Orlando, O Quarto de Jacob: Virginia Woolf no máximo

 

Virginia Woolf carregava um imenso universo interno que a atormentou durante toda sua vida. Uma parte ela pôde transformar em escritos, pensamentos e ficção, moldando, modificando a literatura inglesa e mundial. Outra parte, não conseguiu superar. Sofrendo de depressão profunda, com um histórico de tentativas de suicídio e internações em instituições psiquiátricas, afinal sucumbiu, carregando sua roupa de pedras para afundar no rio Ouse, na Inglaterra. No meio disso, revolucionou a narrativa moderna.

Sua inquietação, seu afã de descobertas e experiências literárias e artísticas tinha raízes próprias. Nascida em 1882, era dotada de grande inteligência, teve o privilégio de uma família culta que valorizava o incentivo artístico e cultural, seus pais eram literatos e editores, descendentes de escritores ingleses consagrados. Foi educada em casa pelo próprio pai. Ao lado disso, as tragédias a acompanharam desde cedo: seus pais morreram prematuramente (aliás, quase todos seus parentes mais próximos morreram muito cedo, assim como sua meia-irmã Stella Duckworth, que havia praticamente tomado o lugar como sua mãe, e seu irmão Toby) e, na adolescência, foi abusada sexualmente pelo meio-irmão Gerald Duckworth.

Junto com sua irmã Vanessa Bell, artista plástica casada com o critico de arte Clive Bell, criou um grupo de discussão literária e cultural que agitou o cenário inglês da época e que ficou conhecido como o grupo de Bloomsbury. Igualmente jovens e inquietos, buscavam novas formas de entender, criticar e produzir cultura. Foi neste grupo que Virginia conheceu o escritor e critico literário Leonard Woolf com quem se casou.

Ela e o marido fundaram uma editora, a Hogarth Press, originalmente para publicar os trabalhos dela e faze-la ocupar-se, distraindo-a de seus problemas mentais, mas que mais tarde tornou-se uma importante casa editorial que teve entre seus publicados autores do calibre de T.S. Eliot, Gorky, E.M. Forster, Katherine Mansfield, e foram os primeiros a publicar uma edição em vinte e quatro volumes das obras completas de Freud na Inglaterra.

O Quarto de Jacob‘ é o terceiro romance de Virginia Woolf e o primeiro no qual ela radicalmente quebra com as regras da narrativa tradicional. Seus trabalhos anteriores haviam deixado entrever suas tentativas tímidas neste sentido, mas aqui ela vai fundo. A bem dizer, não existe realmente um enredo, uma história. São quadros emocionais, são grandes lances que acompanham um fio de enredo que, provavelmente, é a história do garoto Jacob desde sua infância até sua morte, vagamente inspirado na figura do irmão de Virginia, Toby. É inacreditável constatarmos como este livro ainda transpira vigor, novidade, criatividade, beleza! Precisamos esquecer, deixar de lado a narrativa linear do simples começo-meio-e-fim, embarcar em suas digressões e mentalizações, os fluxos internos de pensamentos dos personagens, e sentir (como devem ter sentido os contemporâneos de Woolf e como sentem todos os que lêem seus livros pela primeira vez), um sopro de liberdade e potência narrativa nunca experimentada antes. É uma viagem empolgante e verdadeiramente esclarecedora. A apresentação feita por esta edição da Nova Fronteira é impecável: “Tudo é narrado de forma fragmentada, quase inapreensível, sem impor um enredo que oriente e esclareça de uma vez por todas o leitor. Cabe a este, ao contrário, a tarefa de montar estes fragmentos e, a partir deles, inventar o seu sentido, a sua moral, sobretudo a ácida e implacável visão critica de uma sociedade encurralada no cultivo de suas mais medíocres aparências.”

Virginia Woolf também foi uma grande ensaísta e critica literária, escreveu por volta de quinhentos ensaios, publicados em jornais, revistas, suplementos

Tilda Swinton na versão cinematográfica de ‘Orlando’, em mais uma dessas estranhas tentativas, fadadas ao fracasso, de transpor Virginia Woolf para as telas de cinema

literários, e cujo eixo principal era a participação das mulheres em uma literatura dirigida e dominada pela visão masculina do mundo. Embora nunca tenha sido uma ativista feminista militante, em seus ensaios deixava claro a necessidade das mulheres se tornarem independentes para poderem produzir cultura do seu próprio ponto-de-vista, de deixar de serem objetos-da-literatura para autoras-de-literatura e de sua vida.

ORLANDO não é uma peça neste quebra-cabeça cultural, mas certamente é um importante ponto para esta discussão. É sua obra mais famosa e de maior sucesso. Acompanha a ‘história’ da vida de Orlando, um gentil-homem cavalheiro inglês no final do século XVIII. Duzentos anos mais tarde, observamos as mudanças (sociais, técnicas, culturais) desta Inglaterra e em Orlando que, de forma gradual, natural, imperceptível, agora é uma mulher.

Orlando pulou, como se tivesse levado uma violenta pancada na cabeça. Na verdade, eram dez horas da manhã. Era o dia 11 de outubro. Era 1928. era o momento presente.

Ninguém se assombre de Orlando ter um sobressalto, levar a mão ao coração e empalidecer. Pois que revelação mais terrível que a de ser sentir que este é o momento presente? Se sobrevivemos ao choque, é apenas porque o passado nos ampara de um lado e o futuro do outro. Mas não temos tempo agora para reflexões; Orlando já estava terrivelmente atrasada. Correu pela escada abaixo, pulou para o automóvel, calcou o acelerador e partiu.”

Orlando é calcada/o na escritora Vita Sackville-West, com quem Virginia teve um caso e serve como uma verdadeira homenagem para a amante. A primeira edição inglesa, inclusive, trazia uma foto de Vita Sackville-West ilustrando o livro, vestida como o personagem.

Há, ainda, um importantíssimo ‘detalhe’ nesta publicação de ‘O Quarto de Jacob’ e ‘Orlando’: as traduções. A do primeiro é de Lya Luft e do segundo, de Cecília Meirelles! Simplesmente imperdível.

Explore posts in the same categories: Literatura

Tags: , , , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s