A escola em livros

Uma grande amiga, desanimada com a situação que estamos passando atualmente, e sem saber como lidar com a tarefa de dar aulas no recomeço do semestre ou de como retomar contato com seus alunos, fez um pedido de indicações de livros que pudesse trabalhar com seus alunos que tivessem a escola como temática. Mais do que pensar em simples material de leitura, no entanto, que fosse como uma forma de retomar o pé, imaginei. Como ela diz, fomentar ações que ajudem a reanimar.
heheh- o problema comigo é que sou um pessimista há muito, quase um profissional. E tentei responder algo nesse sentido. Mas aí fui escrevendo e o comentário acabou ficando enorme. Virou um post, que se segue:
– De certa forma, eu tenho umas sugestões, mas, receio que estou impregnado também por esse pessimismo generalizado que fica difícil pegar entusiasmo e esperança. Bueno, na verdade, ‘estou’ pessimista há tempos, mas, como não sou professor, não carrego essa tremenda responsabilidade de tentar monstrar esperanças (sorry…).
Por outro lado, quando penso no tema ‘escola’ na literatura em geral, creio que ela é retratada como algo definitivamente maléfico, ditatorial, retrógrada, ou no mínimo, inadequada. Alguém citou aí ‘As Aventuras de Tom Sawyer’ que é simplemente uma delícia e um dos melhores livros que li na vida, muito engraçado e gostoso de ler. Mas a escola é vista como um limitador da imaginação, das aventuras, da vida livre. Quando Huck Finn, o amigo de Tom, um garoto criado na rua, um espírito rebelde, é finalmente ‘acolhido’ em uma família estável e adotado, ele precisa ser ‘formalizado’: usar roupas decentes, parar de falar palavrões, … e ir pra escola. Em um outro clássico, ‘David Copperfield’, de Charles Dickens, fala-se da escola como verdadeiros pequenos matadouros infantis da Inglaterra mais brutal da Revolução Industrial com descrições de arrepiar: definitivamente, nada muito otimista, eu diria.
Nesse espírito, portanto, eu lembro de um livro espetacular “O Aprendizado de Pequena Árvore”, de Forrest Carter; trata do tempo que um garoto8501039691 é criado pelo seu avô indígena que é um fabricante de uísque falsificado no interior dos Estados Unidos, bem no meio da época da Lei Seca. O garoto vai aprendendo lições de vida e sentimento com seu avó, até o momento em que é obrigado pelo governo a frequentar a escola ‘normal’ e aí , portanto, vêm o contraste, como bem pode imaginar. Surya, garanto, é um livro lindo, lindo, dos melhores da minha vida de leitor. Muitos anos depois de tè-lo lido pela primeira vez, fiquei sabendo que o autor, que eu sempre imaginava que fosse o garoto do livro, na verdade, é um grande filho-da-puta, com inúmeros problemas bem sérios! Tanto mais chocante que tenha escrito um livro tão belo.
Mas, eu estava nessa levada mais pessimista e aí fui lembrando de dois exemplos, afinal, bacanas. ‘O Gênio do Crime’, de João Carlos Marinho Silva, um clássico infanto-juvenil brasileiro; é uma turma de colegas de uma escola paulistana que se tornam detetives amadores ao enfrentar um supergênio que está falsificando as figurinhas de um álbum de figuras de jogadores de futebol. A ambientação, os personagens, o enredo, tudo é uma delícia. Vem sendo reeditado há décadas e nada perdeu seu vigor, é absurdamente bom.
E tem ‘Os meninos da Rua Paulo’, de Ferenc Molnar, outro clássico infanto-juvenil que _88cb455f39ca9340f75fbfdcdba1511cde2bf246também funciona até hoje. São garotos de um mesmo bairro, colegas de escola, que lutam para defender um espaço de convivência livre do lugar onde moram, e onde montam seu clube, seu ponto de reuniões, seu ponto de encontro e diversão. Brigam com a turma de garotos de outro bairro que pretende tomar esse espaço para si e, como são mais fortes fisicamente, precisam ser enfrentados mais com astúcia e esperteza e força de caráter do que com força bruta. Diferente o-genio-do-crime-jc-marinho-silva-d_nq_np_14556-mlb4119415748_042013-fde ‘O Gênio do crime’, no entanto, que é levado no tom de tremenda aventura divertida e agitada (mas que tem no cerne a camaradagem e a formação de uma turma de amigos de uma mesma localidade e ponto escolar), ‘Os meninos da Rua Paulo’ é um drama, é um romance de formação, que, ao lado de cenas empolgantes e emocionantes, também fica triste e carregado. É sério: é um dos poucos livros na vida que me fazem chorar, literalmente.
Nestes dois livros, a escola não é o predominante, mas está lá, presente, importante para a formação destes amigos, e onde se passam algumas cenas hilariantes.
Acho que é do que consigo lembrar, no momento.
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