LUMINÁRIA AMARELA

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Você já estava nua quando cheguei na porta do quarto. Atravessei o quarto, entrei no banheirinho, olhei para o espelho e para minha cara larga e as olheiras e a papada e a calvície pronunciada, desviei o olhar, não precisava ficar sofrendo, cutuquei minha barriga dos lados e pela frente, um leve incômodo costumeiro no lado esquerdo logo acima da cintura, abri a boca e escancarei a língua, tentei olhar para a língua e não para o espelho, meus olhos devem ter ficado vesgos, senti ânsia de vômito, fechei a boca, suspirei, tirei a camisa, meu peito continua peludo, talvez tanto quanto na minha época de garoto quando meus amigos diziam que eu tinha um colete-à-prova-de-balas (há-há-há) (curiosamente, meus braços sempre foram quase pelados), talvez um pouco mais de pêlos brancos, só isso, sentei na privada, fiquei com vontade de fumar, esqueci os cigarros na sala, comprimi a vontade, levantei, usei o papel higiênico à toa, garanto: nem ficou sujo, descalcei os chinelos, coloquei-os no canto, apesar do uso ainda firmes, tirei lentamente a meia esquerda, senti frio, coloquei de novo, abaixei a calça de pijama, fiquei de cuecas e meias, portanto; olhei para o bidê, queria lavar meus pés, mas para isso teria que tirar as meias. Atravessei o quarto, fui para a cozinha, abri o armário, lembrei que havia um resto de bolachas, estavam moles e quase mofadas, mas embora o verdinho provavelmente dê um gostinho a mais abri a gaveta, tirei uma faca, raspei o verdinho, engoli a bolacha, quase ia saindo até me dar conta de que havia jogado displicente as raspas encima da pia, peguei um clinex, abri a torneira, dei uma molhada, passei pelo mármore, abri a tampa do lixinho, joguei as raspas; quase ia saindo, já estava apagando as luzes, lembrei da faca, voltei, abri a gaveta, guardei-a, fui saindo, aí apaguei, aí resolvi, e pensei A faca deve estar suja do verdinho, ah que merda, pensei Foda-se, voltei para o quarto e aí lembrei que não tinha fechado direito a torneira do banheirinho. Fechei a torneira. Interrompi o fluxo de água inutilizada. Suspirei. Deitei na cama, não olhei para sua cara, tirei a cueca, o pau demorou a subir, o pau demorou muito a subir, eu sei que existe um viagra em algum canto dessa casa, levantei, abri a gaveta do criado-mudo, suspirei, fui até o escritório, por que diabos haveria um comprimido de viagra na mesa do escritório?, voltei, deitei, fiquei de costas por pelo menos uns dez minutos, quinze minutos, quase meia-hora, virei, fiquei por cima de você, fiz algum tipo de carícia no qual já estávamos até desacostumados, até ficamos meio surpresos, meu pau afinal ficou duro o mínimo suficiente para conseguir penetrar, mexi a bunda e a cintura o suficiente para tentar penetrar, você parecia nem querer perceber minha existência, não faço idéia se o que resultou foi uma gozada, mas afinal parei dei um tempo para ver se haveria prosseguimento, saí de cima, fiquei deitado, de esguelha percebi que seu rosto estava meio molhado, levantei, fui para o criado-mudo do seu lado da cama, encontrei um lenço de papel perfumado (tinha três caixas desse lenço, aliás!), estendi um pra você, não houve reação, acabei passando eu mesmo um pelo seu rosto. Suspirei, voltei a deitar, não quis apagar a luz da luminária japonesa.

 

 

 

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