindo! Ali mesmo nos agarramos e rolamos pelo chão da avenida ipiranga e continuamos a rolar até a júlioprestes, quando então paramos para retomar o fôlego e fugir do carro da pm. No entanto, parece mentira, demoramos muito até transarmos pela primeira vez, ela não queria nada convencional, havia de ser different, baby, different, clean, sem neuras, algo fim-de-milênio, sabe meio matrix, mas sem esquecer um lado sério ou até cafona, podendo rolar um roquinho, uma bossa-nova, ou em caso de desespero, um xitãozinhoexororó mesmo. Perdemos a paciência no meio de um almoço na liberdade. Cutucando os pauzinhos, ela gritou Ah, Chega Dessa Babaquice ou coisa assim, tiramos a roupa e trepamos, o suor e o esperma se misturando com os sushis e os saquês e os peixes crus e essa merda toda.

Ah, meu deus, se deus existisse e existisse um paraíso este seriam os cinco minutos finais daquela foda.

Trepamos muitas outras vezes, creio que em toda são paulo tem uma
marquinha nossa; naquela primeira, pagamos os prejuízos, fomos presos e sofremos processo. Porém, e daí? Nunca mais tivemos aquela sensação.

Quando ela foi embora, natural: brigamos, xingamos, nos batemos, choramos, fizemos amor, ela arrumou as malas e sumiu. Ligou para mim de nova iorque a cobrar alguns meses depois, sua voz tremia de medo, falou durante três horas, disse que estava fugindo da vida, não a compreendia mais, e o culpado de tudo era eu. O que eu podia fazer? Aproveitei e me masturbei enquanto ela reclamava. Bateu o telefone na minha cara quando percebeu e agora estou assim: uma casca vazia perambulante pelas ruas paulistanas, desesperado para que ela volte.

Ou, pelo menos, ligue de novo.

 

 

 

 

 

Um banco no Parque Trianon

21 de março de 2012

Tarde ensolarada em São Paulo, Avenida Paulista. Isto é, quente, abafada e poluída. Barulho, sujeira e fumaça. Isto é, tudo dentro da mais absoluta normalidade. Pedro soube, portanto, que havia feito besteira de comer feijoada no almoço. Barriga pesada, ainda tinha alguns minutos antes de voltar, enxergou um banco amplo em frente ao Parque Trianon, um oásis inesperado, estava vazio, debaixo de algumas árvores que sobravam por cima do parque, não se ligou na absurda impossibilidade daquele banco. Porque, além, tudo correto, a feirinha hippie, os camelôs, os passantes, o chinês do yakissoba aproveitando a ausência do rapa.

Sentou, respirou aliviado, a sombra era mais fresca do que imaginara, tirou a garrafinha de água já não mais gelada, pensou no serviço a ser completado, pensou em sua namorada que trabalhava no mesmo ramo mas em outra empresa no lado oposto da cidade, pensou que teriam que desmarcar o encontro do final-de-semana, ambos trabalhavam, pensou no serviço farto a sua espera, pensou em sua mãe (!), e um tanto de preocupação para que terminasse logo aquela marcha-dos-estudantes-contra-o-aumento-da-passagem-do-ônibus pois ainda teria que visitar um cliente no final da tarde. Dispôs-se, afinal, a levantar e encarar o escritório quando percebeu que não estava sozinho.

Um senhor careca, mirrado, terno, calça, gravata, impecáveis, limpérrimas e até pareciam … lisas demais, muito retas (Pedro estava querendo dizer para si mesmo que as roupas do seu agora-companheiro-de-banco estavam Engomadas. Mas como nem conhecia esta palavra, então não se disse nada). Aquele senhor lia um jornal, e era bem empertigado, coluna ereta, cabeça levantada, os sapatos (estava esquecendo dos sapatos) brilhavam de graxa, e era muito … careca, quer dizer, sobressaía, nem era uma questão de idade, pois não tão velho assim, um crânio moreno bem chamativo. Havia até mesmo uma certa aura de ridículo a sua volta, embora se identificasse também uma certa dignidade.

Enquanto virava a página do jornal, o velho voltou-se para ele e disse:

– Como vai, Pedro?

Ótimo! Além de ter sido pego no embaraço flagrante de olhar direto na cabeça do outro, Pedro ainda se viu mais uma vez naquela maldita situação de ser cumprimentado por alguém que não tinha menor idéia quem fosse. E, apesar de se orgulhar de uma perfeita memória visual (‘fotográfica. nunca esqueço um rosto, mesmo que não lembre do nome’), neste caso não houve nenhum tipo de lembrança. Ficou sem saber o que responder, e deve ter transparecido, pois o senhor disse, agora com um sorrisinho simpático:

– Não se preocupe.

Certo. Não se preocuparia, então, Pedro. Estava tudo bem. Definitivamente, um ‘não se preocupe’ era a última coisa que esperava ouvir. Olhou para um lado para o outro, olhou para o senhor, que voltara a ler o jornal, sem parecer que estivesse perturbado. Por que estaria?

– Desculpe, com licença – os olhos daquele cara eram de uma surpreendente fixidez – Eu … não lembro de onde nos conhecemos. Foi daqui da cidade mesmo?

O velho (afinal de contas, tinha muito mais idade do que parecera a princípio) pausou um instante, abaixou o jornal e disse:

– Você trabalha naquela agência de publicidade com um nome italiano. Mazzuchero, Mazzuchiro… – não foi uma pergunta.

– MAZZUCHARO. Sim, é isso mesmo.

– Então.

Foi um ‘então’ explicativo, que se pretendia definitivo. Continuou mantendo o olhar fixo até Pedro murmurar um baixinho “ah, sim” e retomou ao jornal. Pedro começou a se sentir meio incomodado. Algo não estava certo, não senhor, não estava. Quem sabe, um início de azia. Ele preparou uma palavra de despedida, mas antes que se levantasse, o velho falou olhando para o outro lado da rua:

– Que garoto besta!

Pedro olhou também, mas não enxergou nada. Isto é, viu muita gente, muita coisa, nada chamou sua atenção. Levantou-se sem dizer nada, um tanto embaraçado, tentou de novo falar um adeus, de repente na outra calçada um tumulto. Pelo que pôde entender, um trombadinha agarrara a bolsa de uma mulher e saiu correndo. E viu a ‘besteira’: logo na esquina, três passos de distãncia, um par de pms, puro azar, desleixo, falta de atenção do pivete.

– O pior é que não tinha nada de valor naquela bolsa.

Nisso, Pedro teve que sorrir. O velhinho tava zoando da cara dele, querendo convencê-lo de que estava adivinhando as coisas. Era algum truque. Pegadinha. Tinha que ir embora.

– Tenho que ir embora. Voltar para o serviço. Prazer… ver o senhor, hein. Cuide-se, hein.

– Cuidado pra atravessar a rua.

Agora não teve vergonha de escancarar o sorriso.

– Sem dúvida. Tomarei cuidado, sim. A gente se vê.

O velho não respondeu, entretido. Pedro parou no semáforo, olhou para trás, o olhar fixo de novo, fez um gesto com a mão, um tipo de aceno, sem resposta. Aí, a questão pegou Pedro de vez. Há muitos anos não havia bancos de sentar em frente ao Trianon nem ao longo da Avenida Paulista, pois os mendigos acabavam usando-os como cama ou mini-casa. Apertou os olhos: até onde viu, dos dois lados, continuava não tendo mais nenhum outro banco. Somente aquele único.

O sol a pino, a feijoada pesava, o trabalho acumulava e o esperava, nunca atravessou a rua com tamanha atenção em toda a sua vida, voltou-se na calçada, o velho empertigado-demais ainda o olhava, sentado em um banco que não poderia existir.

ilustração de Wilson Neves

Merry Christmas, Mr. Reed

18 de fevereiro de 2012

 

Tava assim tipo bundando na vida (em verdade, fazia algo muito sério: relia pela 67a vez o Sandman Prelúdios e Noturnos da Conrad, um clássico clássico), quando me liga um amigo (um ‘conhecido’ digamos assim, um cara que até gosta de algumas coisas que escrevo, mas com algumas opiniões e classe social muito diferentes, o que impede uma verdadeira amizade) (em verdade, o cara é quase um mala, mas de vez em quando me paga umas cervejas, então tudo bem), me perguntando se eu não queria conhecer o Lou Reed. Fiquei alguns segundos tentando entender a pergunta. Ora, eu conheço o Lou Reed!, tenho vários discos (cds e bolachas) e se não possuo a discografia completa é por absoluta falta de desenvolvimento econômico individual apropriado. Foi o que disse a ele. A resposta foi em um tom impaciente. Não, Claudinei, CONHECER mesmo, a figura está na minha casa neste momento, tenho que fazer sala pro cara, e sei que você gosta dele (acho que eu o tinha citado em uma resenha sobre um livro do Mário Bortolloto); mas tem que vir agora, pois está indo embora hoje mesmo, no final da tarde. Percebi que era algum tipo de brincadeira (embora vindo dele fosse meio estranho) e foi o que disse. A resposta foi mais impaciente (pelo visto, detestava que duvidassem de sua palavra). Pelo que entendi, Reed estava em surdina no Brasil, tomando conta de alguns detalhes burocráticos / sócio / culturais/ econômicos com sua gravadora, e o seu irmão (do meu amigo) era uma espécie de produtor musical (no mínimo, conhecia um mundo de gente do meio) e tinha oferecido sua casa para o roqueiro descansar antes da viagem de volta. Em verdade, eu nem ouvia mais, pois estava ficando nervoso: a coisa parecia ser real e a simples possibilidade de me encontrar face a face com Lou Reed (LOU REED!) fazia minhas pernas bambearem. Tá bom, tá bom, eu te ajudo a fazer sala.

Nem me troquei, meia-hora depois já tinha chegado. Só para ter uma idéia da casa: tem duas salas de jogos (!), uma só para abrigar uma enorme mesa oficial de bilhar. E ninguém naquela família joga bilhar…

E ali estava ele, estirado em uma poltrona, folheando uma revista, com uma cara de tédio mortal. O cabelo esquisitíssimo, cortado muito curto, realçava o rosto marcado por rugas profundas, deixando-o muito mais velho do que eu imaginava (uma enorme besteira minha, eu sei). Na mesinha do lado, um copo alto do que parecia ser vodca com gelo, mas que, por alguma razão, tive certeza absoluta de ser somente água gelada. Em outra poltrona, um homem mirrado, de terno, que nunca soube quem é, quase cochilava. Meu amigo falou alguma frase indistinguível e saiu, me deixando sozinho, de pé, no meio do aposento. Reed me olhou de lado, fez um rápido aceno de cabeça e voltou para a revista.

But, and then…

E aí?

O que se fala para um ídolo que, de repente, se materializa na sua frente? Como dizer da importância que sua música teve em sua formação de adolescente, na sua visão de mundo, no seu jeito de ser e pensar? Como dizer Sim, eu sei que você é um ser humano normal, de carne osso e guitarra, que vomita e vai ao banheiro como todo mundo, mas, porra, escreve e canta uma música fenomenal que influencia metade do planeta (a outra metade é surda e / ou ignorante)? E, talvez mais importante ainda: o que dizer que ele ainda não tivesse ouvido um milhão de vezes antes? E pior, considerando-se meu péssimo portinglês, sairia quanto muito um “hey, man, how are you?”.

Sentei, peguei outra revista e fiquei folheando.

Durante duas horas ficamos folheando revistas.

O homenzinho feio acordou, levantou, olhou para o relógio, atendeu o celular, falou algo, Reed levantou, perguntou algo, foi respondido, encaminhou-se na minha direção, apertou minha mão e disse Merry Christmas.

Balbuciei qualquer coisa e fiquei pensando: “Merry Christmas?!” Bom, o que eu esperava? Que começasse a recitar no meu ouvido hey baby, take a walk on the wild side ou what’s your style, how you get your kicks for li-ving?, ou (quem sabe, o mais provável) when I watch you come, baby, I just want to run far away? Eu os acompanhei até a porta, do lado de fora o táxi aguardava, não havia ninguém alem de mim, mas Reed não demonstrava nem surpresa nem desagrado. Antes de entrar no carro, outro Merry Christmas, e eu ainda estava tentando um Merr… quando partiram. Nenhum empregado, nenhuma pessoa, nem mesmo meu amigo, apareceu. Fechei a porta e fui embora.

Talvez eu devesse ficar feliz. Talvez devesse considerar a coisa toda como especial. Sei lá. Folheei revistas, nem lembro quais eram, e fechei a porta. The door is closed. The story is finished. E esta crônica.

 

conto de natal do livro ‘Desconcerto’, editora Demônio Negro

 

 

Suckers

30 de novembro de 2011

O martelo desce, bate, esmaga, quebra. O som não se propaga, envolve os corpos como mortalha suarenta, não responde os gritos. Tão pronto quanto a certeza do martelo, o esquecimento inicia-se, espalha-se pela parede e pelos joelhos, penetra na fina e fria coluna de água corrente, desemboca em um buraco de esgoto qualquer.

 

O que sobra é uma simples linha de desprezo.

 

 

 

 

(ilustração de Hijak Skank)

 

 

 

 

capa

2 de outubro de 2008

 

Pois saiba-se. Será o lançamento no dia 01 de novembro. No Sebo do Bac. Praça Roosevelt. Um evento. Prepare-se.

FINAL DE TARDE, PRAÇA DO CORREIO

29 de maio de 2008

Ao Charles

 

Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida.

Sônia considerou as razões pelas quais tudo dava errado e concluiu que eram todas. Era assim. Vida besta desde o nascimento. Cota comum de pais recalcados, ignorantes e opressores, namorados estúpidos e violentos, empregos insípidos e sem futuro. Igual, um patrão/galinha/obsceno. Seu casamento durara exatos um ano e dois meses: o tempo suficiente para  ficar grávida e descobrir que seu marido mantinha outra família desde antes ainda. Mulher e três filhos! E foi Sônia a pagar a maior parte das despesas da cerimônia e da festa. Mulher e três filhos! Isto é, nada fora do normal. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Desavergonhada. Moça  da vida. Vaca.

Sua mãe dizia Culpa Dela, protegia seu ex-marido e lhe dava razão, tratava-o como injustiçado. Seu pai adorava a situação, demonstrava o quanto seus filhos eram idiotas e tapados. Maior orgulho chegar pros amigos do bar Viu Como Aquele Desgraçado Se Fodeu? É Meu Filho O Peste e gargalhava de gosto. E era Sônia a colocar dinheiro em casa, única com salário fixo, fosse lá! contar com a aposentadoria dos velhos ou a displicência dos irmãos. Puta semvergonha.

A cabeça rodava, não entendia as risadas. Não havia nada dentro da bolsa. Nada de importante. Nem originais os documentos, xerox autenticada. Marmita suja que não tivera tempo de lavar, horário da loja muito rígido. Dinheiro … ridículo, moedas miúdas, troco pra passagem (dia de pagamento nem mesmo passava pelo Caixa, tudo já comprometido), uma nota falsa de um dólar, passe de ônibus acabara (seu irmão mais velho roubava da bolsa).

Carregava um gravador. Coisas da vida, amiga trouxera de presente. Rádio-gravador velho antigo parecia deslocar o ombro. Em tempos de cd, valia mais jogar fora, mas e coragem? Nem. Adiou dias para levar pra casa, sabia da trabalheira, do cansaço. Atravancava o armário pequeno, fazia volume, tirava do uniforme. Resolveu leva-lo.

Foi o que atrapalhou o trombadinha (´trombadinha´ de uns, sei lá, metro e oitenta): subestimou o peso. O instinto de Sônia agarrou a bolsa, foram parar os três no chão. Bateu a cabeça, tentou levantar, as pernas não obedeceram, como quebrado o ombro por martelo, a dor subia e descia dos pés á cabeça, o desespero e o medo não a deixaram gritar. Nem não precisava gritar, estavam na Praça do Correio horário do rush (fila do Jardim Irene tinha quatro). Gente não faltava. Mas gente não se movia, não falava, começou, inclusive, a rir da posição ridícula da queda.

Trombada sondou terreno, se sentiu com moral, tomou respeito, ficou com ares de ofendido. O Que Ela Pensava Que Era. Sônia não entendia mais nada, as risadas aumentavam. Ela sabia o que tinha que fazer: deixar rolar, largar a bolsa, engolir o fel, voltar chorando pra casa. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida.

Levantou. Estou Ficando Zangado, Tem Medo de Morrer Não?  Passou a bolsa para o outro ombro. Desinfeta, Vadia! A alça caiu, segurou com a mão. Pegou do braço dolorido, sem precisão, pura maldade. Sônia É Isso? Toma! Girou a bolsa. Ouviu dois sons perfeitamente distintos, a cabeça do malandro quebrando com um ruído abafado. E ouviu! o sangue colando no couro.

Perplexa, entrou no ônibus sem olhar para trás, mãos trêmulas quase perderam a moeda da passagem, o cobrador olhar esquisito Não Tem Troco, sentou no banco também estranho e sorriu. Tinha certeza absoluta de que quando abrisse a bolsa, o gravador não teria soltado nenhuma peça. Era antigo, daqueles pesados.

A Velha

25 de maio de 2008

O caminho mais curto para a escola onde estudei o primário era uma picada no meio do mato, uma trilha que precisava ser desbastada volta e meia, pois o mato era persistente e teimoso. Chegou o momento, é claro, que a picada virou rua livre e os problemas foram outros (o principal, o lamaçal que se formava quando chovia) e chegou até a ser asfaltado (mas isso foram outros tempos).

A casa da velha ficava no exato ponto onde terminava o mato e começava a ‘rua’. Era branca, um portãozinho pequeno, uma cerca baixa de madeirinhas entrecruzadas, uma escada de poucos degraus e uma varanda. Ela sentava-se na varanda e observava os passantes. Sei que, em duas ou três ocasiões, um senhor gordo de bigode apareceu, com toda pinta de filho ou neto; nunca mais vi outra pessoa ao seu lado. Para mim, para minha cabeça de criança que não se tocava na época em nenhum desses detalhes, a casa (vazia) e a velha (sozinha) eram uma única unidade, e minha indiferença infantil só mudou depois daquele dia.

Voltava da escola e, pela primeiríssima vez, a vi se mexer e falar. Me chamava; acenava com a mão. Parei, indeciso. A curiosidade foi maior. Claro. Abri o portãozinho, passei pela cerca, subi os cinco degraus. Ela perguntou se eu estudava. Respondi que sim. Foi a única frase inteligível que fez e que eu realmente entendi. Continuou falando, um resmungado, palavras soltas. Sua boca não se abria muito, mas evidenciava a falta dos dentes. Apalpava meu ombro e o braço; meu corpo rígido, desconfortado, não relaxou. Após agüentar mais uns minutos da algaravia, meu estômago beirava à ânsia, dei um tchau ríspido e temeroso e saí quase correndo.

Durante meses, preferi ir para escola pelo outro caminho mais longo, sem mato e sem casinhas e velhas brancas. E, mesmo quando voltei a utilizar a trilha, passava rapidamente, sem olhar para os lados. Em verdade, no entanto, não lembro de tê-la visto nunca mais na minha vida (O que parece ser um tanto difícil; a não ser que ela tenha morrido logo depois dessa cena, devemos termos nos cruzados em alguma ocasião. Mas, se tal aconteceu, minha memória apagou.)

Minha mente retorna àquela casinha, às vezes. Ao crescer (e ao sentir em mim os mesmos efeitos), entendo e reconheço agora os gestos, os modos e a fala da velha: ela estava bêbada.

Sou um rapaz urbano, criado em bairro de periferia distante meia hora do centro da cidade. A palavra “Natureza” era sinônimo de Mato Que Precisa Ser Cortado Para Nos Dar Caminho. “Casinha Branca” nunca me trouxe sensações agradáveis ou idílicas. E por muito, muito tempo, a imagem que representou e simbolizou a “Velhice” para mim foi essa: uma mulher cansada, banguela e bêbada, exalando solidão.

Um banco no Parque Trianon

12 de maio de 2008

Tarde ensolarada em São Paulo, Avenida Paulista. Isto é, quente, abafada e poluída. Barulho, sujeira e fumaça. Isto é, tudo dentro da mais absoluta normalidade. Pedro soube, portanto, que havia feito besteira de comer feijoada no almoço. Barriga pesada, ainda tinha alguns minutos antes de voltar, enxergou um banco amplo em frente ao Parque Trianon, um oásis inesperado, estava vazio, debaixo de algumas árvores que sobravam por cima do parque, não se ligou na absurda impossibilidade daquele banco. Porque, além, tudo correto, a feirinha hippie, os camelôs, os passantes, o chinês do yakissoba aproveitando a ausência do rapa.
Sentou, respirou aliviado, a sombra era mais fresca do que imaginara, tirou a garrafinha de água já não mais gelada, pensou no serviço a ser completado, pensou em sua namorada que trabalhava no mesmo ramo mas em outra empresa no lado oposto da cidade, pensou que teriam que desmarcar o encontro do final-de-semana, ambos trabalhavam, pensou no serviço farto a sua espera, pensou em sua mãe (…), e um tanto de preocupação para que terminasse logo aquela marcha-dos-estudantes-contra-o-aumento-da-passagem-do-ônibus pois ainda teria que visitar um cliente no final da tarde. Dispôs-se, afinal, a levantar e encarar o escritório quando percebeu que não estava sozinho.
Um senhor careca, mirrado, terno, calça, gravata, impecáveis, limpérrimas e até pareciam … lisas demais, muito retas (Pedro estava querendo dizer para si mesmo que as roupas do seu agora-companheiro-de-banco estavam Engomadas. Mas como nem conhecia esta palavra, então não se disse nada). Aquele senhor lia um jornal, e era bem empertigado, coluna ereta, cabeça levantada, os sapatos (estava esquecendo dos sapatos) brilhavam de graxa, e era muito … careca, quer dizer, sobressaía, nem era uma questão de idade, pois não tão velho assim, um crânio moreno bem chamativo. Havia até mesmo uma certa aura de ridículo a sua volta, embora se identificasse também uma certa dignidade.
Enquanto virava a página do jornal, o velho voltou-se para ele e disse:
– Como vai, Pedro?
Ótimo! Além de ter sido pego no embaraço flagrante de olhar direto na cabeça do outro, Pedro ainda se viu mais uma vez naquela maldita situação de ser cumprimentado por alguém que não tinha menor idéia quem fosse. E, apesar de se orgulhar de uma perfeita memória visual (‘fotográfica. nunca esqueço um rosto, mesmo que não lembre do nome’), neste caso não houve nenhum tipo de lembrança. Ficou sem saber o que responder, e deve ter transparecido, pois o senhor disse, agora com um sorrisinho simpático:
– Não se preocupe.
Certo. Não se preocuparia, então, Pedro. Estava tudo bem. Definitivamente, um ‘não se preocupe’ era a última coisa que esperava ouvir. Olhou para um lado para o outro, olhou para o senhor, que voltara a ler o jornal, sem parecer que estivesse perturbado. Por que estaria?
– Desculpe, com licença – os olhos daquele cara eram de uma surpreendente fixidez – Eu … não lembro de onde nos conhecemos. Foi daqui da cidade mesmo?
O velho (afinal de contas, tinha muito mais idade do que parecera a princípio) pausou um instante, abaixou o jornal e disse:
– Você trabalha naquela agência de publicidade com um nome italiano. Mazzuchero, Mazzuchiro… – não foi uma pergunta.
– MAZZUCHARO. Sim, é isso mesmo.
– Então.
Foi um ‘então’ explicativo, que se pretendia definitivo. Continuou mantendo o olhar fixo até Pedro murmurar um baixinho “ah, sim” e retomou ao jornal. Pedro começou a se sentir meio incomodado. Algo não estava certo, não senhor, não estava. Quem sabe, um início de azia. Ele preparou uma palavra de despedida, mas antes que se levantasse, o velho falou olhando para o outro lado da rua:
– Que garoto besta!
Pedro olhou também, mas não enxergou nada. Isto é, viu muita gente, muita coisa, nada chamou sua atenção. Levantou-se sem dizer nada, um tanto embaraçado, tentou falar sua famosa palavra de adeus, de repente na outra calçada um tumulto. Pelo que pôde entender, um trombadinha agarrara a bolsa de uma mulher e saiu correndo. E viu a ‘besteira’: logo na esquina, três passos de distãncia, um par de pms, puro azar, desleixo, falta de atenção do pivete.
– O pior é que não tinha nada de valor naquela bolsa.
Nisso, Pedro teve que sorrir. O velhinho tava zoando da cara dele, querendo convencê-lo de que estava adivinhando as coisas. Era algum truque. Pegadinha. Tinha que ir embora.
– Tenho que ir embora. Voltar para o serviço. Prazer… ver o senhor, hein. Cuide-se, hein.
– Cuidado pra atravessar a rua.
O sorriso agora estava escancarado.
– Sem dúvida. Tomarei cuidado, sim. A gente se vê.
O velho não respondeu, entretido. Pedro parou no semáforo, olhou para trás, o olhar fixo de novo, fez um gesto com a mão, um tipo de aceno, sem resposta. Aí, a questão pegou Pedro de vez. Há muitos anos não havia bancos de sentar em frente ao Trianon nem ao longo da Avenida Paulista, pois os mendigos acabavam usando-os como cama ou mini-casa. Apertou os olhos: até onde viu, dos dois lados, continuava não tendo mais nenhum outro banco. Somente aquele único. O sol a pino, a feijoada pesava, o trabalho acumulava e o esperava, nunca atravessou a rua com tamanha atenção em toda a sua vida, voltou-se na calçada, o velho empertigado-demais ainda o olhava, sentado em um banco que não poderia existir.

ilustração de Wilson Neves