Archive for the ‘Literatura’ category

Patuá: 6 anos!

16 de fevereiro de 2017

6 anos de existência da editora Patuá!

Eu poderia falar da importância histórica que essa data comporta. Afinal, como o próprio editor – guerrilheiro Eduardo Lacerda diz, já são quase 500 títulos publicados, centenas de autores, alguns já consagrados, outros tantos descobertos e lançados pela editora, e estão se consagrando. É um painel vasto e poderoso do que está rolando em nossa moderna literatura brasileira. E só por conta disso já dá para se ter uma certa dimensão do que um editor (na exatíssima concepção da palavra) com um sonho tremendo no coração e amor pelas letras pode alcançar. Não sou dos que dizem que a a figura do editor (naquela exatíssima concepção da palavra de outrora) tenha desaparecido, basta se ver a quantidade de pequenas editoras e grupos editoriais aguerridos e combativos que estão surgindo há tanto. Mas , com certeza, são poucos. Eduardo Lacerda, igualmente com certeza, é um destes. E dos grandes. Daqueles que estão marcando definitivamente a nossa identidade. Nacional, literária, emocionalmente.

Pode-se falar em identidade e não se pode deixar de citar esse artista, tão magnífico, tão estupendo, tão impressionante: Leonardo Leonardo MAthias. Coloque-se as capas dos livros da Patuá e haverá esse sentimento de unidade, de concepção (você sabe simplesmente sabe que é um trabalho de Leonardo, simplesmente) e não dá para não se deixar tragar por essa beleza, por esse carinho, por essa arte.

Poderia falar em termos pessoais, também. Não faço a menor ideia de quais caminhos eu poderia ter tomado ou por onde teria enveredado. Não há como saber. Só sei que, no meio do caminho de se me firmar e me assumir como poeta (e não somente como um prosador que tentava escrever poesia), topei com Eduardo e Patuá, e lancei o ‘Yũrei, Caberê’! Definitivamente, impossível saber como seriam os meus passos. Sei lá, podia ter desistido e abandonado a letra. Podia ter encontrado outras alternativas (ou não, patinado por mais tantos anos, vá saber) No entanto, há esse fato incontestável, inamovível. Sou poeta, me assumo como poeta, e sei agora o quanto me dedicarei à Poesia pelo resto da minha vida, por conta do lançamento de ‘Yũrei, Caberê’. Por causa da Patuá. Por causa de Eduardo Lacerda.


Mas , não vou falar nada disso. Vou dizer da festa. São seis anos. E todos e cada um dos que já participaram de uma festa da Patuá (eu estive em duas) sabe perfeitamente (e pode confirmar com toda vontade) que o mais rola é a emoção. O Leo lançará seu novo livro. O Edu sempre realiza um saldão com muitos livros a preços muito baratos (assim, dá para se dar uma boa renovada sua biblioteca patuana, com muito tranquilidade). Haverá cerveja gelada. Mas tudo isso são os entornos. É o cenário. E todos sabem dos perrengues de saúde que o Eduardo passou (e dos quais não está plenamente recuperado, preste-se atenção) (e dos quais sempre que terá de prestar atenção e cuidado, todos sabemos). Então , isso acrescenta-se ao verdadeiro pivô dessa festa. Emoção. Amor. Poesia, em sua justíssima concepção da palavra, exatíssima. Ou podemos usar como pleno sinônimo: Patuá.

Dia 18, sábado. No Patuscada. Rua Luis Murat, 40. A partir das 16:00 e a se acabar, sei lá se acaba.

Festa de aniversário de 06 anos da Patuá. Poesia.

https://www.facebook.com/events/172265546575823/

15232149_1398605323485605_1603467444962536777_n

A escola em livros

3 de fevereiro de 2017
Uma grande amiga, desanimada com a situação que estamos passando atualmente, e sem saber como lidar com a tarefa de dar aulas no recomeço do semestre ou de como retomar contato com seus alunos, fez um pedido de indicações de livros que pudesse trabalhar com seus alunos que tivessem a escola como temática. Mais do que pensar em simples material de leitura, no entanto, que fosse como uma forma de retomar o pé, imaginei. Como ela diz, fomentar ações que ajudem a reanimar.
heheh- o problema comigo é que sou um pessimista há muito, quase um profissional. E tentei responder algo nesse sentido. Mas aí fui escrevendo e o comentário acabou ficando enorme. Virou um post, que se segue:
– De certa forma, eu tenho umas sugestões, mas, receio que estou impregnado também por esse pessimismo generalizado que fica difícil pegar entusiasmo e esperança. Bueno, na verdade, ‘estou’ pessimista há tempos, mas, como não sou professor, não carrego essa tremenda responsabilidade de tentar monstrar esperanças (sorry…).
Por outro lado, quando penso no tema ‘escola’ na literatura em geral, creio que ela é retratada como algo definitivamente maléfico, ditatorial, retrógrada, ou no mínimo, inadequada. Alguém citou aí ‘As Aventuras de Tom Sawyer’ que é simplemente uma delícia e um dos melhores livros que li na vida, muito engraçado e gostoso de ler. Mas a escola é vista como um limitador da imaginação, das aventuras, da vida livre. Quando Huck Finn, o amigo de Tom, um garoto criado na rua, um espírito rebelde, é finalmente ‘acolhido’ em uma família estável e adotado, ele precisa ser ‘formalizado’: usar roupas decentes, parar de falar palavrões, … e ir pra escola. Em um outro clássico, ‘David Copperfield’, de Charles Dickens, fala-se da escola como verdadeiros pequenos matadouros infantis da Inglaterra mais brutal da Revolução Industrial com descrições de arrepiar: definitivamente, nada muito otimista, eu diria.
Nesse espírito, portanto, eu lembro de um livro espetacular “O Aprendizado de Pequena Árvore”, de Forrest Carter; trata do tempo que um garoto8501039691 é criado pelo seu avô indígena que é um fabricante de uísque falsificado no interior dos Estados Unidos, bem no meio da época da Lei Seca. O garoto vai aprendendo lições de vida e sentimento com seu avó, até o momento em que é obrigado pelo governo a frequentar a escola ‘normal’ e aí , portanto, vêm o contraste, como bem pode imaginar. Surya, garanto, é um livro lindo, lindo, dos melhores da minha vida de leitor. Muitos anos depois de tè-lo lido pela primeira vez, fiquei sabendo que o autor, que eu sempre imaginava que fosse o garoto do livro, na verdade, é um grande filho-da-puta, com inúmeros problemas bem sérios! Tanto mais chocante que tenha escrito um livro tão belo.
Mas, eu estava nessa levada mais pessimista e aí fui lembrando de dois exemplos, afinal, bacanas. ‘O Gênio do Crime’, de João Carlos Marinho Silva, um clássico infanto-juvenil brasileiro; é uma turma de colegas de uma escola paulistana que se tornam detetives amadores ao enfrentar um supergênio que está falsificando as figurinhas de um álbum de figuras de jogadores de futebol. A ambientação, os personagens, o enredo, tudo é uma delícia. Vem sendo reeditado há décadas e nada perdeu seu vigor, é absurdamente bom.
E tem ‘Os meninos da Rua Paulo’, de Ferenc Molnar, outro clássico infanto-juvenil que _88cb455f39ca9340f75fbfdcdba1511cde2bf246também funciona até hoje. São garotos de um mesmo bairro, colegas de escola, que lutam para defender um espaço de convivência livre do lugar onde moram, e onde montam seu clube, seu ponto de reuniões, seu ponto de encontro e diversão. Brigam com a turma de garotos de outro bairro que pretende tomar esse espaço para si e, como são mais fortes fisicamente, precisam ser enfrentados mais com astúcia e esperteza e força de caráter do que com força bruta. Diferente o-genio-do-crime-jc-marinho-silva-d_nq_np_14556-mlb4119415748_042013-fde ‘O Gênio do crime’, no entanto, que é levado no tom de tremenda aventura divertida e agitada (mas que tem no cerne a camaradagem e a formação de uma turma de amigos de uma mesma localidade e ponto escolar), ‘Os meninos da Rua Paulo’ é um drama, é um romance de formação, que, ao lado de cenas empolgantes e emocionantes, também fica triste e carregado. É sério: é um dos poucos livros na vida que me fazem chorar, literalmente.
Nestes dois livros, a escola não é o predominante, mas está lá, presente, importante para a formação destes amigos, e onde se passam algumas cenas hilariantes.
Acho que é do que consigo lembrar, no momento.

Sefarad: Antonio Molina extrapola a palavra e os sentidos

11 de junho de 2014

sefarad12

Em 1492, o maior ajuntamento judaico da Europa abrigado nas terras do que se tornaria a Espanha moderna, foi expulso, provocando um dos maiores êxodos da história da humanidade. Conflitos étnicos, sociais, econômicos, nacionalistas, fizeram com que milhares de pessoas fossem obrigadas a se deslocar da terra onde já viviam por centenas de anos. Boa parte foi para Portugal onde lhes foi prometida acolhida desde que por uma “módica” quantia.

Durou somente seis meses a permanência em terras portuguesas: depois de terem sido despojados de todos os seus pertences e trabalharem como autênticos escravos, foram novamente expulsos. Os únicos que os aceitaram quase na íntegra foram os turcos que, dessa forma, se aproveitaram de uma mão-de-obra barata, especializada e culta.

“Sefarad” era o nome pelo qual os judeus denominavam seu antigo lar na Espanha. “Sefarad” tornou-se assim um símbolo destes sofrimentos, quase um substantivo comum para designar as perseguições e sucessivos exílios ao longo dos séculos.

Ao tomar o termo “Sefarad”, portanto, como título para o seu livro, Antonio Muñoz Molina está na prática assumindo um compromisso e anunciando intenções explicitas: o que vamos ler tem a ver com a questão do isolamento do individuo, da solidão do ser humano e de sua não-conformação com regras e leis que fogem de sua possibilidade de reação e controle, com histórias de judeus perseguidos, algumas personalidades famosas como Primo Levi ou Franz Kafka, cercados de uma multidão de anônimos, os quais o autor garante serem todos reais, mesmo que sem nome ou identificação. O resultado de tal proposta é cristalino: entre o sofrimento das grandes “personalidades históricas” e o das pessoas simples e comuns, não há mediações nem diferenças. O deslocamento, o eterno sentimento de nenhum-pertencimento, a solidão e os complexos, são idênticos em todos, é geral, é humano, enfim.

São sentimentos louváveis, a de resgatar este sofrimento, digamos assim. No entanto, se Antonio Molina se limitasse a esse âmbito, se ficasse circunscrito a esse círculo “judeu”, não haveria grandes novidades. Não creio que seja necessário lembrar aqui a avalanche de referências feitas a esse assunto nos últimos anos, tanto literárias quanto cinematográficas.

Antonio Molina extrapola o sentido da palavra. Pesquisa as emoções, sonda os sentimentos, e nesta pesquisa avança nos limites e provoca explosões. “Sefarad” aqui se torna uma senha para se aprofundar nas torturas que, no livro, tem sefarad-1como ponto de partida a experiência judaica mas termina em um horizonte infinitamente maior. Há vários milhares de níveis de “sefarads” que nos acompanham a todos os momentos de nossas vidas.

Você pode ser um funcionário bem comportado, simples e com ambições modestas, que possui como maior desejo o de poder propiciar uma vida calma sefarad-13para sua família, cuidar dos seus pais idosos e preparar um casamento decente para sua irmã e, de repente, acordar uma manhã e descobrir que se transformou em um gigantesco e nojento inseto. Pior: não vai poder mais trabalhar ou sustentar sua família, torna-se um peso-morto, um estorvo. Não é mais um ser humano, não por ter se tornado um inseto, mas por que é diferente. Diferente, deslocado, separado. Precisa ser isolado e, posteriormente, destruído.

Fantasia? Pode ser. Mas, em que (e isso é o mais importante) em que este sentimento do “ser inseto” é diferente de quando você abre o jornal certo dia e fica sabendo que sua casa não é mais sua, seus amigos não são mais seus, sua pátria tampouco e, principal, você que nunca ligou para tradições, ou é ateu, de repente virou Judeu, obrigado a usar uma estrela de David em sua camisa e na porta da sua casa e pode  a qualquer momento ser linchado?

Ou então, você é um comunista, militante que sempre lutou pela pátria do proletariado, passou fome, viveu em cadeias, quase foi morto dezenas de vezes, pegou em armas, escreveu em jornais, deixou de lado a mulher, os filhos e os pais pela revolução e começa a perceber que seus antigos companheiros começam a te evitar, seus pedidos e perguntas não são mais respondidos e, de sefarad4repente, fica sabendo que é um contra-revolucionário. Mais ainda: que Sempre foi um contra-revolucionário, que suas atitudes sempre foram suspeitas. Precisa ser isolado, mandado para os gulags ou ser convidado para uma “reunião” na qual nunca regresse.

Os “sefarads” de Antonio Molina, no entanto, são ainda mais entranhados, mais complexos, ainda mais doloridos. Reflete-se na vida de um sapateiro de província que vai morar na cidade grande e perde-se no vazio das multidões; no rapaz que trocou suas fantasias e anseios da juventude pela vida medíocre de funcionário público; na menina que cresceu pensando que seu pai fora um foragido político e descobre que sempre vivera na cidade vizinha e nunca quis vê-la.

Ou talvez você seja uma pessoa “normal”: não é judeu nem tem práticas religiosas “exóticas” e nunca será xingado na rua por conta disso; não é comunista, nem nunca se interessou por política; tem um bom emprego, uma mulher adorável e um filho amado. Qual o seu sentimento ao ir a uma consulta médica e descobrir-se com aids? Nada em sua fisionomia mudou, nem carrega uma estrela no peito, ninguém está olhando feio para você… ainda.

Não se pense, porém, que só existam momentos trágicos. Há a doce melancolia da história final, o que traz o título do livro e algumas surpresas; há inclusive humor em histórias que poderiam fazer parte tranquilamente de um “Decameron” de Bocaccio.

Cada capítulo-conto de “Sefarad” é um soco no estômago. São histórias separadas que fazem parte de um grande mosaico, com um eixo único que justifica o sub-título original: “una novela de novelas“. O poder da escrita de Antonio Molina é absoluto. Através do foco narrativo estritamente subjetivista, “entramos” nos personagens, sentimos suas angustias, passamos pelos mesmos sustos. Impossível ler mais de uma história por vez. Precisamos parar, absorver as emoções, respirar, acalmar o coração.

Talvez, em tudo isso, só falte uma categoria de ‘sefarad’ não contemplada pelo autor: a provocada pelos próprios judeus, ou pelos representantes daqueles que tanto sofreram no passado e agora parece aplicar nos outros o que eles mesmos passaram. Certamente, entre palestinos há muitas outras histórias e dores e demais ‘estranhamentos’ que poderiam fazer parte deste arco descrito por Molina.

Verbo 21, site de literatura e cultura, acabou após 14 anos de existência

4 de junho de 2014

verbo2123

 

Verbo 21, a revista eletrônica de literatura e cultura criada e mantida pelo escritor Lima Trindade, acabou. Foram 14 anos de atividade, discussões, troca de ideias, pensamentos, propagação de beleza, em sua plena acepção. 14 anos! De atualizações mensais ininterruptas (das quais só consigo imaginar, de longe, o trabalho e a dedicação que devem ter sido exigidos)

Tenho escrito para e por internet há vários anos. Tive a honra e o prazer de participar e contribuir com textos meus para sites, blogs, páginas internéticas de todas as espécies, tamanhos e qualidades. Posso dizer que, desse turbilhão internético do webuniverso em que estamos mergulhados, com o tsunami de informações, opiniões, discussões avassaladoras a que somos submetidos, existem poucos espaços, tão poucos, que realmente se mantém por tanto tempo, com tanta integridade, com tanta Identidade, conteúdo, inteligência, variedade, abrangência e profundidade quanto a Verbo 21 manteve. Os textos (poucos, infelizmente) que publiquei em suas páginas, os exibo com muito orgulho, pois sabia que, para serem aceitos, precisavam passar pelo crivo severo e arguto do seu Lima Trindade. A Verbo 21 vai fazer falta.

Percebam, portanto: um pedaço da história de nossa cultura está acabando exatamente agora.

verbo21234Abaixo reproduzo, com a permissão do Lima, o texto onde explicita os motivos do fechamento.

Claro, em se tratando do Lima, pode-se ter certeza que projetos outros se apresentarão, livros novos serão lançados, novos meios de integração e de trocas serão montados, com o tempo. Novos verbos virão, não tenho dúvida.

“Prezados colaboradores & leitores,

É com pesar que anuncio o fim das minhas atividades como editor da Verbo21, revista eletrônica criada por mim e pelo Wilton Rossi em julho de 1999, a qual passei a comandar sozinho a partir de 2001 até a presente data, atuando sempre em caráter de total independência e dedicação.

Nesses quase quinze anos de atividades ininterruptas, selecionamos trabalhos de anônimos e notórios, divulgamos textos criativos e provocantes que se alinhavam com o propósito maior da publicação: pensar a produção cultural contemporânea em suas mais diversas matizes.

Em nossas páginas foram entrevistados nomes como FANNY ARDANT, ANTONIO CÍCERO, CRISTOVAM BUARQUE, JUAN PEDRO GUTIERREZ, JOÃO SILVÉRIO TREVISAN, CARLOS FUENTES, GLAUCO MATTOSO, ROMAN POLANSKI, WALLY SALOMÃO, ELIZABETH DI CAVALCANTI, RUY ESPINHEIRA FILHO, PAULO SCOTT, DAVID LEAVITT, VLADIMIR CARVALHO, TOM ZÉ, LUIZ RUFFATO, SOFIA LOREN, ROBERTO MACHADO, FERNANDO GONSALES, MARTIN AMIS, ARMANDO FREITAS FILHO, LUIZ MOTT, LÁZARO RAMOS, AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA, NELSON DE OLIVEIRA, LYA LUFT, NICOLAS BEHR, TATIANA BELINK, RONALDO CORREIA DE BRITO, GILBERTO GAWRONSKI, ITHAMARA KOORAX, CAIO PORFÍRIO CARNEIRO, JUDITH THOMPSON, THELMA GUEDES, EDUARDO GIANNETTI, OSCAR ARARIPE e muitos, muitos outros.

Publicamos: a) ensaios sobre cinema, política, filosofia, literatura, comportamento, artes plásticas, quadrinhos, sociologia e inúmeras outras áreas do conhecimento e investigação; b) resenhas sobres produções artísticas; c) um acervo de imagens envolvendo desde o desenho até a fotografia e o grafismo virtual; d) colunas de humor, crônica, poesia, conto, críticas rápidas, ficção científica; e e) trabalhos ficcionais inéditos de leitores.

Por meio de uma parceria com a Brechó Discos, possibilitamos o download de músicas, dando visibilidade ao trabalho de diversas bandas com a apresentação de releases e fotos.

Mesmo com a explosão dos blogues na última década, optamos por continuar como um site. Eu, na qualidade de editor, e todos os demais colaboradores, incluindo-se entre eles os webdesigners e nossa corajosa sub-editora, Anna Amélia, persistimos sem negociar o nosso trabalho por nenhuma moeda que não fosse a da autenticidade e da liberdade de expressão.

A revista teve muitos webdesigners como parceiros. No princípio, era o próprio Wilton quem cuidava da apresentação visual da revista. Quando ele deixou a Verbo21 para se dedicar a outros projetos pessoais, contamos com mais três excelentes voluntários: Ed, Manoel e Ernesto. Cada um deles desenvolveu um trabalho com uma assinatura que marcou determinada fase do periódico. Por último, veio o Wilson Foca Neves, talvez o mais longevo deles. E igualmente talentoso. Quando o Foca pediu demissão em meados de 2013, pela primeira vez não encontramos um webdesigner imbuído da mesma paixão pelo projeto.

Por um outro lado, eu atravessava um momento em que precisava de mais tempo para me dedicar ao trabalho de escritor. Tinha um romance com prazo de entrega definido e já não estava mais lendo e pesquisando como pretendia. Eu acreditei que esse seria um período curto e rapidamente apareceria um novo webdesigner e a Verbo21 retomaria com novo vigor sua história. No entanto, após duas tentativas mal sucedidas, os meses foram passando e eu não via uma solução satisfatória. De setembro de 2013 para cá, atualizamos uma única edição. Ainda assim, com problemas. Tudo isso me cansou. Fiquei triste, chateado. E me levou a pensar que era preciso seguir adiante.

Fecho as portas da Verbo21 com orgulho por tudo o que ajudei a construir. Acredito que muitos de vocês possivelmente guardem boas lembranças das leituras e do tempo que passamos juntos. Agradeço a todos pelo tempo despendido conosco. E que possamos nos ver por aí: nas malhas virtuais ou num café de uma livraria de rua.

Abraços,

Lima Trindade”

.

.

Antonio Torres e a ABL

20 de maio de 2014

Peço desculpas por retornar ao tempo e voltar a uma notícia antiga, pois somente agora me toquei de sua importância. Foi no dia 09 de maio, há pouco mais de dez dias atrás (o que, em termos internéticos é praticamente um século inteiro), o escritor Antonio Torres tomou posse na Academia Brasileira de Letras. 

É verdade e é impressionante: um romancista, um escritor de verdade, de qualidade, foi eleito para a Academia! Estou assombrado, estupefato! (aliás, posso usar essa palavra, ‘estupefato’? ou a cara Patricia Secco, a simplificadora de machado, vai implicar comigo?). Lembro, faço questão de lembrar, de que quando Torres se candidatou na última vez, ele perdeu para … Merval Pereira!

Merval Pereira!

Mas, tenho certeza que foi somente um lapso; a querida ABL não vai querer, assim de repente, virar uma verdadeira casa de cultura. Logo estará de volta à sua ânsia por escolher fhcs, sarneys, mervais e outros que tais.

antonio

Lima Trindade, Interventuras

1 de abril de 2014

O Pêndulo de Frankfurt na Folha

27 de fevereiro de 2014

frank

 

Eu não leio mais a Folha de São Paulo, veículo que desconsidero há muito tempo como fonte de informação ou opinião. Às vezes, dou uma olhada na segunda página da ilustríssima (nome de caderno pomposo e arrogante que me afasta ainda mais) pra ver se há algum lançamento que me interesse e que eu ainda não tenha visto em outros meios. Portanto, quando vi o foco do caderno de cultura deste último domingo ser literatura brasileira contemporânea, minha reação foi mais de medo do que curiosidade. Não consegui passar da leitura do box ‘resumo’ do primeiro artigo (que não abre discussão nenhuma, é só mais um lamento sobre o ‘problema’ de nossa literatura ter um eixo subjetivista e autorreferencial). Somente com uma bola levantada pelo escritor Lima Trindade no Facebook e pelos comentários em seu post tive coragem de voltar e ler os textos. A sensação ruim se concretizou, mas me animo a levantar uns pontos (se isso ficar muito longo, culpem o Lima, ele que provocou…)

1) Ao que me parece, todo o caderno foi montado como uma espécie de avaliação das consequências da Feira de Frankfurt. À primeira vista, o caderno parece-me esquizofrênico, e não somente por ser escrito por vários autores com suas respectivas opiniões.

O texto do Marco Rodrigo é o mais complicado, pior escrito e tendenciosamente dirigido: o problema da moderna literatura é sua Subjetividade assumida pelos autores nos últimos anos. Mesmo quando ele cita opiniões contrárias, logo depois faz uma afirmação peremptória e fecha a conversa. Ele diz “embora o domínio do texto autorreferencial seja tido como um fato“, logo antes de citar Luiz Costa Lima que é radicalmente contra essa idéia. Diz “decorrência natural da subjetivação, segundo os críticos, seria a ausência de um sentido político em parte significativa da prosa brasileira”. Não ‘alguns críticos’. Os críticos. O que não bate com Manuel da Costa Pinto, mas até aí, ‘os críticos’ já tinham dado sua palavra. E por aí vai. Em suma, a conclusão é: literatura subjetiva, sem senso político, sem encaixe social, pobre literatura moderna brasileira.

2) Beatriz Resende é mais aberta e ampla e preocupada em destacar o que está acontecendo de concreto em termos de novos autores e faz um resumo de tendências. Com os poucos autores citados como referências, o clima aqui é completamente diferente: há autores, há literatura de qualidade sendo produzida, há produção e busca de novas formas de escrever, há coisa boa sendo feita. Mesmo que (ainda mais, depois da melancolia morna e depressiva do Rodrigo Almeida), Beatriz advirta para o perigo de obras serem escritas ou publicadas tendo em vista o interesse imediato em traduções e vendas para o mercado externo, ainda assim demonstra que existe, sim, uma produção de qualidade que vem aumentando, marcada pela “pluralidade“, pela “forte ruptura com formas desgastadas e conservadoras e com resquícios nacionalistas, regionalistas e similares”. Mesmo quando ela fala da literatura ‘autorreferencial’, lembra que se aposta na “desestabilização da narrativa“: “a autoficção, a temática memorialista… o questionamento de identidades vêm, nos melhores casos, atravessados por intervenções formais de alterações no discurso narrativo a intervenções gráficas“. O clima geral é animador.

3) Raquel Cozer fala de mercado editorial. Volta a melancolia. Brasileiro vende mal. Brasileiro mal aqui dentro e pior ainda lá fora. Alguns poucos vendem bem, mas na maioria por razões extraliterárias, como a atriz Fernanda Torres, ou de exceção de gêneros, como a “ficção pop nacional”. A questão aqui não é de qualidade literária, mas da preocupação com a baixa qualidade de vendagem. Perspectivas? O subtítulo do texto diz tudo: “A ficção nacional avança, mas para”.

4) O texto da Luciana Villas-Boas é muito mais completo e interesssante, porque, diferente do Marco Rodrigo Almeida, é muito melhor escrito (e o maior espaço também possibilita desenvolver os argumentos). No entanto, com melhor embasamento e referências bem construídas, Luciana recolhe o que foi dito antes e amplia e, com argumentos diferentes, investe na mesma linha do Marco Rodrigo.

Começa por caracterizar o escritor brasileiro como ávido por ser transportado, lançado e propagado por traduções estrangeiras. Não importa o quanto venda aqui dentro, se vender. O deslumbre é por ser editado em algum país estrangeiro, qualquer país estrangeiro. Ela se cansou de ver autores ávidos pelo glamour de uma edição estrangeira, mesmo que a tiragem dos seus livros aqui dentro seja miserável (ainda mais pelos padrões internacionais). O problema é que o grande “obstáculo para a internacionalização da ficcão brasileira” é que “nossa literatura não anda com as próprias pernas em seu país. Precisa das muletas de outro veículo ou forma de comunicação. Não temos volume ou variedade” (imagino que ela esteja se referindo à volume e variedade traduzidos, já que como vimos com Beatriz Resende, aqui há sim volume e variedade sendo produzidos). Então, qual é o momento em que o escritor brasileiro se descola de sua própria realidade, quando foi a hora da separação, por que o brasileiro não faz tanta questão de fincar sua força em suas raízes, quando aconteceu o “divórcio da literatura e sociedade no Brasil”? Devo pular várias considerações de permeio, plenamente válidas, como a época de respeito pela literatura nas décadas de 60, 70, e na própria infância de Luciana, até chegar nas décadas perdidas de 80 e 90, e me centrar no que considero o centro de sua questão, quando diz “A ditadura começou solapando o sistema de ensino e a rede escolar; desvalorizando a crítica, o saber humanístico, o hábito de leitura e agigantando a TV Globo”, o que ao meu ver já explica muita coisa.

Lima Trindade comentou que Luciana apenas resvala na questão da Educação, e eu digo mais, muito mais, ela pulou longe. Pois para Luciana Villas-Boas não foi esse o ponto mais importante. “O fator determinante foi a inflação”. Os editores não tiveram dinheiro para investir nos autores. Quando puderam, perderam o bonde. Ou não mais se interessaram, preferindo apostar nos autores estrangeiros. E os autores, agora deslumbrados com possibilidades (ou sonhos) internacionais, se perdem, esquecem seu público local, esquecem de verificar se sua obra realmente é boa. Qual sua tarefa, então, escritor?, pergunta.

Ok, já avisei que fiz um apanhado geral, ela disse muito mais coisa, e o texto vale a pena ser lido com mais atenção.

Não sei como foi pensado ou formatado o caderno. Percebi que a minha primeira impressão de esquizofrenia não se revelou real. Há um sentido aqui, com um quase movimento de pêndulo. De primeiro, a sensação de desolação pelo umbiguismo do escritor nacional e sua falta de compromisso social, literariamente falando, bem entendido. O pêndulo vai e vemos que há sim mais coisas acontecendo e coisas boas e interessantes. O pêndulo volta e somos confrontados com a dura realidade de que o mercado nacional é uma catástrofe (o que, convenhamos, não é exatamente uma novidade). Aí, o pêndulo para. E a conclusão do texto de Luciana na verdade serve como conclusão de todo o caderno, pondo o escritor, com suas falhas e ansiedades vãs, como o eixo central.


(E a Katia Borges , muito oportunamente, cita um texto do Globo, sobre a saída de Villas-Boas da editora Record. Impressiona como o tom total das palavras muda radicalmente, as conclusões são outras, as descrições entusiásticas, uau. link.)


Eu gostaria de devolver o pêndulo e, na verdade, colocá-lo de cabeça para baixo, voltando para o comentário do Lima (que considerei excelente e se ele me permitir vou reproduzir aqui no corpo do texto) e focar no que concordo ser a questão essencial para reverter todo esse quadro e, sem a qual, nada disso se resolverá, o mercado nacional não vai se estabelecer, os autores não se revelarão reais bons autores, alguns poucos seres iluminados serão traduzidos e festejados: a formação de Leitores. Há sim escritores ótimos e em ação neste exato momento no Brasil (quem o nega, deveria simplesmente retirar a venda dos olhos, acabar com a cegueira intencional, e prestar atenção ao que ocorre à volta). Há uma indústria editorial miserável se em comparação com termos internacionais, mas ela existe, é mínima mas com alguma presença (ainda mais com essa coisa estranha que está próxima a nós, tão estranha, tão longínqua, tão estapafúrdia e bizarra que ninguém, nem os gringos, compreendeu ainda ou sabe explicar, que é a Internet e os meios digitais virtuais espaciais…).

Só que não há Leitores. Não há Cultura Literária no Brasil. Não há Hábito Literário no Brasil. Ao contrário, existe uma ojeriza, um repúdio, pior, um aborrecimento em relação à Leitura no Brasil. Isso não é devido às supostas falhas umbiguistas dos nossos autores (que, no entanto, bem pode ser um seu reflexo inconsciente). Como diz o Lima (volto a ele), “devemos lembrar que não se trata apenas de números de venda, pois livro comprado não significa livro lido” . O ponto não é a concorrência por, ou construção de, consumidores ou compradores de objetos. É de formação de Leitores. Não existirá indústria ou cultura se essa questão não for resolvida. É o que fundamenta, o que sedimenta, a existência dessa indústria em qualquer lugar, nos Estados Unidos, na Europa, na Argentina.

E não é responsabilidade ou culpa de escritores que ralam para colocar palavras em papel (ou tablets ou telas de pc ou em papiro, que seja). Essa falta de Cultura Literária não foi responsabilidade justamente dos mais interessados, não foi à toa. E não é segredo. Ela foi destruída, estigmatizada, enterrada, em projeto consciente de imbecilização intelectual, que tomou forma e prática durante a ditadura e continua presente pois nem esse projeto, nem essa prática, deixaram um minuto de existir. Até hoje. Não há leitores. Não há projetos para Leitores. Há projetos para Consumidores, para Compradores.

A ditadura começou solapando o sistema de ensino e a rede escolar; desvalorizando a crítica, o saber humanístico, o hábito de leitura e agigantando a TV Globo”.

Não! Sinto muito, mas isso não é somente o ‘começo’. É toda a questão!

Para a Wikipédia, Philip Roth não é uma fonte confiável para corrigir dados relacionados a sua própria obra.

30 de outubro de 2012

 

As contradições da moderna tecnologia com a criação de pensamento ou a conservação e manipulação de dados leva a situações esdrúxulas algumas vezes, algumas até engraçadas; na maioria das ocasiões, somente ridículas. Das últimas, envolve a famosa Wikipedia e o decano escritor norte-americano Philip Roth (sei bem que a notícia já está até um tanto ‘velha’, mas como tive plena consciência somente agora da história por inteiro, não pude deixar de marcar esse comentário).

Simplesmente, a Wikipedia não permitiu que Roth corrigisse uma informação equivocada sobre seu próprio livro, ‘A Marca Humana’!

A princípio, eu até entenderia se fosse um caso de erro de identidade, isto é, se a Wikipédia duvidasse da identidade de Roth e exigisse maiores certificações. Mas, em definitivo, não foi isso. Eles não duvidavam que ele fosse quem dizia ser. Simplesmente, isso não era suficiente. Ele, somente, não era confiável.

Segundo Roth: “O Administrador da Wikipedia em Inglês” – numa carta de 25 de agosto – que eu, Roth, não era uma fonte confiável:
‘Compreendo seu ponto de que o autor é a maior autoridade em seu próprio trabalho’, escreveu, ‘mas exigimos outras fontes.’

O bacana de coisas assim acontecerem com escritores é que eles conseguem transforma-las em literatura. Sua carta aberta em resposta ao Wikipedia publicada no The New Yorker é ótima literatura, como não seria diferente se tratando de tal autor.

(um outro detalhe, desta vez em relação à tradução do texto de Roth publicada pelo jornal O Estado de São Paulo: o livro, publicado no Brasil pela Companhia das Letras com o título ‘A Marca Humana’ está aqui designado com o título ‘A Mancha Humana’, que é como foi publicado em Portugal. Bueno, o tradutor Celso Paciornik é, até onde sei, brasileiro, paulistano. O jornal ‘O Estado de São Paulo’ é brasileiro e o texto foi publicado em São Paulo. Qual a razão, ou distração, ou falta de revisão, ou pura preguiça, de traduzirem com o título de outro país, ainda estou até agora tentando entender)

Prezada Wikipedia:
Philip Roth

http://blogs.estadao.com.br/link/prezada-wikipedia/

Sou Philip Roth. Tive motivos recentes para ler pela primeira vez o verbete da Wikipedia discutindo meu romance A Mancha Humana. Ele contém um sério equívoco e gostaria que fosse removido. Ele entrou na Wikipedia não do mundo da veracidade, mas dos balbucios das tagarelices literárias – não há nenhuma verdade nele.

Mas quando, por meio de um interlocutor oficial, pedi à Wikipedia que deletasse o equívoco, fui informado pelo “Administrador da Wikipedia em Inglês” – numa carta de 25 de agosto – que eu, Roth, não era uma fonte confiável: “Compreendo seu ponto de que o autor é a maior autoridade em seu próprio trabalho”, escreveu, “mas exigimos outras fontes.”

Assim nasceu esta carta aberta. Depois de não conseguir uma mudança feita pelos canais usuais, não sei de que outra maneira proceder.

Meu romance A Mancha Humana foi descrito no verbete como “alegadamente inspirado na vida do escritor Anatole Broyard”. Essa afirmação não é minimamente substanciada pelos fatos. A Mancha Humana foi inspirado num evento infeliz na vida meu amigo Melvin Tumin, já falecido, professor na Universidade de Princeton. Um dia, no outono de 1985, quando Mel, que era meticuloso em todas as coisas, estava meticulosamente fazendo a chamada numa turma de sociologia, notou que dois de seus alunos ainda não haviam frequentado uma só aula ou tentado se encontrar com ele para explicar a ausência, embora já se estivesse no meio do semestre.

Terminada a chamada, perguntou à classe sobre os dois alunos que nunca havia encontrado. “Alguém os conhece? Elas existem ou são fantasmas? (spooks, em inglês)” – infelizmente, as mesmíssimas palavras que Coleman Silk, o protagonista de A Mancha Humana, usa na pergunta que faz a sua turma no Athena College em Massachusetts.

Quase imediatamente, Mel foi convocado pelas autoridades universitárias para justificar seu uso da palavra “spooks” já que os alunos faltantes, nas circunstâncias, eram ambos afro-americanos, e “spook”, nos Estados Unidos da época, era uma designação pejorativa para negros. Seguiu-se uma caça às bruxas durante os meses seguintes da qual o professor Tumin – como o professor Silk em A Mancha Humana – saiu ileso, mas somente depois de ter dado depoimentos demorados declarando-se inocente da acusação de discurso do ódio.

Circulou um sem-número de ironias, pois Mel havia adquirido proeminência nacional entre sociólogos, ativistas de direitos civis e políticos liberais ao publicar, em 1959, o estudo sociológico Desegregation: Resistance and Readiness, e depois, em 1967, com Social Stratification: The Forms and Functions of Inequality, que se tornou referência. Antes de vir para Princeton, ele fora diretor da Comissão Municipal de Relações de Raça, em Detroit. Quando morreu, em 1995, a manchete no obituário do New York Times dizia “Melvin M. Tumin, 75, especialista em relações raciais”.

Nenhuma dessas credenciais contou quando os poderes do momento tentaram tirar o professor Tumin de seu elevado cargo acadêmico sem nenhuma razão, como o professor Silk foi tirado em A Mancha Humana.
E foi isso que me inspirou a escrever A Mancha Humana: não algo que possa ou não ter ocorrido na vida, em Manhattan, da figura literária cosmopolita de Anatole Broyard, mas que realmente ocorreu na vida do professor Melvin Tumin, cem quilômetros ao sul de Manhattan, na cidade universitária de Princeton, onde conheci Mel no começo dos anos 60.

Assim como ocorreu com a distinta carreira acadêmica do protagonista de A Mancha Humana, a carreira de Mel foi conspurcada da noite para o dia por ele ter supostamente destratado dois alunos nos quais jamais havia posto os olhos. Até onde tenho conhecimento, nenhum evento remotamente como esse manchou a longa e bem-sucedida carreira de Broyard nos mais altos cumes do mundo do jornalismo literário.

A ocorrência com “spooks” é o incidente inaugural de A Mancha Humana. O núcleo do livro. O romance não existe sem ela. Coleman Silk não existe sem ela. Cada novidade que ficamos sabendo sobre Silk, no curso de 361 páginas, começa com sua perseguição desenfreada por ter pronunciado “spooks” em voz alta numa sala de aula de faculdade. Nessa palavra, falada em absoluta inocência, jaz a fonte do ódio a Silk, suas angústia e queda.

Por ironia, essa e não seu enorme segredo de toda a vida – ele é o filho de pele clara de uma respeitável família negra em Nova Jersey, que consegue fazê-lo passar por branco desde o momento em que entra na Marinha aos 19 anos – é a causa de sua morte humilhante.

Quanto ao escritor Anatole Broyard, ele algum dia esteve na Marinha? Na prisão? Num curso de pós-graduação? Algum dia terá sido vítima inocente de perseguição institucional? Não tenho a menor ideia. Em mais de três décadas, cruzei com ele, casual e inadvertidamente, talvez três ou quatro vezes antes de prolongada batalha contra um câncer de próstata pôr fim à sua vida, em 1990.

Silk, por sua vez, é morto maldosamente, assassinado num acidente de carro planejado e premeditado quando estava com sua improvável amante, Faunia Farley. As revelações que fluem das circunstâncias específicas da morte de Silk pasmam seus sobreviventes e levam à conclusão desolada do romance num desolado lago coberto de gelo onde ocorre uma espécie de confronto entre Nathan Zuckerman e o executor de Faunia e Coleman, o ex-marido de Faunia, o atormentado e violento veterano do Vietnã, Les Farley. Nem os sobreviventes de Silk, nem seu assassino, nem sua amante tiveram origem em outro lugar que não a minha imaginação. Na biografia de Anatole Broyard não há qualquer pessoa ou evento comparável, até onde eu sei.

Eu não conhecia nada da vida privada de Broyard e, no entanto, os aspectos mais delicadamente privados da vida privada de Coleman Silk constituem praticamente toda a história narrada em A Mancha Humana.

Nunca conheci, falei com ou, até onde sei, estive na companhia de uma única pessoa da família Broyard. A decisão de ter filhos com uma mulher branca e, possivelmente, ser exposto como negro pela pigmentação de seu filho é um motivo de grande apreensão de Silk. Se Broyard sofreu essa apreensão, não tinha nenhuma maneira de saber.

Jamais fiz uma refeição com Broyard, jamais saí com ele para um bar ou um jogo de beisebol, nunca o vi numa festa à qual poderia ter ido nos anos 60 quando estava vivendo em Manhattan e em raras ocasiões socializava em festas. Nunca cruzei acidentalmente com ele na rua, embora uma vez – se não me engano, nos anos 80 – nós nos encontramos na loja de roupas masculinas Paul Stuart na Madison Avenue, onde estava comprando sapatos. Como Broyard era a essa altura o resenhista de livros intelectualmente mais refinado do Times, lhe disse que gostaria que ele se sentasse na cadeira ao meu lado e me permitisse comprar-lhe um par de sapatos, na esperança, admiti francamente, de aprofundar seu apreço por meu próximo livro. Foi um encontro alegre, divertido, que durou dez minutos se muito, e foi o único encontro do tipo que tivemos.

Nós nunca nos demos ao trabalho de ter uma conversa séria. Caçoadas de passagem eram nossa especialidade, com o resultado de que nunca soube quem eram seus amigos ou inimigos, não soube onde e quanto ele havia nascido e crescido, nada sobre sua condição econômica, nada de sua política ou times favoritos ou se tinha algum interesse por esporte. Não sabia nada sobre a sua saúde mental ou seu bem-estar físico, e só fiquei sabendo que ele estava morrendo de câncer muitos meses depois de ele ter sido diagnosticado, quando ele escreveu sobre sua luta com a doença na New York Times Magazine.

Eu o conhecia somente como um crítico em geral generoso de meus livros. No entanto, após admirá-lo por sua coragem no artigo sobre sua morte iminente, consegui o número do telefone de Broyard de um conhecido comum e liguei para ele. Foi a primeira e última vez que falei com ele por telefone. Ele foi encantadoramente efusivo, extremamente exuberante, e riu com gosto quando o lembrei de nós em nossa mocidade, lançando uma bola de futebol americano em uma praia em Amagansett, em 1958, que foi onde e quando eu o conheci.

Na época, eu estava com 25 anos, ele com 38. Era um belo dia de verão, e me lembro de ter ido até ele na praia para me apresentar e lhe dizer como havia apreciado seu brilhante conto What the Cystoscope Said. A história havia aparecido em meu último ano de faculdade, 1954, no quarto número da mais soberba das revistas literárias da época, Discovery.

Logo havia quatro de nós – escritores recém-publicados quase da mesma idade. Aqueles vinte minutos de bola constituíram o envolvimento mais íntimo que Broyard e eu tivemos, e elevaram a um total de trinta o número de minutos que gastaríamos na companhia um do outro.

Antes de sair da praia, naquele dia, alguém me disse que havia rumores de que Broyard era um “oitavão” (expressão que indica pessoa com descendência de etnias diferentes). Não dei muita atenção a isso ou, lá em 1958, dei pouco crédito. Em minha experiência, oitavão era uma palavra raramente ouvida fora do sul dos EUA. Não é impossível que eu a tenha procurado no dicionário mais tarde para compreender seu significado preciso.

Broyard era na verdade filho de dois pais negros. Não sabia disso, na época nem quando comecei a escrever A Mancha Humana. Sim, alguém havia me dito um dia, por acaso, que o homem era o filho de um “quadrarão” (outro termo do tipo) com uma negra, mas esse trecho de um disse me disse improvável foi tudo que eu jamais soube sobre Broyard.

Contudo, com o passar dos anos, não foram poucas as pessoas que se perguntaram se, por causa de certas feições suas aparentemente negras – seus lábios, seus cabelos, seu tom de pele – Mel Tumin, que era inflexivelmente judeu na Princeton avassaladoramente branca e protestante de seu tempo, não pudesse ser um afro-americano se passando por branco. Outro fato na biografia de Mel Tumin que nutriu minhas primeiras imaginações de A Mancha Humana.

Meu protagonista, o acadêmico Coleman Silk, e o escritor real Anatole Broyard, inicialmente se passaram por homens brancos nos anos antes do movimento pelos direitos civis começarem a mudar a natureza de ser negro na América. Os que escolheram se passar (essa palavra, aliás, não aparece em A Mancha Humana) imaginaram que não teriam de compartilhar as privações, humilhações, insultos, danos e injustiças que seriam mais do que prováveis de atravessarem seu caminho se eles fossem abandonar suas identidades exatamente como as haviam encontrado. Na primeira metade do século 20, não houve apenas Anatole Broyard – houve milhares, provavelmente dezenas de milhares de homens e mulheres de pele clara que decidiram escapar dos rigores da segregação institucionalizada sepultando para sempre suas vidas negras originais.

Finalmente, para se inspirar para escrever um livro inteiro sobre a vida de um homem, é preciso ter um interesse considerável pela vida do homem, e, sinceramente, embora eu tenha admirado particularmente o conto What the Cystoscope Said quando surgiu, em 1954, no correr dos anos eu não tive nenhum interesse particular em Anatole Broyard. Nem Broyard nem ninguém associado a ele teve alguma coisa a ver com minha imaginação em A Mancha Humana.

Escrever romances é para o romancista um jogo de faz de conta. Como a maioria dos outros romancistas que conheço, tão logo tive o que Henry James chamou de “o germe”, – neste caso, a desafortunada história de Mel Tumin em Princeton – comecei a fazer de conta e inventar Faunia Farley, Les Farley, Coleman Silk, os antecedentes da família de Coleman e outros cinco mil elementos biográficos que no conjunto formam o personagem ficcional no centro do romance.

Sinceramente, Philip Roth.

/ Tradução de Celso Paciornik

Ilustração: Carlinhos Müller / Estadão

Fantasma da Ópera: belo personagem, boa história, péssimo livro

29 de outubro de 2012

 

É interessante observar o porquê do personagem Erik, o Fantasma da Ópera, marcar tanto a cultura pop da mentalidade ocidental. Se não chega a fazer parte do dream team dos personagens de terror como Frankenstein ou Drácula ou até do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, também não faz feio. Ao longo de tantas adaptações cinematográficas, teatrais, musicais, tem demonstrado enorme vitalidade. É um incontestável ícone moderno.

No mínimo, garantiu a vida de seu autor, egresso do jornalismo, no qual já fazia bastante sucesso. Gaston Leroux, com suas reportagens dramáticas e vívidas, fazia o estilo de ‘jornalismo agressivo’, cobria guerras, presenciava batalhas, entrevistava criminosos, e escrevia com bastante colorido e muito maior dramaticidade. Seus artigos eram avidamente esperados; era uma verdadeira celebridade em uma época quando a indústria de informação passava por importantes modificações e modernizações, as quais ele soube aproveitar bem.

Ao começar a escrever ficção, descobriu outro filão que se tornou tão importante (e lucrativo) que decidiu abandonar o jornalismo e se dedicar à literatura em tempo integral. Escrevia livros de terror, suspense, romances policiais, do estilo de Conan Doyle e de Edgar Allan Poe, de quem era um grande admirador, com seus detetives superinteligentes e cerebrais. Poe também era uma inspiração para o gênero do terror gótico, com seus climas tenebrosos, aparições e fantasmas, labirintos obscuros.

É até estranho dizer isso hoje, mas seu “Fantasma da Ópera” não fez tanto sucesso quando foi lançado. Só aos poucos foi sendo conhecido, a ponto de, na prática, eclipsar seus trabalhos anteriores. Hoje em dia, ele é mesmo conhecido (quando lembrado) por causa desta obra.

No entanto, não é um bom livro. Os conflitos são primários e rasos, quase caricatos. O romantismo mais meloso se esparrama por suas páginas, as descrições são fracas, a narração é feita com um tom que imita pesquisas realísticas (uma característica típica sua, pois transpôs seu estilo como repórter para os romances), mas nunca convencem o leitor de sua pretensa veracidade. João Máximo nos diz, em seu prefácio na edição da Ediouro, que consta de Gaston Leroux realmente acreditar em espíritos e fantasmas, e “que tinha a plena convicção de que seu próprio corpo era habitado por um ser espectral de cuja natureza não tinha a menor idéia”.

Além do que, ele se utiliza de alguns fatos reais: a famosa cena da queda do candelabro, que foi tão aproveitada e repetida pelo cinema, realmente aconteceu em 1896, e o prédio do Ópera de Paris chegou a servir como prisão durante a época da Comuna e da Guerra Franco-Prussiana.

A situação fica um tanto mais complicada se compararmos a obra com a de seus ‘irmãos’ mais próximos. ‘Frankenstein’, de Mary Shelley, por exemplo, é uma impressionante obra-prima de terror que contém igualmente uma profunda reflexão filosófica sobre as pretensões e a arrogância da humanidade. Bram Stoker construiu em seu ‘Drácula’ uma criatura que foi a súmula de todos os personagens de terror cultivados na época de sua publicação e dos temores primais que atacam nossa imaginação, além de conter um apelo sensual bem pronunciado, mesmo que nunca explicitado (no livro, bem entendido; o cinema bem fez questão de deixar isso bem claro). “O Médico e o monstroé um belíssimo texto de Robert Louis Stevenson, uma novela curta, quase um conto, que em sua aparente simplicidade provoca uma enorme impressão no leitor, além de discutir questões sobre o Bem e o Mal de uma forma nada convencional.

Leroux não atinge este nível de qualidade. É certo que o cinema ajudou, e muito, em sua projeção (‘O Fantasma da Ópera’ tem sido adaptado desde o cinema mudo; João Máximo fala em dezoito adaptações cinematográficas!), além de retumbantes carreiras de peças musicais da Broadway, adaptações radiofônicas, etc.

No entanto, apesar de tudo o que disse acima, também é verdade que o personagem possui um apelo que dificilmente pode ser explicado somente por conta de suas adaptações. O Fantasma atende sim a profundas fantasias e inclinações românticas; é um personagem romântico, por excelência. A ambientação da Ópera de Paris, o vulto tenebroso e mascarado que exprime sua paixão pela bela e jovem Christine e a ensina a ser uma estrela, a máscara que esconde sua feiura, física e moral, a ambiguidade de sua condição, entre ser um vilão ou uma vítima, um carrasco, um louco ou um grande apaixonado, os subterrâneos onde ele é rei e, ao mesmo tempo, um exilado…

Um grande, portentoso personagem, que se destacou e se fixou em nossa imaginação como bem poucos conseguem fazer, mesmo que a matéria de onde se originou tenha sido tão pobre.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer

Música Fúnebre, de Morag Joss: assassinatos ao sabor de Bach

13 de outubro de 2012

 

Este é um romance policial com trilha musical. Música clássica. “Canção sem palavras em ré menor”, de Mendelssohn; “Peças de fantasia, Opus 73”, de Schumann; “Elegia em dó menor”, de Fauré, entre várias outras.

E Bach. Em uma das cenas mais bonitas da obra, a violoncelista Sara Selkirk visita Edwin, um antigo músico e maestro que agora está inválido e com os dias contados por causa do câncer. Ela trouxe o instrumento e ele lhe pede que toque uma das suítes para violoncelo de Bach. Há muitos significados neste pedido: era uma das peças preferidas do marido de Sara, cuja morte fora há um ano antes e que a lançara em uma espécie de animação suspensa: cancelara todas as apresentações previstas, mergulhara em uma crise artística, nunca mais tocara e nem sabia se voltaria algum dia. Na verdade, não vivia; só deixava os dias passarem. E só por muita insistência de seu amigo James concordara em fazer uma pequena apresentação em uma cidadezinha no interior da Inglaterra. Mas, não Bach. Muito menos as suítes para violoncelo. A ocasião no entanto revela-se muito propícia e Edwin muito inteligente e sensível. A delicadeza do momento, a beleza da descrição, a ambientação… assistimos empolgados a um rejuvenescimento de Sara, embalados pela música. A impressão é tão vívida que parece que a estamos escutando.

Momento muito especial dentro de uma obra que retoma a tradição da literatura policial clássica inglesa, puxando para a linha moderna psicológica de uma P. D. James, por exemplo. E o faz extraordinariamente bem. “Música Fúnebre” é o primeiro romance de Morag Joss que também segue um outro tipo de tradição da literatura policial: o de trazer uma experiência de vida (pessoal, profissional, cultural) que, a princípio parecem bem distante da literatura, principalmente da policial. No caso de Joss, sua vida foi de trabalho em museus, galerias de arte e no ensino superior como administradora e palestrante!, como descrito na apresentação. Ela traz então todo esse universo, combina com uma trama de assassinato, detetives carismáticos, um mistério bem construído e, assim, temos um livro muito simpático!

Com “Música Fúnebre” penetramos na alta roda da pequena cidade de Bath. Somos apresentados a museus, galerias, spas, ouvimos concertos de música clássica. Mas, mesmo em um lugar tão agradável e prazeroso, as paixões, dores, sofrimentos e ambições dos seres humanos continuam sendo tão humanos como sempre. Sara Selkirk torna-se o pivô da trama ao descobrir o cadáver do novo administrador do museu, obrigando-a sair de sua apatia para não ser ela mesma a próxima vítima.

É interessante observar que há vários furos no enredo, muitos mesmo para dizer a verdade!, que qualquer leitor com um mínimo de inteligência vai perceber rapidamente. E, ao mesmo tempo, Sara é uma musicista que possui uns lances de dedução lógica tão geniais e tão complicados que fica difícil entender por que não a promovem logo para chefe da Scotland Yard. No entanto, a narrativa flui de modo tão gostoso e simples que fica fácil relevar estes “detalhes”.

A minha recomendação é esquecer estas pequenas incongruências, preparar uma fita com as músicas indicadas pela autora e se deixar levar. O prazer é garantido. Para músicos, leitores e assassinos.

texto corrigido e atualizado, publicado originalmente em iGLer

Orlando, O Quarto de Jacob: Virginia Woolf no máximo

9 de outubro de 2012

 

Virginia Woolf carregava um imenso universo interno que a atormentou durante toda sua vida. Uma parte ela pôde transformar em escritos, pensamentos e ficção, moldando, modificando a literatura inglesa e mundial. Outra parte, não conseguiu superar. Sofrendo de depressão profunda, com um histórico de tentativas de suicídio e internações em instituições psiquiátricas, afinal sucumbiu, carregando sua roupa de pedras para afundar no rio Ouse, na Inglaterra. No meio disso, revolucionou a narrativa moderna.

Sua inquietação, seu afã de descobertas e experiências literárias e artísticas tinha raízes próprias. Nascida em 1882, era dotada de grande inteligência, teve o privilégio de uma família culta que valorizava o incentivo artístico e cultural, seus pais eram literatos e editores, descendentes de escritores ingleses consagrados. Foi educada em casa pelo próprio pai. Ao lado disso, as tragédias a acompanharam desde cedo: seus pais morreram prematuramente (aliás, quase todos seus parentes mais próximos morreram muito cedo, assim como sua meia-irmã Stella Duckworth, que havia praticamente tomado o lugar como sua mãe, e seu irmão Toby) e, na adolescência, foi abusada sexualmente pelo meio-irmão Gerald Duckworth.

Junto com sua irmã Vanessa Bell, artista plástica casada com o critico de arte Clive Bell, criou um grupo de discussão literária e cultural que agitou o cenário inglês da época e que ficou conhecido como o grupo de Bloomsbury. Igualmente jovens e inquietos, buscavam novas formas de entender, criticar e produzir cultura. Foi neste grupo que Virginia conheceu o escritor e critico literário Leonard Woolf com quem se casou.

Ela e o marido fundaram uma editora, a Hogarth Press, originalmente para publicar os trabalhos dela e faze-la ocupar-se, distraindo-a de seus problemas mentais, mas que mais tarde tornou-se uma importante casa editorial que teve entre seus publicados autores do calibre de T.S. Eliot, Gorky, E.M. Forster, Katherine Mansfield, e foram os primeiros a publicar uma edição em vinte e quatro volumes das obras completas de Freud na Inglaterra.

O Quarto de Jacob‘ é o terceiro romance de Virginia Woolf e o primeiro no qual ela radicalmente quebra com as regras da narrativa tradicional. Seus trabalhos anteriores haviam deixado entrever suas tentativas tímidas neste sentido, mas aqui ela vai fundo. A bem dizer, não existe realmente um enredo, uma história. São quadros emocionais, são grandes lances que acompanham um fio de enredo que, provavelmente, é a história do garoto Jacob desde sua infância até sua morte, vagamente inspirado na figura do irmão de Virginia, Toby. É inacreditável constatarmos como este livro ainda transpira vigor, novidade, criatividade, beleza! Precisamos esquecer, deixar de lado a narrativa linear do simples começo-meio-e-fim, embarcar em suas digressões e mentalizações, os fluxos internos de pensamentos dos personagens, e sentir (como devem ter sentido os contemporâneos de Woolf e como sentem todos os que lêem seus livros pela primeira vez), um sopro de liberdade e potência narrativa nunca experimentada antes. É uma viagem empolgante e verdadeiramente esclarecedora. A apresentação feita por esta edição da Nova Fronteira é impecável: “Tudo é narrado de forma fragmentada, quase inapreensível, sem impor um enredo que oriente e esclareça de uma vez por todas o leitor. Cabe a este, ao contrário, a tarefa de montar estes fragmentos e, a partir deles, inventar o seu sentido, a sua moral, sobretudo a ácida e implacável visão critica de uma sociedade encurralada no cultivo de suas mais medíocres aparências.”

Virginia Woolf também foi uma grande ensaísta e critica literária, escreveu por volta de quinhentos ensaios, publicados em jornais, revistas, suplementos

Tilda Swinton na versão cinematográfica de ‘Orlando’, em mais uma dessas estranhas tentativas, fadadas ao fracasso, de transpor Virginia Woolf para as telas de cinema

literários, e cujo eixo principal era a participação das mulheres em uma literatura dirigida e dominada pela visão masculina do mundo. Embora nunca tenha sido uma ativista feminista militante, em seus ensaios deixava claro a necessidade das mulheres se tornarem independentes para poderem produzir cultura do seu próprio ponto-de-vista, de deixar de serem objetos-da-literatura para autoras-de-literatura e de sua vida.

ORLANDO não é uma peça neste quebra-cabeça cultural, mas certamente é um importante ponto para esta discussão. É sua obra mais famosa e de maior sucesso. Acompanha a ‘história’ da vida de Orlando, um gentil-homem cavalheiro inglês no final do século XVIII. Duzentos anos mais tarde, observamos as mudanças (sociais, técnicas, culturais) desta Inglaterra e em Orlando que, de forma gradual, natural, imperceptível, agora é uma mulher.

Orlando pulou, como se tivesse levado uma violenta pancada na cabeça. Na verdade, eram dez horas da manhã. Era o dia 11 de outubro. Era 1928. era o momento presente.

Ninguém se assombre de Orlando ter um sobressalto, levar a mão ao coração e empalidecer. Pois que revelação mais terrível que a de ser sentir que este é o momento presente? Se sobrevivemos ao choque, é apenas porque o passado nos ampara de um lado e o futuro do outro. Mas não temos tempo agora para reflexões; Orlando já estava terrivelmente atrasada. Correu pela escada abaixo, pulou para o automóvel, calcou o acelerador e partiu.”

Orlando é calcada/o na escritora Vita Sackville-West, com quem Virginia teve um caso e serve como uma verdadeira homenagem para a amante. A primeira edição inglesa, inclusive, trazia uma foto de Vita Sackville-West ilustrando o livro, vestida como o personagem.

Há, ainda, um importantíssimo ‘detalhe’ nesta publicação de ‘O Quarto de Jacob’ e ‘Orlando’: as traduções. A do primeiro é de Lya Luft e do segundo, de Cecília Meirelles! Simplesmente imperdível.

Mulheres da Máfia

2 de outubro de 2012

Não existem mulheres na Máfia.

Era o que se dizia. Era o, digamos assim, puro senso comum.

O impressionante é que, até há muito pouco tempo, isso continuava sendo o senso comum.

De mulheres, haveria somente as esposas de mafiosos que, obedientes, fecham os olhos aos ‘negócios’ dos seus maridos, persignam-se e se calam, quando indagadas de alguma coisa. As mães dos mafiosos que suspiram pelos destinos dos seus filhos. As filhas que, juntamente com as mães e esposas, são protegidas pelo respeito milenar e não são tocadas nem manchadas em sua honra, nem mesmo nas piores guerras entre as famílias, pois caso contrário, se daria direito pleno à vendetta. Que mais? Obviamente, uma outra espécie de mulheres, estas sim perigosas e traiçoeiras: as amantes dos mafiosos que, além de solapar as tradicionais bases familiares, ainda podem carregar armas e praticam pequenos serviços aos seus homens. Destas, pode-se esperar tudo!

Com muito custo, aos poucos foi se percebendo o quanto há de balela nestes mitos tão trabalhados e requentados e tantas vezes propagados pelos meios de comunicação, sendo que o menor não é certamente o cinema de Hollywood. Clare Longrigg começou a partir do final da década de 1980 a pesquisar a participação das mulheres na Máfia ao acompanhar o movimento de várias viúvas de políticos, juizes e policiais vitimas de mafiosos. O movimento formara em 1982 a organização Associação de Mulheres Antimáfia que, corajosamente, exigia maiores atitudes de repressão, ao mesmo tempo em que conclamavam a que as esposas de mafiosos depusessem contra seus maridos.

Muito embora, na maioria das vezes, estes depoimentos fossem encarados com total ceticismo.

Segundo Longrigg, um juiz de Palermo teria declarado, por exemplo, em um despacho judicial que “mulheres não podiam ser culpadas por lavagem de dinheiro porque não possuem autonomia e, de qualquer maneira, são burras demais para tomarem parte no difícil mundo dos negócios’”. Não era, de forma alguma, uma opinião única: “Alguns magistrados ainda mantém a opinião de que as mulheres que tocam os negócios de seus maridos não estão cometendo crime – que a esposa de um mafioso não tem escolha e, portanto, não pode ser responsabilizada moralmente.”

Rita Atria

Com o aumento dos depoentes, principalmente a partir de 1991, e a constatação da profundidade de suas informações, é que se começou a ter uma visão aprimorada do montante de seu conhecimento.

Não só conhecimento as mulheres partilhavam, nem tampouco participação. Se por um lado, a expansão das atividades mafiosas dentro da Itália solapava as rígidas normas hierárquicas machistas ao exigir cada vez maior quantidade de mão de obra, incluindo-se mulheres e crianças, por outro, a intensa repressão e as constantes brigas entre as famiglias, acarretavam a morte, prisão ou a fuga de diversos destes ‘pais-de-família’, abrindo espaços e buracos de poder que precisavam ser preenchidos. E o eram. Pelas respectivas mulheres.Se, anteriormente, elas ‘auxiliavam’ dando os seus nomes para os registros bancários dos maridos (na Itália, não eram sequer investigadas), ou transportavam quantidades de drogas ou armas (não eram revistadas, sequer eram destacadas policiais femininas para isso), agora estavam tomando decisões, movimentando contas, manejando dinheiro, planejando assassinatos, repartindo poder. E também estavam começando a responder por isso.

Desta forma, na Itália “o número de mulheres acusadas de portar e traficar drogas cresceu de 37 em 1994 para 422 em 1995, enquanto o número de acusadas por lavagem de dinheiro aumentou de 15 para 106 e numero de mulheres presas por agiotagem subiu de 199 para 421”. Esta súbita e repentina aparição da importância feminina mafiosa indicava, na realidade, que as autoridades estavam a abrir afinal os olhos.

Tudo isso é até que muito interessante, mas na verdade fiquei até o momento somente no plano da introdução. Clare Longrigg foi bem mais longe. Além de agrupar todos os dados disponíveis minuciosa e cuidadosamente, ela foi atrás e conversou com muitas destas mulheres, tanto das pró quanto anti-máfia. Foi em casamentos, batizados, julgamentos, prisões, compilou as histórias, arrumou os arquivos fotográficos. São histórias tremendas, de mulheres poderosas, ousadas. Impossível não pensar, por exemplo, só para ficar em um único, em Ninetta Bagarella.

Antonieta, ‘Ninetta’, Bagarella era muito inteligente, bonita, consciente do poder da mídia, e era noiva de um aspirante a ‘chefão’, Salvatore Riina, quando, em 1971, foi presa e acusada de estar servindo como ligação clandestina entre vários chefes locais, transmitindo recados ou instruções. O noivo estava escondido e ela a primeira mulher a ser indiciada por ligações com a Máfia (e ela mesmo era filha de um chefe respeitado). Sua defesa foi exemplar. O eixo foi a dedicação que ela tinha ao marido: “Eu amo esse homem. Sou mulher, não sou? Não tenho direito de amar um homem, não é essa a lei da natureza? Vocês perguntam como eu poderia ter escolhido um homem como ele, de quem as pessoas dizem coisas horríveis. É contra a lei amar um homem como Salvatore Riina? Eu amo esse homem porque ele é inocente.

Longrigg conta que “Ela convenceu com sua imagem de sinceridade: ele

Ninetta Bagarella in una foto degli anni 70

estava escondido e ela fazia o papel da noiva saudosa que duvidava do afeto de seu amor.

– Há dois anos que não vejo Riina, nem sei mais se ele me ama.

A imprensa de Palermo apaixonou-se.”

Casaram-se em uma cerimônia secreta e tiveram quatro filhos, que tiveram de ser criados em casa pela própria mãe, que havia sido professora. Também estes entraram para a organização, a seu devido tempo, e sistematicamente receberam a ajuda de Ninetta, quando por sua vez, eram presos. Desta vez, como a Mãe que pedia a compreensão dos homens e o favor de Deus. Em 1996, ela mandava uma carta para imprensa: “Decidi abrir meu coração, o coração de uma mãe que está inchado e transbordando de dor pela prisão de meu filho..] Aos olhos do mundo, meus filhos já nasceram culpados. Ninguém se lembra que quando eles nasceram eu (la mamma) era uma cidadã livre e meu marido era apenas culpado de deixar de deixar de se apresentar durante a condicional. Criamos nossos filhos fazendo enormes sacrifícios, superando tremendas dificuldades, dando-lhes todo amor e apoio possíveis.”

E por ai vai, com muitos ´figlio’ e ´mamma’ espalhados pelo texto, além de respeito á família, ás tradições, etc e tal, só esquecendo de alguns detalhes, como a condenação à prisão perpetua do marido, os atos criminosos dos filhos, etc.

Ninetta Bagarella representa um ‘estilo’ de mafiosa que sabe muito bem aonde e como aplicar pré-conceitos, ilusões e mitos que a Máfia divulgou e difundiu. Outros ‘estilos’ mais diretos e objetivos, como Roseta Cutolo que escapou de mais de nove acusações de assassinato e cumpriu cinco anos de pena por ligação com a Máfia; Teresa Deviato, presa e indiciada por extorsão; Rita Atria, que se tornou colaboracionista da Justiça, não suportou a pressão e suicidou-se em 1992.

E várias outras. “Mulheres da Máfia” é um esplêndido livro-reportagem, de linguagem límpida e direta que nos ajuda a descortinar um pouco mais nossa costumeira realidade.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente no iGLer

Freya das sete ilhas

28 de setembro de 2012

 

Antônio Olinto conta, em sua excelente apresentação a este volume das obras de Joseph Conrad editada pela Revan, que quando Freya das sete ilhas foi publicado pela primeira vez houve um protesto dos leitores, reclamando do final especialmente infeliz reservado aos personagens principais. Teve até quem disse que nunca mais leria outro livro do autor.

Pode-se entender esta reação. Pode-se inclusive sentir o mesmo. Freya Nielsen (ou Nelson) é tão viva, bela e radiosa, e seu envolvimento e amor por Jasper Allen é tão empolgante e bonito, que nos deixamos levar, participamos de sua ânsia, sofremos suas angústias, saboreamos sua juventude e beleza. Conhecemos a austera honestidade do velho Nelson (ou Nielsen) e sua absurda ingenuidade e receios infantis. Somos tomados pela malevolência e estupidez de Heemskirk. Somos dominados pela poderosa escrita de Conrad e nos deixamos conduzir por onde ele quiser.

Por isso ficamos tão mais chocados e impactados, mesmo que desde a primeira linha, desde o primeiro instante sejamos informados de que a tragédia já aconteceu, já está formalizada e terminada e os destinos foram determinados, concluídos, estão no passado.

Naquele dia – e aquele dia foi há muitos anos – eu recebi uma carta longa, loquaz, de um velho amigo, um dos camaradas que viajavam nas águas do Oriente. Ele ainda estava por lá, mas estabelecido e de meia idade. Eu o imaginava transformado em corpulento, fisicamente, e doméstico, nos hábitos. Em suma, surpreendido pelo fato comum a todos aqueles que, sendo muito amados pelos deuses, morrem cedo. A carta, do tipo – ‘você se lembra?’ – era uma carta triste, de reminiscências do passado. E, entre outras coisas, ‘certamente você se lembra do velho Nelson’, ele escreveu.”

E deste começo de aparência tão inócua, saberemos mais tarde a quantidade de informações que já nos foi passada de modo tão simples, tanto sobre a história que recém-iniciou, quanto dessa ciranda de narradores típica de Conrad.

Joseph Conrad por JDCanales

A infelicidade não acontece pela presença ou caprichos de deuses externos, mas por decorrência dos atos dos próprios envolvidos; tal como na Tragédia grega clássica, o mórbido jogo do ‘Destino’ só é possível pela iniciativa dos seres humanos. ‘Destinados’, portanto, a serem infelizes, sempre? E por sua culpa? Tragicidade, culpabilidade, são termos que nos remetem de imediato ao universo de Conrad, e são bem citados e discutidos por Antonio Olinto.

Narradores múltiplos que constantemente se auto-referem e se inserem como na brincadeira das caixas de diversos tamanhos que se encaixam uma dentro da outra em um jogo infinito; o senso do trágico que se imiscui nos detalhes ínfimos do cotidiano; personagens densos, minuciosamente construídos, vívidos e que colam em nossa imaginaçao; narrativa límpida, clara, direta e assombrosa pela sua força. Joseph Conrad está por inteiro em “Freya das sete ilhas”.

A Apple não gosta de Vagina

25 de setembro de 2012

 

Falando de bizarrices pseudomoralistas…

Para vender o novo livro de Naomi Wolf, ‘Vagina: A New Biography’, o site da Apple trata a palavra ‘vagina’ como se fosse um palavrão, uma obscenidade, palavra de baixo calão, uma impropriedade, e a censura usando asteriscos. A chamada do texto fica, assim, um primor de esquisitice, caretice e estupidez:

‘V****a’ – uma nova biografia é “um trabalho novo e surpreendente que muda radicalmente o modo como pensamos, falamos e entendemos a v****a”. A autora, segundo a Apple, “faz uma pesquisa histórica e mostra como a ‘v****a’ foi considerada sagrada por séculos até ser vista como uma ameaça”, e pergunta por que “até hoje, num mundo cada vez mais sexualizado, ela é lembrada de uma maneira envergonhada“.” (O Globo).

Isso já tem alguns dias e foi bem discutido pela web, portanto só vou repetir os pontos mais óbvios e mais destacadamente bizarros:

1 – o livro traça uma história de como o conceito e a palavra Vagina ainda são tratados e recebidos com vergonha e rebaixados;

2 – A Apple censura a palavra no texto mas mantém a imagem da capa que não pode ser censurada, o que aumenta ainda mais o contrasenso;

3 – A Apple trata a palavra do órgão feminino como palavrão, como já fez e continua fazendo em outras ocasiões, mas o engraçado é que não faz o mesmo com a palavra do órgão masculino, mantendo assim, por exemplo, um livro com o título “Why Is the Penis Shaped Like That”

Pois é, vai entender…

Educação de um Bandido: Edward Bunker

18 de setembro de 2012

 

Como muitas outras pessoas jovens, conheci Edward Bunker sem na verdade saber sequer seu nome, através do filme ‘Cães de Aluguel‘ (Reservoir Dogs,1992). A severa figura do decano do crime fazia um conjunto perfeito com o restante do elenco, e a direção e roteiro exuberantes e perfeitos de Tarantino, o que na prática fazia com que Bunker se diluísse no meio dos demais. Um tempo antes, tinha visto o sensacional thriller de fuga de Andrei Konchalovsky (para mim, o único filme realmente assistível do diretor) ‘Expresso para o Inferno‘ (Runaway Train, 1985) que conta a história de um veterano prisioneiro (um irreconhecível John Voight, isto é, ele está atuando e bem!) de uma prisão de alta segurança no Alasca que, para não morrer nas mãos do diretor sádico, consegue fugir mas por azar é acompanhado por um outro jovem e atrapalhado bandidozinho e, mais azar ainda, eles acabam em um trem desgovernado! Grande, grande filme. Um pouco mais tarde, soube que a trama tinha sido um projeto antigo de Akira Kurosawa que não foi adiante; quando contrataram Bunker para escrever o roteiro, já havia portanto um esqueleto pré-montado e o que eles queriam era uma pessoa que pudesse tornar a movimentação, as caracterizações dos personagens e, principalmente, os diálogos críveis e realistas.

Bem mais tarde vi James Ellroy declarar que o maior escritor de histórias policiais se chamava Edward Bunker e, bueno, como eu considero que este posto pertence ao próprio Ellroy, sua frase portanto me fez prestar muita atenção na figura. No entanto, por um motivo ou outro, acabei não lendo nenhum dos livros de Bunker e demorou para eu entender, afinal, que Mr. Blue do ‘Cães’, o roteirista de ‘Expresso’ e o autor citado pelo maior escritor de livros policiais na minha modestíssima opinião, eram a mesma e única pessoa.

Com a publicação de sua autobiografia, acabam-se minhas dúvidas e minha ignorância. E pode-se entender o fascínio que exerceu sobre Ellroy e sobre um mundo de leitores que se embrenharam pelas minúcias de um verdadeiro subterrâneo de crimes, violências e horrores. Pois nada do que foi escrito era irreal, partia da própria realidade, com enredos, personagens e ambientações, gírias e comportamentos que revelavam sua face sem sombras. Não há sombras na literatura de Edward Bunker. Não há meios termos. Rouba-se ou fica-se babando. Ou se mata ou se morre. Ou o que vier primeiro.

Sua literatura provem de sua própria vida. Foi o mais jovem ‘frequentador’, com dezessete anos, da mítica prisão de San Quentin (famosa pela sua crueldade e violência, e por abrigar as figuras mais ‘santas’ da América do Norte), e durante décadas saiu e entrou das mais variadas prisões, até conseguir estabilizar sua vida e sua mente. E com isso tinha nas mãos um manancial de informações de primeira ordem, pois vividas, e uma quantidade enorme de situações, personagens e matéria-prima para muitas histórias.

Mas é preciso tomar cuidado. A vida não é literária. Isto é, situações reais, por mais chocantes, vívidas, belas ou aterradoras que possam ser, não garantem literatura. Não importa a fonte. Interessa é o escritor capaz de colocar a matéria-prima em palavras. Em “Educação para um bandido”, o que vemos é um escritor. Pois caso contrário, a narração de sua vida seria um triste desenrolar de problemas e crimes, uma lista de aparentemente interminável de contratempos e de contravenções.

O que vemos é um escritor. Que retrata em minúcias seu relacionamento conturbado e problemático com seus pais, com o mundo e com as autoridades, e a lenta e penosa passagem de sua infância, adolescência e começo da vida adulta entre bandidos, para aos poucos perceber que sua paixão por livros (que começara ao ler livros nas bibliotecas das prisões) poderia ser transformada em capacidade por Escrever. Não há, em nenhum momento, auto-piedade (nada de se intitular ´vítima da sociedade´), muito menos glorificação de seus atos. As coisas aconteceram como aconteceram, e o lidar com elas dependia de uma mistura de instinto de sobrevivência, uma inteligência super-atrofiada e mal-compreendida (de sua própria parte), e uma longa e direta experiência das ruas.

Talvez seja isso o que mais impressione. Tomemos a descrição de Caryl Chessman, por exemplo. (Quem sabe, os mais velhos consigam se lembrar dele, já que durante uma época, entre as décadas de 60, 70, seus livros fizeram muito sucesso no mundo inteiro, principalmente no Brasil; atualmente, está esquecido). Chessman foi um criminoso que durante muitos anos viveu pelo corredor da morte; muito inteligente, advogou em causa própria, e escreveu na prisão vários livros autobiográficos, nunca negando seu passado de contravenções, mas sempre negando as acusações piores de estupro e de assassinatos em série. Bunker lembra de ter cruzado com ele e trocado algumas palavras, e o que poderia ser uma elegia de um grande homem injustiçado ou uma ode ao homem famoso ou um repúdio por atos nojentos ou até mesmo admiração por seus feitos corajosos, torna-se uma simples descrição rápida de uma pessoa respeitada pela sua capacidade de sobreviver. E pronto. Bunker ainda levanta sua opinião de que Chessman era inocente das acusações que, por final, o levaram à câmara de gás depois de doze anos de luta nos tribunais. Ou melhor, ele não faz uma defesa de sua inocência; ele simplesmente acha difícil acreditar que aquela pessoa teria cometido aqueles atos. Por outro lado, deixa bem claro que não coloca a mão no fogo por ninguém. Poderia até ficar surpreso se soubesse com certeza de que Chessman fosse mesmo o estuprador, tal como diziam. Mas de forma alguma chocado.

Ao longo do seu relato, é esta sobriedade que predomina. Ao contar momentos mais escabrosos ou idílicos (sim, eles existem) ou até alguns cômicos (como quando consegue um emprego de chofer sem saber dirigir direito), não há exaltações, nem pelo divino nem pelo infernal. E é desta forma que ele se torna ainda mais impactante, pois no final tudo fica mais significante e adquire um contexto ainda mais forte. Sem moralismos, sem pré-convenções. Não precisa bradar moralismo. Não precisa intensificar as emoções. Basta narrar o que aconteceu.

E Edward Bunker, o antigo detento e criminoso, roteirista, ator e escritor, morto em 2005 aos 71 anos, era um grande narrador.

Nada mais apropriado que “Educação de um bandido” seja publicado pela Barracuda, já que duas das maiores obras de Bunker, “Cão come cão” e “Nem os mais ferozes” (entre várias outras) estão no seu catálogo. Para se ligar e para os que sabem que romances policiais podem ser muito mais do que uma simples diversão. E não querem perder tempo como eu perdi.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer.

A Mulher de 30 Anos de Balzac

25 de agosto de 2012

 

O ego de Honoré de Balzac era enorme e suas pretensões também. Começando pelo próprio nome: o “de” indica nobreza e foi colocado por ele mesmo. Filho de família modesta, no interior da França, era uma posição a qual nunca teve direito e nunca conseguiu alcança-la, apesar de todos os seus esforços, mas nunca renunciou ao “de”.

Era teimoso, de convicções obstinadas. Desde cedo, decidiu que seria um escritor tão poderoso escritor e faria tanto sucesso que tomaria a França da mesma forma como Napoleão. A única diferença seria pelas armas utilizadas: Napoleão, pelas armas; Balzac, pela pena.

Sua família ficou perplexa. Não era para menos: ele nunca havia se destacado na escola, nunca escrevera algo reconhecido, seus maiores estudos tinham se limitado ao Direito, a qual lhe daria um trabalho decente e uma boa remuneração. Do que precisava mais? Fizeram um acordo: durante um ano, lhe mandariam uma mesada para sobreviver em Paris para escrever. Pelo resultado, decidiriam se ele realmente tinha razão.

Este resultado foi uma peça, uma tragédia histórica chamada “Cromwell”. Não existem resquícios desse texto. Foi rasgada e esquecida. Foi um fracasso para todos que a leram e convenceu sua família de que ele deveria desistir de uma vez com essa loucura.

Balzac reconheceu a derrota nesta batalha. Percebeu que o teatro não fora sua melhor escolha e ainda precisava se aperfeiçoar muito para chegar ao nível de excelência que almejava. Continuou em Paris, agora sem a ajuda paterna, e para se manter começou a escrever novelas fantásticas para jornais. Era uma subliteratura, descartável e esquecível; serviu somente para que Balzac construísse uma disciplina própria, treinasse a escrita e não morresse de fome. Para não se manchar com esses escritos, assinou com vários pseudônimos. Mesmo nessa época, algumas características do futuro clássico já estavam presentes: um ritmo de trabalho alucinado, verdadeira produção industrial, e uma imaginação fértil.

Quando sentiu que estava pronto, abandonou essa subliteratura, começou a assinar com seu próprio nome. E não parou mais de escrever clássicos.

A diferença destas duas fases é estonteante. De um lado, um escrevinhador que vomitava textos ínfimos, de uma nulidade absoluta, puramente por dinheiro. Do outro, um autor com uma densidade e uma pureza artística que nunca foi maculada pela sua aspiração à nobreza, por reconhecimento ou dinheiro. A ascensão do “novo” Balzac foi fulminante.

Está certo que no começo foi devido ao escândalo: ele conseguia causar sensação. Seu primeiro livro “sério” (“Chouans”) era uma imitação do grande sucesso editorial da época, Walter Scott e o seguinte, “Fisiologia do Casamento” primava pelo cinismo, a sátira pesada e a discussão de temas tabus. No entanto, nada que lembre sua antiga produção. Mesmo que estes dois primeiros livros não tenham a mesma qualidade de obras posteriores, até hoje possuem uma frescura e uma densidade ímpar. Sua tentativa de imitação de Scott não deu certo simplesmente porque Balzac já possuía uma identidade e uma escrita própria e personalista que não foi mais abandonada e cujo correr do tempo só fez aumentar e destacar a importância.

O ritmo, a dedicação e a seriedade para com sua literatura eram impressionantes. Escrevia e reescrevia vários rascunhos. Oito, nove, dez, doze vezes. O livro inteiro. Seu desespero pelo melhor fazia com que paralisasse a gráfica enquanto o livro já estava sendo impresso. Isso para a primeira edição. Toda reedição merecia ser reescrita outras duas, três, cinco, dez vezes. Se pensarmos que, quando Balzac morreu, deixou uma obra que abrangia 95 romances, fora as peças de teatro, ensaios e artigos de jornal e lembrarmos que para todos eles o tratamento era o mesmo, podemos ficar espantados com toda a justeza. E ainda precisamos lembrar que ele possuía uma imensa atividade social, teve várias amantes, tentou carreira política, viajou por vários países … A racionalidade é pouca para entender tal gênio.

Ele conseguiu o seu intento. Tomou a França e a conquistou. Montou um painel desta sociedade que estonteia pela amplidão. Em um determinado momento, percebeu que estava, na prática, refletindo a realidade de todo um momento histórico. Mais do que um romancista, decidiu ser um Historiador, um Cientista Social. Todos os seus livros fariam parte de uma mesma e única obra. Haveria um fluxo de personagens de um livro para o outro, uma hora mostrando sua velhice, outra hora o início de sua vida e carreira. Seria a França em sua totalidade, com todas as suas idiossincrasias, seus tipos particulares, sua História, Economia, ambições, maldades, etc. Já estava superando Napoleão; superaria agora o próprio Registro Civil.

Esta obra é a Comédia Humana, constituída por dezessete volumes, mais de oitenta obras entre romances e contos. Personagens que cativam e marcam nossa memória: o jovem estudante Rastignac que deixa de lado seus escrúpulos morais para ascender socialmente (que serviu, mais tarde, como modelo para Dostoievski criar o seu Raskólhnikov, em “Crime e Castigo”); o grande Papai Goriot que sacrifica sua vida pela felicidade das filhas; o judeu Gobsek; a infeliz menina Pierrete e etc, etc. Não cabem nesta resenha. Entre tantos estudos sobre a vida e obra de Balzac, existe um dicionário somente para os personagens da Comédia Humana.

“A Mulher de Trinta Anos”. Esta é, sem dúvida, sua obra mais famosa. Impregnou tanto o imaginário ocidental que muitas pessoas que nunca sequer ouviram falar do escritor francês e nem tem idéia de sua procedência, conhecem a expressão “mulher balzaquiana”. O choque provocado em sua primeira publicação foi bem considerável. Pela primeira vez, um escritor valorizava os pensamentos e desejos de mulheres maduras, prestava atenção em suas angústias, reinvidicava o direito delas serem felizes, bonitas e sensuais e discutia de maneira franca e objetiva os problemas íntimos de casamentos fracassados. Foi um sucesso mesclado com escândalo e comoção social, cujos reflexos chegam até os dias de hoje.

No entanto, literariamente, “A Mulher de Trinta Anos” é uma de suas obras mais fracas, com péssimo desenvolvimento narrativo, personagens frágeis cujas personalidades se contradizem em várias cenas, uma escrita frouxa e mal acabada. Quem começar a conhecer Balzac através deste livro por causa de sua fama, provavelmente se decepcionará e não terá uma idéia precisa do brilho do restante de sua obra.

Na verdade, o livro é a junção de vários contos independentes e escritos em separado que sofreram algumas modificações mínimas, como a troca dos nomes dos personagens, por exemplo, no esforço para constituir um romance único que coubesse dentro da saga maior da “Comédia Humana”. Por isso, momentos brilhantes alternam com outros, baixos, quase constrangedores e personagens agem em contraste absoluto com atitudes anteriores. Sem dúvida, Balzac apararia estas arestas e as ligações ficariam melhor combinadas, mas morreu com apenas 51 anos, completamente esgotado, e com a arquitetura de sua “Comédia”, incompleta.

Muito melhor é conhecer Balzac pelo seus picos: “Ilusões Perdidas”. Ou “Eugenie Grandet”. Ou “Pai Goriot”. Ou até mesmo outros não tão conhecidos (injustamente), melhores (muito melhores!) do que “A Mulher de Trinta Anos”, como “Gobsek”, “Pierret”, “Coronel Chabert”, “A Prima Bete”, “A Casa Nucingen”… Alternativas realmente não faltam.