Posted tagged ‘brigitte bardot’

Feicibuque, Sexo e Censura

14 de setembro de 2012



A primeira imagem foi uma foto clássica do século 20, muito conhecida e publicada várias vezes inclusive no Facebook. Em 1974, durante uma aula de fotografia e erotismo ministrada por Imogen Cunningham, a aluna Judy Dater focaliza a professora junto da modelo nua Twinka Thiebaud. Milhares de definições e interpretações e histórias são possíveis e foram feitas a partir desta fotografia, das mais cruas às bizarras, inclusive místicas, o que só prova que ela comporta inúmeras camadas. Prefiro a primeira sensação que eu tive: a brincadeira, a ironia, o bom humor tirado do constraste entre as duas mulheres, entre o nu e o recato, entre a liberdade e a contenção. Praticamente um comentário sobre a reação das pessoas em geral ao erotismo.

A segunda imagem que tive censurada no Feicibuque foi a que apresentei para o Dia do Nu organizado pelo poeta Claudio Daniel: uma cena do filme ‘Don Juan ou Si Don Juan était une femme…’, com Brigitte Bardot e Jane Birkin, ícones e musas do cinema e da beleza feminina, deitadas juntas completamente à vontade. Para amenizar o preto-e-branco da imagem original que eu tinha, acrescentei um tom azulado fazendo com que, na minha opinião, a imagem ficasse ainda mais bonita e delicada, suave, sem nenhuma agressividade.

Logo em seguida, outra cena de filme apagada sem apelação e que me proporcionou mais alguns dias de ‘castigo’. De ‘L’Apollonide – Souvenirs de la maison close’, vê-se várias mulheres se arrumando, trocando de roupa, em um cenário do que parece ser um casarão vitoriano. A iluminação pastel, os corpos lânguidos e sem pressa, remetem diretamente à imagens de quadros do final do século 19, o que foi a óbvia intenção do diretor do filme, com belo resultado.

Há dois pontos principais a se tirar dessa lógica censitória exercida pelo Feici: um matemático e um social, que refletem não somente as idiossincracias de um milionário garoto norte-americano (até há pouco tempo) bastante virgem, mas igualmente as da sociedade em que vivemos. E os dois pontos dão medo.

O matemático tem a ver com o desenvolvimento da tecnologia, com o reconhecimento eletrônico de imagens por dados de computador que possibilita, por exemplo, mais rapidez e eficiência no reconhecimento de pessoas em documentos oficiais, ou a busca de detalhes e melhor organização de arquivos imagéticos. Já é possível fazer uma programação onde se lance um dado específico (imagens de seios ou pênis, por exemplo) e rastrear tudo o que relacione ou se assemelhe. Embora ainda não funcione com toda a potencialidade que se deseja (principalmente com base de dados tão extensa e pesada como a proporcionada pelos usuários feicibuqueanos), mesmo assim já possibilita a existência de sites que fazem busca de imagens pela web do mesmo modo como o google o faz através de palavras.

O social é mais preocupante. Porque estamos falando de uma sociedade que está sabendo mexer com altas e refinadas tecnologias científicas e possui, ao mesmo tempo, uma mentalidade moral e psicológica da Idade Média. Que tem medo da palavra Corpo e do que ela implica. Que concebe os mais avançados e práticos modelos de roupas e uniformes para todos os esportes olímpicos, mas não tem certeza se permite a participação de mulheres no Atletismo ou nadadoras de maiô (ou somente se estiverem de burca). Que amarga centenas, milhares de anos, de repressão religiosa e regimes políticos intolerantes fazendo com que os traumas e os recalques acumulados por tanto tempo explodam continuamente; observamos isso a todo momento e, pior, sem solução de continuidade à vista. Uma sociedade que planeja e organiza ir à Marte e ainda não sabe lidar com o orgasmo feminino.

Estamos no século 21 e o Nu ainda é encarado com constrangimento, com falta de sentido, como provocação. Como Imoralidade.

A contradição hipócrita moralista de uma sociedade doente e recalcada é ainda mais chocante (exposta e visível) em um ambiente tão pretensamente livre como as redes sociais da web. Pois os algoritmos matemáticos e o preconceito são cegos e burros e não distinguem Seios ou Sexo como Pornografia da Arte ou da expressão livre do ser humano. São Seios. E Sexo. E para o recalcado moralista com traumas mentais escondidos é tudo feio, inumano, deve ser proibido e censurado pois, já que eles não o praticam, ninguém mais deve praticar.

 

 

texto integral, publicado pela revista eletrônica de poesia e debates, ZUNÁI, capitaneada por Claudio Daniel, para um especial de discussão sobre a censura ao Nu no Facebook. O especial ( “A Beleza será convulsiva – A Subversão da nudez no Facebook“), organizado pela poeta Célia Musilli, reuniu textos e depoimentos de alguns dos usuários que passaram pela decepcionante situação de verem suas imagens postadas (tantas de cunho artístico e erótico) censuradas, bloqueadas, e ‘castigadas’ com a ameaça de novos bloqueios e, quem sabe, até a desativação da conta. A abertura do espaço proporcionado por Claudio Daniel e a excelente organização da Célia Musilli tornam ainda mais honrosa a publicação de um texto meu na bela revista ZUNÁI.

 

 

 

 

 

Anúncios

Brigitte Bardot: um pequeno exercício de Olhar

31 de maio de 2012

Perceba-se que a percepção se dá em camadas. Brigitte Bardot, na parede e em pé.  Perceba-se mais: o que estamos a ver são pessoas que observam uma fotografia de Bardot ao lado de sua fotografia na parede. Desejo, ilusão e fantasia. Onde terminam uns e começam outros, eis a questão.

 

 

 

 

um momento romântico neste nosso desconcerto

6 de maio de 2012

Jane Birkin e Serge Gainsbourg

“Je t´aime, Mois non plus” é o nome da música que arrasou na década de 70, fez ferver as cabecinhas adolescentes e de jovens ‘descolados’ da época, passou como um tsunami pelas ondas de musiquinhas bem-comportadas, horrorizou pais e mestres, e nos países onde não chegou a ser proibido foi, pelo menos, extremamente criticado. Até o Papa tachou-o de ‘imoral’. O que, claro, só fez aumentar o sucesso.

Je t’aime je t’aime Oh oui je t’aime – Moi non plus – Oh mon amour – L’amour physique est sans issue Je vais je vais et je viens Entre tes reins Je vais et je viens Je me retiens – Non ! maintenant viens…

Eu te amo, Sim, sim eu te amo Eu mais ainda Oh, meu amor O amor físico é sem saída Eu vou e eu venho Por entre teu dorso E eu me detenho Não! Agora! Vem!

Em tempos de rappers explícitos e funkers desbocados e rockers nem um pouco politicamente corretos, talvez uma letra dessas seja até infantil (‘eu vou e eu venho’, ‘eu vou e eu venho’, entendeu, entendeu?) (e hoje em dia, esse ‘por entre seu dorso’ seria dito uma forma bem diferente…). A questão é que, na época, isso era verdadeiramente escandaloso e, além do mais, vinha com a voz sussurrante e rouca de prazer de uma deusa do cinema, sex simbol absoluto, a Jane Birkin (aliás, duas: a música foi composta por Serge Gainsbourg para sua então namorada, a Brigitte Bardot, que gravou a primeira versão; a com Birkin veio depois e foi com ela que a música explodiu mundialmente) (aliás, esse Serge era um filho-da-puta: baixinho, feioso, cineasta, músico, cantor, roteirista, diretor e mais umas coisinhas, fazia de tudo e comia todas: Bardot, Birkin, Catherine Deneuve, Isabelle Adjani, Francoise Hardy, só para citar algumas).

Quando comecei a frequentar os cinemas pornôs da Rua Aurora, no centro de São Paulo, entre uma sessão e outra havia shows de strip-tease (o ingresso valia para as duas sessões e o strip-tease). A trilha sonora da maioria absoluta das apresentações era “Je t´aime, Mois non plus”, por motivos mais do que óbvios.

Na minha memória afetiva, a versão que me pega ainda é a com Jane Birkin. Mas como acabei encontrando no youtube a versão com a Bardot, ora por que não relacioná-las? Ainda prefiro com a Birkin, mas reconheço que a Bardot até que se esforça.

O exagero de Alain Delon

5 de abril de 2012

 

O veteraníssimo ator francês Alain Delon teve uns pequenos apuros de saúde estes dias, o coração fez algumas ameaças, provocou uns desconcertos internos, e o fez passar por uma cirurgia. Segundo noticiaram, a operação foi tranquila e não trouxe maiores preocupações (o mais engraçado na nota que li foi o jornalista dizer que ele foi operado em hospital francês, interessante preciosismo já que foi tudo na França…)

De qualquer forma, aproveito a nota para realimentar o grande ódio que sinto por esse cara. Ele é um dos símbolos máximos (praticamente, o sinônimo) de Galã de Cinema. Mas, ele exagera! Sempre foi bonito demais, charmoso demais, sex-appeal demais, olhos azuis demais, não se cansou de ser bonito, caramba. Mesmo quando velho (agora está com 76 anos), ao invés de ficar acabado e destruído, continua mantendo o charme. E ainda por cima é ótimo ator (e penou bastante para provar que realmente sabia atuar bem e não era somente um ‘rostinho-muito-bonito’).

Não alimento nenhum desejo de morte por ele (sério!) nem que sofra doença nenhuma, nada disso (mesmo porque, não faço a menor idéia de como é como pessoa, se é um canalha e filho da puta, ou gente fina e simpática, nem mesmo me interesso saber) (ele é muito amigo da Brigitte Bardot, se isso serve como algum tipo de referência).

Mas, caramba, ele podia ser menos bonito…

Alain Delon et Monica Bellucci in fur and holding umbrella for Annabella


Brigitte Bardot e Jane Birkin in Don Juan ou Si Don Juan était une femme…

12 de março de 2012


Brigitte Bardot e Jane Birkin in Don Juan ou Si Don Juan était une femme… (Roger Vadim, 1973)

“Jeanne (Brigitte Bardot) est une jeune femme séductrice et sensuelle. Dès la fameuse première scène où elle allume sa cigarette à la bougie d’une église, lors de l’enterrement d’un célèbre travesti de ses amis, on devine sa proximité avec le diable. Amoureuse de son cousin, prêtre (Mathieu Carrière) qu’elle entraine dans une débauche incestueuse, elle court de proie en proie: Maurice Ronet, professeur qu’elle entraine en Suède, paradis de l’amour libre en ces années 70, pour le perdre, Robert Hossein et sa femme, la fragile Jane Birkin, qu’elle charmera dans une cabine du Night Ferry entre Paris et Londres, un guitariste (Robert Walker, fils de Jennifer Jones) qui se suicidera pour elle…Bien sur les flammes l’attendent, comme son modèle, le vrai Dom Juan. Dernier “grand” film de Bardot, baroque, souvent incompris, voire moqué, d’un érotisme stylisé très “Harley-Davidson”, avec de superbes musiques (Michel Magne), il dégage une envoutante tristesse devant les joies promises et décevantes de la Révolution sexuelle”. (Don Juan 73 ou si Don Juan était une femme)