Sefarad: Antonio Molina extrapola a palavra e os sentidos

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Em 1492, o maior ajuntamento judaico da Europa abrigado nas terras do que se tornaria a Espanha moderna, foi expulso, provocando um dos maiores êxodos da história da humanidade. Conflitos étnicos, sociais, econômicos, nacionalistas, fizeram com que milhares de pessoas fossem obrigadas a se deslocar da terra onde já viviam por centenas de anos. Boa parte foi para Portugal onde lhes foi prometida acolhida desde que por uma “módica” quantia.

Durou somente seis meses a permanência em terras portuguesas: depois de terem sido despojados de todos os seus pertences e trabalharem como autênticos escravos, foram novamente expulsos. Os únicos que os aceitaram quase na íntegra foram os turcos que, dessa forma, se aproveitaram de uma mão-de-obra barata, especializada e culta.

“Sefarad” era o nome pelo qual os judeus denominavam seu antigo lar na Espanha. “Sefarad” tornou-se assim um símbolo destes sofrimentos, quase um substantivo comum para designar as perseguições e sucessivos exílios ao longo dos séculos.

Ao tomar o termo “Sefarad”, portanto, como título para o seu livro, Antonio Muñoz Molina está na prática assumindo um compromisso e anunciando intenções explicitas: o que vamos ler tem a ver com a questão do isolamento do individuo, da solidão do ser humano e de sua não-conformação com regras e leis que fogem de sua possibilidade de reação e controle, com histórias de judeus perseguidos, algumas personalidades famosas como Primo Levi ou Franz Kafka, cercados de uma multidão de anônimos, os quais o autor garante serem todos reais, mesmo que sem nome ou identificação. O resultado de tal proposta é cristalino: entre o sofrimento das grandes “personalidades históricas” e o das pessoas simples e comuns, não há mediações nem diferenças. O deslocamento, o eterno sentimento de nenhum-pertencimento, a solidão e os complexos, são idênticos em todos, é geral, é humano, enfim.

São sentimentos louváveis, a de resgatar este sofrimento, digamos assim. No entanto, se Antonio Molina se limitasse a esse âmbito, se ficasse circunscrito a esse círculo “judeu”, não haveria grandes novidades. Não creio que seja necessário lembrar aqui a avalanche de referências feitas a esse assunto nos últimos anos, tanto literárias quanto cinematográficas.

Antonio Molina extrapola o sentido da palavra. Pesquisa as emoções, sonda os sentimentos, e nesta pesquisa avança nos limites e provoca explosões. “Sefarad” aqui se torna uma senha para se aprofundar nas torturas que, no livro, tem sefarad-1como ponto de partida a experiência judaica mas termina em um horizonte infinitamente maior. Há vários milhares de níveis de “sefarads” que nos acompanham a todos os momentos de nossas vidas.

Você pode ser um funcionário bem comportado, simples e com ambições modestas, que possui como maior desejo o de poder propiciar uma vida calma sefarad-13para sua família, cuidar dos seus pais idosos e preparar um casamento decente para sua irmã e, de repente, acordar uma manhã e descobrir que se transformou em um gigantesco e nojento inseto. Pior: não vai poder mais trabalhar ou sustentar sua família, torna-se um peso-morto, um estorvo. Não é mais um ser humano, não por ter se tornado um inseto, mas por que é diferente. Diferente, deslocado, separado. Precisa ser isolado e, posteriormente, destruído.

Fantasia? Pode ser. Mas, em que (e isso é o mais importante) em que este sentimento do “ser inseto” é diferente de quando você abre o jornal certo dia e fica sabendo que sua casa não é mais sua, seus amigos não são mais seus, sua pátria tampouco e, principal, você que nunca ligou para tradições, ou é ateu, de repente virou Judeu, obrigado a usar uma estrela de David em sua camisa e na porta da sua casa e pode  a qualquer momento ser linchado?

Ou então, você é um comunista, militante que sempre lutou pela pátria do proletariado, passou fome, viveu em cadeias, quase foi morto dezenas de vezes, pegou em armas, escreveu em jornais, deixou de lado a mulher, os filhos e os pais pela revolução e começa a perceber que seus antigos companheiros começam a te evitar, seus pedidos e perguntas não são mais respondidos e, de sefarad4repente, fica sabendo que é um contra-revolucionário. Mais ainda: que Sempre foi um contra-revolucionário, que suas atitudes sempre foram suspeitas. Precisa ser isolado, mandado para os gulags ou ser convidado para uma “reunião” na qual nunca regresse.

Os “sefarads” de Antonio Molina, no entanto, são ainda mais entranhados, mais complexos, ainda mais doloridos. Reflete-se na vida de um sapateiro de província que vai morar na cidade grande e perde-se no vazio das multidões; no rapaz que trocou suas fantasias e anseios da juventude pela vida medíocre de funcionário público; na menina que cresceu pensando que seu pai fora um foragido político e descobre que sempre vivera na cidade vizinha e nunca quis vê-la.

Ou talvez você seja uma pessoa “normal”: não é judeu nem tem práticas religiosas “exóticas” e nunca será xingado na rua por conta disso; não é comunista, nem nunca se interessou por política; tem um bom emprego, uma mulher adorável e um filho amado. Qual o seu sentimento ao ir a uma consulta médica e descobrir-se com aids? Nada em sua fisionomia mudou, nem carrega uma estrela no peito, ninguém está olhando feio para você… ainda.

Não se pense, porém, que só existam momentos trágicos. Há a doce melancolia da história final, o que traz o título do livro e algumas surpresas; há inclusive humor em histórias que poderiam fazer parte tranquilamente de um “Decameron” de Bocaccio.

Cada capítulo-conto de “Sefarad” é um soco no estômago. São histórias separadas que fazem parte de um grande mosaico, com um eixo único que justifica o sub-título original: “una novela de novelas“. O poder da escrita de Antonio Molina é absoluto. Através do foco narrativo estritamente subjetivista, “entramos” nos personagens, sentimos suas angustias, passamos pelos mesmos sustos. Impossível ler mais de uma história por vez. Precisamos parar, absorver as emoções, respirar, acalmar o coração.

Talvez, em tudo isso, só falte uma categoria de ‘sefarad’ não contemplada pelo autor: a provocada pelos próprios judeus, ou pelos representantes daqueles que tanto sofreram no passado e agora parece aplicar nos outros o que eles mesmos passaram. Certamente, entre palestinos há muitas outras histórias e dores e demais ‘estranhamentos’ que poderiam fazer parte deste arco descrito por Molina.

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