Archive for the ‘Desconcertos’ category

PINTURAS DE GUERRA

14 de fevereiro de 2017

Angel de la Calle. É um nome de uma pessoa, por mais improvável que pareça. Na verdade, é o nome de um dos autores de quadrinhos, novelas gráficas, mais importantes da atualidade. Escreveu uma impressionante biografia , em novela gráfica, um verdadeiro clássico, s

obre Tina Modotti, uma figura fascinante, uma grande fotógrafa, militante comunista, modelo, cineasta, da metade do século 20. Angel, igualmente militante, igualmente impactante, escreveu (entre vários trabalhos) os Diários, uma série de livros gráficos autobiográficos que tem como eixo o igualmente impressionante Festival de Gijon, festival de literatura policial, quadrinhos, cultura pop e alternativa de qualidade, do qual é diretor e principal organizador há vários anos. Eu escrevi sobre essas obras há alguns anos e tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente quando ele participou do lançamento, em uma Bienal do Livro em São Paulo, de ‘Modotti – uma mulher do século XX’ – publicado aqui no Brasil pela editora Conrad.

Angel de la Calle está com um novo petardo: PINTURAS DE GUERRA. E só pelo tema já dá para ter uma ideia do impacto: as ‘Guerras’, no caso, são as ditaduras latino-americanas, e através da mistura de personagens reais e fictícias, de técnicas de desenho aparentemente simples, não deixa de passar todo o impacto de sua verve, e a história tão complicada, tão dolorida. A obra repensa, rememora, discute e narra sobre as vítimas, os desaparecidos, os torturados, os mortos, os exilados, destas ditaduras. E que, inclusive, mais apropriado do que nunca, essa obra mais apropriada do que nunca, já de tanta nova onda de reacionarismo e volta de regimes de exceção saudosas das velhas formas de dominação ditadoriais parecem estar plenamente em vigor.

Tendo lançado em final do ano passado esta sua mais nova e contundente obra, Angel estará participando justamente hoje em um evento em Cuba, na Feira Internacional do Livro em Havana. PINTURAS DE GUERRA. Sem dúvida, o meu mais novo desejo de consumo.

tem um poco mais de informação aqui: http://www.sinembargo.mx/22-10-2016/3105978

e um ótima entrevista ao vivo no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=gf6Qlzuohn8

Quando o Governador Chuchu decretar Estado de Calamidade Pública Seca em São Paulo…

7 de fevereiro de 2015

8_n

 

Quando o DesGoverno do Estado de São Paulo, o nosso querido Governador ‘Chuchu Seco Mais Seco de Todos os Tempos’ Geraldo Alckmin ao final e ao cabo, finalmente for obrigado a decretar Estado de Calamidade Pública por conta da Gestão Criminosa e Irresponsável dos recursos hídricos do Estado,

 

Quando a população mais carente e mais desprotegida começar a morrer, ou por doença de água contaminada ou pura e simples falta de água;

 

Quando o comércio e a indústria começarem a paralisar por conta de medidas que não foram tomadas (e que podiam ter sido tomadas, e as quais todos os responsáveis estavam plenamente conscientizados);

 

Quando afinal o caos estiver instalado, tenham certeza de algumas coisas simples:

 

– o Governador Chuchu jamais admitirá o Estado de Calamidade, que seria uma mancha em suas pretensões à Presidência ou outros caminhos ainda mais chuchuzentos que quiser trilhar. Portanto, no máximo, dirá que adotou Medidas de Contenção das Vidas dos Paulistanos. E mandará a querida Polícia Assassina Militar Paulista bater e arrebentar quem ousar fazer reclamações ou manifestações;

 

– Tenham certeza de que , quando o Estado de Calamidade (ou qualquer que seja o eufemismo ridículo e hipócrita que adotem), nem será o próprio Chuchu a divulgá-lo: será por seu secretário ou porta-voz ou mesmo pela imprensa babona subserviente paulistana. Ele mesmo terá tido uma ausência ou férias estratégicas. Tudo para não manchar sua ascensão e suas pretensões a se candidatar a algum cargo presidencial brasileiro que estiver sobrando;

 

– Tenham certeza que os acionistas nunca terão seus direitos aos lucros contestados, mesmo que isso signifique a plena instauração do Estado de Calamidade Pública. Mesmo porque eles já sabem que seus lucros estão vindo do sangue dos pobres;

 

– Tenham certeza de que, quem não estiver morrendo, estará pagando pela conta da crise total, os lucros dos acionistas não serão compartilhados para amenizar a situação, nem as grandes indústrias terão seus privilégios ‘aquíferos’ tocados. E quem não se conformar e tentar resistir, sempre haverá a Polícia Assassina Militar Paulista a postos.

 

– Independente de quantos estiverem morrendo por conta da Crise Criminosa da água, os 30% de água que estão sendo até agora desperdiçados (jogados fora!) por causa dos vazamentos dos canos podres continuarão sendo 30% jogados continuamente, diariamente, fora. Provavelmente, aumentarão.

 

– Geraldo Chuchuzinho Alckmin continuará intocável. A culpa é do PT, sempre foi do PT, sempre será. E o PT continuará com sua cara de sonso bobo alegre deixando-se levar a culpa de toda a incompetência e corrupção (as suas e as dos outros). Se é que não vai chegar a acordos espúrios (tão constantes, tão nojentos, tão inúteis) para garantir uma coisa chamada… como era mesmo… ‘governabilidade’, é isso, PT?

 

58_n

Solução Alckímica? Polícia Militar.

20 de janeiro de 2015

10926377_1600254306860647_1943498243514839973_n

 

Para São Paulo, a solução Alckímica repressora-místico-política-assassina.

Para calar a boca (a cabeça, espinha, dignidade) de manifestações políticas legítimas: Polícia Militar.

Para proteger as valiosas vitrines de burgueses proprietários da sanha destruidora dos manifestantes: Polícia Militar.

Para assassinar diariamente a população negra (e ainda posar de coitadinha): Polícia Militar.

Para assassinar crianças e impor, na prática, a redução da maioridade penal: Polícia Militar.

Para assassinar a periferia e ‘elementos suspeitos’ indiscriminadamente e impor, na prática, a execução da pena de morte: Polícia Militar.

Para atiçar e fazer gozar a mentalidade proto-fascista da população paulstana: Polícia Militar.

Para curar resfriados, diminuir o calor, recuperar amores perdidos, acertar na loteria? : Polícia Militar, por que não?

Surpreendentemente (ou não) a Polícia Militar não tem servido para : Solucionar a criminosa gestão irresponsável de um governo que resultou na pior crise hídrica de uma das maiores metrópoles do planeta (e ainda posa de coitadinho) (mas vai servir para reprimir com toda sua meiguice habitual quando a população paulistana perceber que estrá entrando em um caos seco);

a Polícia Militar não tem servido para solucionar o escandaloso caso de corrupção no Metrô (e convenientemente meio esquecido pela tal mídia) (mas servirá para reprimir qualquer manifestação ou greve de funcionários que ousarem questioná-los);

e a Polícia Militar não tem servido para melhorar a cara de sorvete de chuchu do nosso querido governador que nunca parece realmente se importar com todas essas questões (ou, então, a marca do óleo de peroba que utiliza é realmente poderosa).

Enfim, à nossa poderosa, portentosa, brilhante, meiga, gentil, assassina, repressora, encapacetada, inidentificável, e sorridente (por baixo do capacete) POLÍCIA MILITAR do Estado de São Paulo, um pequeno lembrete: amanhã, dia 20, tem mais manifestação contra o aumento dos ônibus e pela tarifa zero (portanto, contra as máfias do transporte paulistano) e pela real valorização do povo.

Nos encontramos lá.

um beijo.

 

escuridão

19 de julho de 2014

 

Vou me vestir de escuridão.

Tomarei do vento o peito.

Conterei lágrima.

Sulcarei a madeira com motivos lindos e vãos,

com desenhos alongados e sutis,

com letras alongadas e pontudas,

e a deixarei de lado.

 

Vou me vestir de escuridão e me refugiarei nas dobras

de uma esquina de areia radioativa submersa.

E beberei da areia.

E cada grão queimará riscos,

correrá do peito queimando riscos,

um grão por um,

um grão por um.

 

Me tornarei quieto.

Muito quieto.

 

Me vestirei de escuridão. Me esconder da dor.

Quem sabe, a dor

esqueça meu nome.

 

 

escuridão

claudinei vieira

10398_n

Brisa no Coração

16 de março de 2014

brisa2

E o pastor diz: Os culpados pelo furacão Sandy? Os Gays, claro!

31 de outubro de 2012

 

Até que demorou: pastor norte-americano descobre e anuncia quem são os verdadeiros culpados pelo furacão Sandy: os gays!

Os Estados Unidos é um país onde pululam e se multiplicam os Malafaias (com muito maior poder econômico e de divulgação em rádios e tvs). Assim como no Katryna e nos mais diversos tipos de desastres e tragédias naturais que acontecem pelos Estados Unidos, as vertentes fanáticas religiosas fundamentalistas norte-americanas são pródigas em apontar que estes são verdadeiros castigos divinos pelos pecados cometidos.

Talvez a única diferenciação no que o pastor John McTernan diz é o fato de ser tão específico: ele já vinha ‘alertando’ dos perigos que a campanha eleitoral presidencial e advertia os candidatos, tanto Obama quanto Romney, de estarem se aproximando demais dos movimentos gays, portanto vide os furações Isaac e Katryna e agora o Sandy: “Deus está sistematicamente destruindo os Estados Unidos”. O fato dessa ‘tempestade monstruosa ter alcançado os Estados Unidos e estar prestes a inflingir sérios danos durante a semana de eleições não é uma coincidência.”

Outro fato que também não é coincidência (e esse aponto eu) é que, impressionantemente, fanatismo, estupidez e preconceito sempre andam juntos. Independente de tempestades e furacões.

 

http://www.salon.com/2012/10/29/pastor_blame_gays_for_hurricane_sandy/

 

 

 

 

Verbo 21, Outubro, e Alan Moore

22 de outubro de 2012

 

opa, número novo da VERBO 21 e opa, texto meu, tinindo de novo, sobre ‘Neonomicon’, quadrinhos de terror, violência e suspense de Alan Moore, publicado no Brasil pela Panini. Cercado de polêmicas, discuto se esse recente trabalho mostra realmente sinais de decadência do melhor escritor de quadrinhos de todos os tempos.

Mas, obviamente, VERBO 21 traz muito mais do que um texto meu:

Ano 13, número 159, outubro 2012

Neonomicon: o genial e o lixo de Alan Moore – Claudinei Vieira
Tradução: Quatro poemas de Paul-Jean Toulet – João Filho
JOSÉ WEIS: NEM CINISMO, NEM DOCE-LIRISMO – Sidnei Schneider
Gente da Minha Terra – Maria Lucília Viveiros Araújo
Perdendo a noção: um intertexto que se cria – Juliana Assis
A ANTOLOGIA METAPOÉTICA DE ANDERSON BRAGA HORTA – Claudio Sousa Pereira
Foucault, as genealogias e os poderes – Tatiana Sena
SUTILEZAS DO EROTISMO EM ROLAND BARTHES- Rodrigo da Costa Araujo
O Poeta Utópico – Mariel Reis
Cinema na televisão: considerações sobre o telefilme – Leonardo Campos

conto de Dênisson Padilha Filho
COLUNAS:
Aguacesa
Bordado sem dedal
Daguerreótipos
Diálogos
Os Gallos
Vértebra

ENTREVISTAS:
David Léo Levisky
Salgado Maranhão

http://www.verbo21.com.br/

Cinco mil cruzes. Bastam para lembrar que os índios continuam a ser massacrados?

20 de outubro de 2012

 

Quantas mais serão necessárias para tomar a consciência, descer a cara hipócrita e reconhecer que os índios continuam a ser massacrados, aculturados, literalmente mortos, afastados de suas terras, tratados como povos ignorantes e descartáveis?

Descartáveis. Servem quanto muito para cartões postais e festejar doentias datas de ‘comemoração’. Descartáveis e inúteis. Inclusive incômodos, por atravancar interesses de posseiros, latifundiários, atrapalhar construção de usinas, reinvidicar antigos direitos de posse de terra.

Cinco mil cruzes não bastam. Nunca bastarão. Somente quando estiverem todos mortos e enterrados. Aí sim, e somente assim, poderão ser lembrados os gloriosos dias quando os índios eram puros, ligados à natureza, ‘bons selvagens’, exemplos a serem seguidos…

Enquanto isso, continuam insistindo (os inúteis, os ultrapassados, os descartáveis ) em sua pretensão de serem tratados como seres humanos.

Cinco mil cruzes foram colocadas hoje (19) no gramado da Esplanada dos Ministérios, próximo ao Congresso Nacional. O protesto, organizado por comunidades indígenas e entidades de defesa desses povos, simboliza índios mortos e ameaçados, especialmente os guaranis kaiowás, de Mato Grosso do Sul, que hoje é a etnia que mais sofre com a violência fundiária, segundo os organizadores. Os indígenas também reivindicam a homologação e demarcação das terras.”

http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidadania/2012/10/em-protesto-indios-cobrem-gramado-da-esplanada-dos-ministerios-com-cruzes?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

A usurpação das terras Guarani Kaiowá e o genocídio no Mato Grosso do Sul.

Comitê Internacional de Solidariedade a Luta do Povo Guarani e Kaiowá

 

http://solidariedadeguaranikaiowa.wordpress.com/breve-historico/

 

 

 

 

Privataria Tucana em vídeo. Próxima CPI?

17 de outubro de 2012

 

Resumo em vídeo das ideias principais do livro “A Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Jr.. o vídeo é curto, mas deixa entrever a profundidade e a densidade do livro, uma grande lição de história recente.

O livro faz muito mais do que apontar imoralidades: mostra a montanha de dinheiro que foi literalmente roubada dos cofres públicos através das privatizações da época de Fernando Henrique Cardoso, com o auxílio luxuoso de José Serra, mostra quem são os mandantes (os criminosos) e os caminhos dos roubos (os crimes sendo praticados), tudo embasado, demonstrado e provado por documentos.

No entanto, para os meus olhos leigos, talvez não seja a melhor pessoa para avaliar a autenticidade de suas provas. Não sou policial, nem advogado, muito menos juiz (aliás, não sou nem mesmo petista). O que eu quero (e exijo) é que os policiais, os advogados e os juizes façam o seu trabalho, como foram louvados no caso do mensalão.

Agora, a minha grande dúvida ainda é sobre um tal cpi da privataria. Gostaria muito de saber se haveria a mesma diligência, a mesma sofreguidão, o mesmo empenho demonstrados no mensalão petista.

Gostaria de saber se ocorreria igualmente nos momentos finais ou exatamente em período de eleição.

Gostaria de saber se mandantes criminosos de alta categoria, de cúpula de partidos nacionais, também seriam indiciados (e não somente alguns gatos pingados, só para dar o tom de que a tal cpi seria imparcial).

pô, CPI da Privataria Tucana.

Confesso que eu acharia interessante.

Dia das crianças. Certo?

11 de outubro de 2012

 

“A cada três segundos, uma menina é obrigada a se casar; 75 milhões não vão para escola; 64% dos casos de Aids no mundo são de jovens entre 15 e 24 anos.” “Estima-se que 140 milhões de meninas e mulheres sofreram mutilação genital – uma cifra que aumenta em dois milhões a cada ano – e que 14% das meninas que vivem em países em desenvolvimento, se casarão antes dos 15 anos, algumas inclusive (nos casos mais extremos) com tão somente cinco anos.” “Nove em cada dez menores que trabalham com serviço doméstico são meninas entre 12 e 17 anos.”

Dia das crianças.

Certo.

http://www.eltiempo.com/mundo/estados-unidos/mitad-de-agresiones-sexuales-en-el-mundo-son-a-ninas-menores-16-anos_12294941-4

“As leis são como as mulheres, estão aí para serem violadas”.

8 de outubro de 2012


Quem proferiu essa lapidar frase de sabedoria moderna (“Las leyes son como las mujeres, están para violarlas”) foi o espanhol José Manuel Castelao Bragaño, ex-presidente de um órgão consultivo para o governo ligado ao Ministério do Trabalho espanhol. Recém-empossado no cargo (havia sido no dia anterior, dia 05) para um mandato que seria de quatro anos, Bragaño falou isso durante uma reunião aborrecido (ou divertido) por conta de um problema burocrático para o fechamento de uma ata.

É, o inconsciente faz dessas coisas de vez em quando, imbecilidades irrompem inesperadamente, faz a pessoa escorregar, e dizer o que pensa, de verdade, no íntimo, agora escancarado.

A reação e o choque foram imediatos.

Pouco depois, Bragaño anunciou sua renúncia do cargo, mas disse que foi por motivos pessoais.

Ao todo, ficou quatro dias no cargo.

Ficou demais.
http://sociedad.elpais.com/sociedad/2012/10/05/actualidad/1349454276_520810.html

Circo de uma Justiça

5 de outubro de 2012

 

Eu não nutro a menor simpatia pelo político José Dirceu. Tenho restrições a sua tal trajetória; tenho dúvidas sobre seus projetos pessoais e históricos. Acredito que, em um julgamento verdadeiramente íntegro e consistente sobre sua atuação e manutenção do poder, algumas lições importantes de moral poderiam ser aprendidas, algumas ações sérias poderiam ser tomadas, medidas históricas poderiam ter sido encaminhadas.

Mas esse circo do STF nunca foi um julgamento de verdade, não é mesmo? Nunca houve a intenção de possibilidades alternativas, não é? Nunca deixou de ser somente e absolutamente um reles instrumento de politicalha baixa e rasteira.

Fico pensando em quanto tempo demorará para que se perceba o tamanho das forçações de barra, das bizarrices jurídicas, dos absurdos de lógica. E não nos enganemos: a porteira foi aberta, a hipocrisia ficou escancarada.

Daqui pra frente, a tendência é de queda livre. Pois, o salto foi dado.

Moby Dick em voz; Joyce em quadrinhos; literatura e internet; clássicos em modernidade.

5 de outubro de 2012

 

As relações, experimentações, influências e entrelaçamentos entre a prosa escrita, a poesia, a imagem e a tecnologia, existem desde a criação do computador moderno e se ampliaram exponencialmente com a propagação da internet. Por um lado, a criação de uma cultura própria, específica da absoluta modernidade cyberhightech que vivemos, ainda precisa ser encontrada e definida. Provavelmente, está em gestação, sendo construída nas entrelinhas dos bits e gigabites, já presente, embora ainda não reconhecida; esperemos. Mesmo na época da velocidade de anos-luz de informação internética, ainda é necessário se dar o tempo da maturação.

Por outro lado, a transposição da literatura tradicional para novas plataformas e conceitos diferenciados, esta sempre esteve presente e vai muito além da mera apresentação e formatação para e-readers, ipads, tablets e afins. Estes exemplos que vou citar a seguir, já faz um tempo gostaria de tê-lo feito, são belos trabalhos de interpretação e transposição da literatura clássica  e não teriam acontecido não fosse a internet. Posso ter demorado para finalmente fazer este comentário, mas bem merecem serem conhecidos.

‘Ulysses’ de James Joyce certamente é infilmável. Mas seria também “in-quadrinhável“? Transformar a famosa e proverbial prosa joyceana e traduzi-lo por imagens através da linguagem dos quadrinhos é uma forma de se aproximar do clássico literário ou um rebaixamento da cultura? Uma homenagem e uma nova forma de entendê-lo ou uma arrogante heresia rasa de baixa qualidade?

Não sei se os criadores de ‘Ulysses Seen’ (o autor Robert Berry e o quadrinista Josh Levitas, entre outros) já chegaram a conhecer a lapidar opinião do escritor Paulo Coelho sobre Joyce (a de que ele teria feito somente mal para a humanidade e para a Literatura) ou se ficariam com medo de também estarem fazendo mal para a humanidade e o mundo dos quadrinhos… Mas certamente não ficaram com medo de assumirem um projeto tão ambicioso.

Independente do que se pense sobre tal ideia (para mim, só pela coragem tá valendo o propósito) (o resultando final é, pelo menos, interessante), o site e o blog são bem ancorados em extensas pesquisas (disponíveis ao usuário) e é fruto do entusiasmo de artistas e técnicos engajados com sua arte e técnica, o que garante o empenho.

Ulysses ‘Seen’

http://ulyssesseen.com/

‘Moby Dick’, de John Melville, está sendo lido capítulo por capítulo por atores e artistas e leitores convidados e voluntários do mundo inteiro e disponibilizado em arquivos de voz. Em cada post, um capítulo, uma voz, uma interpretação, acompanhado por um artista plástico com sua visão particular.

Deve estar dando um trabalho insano reunir tal pessoal, de tal quilate (como por exemplo, Stephen Fry e Tilda Swinton, que é quem lê o primeiro capítulo) e organizá-lo no site, mas o resultado está sendo do tamanho de suas pretensões.

Moby Dick Big Read

http://www.mobydickbigread.com/chapter-1-loomings/

E um conto clássico moderno da literatura brasileira transforma-se em uma divertida brincadeira visual que anima e mexe com as imagens e os sentidos das palavras. Realizado por Rodrigo Burdman, do conto ‘Homo Erectus‘, de Marcelino Freire com a indefectível voz de Paulo César Pereio, o curta de animação está no ar desde 2009, tem mais de 200 mil visualizações, mas considero isso pouco, muito pouco.

VERBO 21!

1 de outubro de 2012

uma entrevista com CAIO PORFÍRIO CARNEIRO

grátis: baixe músicas da banda Irmão Carlos e o Catado

mais: “Percebemos que com o avançar da tecnologia da comunicação, os estereótipos deturpados de cultura brasileira encontrados em alguns filmes, seriados e games colaboram com a visão míope do brasileiro na mídia estrangeira…” na resenha a miopia estrangeira: o Brasil na ficção audiovisual contemporânea de leonardo campos

Nos últimos anos, a reativação das conexões literárias com o continente africano possibilitou a publicação no Brasil de importantes obras das literaturas contemporâneas realizadas em África…” na resenha flores da liberdade: Hibisco roxo e o cultivo da autonomia por tatiana sena

Um dos meus pesadelos atuais são as chamadas telefônicas. Estive pensando nisso ontem e fazendo um inventário de onde vêm esses telefonemas inoportunos. Pelas minhas contas, posso dizer que…” na nova coluna bordado sem dedal por rosângela vieira rocha

e ainda:
– capitão nascimento, o herói d’os sertões (a periferia na literatura brasileira) por glaucio cardoso
– woody allen: para hollywood, com dinheiro por ademir luiz e roberta ribeiro
– o retorno do livro artesanal e as edições civilização arcaica brasileira por sandro ornellas
– uma leitura semiótica de a igreja do diabo, de machado de assis por rodrigo jorge
– para além do conceito de literatura infantil por rodrigo da costa araújo
– função e significado da ilha dos amores por patrícia teixeira
amor, inspiração atemporal por cleberton santos

as colunas: daguerreótipos, os gallos e vértebra

textos inéditos de: lidiane nunes, danilo augusto de athayde fraga e marcelo benini

 

http://www.verbo21.com.br/v5/

 

 

Monteiro Lobato: o racista

27 de setembro de 2012

Monteiro Lobato a Arthur Neiva, em carta enviada de Nova Iorque durante o tumultuado ano de 1928, criticando o Brasil: ”País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. (…) Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva.”

Monteiro Lobato a Renato Kehl: “Confesso-me envergonhado por só agora travar conhecimento com um espírito tão brilhante quanto o seu, voltado para tão nobres ideais e servido, na expressão do pensamento, por um estilo verdadeiramente “eugênico”, pela clareza, equilíbrio e rigor vernacular.”

“Renato, Tú és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque (“O Choque das raças ou o presidente negro, de 1926″), grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. […] Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade pecisa de uma coisa só: póda. É como a vinha. Lobato.”

(Renato Kehl foi um dos principais expoentes da Eugenia no Brasil, que prega a purificação da raça branca através do acasalamento entre pessoas ‘saudáveis’, isto é, obviamente, as pessoas brancas, além da esterilização, segregação e subsequente extinção das pessoas negras)

Ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: “(…)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!…” (em “A barca de Gleyre”. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).

A Godofredo Rangel: “Meu romance não encontra editor. […]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri (obs: o ‘belo crime’ sugerido é a esterilização do povo negro). Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros.”

Trechos destacados por mim de dois belíssimos textos, os melhores sobre o assunto Monteiro Lobato e o racismo, ambos de Ana Maria Gonçalves: “Não é sobre você que devemos falar” e “Carta Aberta ao Ziraldo“.

Outro ótimo texto é o de Edson Lopes Cardoso, “A propósito de Caçadas de Pedrinho“, onde o autor demonstra como a negra Anastácia é colocada abaixo até dos animais do sítio.

E para desfazer o montante de bobagem falada sobre a suposta censura do CNE, este texto de Cesar Augusto Baldi (‘Monteiro Lobato, racismo e CNE‘, ) diz tudo.

(um adendo, depois de uma breve discussão no facebook)

Sabe, é muito chato ler documentos oficiais. Eu, pessoalmente, acho um porre. Mas não é possível tomar uma posição, emitir uma opinião, se não se souber exatamente o que foi dito. Para que não se diga bobagens. Para que se tenha os dados bem em mente de forma concreta (não ouvida ou avaliada por outras pessoas), para que se possa fazer sua própria avaliação e, principalmente, não cair em falsas discussões.

O tal Parecer CNE/CE nº 15/2010, o que deu início a tudo ao fazer suas considerações e recomendações em relação ao livro ‘Caçadas de Pedrinho’, está disponível na web e pode ser lido

(http://blog.centrodestudos.com.br/2010/11/03/cacadas-de-pedrinho-e-o-cne/).

Ele é chatinho de ler (detesto a linguagem empolada em que são escritos). Mas, sabe, ele Não propõe censura.

NÃO propõe que a obra de Monteiro Lobato seja queimada em praça pública.

NÃO propõe que seus livros sejam retirados de circulação.

NÃO propõe que suas obras deixem de ser lidas por alunos. NÃO propõe que sejam relegadas ao esquecimento.

Parece incrível, não é?, dizer isso depois de tanta celeuma e depois de tanta propagação da palavra CENSURA, CENSURA. Quando digo que não censura não há, nem pretensão disso.

Agora, não é necessário acreditar em mim ou na minha avaliação.

Que tal ler o texto original?

Favela do Moinho. 20 de setembro de 2012. A especulação imobiliária vigia e goza.

21 de setembro de 2012

A imagem não diz tudo? A imagem é insuficiente? Então, permitam-me acrescentar:

Morram.

Morram queimados. Em um dos vários incêndios, das dezenas que, ‘por coincidência’, estão acontecendo em seguida em São Paulo. Se do fogo escapar, morra no SEGUNDO incêndio. E se mesmo assim sobreviver, que seja impedido de retomar sua vida, que os guardas, policiais, os funcionários da ordem e da manutenção do bem público (desde que, bem entendido, por Bem Público não esteja se referindo aos Seus bens ou a sua Vida) estejam a postos para para impedir que reconstrua seu miserável barraco.

Morram. Pelo descaramento, pela desfaçatez, pela Ousadia de tentar existir ao lado de terrenos valorizados. Que valem Dinheiro. E sua presença está impedindo que eles continuem ganhando Dinheiro.

São Paulo está queimando. Está sendo higienizada. Purificada pelo fogo. Por uma das gestões mais bizarras, irresponsáveis e (se revelando cada vez mais) criminosas que esta cidade já teve (e olha que São Paulo é especialista em políticos bizarros e catastróficos).

São Paulo queima. E a especulação imobiliária ri, agradece, vigia e goza.

ps – para acrescentar mais um toque de bizarrice, veja-se esta página da Globo online: noticia a ação da Guarda Civil Metropolitana de impedir os favelados de reconstruírem seus barracos na Favela do Moinho e coloca do lado uma caixinha de marketing imobiliário… Chamar de ‘ato falho’ é pouco, muito pouco.

 

 

Feicibuque, Sexo e Censura

14 de setembro de 2012



A primeira imagem foi uma foto clássica do século 20, muito conhecida e publicada várias vezes inclusive no Facebook. Em 1974, durante uma aula de fotografia e erotismo ministrada por Imogen Cunningham, a aluna Judy Dater focaliza a professora junto da modelo nua Twinka Thiebaud. Milhares de definições e interpretações e histórias são possíveis e foram feitas a partir desta fotografia, das mais cruas às bizarras, inclusive místicas, o que só prova que ela comporta inúmeras camadas. Prefiro a primeira sensação que eu tive: a brincadeira, a ironia, o bom humor tirado do constraste entre as duas mulheres, entre o nu e o recato, entre a liberdade e a contenção. Praticamente um comentário sobre a reação das pessoas em geral ao erotismo.

A segunda imagem que tive censurada no Feicibuque foi a que apresentei para o Dia do Nu organizado pelo poeta Claudio Daniel: uma cena do filme ‘Don Juan ou Si Don Juan était une femme…’, com Brigitte Bardot e Jane Birkin, ícones e musas do cinema e da beleza feminina, deitadas juntas completamente à vontade. Para amenizar o preto-e-branco da imagem original que eu tinha, acrescentei um tom azulado fazendo com que, na minha opinião, a imagem ficasse ainda mais bonita e delicada, suave, sem nenhuma agressividade.

Logo em seguida, outra cena de filme apagada sem apelação e que me proporcionou mais alguns dias de ‘castigo’. De ‘L’Apollonide – Souvenirs de la maison close’, vê-se várias mulheres se arrumando, trocando de roupa, em um cenário do que parece ser um casarão vitoriano. A iluminação pastel, os corpos lânguidos e sem pressa, remetem diretamente à imagens de quadros do final do século 19, o que foi a óbvia intenção do diretor do filme, com belo resultado.

Há dois pontos principais a se tirar dessa lógica censitória exercida pelo Feici: um matemático e um social, que refletem não somente as idiossincracias de um milionário garoto norte-americano (até há pouco tempo) bastante virgem, mas igualmente as da sociedade em que vivemos. E os dois pontos dão medo.

O matemático tem a ver com o desenvolvimento da tecnologia, com o reconhecimento eletrônico de imagens por dados de computador que possibilita, por exemplo, mais rapidez e eficiência no reconhecimento de pessoas em documentos oficiais, ou a busca de detalhes e melhor organização de arquivos imagéticos. Já é possível fazer uma programação onde se lance um dado específico (imagens de seios ou pênis, por exemplo) e rastrear tudo o que relacione ou se assemelhe. Embora ainda não funcione com toda a potencialidade que se deseja (principalmente com base de dados tão extensa e pesada como a proporcionada pelos usuários feicibuqueanos), mesmo assim já possibilita a existência de sites que fazem busca de imagens pela web do mesmo modo como o google o faz através de palavras.

O social é mais preocupante. Porque estamos falando de uma sociedade que está sabendo mexer com altas e refinadas tecnologias científicas e possui, ao mesmo tempo, uma mentalidade moral e psicológica da Idade Média. Que tem medo da palavra Corpo e do que ela implica. Que concebe os mais avançados e práticos modelos de roupas e uniformes para todos os esportes olímpicos, mas não tem certeza se permite a participação de mulheres no Atletismo ou nadadoras de maiô (ou somente se estiverem de burca). Que amarga centenas, milhares de anos, de repressão religiosa e regimes políticos intolerantes fazendo com que os traumas e os recalques acumulados por tanto tempo explodam continuamente; observamos isso a todo momento e, pior, sem solução de continuidade à vista. Uma sociedade que planeja e organiza ir à Marte e ainda não sabe lidar com o orgasmo feminino.

Estamos no século 21 e o Nu ainda é encarado com constrangimento, com falta de sentido, como provocação. Como Imoralidade.

A contradição hipócrita moralista de uma sociedade doente e recalcada é ainda mais chocante (exposta e visível) em um ambiente tão pretensamente livre como as redes sociais da web. Pois os algoritmos matemáticos e o preconceito são cegos e burros e não distinguem Seios ou Sexo como Pornografia da Arte ou da expressão livre do ser humano. São Seios. E Sexo. E para o recalcado moralista com traumas mentais escondidos é tudo feio, inumano, deve ser proibido e censurado pois, já que eles não o praticam, ninguém mais deve praticar.

 

 

texto integral, publicado pela revista eletrônica de poesia e debates, ZUNÁI, capitaneada por Claudio Daniel, para um especial de discussão sobre a censura ao Nu no Facebook. O especial ( “A Beleza será convulsiva – A Subversão da nudez no Facebook“), organizado pela poeta Célia Musilli, reuniu textos e depoimentos de alguns dos usuários que passaram pela decepcionante situação de verem suas imagens postadas (tantas de cunho artístico e erótico) censuradas, bloqueadas, e ‘castigadas’ com a ameaça de novos bloqueios e, quem sabe, até a desativação da conta. A abertura do espaço proporcionado por Claudio Daniel e a excelente organização da Célia Musilli tornam ainda mais honrosa a publicação de um texto meu na bela revista ZUNÁI.

 

 

 

 

 

A Love Supreme – A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane

11 de setembro de 2012

 

Em “Acknowledgement” John Coltrane pulsa rápido seu sax tenor e Elvin Jones retine o metal em uma introdução forte, simples e curta. É uma conclamação, um chamado. Um aviso. Saberemos logo em seguida o que significa. Enquanto o tema se impõe, Coltrane sola e aos poucos as quatro notas se repetem, falam a frase-título, ‘a-love-su-preme’, como um mantra, o reflilhão da liturgia jazzística que está a se impor. O som cala fundo. É, ao mesmo tempo, calmante, reflexivo, introspectivo, indagador, experimentador. Há controle e fuga, viagem e condução, reflexos da busca de Coltrane, que volta com o mantra, experimentando-o em diversos tons, fôlegos, aspirações, até mesmo com a voz, a de Coltrane e de mais alguém.

Em ‘Resolution’, o segundo movimento da suíte de Coltrane, há de novo outra conclamação no inicio, mas desta vez é uma verdadeira tomada de posição, é o próprio vigor da emoção dos músicos se manifestando. O que havia de discreto e simples no movimento anterior aqui explode. Para mim, é o momento mais fascinante, a ponto de me arrepiar o cabelo. Depois de muito tempo, aquela melodia ainda persegue a memória. MacCoy Tyner toma conta do tema com seu piano e logo volta à bola para o líder, que a retoma com mais emoção ainda.

Segundo nos mostra Ashley Kahn (“A Love Supreme – A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane“, editora Barracuda) ao ouvir as gravações originais dos takes de estúdio, houve normalmente algumas tentativas, voltas e retomadas, como era natural. Coltrane podia retornar várias vezes, como o fez nos dois primeiros movimentos (‘Resolution’ teve seis takes falhados ou imperfeitos, antes dele se contentar com o sétimo) (e é sempre interessante, quando ouvimos somente o resultado final, como poderia ser realmente diferente daquilo que foi; é claro, não poderia). ‘Pursuance’, o terceiro movimento, foi levado de uma só vez, um único take. Para mim (e isso está longe de ser uma avaliação fria e objetiva) é o momento mais nervoso, mais agitado, mais viajante. Sem dúvida, é a bateria de Elvin Jones e seu “estilo ‘bastante ativo”, e sua forma toda particular de misturar e trazer os ritmos “africanos e caribenhos para a bateria de jazz tradicional”, ao abrir o movimento, dá o tom geral. Pelo menos, é como aparece para mim. Jimmy Garrison com seu baixo dá um breque, puxa o tom para baixo, soa solene, profundo.

Quase não sentimos a transição para o quarto movimento, o ‘Psalm’, pois Coltrane pega o tom intimista de Garrison e o aprofunda ainda mais. E aqui é preciso respirar fundo. O sublime acontece. Coltrane se fecha, seu sax se aquieta, os sons se acalmam. Os demais músicos o acompanham, mas servem somente como pano de fundo. Pois Coltrane assume um tom de oração. Neste momento, através do Jazz, ele está orando, conversando com Deus.

“A Love Supreme” é uma composição, uma suíte jazzística, criada no apogeu da capacidade artística de John Coltrane e seus companheiros McCoy Tyner (piano), Jimmy Garrison (baixo) e Elvin Jones (bateria), como uma elegia, uma canção de louvor ao Senhor. Não é blues (embora, uma ponta aqui e acolá apareçam por conta da extrema versatilidade das influências e do conhecimento de Coltrane), nem gospel (a inspiração existe, é claro, mas somente como inspiração). É jazz, no seu extremo. Feita para tocar o sentimentos humanos, beirando no sublime religioso.

Talvez, para quem me conhece, até estranhe minha referência e o meu fervor em uma composição que possui tal grau de dedicação religiosa. Fico sinceramente ofendido com este tipo de pensamento. É como se meu ateísmo me impedisse de reconhecer a beleza e a cultura dos que cultivaram sua veia religiosa e conseguiram expressá-la com fervor e arte (como quando um amigo, grande amigo aliás, ficou um tanto chocado ao saber que eu curtia e apreciava o ‘Messias’, de Haendel; até pensei em responder que o pensamento rasteiro e o preconceito estavam vindo dele e não de mim, mas deixei quieto).

Portanto, se como ateu posso me impressionar e me comover até ás lágrimas com um ‘Messias’ ou com ‘A Love Supreme’, mesmo sem compartilhar de suas convicções tão intimas (e, de certa forma, até devo fazê-lo, pois o que me pega é sua música, sua arte, tão genuinamente humanas e belamente realizadas), não se pode deixar isso de lado quando se pensa em sua formação, em sua construção, em seu objetivo. Claro, para um rapaz de poucos anos atrás que estava se iniciando em sua formação musical e havia se impressionado com o disco ‘Standards’, de Thelonious Monk (foram as primeiras notas de ‘Memories of You’, que me conquistaram definitivamente para o jazz), e com o ‘Pithecanthropus Erectus’, de Charles Mingus (e tinha acabado de assistir a biografia de Charlie Parker, ‘Bird’, do Clint Eastwood, e se encantado), demorei um bom tempo para conhecer e apreciar de verdade este trabalho de John Coltrane.

Me lembro vividamente até hoje o exato instante da coisa: havia decidido saber, afinal de contas, qual o grande X deste tal Amor Supremo, preparei meu lugar com cuidado, me fechei para o mundo, acionei o braço da agulha e a rotação do disco dando um ligeiro tranco para a direita, ligando assim o aparelho (no ‘toca-disco’, aquele aparelho ancestral e longínquo que tocava o long-play, a mídia da época, que até se parecia com um cd dos de hoje, só que preto e bem maior), sentei, relaxei, ouvi e fiquei estupefato com a minha própria estupidez em não tê-lo ouvido com a devida atenção há muito tempo atrás!

O impacto de “A Love Supreme” foi absurdamente tremendo na época do seu lançamento. Até hoje, é o disco de jazz mais popular de todos os tempos e um dos mais vendidos (mesmo levando-se em conta a péssima condição das estatísticas relativos ao mercado de jazz e o virtual desconhecimento de cifras e números que reflitam o montante real de suas vendas; o que se pode fazer é uma avaliação aproximada). Lançado em 1965, influenciou e foi reverenciado não só pelos músicos, mas, na prática, pelos movimentos sociais e políticos (década de sessenta, lembre-se, momento dos grandes movimentos de afirmação negra norte-americana e pelos direitos civis), religiosos, e no plano artístico em específico, deixou marcas profundas em todo o universo musical, e não somente jazzístico. Ashely Kahn ajuda a rastrear esse impacto e essa influência, neste livro que eu teria pago com um pedaço da minha existência para poder ter lido na mesma época que estava começando a ouvir jazz (e ao qual fiquei cobiçando desde o primeiro instante que soube que fora editado nos Estados Unidos; sentimentos que chegaram a uma verdadeira aflição quando soube seria editado aqui no Brasil pela Barracuda).

Ashley Kahn escreve sem frescuras, sem pedantismos, sem demonstrações de gíria de músico-escrevendo-para-músico, e ao mesmo tempo sem didatismos infantis dirigidos para um ‘grande público’, sobre como foi o nascimento desse disco, sua gênese e repercussões. Com estilo claro, simples, de um apaixonado pelo jazz, com farta documentação (entrevistou músicos ainda sobreviventes do grupo de Coltrane e pessoas ligadas ao redor, assim como à viúva do saxofonista e seu filho, também músico, Ravi Coltrane), com trechos de entrevistas ainda inéditas do próprio Coltrane (ele não era muito dado a dar entrevistas, acreditava que sua música falava por si mesma e por ele, portanto não falava muito; Kahn aproveita um pouco disso), e muito material fotográfico também inédito.

Portanto, essa edição da Barracuda é uma delicia de se ler, visualmente linda, informativamente embasada, serve tanto para os que já conhecem todos os detalhes (para renovar sua devoção) quanto para os calouros que estão chegando e ainda não sabem o tamanho desse universo.

Para esses, eu diria o seguinte: esqueça o jazz. É, simplesmente deixe de lado. Pegue esse livro e curta-o como um pequeno romance, um artigo de jornal (um ótimo artigo de jornal) um pouco maior do que o comum. Se você tiver o disco ou o cd à mão, ainda melhor, mas deixe-o somente como um pano de fundo, bem baixinho. Não preste atenção na música, neste primeiro momento, não tente entendê-la. (certa vez, Coltrane disse que bastava ouvir a música, não era necessário compreendê-la, não adiantava tentar explicar, o ‘sentir’ vinha primeiro e era mais importante). Portanto, deixe-a de fundo, não a ouça. O que estou tentando dizer, ao final, é: não force a percepção. Leia e deixe fluir.

Ao término da leitura, você pode ter sentido um êxtase religioso ou tomado um novo rumo em seus gostos musicais e ter decidido até se tornar um saxofonista. Ou não. Tenho certeza absoluta que terá tido, pelo menos, uma leitura extremamente agradável, eu garanto.

 

 

 

 

Documentos Revelados: LISTA DE TORTURADORES

6 de setembro de 2012


“Por Aluizio Palmar · 28 de janeiro de 2012 (atualizada em 10 de agosto de 2012)

A tortura, como os demais atos violadores dos direitos do homem, concretamente ou em potencial, representa um ataque e uma ameaça genérica.

No Brasil, a tortura, com o apoio de largos setores civis que serviram de base de sustentação da ditadura, foi o método preferencial de investigação. Esta prática impune ainda subsiste e deve ser denunciada, combatida e os torturadores devem ser punidos de acordo com a Lei.

A lista abaixo é resultado de um trabalho coletivo executado pelos sobreviventes do período da ditadura, com a colaboração de entidades que atuam em defesa dos direitos humanos.”

LISTA DE TORTURADORES

 

 

O preço da vida em Pinheirinho

3 de setembro de 2012

 

Qual o preço da vida? Qual é o preço mínimo por seres humanos? Não falo de Custos ou de manutenção mínima de condições de sobrevivência. Digo do valor númerico, financeiro, em reais, para que uma pessoa tenha o direito a existir. Melodramático? Por mais macabra ou até mesmo um tanto tétrica a pergunta possa parecer, talvez possamos ter agora uma idéia mínima da resposta, em Pinheirinho.

187 milhões. Para começar. 187 milhões é o valor calculado para o leilão do terreno em São José dos Campos conhecido como Pinheirinho cuja reintegração de posse expulsou (em um show pirotécnico de violência, brutalidade e insensibilidade explícitas) centenas de famílias, mais de seis mil pessoas, diretamente para a rua.

Sem dúvida há toda uma série de fatores e cálculos plenos, legais, econômicos, históricos, que explicam e justificam a determinação deste número e que, por ser um leilão, imagino, seja somente o lance inicial. É muito dinheiro. Mais do que consigo conceber e entender, na verdade. Servirá para pagar dívidas do município, ajudará organizar a massa falida do cidadão Naji Nahas, e sei lá para onde mais. Ou para quem.

Foi um processo complicado chegar a esse leilão, pois para atrapalhar todo o intercurso natural capitalista havia um incômodo tremendo: Pessoas. Mais de 6.000. Que foram somente vistas e reconhecidas enquanto eram um incômodo. Agora voltaram ao estado ‘natural’ das pessoas pobres: escondidas, invisibilizadas, esquecidas. Não são mais incômodas, não são mais importantes. O terreno é mais importante. O lucro que se auferir do terreno é mais importante e vale a pena pagar por vidas.

187 milhões (alguém poderia dividir esse valor por seis mil?) é o valor inicial pela vida humana em Pinheirinho.

ps – o meu amigo Danilo Ferretti me dá um toque pelo Facebook:  “e constroe-se o silêncio em torno….”

– “Eliana Calmon recua e arquiva ação contra juízes do Pinheirinho; advogados, perplexos, vão recorrer

“Em junho, Eliana Calmon recebeu moradores e advogados do Pinheirinho. Todos estão surpresos com a decisão de ela arquivar a ação, logo após ter cobrado explicações dos juízes.
por Conceição Lemes

Seis dias após a Corregedoria Nacional de Justiça decidir cobrar explicações dos juízes envolvidos na violenta desocupação do Pinheirinho, em São José dos Campos, SP, a ministra Eliana Calmon mandou arquivar tudo nessa sexta-feira 24. A Corregedoria é um dos órgãos do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Calmon é a Corregedora Nacional de Justiça.”

http://www.viomundo.com.br/denuncias/eliana-calmon-recua-e-arquiva-acao-contra-juizes-do-pinheirinho-advogados-perplexos-vao-recorrer.html

Mais um passo do massacre, sua efetivação: soterre-se pelo esquecimento.

 

Literatura para adultos. Atenção: somente para adultos!

2 de setembro de 2012

Nenhum detalhe omitido! Cena por cena, ato por ato, cada ação completamente descrita com detalhes íntimos.

Completo! Sem censura!

Muitas ilustrações, com fotos modernas e perigosas, mas artisticamente prazerosas!

por somente $2,98

livro de contos ‘Desconcerto’, de Claudinei Vieira, roda por aí

1 de setembro de 2012

 

 

 

…mas ainda tenho alguns exemplares, os últimos, sem apelação

Loving Strangers

31 de agosto de 2012

oh…

I’ve got a hole in my pocket
where all the money has gone
and I’ve got a whole lot of work
to do with your heart
cause it’s so busy, mine’s not

Loving strangers, loving strangers,
loving strangers, oh…

It’s just the start of the winter
and I’m all alone
and I’ve got my eye right on you
give me a coin and I’ll take you to the moon
give me a beer and I’ll kiss you so foolishly,
like you do when you lie, when you’re not in my thoughts,
like you do when you lie and I know it’s not my imagination

Loving strangers, loving strangers,
loving strangers, oh…

Russian Red

 

 

Quem se importa com favelas queimadas em São Paulo?

28 de agosto de 2012

 

Um ou dois incêndios são horríveis (além de causarem desconforto para os moradores de São Paulo e atrapalharem, ‘complicarem’, o trânsito, segundo a revista Veja). Três ou quatro incêndios em favelas talvez demonstrem algo mais sério, quem sabe as péssimas condições de habitação dos favelados, talvez o tempo seco e o clima, talvez a indiferença geral por bolsões de miséria. Talvez, aliás, não seja coincidência, três ou quatro incêndios.

Centenas de favelas incendiadas nos últimos anos em São Paulo, 28 SOMENTE EM 2012 (mais do que em todo ano de 2011, 24 incêndios). O que é necessário para configurar que uma onda de crimes odiosos dirigidos contra uma parcela particularmente pobre da cidade de São Paulo está acontecendo?! O que é necessário para, pelo menos, realizar uma investigação séria e começar a tratar esses acontecimentos não somente como tragédias, mas como Atos Criminosos constantes e repetidos?!

Mas, talvez não seja importante investigar isso. Talvez não para os interesses paulistas (aliás, quantas destas favelas estão ao lado de bairros de zona ‘nobre’ ou de terrenos com interesses imobiliários?, só para saber). Talvez sejam somente, e ao final, favelas.

E quem se importa com favelas? O ‘poder público’?, prefeituras, governo de estado?

Aliás, quantas faltam para serem queimadas?