Freya das sete ilhas

 

Antônio Olinto conta, em sua excelente apresentação a este volume das obras de Joseph Conrad editada pela Revan, que quando Freya das sete ilhas foi publicado pela primeira vez houve um protesto dos leitores, reclamando do final especialmente infeliz reservado aos personagens principais. Teve até quem disse que nunca mais leria outro livro do autor.

Pode-se entender esta reação. Pode-se inclusive sentir o mesmo. Freya Nielsen (ou Nelson) é tão viva, bela e radiosa, e seu envolvimento e amor por Jasper Allen é tão empolgante e bonito, que nos deixamos levar, participamos de sua ânsia, sofremos suas angústias, saboreamos sua juventude e beleza. Conhecemos a austera honestidade do velho Nelson (ou Nielsen) e sua absurda ingenuidade e receios infantis. Somos tomados pela malevolência e estupidez de Heemskirk. Somos dominados pela poderosa escrita de Conrad e nos deixamos conduzir por onde ele quiser.

Por isso ficamos tão mais chocados e impactados, mesmo que desde a primeira linha, desde o primeiro instante sejamos informados de que a tragédia já aconteceu, já está formalizada e terminada e os destinos foram determinados, concluídos, estão no passado.

Naquele dia – e aquele dia foi há muitos anos – eu recebi uma carta longa, loquaz, de um velho amigo, um dos camaradas que viajavam nas águas do Oriente. Ele ainda estava por lá, mas estabelecido e de meia idade. Eu o imaginava transformado em corpulento, fisicamente, e doméstico, nos hábitos. Em suma, surpreendido pelo fato comum a todos aqueles que, sendo muito amados pelos deuses, morrem cedo. A carta, do tipo – ‘você se lembra?’ – era uma carta triste, de reminiscências do passado. E, entre outras coisas, ‘certamente você se lembra do velho Nelson’, ele escreveu.”

E deste começo de aparência tão inócua, saberemos mais tarde a quantidade de informações que já nos foi passada de modo tão simples, tanto sobre a história que recém-iniciou, quanto dessa ciranda de narradores típica de Conrad.

Joseph Conrad por JDCanales

A infelicidade não acontece pela presença ou caprichos de deuses externos, mas por decorrência dos atos dos próprios envolvidos; tal como na Tragédia grega clássica, o mórbido jogo do ‘Destino’ só é possível pela iniciativa dos seres humanos. ‘Destinados’, portanto, a serem infelizes, sempre? E por sua culpa? Tragicidade, culpabilidade, são termos que nos remetem de imediato ao universo de Conrad, e são bem citados e discutidos por Antonio Olinto.

Narradores múltiplos que constantemente se auto-referem e se inserem como na brincadeira das caixas de diversos tamanhos que se encaixam uma dentro da outra em um jogo infinito; o senso do trágico que se imiscui nos detalhes ínfimos do cotidiano; personagens densos, minuciosamente construídos, vívidos e que colam em nossa imaginaçao; narrativa límpida, clara, direta e assombrosa pela sua força. Joseph Conrad está por inteiro em “Freya das sete ilhas”.

Anúncios
Explore posts in the same categories: Literatura

Tags: , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s