Moby Dick em voz; Joyce em quadrinhos; literatura e internet; clássicos em modernidade.

 

As relações, experimentações, influências e entrelaçamentos entre a prosa escrita, a poesia, a imagem e a tecnologia, existem desde a criação do computador moderno e se ampliaram exponencialmente com a propagação da internet. Por um lado, a criação de uma cultura própria, específica da absoluta modernidade cyberhightech que vivemos, ainda precisa ser encontrada e definida. Provavelmente, está em gestação, sendo construída nas entrelinhas dos bits e gigabites, já presente, embora ainda não reconhecida; esperemos. Mesmo na época da velocidade de anos-luz de informação internética, ainda é necessário se dar o tempo da maturação.

Por outro lado, a transposição da literatura tradicional para novas plataformas e conceitos diferenciados, esta sempre esteve presente e vai muito além da mera apresentação e formatação para e-readers, ipads, tablets e afins. Estes exemplos que vou citar a seguir, já faz um tempo gostaria de tê-lo feito, são belos trabalhos de interpretação e transposição da literatura clássica  e não teriam acontecido não fosse a internet. Posso ter demorado para finalmente fazer este comentário, mas bem merecem serem conhecidos.

‘Ulysses’ de James Joyce certamente é infilmável. Mas seria também “in-quadrinhável“? Transformar a famosa e proverbial prosa joyceana e traduzi-lo por imagens através da linguagem dos quadrinhos é uma forma de se aproximar do clássico literário ou um rebaixamento da cultura? Uma homenagem e uma nova forma de entendê-lo ou uma arrogante heresia rasa de baixa qualidade?

Não sei se os criadores de ‘Ulysses Seen’ (o autor Robert Berry e o quadrinista Josh Levitas, entre outros) já chegaram a conhecer a lapidar opinião do escritor Paulo Coelho sobre Joyce (a de que ele teria feito somente mal para a humanidade e para a Literatura) ou se ficariam com medo de também estarem fazendo mal para a humanidade e o mundo dos quadrinhos… Mas certamente não ficaram com medo de assumirem um projeto tão ambicioso.

Independente do que se pense sobre tal ideia (para mim, só pela coragem tá valendo o propósito) (o resultando final é, pelo menos, interessante), o site e o blog são bem ancorados em extensas pesquisas (disponíveis ao usuário) e é fruto do entusiasmo de artistas e técnicos engajados com sua arte e técnica, o que garante o empenho.

Ulysses ‘Seen’

http://ulyssesseen.com/

‘Moby Dick’, de John Melville, está sendo lido capítulo por capítulo por atores e artistas e leitores convidados e voluntários do mundo inteiro e disponibilizado em arquivos de voz. Em cada post, um capítulo, uma voz, uma interpretação, acompanhado por um artista plástico com sua visão particular.

Deve estar dando um trabalho insano reunir tal pessoal, de tal quilate (como por exemplo, Stephen Fry e Tilda Swinton, que é quem lê o primeiro capítulo) e organizá-lo no site, mas o resultado está sendo do tamanho de suas pretensões.

Moby Dick Big Read

http://www.mobydickbigread.com/chapter-1-loomings/

E um conto clássico moderno da literatura brasileira transforma-se em uma divertida brincadeira visual que anima e mexe com as imagens e os sentidos das palavras. Realizado por Rodrigo Burdman, do conto ‘Homo Erectus‘, de Marcelino Freire com a indefectível voz de Paulo César Pereio, o curta de animação está no ar desde 2009, tem mais de 200 mil visualizações, mas considero isso pouco, muito pouco.

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