Fantasma da Ópera: belo personagem, boa história, péssimo livro

 

É interessante observar o porquê do personagem Erik, o Fantasma da Ópera, marcar tanto a cultura pop da mentalidade ocidental. Se não chega a fazer parte do dream team dos personagens de terror como Frankenstein ou Drácula ou até do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, também não faz feio. Ao longo de tantas adaptações cinematográficas, teatrais, musicais, tem demonstrado enorme vitalidade. É um incontestável ícone moderno.

No mínimo, garantiu a vida de seu autor, egresso do jornalismo, no qual já fazia bastante sucesso. Gaston Leroux, com suas reportagens dramáticas e vívidas, fazia o estilo de ‘jornalismo agressivo’, cobria guerras, presenciava batalhas, entrevistava criminosos, e escrevia com bastante colorido e muito maior dramaticidade. Seus artigos eram avidamente esperados; era uma verdadeira celebridade em uma época quando a indústria de informação passava por importantes modificações e modernizações, as quais ele soube aproveitar bem.

Ao começar a escrever ficção, descobriu outro filão que se tornou tão importante (e lucrativo) que decidiu abandonar o jornalismo e se dedicar à literatura em tempo integral. Escrevia livros de terror, suspense, romances policiais, do estilo de Conan Doyle e de Edgar Allan Poe, de quem era um grande admirador, com seus detetives superinteligentes e cerebrais. Poe também era uma inspiração para o gênero do terror gótico, com seus climas tenebrosos, aparições e fantasmas, labirintos obscuros.

É até estranho dizer isso hoje, mas seu “Fantasma da Ópera” não fez tanto sucesso quando foi lançado. Só aos poucos foi sendo conhecido, a ponto de, na prática, eclipsar seus trabalhos anteriores. Hoje em dia, ele é mesmo conhecido (quando lembrado) por causa desta obra.

No entanto, não é um bom livro. Os conflitos são primários e rasos, quase caricatos. O romantismo mais meloso se esparrama por suas páginas, as descrições são fracas, a narração é feita com um tom que imita pesquisas realísticas (uma característica típica sua, pois transpôs seu estilo como repórter para os romances), mas nunca convencem o leitor de sua pretensa veracidade. João Máximo nos diz, em seu prefácio na edição da Ediouro, que consta de Gaston Leroux realmente acreditar em espíritos e fantasmas, e “que tinha a plena convicção de que seu próprio corpo era habitado por um ser espectral de cuja natureza não tinha a menor idéia”.

Além do que, ele se utiliza de alguns fatos reais: a famosa cena da queda do candelabro, que foi tão aproveitada e repetida pelo cinema, realmente aconteceu em 1896, e o prédio do Ópera de Paris chegou a servir como prisão durante a época da Comuna e da Guerra Franco-Prussiana.

A situação fica um tanto mais complicada se compararmos a obra com a de seus ‘irmãos’ mais próximos. ‘Frankenstein’, de Mary Shelley, por exemplo, é uma impressionante obra-prima de terror que contém igualmente uma profunda reflexão filosófica sobre as pretensões e a arrogância da humanidade. Bram Stoker construiu em seu ‘Drácula’ uma criatura que foi a súmula de todos os personagens de terror cultivados na época de sua publicação e dos temores primais que atacam nossa imaginação, além de conter um apelo sensual bem pronunciado, mesmo que nunca explicitado (no livro, bem entendido; o cinema bem fez questão de deixar isso bem claro). “O Médico e o monstroé um belíssimo texto de Robert Louis Stevenson, uma novela curta, quase um conto, que em sua aparente simplicidade provoca uma enorme impressão no leitor, além de discutir questões sobre o Bem e o Mal de uma forma nada convencional.

Leroux não atinge este nível de qualidade. É certo que o cinema ajudou, e muito, em sua projeção (‘O Fantasma da Ópera’ tem sido adaptado desde o cinema mudo; João Máximo fala em dezoito adaptações cinematográficas!), além de retumbantes carreiras de peças musicais da Broadway, adaptações radiofônicas, etc.

No entanto, apesar de tudo o que disse acima, também é verdade que o personagem possui um apelo que dificilmente pode ser explicado somente por conta de suas adaptações. O Fantasma atende sim a profundas fantasias e inclinações românticas; é um personagem romântico, por excelência. A ambientação da Ópera de Paris, o vulto tenebroso e mascarado que exprime sua paixão pela bela e jovem Christine e a ensina a ser uma estrela, a máscara que esconde sua feiura, física e moral, a ambiguidade de sua condição, entre ser um vilão ou uma vítima, um carrasco, um louco ou um grande apaixonado, os subterrâneos onde ele é rei e, ao mesmo tempo, um exilado…

Um grande, portentoso personagem, que se destacou e se fixou em nossa imaginação como bem poucos conseguem fazer, mesmo que a matéria de onde se originou tenha sido tão pobre.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer

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6 Comentários em “Fantasma da Ópera: belo personagem, boa história, péssimo livro”

  1. Bruna Says:

    Acabei de ler o livro e compartilho grandemente de sua opinião! Achei seu texto conciso, mas muito expressivo do ponto de vista argumentativo, com credibilidade por ser original, já que é desprendido da opinião de críticas anteriores a esta obra.E falo isso porque convenhamos, não é fácil emitir uma opinião contrária a de milhões de análises positivas feitas anteriormente devido a grande repercussão desse clássico!! É um bom livro, mas tem falhas e elas precisam ser ditas. Parabéns!

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  2. Angelica Says:

    Achei bem legal o texto, acabei de ver a adaptação musical pela segunda vez e me intriguei pelo seu título. Quero muito ler o livro para ver se compartilho de suas opiniões.

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  3. Belíssima exposição de opinião e utilização de argumentos próprios e inusitados

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  4. raiane Says:

    nem resposta tem nessa bosta aqui que merda:/

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