Mulheres da Máfia

Não existem mulheres na Máfia.

Era o que se dizia. Era o, digamos assim, puro senso comum.

O impressionante é que, até há muito pouco tempo, isso continuava sendo o senso comum.

De mulheres, haveria somente as esposas de mafiosos que, obedientes, fecham os olhos aos ‘negócios’ dos seus maridos, persignam-se e se calam, quando indagadas de alguma coisa. As mães dos mafiosos que suspiram pelos destinos dos seus filhos. As filhas que, juntamente com as mães e esposas, são protegidas pelo respeito milenar e não são tocadas nem manchadas em sua honra, nem mesmo nas piores guerras entre as famílias, pois caso contrário, se daria direito pleno à vendetta. Que mais? Obviamente, uma outra espécie de mulheres, estas sim perigosas e traiçoeiras: as amantes dos mafiosos que, além de solapar as tradicionais bases familiares, ainda podem carregar armas e praticam pequenos serviços aos seus homens. Destas, pode-se esperar tudo!

Com muito custo, aos poucos foi se percebendo o quanto há de balela nestes mitos tão trabalhados e requentados e tantas vezes propagados pelos meios de comunicação, sendo que o menor não é certamente o cinema de Hollywood. Clare Longrigg começou a partir do final da década de 1980 a pesquisar a participação das mulheres na Máfia ao acompanhar o movimento de várias viúvas de políticos, juizes e policiais vitimas de mafiosos. O movimento formara em 1982 a organização Associação de Mulheres Antimáfia que, corajosamente, exigia maiores atitudes de repressão, ao mesmo tempo em que conclamavam a que as esposas de mafiosos depusessem contra seus maridos.

Muito embora, na maioria das vezes, estes depoimentos fossem encarados com total ceticismo.

Segundo Longrigg, um juiz de Palermo teria declarado, por exemplo, em um despacho judicial que “mulheres não podiam ser culpadas por lavagem de dinheiro porque não possuem autonomia e, de qualquer maneira, são burras demais para tomarem parte no difícil mundo dos negócios’”. Não era, de forma alguma, uma opinião única: “Alguns magistrados ainda mantém a opinião de que as mulheres que tocam os negócios de seus maridos não estão cometendo crime – que a esposa de um mafioso não tem escolha e, portanto, não pode ser responsabilizada moralmente.”

Rita Atria

Com o aumento dos depoentes, principalmente a partir de 1991, e a constatação da profundidade de suas informações, é que se começou a ter uma visão aprimorada do montante de seu conhecimento.

Não só conhecimento as mulheres partilhavam, nem tampouco participação. Se por um lado, a expansão das atividades mafiosas dentro da Itália solapava as rígidas normas hierárquicas machistas ao exigir cada vez maior quantidade de mão de obra, incluindo-se mulheres e crianças, por outro, a intensa repressão e as constantes brigas entre as famiglias, acarretavam a morte, prisão ou a fuga de diversos destes ‘pais-de-família’, abrindo espaços e buracos de poder que precisavam ser preenchidos. E o eram. Pelas respectivas mulheres.Se, anteriormente, elas ‘auxiliavam’ dando os seus nomes para os registros bancários dos maridos (na Itália, não eram sequer investigadas), ou transportavam quantidades de drogas ou armas (não eram revistadas, sequer eram destacadas policiais femininas para isso), agora estavam tomando decisões, movimentando contas, manejando dinheiro, planejando assassinatos, repartindo poder. E também estavam começando a responder por isso.

Desta forma, na Itália “o número de mulheres acusadas de portar e traficar drogas cresceu de 37 em 1994 para 422 em 1995, enquanto o número de acusadas por lavagem de dinheiro aumentou de 15 para 106 e numero de mulheres presas por agiotagem subiu de 199 para 421”. Esta súbita e repentina aparição da importância feminina mafiosa indicava, na realidade, que as autoridades estavam a abrir afinal os olhos.

Tudo isso é até que muito interessante, mas na verdade fiquei até o momento somente no plano da introdução. Clare Longrigg foi bem mais longe. Além de agrupar todos os dados disponíveis minuciosa e cuidadosamente, ela foi atrás e conversou com muitas destas mulheres, tanto das pró quanto anti-máfia. Foi em casamentos, batizados, julgamentos, prisões, compilou as histórias, arrumou os arquivos fotográficos. São histórias tremendas, de mulheres poderosas, ousadas. Impossível não pensar, por exemplo, só para ficar em um único, em Ninetta Bagarella.

Antonieta, ‘Ninetta’, Bagarella era muito inteligente, bonita, consciente do poder da mídia, e era noiva de um aspirante a ‘chefão’, Salvatore Riina, quando, em 1971, foi presa e acusada de estar servindo como ligação clandestina entre vários chefes locais, transmitindo recados ou instruções. O noivo estava escondido e ela a primeira mulher a ser indiciada por ligações com a Máfia (e ela mesmo era filha de um chefe respeitado). Sua defesa foi exemplar. O eixo foi a dedicação que ela tinha ao marido: “Eu amo esse homem. Sou mulher, não sou? Não tenho direito de amar um homem, não é essa a lei da natureza? Vocês perguntam como eu poderia ter escolhido um homem como ele, de quem as pessoas dizem coisas horríveis. É contra a lei amar um homem como Salvatore Riina? Eu amo esse homem porque ele é inocente.

Longrigg conta que “Ela convenceu com sua imagem de sinceridade: ele

Ninetta Bagarella in una foto degli anni 70

estava escondido e ela fazia o papel da noiva saudosa que duvidava do afeto de seu amor.

– Há dois anos que não vejo Riina, nem sei mais se ele me ama.

A imprensa de Palermo apaixonou-se.”

Casaram-se em uma cerimônia secreta e tiveram quatro filhos, que tiveram de ser criados em casa pela própria mãe, que havia sido professora. Também estes entraram para a organização, a seu devido tempo, e sistematicamente receberam a ajuda de Ninetta, quando por sua vez, eram presos. Desta vez, como a Mãe que pedia a compreensão dos homens e o favor de Deus. Em 1996, ela mandava uma carta para imprensa: “Decidi abrir meu coração, o coração de uma mãe que está inchado e transbordando de dor pela prisão de meu filho..] Aos olhos do mundo, meus filhos já nasceram culpados. Ninguém se lembra que quando eles nasceram eu (la mamma) era uma cidadã livre e meu marido era apenas culpado de deixar de deixar de se apresentar durante a condicional. Criamos nossos filhos fazendo enormes sacrifícios, superando tremendas dificuldades, dando-lhes todo amor e apoio possíveis.”

E por ai vai, com muitos ´figlio’ e ´mamma’ espalhados pelo texto, além de respeito á família, ás tradições, etc e tal, só esquecendo de alguns detalhes, como a condenação à prisão perpetua do marido, os atos criminosos dos filhos, etc.

Ninetta Bagarella representa um ‘estilo’ de mafiosa que sabe muito bem aonde e como aplicar pré-conceitos, ilusões e mitos que a Máfia divulgou e difundiu. Outros ‘estilos’ mais diretos e objetivos, como Roseta Cutolo que escapou de mais de nove acusações de assassinato e cumpriu cinco anos de pena por ligação com a Máfia; Teresa Deviato, presa e indiciada por extorsão; Rita Atria, que se tornou colaboracionista da Justiça, não suportou a pressão e suicidou-se em 1992.

E várias outras. “Mulheres da Máfia” é um esplêndido livro-reportagem, de linguagem límpida e direta que nos ajuda a descortinar um pouco mais nossa costumeira realidade.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente no iGLer

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