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Groucho and Marilyn

10 de julho de 2014

de repente, em um dos fios da vida, uma linha se enrosca com outras, mesmo que por alguns segundos.
Aqui, Groucho Marx em “Love Happy”, um dos seus últimos filmes para o cinema, já tendo realizado os seus filmes mais importantes (daí para frente, faria somente aparições esporádicas em trabalhos menores e programas de televisão). E Marilyn, em uma ponta rápida como (adivinhem) uma loura fatal, ainda alguns anos antes de estourar como A Marilyn Monroe.
“Love Happy” (‘Loucos de Amor’, no Brasil) é ruim, final de carreira melancólico para Groucho, e um começo de carreira não muito promissor para Marilyn. Mas, para nós, que sabemos o que advirá, é repleto de significados que o contemporâneos, obviamente, não poderiam adivinhar.

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Revisitando ‘Histórias Cruzadas’: uma mentira bonitinha e hipócrita

8 de março de 2014

Estamos em tempos de ’12 anos de escravidão’, um filme com uma história pungente e real, dirigido e protagonizados por negros norte-americanos, ganhar Oscar de Melhor Filme, Atriz Coadjuvante e Roteiro Adaptado. Não o de Melhor Direção, o que pode parecer uma contradição bizarra, mas se pensarmos bem, é típica do Oscar: afinal, como Melhor Filme, o prêmio vai para os produtores, entre os quais Brad Pitt, sem cuja 12yearsaslave1participação o filme não teria sido realizado (ou, se produzido, não teria tido o mesmo espaço e consideração). De qualquer forma, o impacto de ’12 anos de escravidão’ foi de tal forma, que agora a obra original e o próprio filme serão distribuídos pelos Estados Unidos como material didático (e essa decisão foi tomada antes da distribuição dos prêmios, o que tornou impossível a Academia de Artes e Cinema ignorá-lo).

Há muito tempo atrás, em 2012!, estávamos na época de ‘Histórias Cruzadas’ (The Help). O meu texto enfatizava a minha falta de paciência com mais um exemplar de filme realizado por brancos com pretensas simpatias pelo sofrimento e angústias dos negros e a a minha ainda maior estupefação por ver a quantidade de pessoas que caíam nessa armadilha e realmente consideravam que o filme era anti-racista. Acredito que meus argumentos ainda são válidos e pertinentes (pelo menos, eu ainda os mantenho), e podem ajudar a compreender o que acontece atualmente,  mas a discussão ficou mais rica com as discordâncias nos comentários,  a ponto de ‘Mayara Norberto’ sugerir que ela poderia ser incorporada ao próprio texto.

Interessante. Entre ‘Histórias Cruzadas’ e ’12 anos de escravidão’ há um pulo impressionante, de concepção e de recepção, em muito pouco tempo.  No entanto, talvez não estejam assim tão distantes, tão opostos, tão diferentes. No mínimo, vale a discussão. Por isso, segui a sugestão de Mayara, incorporei os comentários e minha resposta (mantendo os textos exatamente como foram escritos).

‘Histórias Cruzadas’: uma mentira bonitinha e hipócrita

Não estava com nenhum ânimo para discutir um filme que, apesar de sua pretensa imagem de crítica social e de denúncia do racismo norte-americano, em sua essência é na verdade tão racista e preconceituoso quanto o que diz revelar. Racismo liberal, condescendente, pretensioso, só que revestido e embrulhado em um pacote brilhante, lírico e quase infantil, de um tipo que Hollywood gosta muito de fazer vez em quando, pois ajuda a passar um talco cheirosinho, aplicar um verniz de civilidade em uma sociedade profundamente doente, moralista e hipócrita. E o público norte-americano adora, pois faz com que se sinta ‘crítico’ por meio de narrativas tolas, falsas e sem substância.

As histórias em si, obviamente, são reais, doloridas e sofridas; o substrato em que o filme se baseia é concreto. No entanto, o modo como isso é apresentado e como as situações são ‘resolvidas’ servem como forma de purgar o espectador de suas culpas e aliviar sua consciência: na prática, o resultado final (buscado e conquistado) é o de fazê-lo crer o quanto os ‘outros’ são malvados e preconceituosos e o quanto pode se identificar com os bonzinhos.

Eu estava para deixar passar. Mas então li há pouco um texto de quem gostou do filme (e até aí nada demais, cada um fique com seus próprios gostos) e fez uma defesa entusiasmada (igualmente, cada um é livre para se expressar) e levantou o pensamento de que ‘Histórias Cruzadas’ bem poderia passar em eventos do movimento negro, até mesmo na Semana da Consciência Negra, e aí se mostra que essa tal pessoa realmente não entendeu nada. Foi iludida pelo papel colorido do embrulho.

Vou destacar somente alguns poucos pontos, entre o que o filme mostra e pretende dizer, e o que realmente diz.

Sinopse rápida: Skeeter Phelan (Emma Stone) é uma jovem sulista que acaba a faculdade de jornalismo no meio da década de 60, no Mississipi, Estados Unidos, decidida a se tornar escritora. Volta para casa e começa a recolher histórias pessoais das empregadas (inevitavelmente negras e pobres) que são tão importantes na manutenção das casas e das famílias brancas de classe média e alta, da qual a própria Skeeter faz parte. Relutantes a princípio, as empregadas começam a se abrir, o que desencadeia uma série de eventos e mudanças na cidade e na mentalidade das pessoas.

Aparência 1: É um filme de mulheres, que discute suas condições na sociedade, brancas de um lado, negras do outro.

Não, não é. Não há mulheres de verdade aqui, somente estereótipos, personagens caricatos, bonecas sem profundidade. Tem a branca malvada, racista, preconceituosa, prepotente, ridícula e fútil. Tem a branca bonzinha, ingênua e bobinha, que um dia também foi fútil, mas agora deseja ampliar seus horizontes pessoais, que inicia um processo do qual não tinha consciência de sua amplitude e consequências, e vai se tornar uma pessoa ainda melhor. Tem a negra vivida, esperta e sólida, retraída e fechada, que possui a sabedoria do gueto e do racismo onipresente, e que dará lições de vida e moral para a branca inicialmente ingênua. Tem a negra burra e palhaça, encarregada das tiradas cômicas, que também sofre com o marido abusivo.

Aparência 2: É um filme que denuncia o racismo.

Não, não é. O que ele faz é, acima de tudo, ‘denunciar’ um racismo passado, histórico, que já aconteceu um dia. O espectador pode ficar tranquilo, pois todos esses horrores e iniquidades estão para se acabar, os movimentos dos direitos civis estão logo ali, os negros terão sua vez. E, de qualquer forma, o grande, o máximo, problema não é exatamente o Racismo institucional, mas os brancos (as mulheres brancas, no caso) malvados e diabólicos, que adoram pisar nas outras pessoas, principalmente se forem negras, pobres e analfabetas. As demais mulheres brancas racistas assim o são ou por ingenuidade (no fundo, têm bom coração que não podem expressar por conta das imposições da sociedade) ou ignorância (não sabem o quanto as negras são pessoas boas, em especial se forem Viola Davis), ou porque são fúteis.

E veja-se como acontece: é uma mulher branca que vai iniciar todo processo de conscientização geral; é a patroa branca que vai incentivar a empregada negra a peitar seu marido abusivo; é o ponto de vista feminino branco que vai nortear as principais linhas narrativas do filme, são suas histórias as mais importantes.

Aparência 3: É um filme corajoso, mesmo que simples, que provoca reflexão.

Não, não é. É uma fábula simplista, moralista e maniqueista onde as brancas malvadas são pessoas infelizes e limitadas (é o seu ‘castigo’, portanto) e as negras violas davis, através do seu sofrimento, serão recompensadas mais tarde, quando o racismo estiver ‘amainado’.

Aparência 4: as atrizes dão um show de interpretação e mereceram ser indicadas para Melhor Atriz, Viola Davis, e duas indicações para Melhor Atriz Coadjuvante: Jessica Chastain e Octavia Spencer.

Sim, é verdade. Viola está esplêndida, mesmo que não tenha nenhuma chance de ganhar em um ano carregado de interpretações maravilhosas. Em geral, o elenco está mesmo muito bom, até as mais caricatas, como Octavia Spencer (que falta somente revirar os olhos estilo Louis Armstrong para emular as caracterizações de personagens negras do começo do século passado), ou Bryce Dallas Howard, a vilã-mor, que faz caretas sensacionais. Emma Stone é bonitinha, não realiza nenhuma grande atuação, mas também não atrapalha.

A produção está muito boa, o cuidado com o figurino e a direção de arte é extremamente bem realizada (os detalhes com objetos de cena têm uns achados bem colocados, como garrafas de coca-cola, revistas da época). Fotografia simples, bem feita. A direção tem o mérito mínimo de manter o tom baixo, de narrativa contida (caso contrário, desbancaria fácil para um melodrama  mexicano de telenovela).

Aparência 5: vai ganhar o Oscar de Melhor Filme (mesmo porque foi um tremendo sucesso de bilheteria nos Estados Unidos)

Eu espero que não.

‘babi’ diz:

particularmente, gostei muito do filme e discordei de muitos pontos da tua análise. não sou do tipo que tem paciência pra polêmicas na internet, mas senti muita vontade de contar o que acho.

discordo da idéia de que o filme seja racista. assisti-lhe apenas uma vez e imagino que para fazer uma boa análise teria que fazer isso pelo menos mais umas duas vezes. não é a história de grandes líderes ou de grandes movimentos. é a história de uma moça que escreve um livro com a ajuda de duas empregadas domésticas sobre a situação delas e de outras no estado do mississipi, numa época em que a kkk assassinava negros, martin luther king embrenhava-se na luta pelos direitos civis, em que o presidente estadunidense sofria ofensas por ter posicionamentos contra o racismo. essas coisas são mencionadas no filme, mas não são o cerne dele. não é por isso, no entanto, que ele seria racista. pelo contrário, acha que a abordagem de mostrar de dentro da casa a perspectiva das empregadas não diz que o racismo foi superado, que está em tempos remotos. o tom pastel ameniza a estética, mas não ameniza o discurso. (ainda mais se pensarmos como esta estética é recorrente: se vemos coleções de grandes grifes, percebemos como parte das moças de hoje se vestem de florzinha, apelam para uma feminilidade e, sim, destratam outros seres humanos independentemente da ternura que suas aparências tentam traduzir)
também acho complicado dizer que o filme não é de mulheres e sim de caricaturas. a tinta carregada está em toda narrativa que opõe bem e mal e nem por isso achamos que as personagens não são minimamente verossímeis. não acho que nas escolhas da direção a personagem da emma stone se sobressaia. ela é a heroína, sem dúvida, no papel clássico de quem ultrapassará barreiras e será vitoriosa. chavão de cinema clássico. mas a sua história pessoal de superação está muito aquém das que relatam as empregadas domésticas. é igualmente difícil dizer que o filme não leva à reflexão; isso só se contássemos com reflexômetros no fim de cada sessão (ou pelo menos de suficiente para termos material de amostragem suficiente). não acho a personagem de octavia spencer o estereótipo de negra burra. pelo contrário, acho-a a mais espontânea e por isso a mais cativante. o tempo todo é destacado seu talento na cozinha e o que sofre dentro de casa. se sua filha sai da escola, não é porque a mãe subestima a educação; é para perpetuar a profissão que cabia àquelas mulheres. o paralelo com a escravidão é claro e destacado na fala de outra personagem.

o cinema hollywoodiano não foi feito para ser revolucionário, mas não é só de “eu, um negro” que se cria condições para reflexão numa sala de exibição. é preciso pensar que o movimento negro americano, por exemplo, hoje em dia é composto por indivíduos que estão mais próximos do modelo de “histórias cruzadas” do que talvez “malcolm x”, do spyke lee. se apropriar de histórias como as retratadas no primeiro filme talvez diga mais à constituição do movimento do que o filme de um grande líder.

claudinei responde

Babi, sou como tu, não curto muito bater boca na internet, portanto não quero te responder em tom de polêmica simplista, mesmo porque seu tom foi tão educado que me sinto à vontade para bater um papo. Respeito sua posição e sua reação ao filme, vc gostou muito e eu entendo isso, e eu detestei, isso é claro, mas não quero ficar nesse plano imediato do gosto: há algumas observações suas que precisam ser melhor definidas. Como quando eu digo que os personagens são caricatos, essa não foi uma observação de gosto, mas uma constatação. Pode-se gostar ou não do resultado (não há nada de errado com Caricatura em si, ela pode ser mal ou bem realizada, pode ser uma crítica ou um comentário ácido, pode ser engraçada ou debochada, e em geral é utilizada na Comédia, por seu caráter exagerado), a questão é se a caricaturização foi proposital, e nesse caso, o filme vem com uma fachada de retrato da sociedade, isto é, tem pretensão de ser uma visão realista (mesmo que colorida) de uma história de racismo. Bom, a caricatura acontece porque o filme não é uma representação da realidade. Ele é maniqueísta, simplista e esquemático: ou o personagem é a vilã absoluta, o diabo na terra ou é a coitada abusada ou é a ingênua idealista ou é a racista maquiavélica ou é a racista condescendente. São estereótipos: A Babá Negra, A Jornalista jovem, bonita, e idealista. A Dona de Casa de Classe Média Alta. As Brancas Malvadas.

O entorno que existe ao redor delas é real e pontilhado por dados e momentos históricos verdadeiros, como você pontuou bem. A produção aqui é muito bem realizada, com excelente reconstituição de época, e umas sacadas bacanas (como as notícias na televisão ou em jornais entrevistos, garrafas de coca-cola, o figurino, os carros típicos). Não só foi bem realizado, como tem um propósito muito bem definido: ele passa uma carga de ‘realidade’, uma base para se pensar que o enredo principal tem relevância e substância. É um quadro gigante ‘realístico’ onde se inserem os personagens e a trama unidimensionais.

O esquema do filme é o do melodrama, a história exagerada, os dramas pungentes, o esforço em fazer o espectador chorar, se comover, e se a-cabana-do-pai-thomasredimir. Funcionou contigo, comigo não. De novo, não é uma questão de gosto: há melodramas bem feitos e assim assumidos e que considero interessantes. Aqui a intenção de comover, fazer debulhar em lágrimas, se condoer pelas pobres negras coitadas e abusadas que não tem sua importância reconhecida, é tão escancarada essa intenção, que me provoca o sentimento contrário, de irritação. Esse melodrama de cunho pretensamente crítico e de fachada anti-racista é muito típico da cultura norte-americana, com uma tremenda quantidade de filmes, livros, e começou bem cedo, no século 19, com um livrinho chamado ‘A Cabana do Pai Tomás’ e foi repetido, imitado, filmado e refilmado, inúmeras vezes. Se vc o pegar algum dia, vai constatar como o esquema é exatamente o mesmo: parte de uma indignação verdadeira (contra a escravidão ou os efeitos dela na sociedade), toma um personagem negro sofrido carismático e ‘de bom coração’ (no caso, é um negro bem idoso perseguido), com um final edificante que ‘prova’ que as coisas podem mudar.

A personagem branca que assume o posto de narradora ou deflagradora das iniciativas que vão fazer com que os próprios negros se conscientizem de sua força e acabem lutando contra sua posição rebaixada, essa personagem é uma verdadeira instituição no cinema norte-americano. Tem duas funções primordiais: uma ideológica (é sempre o branco que toma a verdadeira iniciativa, são sempre os negros que acompanham ou começam a lutar, depois); a outra é formal: simplesmente para que o público norte-americano se identifique com a personagem e compre sua história. Porque INVICTUS_KEYARTsabem que se o personagem principal (e incentivador principal) for um negro, as chances do filme ser renegado são muito maiores. Porque sabem que o público em si é predominantemente racista e preconceituoso, mas que ao contrário dos ‘racistas kkk’ tem uma certa vergonha de assumir isso, e que, portanto, fica contente de chorar durante uma hora e meia sobre a pobre viola davis e se sente redimido por isso. Já fez ‘sua parte’. Mas é fundamental que quem inicie o processo seja a branca, magra e bonita Emma Stone. Posso citar dezenas de exemplos relacionados, como o mesmo período em que se passa Histórias Cruzadas é o mesmo retratado em ‘Mississipi em Chamas’, onde dois agentes brancos do FBI resolvem um caso de morte de 3 militantes dos direitos humanos (dois negros e um branco), os agentes são feitos por Gene Hackman e Willem Dafoe. Para retratar a vida de um importante militante negro, Steve Biko, contra o Apartheid na África do Sul, em ‘Um Grito de Liberdade’ é partir da história de um jornalista branco que era inconsciente das mazelas raciais que aconteciam em seu país. (Aliás, falar da África do Sul e o apartheid em Hollywood é quase exclusivamente pelo ponto de vista branco: são os jornalistas do ‘Bang Bang Club’ que fotografam os últimos dias do apartheid; é o jogador branco ídolo dos brancos da áfrica do sul vivido por Matt Damon que se aproxima de Mandela, em ‘Invictus’, dirigido pelo Clint Eastwood). Para mostrar os horrores da Guerra do Camboja, em ‘Gritos do Silêncio’ conta-se as desventuras de um jornalista branco norte-americano que tenta encontrar seu amigo cambojano no meio da guerra. E por aí vai. cito esses de cabeça, mas poderia continuar.

Tudo isso, repito, no meu desejo de demonstrar que não estou considerando a questão do gosto pessoal. Agora,Babi, heheh, perdão, mas considero incompreensível ter gostado da atuação da Octavia Spencer. Sério mesmo? Ela está tão caricatural (aqui, no pior sentido), tão exagerada, tão desproposital, os olhos se arregalam, os quadris requebram, Tou falando sério, pareceu-me tão próximo do Zorra Total ou A Praça é Nossa, me incomodou tanto. A Viola Davis está tão maravilhosa, atuação tão sublime (pena que stava concorrendo com a Meryl Streep este ano, não tinha como ganhar), a Emma Stone está bem (não atrapalha, pelo menos) e a vilã Bryce Dallas Howard está tão maquiavélica que realmente sentimos raiva dela. Mas Octavia Spencer, não, não, não, essa pra mim está ruim demais, demais.

E pra terminar (peço perdão por me alongar tanto!), o cinema norte-americano não precisa ser ‘revolucionário’, de forma alguma (e não o são, mesmo!). Mas, eles conseguem (quando estão a fim) fazer reflexões sérias e até profundas, smesmo com seus esquemas simplistas, mesmo seguindo a receitinha, mesmo sendo melodramas. Propõem discussão sem descuidar do princípio fundamental do cinema, que é o Espetáculo, o prazer. Os filmes que citei acima são todos eles seguidores do esquema básico do The Help e, como disse, estão repletos de problemas análogos, assim como seu racismo não assumido, mas compartilham mais uma coisa em comum: são todos 1000% melhores do que ‘Histórias Cruzadas’.

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O digno ‘O Palhaço’ é o candidato brasileiro ao Oscar

20 de setembro de 2012

 

Bom filme. Boa escolha. De um ano produtivo do cinema nacional que, entre várias porcarias, conhecidas e já discutidas, teve sim boas produções muito interessantes. Dentre os 16 filmes considerados para essa escolha, eu havia sentido falta do ótimo “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de  Beto Brant e Renato Ciasca, que me surpreendeu muito positivamente e deveria ter sido colocado na roda. No entanto, a decisão final foi bem acertada.

‘O Palhaço’ é um filme digno. Longe de ser um clássico da cinematografia brasileira. Mas também longe de ser um produto ingente derivado de telenovelas globais ou zorras boçais.

O bacana é acompanhar Selton Mello e ver seu crescimento como cineasta, como criador, cada vez mais maduro, independente e consistente. E ‘O Palhaço’ traz, como sua maior pérola, a atuação de Paulo José em estado de graça, o que  já faz valer o trabalho por inteiro e a ida ao cinema.

Se este é O filme que vai fazer os gringos finalmente reconhecerem o Brasil como ‘digno’ de receber seu afago e reconhecimento e estatueta, não me interessa. É uma preocupação que nunca tive. Não carrego esse sentimento de vira-lata nacional que vive lambendo as feridas e choramingando por nunca termos recebido um tal prêmio norte-americano. O fato de ‘O Palhaço’ ter sido bem recebido e com ótima bilheteria dentro dos nossos próprios cinemas, já é o maior valor adquirido.

CAT PEOPLE: Sexo, Poder, Morte, e Medo do homem diante do desejo feminino em dois filmes de terror e erotismo

21 de agosto de 2012


Em 1942, Irena, uma jovem e bela sérvia, trabalha em Nova York como modista e se apaixona e se casa com um norte-americano. Não é um relacionamento tranquilo, pois ela teme carregar uma maldição em sua família: ela acredita que descende de uma raça de mulheres-panteras que se transformam em animais selvagens (literalmente) quando estão em algum apogeu de grande emoção e / ou quando fazem sexo. Irena sente (ou imagina) que o pior vai acontecer, pois percebe que está com ciúmes violentos de uma amiga do seu marido e teme que ela sofra algum ataque seu quando estiver transformada. Preocupado, o marido cuida para que ela vá se tratar com um psiquiatra.

Roteiro enxutíssimo, quase nenhum efeito especial, trabalhando com jogos de câmeras simples, mas muito eficazes, e uma iluminação de claro/escuro belíssima e instigante, e fotografia fantástica CAT PEOPLE ficou conhecido no Brasil como “Sangue de Pantera” e é um clássico de terror psicológico e erotismo velados.

Isto é, nada nunca é mostrado, nada nunca é explicitado, não há monstros, nem cenas de violência. O medo é sugerido, entrevisto, escutado. A fera assassina (se por acaso existir e se a maldição for real e não somente loucura de Irena) nunca é mostrada. O sexo, o desejo, também. Mas estão lá, à espreita, prestes a atacar.

Filme bárbaro que funciona até hoje!

Quarenta anos depois, fizeram CAT PEOPLE (“A Marca da Pantera”, aqui). O básico da história foi mantido: Irena é uma jovem bela e estranha que passou sua infância complicada em orfanatos e instituições especiais até conhecer seu irmão, quando fica sabendo que eles pertencem a uma raça especial que precisa manter relações sexuais entre si porque, quando transam, se transformam em panteras selvagens e assassinas. Precisam matar para retornar ao estado de humanos. A coisa se complica pois, além de Irena não concordar em se entregar a esta relação incestuosa, ela ainda se apaixona por outro cara e não sabe como lidar com esta maldição. Já pensou como seria sua noite de núpcias? O camarada ainda por cima é diretor do zoológico local e está ajudando a caçar uma pantera que está aterrorizando a cidade…

Não é um grande filme, é simples, dá para assistir numa boa, sem grandes pretensões. Mas também é um clássico. Por conta da pantera principal: Nastassja Kinski. Puta que o pariu de pantera!!

Os elementos estão apontados. Em 1942, a mulher ativa e liberada (que, no entanto, existia ou lutava para se impor) não podia ser aceita. Não à toa, a pantera tinha que ser de fora, não podia ser uma nativa, uma norte-americana ‘da gema’, tinha que ser uma estrangeira, alguém misterioso de algum lugar remotamente conhecido e exótico o suficiente para provar ao espectador o quanto Lá é estranho e o quanto Eles (ou, principalmente, Elas) podem ser perigosos. Mortíferos até. A moral e a família precisam ser mantidas, a tranquilidade precisa ser reposta. O final de “Sangue de Pantera” toma isso a cargo. Como não poderia deixar de ser em um filme realizado no começo da década de 40.

Em 1982, mesmo com a diluição destas premissas e mesmo que a mulher contemporânea tenha tomado posições bem mais avançadas do que seria imaginável em tempos idos, e mesmo que o diretor esteja mais preocupado em mostrar o corpo de Nastassja (ela fica pelada boa parte do tempo), do que em fazer discussões ou até mesmo de mostrar eficiência em criar suspense, Mesmo assim, é extremamente interessante observar como os dois filmes e as duas Irenas se parecem e mantém laços. O sexo já não é mais visto como O Perigo (a era mais pesada da Aids ainda estava só começando), o esquisito, inclusive é não fazer sexo (como quando em um diálogo a virgindade de Irena chega a ser ridicularizada). Os produtores, então, forçam um pouco a barra ao tentar encontrar algum outro ângulo ‘pecaminoso’ e se fixam no ponto do Incesto. Esse seria o problema. Fazer sexo tudo bem; fazer sexo com a Nastassja melhor ainda (mesmo que um tanto quanto ‘perigoso’). Mas com o irmão não, nunca! O foco mudou,  o vilão agora não é mais a mulher e sim seu irmão que insiste em se arrogar o direito a sua …. depravação, digamos assim.

Apesar disso, Irena/Nastassja ainda é um ser estranho, perigoso, além das fronteiras (não estou lembrando agora se a personagem é norte-americana ou não) que pode não ser a vilã, nem o mal personificado, nem é louca mental. No entanto, ela ainda assim carrega a sua maldição. Esse furor sexual ainda assusta, não é ‘normal’, precisa ser controlado.

E o modo como o cara do zoológico encontra para ‘controlar’ Nastassja é de matar de inveja a todos os homens e lésbicas do mundo. Ai, ai.

ps. comentários da minha amiga Sabrina K ao ler este texto: Claudinei, legal você ter lembrado deste filme – a versão mais antiga eu não conhecia. CAT PEOPLE me marcou muito, e coloco ele junto com aquele com a Catherine Deneuve, com o David Bowie, viravam vampiros, e os amores dela tinham tempo de duração, mas não libertação, eram encaixotados num sótão surreal, iluminado, leve, com muito ar, e os amores ali, vinculados a ela, vampirona mor, envelhecendo, apodrecendo em vida, sofrendo, orando por liberação ainda que na condição de demônios. Vampiros e amor. Cat People, o não domesticado sentimento humano, em sua condição mais selvagem, o descontrole, o nada social sentimento vindo de um corpo animal, essa condição humana atordoante e ininteligível nossa do dia a dia.

Como mulher – e às vezes vejo que o olhar de uma mulher sobre um filme é tão diferente do dos homens… – te digo, não lembro dos homens do filme, mas de Nastassja Kinsky. Tão meiga, tão pura, tão virgem, e tão mortal. Jaulas, felinos, desejos, mulher e homem, descontrole, não doméstico, não controlável. Incontrolável. E então criamos e multiplicamos a Aids, e o controle deve ser cada vez mais rígido, de tudo, do todo. Mas se a Aids mata o corpo, qual é essa ameaça que estes filmes pré-Aids traduzem, essa ameaça mortal, de controle e descontrole, vida e morte, que esses filmes anunciam e mostram? A dependência, o despertar, sentimentos dignos de flauta convivendo com a mais atordoante percussão? Ufa, e dê-lhe vinho tinto, do bom, prá viver essa vida com tudo isso que veio na bagagem…
Abraços cinéfilos,

ps. Eu achei dez a reflexão sobre a Aids, porque se fossem filmes pós Aids, poderiam ter uma outra leitura… Mas eu não sei, te conto que Fome de Viver foi o único filme que me fez sair do cinema… Aquelas cenas de macacos enjaulados envelhecendo rapidamente, e o vampiro buscando cessar a velhice, eu só consegui assistir de uma segunda vez. E Cat People tem uma coisa muito feminina, Claudinei, só sendo mulher e padecendo de toda a repressão da sociedade ocidental católica prá você saber o quão enjauladas nós somos.

O amor tem razões que a própria razão vulcana desconhece

19 de agosto de 2012

O amor tudo alcança, tudo supera. Ser apresentada à família do noivo pode ser um tanto intimidador, às vezes até mesmo aterrorizante. Mas se o amor for verdadeiro, todas as diferenças serão superadas.

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o amor tem razões que a própria razão galáctica interplanetária vulcana de sangue verde desconhece.

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Eu sabia! A cara de sonso do C3PO nunca me enganou.

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Valente, Pixar, valente decepção

20 de julho de 2012

 

O fracasso da Pixar em continuar a qualidade de sua produção a que estamos tão acostumados pode ser um indício do começo de sua decadência ou, pior ainda, horror dos horrores, sua disneyzação?

Foram sete anos de desenvolvimento de um projeto para chegar a um resultado que, na prática, não é mais do que um bom filme disney. Para um estúdio que se notabilizou pela riqueza e inteligência dos seus roteiros e pela criação de alguns clássicos do cinema como ‘Up’, ‘Wall-E’, ou ‘Toy Story’, isso é desesperadoramente pouco. ‘Carros 2’ já foi um choque tremendo, pois provou que mesmo a Pixar de ‘Procurando Nemo’ e ‘Monstros S.A.’ pode tropeçar (ou capotar) e produzir um trabalho porco e mal-feito (e já era continuação de um filme morno e sem graça). ‘Valente’ não chega a ser tão infame quanto ‘Carros 2’, é agradável de assistir e um tanto divertidinho, mas não tem garra nem ambição, cai na vala comum de historinhas bobas e açucaradas, com roteiro falho e mau resolvido.

Muito está se falando (e vai se falar mais ainda, com certeza) da bela e vermelhíssima cabeleira da personagem principal. E com toda razão: mais do que um magnífico trabalho visual e técnico muito bonito, compõe à perfeição com a personalidade e vitalidade da princesa rebelde e autodeterminada que está decidida a quebrar a tradição do reino e seguir sua verdadeira ‘vocação’ de guerreira arqueira. Observar uma imagem ou fotograma parada não proporciona a verdadeira dimensão e beleza desse cabelo; é preciso vê-lo ao ‘vivo’, e em movimento.

Brave é o que há de melhor em todo o filme: carismática, forte, simpática, cativante, ela prende nossa atenção, arrebata nosso fôlego, caímos fácil em seu charme, aceitamos suas pretensões e compartilhamos de sua frustração. É um belíssimo personagem, muito bem construído e montado, marcante e impactante. (fundamental neste sentido é a participação da atriz escocesa Kelly Macdonald, a escolha absolutamente perfeita para fazer a dublagem original; desde já, sinto pena das pessoas que assistirão ao filme com dublagem, pois por melhor que seja a dubladora nacional que trabalhar aqui, ninguém conseguirá reproduzir a delícia do particularíssimo sotaque de Macdonald). Queremos vê-la, desejamos acompanhar suas aventuras, nos motivamos e torcemos para que ela atinja seus propósitos. O que torna ainda mais decepcionante a incompetência do roteiro em não saber aproveitar tão boa abertura.

Pois, mesmo não havendo o príncipe encantado que irá resgatá-la dos perigos da vida e da floresta (o que remete a um Chapeuzinho vermelho e o lobo mau, quem sabe?), os clichês e os velhos esquemas ao estilo disney estão presentes e tomam conta da história. A bela, inteligente e determinada heroína (como a Bela, de ‘A Bela e a Fera’) que ostenta sua cabeleira revolta e viva (remetendo à Rapunzel, de ‘Enrolados’) inconformada com seu destino subalterno de ter de se casar e ter filhos, independente de sua opinião sobre seus pretendentes, terá a ajuda de uma bruxa com uma solução mágica (tal como Ariel de ‘A Pequena Sereia’). O feitiço, obviamente, terá consequências funestas, colocará a mãe de Valente, com quem discutia tanto, em perigo de morte. Mãe e filha terão que se entender como nunca fizeram antes para poderem sobreviver.

Posso ter adotado um certo tom irônico no parágrafo acima, mas não quero dar a impressão de que usar os lances disneyanos sejam um mal em si. O problema não são os clichês, é como são utilizados. É nesse ponto que os roteiristas vacilam e se acomodam, se perdem e parecem não saber exatamente qual é o foco e qual é a ideia que desejam passar de verdade. Tudo é piorado com um final abrupto e raso, que não responde às (poucas) questões relevantes levantadas no começo. Assim, a Pixar (tão famosa pela originalidade de sua abordagem e pela coragem dos seus temas) vacila, se acomoda, e nos entrega um produto insosso, bonitinho e oco.

Se ‘Carros 2’ foi uma capotagem feia (o ponto mais baixo da história da Pixar, em todos os sentidos) e ‘Valente’ parece incapaz de reverter essa má impressão, isso significa que não foi somente um tropeço? Isso indica uma tendência? A usina de ideias, criatividade e belos filmes terá se esgotado?

A resposta só teremos nos próximos trabalhos, sem dúvida. No entanto, a preocupação se justifica, porque por enquanto a Pixar está respondendo com o anúncio de … ‘Procurando Nemo’. 2.

ai, ai

 

Olhares de Cines

19 de julho de 2012

‘On The Road’ de plástico

17 de julho de 2012

 

Os beats nunca fizeram muito minha cabeça. Não sei o porque, simplesmente uma sintonia diferente da minha, ou não os li na época certa.

Deles, o que mais me lembro e realmente me marcou foi o sentimento de inquietação. A busca, o sentimento de inadequação, o outro nível de consciência (ou a postura de quem possui um outro nível de consciência). Fosse como fosse, independente de qual viés um filme tomasse, é este sentimento de inquietação que deveria ser o fundamental, a sofreguidão, o anseio, as novas experiências. ‘On the road’, o filme, deveria ser desbragado, escancarado, ansioso. ‘On the road’, o filme, de Walter Salles, não faz isso.

Discordo veementemente quando dizem que Salles é um mau cineasta. Considero uma afirmação ridícula. Ele sabe filmar, sabe enquadrar, sabe montar uma história. Mas não possui a sofreguidão, o desespero por se expressar. Seus filmes são bonitos, bem montados. E vazios. Seu ‘On the road’ é bonito, bem montado, e vazio. Os atores realmente se esforçam e fazem um bom trabalho, Garrett Hedlund, Sam Riley, Kristen Stewart. A fotografia é muito bonita, e a câmera pessoal funciona. Isto é, uma boa produção. No entanto, o que deveria ser impactante, um ‘hino de uma geração’ passa como mais um filme, e somente. O poeta e jornalista Ademir Assunção diz tudo : “Walter Salles filma bem. Os atores são competentes. Mas há algo ali que me parece de plástico.” Exato.

 

 

Carmen Santos: atriz, diretora, produtora e musa de um cinema brasileiro em formação

13 de julho de 2012

 

A nossa proverbial memória curta nacional costuma nos pregar peças, ás vezes de muito mau-gosto. Falta de memória, aliás, aliada a muita falta de informação. Pouca gente sabe ainda, por exemplo, do pioneirismo do cinema brasileiro que andou quase no mesmo passo de sua própria invenção nas terras francesas, pelos irmãos Lumiére ou pelos norte-americanos.

Não se compara aqui, é obvio, as formidáveis diferenças de estrutura econômica e social. Enquanto em um caso, o cinema é tomado como uma indústria levada a sério e equiparada a uma questão de Estado, por aqui a produção cinematográfica foi sempre uma mescla de teatro mambembe com sacrifícios pessoais de indivíduos ou grupos abnegados. As poucas tentativas de se montar uma verdadeira industria cinematográfica nacional começaram sempre com muita expectativa e esperança, tropeçaram em obstáculos estruturais e acabaram de modo melancólico e lamentável.

O trabalho de mestrado de Ana Pessoa sobre Carmen Santos é uma forma de preencher uma dessas tantas lacunas de memória e conhecimento. Falar sobre sua vida é tratar diretamente sobre a formação, a complexidade, os avanços, e os vários problemas de querer se fazer cinema no Brasil. O título completo do livro “Carmen Santos – O Cinema dos Anos 20” (Aeroplano Editora) é objetivo e direto: impossível falar de um sem tratar do outro.

A portuguesa Maria do Carmo Gonçalves chegou no Brasil em 1912 aos oito anos de idade. Seu pai tinha vindo antes e trabalhava como marceneiro. Em 1919, Maria do Carmo era balconista de uma loja de roupas quando resolveu fazer, junto com dezenas de outras moças, um “test” para “posar” para um “film”. Tinha quatorze anos, era baixinha, magra, olhos grandes e penetrantes e já combinava todos os elementos para a mulher que estava se formando no começo do século. Ana Pessoa capta muito bem toda essa complexidade e contradições de uma menina-adolescente se transformando em adulta em um mundo repleto de profundas modificações:

A adolescente Carmen está construindo sua personalidade quando surge, no plano internacional, a imagem da ‘nova mulher’. A ascensão do modelo da jovem ousada e irreverente confronta o modelo da pureza católica; a expansão da economia de consumo enfatiza a gratificação material e questiona o tradicional ideal de altruísmo feminino; o desejo de ser membro independente e produtivo da sociedade contrapõe-se às restrições de papel de dona-de-casa. As mulheres alcançam, enfim, a esfera publica”.

Ana Pessoa vai construindo, assim, os vários roteiros que perpassam seu livro: a historia do cinema brasileiro na sua fase muda paralelamente à vida pessoal de Carmen e a da própria inserção da mulher na sociedade.

Maria do Carmo passa no teste, é escolhida como atriz principal, batizam seu nome artístico de Carmen Santos, tiram fotos promocionais, fazem uma grande divulgação. O filme acaba não sendo produzido, mas a figura de Carmen já começa a se propagar. Na verdade, ela se revela uma excelente propagandista de si mesma apesar da maior parte dos seus filmes ter fracassado ou nem mesmo ser concretizado. Ela reconhece o poder da mídia, sempre conseguia ser fotografada, entrevistada; a moda das starlets hollywoodianas já começava a pegar. Dessa forma, nos primeiros tempos de sua carreira, ela consegue o inusitado posto de musa do cinema brasileiro sem ter emplacado nenhum filme!

Por outro lado, e quase ao mesmo tempo em que começa no cinema, Carmen conhece Antonio Lartigau Seabra, um rico herdeiro de uma família portuguesa bem ciosa de suas prerrogativas de classe. O casamento está fora de cogitação mas, pelo que a autora transmite, eles parecem não ligar muito para isso. Sua relação dura praticamente a vida inteira (eles acabam casando, mas muito tempo depois) e é com o dinheiro dele que Carmen consegue extravasar toda sua ansiedade em participar do cinema. Inclusive pagando para isso.

Ela, no entanto, não se contenta com uma posição comodista. Dispondo de uma incomum tranqüilidade financeira, com um amante assumido e público e do qual, sem ser casada, tem dois filhos, ela avança: além de ser atriz, ela produzia, dirigia, financiava novos talentos, tentou construir um estúdio cinematográfico próprio, fez uma pequena participação no clássico, antológico e único filme de Mario Peixoto, “Limite”. Participou ativamente tanto na montagem e estruturação de uma mentalidade de cinema no Brasil, na época mudo, quanto foi decisiva na complicada transição para o cinema falado nacional.

Isso, no entanto, já é uma outra história. O mestrado de Ana Pessoa se restringe ao período do cinema mudo e é com pena que vemos o livro acabar abruptamente na metade da década de 30, justamente quando Carmen está se jogando para o seu novo desafio. Até sua morte em 1952, houve muitas outras batalhas.

Apesar dessa sensação frustrante no final, a pesquisa se mostra séria, bem documentada e é recheada de ilustrações, como deve ser qualquer obra que trate de algum tipo de arte visual. Percebe-se bem como deve ter sido difícil trabalhar com a falta de documentação e ausência ou perda de fotogramas, boa parte dos filmes só é conhecida ainda somente por causa das reportagens e entrevistas e uma ou outra fotografia.

É um pouco da nossa memória cultural sendo restaurada.

 

 

 

 

Olhares de Cine. E Cine.

6 de julho de 2012

 

 

 

‘Metropolis’, de Fritz Lang: uma velha e uma nova lição de intolerância

30 de junho de 2012

 

A primeira vez que assisti ‘Metropolis’, de Fritz Lang, eu ainda era muito jovem, criança, e mesmo assim impressionei-me com a beleza plástica do filme, os cenários deslumbrantes e a pujante e belíssima direção de arte (claro, na época não tinha menor ideia do que fosse ‘direção de arte’; pude compreender o que eu sentia e apreciava somente muito mais tarde). A longa duração e o ritmo lento, quase solene, no entanto, me afastaram, me aborreceram (nem lembro de ter assistido até o final), apesar de ter sido fisgado pela história:

Em um futuro distante, a alta tecnologia proporciona uma vida luxuosa e folgada para a população privilegiada que mora na cidade suspensa. Essa boa vida, porém, é garantida por conta da intensa exploração da classe operária que vive abaixo da cidade suspensa que, cansada da situação, se movimenta para tomar
atitudes mais violentas. A insatisfação é um tanto contida por uma mulher carismática, Maria, que prega a paz e profetiza a vinda de um Mediador que trará o equilíbrio geral. Do outro lado, Joh Fredersen, o poderoso chefão da cidade Metropolis, ao saber dos ânimos exaltados, procura a ajuda de um cientista (o perfeito protótipo do que hoje conhecemos como o ‘cientista louco’ megalomaníaco e arrogante, misto de Dr. Frankenstein com a cara do Dr. Brown, de ‘De Volta para o Futuro’) que lhe oferece sua mais recente e brilhante criação: um robô que tomará a forma, e o lugar, de Maria para, aproveitando-se de sua influência, insuflar as massas e justificar, assim, uma repressão para colocar os operários em seu devido lugar. Os planos do Cientista Louco, que também não nutre maiores simpatias por Metropolis, são mais maquiavélicos do que Fredersen previa e desejava, a Maria-Robô começa a interferir igualmente na própria cidade suspensa, para que ao final tudo levasse ao conflito pleno e ao caos.

A segunda vez que assisti ‘Metropolis’ já era bem mais velho, pude apreciar com mais justeza a proposta estética de Lang e do cinema expressionista alemão. Nesse momento, já tinha visto e me impactado e obrigado a reconhecer que o cinema mudo poderia proporcionar altas doses de suspense e terror, com ‘Nosferatu’ e ‘O Gabinete do Dr. Caligari’, erotismo e sexualidade em alto grau com ‘A Caixa de Pandora’, fazer uma profunda discussão social em ‘A Última Gargalhada’ (e continuo re-assistindo-os, pois mantém essa mesma força e impacto). A majestosa imponência da visão futurista de Fritz Lang reforça algumas características do Expressionismo ao mesmo tempo que se afasta um outro tanto da estética geral proposta pelo movimento e, dessa forma, ‘Metropolis’ atinge um ápice, fechando o ciclo e definindo o término dessa linha cinematográfica.

Continuei achando o filme meio chatinho (até hoje, sem retirar em nada suas óbvias e pungentes qualidades, não é dos meus filmes de ficção científica preferidos), mas pude entender melhor sua importância para a história do cinema. Pode-se perceber sua influência e permanência no cinema atual em muitos sentidos, refletindo-se, como é natural, com mais ênfase em filmes de ficção científica (de ‘Star Wars’ a ‘Solaris’, percebe-se os ecos de ‘Metropolis’), além do Cinema como um todo.

Nesta ocasião, sei bem que assisti até o final, pois fiquei revoltado com a resolução da trama: o Mediador realmente aparece e acontece de ser o filho do poderoso Fredersen que havia se apaixonado por Maria, conhecera as dores das classes mais baixas, e serviu para o estabelecimento da paz, fazendo com que o líder dos operários e seu pai, o líder da cidade, se dessem as mãos, reconhecendo seus respectivos erros. O Cientista Louco é reconhecido como o verdadeiro vilão da história e devidamente castigado. Para mim, um adolescente com sentimentos de crítica e revolta pelas injustiças sociais, já com um acúmulo de leitura de obras socialistas, era um final por demais piegas e de um anticlímax brochante.

Mas Todavia Porém No entanto

foi somente na terceira vez que assisti que constatei horrorizado o símbolo do Cientista Louco. Fiquei chocado, com o filme e comigo!, não só por entender afinal seu significado pleno, mas, pura e simplesmente, por não tê-lo visto antes, apesar de estar tão presente, tão exposto.

Em um filme (e para um diretor) carregado de simbologias e alegorias, não há espaço para sutilezas, em verdade, nem meios-termos (o exagero, o choque visual violento, as medidas extremas, são próprios do expressionismo). Maria transpira amor e piedade pela humanidade, tem um comportamento pudico e recatado, e em vários momentos está rodeada de cruzes. A Maria-Robô é agitada, sarcástica e irônica para com os operários; na cidade, é lasciva e age atiçando os instintos sexuais dos burgueses almofadinhas. Amor Piedoso em face do Pecado destruidor. O Mal absoluto é representado pelo Cientista louco, responsável pelo mau uso da Tecnologia que mantém a cidade, pela criação da máquina diabólica, o robô, pelo sequestro de Maria e sua substituição pelo autômato, e pela possível destruição e o caos. E enquanto a Maria humana é marcada, e definida, pelas cruzes, ele o é pelo pentagrama. Marcado e carimbado, portanto.

Há poucos meses, eu comentei uma bizarra ação de uma ONG italiana que reinvidicou a proibição da obra máxima de Dante Alighieri, por considerar que ‘A Divina Comédia’ estava tão carregada de preconceitos que deveria ser tirada de circulação e inclusive sair do currículo escolar. Considerei a proposta um absurdo e, até onde sei, não foi levada adiante (Proíba-se Dante Alighieri‘). Considero absurdo o simples fato de ter sido levado em consideração. Pois retira a possibilidade da discussão. Não avança no entendimento, impede a compreensão.

Por outro lado, também não adianta o único argumento de que, por se tratar de uma obra-prima, possua uma espécie de vale-conduto artístico, e questões históricas ou morais sejam pequenas ou, no máximo, complementares, como o de reconhecer de que há problemas de preconceito e racismo, mas que fazem parte inerente do contexto da época e da sociedade de quando a obra foi realizada. O que, a rigor, é verdade, mas não responde nada.

Tanto de um lado quanto de outro, as duas posturas partem do mesmo critério e método de pensamento, isto é, o pensamento ossificado, nulo e inflexível. Infelizmente, vemos cada vez mais atitudes sendo tomadas neste sentido, como em ridicularidades (no filme ‘Coco antes de Chanel’, protagonizado por Audrey Tautou biografia da famosa estilista, mudaram o poster de divulgação que havia sido inspirado em uma imagem icônica, Chanel com um cigarro aceso entre os dedos, substituído por uma caneta…) até mais sérias e profundamente complicadas, como a de proibir obras (por melhor que sejam as intenções de seus propositores, a proibição, a censura, o abafamento, são sempre, Sempre, os piores caminhos), quando não descambar para agressão para o próprio artista.

Isso porque, para mim, não existem saídas fáceis para a presença do pentagrama (e do que se impregna, sua função dentro do filme) (e, tudo bem, não é diretamente uma estrela de Davi, mas possui a mesma origem hebraica) em ‘Metropolis’. O contexto histórico, moral e preconceituoso da sociedade alemã do final da década de 1920, explica, sem dúvida. De modo algum, justifica. E, alem do mais, não é o suficiente.

Hitler amou ‘Metropolis’, amou o trabalho de Fritz Lang, e considerou que ele possuía o estofo e a genialidade precisa e necessária para o crescimento da ideologia fascista e o convidou para dirigir esse movimento pelo lado do cinema. Quando se fala da relação cinema / nazismo, a lembrança imediata, e natural, é de Leni Riefenstahl e seu ‘O Triunfo da Vontade’, o arquetípico monumento cinematográfico à glória nazista, que nem por ser assumida e orgulhosamente fascista, deixa de ser magnífica obra de arte.

Fritz Lang não quis ser uma outra Leni Riefenstahl, saiu da Alemanha o mais rápido que pôde, foi fazer cinema em outras paragens e realizou outros excelentes filmes, inclusive alguns de propaganda anti-nazista. Nem por isso ‘Metropolis’ deixará de estampar o pentagrama como símbolo de um Mal absoluto. Nem deixará de ser uma obra máxima da história do Cinema mundial. Este conflito, essa dicotomia, essa confluência de opostos ou consequências, também fazem parte da beleza do pensamento, da inquietação da arte.

Em outra ocasião, tive a oportunidade de eu mesmo exibir ‘Metropolis’ dentro da programação do cineclube montado na universidade, para um público adulto que, majoritariamente, nunca o tinha visto antes. Logo após a sessão, um dos presentes veio conversar comigo e me perguntou exatamente sobre o símbolo do pentagrama despudoramente marcando o cientista louco. Tentei dizer alguma coisa no estilo de que ‘pentagrama não é o mesmo de uma estrela de Davi, embora a proximidade seja o bastante para incomodar’ e que eu também sentia o mesmo incômodo. No final das contas, me esquivei porque, na prática, não sabia responder.

Percebo que este texto é uma comprovação de que eu ainda não sei a resposta.

 

 

 

 

O vestido vermelho de Penélope Cruz

29 de junho de 2012

 

Sem dúvida, a contínua produção anual de Woody Allen cobra um preço na irregularidade de seus filmes. Não há dúvidas igualmente de que, após um belo  “Meia-noite em Paris”, seria muito difícil acompanhar o fôlego. No entanto, a máxima se mantém: um filme de Woody Allen, mesmo fraco, ainda assim traz um nível de qualidade digna e natural que muitos outros labutam com muito esforço para alcançar. E a maioria não consegue.

E, se mais não fosse, “Para Roma, com Amor” traz Penélope Cruz, explodindo em um vestido vermelho, como há muito tempo não se via.

Ah, Penélope!

 

 

 

A ‘saga’ Crepúsculo vai acabar. Que tal uma refilmagem?

21 de junho de 2012

 

Re-Crepúsculo?

Pois então, a ‘saga’ Crepúsculo está chegando ao final. Para alguns, terá demorado até demais, haverá um sentimento generalizado de alívio indescritível. Para outros, a abstinência trará crises de melancolia e depressão, praticamente será o sinal do fim do mundo.

Mas, independente de qual lado você estiver, há um fato e uma preocupação: a ‘saga’ realmente terminará, não se cogita uma continuação, pois os astros principais já deixaram muito bem claro que não voltarão a estes personagens (tanto Robert Pattinson quanto Kristen Stewart estão muito bem em suas carreiras; segundo as últimas estimativas, aliás, Kristen é a atriz mais bem paga do planeta neste momento: um simpático cachê de 35 milhões de dólares por filme!) (além do que, nem eles devem estar aguentando mais tanto crepúsculos, amanheceres, etc e tal).

A grande, enorme, preocupação (em especial para os produtores norte-americanos que estão ganhando rios, cachoeiras e tempestades de dinheiro com a franquia) é : o que acontecerá depois disso? o que fazer?

A resposta é o cúmulo da singeleza: há poucos dias, uma fofoca grande dava conta de que os executivos estariam pensando em refilmar tudo de novo! Com novos atores, os mesmos livros, e se os vampiros permitirem, nova cheia de dinheiro. Logo que as luzes de Amanhecer Parte 2 se apagassem, e os adeuses à Bella e a Pattinson fossem dados, e o choro e a gritaria fossem se amenizando, começaria a busca por novos Kristen Stewarts e Robert Pattinsons.

Oficialmente, a Lionsgate desmente esses ‘boatos’ e diz que vai respeitar os desejos da autora Stephanie Meyers: se ela quiser continuar, eles continuam; se ela quiser parar, eles param (muito gentilmente, ela inclusive já deu declarações de que não se importaria com uma refilmagem da ‘saga’). Isto é, como se existisse em Hollywood executivos preocupados com os sentimentos de uma escritora…

Na minha opinião, tenho certeza que foi a própria Lionsgate que soltou esses boatos para ter uma ideia da repercussão. A resposta não foi muito positiva, então eles recuaram.

No entanto, caso não seja refilmagem, com certeza inventarão alguma coisa. A questão de fundo é a seguinte: se você é fã, muito fã, de Crepúsculo, sinta-se esperançoso, pois que eles tentarão de tudo para mantê-la viva (ou morta-viva, vampiristicamente falando). E se você odeia tudo o que diz respeito a vampiros que brilham ao sol, sinta-se desanimado, pois eles tentarão de tudo para manter a franquia viva, bem viva (ou morta-viva, vampiristicamente falando).

 

 

‘Prometheus’, a retomada da franquia Aliens, começa como imitação de Kubrick. E termina como filme B de terror fajuto

15 de junho de 2012

‘Prometheus’ possui várias pretensões; em si, nenhuma delas é tola ou impossível de ser realizada: a retomada da carreira como diretor para Ridley Scott (já que como produtor tem participado de vários bons projetos, principalmente na televisão, mas como diretor foi se tornando cada vez mais ralo e insípido); dar novo fôlego à franquia ‘Aliens’, que havia se afundado em um poço do qual ninguém mais acreditava poderia sair; levantar discussões sobre assuntos sérios, até mesmo transcendentais; E fazer um filme divertido, que também servisse para agradar multidões e aos antigos fãs da série.

Em todos esses pontos, Scott escorrega, fica no meio do caminho, fica na triste posição de mero pretensioso. Há um nível mínimo de qualidade garantida, o que torna o filme assistível, e faz perdurar uma falsa sensação de que assistiremos algo extraordinário. Alguns bons momentos (e alguns ótimos momentos) perdem-se, no entanto, em um roteiro arrogante, vazio, e repleto de buracos. O tamanho das pretensões iniciais torna o resultado mediano uma verdadeira frustração.

Há dois movimentos claramente delimitados, com fortes demarcações propositais de Scott: o primeiro é a emulação de ‘2001 – Uma Odisséia no Espaço’ e a tentativa de discutir e provocar ideias entre religião e ficção científica, entre a Bíblia e aos pensamentos específicos cristãos, e Erich Von Daniken, que defendia a ideia de que a humanidade foi criada por extraterrestres com tecnologia muito superior que teria deixado suas marcas e sinais por todo lado, como em representações de desenhos pré-históricos.

Todo o primeiro arco de ‘Prometheus’ (na verdade, até quase metade do filme) é uma recriação, uma adaptação, de Scott para ‘2001’. No lugar do monolito negro de Kubrick (que fez surgir a inteligência nos primatas primitivos), agora é um alienígena (muito) branco que se desfaz na água primordial, misturando assim seu DNA com o resto do planeta e, presumivelmente, criando a própria humanidade. Essa apresentação é magnífica e soberbamente bem filmada, com impressionantes tomadas aéreas da gélida paisagem da Islândia. Em pouco tempo, somos levados ao espaço, em busca do planeta original destes extraterrestres (aqui chamados de ‘Engenheiros’), da mesma forma como Kubrick com os monolitos; idem com a apresentação da nave, dos tripulantes adormecidos em suas câmaras particulares, e ao andróide solitário que toma conta do lugar (não é nenhum segredo dele ser um robô, isso não é spoiler), tudo reprodução direta da obra kubrickiana. Scott até exagera na ‘homenagem’ quando, na primeira frase pronunciada na nave por um computador de bordo, utiliza a voz do HAL 9000!

O ritmo é lento, os personagens são mostrados com vagar, sem nenhuma pressa, a missão científica é revelada, alguns pequenos conflitos já vêm à tona, como os propósitos dos cientistas envolvidos (que inclui suas dúvidas e anseios religiosos) que bate de frente com a lógica mercantilista da empresa capitalista que financia a viagem (que, obviamente!, esconde interesses escusos). A chegada ao planeta, a descida à superfície, as primeiras explorações, o contato com os restos da civilização alienígena, e a lenta constatação de que ela foi massacrada por alguma ameaça não identificada.

O segundo movimento (que possui seu próprio ritmo e prerrogativas, uma delas a imprescindível aceleração da história) é a retomada dos signos específicos da série Aliens, com a tentativa de tensão do perigo que se aproxima cada vez mais, o suspense de quem será morto (ou, mais precisamente, como será morto), e a presença dos seres (ou monstros) que, invisíveis ou inofensivos à primeira vista, vão se tornando mortais e os obrigam à luta pela sobrevivência. Em outras palavras, o filme B de terror padrão. Nada fora do prevísível, na realidade até esperado, desejado, de um filme assim. E isso, de forma alguma, é uma expectativa ruim. Basta lembrar que o próprio ‘Alien’ original, de 1979, o clássico do suspense de terror conhecido por todos, fundador de uma das mais famosas franquias do cinema, é um assumido filme B que se tornou cult por conta da quentíssima mente criativa de Scott, na época no seu auge (que logo depois proporcionaria outros clássicos, como ‘Blade Runner,’ sua obra-prima, ‘Chuva Negra’, o clássico do chauvinismo norte-americano, e o belíssimo libelo feminista ‘Thelma e Louise’; dai pra frente, uma infeliz ladeira de queda livre…). Scott foi ‘ajudado’, obviamente, pelas limitações de orçamento que obrigavam a rebolar para encontrar as soluções mais simples, criativas, baratas e eficientes possíveis.

Pois bem, o que engana o expectador em ‘Prometheus’ são o ritmo lento da narrativa no começo e a espetacular direção de arte. Esta acredito ser uma das mais bem feitas, coerentes e bonitas que conheço: o visual esplendoroso, a beleza sombria, os detalhes minuciosamente trabalhados, promovem uma aproximação e um reconhecimento saudáveis para os que já viram todos os filmes anteriores, ao mesmo tempo que cria uma realidade completamente nova, muito própria e coerente. Desse modo, a assepsia, a ordem e o tamanho dessa nave de cunho científico que nem possui equipamento bélico, formam o contraste perfeito para a arquiconhecida, apertada, claustrofóbica nave mineradora do filme de 1979. Da mesma forma, os pequenos sinais, as ilustrações dos novos monstrengos espalhadas ao longo da narrativa nos remetem ao Alien clássico sem nunca cair na armadilha de realizar uma mera repetição (o que seria um erro muito sério) (muito embora, Scott caia em outros tipos de armadilha, desperdiçando esse apuro visual).

Outro bom exemplo desse cuidado e atenção pode ser encontrado nas várias representações da cruz ou o modo como ela é filmada. Assim, a figura de um alien com os braços estendidos na posição de Jesus Cristo crucificado, ou a simplicidade enganosa do crucifixo da cientista crente, são muito mais impactantes e trazem muito maior significado do que as pseudo-discussões filosófico-religiosas dos personagens.

Reside nesses achados da representação visual, na exuberância sombria da direção de arte, o que há de melhor em ‘Prometheus’. Porque o roteiro é de uma indigência absurda.

Diálogos risíveis de tão ridículos, frases de efeito vazias, sem efeito algum, discussões bisonhas pretensamente intelectuais com a profundidade de um livro de ciências para crianças imbecis, argumentos tirados de algum panfleto das Testemunhas de Jeová… Ao ser perguntada se a descoberta dos tais ‘Engenheiros’ não invalidaria séculos da teoria darwinista, a cientista-chefe responde que não sabe, ‘Mas foi o que escolhi acreditar’. A frase remete à lembranças de infância da personagem (o que só é sabido pelo andróide e pelo espectador) mas no contexto do filme, naquele momento da discussão, e por não ser mais desenvolvida, sequer lembrada, a frase fica simplesmente solta, vazia, ridícula, infantil. Ainda mais vindo de quem se esperaria um nível intelectual e um conhecimento científico um tanto mais elevado. Em outro momento, ela é instada a abandonar o seu crucifixo, depois de comprovar que o DNA dos Engenheiros foi a origem do DNA humano. ‘E porque eu faria isso?’ ‘Ora, porque foram eles quem nos criaram, não foram?’ ‘Sim, mas quem foi que Criou a eles?’ Uau! Isso é que é argumento científico!

Aliás, esse é o conjunto de cientistas mais idiotas, irresponsáveis e inconsequentes que já vi em muito tempo. Diga: se em planeta desconhecido, onde até então não se descobriu ainda sinais de seres vivos, de repente aparece uma espécie de cobra naja alienígena no meio de um lodo muito esquisito e ela vai crescendo, ficando mais alta do que você, qual seria sua reação? A consideraria muito engraçadinha e até faria carinho na cabeça dela? Imagino que não. Eu não faria. Eles fazem. E não é preciso ter assistido nenhum filme Alien, não é preciso ter assistido nenhum filme de ficção científica ou de terror, para saber o que vai acontecer em seguida.

Ou então você é um cientista altamente respeitável em um planeta desconhecido repleto de possíveis doenças também desconhecidas e, de repente, percebe que está com sintomas de uma doença estranha, inesperada e Muito desconhecida. O que você faz? Vai correndo consultar sua namorada (que, por acaso, é médica) e faz todos os exames possíveis e imagináveis para tentar entender o que está acontecendo? Ou esconde os sintomas (inclusive de sua namorada médica, com quem acabou de fazer sexo na noite anterior) expondo todos os outros seres humanos a sua volta a uma toxina desconhecida, quem sabe mortal? Adivinhe o que esse cientista faz.

Mas, esses são exemplos bobos, simples tropeços, pois o problema é muito
mais estrutural. Não há personagens em ‘Prometheus’. Há somente tipos. A chefe durona e sem coração. O capitão da nave descolado e carismático. Os cientistas inteligentes deslocados da realidade imediata. O andróide que também possui suas dúvidas existenciais e um desejo secreto de ser humano (e que pode ser ou não uma grave ameaça aos demais). O cientista covarde e que vai ser morto logo. O cientista bobalhão (o da cobra alienígena) que vai ser morto logo. O resto da tripulação sem nome ou rosto e que estão lá somente para serem mortos logo. O longo tempo de exposição e o ritmo lento da primeira metade do filme não constrói suas personalidades, não faz com que os conheçamos, muito menos que nos importemos com suas vidas.

Os atores são bons, ótimos mesmo, e tentam dar o melhor de si, percebe-se isso, porém são atropelados pela insuficiência e indigência do material. A linda e excelente atriz Charlize Theron é a fria e loira representante da empresa financiadora da missão; tão fria, gélida, que é confundida como mais uma andróide. Idris Elba é o carismático capitão. Michael Fassbender protagoniza o andróide, consegue a melhor atuação em todo elenco ao imprimir vivacidade e interesse, para um personagem que, até onde entendo, não deveria exprimir nem vivacidade nem interesse, nem demonstrar sentimentos, muito menos ressentimentos… Noomi Rapace é a cientista-chefe crente que, na prática, substitui Ripley, a mulher forte e corajosa dos demais filmes Alien.

Se na primeira metade do filme (a parte da ‘reflexão’) o pior são os diálogos pobres e a falta de desenvolvimento dos personagens, na segunda metade é a parte da ação, do movimento acelerado, da caçada e fuga, da luta pela sobrevivência, das mortes tolas e divertidas, dos monstros gosmentos. Ridley Scott deixa de lado qualquer questão metafísica e parte pro pau. É quando os problemas da narrativa e os furos de roteiro tornam-se verdadeiras crateras.

Situações mal-explicadas, atitudes sem sentido, cenas confusas e mal resolvidas. Veja-se bem: todas são plasticamente bem montadas, visualmente bacanas. E acéfalas. Sem continuidade, sem explicações. São quase duas horas de filme e a dignidade e respeito que Scott tentou adquirir na primeira hora e meia (sem sucesso) se esfacelam na meia-hora final. Qual o sentido e o objetivo do androide Fassbender fazer um experimento em um ser humano com uma gota de sangue alienígena? Por que os ‘Engenheiros’ deixam tantos avisos e sinais se não queriam ser encontrados? Ou, se ao contrário, desejavam sim serem encontrados, porque esperar os humanos chegarem para só então tomar uma atitude que estavam prontos há séculos? Por que cargas d´água um dos cientistas mortos reaparece como zumbi?!

Por outro lado, dependendo do seu ponto de vista, é aqui também que aparece uma cena que pode ser categorizada, sim, como um momento Clássico de filme de terror trash, do mais puro gore: a auto-operação cirúrgica! De tão absurda e ridícula, de tão exagerada e nojenta, eu digo: merece ser vista!

E, por final, ‘Prometheus’ acaba a última cena do último diálogo com uma última frase-de-efeito idiota.

Ao reler o que escrevi acima, entendo que minha visão possa parecer um tanto pessimista… Então, para deixar a minha posição a mais explícita possível, faço-me a pergunta: considero ‘Prometheus’ um filme execrável, pior de todos, que faça o espectador sair xingando do cinema? E me respondo: Não, não considero. É uma obra interessante, visualmente deslumbrante que por vezes nos faz imergir naquele universo e, se você conseguir deixar o cérebro um pouquinho de lado, pode até ser divertida. Ainda mais, a direção de Ridley Scott, longe de ser brilhante, longe de ser genial, pelo menos segura os desastrosos problemas de roteiro. (Além do que, dificilmente algo poderia ser pior do que o atoleiro de ‘Aliens x Predador’!).

E, prepare-se: uma das únicas coisas que este roteiro fez bem feito foi de construir um universo paralelo coerente e independente dos demais da franquia ‘Aliens’. A linha dos ‘Engenheiros’ deixou ganchos óbvios para serem preenchidos. E, como o filme foi bem de bilheteria nos cinemas norte-americanos, então, logo, logo, aguarde-se: ‘Prometheus II’ e ‘Prometheus III’ e sabe-se lá o que vão aprontar.

Carlos Reichenbach

15 de junho de 2012

‘Alma Corsária’, de Carlos Reichenbach.

Filme que sempre me seduziu, impressionou e me envolveu em muitos níveis (estético, artístico, político, ideológico) desde que o assisti pela primeira vez, há muito tempo.

 

Duas imagens (abaixo) do meu filme mais injustiçado, GAROTAS DO ABC, em homenagem a Lang. Fala-se muito de meus filmes menores, mas este seja talvez o mais cinematográfico e radical de todos os que eu já realizei. É de todos que fiz (15, com FALSA LOURA) o de realização mais complexa e o de mise-en-scène mais sofisticada. O que melhor resolve a equação forma-conteúdo-síntese. As avaliações conteudísticas de praxe me dão asco. É o único dos meus filmes que eu mostraria, sem constrangimento nenhum, para Fritz Lang, Samuel Fuller ou Shohei Imamura. Sinto que vai acontecer com GAROTAS DO ABC o mesmo que aconteceu com LILIAM M.”  – Carlos Reichenbach

 

 

 

Entre Olhares de Cine, estes

1 de junho de 2012

 

 

 

Brigitte Bardot: um pequeno exercício de Olhar

31 de maio de 2012

Perceba-se que a percepção se dá em camadas. Brigitte Bardot, na parede e em pé.  Perceba-se mais: o que estamos a ver são pessoas que observam uma fotografia de Bardot ao lado de sua fotografia na parede. Desejo, ilusão e fantasia. Onde terminam uns e começam outros, eis a questão.

 

 

 

 

Olhares, e olhares, de Cine

23 de maio de 2012

Essa imagem necessita de uma contextualização pois sua inclusão nesta série de ‘Olhares de Cine’ tem um certo significado pessoal. Esta cena é do filme F.I.S.T., de 1978, o primeiro do Stallone após ter explodido com ‘Rocky’, e conta a ascensão de um líder operário que, para se proteger dos ataques, físicos inclusives, do patronato, acaba se associando com a Máfia que ‘empresta’ seus capangas para proteger operários em greve. Obviamente, o ‘empréstimo’ terá que ser pago e a associação com os mafiosos dura muito tempo.
Mais ou menos baseado em fatos reais da história do sindicalismo norte-americano, o filme acompanha o aumento da corrupção dos sindicatos até que, anos depois, chega um ponto em que o governo e as forças policiais interveem e começam a prender tanto os mafiosos quanto os sindicalistas corruptos, inclusive o presidente do sindicato feito por Stallone. É nesse ponto, quando fica claro que toda sua vida vai ser destruída, quando ele percebe que vai perder tudo, o dinheiro, as mordomias, a dignidade e talvez a própria vida, que esta foto retrata.
Lembro perfeitamente de quando o assisti pela primeira vez, em uma sessão noturna no corujão da globo, e ter ficado impressionado ao extremo, chocado até posso dizer, com o rosto de Stallone e com sua profunda, impressionante, inesquecível e atordoante expressão de peixe-morto. O mundo estava caindo aos seus pés e eu não conseguia identificar qual era o sentimento que ele tentava exprimir, se de tristeza, de raiva, ódio, dor de barriga ou sono.
Hoje, sou fã do cara, me divirto muito com seus filmes, e até reconheço um certo talento (seu monólogo no último Rocky em que ele dá uma lição de moral e de vida ao seu filho, é primoroso e muito bem executado). Mas demorou para conseguir me recuperar da imagem de peixe-morto de F.I.S.T.

KICK-ASS 2, confirmado. Enquanto não chega: Kick-Ass 1. Filme péssimo (com detalhes interessantes). Quadrinhos excelente (com problemas)

19 de maio de 2012

 

O retumbante sucesso do filme dos Vingadores (conscientemente preparado e construído, com certeza, mas duvido que até mesmo os produtores imaginassem que a resposta seria tão espetacular e lucrativa em tão pouco tempo) faz com que os superheróis entrem em definitivo na agenda das maiores produtoras de Hollywood e aticem a sanha por manter esse clima. Assim, além de garantir a continuidade dos filmes-solos dos principais personagens, como Thor, Capitão América e Homem de Ferro,  e a retomada do seriado do Hulk na televisão, há a ânsia por apresentar novos heróis que também caiam no gosto popular.

(O que não dá para entender é por que ainda não fecharam um filme só da Viúva Negra, heroína que já foi devidamente apresentada e repercutiu bem, com a superestrela Scarlett Johansson superdisposta e animada com a ideia, enquanto parecem estar adiantadas as negociações para um filme do Homem-Formiga!, personagem importante, sem dúvida, nos quadrinhos e para os Vingadores, mas uma nulidade total para quem não é acostumado a ler gibis).

Outra consequencia importante é a revitalização de personagens que haviam sido deixados de lado no cinema, como é o caso exato de Kick-Ass. O primeiro filme, produzido enquanto os quadrinhos originais ainda estavam sendo escritos e publicados, teve uma recepção bem morna (mal e mal se pagou; não foi um fracasso vergonhoso, mas não impactou) e, na prática, enterrou a possibilidade de continuações, apesar do esforço e desejo do do autor Mark Millar (que prosseguiu com Kick-Ass nos quadrinhos, sempre com vistas para uma futura adaptação) e o diretor Matthew Vaughn. ‘Os Vingadores’ mudou essa perspectiva, e Kick-Ass 2 será, afinal, realizado.

Vai levar um tempo para isso acontecer. Só para conciliar as agendas dos atores principais será um trabalho danado, já que todos cresceram bastante, em idade, tamanho e importância (e consequente remuneração). Chloë Moretz, peça fundamental na receptividade que o primeiro Kick-Ass recebeu, está demonstrando boa cabeça e independência na escolha dos trabalhos, alternando filmes de temáticas fortes com outros mais leves e de grande público, fundamentando uma carreira sólida.

Enquanto isso, pensemos exatamente qual foi o resultado do primeiro filme.

KICK-ASS. Filme: Péssimo (com detalhes interessantes). Quadrinhos: Excelente (com problemas)

Eu consegui me conter e segurar a leitura da obra original antes de assistir sua adaptação cinematográfica. Na verdade, já havia lido algumas páginas, mesmo porque não tinha a menor intenção de assistir ao filme, quando dois lances me fizeram pensar. Primeiro, de repente do meio da história surge uma menina (menininha, de dez, onze anos) que salta, corre, pula e mata bandidões de gangue. Não só mata, como espanca, baleia, esfaqueia, retalha e depois, calmamente, limpa a espada do sangue, guarda a pistola no coldre e vai se embora pela janela. O segundo lance foi ter assistido, espantado, o trailer do filme e ver essa mesma cena reconstituida com pormenores, inclusive com o sangue espirrando, as espadas revoluteando, a menina (menininha), a responsável. Não acreditei que aquilo pudesse ser possível.

E pensei lá com meus botões e teclas de computador: se eu continuar lendo, por melhor que seja o filme, e por mais fiel que consiga reproduzir o teor da novela gráfica, com certeza sempre terei uma pontada de decepção, pois ‘sempre poderia ser melhor’ ou ‘ainda mais fiel’, nunca será o que se poderia alcançar dentro da minha cabeça. Deixei de lado a revista, esperei pelo filme, para assisti-lo mais ‘puro’, com menos influência da obra, pois quero nesse texto acompanhar, na medida do possível, em primeiro lugar as pessoas que só foram ao cinema (já que ninguém é obrigado a gostar de ler revista em quadrinhos) e não leram ou nem lerão o gibi. Sobre a revista, farei um comentário no final.

O filme, então.

Para nos localizarmos com as pessoas que ainda não sabem do que se trata a história, um brevíssimo resumo. Dave Lizewski é um garoto médio. Adolescente médio, estudante médio, de classe média. Não é rico nem miserável, não é um cdf nem faz parte da turma do fundão, não é bagunceiro nem carola, e assim são também seus amigos mais chegados. Está apaixonado, obviamente, pela menina mais bonita da escola, que mais obviamente ainda, nem sabe que ele existe. Dave só sabe fazer bem duas coisas: se masturbar com sites pornográficos e ler revistas em quadrinhos de superheróis. É quando pensa que ele poderia ser um superherói. Porque ninguém pensou nisso antes? É só vestir um uniforme com máscara e sair por aí zoando bandidos. ‘

Superheróis têm superpoderes, idiota’, dizem seus amigos. ‘o Batman não tem superpoderes’, rebate. E afinal resolve seguir sua idéia. Pela internet, compra uma roupa superdiferente, faz uns malabarismos em frente ao espelho e, após uns poucos e porcos exercícios físicos, se sente preparado. Não tem habilidade alguma, nenhum tipo de treinamento, mas acha que pode enfrentar uns ladrões do bairro. Dave, aliás, não está nem um pouco preocupado com injustiças sociais ou em ajudar os fracos e oprimidos, o que ele quer é usar o uniforme e ver as pessoas apontando o dedo, admirados, dizendo ‘olha lá um superherói’. Bueno, em sua primeira ‘missão’, o que consegue é ser espancado, esfaqueado, abandonado à míngua e, para terminar, é atropelado.

Não morre, passa vários meses no hospital se recuperando, tem um monte de ossos substituídos por pinos de metal, o que diminui consideravelmente sua sensibilidade à dor (o que não deixa de ser, portanto, uma espécie de ‘superpoder’!). Sai do hospital, veste de novo o uniforme (o garoto está realmente obcecado) e ajuda um rapaz que está apanhando de uma multidão. Leva de novo uma surra, mas como não está sentindo dor, consegue ficar de pé. Essa luta é gravada por celulares por uma multidão que observava, curiosa, vai parar em blogs e sites e, de repente, KICK-ASS se torna uma sensação mundial. Era tudo o que Dave queria.

No entanto, o que ele não queria, nem sequer sabia, é que há vilões de verdade na área, como o chefe da máfia local, e há superheróis de verdade, que realizam seu trabalho na surdina e não fazem questão nenhuma de serem reconhecidos e famosos. A história segue, portanto, na linha de que todas essas vertentes vão se cruzar e fazer parte de uma grande confusão final.

ok. Até aí, segue realmente a história da revista até a parte onde eu havia lido, acrescentando ainda a apresentação da menina que está sendo treinada pelo seu próprio pai para ser uma superheroina, ela a Hit Girl, ele o Big Daddy.

Bueno, o filme consegue criar uma certa expectativa para o que vai acontecer. Os diálogos são ótimos, certeiros e divertidos, recheados de piadas que funcionam; a ambientação e a cenografia é calcada para criar uma sensação de naturalismo e realismo, e até um certo ponto, consegue isso. Os personagens são caricatos e rasos, não podemos nos identificar em nenhum momento com o personagem principal que é bobalhão demais, não conseguimos nem sentir pena dele, e ainda por cima, é pessimamente interpretado por Aaron Johnson, inexpressivo e sem graça.

Tudo melhora e a voltagem satírica do filme atinge picos tremendos quando aparece a dupla mais nonsense da face da terra. Chloe Moretz dá um show de carisma e versatilidade como Mindy, a Hit Girl, e o que ela faz em cena é de tirar o fôlego. Seu pai, o Big Daddy é feito pelo Nicolas Cage que nunca antes, eu simplesmente não lembro, esteve tão engraçado e simpático, enquanto ‘educa’ sua filha para suportar um tiro no colete à prova de balas ou usar canivetes incrementados ou experimentar pistolas de cano longo, e por aí vai. O filme vale por cada segundo em que um ou outro está presente. Por eles, o ingresso do cinema já está justificado.

E o filme não funciona.

Momentos engraçados por aqui; cenas de violência de mentirinha por ali; uma história chapada, entupida de clichês; roteiro que se anuncia como inovador ou até crítico no começo, mas que conforme avança se rende aos artificialismos mais rasteiros. E o final, ah, o final. Tão previsível e repetitivo, tão incolor… Claro, não vou dizer aqui, mas pelo meio do filme já se sabe como tudo vai terminar, que um personagem importante vai morrer e que isso vai servir para um crescimento mental e amadurecimento do herói, que o eixo do universo vai ser realinhado, que os bandidos são bandidos, e a coragem e a valentia serão recompensadas.

Acabei de assistir e fiquei matutando ‘Como é possível?’ e confesso que demorei a responder a mim mesmo. A história era a mesma (com as devidas e necessárias adaptações para servir como um produto cinematográfico, muitas das quais realmente indispensáveis); os personagens estavam plenamente caracterizados, a violência explícita presente…

Falemos dessa tal violência explícita, ‘excessiva’ como li em vários textos de críticos horrorizados com a brutalidade e o jorro de sangue e a falta de ‘moralidade’ (é verdade, alguém falou essa exata palavra). Eu li isso e tive que repensar o que acabei de assistir e me certificar de que estávamos a falar do mesmo filme. Se num primeiro momento as cenas de morte e tiroteio e luta até podem impressionar, basta relaxar um segundo e lembrar que há coisas muito piores (ou melhores, conforme o ponto de vista): somos contemporâneos do cinema de Quentin Tarantino, pombas! O melhor filme do ano passado foi ‘Bastardos Inglórios’ onde os ‘mocinhos’ escalpelavam e marcavam a testa dos nazistas. A violência e a morte e o sangue em Kick-Ass tem o mesmo peso e relevância do ‘Kill Bill’. Encenadas e coreografadas no estilo de ‘Matrix’. Com pausas e pedaços em câmera lenta, igualzinho do ‘300’, assim como teve em ‘Watchmen’ (e em vários outros).

Em suma, o problema de Kick-Ass não é o da violência em si, ou do sangue derramado, já que existe sim em quantidade, mas é sangue-de-massa-de-tomate e com a mesma dramaticidade. O que deve incomodar é justamente o ponto mais alto de todo o filme: o fato de que essa tal violência é executada, em sua grande maioria, por uma menina de 11 anos. Esse é o único ponto relevante, sua única ‘originalidade’. Chloe Moretz atira, soca, e fatia, com galhardia, destreza, carisma e um charme absolutos. Fora isso, o resto é inodoro, insosso, sem consequência ou importância, não deixa marcas (em determinada cena, Hit Girl também leva uma surra e quase morre; quando a cena acaba, ela tira a máscara, mostra o rosto e não existe um único hematoma!). Tire-se esse ‘detalhe’ da idade, maneire-se um pouquinho a linguagem, alivie-se uma ou outra cena um pouco mais forte, e Kick-Ass vira um mero filme de aventura meio cômico e até chatinho. E acabaria-se também qualquer necessidade de se assistir a ele. ‘Robocop’, de Paul Verhoeven, é um filme de 1987, passa na Sessão na Tarde, e continua infinitamente mais violento, forte, impactante e tão importante para a história do cinema agora como foi no lançamento. Kick-Ass, puff…

Ao nos voltarmos para a novela gráfica escrita por Mark Millar e desenhada por John Romita Jr, devemos fazer um giro mental de 180° e percebermos que aqui, sim, a violência tem um sentido e uma força. Sentido objetivo, claro, narrativo, gráfico.

Há dois níveis que precisam ser considerados: o do cotidiano besta, simplório, chato e plano. Da realidade da qual Dave anseia se libertar e a qual podemos inclusive identificar como igual a nossa e fazermos uma conexão com o personagem. Podemos assim até entender sua atitude e saber que ele vai se ferrar, pois somos assim e se estivessemos em seu lugar, nos ferraríamos da mesmíssima forma. É que, em geral, possuímos um certo senso de simancol do qual o personagem parece não sobrar nada e não vestiremos uma fantasia qualquer para caçar bandido no meio da noite, pois sabemos muito bem o que vai nos acontecer. Quando se formaliza esse grau de aproximação entre o leitor e o personagem, quando sabemos da idêntica impossibilidade de mudar uma realidade pesada e dura, é aí que se torna tão chocante e inacreditável o aparecimento de Hit Girl e Big Daddy. Quando se estabelece que, afinal humanos somos e não existem superheróis, eis que eles aparecem!

Esta sensação insofismável da presença bruta da dupla é tão forte que uma das minhas cenas preferidas é quando eles aparecem subitamente no quarto de Dave, logo depois da chacina dos traficantes de droga da região. Ele, sentado na beira da cama, desconsolado, ciente de que é, afinal, um merda e que nunca, nunca!, havia cogitado em matar alguém e já pensando em aposentar o seu bobo Kick-Ass e contente de que nunca mais veria aquela menina mortal e o grandalhão que a acompanhava… A cara dele ao ver Hit Girl e Big Daddy no seu próprio quarto é demais!

A violência é brusca, visual, gráfica, potente. O trabalho de Romita é insuperável, sentimos o sangue espirrar no nosso rosto, ele tem peso, sentimos sua presença. Ao executar uma vítima, o bandido encosta o revólver na nuca e dispara, e o momento da explosão preenche metade da página. Mas a morte (e sua visualização extrema) não é gratuita, tem a ver com a importância da personagem que está morrendo e sua relação com Kick-Ass e com o leitor. Ao ser capturado e torturado pelo chefão da máfia, no filme, Kick-Ass é espancado. Na HQ, é eletrocutado, com o fio preso no saco.

Claro, para poder produzir até mesmo esse produto pausteurizado, o diretor do filme Matthew Vaughn teve que pastar muito, não conseguiu apoio de nenhuma grande produtora (com medo de tocarem nessa história ‘complicada’) e foi obrigado a por dinheiro do próprio bolso. No entanto, não estou sugerindo que ele pudesse transcrever diretamente o quadrinho da novela gráfica (embora, na minha opinião, ele devesse pelo menos tentar). A questão não é somente visual, é de conceito. Vaughn pretendeu, e foi o que realizou, um produto pop, levemente mais violento do que a média dos filmes, que fizesse sucesso na garotada norte-americana. Millar e Romita provaram, ao contrário, que era possível fazer uma história de teor cínico e niilista, bem montada e narrada, e sem concessões.

A novela gráfica, no entanto, não está privada de defeitos. A premissa é bacana e muito interessante, a construção dos personagens é irretocável (como o filme nem chegou perto de fazer) e as cenas são tremendamente bem feitas. O roteiro é um problema. Pela metade da história, a impressão que passa é que Millar estava meio perdido com o encaminhamento da ótima premissa apresentada e não sabia saber exatamente o que fazer com ela. Correu uma história na época quando os volumes da HQ estavam sendo lançados de que Millar, em verdade, estava demorando muito para entregar o texto e que teria havido um considerável atraso por conta disso. Inclusive, o final parece-me que foi o mais demorado a ser publicado. Não sei. Perdi a referência de onde li isso, portanto, não sei se é verdade ou se estou somente repassando uma fofoca, mas para ser sincero não me admiraria. Um detalhe concreto é o fato de que, quando o filme começou a ser rodado, o último volume da série ainda não havia sido publicado. O que faz com que os respectivos finais e conclusões sejam responsabilidade direta de cada um e completamente independente um do outro. E o final da HQ, ah, o final…

Se ele, o final, realmente demorou a ser publicado, se o meio da série é meio complicado, não importa. A conclusão de Millar é primorosa, e profundamente coerente com a premissa e a idéia original da história como um todo. Um belo final para um ótimo trabalho.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente em meu antigo site

Hedy Lamarr e ‘Ekstase’: o primeiro grande escândalo do cinema

16 de maio de 2012

 

Eva Hermann está sozinha e completamente à vontade em um banho no lago quando percebe que uma pessoa (um homem a cavalo) se aproxima e, pior, suas roupas não estão ao alcance. Ela corre, se esconde atrás de uns arbustos, e espera passar desapercebida, mas não consegue. Ele a notará, brincará com a situação e ao final lhe passa as roupas.

Depois, já vestida, ela o conhecerá direito, e se apaixonará, o que lhe possibilita uma retomada de uma vida com sentido, uma alternativa para o casamento fracassado com um marido negligente e potencialmente violento.

A nudez, embora perceba-se seja total, é somente entrevista em cena rápida. Isso é bem suficiente para um bom escândalo, mas há mais: a própria história é imoral, por essência: trata dos desejos sexuais de uma mulher, deixada insatisfeita pelo marido, e que encontra o prazer fora do casamento, e por conta disso, até procurará se libertar da situação através de um divórcio! Mais para frente, o filme insinua que Eva está se masturbando. E em outro momento, em uma cena de sexo, seu rosto em close transmite o prazer que está sentindo e suas mãos se agitam, se abrem, se fecham, se mexem rapidamente, se fecham com muita força e de repente param e se acalmam. Em outras palavras, também pela primeira vez, percebemos que ela acabou de ter um orgasmo!

O filme se chama ‘Êxtase’, do diretor Gustav Machatý, e a atriz é uma jovem austro-húngara que se radicará nos Estados Unidos com o nome de Hedy Lamarr e será adotada por Hollywood, impulsionada, obviamente, pelo impacto de sua imagem como mito sexual. Sua carreira, no entanto, será construída solidamente, muito além de ‘escândalos’ passageiros, e ficará reconhecida como uma das atrizes mais bonitas de todos os tempos, e uma mulher com forte personalidade independente e invulgar.

‘Ekstase’ é de 1933. Filme mudo e preto-e-branco, com temática séria e produção solene, com boa direção e atores competentes. Ano que vem bem que merece um post especial pelos oitenta anos; por enquanto, não deixa de ser deprimente notar o quanto a ‘civilização’ moderna e avançada é tão retrógrada e se libertou tão pouco de suas amarras hipócritas e mesquinhas.

Quase oitenta anos!, e ainda hoje, mesmo nas artes, no cotidiano, e mesmo em redes sociais pela internet, é impressionante o quanto ainda é escandaloso quando se entrevê o bico de um seio.

 

 

Estes Olhares, Olhares, de Cine

15 de maio de 2012

‘Memórias do Subdesenvolvimento’: Apontamentos para uma discussão sobre revolução, cinema e história.

10 de maio de 2012


As pontas do fio

Com este artigo não me proponho a resolver algumas antigas questões sobre a relação cinema-história, apenas apontar algumas pistas. O ‘filme como documento histórico’, o ‘documentário como representação da realidade’, o ‘filme-ficção como um reflexo direto da situação histórica do momento que a produção foi realizada’, a ‘subjetividade e o predomínio do diretor como realizador pleno e “dono” absoluto do produto fílmico’, a ‘preponderância da equipe como o verdadeiro realizador geral do filme por cima da figura de uma única pessoa’, ‘cinema de autor’, ‘cinema de estúdio’, ‘filme ideológico, progressivo e revolucionário’, ‘filme de diversão e alienante’… Seria relativamente fácil multiplicar as questões, mas acredito que essas podem dar um bom resumo do tamanho do problema.

Em qualquer filme, de qualquer estilo ou tendência, pode-se fazer essas reflexões, desde um filme brasileiro paulista da velha tradição da Boca do Lixo ao mega-star produto hollywoodiano. O cinema latino-americano carrega em si as marcas de suas dificuldades pelo simples fato de tentar existir e sobreviver. A questão financeira não é a única, mas certamente cobra um pesado tributo.

A escolha de ‘Memórias do Subdesenvolvimento’ de Gutierrez Alea foi tomada por nele estarem contidas, no seu mais alto grau, todas essas questões da forma mais explícita possível. Essa explicidade é tamanha e seu didatismo é de tal modo que até precisamos tomar cuidado para não cair em simplismos e aparentes facilidades. “Facilidades” que ficam claras, por exemplo, logo no formato escolhido por Alea: Memórias… é um filme de ficção que mistura cenas documentais, discussão política e ideológica, realizado durante o auge da tentativa de invasão norte-americana na Baía dos Porcos.

Um exemplo de perigo simplista seria considerar o cinema cubano como tendo nascido a partir somente da revolução de 1959. Isso é verdade. E, ao mesmo tempo, não. É lógico que a situação muda radicalmente com a tomada do poder, inclusive com a implantação de uma verdadeira estrutura cinematográfica nacional e a formação de uma escola cinematográfica. No entanto, não se pode esquecer, e desconsiderar, algumas tentativas anteriores de realizar filmes.

Isso é muito fácil de visualizar no seguinte quadro:

A PRODUÇÃO DE LONGAS-METRAGENS NA AMERICA LATINA

ANO ARGENTINA BRASIL CUBA MÉXICO
1930 9 18 3 1
1931 4 17 0 1
1932 2 14 0 6
1933 6 10 0 21
1934 6 7 0 23
1935 14 6 0 22
1936 15 7 0 25
1937 28 6 1 38
1938 41 8 2 57
1939 50 7 5 37
1940 49 13 4 29
1941 47 4 1 37
1942 56 4 1 42
1943 36 8 3 70
1944 24 9 0 73
1945 23 8 0 82
1946 32 10 3 72
1947 38 11 1 58
1948 41 15 1 81
1949 47 21 2 108
1950 57 20 10 124
1951 54 22 3 101
1952 35 34 6 98
1953 39 29 6 83
1954 45 25 5 118
1955 43 28 4 89
1956 36 29 6 98
1957 15 36 4 102
1958 32 44 6 136
1959 23 34 0 113
1960 31 34 2 114
1961 25 30 2 71
1962 32 27 2 81
1963 28 32 4 83
1964 37 27 7 108
1965 30 33 4 105
1966 33 28 2 100
1967 28 44 4 64
1968 32 44 4 80
1969 30 53 1 63
1970 28 83 2 94
1971 35 94 4 101
1972 32 70 6 84
1973 39 54 8 71
1974 38 80 8 54
1975 32 89 5 90
1976 21 84 7 97
1977 21 73 8 94
1978 22 100 6 95
1979 31 93 5 78

Fonte: Paranaguá, Paulo. Cinema na América Latina, longe de Deus e perto de Hollywood. Porto Alegre: L&PM, 1985.

O que desejo destacar com esses números é o fato de que, apesar de não ter havido nenhum boom por causa da revolução, houve um incremento na produção cubana. Isto é, houve, sim, filmes pré (é obvio que não se compara com a impressionante quantidade dos outros países; o exemplo do México é chocante para quem vê essa lista pela primeira vez) (para mim, foi). Além disso, Paulo Paranaguá lembra que, antes da fundação do importante Instituto Cubano da Arte e da Indústria (icaic) em 1959 (em uma franca demonstração da preocupação dos revolucionários em cultivar uma cultura cinematográfica), já havia o Instituto Nacional para o Fomento da Indústria Cinematográfica, fundado em 1955 pelo próprio Fulgêncio Batista! E, enquanto no Brasil o cinema entra no currículo de nossas universidades em 1965, em Brasília, e em 1966 em São Paulo, em Cuba isso aconteceu em 1942, na Universidade de Havana, através de um “estatuto intermediário entre o currículo e a atividade de extensão cultural”.

Por outro lado, talvez o mais importante seja considerar os tipos de filmes produzidos anteriormente. O próprio Gutierrez faz uma panorâmica em seu longo depoimento para Silvia Oroz:

Por volta dos anos cinqüenta, em Cuba, não havia a menor possibilidade de se fazer um filme sério. Nem existia uma indústria do tipo da mexicana ou da argentina, que possibilitou a realização de produtos mais ou menos vulgares, mas rentáveis. Com freqüência vinham produtores do México – e às vezes dos Estados Unidos – filmar aqui. Exploravam a Cuba folclórica – país de rumba, mulatas e muito jogo. O resultado da bilheteria era atrativo. A única coisa que se produzia periodicamente eram os noticiários semanais, que faziam dinheiro com chantagem sobre comerciantes e políticos“.

Outro ponto é a condição de classe de um realizador de cinema: por excelência, pequeno-burguesa. Referindo-se ao cinema brasileiro das décadas de 1950 a 1970, Jean-Claude Bernadet fez questão de ressaltar: “É a classe média que é responsável pelo movimento cultural brasileiro“. E mais adiante: “Quanto às classes que trabalham com as mãos, operários e camponeses, ainda lhes faltam consistência e bases suficientes para elaborar uma cultura que não seja folclórica. Pode acontecer que elementos das classes operárias ou camponesa se tornem artistas, mas são sempre indivíduos isolados, cuja produção é logo consumida pela classe média, à qual passam a se dirigir e pela qual são absorvidos”.

Por incrível que pareça à primeira vista, Gutierrez concorda com isso:

Ainda hoje pode-se dizer que o cinema está marcado por sua origem de classe. Apesar de, na sua curta história, ter tido momentos de rebeldia, de buscas e de autênticas conquistas como expressão das tendências mais revolucionárias, o cinema continua sendo em grande medida a encarnação mais natural do espírito pequeno-burguês que animou seu nascimento há apenas oito décadas. [O cinema] rapidamente se fez popular, não no sentido de ser a expressão do Povo, dos setores mais oprimidos e mais explorados por um sistema de produção alienante, mas porque conseguiu atrair um público indiferenciado, majoritário, ávido de ilusões“.

Isso é real tanto quanto em um cinema revolucionário. Gutierrez Alea era advogado formado, embora nunca tenha exercido a advocacia (um de seus colegas de estudo já era um agitador desde os tempos de estudante, Fidel Castro). Isto é, ele não era um operário, alguém que se associava às “classes que trabalham com as mãos”.

Movimentos sociais em ebulição, do qual a revolução cubana é um reflexo, aglutinador e agitador; constituição pequeno-burguesa de classe para os realizadores. Falta a questão estética. Neste caso, a eclosão dos movimentos cinematográficos chamados “Cinemas Novos”: é o momento da Nouvelle Vague francesa, do Cinema Novo brasileiro, do Neo-Realismo italiano, grandes explosões de criatividade que tentam se contrapor ao poderio econômico industrial do modelo norte-americano. Arte e política se encontram como nunca: não é demais lembrar que Memórias do Subdesenvolvimento foi lançado em 1968, justo o ano das grandes rebeliões estudantis.

Gutierrez Alea, assim como toda a tradição da primeira fase do Cinema Novo brasileiro e boa parte dos latino-americanos, é depositário da linha neo-realista italiana. Tanto pelas precárias condições financeiras quanto por opção estética. Utilização de atores não profissionais, ou simplesmente pessoas que nunca atuaram, locações reais, som direto, enredos tirados do cotidiano. O Neo-Realismo, surgido nas cinzas da Segunda Guerra em uma Itália destruída e em reconstrução, é o contraponto perfeito para uma Cuba surgida das cinzas da revolução.

Pré-MEMÓRIAS

Em 1968, Gutierrez já era um diretor consagrado. Antes da revolução, havia participado de algumas produções, documentários e algumas comediazinhas de costumes, todos curtas-metragens. Em 1951 viaja para Roma a fim de estudar Direção de Cinema no Centro Sperimentale di Cinematografia, onde ficou durante dois anos. De volta a Cuba, produz em 1954 um pequeno documentário sobre as condições de vida dos carvoeiros na região de Zapata, ao sul de Havana. O filme teve temporada de um dia: foi apreendido pela polícia de Batista no dia seguinte à sua estréia.

Com a revolução, Gutierrez acumula as funções de administrador com a fundação do icaic. Tanto ele quanto seus companheiros precisam aprender a fazer cinema sem praticamente nenhum recurso. Essa “aprendizagem” se concretiza em 1960 com o longa ‘Histórias de la Revolución’ que, na verdade, são três curtas juntos, cada um com uma proposta diferente. O primeiro conta a história de um casal que está em dúvida se abriga um revolucionário perseguido pela polícia. O segundo é um episódio da guerrilha, contado por Che Guevara, a respeito de um grupo de guerrilheiros que precisa decidir o que fazer com um correligionário que está ferido e não pode acompanhá-los. E o terceiro trata, em estilo plenamente documental, de um episódio da guerra revolucionária chamado “A Batalha de Santa Clara”, em que o personagem principal não é uma pessoa, mas todo o povo que participou dessa batalha. Até hoje o frescor e a qualidade de Histórias de la Revolución impressionam (é melhor até mesmo que alguns filmes que lhe seguiram).

Alea vai alternando curtas e longas documentários e de ficção. Em 1966, realiza seu segundo grande filme: ‘La Muerte de un Burocrata’. Um operário exemplar, ao morrer em um acidente de trabalho, acaba enterrado junto com sua carteira de trabalho. Para conseguir o pagamento da pensão, a viúva e seu sobrinho precisam dos documentos. Ora, o corpo não podia ser exumado antes que se passassem dois anos do enterro. O sobrinho resgata o corpo por meios próprios (e impróprios), mas quando tenta enterrá-lo novamente esbarra no burocratismo do administrador do cemitério, que exige os documentos da exumação que, obviamente, não existem. Em uma grande comédia de humor negro, o corpo vai e volta várias vezes, até que o sobrinho resolve acabar com o problema no seu sentido literal, isto é, tenta matar o administrador.

Algumas conclusões prévias já se impõem neste momento: em primeiro lugar, a importância dada ao cinema pelos revolucionários é enorme; a fundação do icaic foi a primeira medida tomada pelo governo no âmbito cultural. Uma decorrência disso é o objetivo de se alcançar um pensamento e práticas revolucionários por dentro do cinema que não passe pelo simples panfleto político. O modelo fechado e obtuso do cinema soviético do Socialismo Real é prontamente rejeitado. E, o cinema cubano é mesclado por um profundo respeito pela revolução em si, mas não se abstém em momento algum de fazer críticas ao sistema. Ao contrário. Em outros filmes, inclusive, Alea vai mais fundo como quando trata do assunto tabu, o homossexualismo, em Morango e Chocolate, de 1993, ou quando volta a tratar da burocracia, agora em um contexto de forte crise econômica e mercado negro dominado pela presença do dólar, no seu último filme, Guantanamera, de 1995.

A busca por um novo cinema, assim, não se separa de uma lucidez e tranqüilidade políticas.

A Morte de um Burocrata foi um enorme sucesso, recebeu vários prêmios e foi muito assistido. Esse sucesso permitiu a Alea desenvolver sossegado a idéia do Memórias….

A maturidade de MEMÓRIAS DO DESENVOLVIMENTO

Cláudio Aguiar de Almeida em ‘O Cinema como Agitador de Almas’ faz uma análise do período de Getúlio Vargas através de um filme ficcional chamado ‘Argila’. Cláudio argumenta que é possível fazer essa análise e procurar os fundamentos ideológicos do Estado Novo em um filme de ficção da mesma forma e com a mesma profundidade do que ao tratar dos filmes-jornais da época financiados diretamente pelos órgãos estatais. É interessante observar como Cláudio Aguiar estava praticamente sozinho em sua tese, na época (pelo menos entre os intelectuais brasileiros):

“… os filmes de longa-metragem, produzidos nas décadas de 30 e 40, são muito significativos para a compreensão deste momento, expressando valores e ideais debatidos por amplos setores da sociedade brasileira no período. O caráter ‘popularesco’ de grande parte dessa produção, não nos parece suficiente para descaracterizá-la como uma documentação irrelevante para a análise do regime varguista: a adaptação de métodos, meios e mensagens ao público que se pretende atingir, constituem fator indispensável ao sucesso da propaganda política, que busca sempre adequar-se às necessidades das massas que pretende atingir. Grande parte das produções do período escondem, sob a aparente simplicidade de seus enredos melodramáticos, uma complexa estratégia propagandística que, sem pretender espelhar a realidade, buscou influenciar as massas para sua adesão aos ideais defendidos pelo Estado Novo“.

A citação foi um tanto longa, mas para os objetivos deste texto é completa. E suficiente para destacar a importância (e a fama) do formato do documentário junto com as possibilidades analíticas de um filme de ficção.

‘Memorias del Subdesarrollo’ carrega esses dois movimentos. Começa com cenas documentais de julgamento de militares pelos tribunais revolucionários e termina com a visão de tanques cubanos se dirigindo para a defesa da Baía dos Porcos. Entre esses dois pólos demarcatórios, o enredo trata de um intelectual pequeno-burguês, Sergio, que decide continuar vivendo em Cuba mesmo quando todos os seus familiares e amigos fogem da revolução e vão se esconder nos Estados Unidos. Sergio fica sozinho, tentando de alguma forma manter o mesmo ritmo de vida, com uma pretensa atitude cínica e desprendida, do alto da sua cultura e de seu conhecimento em contraposição ao “subdesenvolvimento” (mental, técnico, intelectual, econômico) que o cerca. Os choques são inevitáveis e as contradições também. Ele quer se manter isolado enquanto o mundo ao seu redor pega fogo. Se em um momento ele renega a nova ordem quando esta impede que continue a se beneficiar dos rendimentos das propriedades de sua família, por outro lado ele ganha um processo contra uma família que pretendia responsabilizá-lo pela sedução da filha mais jovem e menor de idade.

Dessa forma, Sergio não está mais no seu antigo e protegido mundo nem pertence e não aceita as novas prerrogativas. Ele não se adapta nem quer tentar.

Toda a riqueza do trabalho intelectual, artístico e político desenvolvida durante anos por Alea está aqui no seu auge: o lado subjetivo e o objetivo, o pensamento e orientação documentais de retratação de uma realidade contraposta e, ao mesmo tempo completada, pelo ficcional do incômodo da falta de adaptação de um pequeno-burguês a essa mesma realidade, tudo isso conduzido por meio dos pensamentos íntimos de um personagem, sem descurar de experimentações fílmicas como, por exemplo, diferentes enquadramentos para cenas de teores diferenciados.

A realização do filme é, em si, exemplar. Baseado em um livro de Edmundo Desnoes, tinha, portanto, uma linha mestra, um fio de história. O roteiro, no entanto, nunca foi rígido, foi sendo construído ao longo das filmagens, o que permitia a inserção de insights reais que se acoplavam ao filme com naturalidade.

Um exemplo disso foi quando Sergio está caminhando em uma rua e, de repente, se vê envolvido no meio de uma multidão festiva e saltitante. O contraste entre as pessoas alegres e Sergio taciturno e irritadiço é flagrante. Alea conta que essa cena surgiu por conta de um erro infantil da equipe. Eles pretendiam filmar a ida de Sergio a um banco para retirar dinheiro. Acontece que o dia escolhido para a filmagem foi um primeiro de maio, isto é, simplesmente um feriado no qual todas as repartições estavam fechadas. Para não perder o esforço, perceberam que havia aquela aglomeração e começaram a filmar um Sergio caminhando às cegas em direção à multidão. O resultado foi plenamente coerente.

A inserção de trechos documentais contrabalançou os planos objetivos e os subjetivos.

“… intercalamos cenas de documentários, quando a trama permitia, e testemunhos filmados com a câmera oculta, para estabelecer uma relação mais direta com a realidade. Ou seja: partíamos do mais subjetivo para aquilo que o cinema mais pode dar, em sua capacidade de aproximação com a realidade mais imediata. Isso criava também a possibilidade de diversos planos de leitura, e de constante julgamento do personagem. Embora o recurso fosse complexo, nos permitia observar de forma verdadeiramente crítica aquilo que nos rodeava, inclusive a nós mesmos.”

Esta última frase é tão importante que se torna necessário mais uma citação para terminarmos este trabalho. Silvia Oroz comenta que Alea “incorporou, à crítica pequeno-burguesa do protagonista, a autocrítica, partindo de dentro”. Alea concorda: “Não é um filme que critica de fora, como o personagem. A crítica que fizemos nos compromete – já que estamos dentro – portanto é, em boa medida, uma autocrítica, dirigida a um espectador a quem queremos questionar para que assuma a mesma atitude”.

E, com isso fecha-se um círculo: o cinema não somente como comentador de uma realidade externa, mas sobretudo um questionador das motivações internas do realizador e, por conseqüência, da pessoa que estiver assistindo.

E, além de tudo isso…

… Memórias do Subdesenvolvimento funciona como diversão. É muito bom de ser assistido.

As linhas de todos os questionamentos propostos no começo do trabalho estão colocadas no filme de Alea. Elas se cruzam, convergem, dialogam, se contrapõem, fundem-se. Como foi dito também, é possível encontrar em qualquer filme essas linhas e possibilidades de discussão. Não é demais frisar: qualquer filme. A diferença em relação ao filme de Alea, mesmo em comparação com outras obras suas, é que essas linhas estão didática e claramente demonstradas.

Faltariam alguns aspectos que precisam ser mais bem trabalhados e aprofundados como a história política de Cuba, o advento detalhado da revolução e suas conseqüências imediatas; uma sistematização do sistema de produção cinematográfica cubana e latino-americana; aspectos pessoais da pessoa de Gutierrez Alea, seus colaboradores e os diversos outros realizadores cubanos (uma linha inevitavelmente problemática e polêmica, mas indispensável).

O problema fica então, e tão somente, explicitado.

BIBLIOGRAFIA

ALEA, Tomás Gutierrez. Dialética do espectador. São Paulo: Summus Editorial, 1984.

ALMAS, Cláudio Aguiar de. O Cinema como “agitador de almas”: Argila, uma cena do Estado Novo. Tese (cópia xerográfica), 1993.

BERNADET, Jean-Claude. Brasil em tempo de cinema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

Cubacine, Portal del Cine Cubano: < www. cubacine.cu>.

NÓVOA, Jorge. Apologia da relação cinema-história. In Olho da História, revista do Núcleo de Cinema e História, Universidade Federal da Bahia.

PARANAGUÁ, Paulo. Cinema na América Latina, longe de Deus e perto de Hollywood. Porto Alegre: L&PM, 1985.

OROZ, Silvia. Gutierrez Alea, os filmes que não filmei. Rio de Janeiro: Anima, 1985.

SOARES, Mariza de Carvalho & FERREIRA, Jorge (Orgs.) História vai ao Cinema. Rio de Janeiro: Record, 2001

(texto publicado originalmente em 2008, revisto e atualizado)

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Olhares de Cine, Estes

8 de maio de 2012

 

 

 

The Magus: Michael Caine e Anthony Queen se digladiam em clássico filme pseudofilosófico

30 de abril de 2012

 

Finalmente, depois de muitos anos, assisti neste final de semana outro filme antigo que, por um motivo ou outro, sempre deixava de lado. THE MAGUS, um filme inglês de 1968, com estrelas absolutas da época: a sempre severa e forte interpretação de Michael Caine, a esfuziante presença de Anthony Queen, a beleza exótica da francesa Anna Karina e a Candice Bergen.

Baseado em uma obra de Jonh Fowles (autor de outros livros clássicos, como ‘O Colecionador’ e a ‘A Mulher do Tenente Francês’, todos igualmente adaptados para o cinema), este filme nunca estourou, nem determinou as carreiras destes atores e atrizes, e com o tempo foi adquirindo uma aura de Cult, e lembro que fazia um bom burburinho nas salas de cineclubes paulistanos na década de 80.

Tal como fiz quando assisti ‘Uma rua chamada Pecado’, fui ver ‘The Magus’ com a expectativa bem baixa, para não me decepcionar em demasia, caso o tempo tivesse sido cruel para com o filme e tivesse elevado demais minha ansiedade. O que descobri foi um filme complexo e talvez pretensioso.

Na história, Michael Caine é um professor contratado para dar aula em uma aldeia localizada em uma ilha grega, substituindo um colega que, ele descobre, havia se suicidado há pouco. Na ilha, é recebido pelos ‘donos’ do lugar, um casal misterioso, protagonizado pelo Anthony Queen e a linda Candice Bergen, com aparentes poderes mediúnicos (ou simplesmente malucos de pedra). Caine, sem perceber, vai sendo sugado por uma espécie de jogo estranho, que mistura os antecedentes nazistas da época da Segunda Guerra, e elementos mítico-religiosos, mitologia grega, voyerismo e sadismo.

Poderia ser chamado de uma fantasia adulta com toques míticos e filosóficos, só que com sotaque e ritmo britânicos. Apesar desse enredo fantasioso, o filme não se decide exatamente entre ser um suspense gótico, um terror psicológico ou um drama histórico com toques fantásticos. A narrativa é lenta e pausada e, mesmo em momentos mais dramáticos, se mantém em absoluto tom sóbrio.

Algumas pessoas, talvez a maioria, podem considerar ‘The Magus’ um filme chato e sem sentido. O que eu digo é o seguinte: Que filme-mais-chato-da-Porra! Que puta perda de tempo! Ou ‘eu demorei tanto tempo para assistir a ISSO?’ ‘Pretensioso’ é pouco: é uma pura salada indigesta que mistura um monte de coisa que não leva a lugar nenhum e ainda posa de filme intelectual inteligente pseudofilosófico.

E agora que afinal o assisti, posso com toda tranquilidade esquecê-lo.