Educação de um Bandido: Edward Bunker

 

Como muitas outras pessoas jovens, conheci Edward Bunker sem na verdade saber sequer seu nome, através do filme ‘Cães de Aluguel‘ (Reservoir Dogs,1992). A severa figura do decano do crime fazia um conjunto perfeito com o restante do elenco, e a direção e roteiro exuberantes e perfeitos de Tarantino, o que na prática fazia com que Bunker se diluísse no meio dos demais. Um tempo antes, tinha visto o sensacional thriller de fuga de Andrei Konchalovsky (para mim, o único filme realmente assistível do diretor) ‘Expresso para o Inferno‘ (Runaway Train, 1985) que conta a história de um veterano prisioneiro (um irreconhecível John Voight, isto é, ele está atuando e bem!) de uma prisão de alta segurança no Alasca que, para não morrer nas mãos do diretor sádico, consegue fugir mas por azar é acompanhado por um outro jovem e atrapalhado bandidozinho e, mais azar ainda, eles acabam em um trem desgovernado! Grande, grande filme. Um pouco mais tarde, soube que a trama tinha sido um projeto antigo de Akira Kurosawa que não foi adiante; quando contrataram Bunker para escrever o roteiro, já havia portanto um esqueleto pré-montado e o que eles queriam era uma pessoa que pudesse tornar a movimentação, as caracterizações dos personagens e, principalmente, os diálogos críveis e realistas.

Bem mais tarde vi James Ellroy declarar que o maior escritor de histórias policiais se chamava Edward Bunker e, bueno, como eu considero que este posto pertence ao próprio Ellroy, sua frase portanto me fez prestar muita atenção na figura. No entanto, por um motivo ou outro, acabei não lendo nenhum dos livros de Bunker e demorou para eu entender, afinal, que Mr. Blue do ‘Cães’, o roteirista de ‘Expresso’ e o autor citado pelo maior escritor de livros policiais na minha modestíssima opinião, eram a mesma e única pessoa.

Com a publicação de sua autobiografia, acabam-se minhas dúvidas e minha ignorância. E pode-se entender o fascínio que exerceu sobre Ellroy e sobre um mundo de leitores que se embrenharam pelas minúcias de um verdadeiro subterrâneo de crimes, violências e horrores. Pois nada do que foi escrito era irreal, partia da própria realidade, com enredos, personagens e ambientações, gírias e comportamentos que revelavam sua face sem sombras. Não há sombras na literatura de Edward Bunker. Não há meios termos. Rouba-se ou fica-se babando. Ou se mata ou se morre. Ou o que vier primeiro.

Sua literatura provem de sua própria vida. Foi o mais jovem ‘frequentador’, com dezessete anos, da mítica prisão de San Quentin (famosa pela sua crueldade e violência, e por abrigar as figuras mais ‘santas’ da América do Norte), e durante décadas saiu e entrou das mais variadas prisões, até conseguir estabilizar sua vida e sua mente. E com isso tinha nas mãos um manancial de informações de primeira ordem, pois vividas, e uma quantidade enorme de situações, personagens e matéria-prima para muitas histórias.

Mas é preciso tomar cuidado. A vida não é literária. Isto é, situações reais, por mais chocantes, vívidas, belas ou aterradoras que possam ser, não garantem literatura. Não importa a fonte. Interessa é o escritor capaz de colocar a matéria-prima em palavras. Em “Educação para um bandido”, o que vemos é um escritor. Pois caso contrário, a narração de sua vida seria um triste desenrolar de problemas e crimes, uma lista de aparentemente interminável de contratempos e de contravenções.

O que vemos é um escritor. Que retrata em minúcias seu relacionamento conturbado e problemático com seus pais, com o mundo e com as autoridades, e a lenta e penosa passagem de sua infância, adolescência e começo da vida adulta entre bandidos, para aos poucos perceber que sua paixão por livros (que começara ao ler livros nas bibliotecas das prisões) poderia ser transformada em capacidade por Escrever. Não há, em nenhum momento, auto-piedade (nada de se intitular ´vítima da sociedade´), muito menos glorificação de seus atos. As coisas aconteceram como aconteceram, e o lidar com elas dependia de uma mistura de instinto de sobrevivência, uma inteligência super-atrofiada e mal-compreendida (de sua própria parte), e uma longa e direta experiência das ruas.

Talvez seja isso o que mais impressione. Tomemos a descrição de Caryl Chessman, por exemplo. (Quem sabe, os mais velhos consigam se lembrar dele, já que durante uma época, entre as décadas de 60, 70, seus livros fizeram muito sucesso no mundo inteiro, principalmente no Brasil; atualmente, está esquecido). Chessman foi um criminoso que durante muitos anos viveu pelo corredor da morte; muito inteligente, advogou em causa própria, e escreveu na prisão vários livros autobiográficos, nunca negando seu passado de contravenções, mas sempre negando as acusações piores de estupro e de assassinatos em série. Bunker lembra de ter cruzado com ele e trocado algumas palavras, e o que poderia ser uma elegia de um grande homem injustiçado ou uma ode ao homem famoso ou um repúdio por atos nojentos ou até mesmo admiração por seus feitos corajosos, torna-se uma simples descrição rápida de uma pessoa respeitada pela sua capacidade de sobreviver. E pronto. Bunker ainda levanta sua opinião de que Chessman era inocente das acusações que, por final, o levaram à câmara de gás depois de doze anos de luta nos tribunais. Ou melhor, ele não faz uma defesa de sua inocência; ele simplesmente acha difícil acreditar que aquela pessoa teria cometido aqueles atos. Por outro lado, deixa bem claro que não coloca a mão no fogo por ninguém. Poderia até ficar surpreso se soubesse com certeza de que Chessman fosse mesmo o estuprador, tal como diziam. Mas de forma alguma chocado.

Ao longo do seu relato, é esta sobriedade que predomina. Ao contar momentos mais escabrosos ou idílicos (sim, eles existem) ou até alguns cômicos (como quando consegue um emprego de chofer sem saber dirigir direito), não há exaltações, nem pelo divino nem pelo infernal. E é desta forma que ele se torna ainda mais impactante, pois no final tudo fica mais significante e adquire um contexto ainda mais forte. Sem moralismos, sem pré-convenções. Não precisa bradar moralismo. Não precisa intensificar as emoções. Basta narrar o que aconteceu.

E Edward Bunker, o antigo detento e criminoso, roteirista, ator e escritor, morto em 2005 aos 71 anos, era um grande narrador.

Nada mais apropriado que “Educação de um bandido” seja publicado pela Barracuda, já que duas das maiores obras de Bunker, “Cão come cão” e “Nem os mais ferozes” (entre várias outras) estão no seu catálogo. Para se ligar e para os que sabem que romances policiais podem ser muito mais do que uma simples diversão. E não querem perder tempo como eu perdi.

texto revisto e atualizado, publicado originalmente pelo iGLer.

Explore posts in the same categories: Literatura

Tags: , , , ,

You can comment below, or link to this permanent URL from your own site.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s