de alma

01_n

 

comeram carvão

respiraram poeira negra

vomitaram infância em paredes

de cavernas estranhas e

convexas e

distantes e

estreitas e

profundas e

profundas e

profundas e

onde não havia luz

onde não havia alma

 

bateram latão

rosquearam parafusos

carregaram caixas

beberam óleo de máquinas

trituraram infância

no meio de engrenagens

altas e potentes

altas e imponentes

altas

onde só havia luz

não havia alma

 

ficaram à beira da estrada

à venda a preços módicos

à venda a preço de custo (ou nem isso)

à disposição para prazeres alheios

carne magra para prazeres alheios

líquido para suores alheios

das luzes, não se importaram

da infância, não souberam

da alma…

do pouco que (ainda) tentara se manter,

só sobrara areia de estrada sufocada

já fora morta e enterrada

nunca a conheceram

não havia alma

 

de alma

claudinei vieira

00_n

trabalho infantil em fábrica de algodão da Carolina do Norte, Estados Unidos, no começo do século 20, fotografia de Lewis W. Hine

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