Archive for the ‘Resenha’ category

PINTURAS DE GUERRA

14 de fevereiro de 2017

Angel de la Calle. É um nome de uma pessoa, por mais improvável que pareça. Na verdade, é o nome de um dos autores de quadrinhos, novelas gráficas, mais importantes da atualidade. Escreveu uma impressionante biografia , em novela gráfica, um verdadeiro clássico, s

obre Tina Modotti, uma figura fascinante, uma grande fotógrafa, militante comunista, modelo, cineasta, da metade do século 20. Angel, igualmente militante, igualmente impactante, escreveu (entre vários trabalhos) os Diários, uma série de livros gráficos autobiográficos que tem como eixo o igualmente impressionante Festival de Gijon, festival de literatura policial, quadrinhos, cultura pop e alternativa de qualidade, do qual é diretor e principal organizador há vários anos. Eu escrevi sobre essas obras há alguns anos e tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente quando ele participou do lançamento, em uma Bienal do Livro em São Paulo, de ‘Modotti – uma mulher do século XX’ – publicado aqui no Brasil pela editora Conrad.

Angel de la Calle está com um novo petardo: PINTURAS DE GUERRA. E só pelo tema já dá para ter uma ideia do impacto: as ‘Guerras’, no caso, são as ditaduras latino-americanas, e através da mistura de personagens reais e fictícias, de técnicas de desenho aparentemente simples, não deixa de passar todo o impacto de sua verve, e a história tão complicada, tão dolorida. A obra repensa, rememora, discute e narra sobre as vítimas, os desaparecidos, os torturados, os mortos, os exilados, destas ditaduras. E que, inclusive, mais apropriado do que nunca, essa obra mais apropriada do que nunca, já de tanta nova onda de reacionarismo e volta de regimes de exceção saudosas das velhas formas de dominação ditadoriais parecem estar plenamente em vigor.

Tendo lançado em final do ano passado esta sua mais nova e contundente obra, Angel estará participando justamente hoje em um evento em Cuba, na Feira Internacional do Livro em Havana. PINTURAS DE GUERRA. Sem dúvida, o meu mais novo desejo de consumo.

tem um poco mais de informação aqui: http://www.sinembargo.mx/22-10-2016/3105978

e um ótima entrevista ao vivo no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=gf6Qlzuohn8

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A escola em livros

3 de fevereiro de 2017
Uma grande amiga, desanimada com a situação que estamos passando atualmente, e sem saber como lidar com a tarefa de dar aulas no recomeço do semestre ou de como retomar contato com seus alunos, fez um pedido de indicações de livros que pudesse trabalhar com seus alunos que tivessem a escola como temática. Mais do que pensar em simples material de leitura, no entanto, que fosse como uma forma de retomar o pé, imaginei. Como ela diz, fomentar ações que ajudem a reanimar.
heheh- o problema comigo é que sou um pessimista há muito, quase um profissional. E tentei responder algo nesse sentido. Mas aí fui escrevendo e o comentário acabou ficando enorme. Virou um post, que se segue:
– De certa forma, eu tenho umas sugestões, mas, receio que estou impregnado também por esse pessimismo generalizado que fica difícil pegar entusiasmo e esperança. Bueno, na verdade, ‘estou’ pessimista há tempos, mas, como não sou professor, não carrego essa tremenda responsabilidade de tentar monstrar esperanças (sorry…).
Por outro lado, quando penso no tema ‘escola’ na literatura em geral, creio que ela é retratada como algo definitivamente maléfico, ditatorial, retrógrada, ou no mínimo, inadequada. Alguém citou aí ‘As Aventuras de Tom Sawyer’ que é simplemente uma delícia e um dos melhores livros que li na vida, muito engraçado e gostoso de ler. Mas a escola é vista como um limitador da imaginação, das aventuras, da vida livre. Quando Huck Finn, o amigo de Tom, um garoto criado na rua, um espírito rebelde, é finalmente ‘acolhido’ em uma família estável e adotado, ele precisa ser ‘formalizado’: usar roupas decentes, parar de falar palavrões, … e ir pra escola. Em um outro clássico, ‘David Copperfield’, de Charles Dickens, fala-se da escola como verdadeiros pequenos matadouros infantis da Inglaterra mais brutal da Revolução Industrial com descrições de arrepiar: definitivamente, nada muito otimista, eu diria.
Nesse espírito, portanto, eu lembro de um livro espetacular “O Aprendizado de Pequena Árvore”, de Forrest Carter; trata do tempo que um garoto8501039691 é criado pelo seu avô indígena que é um fabricante de uísque falsificado no interior dos Estados Unidos, bem no meio da época da Lei Seca. O garoto vai aprendendo lições de vida e sentimento com seu avó, até o momento em que é obrigado pelo governo a frequentar a escola ‘normal’ e aí , portanto, vêm o contraste, como bem pode imaginar. Surya, garanto, é um livro lindo, lindo, dos melhores da minha vida de leitor. Muitos anos depois de tè-lo lido pela primeira vez, fiquei sabendo que o autor, que eu sempre imaginava que fosse o garoto do livro, na verdade, é um grande filho-da-puta, com inúmeros problemas bem sérios! Tanto mais chocante que tenha escrito um livro tão belo.
Mas, eu estava nessa levada mais pessimista e aí fui lembrando de dois exemplos, afinal, bacanas. ‘O Gênio do Crime’, de João Carlos Marinho Silva, um clássico infanto-juvenil brasileiro; é uma turma de colegas de uma escola paulistana que se tornam detetives amadores ao enfrentar um supergênio que está falsificando as figurinhas de um álbum de figuras de jogadores de futebol. A ambientação, os personagens, o enredo, tudo é uma delícia. Vem sendo reeditado há décadas e nada perdeu seu vigor, é absurdamente bom.
E tem ‘Os meninos da Rua Paulo’, de Ferenc Molnar, outro clássico infanto-juvenil que _88cb455f39ca9340f75fbfdcdba1511cde2bf246também funciona até hoje. São garotos de um mesmo bairro, colegas de escola, que lutam para defender um espaço de convivência livre do lugar onde moram, e onde montam seu clube, seu ponto de reuniões, seu ponto de encontro e diversão. Brigam com a turma de garotos de outro bairro que pretende tomar esse espaço para si e, como são mais fortes fisicamente, precisam ser enfrentados mais com astúcia e esperteza e força de caráter do que com força bruta. Diferente o-genio-do-crime-jc-marinho-silva-d_nq_np_14556-mlb4119415748_042013-fde ‘O Gênio do crime’, no entanto, que é levado no tom de tremenda aventura divertida e agitada (mas que tem no cerne a camaradagem e a formação de uma turma de amigos de uma mesma localidade e ponto escolar), ‘Os meninos da Rua Paulo’ é um drama, é um romance de formação, que, ao lado de cenas empolgantes e emocionantes, também fica triste e carregado. É sério: é um dos poucos livros na vida que me fazem chorar, literalmente.
Nestes dois livros, a escola não é o predominante, mas está lá, presente, importante para a formação destes amigos, e onde se passam algumas cenas hilariantes.
Acho que é do que consigo lembrar, no momento.

Sefarad: Antonio Molina extrapola a palavra e os sentidos

11 de junho de 2014

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Em 1492, o maior ajuntamento judaico da Europa abrigado nas terras do que se tornaria a Espanha moderna, foi expulso, provocando um dos maiores êxodos da história da humanidade. Conflitos étnicos, sociais, econômicos, nacionalistas, fizeram com que milhares de pessoas fossem obrigadas a se deslocar da terra onde já viviam por centenas de anos. Boa parte foi para Portugal onde lhes foi prometida acolhida desde que por uma “módica” quantia.

Durou somente seis meses a permanência em terras portuguesas: depois de terem sido despojados de todos os seus pertences e trabalharem como autênticos escravos, foram novamente expulsos. Os únicos que os aceitaram quase na íntegra foram os turcos que, dessa forma, se aproveitaram de uma mão-de-obra barata, especializada e culta.

“Sefarad” era o nome pelo qual os judeus denominavam seu antigo lar na Espanha. “Sefarad” tornou-se assim um símbolo destes sofrimentos, quase um substantivo comum para designar as perseguições e sucessivos exílios ao longo dos séculos.

Ao tomar o termo “Sefarad”, portanto, como título para o seu livro, Antonio Muñoz Molina está na prática assumindo um compromisso e anunciando intenções explicitas: o que vamos ler tem a ver com a questão do isolamento do individuo, da solidão do ser humano e de sua não-conformação com regras e leis que fogem de sua possibilidade de reação e controle, com histórias de judeus perseguidos, algumas personalidades famosas como Primo Levi ou Franz Kafka, cercados de uma multidão de anônimos, os quais o autor garante serem todos reais, mesmo que sem nome ou identificação. O resultado de tal proposta é cristalino: entre o sofrimento das grandes “personalidades históricas” e o das pessoas simples e comuns, não há mediações nem diferenças. O deslocamento, o eterno sentimento de nenhum-pertencimento, a solidão e os complexos, são idênticos em todos, é geral, é humano, enfim.

São sentimentos louváveis, a de resgatar este sofrimento, digamos assim. No entanto, se Antonio Molina se limitasse a esse âmbito, se ficasse circunscrito a esse círculo “judeu”, não haveria grandes novidades. Não creio que seja necessário lembrar aqui a avalanche de referências feitas a esse assunto nos últimos anos, tanto literárias quanto cinematográficas.

Antonio Molina extrapola o sentido da palavra. Pesquisa as emoções, sonda os sentimentos, e nesta pesquisa avança nos limites e provoca explosões. “Sefarad” aqui se torna uma senha para se aprofundar nas torturas que, no livro, tem sefarad-1como ponto de partida a experiência judaica mas termina em um horizonte infinitamente maior. Há vários milhares de níveis de “sefarads” que nos acompanham a todos os momentos de nossas vidas.

Você pode ser um funcionário bem comportado, simples e com ambições modestas, que possui como maior desejo o de poder propiciar uma vida calma sefarad-13para sua família, cuidar dos seus pais idosos e preparar um casamento decente para sua irmã e, de repente, acordar uma manhã e descobrir que se transformou em um gigantesco e nojento inseto. Pior: não vai poder mais trabalhar ou sustentar sua família, torna-se um peso-morto, um estorvo. Não é mais um ser humano, não por ter se tornado um inseto, mas por que é diferente. Diferente, deslocado, separado. Precisa ser isolado e, posteriormente, destruído.

Fantasia? Pode ser. Mas, em que (e isso é o mais importante) em que este sentimento do “ser inseto” é diferente de quando você abre o jornal certo dia e fica sabendo que sua casa não é mais sua, seus amigos não são mais seus, sua pátria tampouco e, principal, você que nunca ligou para tradições, ou é ateu, de repente virou Judeu, obrigado a usar uma estrela de David em sua camisa e na porta da sua casa e pode  a qualquer momento ser linchado?

Ou então, você é um comunista, militante que sempre lutou pela pátria do proletariado, passou fome, viveu em cadeias, quase foi morto dezenas de vezes, pegou em armas, escreveu em jornais, deixou de lado a mulher, os filhos e os pais pela revolução e começa a perceber que seus antigos companheiros começam a te evitar, seus pedidos e perguntas não são mais respondidos e, de sefarad4repente, fica sabendo que é um contra-revolucionário. Mais ainda: que Sempre foi um contra-revolucionário, que suas atitudes sempre foram suspeitas. Precisa ser isolado, mandado para os gulags ou ser convidado para uma “reunião” na qual nunca regresse.

Os “sefarads” de Antonio Molina, no entanto, são ainda mais entranhados, mais complexos, ainda mais doloridos. Reflete-se na vida de um sapateiro de província que vai morar na cidade grande e perde-se no vazio das multidões; no rapaz que trocou suas fantasias e anseios da juventude pela vida medíocre de funcionário público; na menina que cresceu pensando que seu pai fora um foragido político e descobre que sempre vivera na cidade vizinha e nunca quis vê-la.

Ou talvez você seja uma pessoa “normal”: não é judeu nem tem práticas religiosas “exóticas” e nunca será xingado na rua por conta disso; não é comunista, nem nunca se interessou por política; tem um bom emprego, uma mulher adorável e um filho amado. Qual o seu sentimento ao ir a uma consulta médica e descobrir-se com aids? Nada em sua fisionomia mudou, nem carrega uma estrela no peito, ninguém está olhando feio para você… ainda.

Não se pense, porém, que só existam momentos trágicos. Há a doce melancolia da história final, o que traz o título do livro e algumas surpresas; há inclusive humor em histórias que poderiam fazer parte tranquilamente de um “Decameron” de Bocaccio.

Cada capítulo-conto de “Sefarad” é um soco no estômago. São histórias separadas que fazem parte de um grande mosaico, com um eixo único que justifica o sub-título original: “una novela de novelas“. O poder da escrita de Antonio Molina é absoluto. Através do foco narrativo estritamente subjetivista, “entramos” nos personagens, sentimos suas angustias, passamos pelos mesmos sustos. Impossível ler mais de uma história por vez. Precisamos parar, absorver as emoções, respirar, acalmar o coração.

Talvez, em tudo isso, só falte uma categoria de ‘sefarad’ não contemplada pelo autor: a provocada pelos próprios judeus, ou pelos representantes daqueles que tanto sofreram no passado e agora parece aplicar nos outros o que eles mesmos passaram. Certamente, entre palestinos há muitas outras histórias e dores e demais ‘estranhamentos’ que poderiam fazer parte deste arco descrito por Molina.