Quando conheci uma capa da Playboy


playboy 1978-100

(tantos anos atrás, quando minha família ainda se reunia em grandes encontros, que duravam um final de semana inteiro, em especial no natal ou fim de ano) As mulheres se ocupavam da arrumação e limpeza da casa e preparavam a comida enquanto os homens cuidavam de comprar a carne, preparar o churrasco e tomar cachaça. Nós, as crianças, aproveitávamos a ocasião para desfrutarmos da relativa liberdade e corríamos, brincávamos e torrávamos o saco dos adultos, ainda mais que o normal.

Em certa ocasião, de abrupto paramos as brincadeiras, pois fizemos uma descoberta emocionante: o dono da casa havia esquecido de guardar e esconder sua coleção de Playboy no banheirinho de corredor, que não era tão usado (talvez por isso tivesse esquecido). A notícia correu entre os pequenos como notícia ruim de internet, mais rápido do que spam do facebook, e a frequência do banheirinho aumentou de repente.

Esta capa é a que mais me marcou. A mulher nem sequer nua, nem corpo inteiro aliás, somente as pernas longas e as coxas. E sapato alto. Sequer lembro quais ou quantas eram as outras capas; aliás, nem mesmo lembro das fotos desta revista. Foi a minha primeira Playboy. Nem me masturbar eu sabia ainda na época, mas já tinha o fascínio pelas coisas proibidas.

Obviamente, logo os adultos descobriram os motivos da playboy 500agitação incomum. Deve ter havido algum momento de stress e discussão entre eles que, como criança, não captei. Em nome do bom andamento da festa, no entanto, deve ter havido um consenso, de levar tudo na brincadeira (ou, talvez, os homens tenham realmente achado engraçada a situação; duvido que as mães tenham gostado um pouquinho) (a bebida ingerida pelos pais deve bem ter ajudado na hilaridade).

Seja como for, as revistas foram sendo passadas de mão em mão e passaram a provocar reações nos adultos que passei a acompanhar e me deixar fascinado. Eles reagiam com gritinhos exagerados de escândalo, risinhos nervosos, piadinhas (foi a primeira vez que ouvi sobre pessoas que gostavam da Playboy por causa das entrevistas e matérias; garanto que ouvi muitas vezes! naquele dia). Observá-los estava mais divertido do que brincar com meus primos e primas.

Para mim, o auge foi quando a revista afinal parou no grupo das Velhas, que por sua idade e óbvia falta de mobilidade, ficavam em um grupo no canto da sala principal, fofocando e dando palpites a tudo que acontecia. Fui eu quem levou a revista para elas olharem, morto de curiosidade para o que comentariam.

Me receberam com um sorriso constrangido (que lutava para não ser uma careta), empurraram a revista uma para as outras, tentando entrar no espírito da brincadeira, até que uma afinal fez um comentário, o único comentário sobre o assunto que se permitiram:

– Que bonito sapato!

Foi também a última vez que vi a revista. No dia seguinte, todas elas tinham sido devidamente escondidas.

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