uma fábula de passarinho

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Os avôs permitirão que os netos

durmam naquela cama naquela casa.

Os netos, jovens cavoucadores,

descobrirão, vez por outra, pedacinhos de ossos,

nos fundos, no chão, nas bases, daquela casa,

e os avôs suspirarão, revirarão os olhos,

“ossos de passarinhos” “estão por toda parte”.

Os netos, porém, têm a tendencia de crescerem,

e de tanto dormirem naquelas camas daquelas casas

perceberão que os ossos não são de passarinho,

lembrarão de conversas de adultos,

murmúrios sobre uma espécie esquisita

(uma espécie antiga, extinta, exterminada)

de seres humanos chamados ‘crianças palestinas’,

outrora teriam dormido naquelas mesmas camas,

daquelas mesmas casas,

recolhendo seus próprios ossos.

Os avôs suspirarão de impaciência,

revirarão os olhos pela impertinência

“ossos de passarinho”

“ossos de crianças terroristas malignas”

“ossos de bebês terroristas malignos”

“ossos de filhos de mães terroristas malignas”

“ossos de passarinho terrorista”

“qual a diferença?”

“continuemos a dormir nesta cama desta casa”

 

claudinei vieira

 

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brown pigeon Cream-coloured Courser (Cursorius cursor) – pássaro palestino

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