Música Fúnebre, de Morag Joss: assassinatos ao sabor de Bach

 

Este é um romance policial com trilha musical. Música clássica. “Canção sem palavras em ré menor”, de Mendelssohn; “Peças de fantasia, Opus 73”, de Schumann; “Elegia em dó menor”, de Fauré, entre várias outras.

E Bach. Em uma das cenas mais bonitas da obra, a violoncelista Sara Selkirk visita Edwin, um antigo músico e maestro que agora está inválido e com os dias contados por causa do câncer. Ela trouxe o instrumento e ele lhe pede que toque uma das suítes para violoncelo de Bach. Há muitos significados neste pedido: era uma das peças preferidas do marido de Sara, cuja morte fora há um ano antes e que a lançara em uma espécie de animação suspensa: cancelara todas as apresentações previstas, mergulhara em uma crise artística, nunca mais tocara e nem sabia se voltaria algum dia. Na verdade, não vivia; só deixava os dias passarem. E só por muita insistência de seu amigo James concordara em fazer uma pequena apresentação em uma cidadezinha no interior da Inglaterra. Mas, não Bach. Muito menos as suítes para violoncelo. A ocasião no entanto revela-se muito propícia e Edwin muito inteligente e sensível. A delicadeza do momento, a beleza da descrição, a ambientação… assistimos empolgados a um rejuvenescimento de Sara, embalados pela música. A impressão é tão vívida que parece que a estamos escutando.

Momento muito especial dentro de uma obra que retoma a tradição da literatura policial clássica inglesa, puxando para a linha moderna psicológica de uma P. D. James, por exemplo. E o faz extraordinariamente bem. “Música Fúnebre” é o primeiro romance de Morag Joss que também segue um outro tipo de tradição da literatura policial: o de trazer uma experiência de vida (pessoal, profissional, cultural) que, a princípio parecem bem distante da literatura, principalmente da policial. No caso de Joss, sua vida foi de trabalho em museus, galerias de arte e no ensino superior como administradora e palestrante!, como descrito na apresentação. Ela traz então todo esse universo, combina com uma trama de assassinato, detetives carismáticos, um mistério bem construído e, assim, temos um livro muito simpático!

Com “Música Fúnebre” penetramos na alta roda da pequena cidade de Bath. Somos apresentados a museus, galerias, spas, ouvimos concertos de música clássica. Mas, mesmo em um lugar tão agradável e prazeroso, as paixões, dores, sofrimentos e ambições dos seres humanos continuam sendo tão humanos como sempre. Sara Selkirk torna-se o pivô da trama ao descobrir o cadáver do novo administrador do museu, obrigando-a sair de sua apatia para não ser ela mesma a próxima vítima.

É interessante observar que há vários furos no enredo, muitos mesmo para dizer a verdade!, que qualquer leitor com um mínimo de inteligência vai perceber rapidamente. E, ao mesmo tempo, Sara é uma musicista que possui uns lances de dedução lógica tão geniais e tão complicados que fica difícil entender por que não a promovem logo para chefe da Scotland Yard. No entanto, a narrativa flui de modo tão gostoso e simples que fica fácil relevar estes “detalhes”.

A minha recomendação é esquecer estas pequenas incongruências, preparar uma fita com as músicas indicadas pela autora e se deixar levar. O prazer é garantido. Para músicos, leitores e assassinos.

texto corrigido e atualizado, publicado originalmente em iGLer

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